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Editorial
Ao vencedor, as batatas?
| Kenneth R. de Camargo Jr. |
Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
(Machado de Assis, Quincas Borba)
Em 1968, Robert Merton descreveu um aspecto peculiar da sociabilidade
científica, que denomina “efeito Mateus”:1 “O efeito Mateus consiste na
acumulação de maiores incrementos de reconhecimento por contribuições científicas particulares para cientistas de reputação considerável e a retenção de tal reconhecimento para cientistas que ainda não deixaram sua marca” (MERTON, 1968, p. 58).
O efeito Mateus revela a penetração de uma lógica capitalista no interior do suposto comunalismo – também descrito por Merton – do mundo da ciência. Capital simbólico decorrente de disputas por poder, como afirma Bourdieu (1975), mas também “capital capital”, recursos concretos para o financiamento de instituições e de suas pesquisas, na versão institucional do efeito Mateus: “Isto
1 A denominação adotada por Merton é uma referência a um texto bíblico (Mateus 13:12 “Ao que
tem, se lhe dará e terá em abundância, mas ao que não tem será tirado até mesmo o que tem”).
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é expresso no princípio da vantagem cumulativa que opera em muitos sistemas de estratificação social para produzir o mesmo resultado: os ricos se tornam mais ricos a uma taxa que faz os pobres tornarem-se relativamente mais pobres” (MERTON, 1968, p. 62).
A concentração de várias formas de capital – e, portanto, de poder – também coloca em questão a versão ingênua da “meritocracia” segundo a qual existiriam formas “neutras” de estabelecer hierarquias no campo científico, ainda seguindo Bourdieu. Para um campo como a Saúde Coletiva, que assume explicitamente ideias de equidade e justiça social como valores estruturantes essa não é, portanto, uma questão trivial. Ainda que reconhecendo as dificuldades do financiamento da atividade científica, não nos é possível aceitar acriticamente a imagem de um jogo de soma zero, como magistralmente descrita por Machado de Assis na epígrafe deste texto. Temos o duplo ônus de manter uma vigilância crítica sobre os mecanismos supostamente “neutros” e “científicos” de atribuição de valor à ciência, e buscar alternativas solidárias aos modelos “mateusianos” de distribuição de recursos, ainda que escassos.
Sendo a publicação científica parte fundamental do campo, essas considerações se aplicam igualmente a ela. O periódico científico, veneranda instituição que completa este ano 350 anos de história, transformou-se ao longo das últimas décadas numa cobiçada mercadoria, motor de um setor econômico de alta lucratividade e baixo risco. O que parecia ser uma ameaça ao modelo tradicional – o periódico de acesso aberto – foi rapidamente assimilado pelo sistema, quer pela adoção de taxas para colocação de artigos em periódicos tradicionais em acesso irrestrito, quer pela incorporação, por grandes editoras, de portais de periódicos de acesso aberto, como a aquisição do portal BioMed Central pela Springer, ou da Frontiers pelo grupo Nature. Ao mesmo tempo, houve uma proliferação
descontrolada dos chamados “publishers predatórios”, portais de acesso aberto
nos quais o pagamento da taxa de publicação é garantia da aceitação do artigo. A real alteração trazida por esses movimentos foi, ao invés de um tensionamento do próprio modelo econômico da publicação, um deslocamento do ônus do financiamento do processo para os produtores de conteúdo, isto é, os autores.
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substituídos pelo gasto com a infraestrutura de armazenagem e distribuição eletrônica dos periódicos. No caso de editoras privadas, há ainda a margem de lucro da operação, que tem se mostrado entre as mais elevadas entre vários ramos industriais. A questão óbvia que se impõe é: quem paga a conta? Ao transferir parcial ou totalmente a responsabilidade pelo financiamento de periódicos para os autores, o modelo que está se tornando hegemônico no acesso aberto reforça ainda mais o efeito Mateus. Os valores cobrados por revistas de acesso aberto de primeira linha são proibitivos para pesquisadores iniciantes, e provavelmente inflacionarão ainda mais as “autorias honorárias”, já que não basta encontrar recursos para financiar as pesquisas, mas também sua publicação, o que pode forçar a formação de verdadeiros “consórcios” de autores para diluir os custos, e em especial em associação com autores com maior capital acumulado.
O CNPq, assim como algumas fundações estaduais de apoio à pesquisa, dispõe de linha específica para financiamento de periódicos, mas com recursos irrisórios, se comparados ao total dos gastos com Ciência, Tecnologia e Inovação. Iniciativas em curso visando ao “aumento da visibilidade” dos periódicos nacionais não parecem levar em consideração os riscos da concentração cada vez maior de recursos e poder na mão de cada vez menos periódicos, instituições e pesquisadores. A divulgação da ciência é parte fundamental do próprio fazer científico; seu financiamento deveria ser contemplado pelo setor público, em especial na área de saúde, na qual conflitos de interesse têm historicamente comprometido a qualidade e a credibilidade das publicações e do próprio conhecimento biomédico (SMITH, 2006).
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