Dossiê Corporeidade
Uma chegada possível: pegando o io da meada Assim como a expressão “io da meada” nos remete ao trabalho de encontrar o ponto inicial da fabricação de um tecido, nosso trabalho de escrita também se apresenta no desaio de construir um caminho coerente em meio a tantas experiências vivenciadas em nossa pesquisa. Op-tamos então em apresentá-la a partir de um problema que nos saltou aos olhos: a diferença entre disponibilidade e docilidade. Para cumprir tal tarefa apresentaremos as oicinas de sensibilização realizadas no SPA-UFF, no se -gundo semestre de 2014 e primeiro semestre de 2015, que são o foco de nossa pesquisa de campo. A proposta destas oicinas, abertas ao público, é trazer para estes es -paços de construção de dispositivos a própria proposta de PesquisarCom (MORAES, 2010), na qual sujeitos, corpos e afetos são construídos em conjunto. Nossa in -tervenção propicia a articulação entre os pressupostos teóricos e metodológicos da psicologia e nossa inserção nas oicinas de sensibilização, capacitando-nos a cons -truir uma relação entre corpo e subjetividade que nos faça compreender a nossa “herança psicológica”. Vincia -ne Despret (1999) é quem nos ajuda a pensar a herança como um problema e não como algo a ser recebido passi-vamente. Por outro lado, intervimos no campo para que, junto com os participantes advindos da Universidade e
fora dela, possamos elaborar uma nova maneira de se pensar a construção dos sujeitos levando em considera -ção também a produ-ção de um corpo que se afeta. Neste sentido, traçamos nossa intervenção considerando que o corpo é produzido de maneira múltipla (MOL, 2002) em que instâncias, ditas “não mentais”, também participam da construção deste sujeito.
As oicinas de sensibilização nos proporcionam o acompanhamento dos participantes envolvidos numa construção do corpo, que nos faz pensar nossa própria inserção proissional sob uma perspectiva completamen -te nova. Por outro lado, o campo escolhido nos permi-te a construção de dispositivos de experimentação corpo-ral que abarcam não apenas aqueles que possam procu-rar o Serviço de Psicologia Aplicada, mas o público em geral. Nosso trabalho, portanto, ajuda a produzir novas relexões e novas maneiras de ser ao possibilitar aos par -ticipantes a construção de si que abarque também a cons-trução dos seus corpos.
Neste trabalho, apresentaremos alguns pressupostos teóricos que balizam nossa pesquisa e ajudam a locali -zar o campo teórico no qual estamos imersos, trazendo os principais conceitos em jogo em nosso trabalho. Em seguida, será apresentada nossa proposta metodológica e também os enfrentamentos a que tal metodologia nos convocou na prática. Mais adiante, discutiremos os desa-ios encontrados no próprio manejo das oicinas, portanto, neste momento, serão discutidas as questões relacionadas
O dispositivo de oicinas de corpo e a questão da recalcitrância
Ana Claudia Lima Monteiro
,
HClara Sym Cardoso de Souza
Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil
Resumo
Em nosso texto apresentaremos as oicinas de sensibilização realizadas no Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade Fede -ral Fluminense (SPA-UFF), no segundo semestre de 2014 e primeiro semestre de 2015. Nosso trabalho visa construir um disposi -tivo em que corpos e subjetividades são efetuados pelos afetos gerados e geridos no mesmo. A recalcitrância atravessa a produção deste texto e das oicinas, pois, ao trazer à cena a construção das mesmas, nos vimos envolvidos tanto numa preocupação em construir as oicinas a partir de nosso campo teórico-metodológico, quanto em um comprometimento de compor, com os partici -pantes, estas oicinas. Nossa pergunta era: como gerar uma disponibilidade afetiva sem cair na docilidade? Optamos então por apresentar a questão seguindo tais passos: teórico, metodológico, de elaboração das oicinas e de execução das mesmas. Nossa aposta em considerar os afetos nos fez perceber a possibilidade de criar dispositivos em que haja disponibilidade sem docilidade, pois consideramos também o que é trazido pelos participantes.
Palavras-chave: recalcitrância; corpo; subjetividade; dispositivo.
The device of body workshops and the question of recalcitrance
AbstractIn our text we will present the workshops about sensitiveness that performed in the Service of Applied Psychology of the Flumin -ense Federal University (SPA-UFF), in the second semester of 2014 and irst semester of 2015. Our work intents to build a device in which body and subjectivity are effectuated by affection generated and managed in that device. The recalcitrance guides the production of this text and its workshops, because by bringing to the scene their construction, we see ourselves concerned about building the workshops based on our theoretical-methodological ield, as well as making a commitment to composing these work -shops with the participants. Our question is: how to generate a affective availability without becoming docile? Therefore, we chose to present the question following these steps: theoretical, methodological, elaboration of the workshops and their execution. Our bet in considering the affections made us realize the possibility of creating devices in which there is availability without docility, because we also considered what is brought by the participants.
Keywords: recalcitrance; body; subjectivity; device.
H Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia, Campus do Gragoatá.
aos pesquisadores, em como estes puderam também ex-perimentar novas formas de relacionar corpos e subjetivi -dades no dispositivo das oicinas e como, desta maneira, um corpo de pesquisador também pôde ser construído a partir não apenas das oicinas, mas também no dispositi -vo das supervisões de equipe. Vale lembrar que, na parte sobre o tornar-se pesquisador serão apresentadas quatro oicinas em que, duas ocorreram no segundo semestre de 2014 e duas no primeiro semestre de 2015. Na parte so -bre a recalcitrância, falaremos apenas de uma oicina que ocorreu no primeiro semestre de 2015.
Dando continuidade ao trabalho, falaremos sobre uma questão importante que surgiu no dispositivo das oicinas, no momento em que elas ocorriam. Estamos falando de recalcitrância e da tensão que se apresentou em nosso campo de pesquisa entre docilidade e disponi-bilidade. Tal questão surge antes do estabelecimento do campo de pesquisa e baliza este texto, pois, a recalcitrân -cia é um conceito fundamental para pensarmos o disposi-tivo das oicinas. Na construção do disposidisposi-tivo tínhamos como pressuposto o fato de que os participantes são parte integrante não apenas por participarem das oicinas, mas também por trazerem seus corpos, seus afetos e sua dis -ponibilidade. A questão que nos fez pensar foi justamente o desaio de coordenar e atuar no dispositivo buscando não transformar esta disponibilidade em docilidade.
Segundo Latour (1997), é Isabelle Stengers quem melhor desenvolveu este conceito de recalcitrância. Em
Cosmopolitiques VII, Stengers (1997) nos apresenta o
que ela denomina de “maldição da tolerância”, que para nós, modernos, nos marca. Seríamos civilizados justa -mente porque toleramos as outras culturas. Veja bem, não nos confundimos com elas – que ainda estão repletas de crenças, que ainda não desencantaram o mundo – somos modernos justamente porque carregamos o fardo do de -sencantamento. “Nós”, modernos, sabemos, conhecemos e desvendamos um mundo de relações causais, livre de preconceitos. Para Stengers (1997), este fardo não pas -sa de certo orgulho em carregar este desencanto, de ser aquele que efetivamente conseguiu descobrir a natureza, sem preconceitos. Sua “maldição da tolerância” impli -ca então em uma maneira de fazer nas ciências humanas aquilo que já se faz nas ciências exatas: construir dispo -sitivos que sejam, ao mesmo tempo, interessantes – que se façam interessar por aqueles a que ele interroga – e passíveis de serem questionados – e até mesmo rejeita -dos pelos investiga-dos. Como exemplo, podemos trazer o fato de que os objetos não necessariamente respondem ao dispositivo ao qual são convocados. Como nos diz Sten -gers, os laboratórios de ciências exatas explodem, os de ciências humanas não. Daí a questão da recalcitrância e o desaio de construir dispositivos que possam cumprir às exigências postas acima: de ser interessante e ao mesmo tempo, passíveis de ser questionados. Este é o problema central que permeará nosso texto e guiará nossa escrita.
Por último, avaliamos nosso percurso e buscamos pensar os caminhos e possibilidades de se construir cor-pos e subjetividades tendo como ponto central a constru -ção dos afetos. Além disso, mantemos nossa aposta num
dispositivo que convida os participantes a estar junto, e, ao mesmo tempo, lhes dá a possibilidade de desviar, de usar o dispositivo de uma maneira interessante.
O território que ocupamos: os conceitos que compõem nossa jornada
Mesmo que a Psicologia, em suas relexões sobre a subjetividade, tenha privilegiado a constituição desta le -vando em conta as relações do sujeito com o mundo, de alguma maneira, tal relação sempre se apresenta numa contraposição, como se sujeito e mundo fossem onto -logicamente distintos. Tal herança (cartesiana) também constitui nossos corpos como algo que deve ser estudado apenas em seu funcionamento biológico, como se este se encontrasse na ordem da natureza, distinta da ordem do pensamento – ou mesmo dos afetos. Tais afetos, que já nascem híbridos, por ocorrerem nas regiões fronteiriças entre corpo e subjetividade, são postos como problemáti -cos, como algo “sofrido” pelo sujeito, como passividade (DESPRET, 1999). Porém, o que nos interessa em nos -sa pesqui-sa é justamente este caráter híbrido dos afetos, sua necessidade de ser produzido no corpo, mas que, ao mesmo tempo não se reduz a um corpo biologicizado. Os afetos encontram seu espaço de potência quando produ-zem subjetividade, quando agem e faprodu-zem agir a partir dos encontros entre corpos, como efeitos de superfície (DE-LEUZE, 2000). Subjetividade, portanto, é algo que se fabrica também a partir das relações que estabelecemos com as coisas, objetos e animais, pois esta fabricação não se encontra restrita à nossa interioridade e nem se esgota nela. Neste sentido, estamos misturados às coisas e as coisas estão misturadas a nós (SERRES, 2001).
Em nossa pesquisa, trata-se de pensar então um corpo afetado, efetuado por suas relações com o mundo (LA -TOUR, 2007), ponto nevrálgico de negociações entre in -terioridade e ex-terioridade. O corpo também é construído, ao mesmo tempo em que construímos nossa subjetivida -de (MONTEIRO, 2009). E este corpo não possui mera -mente um lugar de “sede” dos processos mentais, mas se apresenta como o principal negociador daquilo que será compreendido como pertencendo ao corpo (“eu” interno) e daquilo que será posto do lado de fora (“mundo” exter -no) (LATOUR, 2007), o corpo é então ativo e age pelos encontros e afetos que lhe chegam e lhe constituem.
-dade do corpo está intimamente relacionada a uma ativi-dade do pensamento, à consciência, ou ao que podemos denominar de subjetividade (SERRES, 2004). Aliás, para ele, nomear as coisas é construí-las, assim, no momento em que nomeamos nossa interioridade de subjetividade, também estamos construindo este personagem concei-tual (SERRES, 1997). Mais interessante ainda é que a proposta de Serres (2004) nos mostra que, quanto mais adquirimos habilidades corporais, quanto mais encontros realizados com o mundo, mais nos tornamos aptos a pen -sar. Portanto, o pensamento não se encontra em contrapo-sição ao corpo, nem mesmo à produção de subjetividade, o que ocorre é uma mútua construção do corpo e do mun -do, ao mesmo tempo em que nomeamos o que acontece “dentro de nós”, como parte do sujeito e o que acontece “fora de nós” como parte do mundo. Neste jogo, o corpo encontra-se como peça fundamental a partir da qual as negociações ocorrem. Tendo como ponto de partida as relexões deste autor, podemos airmar que o que ocorre inicialmente são misturas, conexões, deslocamentos que, ao adquirirem estabilidade, produzem as diferenciações que conhecemos como campos distintos.
Por outro lado, mesmo que as questões trazidas por Michel Serres abram um caminho para se repensar as re -lações entre subjetividade e corpo, estas não são suicien -tes para produzir um estranhamento que nos coloque em posição de atuar a partir destas questões. Para isso, as pes -quisas realizadas por Vinciane Despret nos mostram que é necessário um posicionamento que ofereça a possibili-dade de transformação no mundo ao qual estamos habitu-ados a viver. Em outras palavras, a pesquisa torna-se uma maneira de intervir no mundo a partir de uma prática que não reproduza as formas habituais de compreensão tanto da subjetividade quanto do corpo. Despret utiliza-se de al -gumas ferramentas que, ora são puramente epistemológi-cas, tais como os estudos acerca da produção dos sujeitos nos laboratórios de psicologia experimental e a relexão sobre os estudos realizados por aqueles que ela denomina de etnopsicólogos (DESPRET, 1999); ora buscam inter -vir no próprio funcionamento das coisas, que podemos denominar de abordagens práticas, como a entrevista aos criadores de gado bovino e suíno (DESPRET, 2007). Desta forma, a autora nos mostra que tanto numa rele -xão epistemológica quanto na prática, nas intervenções, o que ocorre são sempre modos de fazer proliferar versões do mundo (DESPRET, 1999). Ela nos coloca a questão de que a nossa produção é sempre um posicionamento, é sempre falar de um determinado lugar. Isso implica em pensar que, mesmo quando estamos falando em relação à subjetividade, não devemos nos privar desta localização (HARAWAY, 1995), ou seja, ao compreendermos a subje -tividade como algo que faz parte de um sujeito, estamos, ao mesmo tempo, fazendo com que esta versão da subje -tividade ganhe legitimidade e seja reforçada.
Segundo Despret (1999), ao mesmo tempo em que nos compreendemos como um produto desta subjetividade interiorizada, nós a fazemos proliferar a partir de nossas práticas. Na medida em que somos capazes de compre -ender que estas formas não estão dadas – como acontece
quando nos deparamos com outras culturas – podemos construir outras relações subjetivas. Como exemplo, é possível pensar o luto não apenas como uma questão a ser resolvida internamente, mas como uma maneira de re-suscitar os mortos como possibilidade de construção de relações não interiorizadas. Em outras palavras, po -demos “dar lugar aos mortos” nas relações ao invés de enterrá-los em nossa subjetividade (DESPRET, 2011d). Em seus textos a autora nos apresenta uma prática em psicologia que não abre mão de considerar um número maior possível de atores. Estes estudos têm como ponto de partida não apenas a fabricação da subjetividade, mas também a importância de compreendê-la como algo que é compartilhado numa determinada cultura e num de-terminado tempo. É exatamente por isso que cabe a nós multiplicar as versões possíveis deste mundo ao invés de apenas acatar uma única versão. Sua proposta ontológica nos indica que quanto mais somos capazes de agregar atores, de distribuir as relações, mais somos capazes de articular possíveis subjetividades.
A partir desses estudos, o passo seguinte é construir um campo de pesquisa que tenha essa proposta teórica como balizador. Em 2014, buscamos a construção de um campo de pesquisa que nos possibilitasse atuar através de oicinas de sensibilização, a construção deste corpo que se afeta. Esta proposta buscou respeitar duas ques-tões importantes que norteiam nosso trabalho: primeiro, com a implementação das oicinas, fomos capazes de PesquisarCom, uma vez que todas as ações que foram feitas nestas oicinas foram negociadas com os partici -pantes, estes tiveram total capacidade de agir e intervir em nossas práticas. Em segundo lugar, nossa proposta vi-sou deslocar o olhar que comumente se tem do psicólogo como aquele que “conserta as pessoas” para a construção de uma prática que buscou potencializar as relações e a vida dos sujeitos. Assim, ao invés de buscar a normatiza -ção, pensamos numa forma de atuação que apostasse nas potências do próprio sujeito.
Portanto, pudemos pensar a construção de um corpo que se afeta e é afetado pelo mundo. Podemos construir um corpo que se afeta como movimentos corporais, com objetos, com montagens de cenas, com o toque, com pa -lavras. Para isso, precisamos o tempo todo negociar com os participantes, entrar em contato com suas formas de existir e de agir, construir uma narrativa conjunta com estas pessoas. Trabalhar os afetos, os corpos, as subje -tividades, enim, a construção do sujeito, deve ser uma aposta que traga em seu bojo a participação ativa daque -les que se engajam conosco em nossas oicinas e que se disponibilizam a construir novos mundos conosco.
se apresenta como base ou sustentáculo material para a emergência de um sujeito que se diferencia do mundo, mas, ao contrário, de pensar como somos capazes de nos diferenciar na medida em que construímos, a cada instan-te, uma relação entre corpo e subjetividade que necessita ser reairmada, testada, construída.
O caminho percorrido: a construção de uma oicina de sensibilização corporal
Em primeiro lugar, é necessário airmar que a pesqui -sa não é apenas o prolongamento de nos-sas teorias, mas também é a capacidade de reinventar e retraduzir nos -sas práticas (DESPRET, 1999). Fazer pesquisa é intervir no campo ao qual propomos nossa inserção (MORAES, 2010). Neste primeiro pressuposto, apontamos para o po -sicionamento do pesquisador: este não é neutro, ao con-trário, sua inserção no campo já é, por si mesma, uma questão a ser discutida com os pesquisados (DESPRET, 2011b). O caminho para tal inserção segue algumas re -gras que serão esclarecidas a seguir:
Em primeiro lugar, convocamos o trabalho de Latour (1994) que nos aponta a primeira regra metodológica a seguir: devemos levar em conta todos os atores que se apresentam para nós, atentos a tudo aquilo que produz “agência” (LATOUR, 2007). Qualquer coisa que possa ser conectada e que produza efeitos diferenciados daque -les que são produzidos sem estes agentes, são passíveis de investigação e devem ser considerados na produção do campo de pesquisa. Não há privilégio de forma, de material ou de lugar ocupado pelos mesmos a priori, o que não signiica que não existam diferenças entre os ato -res. É justamente pelas diferenças que é possível cons -truir o espaço de pesquisa que leva em conta as múltiplas possibilidades de encontro e afecção.
Em segundo lugar, nossa proposta implica numa to-mada do campo como algo que possui uma dinâmica pró-pria. Isto signiica que os atores envolvidos se encontram em processo e articulam-se de maneira singular. Pesquisar signiica atuar junto e possibilitar novas relações e vín -culos (MORAES, 2010). Neste sentido, trabalhamos com o conceito de dispositivo tal como este se apresenta no trabalho de Despret (2011c): aquilo que estabelece as re -lações entre pesquisador e pesquisado no campo da pes -quisa e, portanto, faz surgir hierarquias, jogos de poder, mal-entendidos e forças que são próprios daquele espaço especíico. Neste sentido, nosso trabalho também implica em levar em consideração tais movimentos e dinâmica e não simplesmente negar-lhes a existência. Em nosso caso, o processo que é desencadeado pelas oicinas de sensibili -zação deve ser pensado como algo que produz efeitos que estão para além de uma compreensão puramente corporal, ou puramente subjetiva e que, nesta maneira, faz emergir afetos até então ausentes em outros dispositivos diferen-tes deste da pesquisa. Daí a importância de construirmos com os participantes a narrativa da pesquisa, de sermos sensíveis ao que se apresenta no campo e a manejar nosso trabalho compreendendo que estamos lidando com afetos e corpos em produção e não apenas com sujeitos prontos
que oferecem ao nosso trabalho “o que eles já são”. Por isso, o cuidado com o dispositivo deve ser fundamental, pois construímos sujeitos, não descobrimos.
Em terceiro lugar, a construção de narrativas conjun -tas requer uma participação ativa daqueles que frequen-tam as oicinas. Neste sentido, os materiais e técnicas utilizados serão também discutidos com os participan -tes, para que possamos pensar juntos o que efetivamente produz efeito e como este efeito é produzido (MORAES, 2010). Tanto a escrita quanto as vivências realizadas nas oicinas vão requerer de nós um trabalho conjunto.
Os alunos pesquisadores foram responsáveis tanto pela execução das oicinas, quanto pela elaboração dos diários de campo, nos quais foram relatadas as experiên-cias vivenciadas por eles. Cada oicina foi realizada no período de aproximadamente quatro meses. Foram rea -lizados encontros semanais com duas horas de duração que contaram com 15 participantes em média, incluindo os coordenadores. Nenhum aluno foi a campo sozinho, pois os relatos não foram elaborados como um instru-mento objetivo, mas levaram em consideração também as impressões e afecções daquele que escreve. Assim, o compartilhamento destes relatórios com outros pes-quisadores, foi essencial para a troca de experiências e impressões. Esta proposta se justiica na medida em que compreendemos que a linguagem descritiva possui limi-tações no que tange à questão das impressões vividas nas relações que se estabelecem no campo. Buscamos, por -tanto, uma narratividade que se encontra compartilhada pelos membros da pesquisa, que é discutida entre tais membros para que possamos agregar mais elementos do que quando estamos apenas descrevendo, isoladamente, uma cena que presenciamos, que é sempre feita de um ponto de vista. A discussão sobre os diários de campo contrapõem experiências e impressões diferenciadas, o que enriquece nosso contato com o campo. E esta pro-posta tem funcionado adequadamente em nossa inserção.
Nossa metodologia se estabelece, deste modo, numa proposta que visa fugir do realismo euro-americano (MO-RAES, 2010), uma vez que não considera o mundo como uma realidade já dada, deinida e precisa, que espera ser descoberta e que haveria uma única maneira de se alcan -çar tal realidade. Apostamos então numa realidade que se constrói a cada momento em que nos inserimos nela e dela participamos ativamente. Dito isto, estamos sempre implicados nesta construção de mundo e somos também responsáveis por aquilo que fazemos emergir, fazendo com que nossa postura diante do campo ganhe dimensão ético-política, uma vez que o que colocamos em nossa pesquisa e o que deixamos de fora é sempre uma questão de negociação e não da emergência da verdade.
A criação de uma sensibilidade: a construção do corpo pesquisador:
-ta então é es-ta: como construir um corpo sensível imerso nas oicinas? Afetar e ser afetado é parte fundamental de nossa pesquisa (MONTEIRO, 2009), nos conduz em nossos estudos. Construir uma oicina de sensibilização é nossa aposta para ver emergir corpos e subjetividades mais atentos à sua própria produção. Deste modo, nós, enquanto pesquisadores, também participamos da trução dos afetos, também somos afetados, também cons-truímos nossos corpos e subjetividades. Como manejar as oicinas se somos partes integrantes destas relações? Como construir uma maneira de agir e ser afetado mesmo tendo uma posição diferenciada neste dispositivo? Nos dois semestres descritos aqui pudemos trabalhar a ques-tão do manejo em pesquisa de maneiras diferentes. Nas primeiras oicinas, que aconteceram às segundas-feiras, de 10:00 às 12:00, às quartas-feiras de 16:00 às 18:00 e, posteriormente foi aberta mais uma às quintas-feiras de 10:00 às 12:00, durante os meses de setembro a dezembro de 2014, organizamos a oicina de maneira que houves -se um coordenador que participava de todas as oicinas daquele dia. A este chamávamos de coordenadores ixos. Cada oicina tinha então um coordenador ixo para cada dia: um para segunda, um para quarta e um para quin-ta. Estes contavam com dois outros participantes que se revezavam. Assim, cada oicina tinha, em média, cinco coordenadores, o coordenador ixo participava de todas as oicinas e os outros coordenadores ser revezam, de dois em dois. Nesta dinâmica, cada coordenador não ixo só participava de duas oicinas seguidas e voltaria a parti -cipar depois que terminasse o rodízio. Por exemplo, os coordenadores “x” e “y” começariam junto com o coor -denador ixo; na segunda oicina, o coor-denador “x” não participaria, o coordenador “y”, que participou da primei -ra oicina participaria, junto como o coordenador “z”; na terceira oicina, o coordenador “z” participaria junto com um coordenador “a”; na quarta oicina o coordenador “a” participaria com “x”, e assim, sucessivamente.
Esta organização gerou alguns efeitos inesperados, dentre eles podemos citar certo relaxamento entre os coordenadores móveis em relação à elaboração das oi -cinas, e, ao mesmo tempo, uma desafetação que foi en-tendida por nós como um efeito da descontinuidade que diicultou a formação de vínculo com os participantes. Os afetos então estavam sendo gerados também pelas ausên-cias dos coordenadores. Por outro lado, os coordenadores ixos estavam se sentindo sobrecarregados, até mesmo afetivamente, por ter que se responsabilizar pelo disposi -tivo. Esta responsabilização não aparecia como forma de cobrança, mas como aquilo que podemos compreender como sendo a necessidade de responder ao dispositivo. Tais coordenadores já estavam na pesquisa acerca de um ano, tinham mais leituras sobre o tema, estavam em perí-odos mais avançados na Universidade também, mas isso não se reletiu em leveza ou em algum tipo de segurança em relação à construção do dispositivo. Com isso perce -bemos que a construção de corpos e subjetividades, no dispositivo das oicinas também geram efeitos importan
-tes para os próprios pesquisadores e que, a maneira como distribuímos os sujeitos neste dispositivo, afeta comple -tamente a maneira como os afetos ocorrem.
Percebemos o quanto era presente este lugar de po-der ocupado pelos coordenadores ixos, mesmo que isso nunca tivesse sido dito, discutido ou imposto. Este lugar gerou assimetrias entre os coordenadores, algo que ocor-reu sem que esperássemos. Mesmo que não tenha sido posta toda a responsabilidade das oicinas nestes coor -denadores, na prática, foi isso o que aconteceu. Ao longo do desenvolvimento de nosso trabalho, os coordenadores ixos relataram acerca do incômodo que este lugar gera -va neles. Sem que percebêssemos, este lugar produziu muitas questões na nossa forma de atuar. Dentre elas, podemos destacar a própria igura do pesquisador, pois, ele supostamente deteria o poder de comandar devido ao saber que lhe é imputado. Esta airmação é tão marcante que, mesmo tentando desconstruí-la, ela ainda permanece por outros meios. Percebemos que tanto os participantes quanto os coordenadores, de alguma maneira, esperavam do coordenador ixo um lugar diferenciado, daquele que controlava o dispositivo. Isso nos fez pensar o quanto este arranjo produziu afetos diversos que não estavam previstos, mas que estiveram bem presentes. Percebemos de maneira bastante clara o quanto nossa proposta me-todológica nos exige um cuidado ao lidar com os afetos e os arranjos que se apresentam no dispositivo. A nós é impossível negligenciar a emergência dos mais diversos afetos e a necessidade de estarmos sensíveis aos movi-mentos apresentados pelo grupo. Por isso, resolvemos acabar com esta igura do coordenador ixo e diluir tal responsabilidade por mais coordenadores.
-cipar de uma oicina e não de outra constrói arranjos di -ferenciados entre os coordenadores, o que torna possível um posicionamento diverso e uma rica discussão sobre os lugares ocupados e os arranjos efetuados nas oicinas. Destacamos também o fato de que, nestas segundas oici -nas, os coordenadores, em sua maioria, estavam tendo o contato com estas pela segunda vez, o que também gerou mais segurança nos mesmos. Pudemos perceber como o corpo do coordenador foi sendo construído no decorrer do trabalho, não que houvesse uma repetição das oici -nas, mas os coordenadores também foram adquirindo um novo corpo, mais sensível aos encontros e à maneira de construir dispositivos em que o cuidado com os afetos que emergem no dispositivo está presente.
Construir um corpo de coordenador não é algo banal, uma vez que, como dissemos, também estamos presentes com nossos corpos e subjetividades no dispositivo das oicinas. É relevante destacar o fato de que, mesmo es -tando no lugar de coordenador, o que implica uma pre-paração anterior, longas discussões sobre as ferramentas utilizadas nas oicinas e todo o trabalho de escrever os diários de campo (que será melhor apresentado a seguir), estes não escapam aos afetos surgidos nas oicinas. O manejo das mesmas exige dos coordenadores uma sen -sibilidade muito grande em relação aos participantes e seus afetos, mas também ao que o próprio lugar que o coordenador ocupa neste dispositivo.
Neste sentido destacamos a necessidade de coordenar em conjunto. Isto possibilita uma relação de diálogo, de sensibilidade e de coniança, o que signiica que, mesmo que por vezes a sensibilidade possa vir a paralisar com a coordenação distribuída, outros coordenadores podem protagonizar o manejo. Assim como eles, éramos também sensibilizados, nossos corpos e subjetividades compu -nham aquele dispositivo e novos afetos estavam presentes o tempo todo. Portanto, a questão era menos exercer uma neutralidade (que também se apresenta como uma forma de afetação e não a ausência dela) e mais partilhar e ma -nejar, com todos os atores presentes nas oicinas, os afetos que emergiam ali. Esse maior entrosamento advindo do coordenar em conjunto também torna possível uma maior atenção com o tempo de execução das atividades e das discussões posteriores. Os coordenadores se tornam mais sensíveis, não apenas ao tempo do grupo e a percepção do tempo deles próprios e entre si, como também a como o grupo recebe e reage a cada atividade, construindo cons-tantemente este lugar sempre luido da coordenação.
Todas estas questões foram possíveis de serem tra -balhadas nas supervisões porque, além das conversas semanais em equipe, também eram elaborados diários de campo, pois a escrita posterior do que tinha aconte-cido nas oicinas se apresentou como um instrumento importante para o trabalho (FAVRET-SAADA, 2005). As supervisões sempre eram pautadas na escrita destes diários e na troca de impressões e experiências entre os coordenadores do mesmo grupo e de grupos diferentes. As discussões eram muito ricas e geravam momentos em que, na própria supervisão, nos sentíamos também inse-ridos num dispositivo, afetando e sendo afetados pelo
que estávamos construindo. As diferenças que surgiam eram discutidas para que esta diversidade fosse levada em conta, ao mesmo tempo em que percebíamos a cons-trução também de um espaço comum, propiciado pelas discussões. Os diários de campo propiciaram a nós um momento de cuidarmos uns dos outros, de estarmos aten-tos ao que era sentido por cada coordenador e de propi-ciar um espaço em que cada um pudesse ser ouvido e que também pudesse partilhar suas impressões e sentimentos. Por isso os momentos da escrita do diário de campo e da supervisão foram de fundamental importância para a relexão e compreensão da pesquisa e para que os pesqui -sadores também construíssem este corpo de pesquisador em conjunto com toda a equipe.
Corpos afetados pela pesquisa: o dispositivo das oicinas Esta parte do texto não está totalmente desvinculada da anterior, uma vez que a questão da coordenação se relaciona com o problema a seguir. O que move nossa escrita neste ponto é a tensão constante entre docilidade e disponibilidade. Portanto, o ponto a ser pensado aqui é: até que ponto nossos participantes foram disponíveis ao trabalho proposto? Tal disponibilidade sempre esbarra no que denominamos de recalcitrância, ou seja, na capa -cidade de resistir ao que é proposto (DESPRET, 2004b; LATOUR, 1997). Este impasse se apresenta na medida em que, ao estudar os dispositivos experimentais, perce-bemos que estes são construídos para incentivar a docili-dade dos sujeitos (DESPRET, 2004b). Neste sentido, tal docilidade compromete o próprio experimento, uma vez, que se sustenta na autoridade do pesquisador. Os desejos, expectativas, afetos dos sujeitos – mesmo que presentes – são desconsiderados por se apresentarem como algo que interfere na pesquisa. Desta forma, os sujeitos são tomados como ingênuos, construindo uma maneira dó-cil de se apresentar no dispositivo experimental. Porém, acreditamos que apresentar-se indiferente ao dispositivo não faz dele algo “mais cientíico”, transforma o experi -mento num lugar de produção de sujeitos desafetados. O que não nos interessa, pois buscamos produzir interesse no dispositivo e não indiferença ou passividade.
Como dito acima, a produção de um corpo de pes-quisador também requer o manejo dos afetos que sur -gem nas oicinas. Os pesquisadores precisam lidar não apenas com o planejamento e a execução das atividades, mas também com os afetos que emergem a partir dos encontros produzidos naquele espaço, Muitas vezes nos perguntamos sobre os efeitos que esperávamos de nosso planejamento e das surpresas que o campo nos trouxe. Portanto, não se trata de impor nossas propostas, mas de criar um corpo sensível para as interações que se dão no campo. Sabemos o quanto é difícil escrever tais palavras sem dar a impressão de que “qualquer coisa serve”, ou que “deixamos luir” para não pressionar os sujeitos a se submeterem ao dispositivo. Mas, não é disso que se trata, o que está em jogo é uma proposta sensível de interação em que os sentidos vão se produzindo na medida em que nos disponibilizamos ao trabalho.
Sabemos que, para sermos afetados deve haver uma disponibilidade para estar nas oicinas, para construir um corpo mais sensível. Os participantes são o tempo todo convidados a atuar conosco na experimentação conjun -ta de afetos. Apos-tamos numa construção afetiva que é também ativa, em que os sujeitos participam da cons -trução de seus próprios afetos e, consequentemente, de seus corpos e subjetividades. Em nossas oicinas busca -mos exercitar a sensibilidade do corpo agenciando ato-res heterogêneos e esperamos que nossos participantes estejam disponíveis a tal sensibilização e aos encontros propostos. Ao mesmo tempo, esperamos que esta dispo-nibilidade não se reverta numa espécie de docilidade em que a autoridade dos pesquisadores fale mais alto do que a possibilidade de dizer não, de resistir, de recalcitrar. A atividade dos sujeitos é uma das apostas mais importan -tes de nosso trabalho, uma vez que não consideramos os afetos como algo passivo e a-político (DESPRET, 1999), nossos afetos também produzem mundo, nos fazem inte -ragir e nos dão um lugar no mundo em que vivemos. Por exemplo, a distinção entre homens e mulheres também passa por aquela entre razão e emoção. Em nossa cultura aprendemos, desde muito cedo, que mulheres são mais “emocionais” e homens são mais “racionais”. A cons -trução de nossa cultura está enraizada nesta distinção (DESPRET, 2011a) o que nos faz pensar que as emoções ocupam também um papel político nas relações que esta -belecemos com o mundo e com os outros.
Em nossas oicinas buscamos problematizar este lu -gar das emoções, compreendemos que mesmo a razão é também um dos afetos que permeiam o mundo e que o produz (DESPRET, 1999). Ser mais racional não nos faz “mais centrados”, nos faz exercitar um afeto e uma ma -neira de se relacionar com o mundo, em detrimento de outras. A razão não é, como airmava Descartes (1994), a atividade própria do homem, que o faz ascender de seu corpo. A razão também está no corpo e o faz agir. Do mesmo modo, as emoções não são uma passividade exercida do corpo ao pensamento, mas sim um leque de possibilidades de relacionar-se. Razão e emoção não são opostas, são maneiras de se construir um corpo afetado, seja de um modo, seja de outro. Em nossas oicinas, tra
-balhamos as emoções como este modo de construir os espaços de afetação. Desta forma, todos os atores envol-vidos na construção das oicinas são ativos, produzem efeito, o que nos ajuda a colocar o problema da disponi -bilidade em outros termos.
Os efeitos produzidos nas oicinas então são formas de se produzir um determinado mundo e não outro, o que signiica dizer que não há uma única maneira de experi -mentar os afetos gerados ali. Apostamos numa construção coletiva de corpos e subjetividades que são cambiantes e, ao mesmo tempo, carregam a potência de gerar novos posicionamentos de modo muito mais ativo. Os sujeitos em nossos dispositivos são convidados a exercer suas po-tências afetivas não apenas naquele lugar, mas também exercitar potências afetivas que transbordem em outros espaços de vida. Isso signiica que há uma aposta de que, aquilo que construímos no dispositivo, é uma dentre mui-tas possibilidades de agenciar a realidade. Tendo tal pro-posta em vista, nos permitimos atuar considerando que, mesmo que haja alguma espécie de docilidade advinda dos participantes, esta será diluída entre os diversos ele-mentos que compõem a experiência de estar ali, naquele espaço, com aqueles atores.
Esta proposta se apresentou em nossas oicinas em diversos momentos. Gostaríamos de trazer aqui apenas um deles. Éramos, o tempo todo, convocados a experi-mentar, junto com os participantes, os limites de nossos próprios corpos, como dissemos anteriormente. E em alguns momentos nos sentimos incomodados com a ex-trema disponibilidade de um grupo das oicinas que era composto por estudantes de psicologia (estes também po-diam participar, o que gerou muitas discussões em nossas supervisões que serão desenvolvidas em outro trabalho). Parecia-nos que o interesse pelas mesmas era puramente “acadêmico”, como o aprendizado de determinada práti -ca. Este afeto nos causou muita surpresa e uma espécie de incômodo em relação à presença destes participantes. As oicinas ganharam cores de aprendizado e puseram-nos, mais fortemente o impasse entre docilidade e disponibi-lidade. O que chegava até nós era que ali as relações de poder se davam na possibilidade de ser “ensinada” uma técnica corporal para o trabalho em Psicologia, o que não era a nossa proposta.
Curiosamente, quando pedimos para este grupo apre-sentar suas expectativas, logo no início do trabalho, apa-receu de uma das participantes esta mesma questão, posta exatamente com estas palavras: a diferença entre ser dó-cil e de estar disponível. Havia uma preocupação muito grande em relação ao perigo de coagir os participantes a fazer aquilo que estava sendo proposto, sem gerar um espaço para a recalcitrância. Sentimos que esta preocu -pação – que sempre se apresentava nas supervisões como uma preocupação da coordenação – foi deslocada dos coordenadores para uma das participantes logo no início desta oicina e que permeou a construção dos afetos de todos que ali estavam presentes.
para as pessoas?”. A partir de tais questionamentos, pu -demos elaborar uma oicina em que apostamos na fabri -cação de uma caixa que encarnasse este incômodo. Esta oicina consistiu em retomar as expectativas do início, para colocar na caixa do incômodo o que fosse o avesso destas expectativas, ou seja, o indesejado. Esta proposta teve como objetivo dar corpo ao incômodo em algum lu -gar que não fosse pessoalizado nem nos participantes e nem nos coordenadores. Um dos participantes nos disse que não havia incômodo algum, porém pegou uma folha de papel e escreveu inúmeras palavras relacionando-as com setas, depois ele mesmo percebeu a contradição en-tre o não incômodo e aquela escrita catártica. Mais uma vez pensamos na tensão entre a docilidade – que se apre -sentou em suas palavras, e a recalcitrância – que acabou aparecendo em seu agenciamento com a folha de papel.
A partir deste momento, a oicina tomou um rumo inesperado, pois, a questão da ausência tornou-se presen-te, como uma forma de recalcitrância ainda não percebi-da pela equipe. Numa oicina posterior, apostamos numa atividade que fez emergir, através das experiências cor -porais, um efeito de esvaziamento. Os coordenadores se deram conta, neste momento, que as ausências estavam permeando estas oicinas desde o início, como exemplo podemos citar o fato de que a lista de presença só foi feita no primeiro dia. Percebemos que dois dos três coordena-dores não estavam fazendo o diário de campo. Além dis -so, na supervisão posterior a esta oicina citada, apenas um coordenador participou. Neste momento tomamos a decisão de suspender a oicina seguinte. Apostamos lite -ralmente na ausência para chamar atenção àquelas que já vinham ocorrendo desde o princípio dessas oicinas, e várias questões emergiram tanto em relação à coorde -nação quanto em relação aos participantes. Ficou muito evidente que a disponibilidade dos participantes se apro-ximava muito perigosamente da docilidade, fazendo com que a recalcitrância emergisse muito mais no manejo dos coordenadores do que no espaço das oicinas.
Então, a própria ausência da oicina se caracterizou como uma oicina da ausência, pois surtiu efeitos. Outra participante nos disse que tinha se afetado muito com a oi -cina anterior e isto a fez resistir a estar presente na próxima oicina. Quando esta oicina foi “cancelada”, ela sentiu-se aliviada, o que mostra que este incômodo reverberou e ain-da precisava ser cuiain-dado, a recalcitrância pôde então ser distribuída. A partir da oicina-ausência e da leitura do di -ário de campo de um dos coordenadores, percebemos que o jogo entre docilidade e disponibilidade estava sempre presente e se distribuía de maneiras muito assimétricas. Um efeito interessante foi o fato de que este afeto da do -cilidade gerou sim, recalcitrância, mas uma recalcitrância deslocada, presente muito mais no manejo das oicinas do que propriamente em seu espaço de acontecimento.
Os coordenadores sentiram-se incomodados com o excesso de “sims” apresentado pelos participantes, tal -vez pelo fato apontado acima: a vontade de aprender uma “técnica corporal” para atuar como Psicólogos. Com isso nos demos conta do quanto o “sim” muitas vezes impede a luidez das oicinas enquanto o “não” leva a uma cons
-trução conjunta, pois o “sim” pode conigurar-se como uma ausência enquanto o “não” nos remete a um corpo que está presente, por não estar docilizado. Estes afetos geraram um efeito bastante interessante. Elaboramos en-tão uma oicina muito arriscada na qual desaiamos os participantes a recalcitrarem. Esta oicina se conigurou como uma “não proposta” dos coordenadores na expec -tativa de que os participantes se tornassem rebeldes, que dissessem o tão esperado “não”. Os coordenadores es -peraram durante quarenta minutos que os participantes reagissem de alguma maneira ao silêncio quase ensur-decedor que se instaurou, e ao “não fazer nada”. Um dos participantes, percebendo isso, reagiu sem ação, de forma a provocar os coordenadores a icarem incomodados com aquele silêncio e aquela angústia. Ele disse que achava que aquela oicina era um tipo de jogo em que “venceria” quem icasse mais tempo em silêncio, como na brinca -deira do “sério” em que vence quem não ri. Quando este silêncio foi quebrado discutiu-se sobre a disponibilidade deles, sobre o que tinha levado cada um a fazer a oicina, sobre o papel da coordenação e de participante, sobre a coniança em relação às propostas dos coordenadores. E neste momento foi decidido que os participantes elabora-riam a oicina seguinte, que seria a última.
Portanto, os participantes desta oicina tiveram uma relação com a recalcitrância que permitiu a eles um posi-cionamento ativo frente aquilo que estava sendo coloca-do. O silêncio aqui foi posto em outro lugar, gerou uma suspensão da atividade, uma forma de se construir um tipo de resistência que veio em forma de sentimentos de rebeldia. Foi a partir desta resistência e de nossas apostas, muitas vezes bastante arriscadas, que pudemos construir uma oicina que não ignorou este tipo de recalcitrância às avessas. É importante destacar que isso foi possível so-mente porque era aquela oicina especíica, com aqueles participantes – inclusive por serem da Psicologia da UFF – que tais questões puderam ser trabalhadas dessa manei -ra. Neste sentido, pudemos construir possibilidades afe -tivas em que a tensão entre docilidade e disponibilidade fosse trabalhada naquele dispositivo com aqueles atores presentes. Tornar-se sensível à construção do dispositi -vo das oicinas foi uma experiência fundamental para compreendermos nosso trabalho e para mantermos nossa aposta em nossas oicinas pra continuar construindo cor -pos e subjetividades potentes.
afetação para fazer proliferar espaços potentes de cons -trução de corpos e subjetividades, consequentemente, a produção de novos mundos.
Dessa maneira, é possível dizer que, em todos os mo -mentos em que estivemos inseridos, seja no campo, seja no dispositivo da supervisão, procuramos desenvolver um posicionamento crítico em relação à nossa própria prática, questionando sempre esse nosso lugar de ator-pesquisa-dor, que inluencia e é inluenciado a todo momento.
Tudo isso nos levou sempre a questionar, também, o papel do próprio psicólogo que, ao nosso ver, deve possi-bilitar a emergência de modos diferentes de ser no mun-do, e não um mero especialista, intérprete e ditador de existências estabelecidas a priori. Em outras palavras, se acreditamos que em nossas pesquisas fazemos emergir novos arranjos de conceitos e de conhecimentos (MO -RAES, 2010), então trata-se de uma aposta ético-política possibilitar a emergência de subjetividades distribuídas.
É verdade que nos deparamos com impasses em nosso percurso, a exemplo de diiculdades envolvendo nossa própria coordenação, porém até as mesmas nos permitiram fortalecer nossa convicção de que o campo deve ser também um lugar de resistências, que permita recalcitrâncias, para que nossa produção não seja empo -brecida por imposições e autoritarismos. Estes escondem toda potencialidade que nasce no encontro e na dispo-nibilidade de todos os envolvidos no dispositivo, sendo que o que pretendemos com nossa prática é possibilitar a emergência de subjetividades incorporadas, ora indi -viduais, ora distribuídas. Portanto acreditamos que, não colocando em risco nossos pressupostos, cairíamos na cilada de buscar apenas comprovar algo pré-existente e estabelecido, já dado, e jamais poderíamos nos surpre -ender com o campo. Isso iria fortemente de encontro aos nossos objetivos mais caros, uma vez que não buscamos dispositivos autorreferentes (STENGERS, 1990).
Nossa intenção não é a repetição de um método ou a airmação cega de nossa aposta teórica, é a possibili -dade de construir mundos em que caibam mais e mais afetos, distribuídos de maneira cada vez mais coletiva. Deste modo, o uso de uma de nossas experiências deve ser lido também como uma forma de afetação e não como uma “maneira de condução”. As possibilidades são múl -tiplas, como dissemos, os arranjos variam de acordo com os atores que são postos em cena nas oicinas. Não há previsibilidade, mas há rigor. O rigor encontra-se nesta própria aposta de gerar espaços coletivos de afetação, de distribuição de subjetividade. Portanto, seguimos nosso trabalho, no qual os impasses se apresentam, como as questões postas acima, e que nos exige sempre reposi -cionamentos e muito trabalho coletivo. Não buscamos respostas para problemas já postos, como nos ensina Deleuze (2006), atuamos em campos problemáticos que nos exigem a cada momento rearranjos e mudanças de posição. Com isso, apostamos na construção de um conhecimento que passe pelo corpo, pelos afetos e que ocorre de maneira sempre coletiva porque não pressupõe elementos dados, mundos fechados. Por isso, escolhemos apresentar um desfecho, brincando com a palavra
des--fecho, porque nosso término é apenas um recorte feito para dar sentido à parte de nosso trabalho. Sabendo que este é apenas um recorte, oferecemos a possibilidade aos leitores de puxar outros ios e de construir novas propos -tas de pensar a relação entre corpo e subjetividade que componham um mundo mais amplo e diverso.
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Recebido em: 10 de janeiro de 2017