UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO MARCELLA PIRES RIBEIRO

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

MARCELLA PIRES RIBEIRO

REVENGE PORN: UMA FACETA DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO E SEU

ENQUADRAMENTO ANTES E APÓS O ADVENTO DA LEI FEDERAL N.º 13.718/2018

VOLTA REDONDA - RJ 2019

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MARCELLA PIRES RIBEIRO

REVENGE PORN: UMA FACETA DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO E SEU

ENQUADRAMENTO ANTES E APÓS O ADVENTO DA LEI FEDERAL N.º 13.718/2018

Monografia Jurídica apresentada ao Curso de Direito do Instituto de Ciências Humanas e Sociais de Volta Redonda, pertencente à Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador:

Carlos Eduardo Cunha Martins Silva

VOLTA REDONDA - RJ 2019

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MARCELLA PIRES RIBEIRO

REVENGE PORN: UMA FACETA DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO E SEU

ENQUADRAMENTO ANTES E APÓS O ADVENTO DA LEI FEDERAL N.º 13.718/2018

Monografia Jurídica apresentada ao Curso de Direito do Instituto de Ciências Humanas e Sociais de Volta Redonda, pertencente à Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

Aprovada em 11 de dezembro de 2019.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Ms. Carlos Eduardo Cunha Martins Silva (Universidade Federal Fluminense) Orientador

Prof.ª Drª Carla Appollinario de Castro (Universidade Federal Fluminense) Examinadora

Prof.ª Ms. Anna Cecília Faro Bonan (Universidade Federal Fluminense) Examinadora

Prof.ª Flaiza Sampaio Silva Examinadora

VOLTA REDONDA – RJ 2019

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“A melhor maneira de cultivarmos a coragem nas nossas filhas e em outras jovens é sendo um exemplo. Se elas virem as suas mães e outras mulheres nas suas vidas seguindo em frente apesar do medo, elas vão saber que é possível.”

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Aos meus pais, que sempre foram minha maior motivação ao caminhar pela vida.

Ao meu namorado, que esteve ao meu lado em todo processo de construção da mulher que eu me tornei e busco me tornar.

Às minhas amigas, quer foram apoio e incentivo em cada momento da graduação.

À professora Anna Cecília Faro Bonan, por seu auxílio no início do presente trabalho.

Ao meu professor-orientador, Carlos Eduardo Martins, pelo suporte e estímulo dados durante o processo de conclusão deste trabalho, não me deixando desistir.

A todas as mulheres que, a todo momento, são potenciais vítimas de violência em nossa sociedade.

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RESUMO

Revenge porn. Talvez muita gente se pergunte o que significa o termo em questão: Vingança?

Pornografia? Pornografia de vingança? O presente trabalho busca adentrar em um tema pouco explorado, mas que possui uma grande relevância jurídico-social. A prática da pornografia de vingança se tornou mais comum desde que as mídias sociais ganharam espaço nos relacionamentos e na forma de trocar informações. Sendo assim, o trabalho tem como objetivo, em um primeiro momento, analisar o conceito e o breve histórico do termo, perpassando pelo avanço tecnológico que possibilitou uma disseminação desenfreada de conteúdos e, entre eles, o material íntimo não autorizado do revenge porn. Após, traz uma análise acerca do tratamento jurídico da pornografia de vingança que, até 2018, havia uma lacuna legislativa no ordenamento jurídico brasileiro, que não abarcava a conduta de divulgar material íntimo sem consentimento por motivo de vingança e ensejava a aplicação de inúmeros dispositivos legais. Já a partir de 2018, com a criação da Lei Federal n.º 13.718, a pornografia de vingança passou a ser tratada como uma causa de aumento de pena do novo artigo 218-C do Código Penal. Por fim, o trabalho trata da pornografia de vingança como uma espécie de violência de gênero, por ser um crime praticado em sua maior parte contra mulheres e, inclusive, no âmbito doméstico, visto que os agressores normalmente são ex-parceiros ou pessoas que mantiveram algum relacionamento afetivo com a vítima. Além disso, é um crime que corrobora a cultura do estupro existente na sociedade, pois a vítima de revenge porn é rechaçada pela exposição, culpabilizada por sua sexualidade e violada ao exercer direitos constitucionais.

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ABSTRACT

Revenge porn. Many people may wonder what the term in question means: Revenge? Pornography? Revenge porn? The present work seeks to enter into a theme little explored, but which has a great legal-social relevance. The practice of revenge porn has become more common since social media gained ground in relationships and the way information was exchanged. Thus, the work aims, at a first moment, to analyze the concept and the brief history of the term, passing through the technological advance that allowed the unbridled dissemination of contents and, among them, the unauthorized intimate material of revenge porn. After, it brings an analysis about the legal treatment of revenge pornography that, until 2018, there was a legislative gap in the Brazilian legal system, which did not cover the conduct of disclosing intimate material without consent for revenge and led to the application of numerous legal provisions. As of 2018, with the creation of Federal Law No. 13,718, revenge pornography was treated as a cause of increased punishment of the new Article 218-C of the Penal Code. Finally, the work treats revenge pornography as a kind of gender-based violence, as it is a crime that is mostly committed against women and even domestically, since the perpetrators are usually former partners or people who have kept them some affective relationship with the victim. In addition, it is a crime that supports the culture of rape in society, as the victim of revenge porn is rejected by exposure, blamed for her sexuality, and violated by exercising constitutional rights.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Campanha de Conscientização...27 Figura 2 - Relação Agressor com a Vítima...53 Figura 3 - Caso Julia Rebeca...57

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ... 11

2. REVENGE PORN E INTERNET ... 13

2.1 CONCEITO E BREVE HISTÓRICO DO TERMO ... 13

2.2 A INTERNET COMO MEIO DE DIVULGAÇÃO ... 17

2.2.1 A sociedade da informação ... 18

2.2.2 O uso das redes e das ferramentas de comunicação instantânea ... 19

2.2.3 O consumo de pornografia nas redes ... 21

2.2.4 As redes contra o Revenge Porn ... 23

2.3 DIREITO E SOCIEDADE DIGITAL ... 27

3. A TIPIFICAÇÃO DA PORNOGRAFIA DE VINGANÇA ANTES E APÓS A LEI FEDERAL N.º 13.718/18 ... 29

3.1 ANTES DA LEI FEDERAL N.º 13.718/18 ... 29

3.1.1 Tipificação de crime contra a honra ... 30

3.1.1.1 Difamação ... 30

3.1.1.2 Injúria ... 32

3.1.2 Enquadramento em ameaça (art. 147, CP) ou extorsão (art. 158, CP) ... 33

3.1.3 Legislação para além do Código Penal ... 34

3.1.3.1 Lei Federal n.º 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ... 34

3.1.3.2 Lei Federal N.º 11.340/06 – Lei Maria da Penha ... 35

3.1.3.3 Lei Federal N.º 12.737/12 – Lei “Carolina Dieckmann”... 37

3.1.3.4 Lei Federal N.º 12.965/14 – Marco Civil da Internet ... 38

3.2 A LEI FEDERAL N.º 13.718/18 E A INSERÇÃO DO ARTIGO 218-C NO CÓDIGO PENAL ... 39

3.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE O ARTIGO 218-C E SUA MAJORANTE ... 42

4. VIOLÊNCIA DE GÊNERO E REVENGE PORN ... 46

4.1 SEXUALIDADE E DUALIDADE DE GÊNERO ... 47

4.2 O JULGAMENTO MORAL NA SOCIEDADE DA CULTURA DO ESTUPRO ... 49

4.3 A EXPOSIÇÃO NÃO CONSENTIDA COMO FORMA DE VIOLÊNCIA DE GÊNERO ... 51

4.4 AS CONSEQUÊNCIAS DO REVENGE PORN PARA A VÍTIMA ... 54

5. CONCLUSÃO ... 59

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1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como principal escopo analisar o fenômeno do revenge porn1 como uma forma de violência de gênero e seu enquadramento no ordenamento jurídico brasileiro.

O referido fenômeno ganhou força com a expansão tecnológica, que culminou com o crescente uso das redes sociais e pela rápida produção e circulação de informações. Mudanças significativas na forma de interagir uns com os outros e com as mídias digitais. Dessa forma, as trocas de informações passaram a acontecer no ambiente virtual, inclusive no que tange aos relacionamentos.

Nesse sentido, por ser a internet um local em que as informações são rapidamente disseminadas, mas que a remoção de conteúdo se torna um impasse, delitos informáticos passaram a ocorrer com mais facilidade, incluindo práticas como o revenge porn. Assim, as consequências para a vítima, na maior parte dos casos, vai além da exposição íntima não consentida, abarcando violações a uma série de direitos e, sobretudo, causando consequências quase que perpétuas na vida da vítima, justamente por conta desse ambiente virtual em que não há um controle devido diante dos conteúdos gerados e compartilhados.

O presente trabalho está estruturado em três capítulos. O primeiro capítulo vai tratar do conceito de revenge porn e do breve histórico desse fenômeno. Além disso, vai discorrer sobre a questão da internet, por ser este o principal meio utilizado na execução da pornografia de vingança, e os assuntos que envolvem o âmbito virtual no que tange ao revenge porn.

O segundo capítulo vai analisar a conduta no ordenamento jurídico brasileiro, destacando seu enquadramento antes e após o advento da Lei Federal n.º 13.718/18. Com a

1O conceito de revenge porn ou pornografia de vingançaé ainda carente de delineamento adequado pela doutrina e jurisprudência, a despeito do amplo reconhecimento do alto potencial lesivo da prática para a privacidade e autodeterminação informativa. Um conceito de revenge porn que seja ao mesmo tempo abrangente, preciso e, acima de tudo, focado no respeito à identidade e autonomia da vítima deve considerar a caracterização de quatro elementos: uma mídia efetivamente mostrando uma pessoa ou grupo de pessoas; o sentimento pessoal das pessoas retratadas de que aquele é um momento íntimo; a falta de autorização por parte dessas pessoas para a disseminação; a disseminação intencional dessa mídia online. In: HARTMANN, Ivar A. Regulação da internet e novos desafios

da proteção de direitos constitucionais: o caso do revenge porn. Revista de Informação Legislativa: RIL, v. 55,

n. 219, p. 13-26, jul./set. 2018. Disponível em:

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referida lei, foi criado um novo dispositivo no Código Penal, o art. 218-C, que abarca a conduta de divulgar material íntimo sem consentimento, sendo este o comportamento demonstrado para o revenge porn se concretizar. Nessa esteira, o artigo 218-C tratou especificamente do revanche pornográfico em seu § 1º, trazendo uma causa de aumento de pena quando o delito for cometido com o fim de vingança ou humilhação, característica precípua do fenômeno a ser analisado.

Por fim, o terceiro capítulo vai discorrer sobre a pornografia de vingança como uma forma de violência de gênero, visto que a maior parte das vítimas do delito é mulher. Assim, o

revenge porn se mostra como uma nítida violência contra a mulher, demonstrando a sociedade

machista que trata questões como a pornografia de vingança com estigma, julgando moralmente as vítimas e fazendo com que estas se sintam piores em relação ao cenário de exposição não consentida.

Desse modo, as consequências para a vítima vão além do fato de ter sido exposta em um momento íntimo, causando impactos em todos os campos de sua vida.

O trabalho adotou como principal metodologia a pesquisa bibliográfica, principalmente com a utilização de artigos científicos, trabalhos de conclusão de curso, livros e doutrina. O trabalho tem como preocupação tratar de fatores que expliquem o fenômeno da pornografia de vingança e o contexto em que a prática se insere. Ademais, o trabalho busca realizar um comparativo entre o tratamento jurídico dado à pornografia de vingança antes e após a o advento da Lei Federal n.º 13.718/18, questionando sobre o novo dispositivo legal criado e sua eficácia no futuro diante da prática do fenômeno estudado.

Dessa forma, a problemática do trabalho se encontra no cenário em questão: como a pornografia de vingança pode ser caracterizada como uma faceta da violência de gênero e como a sociedade deve se portar diante de tal fenômeno, para além da criação de uma nova tipificação penal, visto que há um problema estrutural por trás do referido fenômeno.

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2. REVENGE PORN E INTERNET

O presente capítulo tem como objetivo explorar as questões iniciais em relação ao

revenge porn e o contexto em que ela normalmente ocorre. Com o advento da internet e das

novas tecnologias de comunicação e informação (NTIC)2 a sociedade está em constante

mudança e avanço. Nesse sentido, com a crescente utilização da tecnologia, há também o aparecimento de novos delitos e, entre eles, a conduta objeto do trabalho3.

A pornografia de vingança surge, nesse cenário, já que se concretiza no meio virtual, gerando, por isso, inúmeras consequências à vítima em vários setores da vida, como será visto mais adiante.

Dessa forma, para uma melhor compreensão do tema, busca-se analisar o conceito de

revenge porn, o histórico do surgimento do termo, a maneira que a tecnologia contribui para a

exposição da vítima e, por fim, como o Direito busca acompanhar as transformações trazidas pela sociedade digital.

2.1 CONCEITO E BREVE HISTÓRICO DO TERMO

O termo revenge porn, pornografia de vingança na tradução literal, incluindo suas variações – vingança pornográfica, pornografia de revanche e revanche pornográfico – é caracterizado pela divulgação de conteúdo íntimo, seja envolvendo imagens, áudios ou vídeos, sem o consentimento da vítima e com o auxílio da tecnologia. Além disso, a exposição tem como objetivo causar humilhação e constrangimento na pessoa exposta devido a um sentimento de vingança que motiva o agressor a cometer o ilícito.

2As Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) são as tecnologias e métodos utilizados para trocar informações e se comunicar surgidos no contexto da Revolução Informacional, ou Terceira Revolução Industrial. Na atualidade, ocupam um lugar de destaque na vida do ser humano, constituindo-se na estrutura dos sistemas de comunicação. Foram desenvolvidas gradativamente desde a segunda metade da década de 1970 e, principalmente, nos anos 1990. Considera-se que o advento destas novas tecnologias contribuiu com o surgimento da chamada "sociedade da informação". As NTIC englobam os smartphones, as redes sociais e demais plataformas de comunicação e compartilhamento de conteúdo, sobretudo via acesso móvel à internet. In: RAMALHO, Nielma Carla de Alencar. A utilização das novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC) na educação. REBES – Revista Brasileira de Educação e Saúde. Disponível em: <https://www.gvaa.com.br/revista/index.php/REBES/article/view/1966/1558>. Acesso em 10 set. 2019.

3 VIEIRA, Mariana Ribeiro. Direito Penal e Feminismo: A criminalização da revenge porn à luz da influência

dos movimentos sociais e do direito comparado. 2016. 40 f. Trabalho de Conclusão de Curso – UFJF,

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Esse sentimento de vingança, diante da conduta, se dá visto que a maior parte das vítimas são mulheres e os agressores costumam ser pessoas que já tiveram algum tipo de relacionamento ou vínculo afetivo com a vítima, mesmo que por um curto espaço de tempo.

Diante dessa questão, discorre Vanessa Lima Alves:

É certo que o delito tratado neste trabalho pode ter como sujeito passivo tanto homens como mulheres, no entanto, os números demonstram uma maior incidência contra o sexo feminino, justamente por conta de sua posição social e pela força que a degradação moral da mulher representa como forma de represália4.

Assim, diz-se pornografia de vingança, pois o ato é praticado como forma de retaliação ao sujeito exposto no material publicado, seja pelo término do relacionamento ou por outro conflito que se estabeleceu entre a vítima e o agressor, ensejando a publicidade da intimidade como forma de vingança.

Não se enquadra, portanto, no contexto de revanche pornográfico a mera exposição sem a finalidade de retaliação ou vingança. A conduta citada, no entanto, possui também conotação criminosa, mas em outro enquadramento.

Nesse sentido, a pornografia de vingança possui características que podem ser destacadas:

➢ A exposição íntima se dá sem o consentimento da vítima, pois, mesmo que a mídia tenha sido realizada com consentimento, a divulgação do conteúdo acontece de forma não autorizada, visto que a intimidade da vítima é exposta com fins de humilhação;

➢ A divulgação da mídia acontece com o auxílio da tecnologia, fazendo com que o conteúdo seja facilmente exposto a uma infinidade de usuários nas redes;

4ALVES, Vanessa Lima. Pornografia de vingança: aspectos normativos e necessidade de tipificação. 2017. Monografia jurídica – Centro Universitário Antônio Eufrásio de Toledo, São Paulo, 2017.

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➢ A vingança que move a prática do crime, ou seja, não basta o agressor apenas divulgar o conteúdo por querer divulgar, sendo a intenção de causar retaliação à vítima necessária; sendo assim, o sentimento de vingança tem que estar presente como motivação.

Em relação ao histórico, apesar do termo revenge porn ser caracterizado como um termo recente, a prática da pornografia de vingança já acontecia no mundo virtual e, até mesmo, em um momento anterior ao crescente uso da internet e das redes sociais.

Dessa forma, as raízes da exposição sexual não consentida se encontram em meados da década de 80. Nessa época, uma famosa revista pornográfica americana chamada Hustler, de propriedade de Larry Flint, lançou uma sessão na qual era publicado conteúdo íntimo amador por parte de leitores, a princípio, consensualmente. Nessa sessão, denominada Beavers Hunt, a publicação era realizada pelos próprios internautas. A editora da revista, entretanto, não se empenhava em assegurar que as fotografias eram realmente enviadas para publicação de forma consentida5.

Assim, ocorreu o primeiro caso de pornografia de vingança, envolvendo o casal americano La Juan e Billy Wood, que se fotografaram nus em um acampamento6. O casal deixou o conteúdo em uma gaveta de casa, de forma que terceiros não tivessem acesso. Apesar disso, Steve Simpson, vizinho do casal, invadiu o quarto e, acessando as fotos, decidiu publicá-las sem o consentimento do casal na referida revista. Para a publicação do material, o leitor preenchia uma ficha, com dados da vida e até mesmo sobre preferências sexuais de quem era exposto.

Posto isso, muitas leitoras passaram a processar a revista ao ter seu corpo e dados expostos sem o seu consentimento, demonstrando que a figura do revenge porn é realmente mais antiga.

5SANTOS, João Pedro Vieira dos. Novas Formas de Violência Doméstica contra a Mulher na Era Digital:

Aspectos Jurídicos-Penais do Revenge Porn. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso – UFRGS, Universidade

Federal do Rio Grande do Sul, 2016. 96 f.

6MORTÁGUA, Marilise Gomes. As Genis do século XXI: Análise de casos de pornografia de vingança

através das redes sociais. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em:

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“Em 2000, o pesquisador italiano Sergio Messina percebeu como crescente em grupos de fóruns da Usenet, uma das redes pioneiras de comunicação por computador, um tipo de pornografia nomeada por ele de “realcore”, que eram fotos e vídeos de ex-namoradas compartilhados entre os usuários. Em outubro de 2007, “revenge porn” passou a integrar o dicionário colaborativo Urban Dictionary7, popular nos Estados Unidos”8.

Nesse mesmo contexto, em meados de 2008, o portal XTube – website que reúne conteúdo pornográfico – informou que recebia de duas a três reclamações semanais de mulheres que eram expostas sem autorização. Para que esse tipo de reclamação não acontecesse, foram criados sites especializados em revenge porn, tais como realexgirlfriends.com e

iknowthatgirl.com.9

Em 2010, ocorreu a primeira prisão decorrente de pornografia de vingança na Nova Zelândia. Joshua Ashby, na época um jovem de 20 anos, postou no perfil do Facebook de sua namorada, uma foto dela nua em frente ao espelho e mudou a senha, para que a foto não pudesse ser imediatamente excluída por ela. Joshua foi condenado a um ano de prisão, sendo quatro meses pela divulgação da foto de maneira pública e os outros seis por ter ameaçado a vítima por mensagens de textos com conteúdo agressivo antes da postagem10.

No mesmo ano, o termo revenge porn ganhou relevância internacional quando foi inaugurado o website conhecido como IsAnyoneUp.com criado pelo estadunidense Hunter Moore, que inclusive se autointitulava “rei” do revenge porn11. O website era uma espécie de serviço pornográfico online, alimentado por conteúdo gerado pelos usuários. Assim, permitia que os usuários enviassem fotos e vídeos íntimos anonimamente, contribuindo para o compartilhamento ilegal de conteúdo pornográfico tendo como motivação a vingança.

Hunter Moore, idealizador do referido website, passou a ser conhecido como “o homem mais odiado da internet” devido aos inúmeros casos de mulheres expostas ao constrangimento,

7REVENGE PORN. In: Urban Dictionary. Disponível em:

<http://pt.urbandictionary.com/define.php?term=revenge%20porn>. Acesso em 15 set. 2019. 8Op. Cit. MORTÁGUA, Marilise Gomes. 2014.

9Idem.

10JILTED lover makes legal history ashby jailed for posting naked picture of ex-girlfriend on Facebook. Daily

Mail, United Kingdom, 16 nov. 2010. Disponível em: <http://www.dailymail.co.uk/news/article-1329812/Joshua-Ashby-Facebook-user-jailed-posting-naked-picture-ex-girlfriend.html>. Acesso em 18 set. 2019.

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seja por meio de suas postagens ou por seu hábito de provocar as vítimas com declarações polêmicas12. Ao ser entrevistado pela revista Rolling Stone americana, Moore contou que o site lucrava em torno de dez mil dólares por mês, com uma média de 30 milhões de visualizações mensais, tornando-se mundialmente conhecido13. Cantoras, atrizes e diversas mulheres anônimas – inclusive portadoras de necessidades especiais – tiveram sua intimidade violada em fotos, que chegavam a 30 publicadas diariamente14.

Diante do exposto, é perceptível que a prática da pornografia de vingança é anterior ao crescente uso da internet, não se limitando a ela. Entretanto, o avanço tecnológico e das mídias sociais aumentou a incidência da exposição íntima não consensual, visto que a disseminação de conteúdo nesse ambiente é maior e mais rápida e a remoção de conteúdo se torna mais difícil devido a esse compartilhamento em massa.

2.2 A INTERNET COMO MEIO DE DIVULGAÇÃO

O advento da internet assim como das novas ferramentas de comunicação trazidas pela globalização – podendo-se destacar os smartphones – contribuiu para que as redes sociais ganhassem força. Da mesma forma, os crimes cibernéticos, aqueles em que o criminoso se utiliza de um computador, de uma rede ou de algum dispositivo de hardware para executar a conduta15, passaram a ser mais comuns. Entre os crimes que ocorrem no meio virtual está a vingança pornográfica.

A origem da internet remonta ao ápice da “guerra fria”, em meados dos anos 60, nos Estados Unidos16. Nos anos 90, passou por um processo de expansão sem precedentes, culminando na sociedade digital dos dias atuais.

12GUARINI, Drew. Hunter Moore, IsAnyoneUp? founder, says new website will be “scariest on the internet”.

The Huffington Post, United States of America, 24 aug. 2012. Disponível em:

<https://www.huffpostbrasil.com/2012/08/23/hated-internet-star-hunte_n_1826061.html?ri18n=true>. Acesso em 18 set. 2019.

13MORRIS, Alex. Hunter Moore: the most hated man on the internet. The Rolling Stone, United States of

America, 13 nov. 2012. Disponível em: <http://www.rollingstone.com/culture/news/the-most-hated-man-on-the-internet-20121113>. Acesso em 20 set. 2019.

14Op. Cit. MORTÁGUA, Marilise Gomes. 2014. 15Op. Cit. VIEIRA, Mariana Ribeiro. 2016.

16PINHEIRO, Patrícia Peck. Direito Digital. 6ª ed. São Paulo: Saraiva, 2016. Disponível em:

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2.2.1 A sociedade da informação

A sociedade da informação seria regida por dois relógios: um analógico e um digital. O relógio analógico seria aquele cuja agenda segue um tempo físico, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. O relógio digital seria aquele cuja agenda segue um tempo virtual, que extrapola os limites das horas do dia, acumulando uma série de ações que devem ser realizadas simultaneamente. Sendo assim, a sociedade da informação exige que, cada vez mais, seus participantes executem mais tarefas, acessem mais informações, rompendo os limites de fusos horários e distâncias físicas (...)17.

O trecho acima, referente à Pinheiro, ilustra características da chamada sociedade da informação, que tem suas origens na expansão dos veículos de comunicação no século XX18, como será visto.

A expressão “sociedade da informação” aparece em “O Advento da Sociedade pós-industrial”, do sociólogo estadunidense Daniel Bell. Para o referido autor, os serviços, assim como a estrutura central da nova economia, teriam como base a informação e o conhecimento no novo cenário. Nesse sentido, as ideologias passariam para o segundo plano, enquanto a sociedade se sustentaria na informação, passando o conhecimento teórico a ser a nova válvula da economia. Assim, Daniel Bell introduziu a noção de Sociedade da Informação19.

A expressão ressurge com força na década de 90, com o desenvolvimento cada vez maior da internet e dos meios de comunicação de massa. Dessa forma, o conceito por trás da sociedade da informação buscou compreender o que vinha ocorrendo no mundo globalizado. Pode-se dizer que a televisão, a telefonia e a Internet são as principais responsáveis pelo advento dessa sociedade. Ademais, adquirir, armazenar, processar e disseminar informações passou a ser funções básicas na sociedade digital20.

TAL.+6.ed.+S%C3%A3o+Paulo:+Saraiva,+2016.&ots=y8FEZ77dX9&sig=gQlH01kjJJdlNJAFQYHsy6mzjJc# v=onepage&q&f=false>. Acesso em 29 set. 2019.

17Idem. 18Idem.

19BERTERO, José Flávio. Sobre a Sociedade Pós-Industrial. Departamento de Ciências Sociais da Universidade

Estadual de Londrina. Disponível em:

<https://www.unicamp.br/cemarx/ANAIS%20IV%20COLOQUIO/comunica%E7%F5es/GT3/gt3m2c4.pdf>. Acesso em 06 set. 2019.

20DIANA, Daniela. Sociedade da Informação. Toda Matéria: conteúdo escolares. 26 de dez. 2018. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/sociedade-da-informacao/>. Acesso em 18 set. 2019.

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O avanço tecnológico, portanto, trouxe uma mudança na mentalidade, uma mudança na comunicação, uma mudança na forma de se relacionar. Diante disso, entende Pinheiro:

Essa nova era traz transformações em vários segmentos da sociedade – não apenas transformações tecnológicas, mas mudanças de conceitos, métodos de trabalho e estruturas. O Direito também é influenciado por essa nova realidade. A dinâmica da era da informação exige uma mudança mais profunda na própria forma como o Direito é exercido e pensado em sua prática cotidiana21.

A evolução digital trouxe consigo inúmeras transformações e, em relação ao Direito, não seria diferente, surgindo junto da sociedade da informação a necessidade de atender as demandas provenientes da internet e de seu uso. Nessa esteira, encontra-se a pornografia de vingança, pois é no âmbito virtual que se dá sua ocorrência.

2.2.2 O uso das redes e das ferramentas de comunicação instantânea

A tecnologia assume um papel de relevância em todos os segmentos da sociedade, permitindo o entendimento da nova estrutura social e, consequentemente, de uma nova economia baseada na informação. As redes e as ferramentas de comunicação instantânea passam a ser fundamentais e indispensáveis para a manipulação da informação assim como na construção do conhecimento pela sociedade como um todo, visto que a geração, o processamento e a transmissão de informação tornam-se a principal fonte de produtividade e poder22.

Sendo assim, o uso das redes e das chamadas NTIC ocupa um lugar essencial na vida do ser humano na atualidade, visto que compõe a estrutura do sistema de comunicação. Foram, e ainda são responsáveis pelas diversas transformações que ocorreram na vida em sociedade nos diferentes tipos de relações, seja no trabalho, na escola, ou no lazer.

Conforme Pinheiro:

A sociedade humana vive em constante mudança: mudamos da pedra talhada ao papel, da pena com tinta ao tipógrafo, do código Morse à localização por Global Positioning System (GPS), da carta ao e-mail, do telegrama à videoconferência. Se a velocidade

21Op. Cit. PINHEIRO, Patrícia Peck. 2016.

22CASTELLS, Manuel. A Era da Informação: economia, sociedade e cultura, vol. 3. São Paulo: Paz e terra. 1999. P. 21.

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com que as informações circulam hoje cresce cada vez mais, a velocidade com que os meios pelos quais essa informação circula e evolui também é espantosa23.

Assim, pode-se entender que “a Internet é mais que um simples meio de comunicação eletrônica, formada não apenas por uma rede mundial de computadores, mas, principalmente, por uma rede mundial de Indivíduos” 24. Isso demonstra o alcance das redes e a facilidade com que uma informação é disseminada no ambiente virtual.

No entanto, ao mesmo tempo em que o crescente uso tecnológico contribuiu com uma série de benefícios sociais, trouxe outras questões a serem levantadas. Além da desigualdade social, visto que há uma gama de pessoas ainda sem acesso à tecnologia, o aumento da informatização levou ao surgimento de novos delitos, os crimes cibernéticos ou virtuais. Tais crimes são caracterizados por condutas “típicas, antijurídicas e culpáveis praticadas contra ou com a utilização dos sistemas da informática” 25.

Segundo o dossiê trazido pelo Mapa da Violência contra a Mulher de 2018, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), divulgada em fevereiro de 2018 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2016 o Brasil tinha 116 milhões de pessoas conectadas à internet, o que equivale a 64,7% da população com idade acima de 10 anos. Nesse cenário de inclusão digital, a violência contra a mulher se estendeu e se potencializou nas plataformas online de forma sem precedentes26.

Desse modo, a crescente utilização de redes sociais como meio de se relacionar trouxe novos modos de convívio. As mídias, então, passaram a ser cada vez mais comuns em um relacionamento em que a troca de informações é constante por meio da internet. Instagram,

WhatsApp, Snapchat, Facebook, Tinder são exemplos de aplicativos e redes sociais em que

muitos relacionamentos são firmados, ou seus laços estreitados. Assim, mídias passaram a ser utilizadas como meios de se relacionar e o conteúdo gerado é, muitas vezes, íntimo, contando com a confiança das partes envolvidas.

23Op. Cit. PINHEIRO, Patricia Peck. 2016. 24Idem.

25SCHMIDT, Guilherme. Crimes Cibernéticos. Jusbrasil. 2014. Disponível em: < http://gschmidtadv.jusbrasil.com.br/artigos/149726370/crimes-ciberneticos>. Acesso em 20 set. 2019.

26CÂMARA DOS DEPUTADOS. 55ª Legislatura – 4ª Sessão Legislativa. Mapa da Violência Contra a Mulher. Brasil, 2018. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-

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Diante do referido contexto, em que a novas ferramentas de comunicação interpessoal introduziram formas instantâneas de relacionamentos, a prática de delitos como o revanche pornográfico ganhou vida.

Dessa forma, assevera Pinheiro:

O Direito em si não consegue acompanhar o frenético avanço proporcionado pelas novas tecnologias, em especial a Internet, e é justamente neste ambiente livre e totalmente sem fronteiras que se desenvolveu uma nova modalidade de crimes, uma criminalidade virtual, desenvolvida por agentes que se aproveitam da possibilidade de anonimato e da ausência de regras na rede mundial de computadores27.

Desta maneira, mudanças significativas na forma de interagir e se relacionar uns com os outros através das mídias sociais contribuiu para a prática do revenge porn, assim como de outros delitos virtuais, demonstrando que um conteúdo íntimo, mesmo gravado com consentimento, pode vir a se tornar uma forma de violência quando deslocado de contexto, transformando-se em constrangimento à pessoa exposta.

2.2.3 O consumo de pornografia nas redes

Há uma série de questões que elucidam o papel da pornografia nas redes e como ela é consumida por grande parte dos usuários. Segundo Parreiras, há um vínculo indissociável entre o mundo digital e conteúdo pornográfico, corroborando que grande parte dos acessos se dá para o consumo desse tipo de conteúdo28.

A partir dos anos 90, o sexo passa a ser reconhecido como um lugar de lazer e consumo29, assim como a pornografia se torna cada vez mais visível e acessível. Nesse sentido:

27PINHEIRO, Emeline Piva. Crimes Virtuais: uma análise da criminalidade informática e da resposta estatal. Monografia – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul. 2006. Disponível em:

<https://egov.ufsc.br/portal/conteudo/crimes-virtuais-uma-an%C3%A1lise-da-criminalidade-inform%C3%A1tica-e-da-resposta-estatal-0>. Acesso em 20 set. 2019.

28PARREIRAS, Carolina. 'Altporn', corpos, categorias, espaços e redes: um estudo etnográfico sobre

pornografia online. 2015. 247 p. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e

Ciências Humanas, Campinas, SP. Disponível em:

<http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/281206>. Acesso em 22 set. 2019. 29Idem.

(22)

Um fator importante neste aumento da visibilidade e acessibilidade da pornografia são as novas tecnologias e mídias digitais. É ponto comum, na bibliografia que trata de pornografia e internet, o reconhecimento de que o pornô sempre foi pioneiro em se apropriar de novas tecnologias e novos lugares. Foi assim com o VHS, quando a pornografia sai dos cinemas específicos para este fim e adentra o ambiente privado das casas, e mais recentemente, com o uso da internet para veiculação, venda e produção. Johnson (1997) advoga que o universo do entretenimento adulto sempre foi uma plataforma de testes para a indústria de tecnologia30.

Com a expansão das redes e a intensificação das mídias sociais, a pornografia ganha um espaço que até então era limitado. As tecnologias digitais permitem que o conteúdo pornográfico seja produzido de uma nova maneira assim como outros locais para sua idealização e circulação. Desse modo, “diz-se que o online possibilita a proliferação de nichos e tipos de pornografia, criando particularidades neste processo e aumentando as formas de produção, propaganda, consumo e interação” 31.

Assim, podem ser identificados, pelo menos, dois tipos distintos e principais de pornografia na rede: o porn on the net e o net porn. O primeiro diz respeito ao conteúdo pornográfico geralmente produzido pela indústria pornográfica, ou seja, disponibilizado nas redes, mas não produzido especialmente para a internet. Já o segundo tipo, se refere ao material pornográfico envolvendo a própria plataforma online, englobando a chamada pornografia alternativa – altporn – e a pornografia feita por amadores, sendo que, nesta última, pode estar presente o revenge porn. Isso porque é na pornografia amadora que, muitas vezes, encontra-se material íntimo publicado sem consentimento devido a relacionamentos anteriores em que houve um término conturbado, contexto em que se insere a vingança pornográfica32.

O conteúdo veiculado na internet nem sempre sofre uma limitação, o que faz com que pornografia não consentida, assim como a pedofilia e a pirataria estejam presentes. Há, portanto, um potencial no avanço tecnológico que se torna perigoso. As redes são utilizadas, cada vez mais, como meio de praticar condutas ilícitas e o controle do material disseminado e a punição diante das condutas não acompanha a realidade.

30Idem. 31Idem. 32Idem.

(23)

No que tange à pornografia de vingança, objeto central do presente trabalho, ela aparece como um elemento da tríplice fronteira entre violência, internet e pornografia33, sendo sua prática uma das formas de disseminação da violência de gênero comum no ambiente virtual, o que atesta que a internet pode se tornar perigosa para as mulheres.

2.2.4 As redes contra o Revenge Porn

Na esteira contrária, surgiram sites e ONGs com o objetivo de combater a prática do

revenge porn nas redes e prestar auxílio, seja psicológico ou jurídico, às vítimas.

A ONG Marias da Internet34 foi criada por uma jornalista vítima de pornografia de vingança e é um exemplo de combate ao revenge porn na própria rede. Rose Leonel teve suas fotos divulgadas pelo ex-namorado e, dessa forma, decidiu apoiar outras vítimas de crimes virtuais, dedicando esse espaço à orientação jurídica, psicológica e perícia digital a quem sofreu a disseminação indevida de material íntimo35.

No depoimento de Rose Leonel, ela afirma que quando sofreu o crime não havia uma instituição no Brasil que pudesse dar suporte à sua condição de vítima, pois a pessoa exposta sem autorização necessita lidar com a discriminação, com a falta de informação, com o preconceito e ainda com o machismo. A vítima de divulgação de conteúdo íntimo não autorizado é, em suas palavras, “aniquilada”, pois é o “crime de gênero que atinge fatalmente o sexo feminino, a mulher, pela sua condição intrínseca de ser mulher” 36.

Segundo a jornalista, ela foi assassinada e morta moralmente37. Isso mostra como a mulher que foi vítima de pornografia de vingança se sente e como a referida prática é violência de gênero, já que a mulher se sente violentada ao ser exposta sem consentimento.

33LINS, Beatriz Accioly. “Ih, vazou!”: pensando gênero, sexualidade, violência e internet nos debates sobre

a “pornografia de vingança”. Cadernos de Campo – Universidade de São Paulo, São Paulo. 2016. Disponível

em: < https://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/114851/134104>. Acesso em 08 set. 2019. 34MARIAS DA INTERNET. ONG dedicada a orientação jurídica, psicológica e de perícia digital a vítima de

Disseminação Indevida de Material Íntimo. Disponível em: <http://www.mariasdainternet.com.br/>. Acesso

em 11 nov. 2019. 35Idem.

36MARIAS DA INTERNET. Depoimento de Rose Leonel. 2019. Disponível em: <http://www.mariasdainternet.com.br/2019/11/08/marias-da-internet/>. Acesso em 11 nov. 2019.

(24)

Ainda nas palavras de Rose Leonel:

Crimes como esses acabam com a vida da vítima. É um crime que não se apaga. A imagem sempre vai estar na internet, já foi espalhada. Posso te dizer que, depois de passar por isso, a pessoa morre, moralmente e até fisicamente, em casos de adolescentes que não resistem a todo esse julgamento da sociedade, por exemplo. Meu objetivo é dar alento, dar a mão, dizer: 'Olha, eu estou aqui e já passei por isso. Quero ajudá-la a salvar sua vida'38.

Diante disso, a ONG Marias da Internet foi criada no momento em que sua idealizadora passava por um momento delicado após ser exposta na internet. Foi criada, então, com o objetivo de ajudar outras vítimas a buscar justiça, através de um trabalho de consultoria junto de profissionais como advogados, psicólogos e peritos digitais.

Outro exemplo a ser citado é a ONG SaferNet Brasil39, que se consolidou como uma entidade referência nacional no combate aos crimes e violações de direitos humanos no âmbito digital. Por meio do diálogo permanente, a SaferNet Brasil conduz as ações almejando soluções compartilhadas com diversos atores da sociedade civil, da indústria de internet, do Governo Federal, do Ministério Público Federal, do Congresso Nacional e das autoridades policiais.

A referida ONG traz uma espécie de “passo a passo” para ajudar as vítimas de pornografia de vingança a tomar medidas diante da situação de vulnerabilidade causada pela exposição não consentida da intimidade40.

Além disso, a SaferNet Brasil atende pessoas a partir de dois canais: um hotline, que é o espaço voltado para denúncias de crimes cometidos nas redes e um helpline, o serviço de atendimento e aconselhamento a quem sofreu algum tipo de situação de violência na internet.

A ONG já realizou inúmeras pesquisas sobre violência nas redes envolvendo exposição íntima não consentida e alguns dados levantados são relevantes:

38GIMENES, Erick. ‘Fui assassinada’, diz mulher que criou ONG contra ‘vingança pornô’. G1. Maringá, 08 de mar. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/pr/norte-noroeste/noticia/2014/03/fui-assassinada-diz-mulher-que-criou-ong-contra-vinganca-porno.html>. Acesso em 11 nov. 2019.

39SAFERNET. Disponível em: <https://new.safernet.org.br/content/institucional>. Acesso em 18 set. 2019. 40SAFERNET. Passo a passo legal para a vítimas de pornografia de revanche. Disponível em: <https://new.safernet.org.br/content/passo-passo-legal-para-v%C3%ADtimas-de-pornografia-de-revanche>. Acesso em 18 set. 2019.

(25)

➢ Em 2013, 20% dos 2.834 jovens brasileiros entrevistados afirmaram já ter enviado e recebido imagens contendo nudez, e 6% alegaram ter reenviado o material íntimo para outras pessoas41;

➢ Em 2015, a ONG registrou 224 casos de pornografia de vingança, o que indicou um aumento de 120% em relação ao ano anterior42;

➢ Em 2015, 1.862 atendimentos foram realizados no helpline da ONG, sendo que a maior parte dos casos envolvia sexting e exposição íntima43;

➢ A pesquisa concluiu que em 74,5% das vezes a vítima era uma mulher44.

Em 2014, a SaferNet lançou uma campanha mundial contra a divulgação e o compartilhamento de mídias com conteúdo íntimo, principalmente por crianças, adolescentes e jovens nas redes sociais. O cartaz da campanha trazia a seguinte mensagem: “a internet não guarda segredos, mantenha sua intimidade offline” como uma maneira de alertar sobre a importância do tema.

O Projeto Vazou45 é mais um website criado com o objetivo de destrinchar o que é a pornografia de vingança e combatê-la no ambiente virtual. Esse projeto buscou colher informações a partir das experiências das vítimas dos vazamentos não consentidos devido à escassez de dados que dificulta a compreensão do fenômeno. Dessa forma, buscou angariar informações a fim de construir uma referência para pesquisas, uma provocação para discussões e um incentivo ao aprendizado.

Além disso, o Projeto Vazou em parceria com o canal “Ciências Criminais”, website que trata sobre assuntos jurídicos, desenvolveu uma campanha de conscientização com a criação de imagens:

Figura 1 – Campanha de conscientização

41TOMAZ, Kleber. Vítimas de ‘nudeselfie’ e ‘sexting’ na internet dobram no Brasil, diz ONG. G1. São Paulo, 14 abr. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2014/04/vitimas-de-nude-selfie-e-sexting-na-internet-dobram-no-brasil-diz-ong.html>. Acesso em 15 set. 2019.

42VEIGA, Stefanny; CAMPOS, Vivian. Mulheres são as maiores vítimas da “pornografia de vingança”. Campo Grande, 11 dez. 2015. Disponível em: <http://www.primeiranoticia.ufms.br/cidades/quadruplica-numeros-de-denuncias-de-pornografia-de-vinganca/750/>. Acesso em 06 set. 2019.

43Op. Cit. LINS, Beatriz Accioly. 2016. 44Idem.

(26)

Fonte: Projeto Vazou

O projeto realizou uma pesquisa qualitativa, exploratória e explanatória, por meio de um questionário online. O alcance da pesquisa não foi tão grande, contando com 141 respostas válidas, sendo que 84% das pessoas que responderam ao questionário eram mulheres. Outro resultado importante a ser destacado é que em 82% dos casos a vítima possuía algum tipo de relacionamento com o agressor. 44% das vítimas afirmaram ser a vingança o motivo do vazamento. A pesquisa contou ainda com dados sobre o momento após a exposição, indagando o que aconteceu com a vítima ao descobrir o vazamento de material íntimo, sendo estes os efeitos mais citados: ansiedade; isolamento do contato social; depressão; transtorno de estresse pós-traumático; automutilação e pensamentos suicidas; assédio em locais públicos ou no

(27)

próprio ambiente virtual; abandono de escola, curso ou faculdade; mudança de residência; perda ou dificuldades para conseguir emprego; agressões46.

Nesse sentido, a pesquisa realizada pelo Projeto Vazou demonstrou uma violência intrínseca à pornografia de vingança e a forma como a tecnologia potencializa os efeitos dessa prática.

Teve ainda, em 2014, a tentativa de um grupo de meninas em criar um aplicativo de celular com o objetivo de distribuir informação sobre abuso online, diante do chamado

slutshaming após o vazamento de conteúdo íntimo. O aplicativo auxiliaria as vítimas a se

proteger legalmente e se empoderar:

O nosso aplicativo irá falar sobre violência virtual sofrida por mulheres, em especial o vazamento de fotos íntimas, tema urgente a ser tratado. Por isso, pensamos em fazer esse aplicativo, para dar apoio a essas mulheres, levar conhecimento e nos unir. - Camila Ziron, Estela Machado, Hadassa Mussi, Larissa Rodrigues e Letícia Santos, todas no Ensino Médio47.

A ideia de acolher meninas adolescentes vítimas desse tipo de crime em um aplicativo foi inovadora, pois possibilitaria a conversa entre as vítimas, para que se mantivessem informadas sobre como se proteger, assim como o combate ao bullying e à violência virtual48.

2.3 DIREITO E SOCIEDADE DIGITAL

O Direito não é nem deve ser complexo. Deve ser simples e com alto grau de compreensão das relações sociais, estas sim complexas. Quando a sociedade muda, deve o Direito também mudar, evoluir49.

O pensamento transcrito acima demonstra que o Direito deve acompanhar a nova sociedade digital que se formou ao longo dos anos desde o advento da internet e das ferramentas de comunicação. Formas instantâneas de se relacionar, facilidade ao disseminar conteúdo e o

46GRUPO DE ESTUDOS EM CRIMINOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS – PORTO ALEGRE; PROJETO VAZOU. Pesquisa sobre o vazamento não consentido de imagens íntimas no Brasil. 2018. Disponível em: <https://www.projetovazou.com/resultado.pdf>. 10 nov. 2019.

47LOUREIRO, Gabriela. Meninas criam aplicativo para combater o slutshaming. The Huffington Post, 26 jan. 2017. Disponível em: <https://www.huffpostbrasil.com/2014/05/17/meninas-criam-aplicativo-para-combater-o-slut-shaming_a_21669439/>. Acesso em 19 nov. 2019.

48Idem.

(28)

“infinito” alcance das redes sociais. O ordenamento jurídico se vê, então, obrigado a acompanhar os novos delitos que surgem nesse cenário.

Segundo Pinheiro, “toda mudança tecnológica é uma mudança social, comportamental, portanto jurídica” 50. Desse modo, se o comportamento de uma sociedade é normatizado pelo Direito, surge a necessidade de ampliar o leque jurídico em relação aos crimes cometidos no âmbito virtual.

A pornografia de vingança foi um exemplo em que a lacuna legislativa, assim como a ausência de um sentimento de justiça por parte das vítimas, ensejou a tipificação da prática.

Dessa forma:

Onde há normas jurídicas a conduta humana torna-se, em alguns sentidos, obrigatória e não optativa. O Estado de Direito tem como princípio fundamental a liberdade do homem, sendo seus estatutos concebidos para adequar, dentro do ordenamento jurídico-social, os conceitos basilares que limitam essa liberdade, conferindo ao cidadão um direito subjetivo e irrenunciável51.

Nesse sentido, acompanhando o avanço tecnológico, uma série de leis foi criada no ordenamento jurídico brasileiro, objetivando que condutas praticadas na sociedade digital fossem penalizadas, como será visto a seguir.

50Idem. 51Idem.

(29)

3. A TIPIFICAÇÃO DA PORNOGRAFIA DE VINGANÇA ANTES E APÓS A LEI FEDERAL N.º 13.718/18

Neste capítulo, será abordada a questão da tipificação da prática do revenge porn, visto que essa conduta foi recentemente tratada por um novo tipo penal com o advento da Lei Federal n.º 13.718/1852. Sendo assim, os efeitos jurídicos antes gerados eram diferentes dos que provavelmente vão ser gerados após o dispositivo em questão.

3.1 ANTES DA LEI FEDERAL N.º 13.718/18

Apesar da relevância jurídica e social do tema, já que a prática do revenge porn pode ser também considerada uma espécie de violência de gênero, até a Lei Federal n.º 13.718/18 tal conduta não se encaixava em nenhum tipo penal específico. Isso fazia com que a pornografia de vingança não fosse punida de forma hábil, ou seja, faltava uma sanção adequada para aqueles que cometiam essa prática.

Antes da inclusão do art. 218-C do Código Penal, o revenge porn majoritariamente se enquadrava nos crimes contra a honra, quais sejam, difamação e injúria. Porém, isso se mostrava muitas vezes ineficiente devido ao juízo social de reprovabilidade que vem junto da prática desse crime. Além disso, outros dispositivos do Código Penal e outras leis tinham aplicabilidade a depender do caso concreto.

A ausência de legislação específica que tratasse sobre o tema, portanto, fazia com que a conduta vislumbrasse uma série de dispositivos legais, mas nenhum era adequado, ou até mesmo suficiente, pois a pessoa exposta no âmbito virtual passa a ser ofendida e punida diversas vezes, pois na internet o conteúdo é facilmente disseminado aos milhares de usuários e, além do mais, esse conteúdo é de difícil remoção, perdurando o constrangimento e a humilhação por muito tempo.

52BRASIL, Lei n.º 13.718, de 24 de setembro de 2018. Altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para tipificar os crimes de importunação sexual e de divulgação de cena de estupro, tornar pública incondicionada a natureza da ação penal dos crimes contra a liberdade sexual e dos crimes sexuais contra vulnerável, estabelecer causas de aumento de pena para esses crimes e definir como causas de aumento de pena o estupro coletivo e o estupro corretivo; e revoga dispositivo do Decreto-Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941 (Lei das Contravenções Penais). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm>. Acesso em 22 jun. 2019.

(30)

3.1.1 Tipificação de crime contra a honra

A pornografia de vingança, na maior parte dos casos, era enquadrada como crime contra a honra, pois, de certa forma, a conduta em questão fere a honra da vítima. Porém, acredita-se que a lacuna legislativa em relação ao tema tornava a sanção inadequada diante da tutela efetiva dos direitos violados pelo revenge porn.

A intenção de humilhar a vítima vai além da questão da reputabilidade e de macular a honra, visto as inúmeras agressões psicológicas causadas pela conduta. Muitas mulheres expostas sofreram com perda de emprego, gastos com tratamento médico e até mesmo mudança de domicílio. Muitas receberam xingamentos e julgamentos constantes. Outras foram tão feridas moralmente e psicologicamente que acabaram por cometer suicídio. Dessa forma, o

revenge porn mostrava-se como uma conduta que não era abarcada por um crime contra a

honra, sendo este de menor potencial ofensivo, pelos gravames que causava à vítima e por suas consequências que perduram no tempo.

Diante disso, os tipos penais os quais o revenge porn era enquadrado eram insuficientes para ajustar a conduta ao que até então era disposto no ordenamento penal brasileiro53. Sendo assim, segue o texto legal e as principais características dos crimes contra a honra em questão:

3.1.1.1 Difamação

O delito de difamação está disposto no art. 139 do Código Penal e se refere à conduta de imputar qualquer fato ofensivo à reputação de determinada pessoa e, ao contrário da calúnia, o fato não é definido como crime.

Segundo Cezar Roberto Bitencourt, reputação é a estima moral, intelectual ou profissional que alguém goza no meio em que vive; reputação é um conceito social. A difamação pode, eventualmente, não atingir tais virtudes ou qualidades que dotam o indivíduo no seu meio social, mas, assim mesmo, violar aquele respeito mínimo a que todos têm direito54.

53Op. Cit. SANTOS, João Pedro Vieira dos. 2016.

54BITENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal Comentado. 7ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2012. Disponível em:

<https://mpma.mp.br/arquivos/COCOM/arquivos/centros_de_apoio/caop_crim/BIBLIOTECA/C%C3%B3digo_ Penal_Comentado_2012_-_Cezar_Roberto_Bitencourt.pdf>. Acesso em 30 jun. 2019.

(31)

Nesse sentido, segue o crime de difamação estabelecido no art. 139:

Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa55.

A partir disso, Rogério Greco entende que a difamação é um delito de menor gravidade quando comparado a calúnia, pois nesta o fato imputado tem que necessariamente ser definido como crime56.

A difamação é considerada um crime de menor potencial ofensivo, visto que sua pena máxima cominada em abstrato não ultrapassa dois anos, sendo pena de detenção de três meses a um ano, e multa. Isso faz com que esse crime contra a honra seja um delito em que os benefícios da Lei Federal n.º 9.099/95 são cabíveis como, por exemplo, a possibilidade de transação penal. Além disso, a ação penal é de iniciativa privada, conforme o art. 145 do Código Penal.

A difamação ataca a honra objetiva da vítima, ou seja, a visão que a sociedade tem sobre uma determinada pessoa. O bem jurídico tutelado, portanto, é a honra objetiva, que nada mais é que a boa fama do indivíduo perante a sociedade, o julgamento alheio sobre alguém. O que se quer impedir com a previsão típica da difamação é que a reputação da vítima seja maculada no seu meio social. Dessa forma, o crime consuma-se quando uma terceira pessoa toma conhecimento dos fatos imputados ao ofendido57.

No mesmo entendimento, afirma Cezar Roberto Bitencourt:

É indispensável que a imputação chegue ao conhecimento de outra pessoa que não o ofendido, pois é a reputação que o imputado goza na comunidade que deve ser lesada, e essa lesão somente existirá se alguém tomar conhecimento da imputação desonrosa. Com efeito, a reputação de alguém não é atingida e especialmente comprometida por fatos que sejam conhecidos somente por quem se diz ofendido58.

55BRASIL. Código Penal Brasileiro. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. Acesso em 05 jun. 2019.

56GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Especial, vol. II. 12ª edição. Editora Impetus, 2015. 57Idem.

(32)

Segundo Rogério Greco, entende-se que, por meio do tipo penal da difamação, evita-se a divulgação de fatos desonrosos à vítima59. Ou seja, fatos que denigrem a reputação de outrem. No contexto da pornografia de vingança, a divulgação de conteúdo íntimo sem o consentimento da vítima, seja através de imagens ou de vídeos, tem a capacidade de destruir a boa fama da pessoa exposta, qual seja sua honra objetiva. Além disso, no revenge porn, há uma grande disseminação do conteúdo íntimo devido à utilização de tecnologia para que o objetivo de vingança seja concretizado.

No que se refere à divulgação ou propalação da difamação, embora não haja expressamente regra nesse sentido, quem propala ou divulga uma difamação deve responder por tal delito, uma vez que tanto o propalador como o divulgador são entendidos como difamadores60.

3.1.1.2 Injúria

O revenge porn pode ainda ser enquadrado no crime de injúria, disposto no art. 140 do Código Penal. Como preceitua Rogério Greco, a injúria, em sua modalidade fundamental, é o crime contra honra de menor gravidade61.

O texto legal do dispositivo em questão:

Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa62.

A injúria, assim como a difamação, é um crime de menor potencial ofensivo e, por isso, são cabíveis os benefícios da Lei dos Juizados Especiais (Lei Federal n.º 9.099/95), visto que possui pena de detenção de um a seis meses. A ação penal é de iniciativa privada, como estabelece o art. 145 do Código Penal.

O bem juridicamente tutelado pela injúria é a honra subjetiva, que pode ser entendida como os diversos conceitos que a pessoa faz de si mesmo. Com esse tipo penal busca-se a tutela da autoestima, do sentimento que cada um tem por si próprio. Sendo assim, diferentemente da

59Idem. 60Idem. 61Idem.

(33)

difamação, a injúria não precisa necessariamente ser de conhecimento de uma terceira pessoa para ser consumada. A consumação vai se dar no momento em que a vítima toma conhecimento da ofensa à sua dignidade ou decoro63.

Segundo Cezar Roberto Bitencourt, dignidade é o sentimento da própria honorabilidade ou valor social. Já decoro é o sentimento, a consciência da própria respeitabilidade pessoal; é a decência e respeitabilidade que a pessoa merece e é ferida. Sendo assim, dignidade e decoro abrangem os atributos morais, físicos e intelectuais64.

A depender do caso, porém, uma mesma situação fática não pode ser considerada para imputar duas infrações penais diferentes em relação ao agente, ou seja, difamação e injúria. Nesse sentido, a difamação, por ser crime de maior gravidade, vai absorver a injúria, delito menos grave65.

3.1.2 Enquadramento em ameaça (art. 147, CP) ou extorsão (art. 158, CP)

Destaca-se ainda que, apesar da pornografia de vingança majoritariamente ser tratada como crime de difamação ou injúria, outros dispositivos podem ser aplicáveis a depender do caso concreto. Nesse sentido, pode-se falar no crime de ameaça, previsto no art. 147 do Código Penal, e no crime de extorsão, previsto no art. 158 do mesmo dispositivo legal.

Tais crimes são aplicáveis nos casos em que o sujeito ativo, “em posse de vídeos e gravações, ameaça ou constrange a vítima de forma que faça ou que não faça o que o acusado ordena, sob pena de divulgar o material íntimo em sua posse” 66.

A extorsão é consideravelmente aplicável ao revenge porn, conforme a jurisprudência pátria sobre o tema, “quando o réu chantageia a vítima a fazer ou não fazer algo, sob pena de divulgar o material íntimo67. Conforme Alexandre Salim, a extorsão envolvendo conteúdo íntimo pode ser denominada “sextortion”, sendo definida como a conduta de constranger a

63Op. Cit. GRECO, Rogério. 2015.

64Op. Cit. BITENCOURT, Cezar Roberto. 2012. 65Idem.

66BUZZI, Vitória de Macedo. Pornografia de vingança: Contexto histórico-social e abordagem no direito

brasileiro. 2015. Monografia (Graduação em Direito) - UFSC, Florianópolis, 2015. 111 f.

(34)

vítima mediante violência ou grave ameaça, buscando obter uma vantagem econômica indevida, para que a vítima faça ou não faça alguma coisa (informação verbal) 68.

3.1.3 Legislação para além do Código Penal

Vale destacar que a legislação infraconstitucional poderia ser aplicável a depender das circunstâncias do caso concreto. Se a pornografia de revanche envolvesse vítima menor de idade, por exemplo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) seria aplicável. Por outro lado, se houvesse uma relação íntima de afeto entre a vítima e aquele que cometeu o revenge

porn caberia a aplicação da Lei Federal n.º 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha,

visto que esta visa coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, sendo que a conduta de expor e humilhar a vítima pode ser entendida como um tipo de violência psicológica e moral, como será visto a seguir.

3.1.3.1 Lei Federal n.º 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

Se o caso de revenge porn envolver menor de idade, a pessoa responsável pelo compartilhamento do conteúdo íntimo tem a possibilidade de responder por crimes relacionados à pornografia infantil, previstos no ECA69.

Nesse sentido, vale destacar os seguintes artigos desse dispositivo legal:

Art. 240 - Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente: (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008)

Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa. (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008)

Art. 241-A - Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar por qualquer meio, inclusive por meio de sistema de informática ou telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008)

Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008)

68Comunicação feita por Alexandre Salim em 18/08/2018 por vídeo no YouTube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6dKoDl0QCus&t=9s>. Acesso em 10 jun. 2019.

(35)

Art. 241-B. Adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente:

Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa70.

Diante da previsão legal acima, nota-se que os artigos citados possuem aplicabilidade específica nos casos em que a pornografia de vingança, assim como condutas afins, é praticada contra vítima menor de idade.

3.1.3.2 Lei Federal N.º 11.340/06 – Lei Maria da Penha

A Lei Maria da Penha criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, elencando, em seu art. 7º, diversas formas de violência que a mulher pode vir a sofrer, quais sejam: violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

Art. 7º São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

II- a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; (Redação dada pela Lei nº 13.772, de 2018)

III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

IV- a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;

V- a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria71.

Diante disso, tanto a violência psicológica como a violência moral são plenamente caracterizadas nos casos de pornografia de vingança, visto que a exposição íntima sem

70BRASIL. Lei Federal n.º 8.069/90. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm>. Acesso em 12 jun. 2019.

71BRASIL. Lei Federal n.º 11.340/06. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em 07 jun. 2019.

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consentimento causa inúmeros gravames nas duas esferas da vida da mulher: atinge questões psicológicas assim como sua reputação e boa fama. Além de a conduta ser caracterizada como violência de gênero, já que as mulheres são as maiores vítimas da pornografia de revanche, pode ser considerada também violência doméstica e familiar, pois acontece em um contexto em que há o vínculo entre vítima e agressor, sendo os agressores, em sua maioria, ex-parceiros ou parentes.

Conforme o art. 2º do dispositivo:

Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social72.

Outrossim, o art. 5º do dispositivo estabelece:

Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:

I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;

II- no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;

III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação73.

Sendo assim, vale destacar o conteúdo do inciso III, pois se houver um relacionamento íntimo entre a vítima e o autor do revenge porn a aplicabilidade da Lei Maria da Penha se mostra possível. Essa questão, vale ressaltar, independe de coabitação.

Por fim, o art. 41 da Lei Maria da Penha afasta a questão dos benefícios trazidos pela Lei Federal n.º 9.099/95, até mesmo quando se tratar de crime de menor potencial ofensivo – caso dos crimes contra a honra anteriormente vistos:

Art. 41- Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 199574.

72Idem. 73Idem. 74Idem.

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