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A C Ó R D Ã O
(8ª Turma)
GMMCP/mcf/ls
RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO SOB A
ÉGIDE DA LEI Nº 13.467/2017 – BEM DE
FAMÍLIA - VAGA DE GARAGEM E ESCANINHO –
PENHORA – MATRÍCULA ÚNICA
Nos termos da Súmula nº 449 do Superior
Tribunal
de
Justiça,
a
impenhorabilidade do bem de família não
alcança a vaga de garagem que possuir
matrícula própria no registro de
imóveis. No caso, porém, depreende-se
do acórdão regional que as vagas de
garagem estão vinculadas à unidade
habitacional reconhecida como bem de
família. Não cabe ao órgão julgador
determinar
o
desmembramento
da
matrícula para fins de constrição das
garagens e do escaninho.
Recurso de Revista conhecido e provido.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso
de Revista n° TST-RR-10968-29.2015.5.18.0005, em que é Recorrente
WENCESLAU GONÇALVES RAMOS NETO e são Recorridos GERLAN CORREIA DE SOUZA,
ENGEFORT EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA., MARCELO ANDRÉ DE
MAGALHÃES, LEANDRO RÉGIS FERREIRA MAGALHÃES e ANTÔNIO JÚLIO CAVALCANTI
JÚNIOR.
O Eg. Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, em
acórdão às fls. 539/544, negou provimento ao Agravo de Petição do Autor
dos Embargos à Penhora.
O Autor dos Embargos à Penhora interpõe Recurso de
Revista, às fls. 566/588.
Despacho de admissibilidade, às fls. 664/667.
Dispensada a remessa dos autos ao D. Ministério
Público do Trabalho, nos termos regimentais.
É o relatório.
V O T O
Reconheço, de plano, a transcendência das questões
articuladas, nos termos do art. 896-A da CLT.
REQUISITOS EXTRÍNSECOS DE ADMISSIBILIDADE
Atendidos
os
requisitos
extrínsecos
de
admissibilidade, passo ao exame dos intrínsecos.
BEM DE FAMÍLIA - VAGA DE GARAGEM E ESCANINHO – PENHORA
– MATRÍCULA ÚNICA
a) Conhecimento
O Eg. TRT manteve a penhora das vagas de garagem e
escaninho, nestes termos:
A decisão de origem analisou a matéria com bastante propriedade, razão pela qual adoto os seus fundamentos como razões de decidir:
"(...) examinando os autos, verifica-se que a Oficiala de Justiça notificou o executado no local da penhora, residência (fl. 450). Aliás, conforme se vê das cópias das declarações de renda juntadas pelo executado às fls. 367/411, ajustes anuais dos exercícios 2011 a 2017, que o endereço residencial indicado é o do imóvel, objeto de penhora. Assim, tenho que restou comprovado que o executado e familiares residem no imóvel penhorado.
Ante a impenhorabilidade do bem de família, por tratar-se de norma de ordem pública e que se funda na tutela de direitos fundamentais constitucionalmente garantidos, como o direito de propriedade, de moradia e, antes de tudo, da dignidade da pessoa humana (artigos 1º, III, 5º, XI e XXII, e 6º, caput, da Constituição da República), por corolário, desconstituo parcialmente a penhora de fls.450/451 para liberar o imóvel quanto à residência, ou seja, a parte interna do apartamento.
Não obstante, mantenho a penhora em relação as garagens e o escaninho para garantia da execução. Isto, por entender que as sete garagens e o escaninho são dispensáveis à moradia/sobrevivência do executado, por não constituir bem de família nem tão pouco ofensa aos direitos fundamentais constitucionalmente garantidos, nem de moradia.
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Quanto à alienação fiduciária, conforme registro nº R-4-62.527 (fl.354), o financiamento é parcial e, conforme última declaração de ajuste anual juntado pelo embargante à fl. 406, o saldo devedor é de apenas R$ 928.356,07, sendo que o apartamento em si é perfeitamente suficiente para sua quitação, portanto, não há qualquer improbidade na manutenção da penhora das garagens e escaninho.
Deste modo, considerando que a avaliação das garagens e escaninho está embutida no valor global da penhora, declaro desmembrada a penhora, liberando o imóvel na parte interna/residencial e determino que se expeça mandado de reavaliação das sete garagens e escaninho de modo a garantir a execução destes autos."
Por pertinente, transcrevo, ainda, os fundamentos do voto de relatoria do desembargador Breno Medeiros, nos autos do AP-0173100-94.2005..5.18.0001, envolvendo situação semelhante a destes autos:
"Merece destaque o fato de que a desconstituição da penhora levou em consideração o fato de a executada residir no imóvel, o que observa o escopo da Lei 8.009/90, que conceitua bem de família o imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, definindo como impenhorável o imóvel, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, excluindo apenas os veículos de transporte, obras de arte e adornos suntuosos.
A norma em relevo não objetiva socorrer o devedor inadimplente, mas, sim, a subsistência da entidade familiar, razão pela qual a impenhorabilidade nela prevista abarca somente o imóvel residencial da entidade familiar, inexistindo qualquer ressalva concernente à vaga de garagem.
Ressalte-se, uma vez mais, que no caso em foco a análise dos fatos levou em conta a residência da executada no apartamento, o que, por óbvio, não alcança os boxes de garagem, que servem de mera comodidade à entidade familiar.
Assim, não há que se falar em prévia decisão quanto à impenhorabilidade dos boxes de garagem e escaninho pretendidos pela exequente.
Prosseguindo na análise da pretensão da exequente, deve ser anotado que um imóvel considerado bem de família, para que possa ser desmembrado, são imprescindíveis a observância de dois requisitos: não descaracterização do imóvel e ausência de prejuízo para a área residencial.
Nessa esteira, caso seja inviável o desmembramento ou quando a divisão resulte em alteração na substância do imóvel, pela ponderação dos interesses, deve prevalecer a impenhorabilidade do imóvel.
(....)
Destarte, nada impede o desmembramento dos boxes e do escaninho em questão, determinando-se as inscrições sob uma outra matrícula.
Tanto é verdade que, como é por demais consabido, é possível ceder ou alugar boxe de garagem e, igualmente, vendê-lo, desvinculando-o da unidade residencial correspondente.
O C. Tribunal Superior do Trabalho, decidiu nos seguintes termos in verbis: 'EMBARGOS DE TERCEIRO. PENHORA DE BOX DE ESTACIONAMENTO. Mantido o entendimento de que as vagas de garagem constituem-se em unidades autônomas, permitida, em conseqüência, a desvinculação do apartamento em que está estabelecida a residência da unidade familiar, sem descaracterizar a utilidade do bem.' (00073-2009-531-04-00-5 AP, 5ª Turma, Relatora Desª Tânia Maciel de Souza, DEJT de 16.09.2009).
Por todo o exposto, respeitada a condição de habitabilidade do imóvel e sendo possível o desmembramento do restante, não há que se impedir a incidência da penhora sobre referidos bens (...)"
Ante os fundamentos supra, nego provimento ao agravo de petição e mantenho a penhora efetivada. (fls. 541/543)
O Recorrente sustenta a impenhorabilidade das vagas
de garagem e escaninho, ao argumento de que “impenhorabilidade do bem de família,
no caso de condomínio, abrange a integralidade do bem, não sendo possível a penhora ainda que apenas
sobre sua fração ideal” (fl. 578). Afirma que as vagas de garagem e escaninho
não são unidades autônomas, sendo meros acessórios do imóvel, pois
possuem todos a mesma matrícula, o que impede qualquer tipo de
desmembramento. Aduz que “a vaga de garagem é impenhorável quando integra o condomínio
residencial onde está assentado o bem de família, exceto quando possua matrícula própria” (fl.
585). Afirma a ausência das excludentes de impenhorabilidade referidas
pelos artigos 3º e 4º da Lei nº 8.009/90. Invoca os arts. 6º e 5º, XXII,
223 e 226 da Constituição da República; 1º, 3º, 5º e 5º da Lei nº 8.009/90;
as Súmulas n
os375 e 449, ambas do c. STJ e a OJ EX SE nº 40 do TRT da
9ª região. Trouxe arestos.
Na origem, o juízo da execução desconstituiu
parcialmente a penhora realizada para liberar o imóvel quanto à parte
interna do apartamento, com fundamento na impenhorabilidade do bem de
família. De outro giro, manteve a constrição das garagens e do escaninho
para garantia da execução. Consignou que “as sete garagens e o escaninho são
dispensáveis à moradia/sobrevivência do executado, por não constituir bem de família nem tão pouco
ofensa aos direitos fundamentais constitucionalmente garantidos, nem de moradia” (fl. 541).
A Corte Regional manteve a penhora adotando as razões
de decidir da decisão de primeiro grau. Houve menção a julgado “envolvendo
situação semelhante” (fl. 542) em que se entendeu possível o desmembramento
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dos boxes e do escaninho, com a determinação de inscrição sob matrícula
diversa.
Nos termos da Súmula nº 449 do Superior Tribunal de
Justiça, a impenhorabilidade do bem de família não alcança a vaga de
garagem que possuir matrícula própria no registro de imóveis. No caso,
porém, depreende-se do acórdão regional que as vagas de garagem estão
vinculadas à unidade habitacional reconhecida como bem de família,
porquanto não há registro de que possuam matrículas diversas. Com efeito,
não cabe o órgão julgador determinar o desmembramento da matrícula para
fins de constrição das garagens e do escaninho.
Nesse sentido:
(...) II - RECURSO DE REVISTA. (...) IMPENHORABILIDADE. BEM DE FAMÍLIA. VAGA DE GARAGEM. ÚNICA MATRÍCULA 1 - A Lei nº 8.009/90 trata de matéria de ordem pública que garante a existência digna da família por meio de um patrimônio mínimo, principalmente se considerarmos o papel do Estado de preservar e promover o amparo e proteção da família (art. 226 da CF/88). 2 - As exceções para penhora do bem de família estão na própria Lei nº 8.009/90 (art. 3º) entre as quais não se inclui a vaga de garagem vinculada à mesma matrícula do imóvel. 3 - No caso, o Tribunal Regional manteve a penhora das vagas de garagem, mesmo tendo reconhecido que eram vinculadas a mesma matrícula do imóvel utilizado como moradia e se tratava do único imóvel do recorrente. 4 - Desse modo, se as garagens objeto da penhora estão compreendidas na mesma matrícula do imóvel que é considerado bem de família, tem-se que a defesa da propriedade do apartamento contra a constrição ilegal abrange necessariamente as respectivas vagas de garagens. Recurso de revista a que se dá provimento. (RR- 361185-36.2005.5.12.0032, Relatora Ministra Kátia Magalhães Arruda, 6ª Turma, DEJT 27/9/2013)
AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA. EXECUÇÃO. APELO INTERPOSTO NA VIGÊNCIA DA LEI N.º 13.015/2014. VAGA DE GARAGEM COM MATRÍCULA PRÓPRIA NO REGISTRO DE IMÓVEIS. BEM DE FAMÍLIA. NÃO CARACTERIZAÇÃO. PENHORA. POSSIBILIDADE. NÃO COMPROVAÇÃO DE VIOLAÇÃO DIRETA DE PRECEITO DE NATUREZA CONSTITUCIONAL. A jurisprudência desta Corte segue no sentido da possibilidade de penhora de vaga de garagem que possua matrícula própria, autônoma, no registro de imóveis, em relação ao bem de família. Agravo de Instrumento conhecido e não provido. (AIRR- 209200-74.1994.5.02.0261, Relatora Ministra Maria de Assis Calsing, 4ª Turma, DEJT 18/11/2016)
Ante o exposto, conheço do Recurso de Revista, por
violação ao art. 5º, XXII, da Constituição da República.
b) Mérito
Conhecido o recurso por violação constitucional,
tem-se, como corolário, a necessidade do seu provimento.
Dou provimento ao Recurso de Revista para declarar
insubsistente a penhora das garagens e do escaninho vinculados ao bem
de família.
ISTO POSTO
ACORDAM os Ministros da Oitava Turma do Tribunal
Superior do Trabalho, por unanimidade, conhecer do Recurso de Revista,
por violação ao art. 5º, XXII, da Constituição, e, no mérito, dar-lhe
provimento para declarar insubsistente a penhora das garagens e do
escaninho vinculados ao bem de família.
Brasília, 27 de fevereiro de 2019.
Firmado por assinatura digital (MP 2.200-2/2001)
MARIA CRISTINA IRIGOYEN PEDUZZI
Ministra Relatora