MERCADO DE TRATAMENTO DE EFLUENTES INDUSTRIAIS NO BRASIL
Palavras-chave:
Efluentes industriais, tecnologia ambiental, controle de poluição.
1 Introdução
O mercado de tecnologias ambientais no Brasil, principalmente o de tratamento de efluentes industriais sofreu uma profunda transformação. Na década de 70, um pequeno número de estações foram implantadas, mas as exigências começavam a aparecer. Durante a década de 80 inúmeras estações foram construídas e algumas até ampliadas. Na década de 90, com exigências ainda maiores, as estações passaram por profundas remodelagens. Houve também uma mudança conceitual, passando de apenas atender aos padrões de emissão para uma atitude mais pró-ativa. Atualmente as estações mais tradicionais do País tem entre 10 e 30 anos e já necessitam de adequação tecnológica , ou seja, reformas.
Com o crescente desenvolvimento industrial, que realizou grandes investimentos em tecnologia de ponta, o Brasil passou rapidamente a incorporar o conceito da necessidade de integração do processo produtivo com a estação de tratamento de efluentes industriais. As indústrias deixaram de encarar apenas o tratamento "end of pipe", passando a adotar também o "in plant control", seguindo as tendências mundiais.
A tendência que vem se confirmando , principalmente nos últimos 5 anos, é a de que as indústrias voltaram suas atenções para os seus processos produtivos, procurando otimizá-los antes de investir nas tradicionais ETE's.
Já está ficando um tanto quanto complicado, para aqueles que gostam de dar definições claras, qual seria o conceito atual de uma ETE. Onde realmente começa e onde termina uma estação de tratamento de efluentes industriais?
Para atender adequadamente a demanda de um cliente industrial, os fabricantes de equipamentos, os consultores de processo e de fim-de-tubo, aliam-se a fabricantes de produtos químicos para formar um consórcio ambiental, onde os dirigentes industriais catalisam o processo. Mesmo com todas as minimizações e racionalizações de processos produtivos, não se pode ainda prescindir da estação de tratamento de efluentes. O mercado de equipamentos e sistemas integrados é muito promissor, pois novas demandas foram criadas em função das alterações da composição do efluente a ser tratado.
A instalação de diferentes sistemas de filtração e recirculação dentro da planta industrial é parte integrante da ETE, obrigando a utilização de equipamentos mais confiáveis e necessitando um maior cuidado operacional.
Neste novo ambiente industrial, o papel do operador passou a ter importância vital, exigindo treinamento especializado, capacidade para agir sob circunstâncias adversas e flexibilidade para atuar em qualquer posição do "time ambiental".
2 Leis e Fiscalização
A cobrança pelo uso da água e pela emissão de efluentes está alterando a gestão e o fluxo de água nas empresas. Recuperar, reciclar, fechar circuito e reutilizar no processo são requisitos obrigatórios.
Essa mudança de comportamento exige um maior controle operacional, além de novos equipamentos especialmente desenvolvidos para operar em situações mais críticas.
A chamada "Lei das Águas", a Lei dos Crimes Ambientais, de fevereiro de 1998, e a nova resolução do CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente, dotaram os órgãos ambientais de novos instrumentos de controle mais eficazes e, conseqüentemente, mais restritivos à atuação da indústria.
Mesmo com os instrumentos legais para controle, muitos estados da federação não têm estrutura técnica e de fiscalização para a sua atuação continuada. Em contrapartida, alguns Estados como São Paulo, Rio Grande do Sul e, mais recentemente, Bahia, têm suas próprias legislações e exigências diferenciadas. A fiscalização nestes Estados é bastante rígida, considerando os padrões brasileiros, exigindo adequação constante das indústrias, e a necessidade de implementação de modelos eficazes de gestão ambiental.
Estas exigências oferecem a oportunidade para introdução de técnicas e equipamentos similares aos utilizados nos países industrializados com efetivo e exigente controle ambiental.
Tomando-se como exemplo o Estado do Rio Grande do Sul, o órgão de controle ambiental , a FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental – exigirá para o final do ano de 1999 a adequação das indústrias do Estado aos padrões de emissão para efluentes, em relação aos parâmetros Nitrogênio Total e Fósforo Total, com limites fixados em 10,0 mg/l e 1,0 mg/l, respectivamente.
Esta adequação exigirá investimentos em novos equipamentos e serviços de consultoria, num espaço de tempo relativamente curto, mesmo que a Portaria que contém esta exigência tenha sido publicada em 1994 , fixando os prazos para 1999.
Com a chegada de novas indústrias transnacionais ao país e com as ampliações das que já estavam estabelecidas, tem sido constantemente questionado se estas farão os mesmos investimentos em proteção ambiental que normalmente fazem em seus países de origem. Grandes empresas de consultoria atuantes em nível internacional têm buscado atuação no Brasil, utilizando o argumento de que conhecem a realidade das exigências ambientais internacionais, no contexto de um mercado globalizado. Diante destes fatos, os órgãos ambientais têm procurado adequar-se às novas exigências e tem fiscalizado mais efetivamente estas empresas, criando
assim um campo de trabalho promissor para consultorias especializadas, junto às empresas transnacionais.
Também não é novidade que as exigências dos órgãos de controle será crescente nos próximos, amparados por legislação específica, associado a maior cobrança por parte da população, cada vez mais mobilizada com questões ambientais e com a atenção dedicada pela mídia ao assunto.
3 Reciclagens e Tecnologias Mais Limpas
Cobrança pelo uso da água, cobrança pelo descarte de efluentes, padrões de emissão e de corpo receptor mais restritivos, crescentes aumentos dos custos para tratamento e disposição de resíduos sólidos, novas leis que incentivam a minimização de resíduos, e a natural adequação aos padrões internacionais, fazem das tecnologias de produção mais limpa e do reuso da água industrial os grandes filões do mercado ambiental para os próximos anos. As indústrias tem buscado a relação ótima para reuso dos efluentes, pois em muitos casos não é conveniente do ponto de vista econômico e também do ponto de vista ambiental (por mais contraditório que possa parecer) buscar a totalidade do reuso destes efluentes.
A seqüência "evitar – minimizar – reaproveitar – tratar – dispor" é a pauta de todas as discussões, inclusive na própria legislação ambiental. Mesmo adotando a seqüência adequada, a ETE é parte fundamental para o fechamento do circuito de águas e para o reuso dos efluentes tratados.
Tem se observado que é crescente o número de simulações em planta-piloto de tratamento de efluentes, utilizando efluentes que vão alterando sua composição, em função das mudanças realizadas no processo produtivo e da utilização continuada da água industrial.
Indústrias, consultores autônomos, empresas de consultoria, universidades e centros de pesquisa, mantêm suas equipes envolvidas direta ou indiretamente com simulações e estudos de fluxo de água em processos produtivos. O próprio governo federal, através da oferta de recursos a fundo perdido, incentiva a formação de parcerias entre o setor produtivo e as universidades, para atender a crescente demanda tecnológica. Nestas parcerias, a indústria desembolsa parte dos recursos para comprovar o seu real interesse no que se pretende desenvolver.
Alguns fabricantes de equipamentos e de processos de tratamento estão chegando ao Brasil a partir da introdução de "plantas de tratamento demonstrativas", usadas como show-room de suas tecnologias, colocadas estrategicamente em locais de interesse em todo o país.
4 Tendências do Mercado e Oportunidades de Negócios
A economia brasileira vem sofrendo grandes transformações e várias estatísticas têm sido publicadas sobre o mercado para equipamentos de saneamento. Entretanto, por mais confiáveis que possam ser estas estatísticas fica difícil estimar o valor real deste mercado. O Desam- Departamento Nacional de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental estima que o mercado de equipamentos para este setor , movimentou em 97 mais de R$ 700 milhões, porém a maior fatia pertence ao setor público.
Fazendo uma análise das tendências, a partir de dados recentes do comportamento do mercado de tratamento de efluentes no Brasil, pode-se apresentar, com mais segurança do que estimativas de valores comerciais, as três áreas principais de atenção, que são: equipamentos e sistemas de tratamento, serviços e consultoria, e produtos químicos. Abaixo apresentamos uma relação, para cada área de interesse, das oportunidades de negócios mais importantes a serem supridas através das cooperações internacionais e das transferências de tecnologia.
4.1 Equipamentos e Sistemas de Tratamento
• Reforma em estações existentes, adequando às novas exigências e permitindo reuso do efluente tratado;
• Adaptação das estações existências para trabalharem consorciadas aos processos produtivos; • Utilização de sistemas eficientes de separação sólido-líquido;
• Sistemas racionais para micro e ultra-filtração, e osmose reversa, utilizados no processo industrial e/ou na própria ETE;
• Sistemas de desnitrificação-nitrificação compactos e/ou adaptáveis às estações existentes; • Sistemas de ozonização convenientemente incorporados aos tratamentos convencionais; • Sistemas compactos e/ou móveis para tratamento de chorume de aterros industriais;
4.2 Serviços e Consultoria
• Atendimento de projetos em regime turn-key, incluindo a ETE e o fechamento de circuito de águas;
• Terceirização através do sistema BOT (Build, Operate and Transfer), para ser aplicado aos grandes projetos, desde que vencidas as barreiras técnicas, econômicas e legais;
• Terceirização do manuseio de resíduos e sólidos e tratamento do lodo das ETEs;
• Estudos para fechamento de circuitos de água na indústria, incluindo balanço de material e o monitoramento contínuo das alterações propostas. Os estudos devem contemplar também os pontos ideais para fazer o make-up da água nova no processo produtivo.
4.3 Produtos
Químicos
• Produtos adequados para trabalhar no ambiente de fechamento de circuito de águas, incluindo o reuso industrial, mesmo que para alguns consultores e fabricantes de equipamentos esse tipo de adequação é considerada inviável;
• Crescimento do uso de polímeros, em substituição aos floculantes e alcalinizantes tradicionais; • Uso de produtos que minimizem a geração de lodo;
• Produtos químicos destinados à remoção de poluentes específicos, mas em conformidade com os reciclos e o reuso industrial.
Wagner Gerber – Químico, Doutorando em Análise do Meio Ambiente, Diretor da Ecocell
Consultoria Ltda., Professor Universitário e Consultor da UNIDO- Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial e consultor do CNTL - Centro Nacional de Tecnologias Limpas. Atua no setor de tratamento de efluentes industriais desde 1982.
Ecocell Consultoria Ltda. – Empresa de Consultoria Ambiental, atuando principalmente nas
áreas de tratamento de efluentes industriais, gestão empresarial e ambiental, racionalização de processos produtivos e implantação de técnicas de produção mais limpa.
Endereço:
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