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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA JEFERSON BATISTA MONTEIRO
CRAVING: A INTENSIDADE DO PROCESSO DE FISSURA PARA DEPENDENT ES QUÍMICOS EM TRATAMENTO AMBULATORIAL NO CAPS-AD DE FLORIANÓPOLIS
Florianópolis 2013
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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA JEFERSON BATISTA MONTEIRO
CRAVING: A INTENSIDADE DO PROCESSO DE FISSURA PARA DEPENDENT ES QUÍMICOS EM TRATAMENTO AMBULATORIAL NO CAPS-AD DE FLORIANÓPOLIS
Pesquisa apresentada ao curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito à aprovação na disciplina de TCC II.
Orientador: Prof. Maurício E. Maliska, Dr.
Florianópolis 2013
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A todos que faleceram sem a d evida compreensão de que não eram e nunca foram. Simplesment e não conseguiram dizer o quão vazio estavam sent indo.
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AGRADECIMENTOS
Ao fim e ao início, a este Onisciente, Onipresente e Onipotente que guia tudo, da busca ao encontro. Luz que resplandeceu nas trevas, formando um horizonte de esperança em um futuro mais consci ente.
A minha filha Sophie que com muito amor adormece e desper ta todos os di as, compreendendo tudo com e mpatia de mestre.
A minha companheira Cristina, dedicada, simples, humilde e forte, acalmando e suprindo o vazio com muito carinho. Aos sogros que alimentam com todo afeto.
Minha mãe, que por pior que fosse a pressão não se desfez em nenhum momento, acreditando nesta causa. Meu pai, que por mais cansati va que fosse a viajem, não desistiu e continua batalhando por um mundo melhor. Aqui foram e sempre serão meus refletores.
Aos meus irmãos (as), que estiveram comigo e me conhecem com a palma de suas mãos. Em especial a Josiane que conviveu com minhas perturbações por grande parte do tempo.
Aos tios e primos que sempr e me acolheram de forma sábia.
Aos amigos e colegas que enfrentaram junto comigo esta jornada. Miguel (sensibilidade), Suelem (garra), Tuize (determinação), assim posso dizer de vocês.
Aos professores, mestres que puderam compartilhar de seu conhecimento. Ninguém tem a obrigação, mas si m a responsabili dade.
Ao meu orientador que não deixou a chama apagar, apoiando e motivando todos os passos.
A minha banca, que se di spôs a compartilhar esse momento comigo.
Aos profissionais do Caps-ad (Continente) que com muita humildade, perseverança, honra, simpatia, entusiasmo, inteligência, fazem dessa causa uma motivação par a um futuro melhor.
Aos “companheiros” que estão na luta, se tratando desta doença que avassala a soci edade. É preciso ter muita determinação pr a estar se tratando.
Ao fim, agradeço a todos que participaram dessa jornada, direta e indiretamente, constr uindo essa vi tória junto a mim.
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RESUMO
A dependênci a química é um tema que vem gerando um grande desconforto na sociedade em geral. Um dos grandes problemas na dependênci a química é o processo de fissura ou craving, grande influenciador das recaídas entre os usuários dependentes de substâncias psicoativas. A fissura é vista como um desejo compulsivo pela utilização da droga de dependênci a e também pela alteração psíquica e física que ocorre com o indivíduo. Geralmente o que influencia no processo de fissura, conforme a literatura especializada, são as relações familiares, relações sociais e relação com os recursos financeiros. Esta pesquisa tem por objetivo geral identificar a intensidade do processo de fissura para os dependentes químicos em tratamento ambulatorial no Caps-ad de Florianópolis. O método utilizado foi de natureza quantitativa, de classificação exploratória, levantamento de dados e de coorte transversal. Os participantes da pesquisa foram 43 sujeitos entre homens e mulheres em tratamento ambulatorial no Caps-ad Continente de Florianópolis, com idade média de 42,7 anos. Foi elaborado um questionário com perguntas fechadas, que permitiu aos sujeitos da pesquisa identificar e quantificar a sua fissura em progressão quantitativa. Para chegar aos objetivos propostos, foi realizada uma análise quantitativa da média sobre as respostas dos sujeitos, verificando que todas as categorias e subcategor ias propostas influenciam de alguma forma para o processo de fissura. Com isso, chegou-se ao resultado de que a principal influência para o processo de fissura é a dos recursos financeiros, chegando a uma média de 1,64 de intensidade, ou seja, entre baixa e média intensidade . No entanto, as influências sociais também chamaram atenção pela média de 1,04, estabelecida como baixa intensidade e a média mais baixa, porém com bastante i mportância são as i nfluências familiares que ficaram em 0,53; ou seja, entre nenhuma intensidade e baixa intensidade para o processo de fissura. Sendo assim, pôde-se concluir com esta pesquisa que os três fatores selecionados influenciam para o processo de fissura dos indivíduos dependentes químicos, independente da sua dr oga de preferência.
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LISTA DE FIGURAS E GRÁFICOS
Figura 1 – As políticas dos 12 passos...16
Gráfico 1 – Nível de Escolaridade dos Participantes...24
Gráfico 2 - Principais Influências p ara o Processo de Fissura... ...25
Gráfico 3 – Influências Familiares p ara o Processo de Fissura...27
Gráfico 4 – Influências Sociais para o Processo de Fissura... ...30
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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AA – Alcoólicos Anônimos
CAPS-AD – Centro de Atenção Psi cossocial Álcool e outras Drogas CREAS – Centro de Referência Especializado em Assistência Social DST – Doença Sexual mente Transmissível
IPQ – Instituto de Psiquiatria NA – Narcóticos Anônimos
OMS – Organização Mundial da Saúde SENAD – Secretaria Nacional Anti-Drogas SNC – Sistema Nervoso Centr al
SPA – Substânci a Psico-Ativa UBS – Unidade Básica de Saúde WHO – World Health Organization
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 9
1.1 OBJET IVOS ... ... ... ... 14
1.1.1 Objet ivo Geral ... ... ... .14
1.1.2 Objet ivos Específicos ... ... ... 14
2. A DEPENDENCIA QUÍMICA E AS SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS ... 15
2.1 DO PROCESSO DE CRAVING ... ... ... 17
2.2 DO T RATAMENTO ... ... ... 19
3 MÉTODO... ... ... ... 22
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS ... 25
4.1 INTENSIDADE DO CRAVING DEVIDO A INFLUÊNCIA F AMILIAR ... 28
4.2 INTENSIDADE DO CRAVING DEVIDO A INFLUÊNCIA SOCIAL ... 31
4.3 INTENSIDADE DO CRAVING DEVIDO A INFLUÊNCIA DE RECUR SOS FINANCEIROS ... ... ... ... 34 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 36 REFERENCIAS: ... 38 APÊNDICE ... 44 APÊNDICE A... ... ... ... 44 APÊNDICE B... ... ... ... 47 APENDICE C ... ... ... ... 49
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1 INTRODUÇÃO
A temática Droga de Abuso é um assunto que vem chamando a atenção, cada vez mais, das autoridades governamentais, universidades e da sociedade como um todo pelo crescente número de pessoas dependentes desse tipo de substânci a. Conforme Lessa (1998, p.10), “na década de 20 já existiam aproximadamente mais de 100 mil usuários de drogas no mundo, aumentando esses númer os a cada década”.
Droga de abuso é qualquer substância ou preparação, com pouco uso médico, consumido primariamente pelos seus efeitos prazerosos, exóticos ou estimulantes. Dentre elas temos: o tabaco e o álcool, que são drogas sociais por excelência; os inalantes, a maconha, a cocaína, o LSD, a mescalina e extratos de cogumelos que são drogas ilícitas. Também temos substânci as que só devem ser usadas sob receita médica, como moderadores do apetite, estimulantes, calmantes, entre outras que também passam a ser drogas de abuso, quando utilizada para outros fins ou em excesso, segundo a Secretaria Nacional Anti-Drogas (SENAD, 2008).
As drogas perturbadoras como o LSD, cannabi s, cocaína, heroína, crack, entre outras, tiveram seu uso popularizado no ocidente a partir da década de 60, com o movimento de contracultura hippie. Este movimento tratava basicamente de uma “revolta contra valores exclusivamente competitivos e materialistas, incorporados ao modo de vida das sociedades industriais” (p. 21), ou seja, um movimento contra a crescente demanda comercial da economia capitalista. Tal movimento tentava evocar para o primeiro plano, os sentimentos íntimos e as necessidades místi co-religiosas. (PORTO, 2006)
De acordo com World Healt Organization (2003, p.22), no ano de 2000 foram diagnosticados 76,3 milhões de indivíduos com problemas relacionados ao uso de álcool, sendo que dessas pessoas, pelo menos 15,3 milhões já sofreram algum distúrbio psiquiátrico. O documento da WHO (2003) refere que o uso de álcool e outras drogas vêm sendo um dos maiores problemas de saúde pública no mundo e que “mundialmente o uso de álcool respondeu por 4% do total de doenças no ano de 2000” (p.22).
10 No ano de 2005, conforme Galduróz (2005), foi elaborado o II Levantamento Domiciliar no Brasil, onde foram entrevistados 7939 brasileiros e dentre esses participantes, 24,5% estão dentro dos critérios de dependênci a de alguma substânci a psicoativa e 75,5% já experimentaram ou utilizam algum tipo de substanci a sem serem considerados abusador es ou dependentes dessas drogas.
Com a crescente utilização inadequada das Substâncias Psicoativas (SPA), os usuários casuais acabam por criar uma dependênci a, chamada de dependênci a química, que se caracteriza principalmente pelos efeitos devastador es na saúde psicofísica e social desses usuários, ou seja, os usuários perdem os vínculos familiares, profissionais e de amizades. Além disso, esses usuários, ou dependentes também começam a apresentar complicações físicas como hepatopatias, cardiomiopatias e aumentando o risco de obter Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Também podem desenvolver doenças psíquicas como psicoses, escleroses e crises convulsivas devido ao uso e em casos de abstinência do uso compul sivo. (LARANJEIRA; DUNN; D E ARAÚJO, 2002).
Segundo o Senad (2008) a dependênci a química é caracterizada quando o usuário de SPA não consegue controlar o consumo de drogas, agindo de forma impulsiva e repetitiva. É um forte desejo que leva o dependente químico a consumir a droga sem se dar conta dos prejuízos causados, se prendendo somente ao prazer da sensação mo mentânea.
Conforme a III Conferência Nacional de Saúde Mental 2001 (III CNSM, Relatório Final, 2001), as políticas sobre drogas vêm sendo pensadas com ênfase na Saúde Pública, visto que anteriormente o problema da dependênci a química era percebido por um viés criminoso, ou seja, baseado na associação drogas-comportamento anti-social. As novas políticas partem para um eixo da saúde, contribuindo para uma percepção da dependência química como doença mental, devendo ser tratada como tal, visando a abstinência e de acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde.
Ainda de acordo com a III CNSM (2001) as políticas de abordagem e execução para as políticas anti-drogas são duas: “redução da oferta e redução da demanda”, sendo que a primeira fica de responsabilidade dos órgãos de Justiça, da Segurança e da Defesa, visto que combateria o trafico dessas drogas. Já a segunda ficaria assessor ado pelo Ministério da saúde sendo responsável pelo tratamento,
11 internação e acompanha mento dos dependentes químicos, afastando -os dos “agentes indutor es”.
Atualmente as políticas de saúde agem com alguns eixos de tratamento, como tratamentos ambulatoriais em Centro de Apoio Psico-Social (CAPS) colaborando com as políticas de redução de danos, Comunidades Terapêuticas que visa a abstinência por internação de longo prazo ou em Hospitais Psiquiátricos, dispondo de tratamento em curto prazo visando somente a desintoxicação de usuários que estejam em estado de abstinênci a grave. (BRASIL, 2004).
Este trabalho tem o objetivo de se ater, a princípio, nos parâmetros de tratamentos ambulatoriais em Caps-ad. As principais características são acolher pessoas com transtornos mentais, favorecendo, apoiando e estimulando a “integração social, familiar apoiando-os em iniciativas de busca pela autonomia, bem como oferecer tratamento médico e psicológico”. Os Caps també m são responsávei s por desenvolver estratégias de sociabilização dos usuários, integrando-os em ambientes sociais e culturais sem necessari amente retirá-los desses ambientes. (SÁ VIEIRA, et al., 2008, p. 277).
A partir da criação dos CAPS e NAPS (Núcleo de Apoio Psico Social), pela Portaria GM 224/92, o Ministério da Saúde criou o Programa de Volta para Casa, tirando os usuários internados em manicômios e integrando-os na sociedade com o trabalho das chamadas Residências Terapêuticas. Em 2011 o Ministério da Saúde baixou a Portaria 3.088/20111 instituindo os pontos de apoio para tratamento de pessoas com transtornos devido ao uso de drogas pelo setor da saúde, como Caps-ad. Os Caps-ad (Centro de Apoio Psico Social para Alcool e outras Drogas) são locais para tratamento de dependênci a química. Conforme as diretrizes do Ministério da Saúde, o Caps-ad é um sistema de tratamento para pessoas com sofrimento decorrente do uso de álcool e outras drogas, que conta com uma equipe interdisciplinar composta por profissionais da psicologia, medicina, enfermagem, serviço social, pedagogia, ter apeutas ocupacionai s entre outros. (SENAD, 2008).
Um dos fatores mais complicados para o tratamento da dependênci a química, conforme Marlatt, Donovan & cols. (2009), Zeni & Araújo (2010, p.29) são os processos de Craving ou de Fissura, pois é um processo que:
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Disponível em: <http://www.brasilsus.com.br/legislacoes/gm/111276-3088.html>. Acessado em 27 de jun. 2013.
12 [...] deixa o dependente químico em tratamento, vulnerável ao abuso de drogas e pode levá-lo a recaída e ao abandono terapêutico, mesmo diante da vontade convicta de abstinência ou depois de grande período abstinente. O craving pode ser desencadeado pelo que se denominam gatilhos – situações, imagens, sons, odores -, que são sugestões cognitivas internas ou ambientais pareadas ao uso de drogas.
Nesta pesquisa iremos priorizar o termo fissura e não craving, pois é um termo usualmente tratado e conhecido pelos dependent es de SPA e usuários dos Caps-ad. Fissura é culturalmente utilizado no Brasil para denominar esse processo de intenso desejo de usar a substância. Porém, no âmbito acadêmico é mais adequada a utilização da palavra craving, pois é a palavra que melhor conceitua este processo (ARAÚJO, 2008). No entanto, como a palavra fissura é como sinônimo para craving, as duas serão utilizadas para conceituar o mesmo processo, variando quanto ao uso popular ou acadêmico. Cabe salientar que apesar dessa variação, trata-se do mes mo conceito.
O processo de craving para Marlatt & Gordon ( 1993), Marlatt, Donovan & col s. (2009) ocorre quando o sujeito sente uma forte compulsão, pensamentos compulsivos por usar a droga que é dependente podendo o levar a um lapso2 ou a recaída. Podem tanto ocorrer, ainda de acordo com os autores, estados ansiosos de humor como irritação, estado depr essivo e euforia como também náuseas.
Há uma tendênci a em ocorrer o processo de fissura nas relações familiares, sociais e financeiras. Como afi rmam Alvarez (2007) e Araújo (2008), o craving ocorre corriqueiramente quando o sujeito dependente químico tem que lidar com situações de conflito na família, situações sociais que associem as ocorridas quando o mesmo utilizava droga e também aos recursos financeiros, onde se apóia o financiamento do consumo de drogas. Ainda conforme os autores, todas as situações conflituosas vivenciadas pelos indivíduos dependentes químicos são fortes gatilhos para o processo de fissura.
Com isso, percebe-se a importância de responder a seguinte questão: Qual a intensidade do processo de fissura sobre as principais influências para dependentes químicos em tratamento ambulatorial no Caps-ad?
Em justificativa para a presente pesquisa, tomam-se por relevância social os dados apresentados pelo II Levantamento Nacional de Alcool e outras Drogas (LENAD II). De acordo com os dados do LENAD o Brasil é o maior consumidor de
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Lapso é a utilização da droga em período curto e pouca quantidade durante o período de tratamento e abstinência do uso de droga. (MARLATT, DONOVAN & cols., 2009).
13 cocaína inalada e fumada (Crack) do mundo, sendo que no último ano foram mapeados 244 mil adolescentes que usaram essa substânci a e 2,6 milhões de adultos. Cerca de 45% dos usuários experimentaram cocaína pela primeira vez antes dos 18 anos. Desses números um milhão de usuários se considera dependentes de cocaína, sendo que 62% de cocaína inalada e 38% em cocaína fumada (crack). O Brasil representa 20% do consumo de cocaína\crack do mundo, sendo o maior mercado de crack do mundo. Ainda de acordo com esse estudo, somente 10% dos usuários de cocaína procuraram tratamento para o problema e 30% desses dos entrevistados pretendem procurar ajuda nos próximos meses (LARANJEIRA et. al ., 2012).
Em relação a estudos científicos sobre saúde mental e dependência química o Brasil está muito atrás de diversos países. De acordo com Diehl, Cordeiro, Laranjeira & cols (2000) a porcentagem de pesquisas efetivadas no Brasil está muito abaixo dos outros, sendo que:
[...] 90,4% da produção bibliográfica, científica e tecnológica mundial estão concentrados em 42 países e, destes, os cinco mais produtivos ao Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Alemanha e França. Os 9,6% restantes estão distribuídos em outros países, sendo que o Brasil corresponde a apenas 2,5% dessa produção. Os países caribenhos e da América Latina que apresentam mais alto nível de desenvolvimento em pesquisa em saúde mental são Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Venezuela. (p. 347).
No entanto, nos últimos anos o Brasil vem desenvol vendo uma eficácia em relação aos números de pesquisas efetivadas, aumentando consideravelmente o número de artigos publicados na área de saúde mental em revistas estrangeiras, sendo que o “número de artigos publicados na MEDLINE triplicou”. Já no banco de dados do “Institute for Scientific Information (ISI) dobrou” de acordo com Diehl, Cordeiro, Laranjeira & cols (2010, p. 347) .
Por tais números considera-se a importância de investigar e conhecer cada vez mais sobre os processos da dependência química. Visto que a cada ano o número de usuários dependentes de álcool e outras drogas aumentam exorbitantemente, sendo esse evento considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2006) uma epidemia mundial, pois atinge toda a gama social, não havendo distinção entre classe social baixa ou alta.
A WHO (2003) afirma que o impacto social e econômico dos transtornos mentais custa bilhões de dólares por ano para as economias mundiais, afetando a
14 renda pessoal e familiar também. WHO (2003) referenciando (HARWOOD, 2000) informa que o custo em 1998 somente para os Estados Unidos foi aproximadamente US$185 bilhões. Tais números denotam a importância não só do tratamento para a dependência, como para as políticas de informação, ou seja, políticas de prevenção ao consumo de drogas, como também aponta o documento oficial da WHO (2003), onde estudos demonstram “a prevalência de transtornos mentais comuns ligados a baixa escolaridade” (apud, PATEL & KLEINMAN, 2003, p. 25). No entanto, há grande importância nas pesquisas científicas baseadas em estudos com os próprios dependentes químicos, para conseguir mapear as principais faltas que geram a dependência quími ca.
Por esses números e problemas específi cos, considera-se de alta relevância científica o aprofundamento no conhecimento sobre os processos de fissura do dependente de substâncias psicoativas, para que se possam buscar estratégias e recursos de tratamento e enfrentamento para essa doença e esclarecimento para que se possam elaborar políticas mais eficazes para prevenção do uso e abuso de tais substânci as.
1.1 OBJETIVOS
1.1.1 Objetivo Geral
Avaliar a intensidade das principais influências sobre o processo de fissura de dependentes quími cos em tratamento ambulatorial no Caps-ad de Florianópolis.
1.1.2 Objetivos Específicos
Identificar a intensidade da influência familiar para o processo de fissura de dependentes quími cos em tratamento a mbulatorial.
Identificar a intensidade da influência social para o processo de fissura de dependentes quími cos em tratamento a mbulatorial.
Identificar a intensidade da influência de recursos financeiros para o processo de fissura de dependentes quími cos em tratamento a mbulatorial.
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2. A DEPENDENCIA QUÍMICA E AS SUBST ÂNCIAS PSICOATIVAS
Substância psicoativa (SPA), drogas de abuso ou drogas psicotrópicas, são as substânci as que agem di retamente no si stema nervoso centr al (SNC), alterando o estado de humor, emocional, pensamento, comportamento, ou seja, estado alterado de consciênci a e que levam o indivíduo a sua dependência , conforme aponta m Carlini, et al (2001).
Nesta concepção estão as drogas depressoras, estimulantes e as perturbadoras. Conforme o OBID (2007)3:
As drogas depressoras do sistema nervoso central – álcool, barbitúricos, benzodiazepínicos, inalantes e opiáceos - fazem com que o cérebro funcione lentamente, reduzindo a atividade motora, a ansiedade, a atenção, a concentração, a capacidade de memorização e a capacidade intelectual. As estimulantes do sistema nervoso central - anfetaminas, cocaína e tabaco-, por outro lado, aceleram a atividade de determinados sistemas neuronais, trazendo como conseqüências um estado de alerta exagerado, insônia e aceleração dos processos psíquicos.
As drogas perturbadoras do sistema nervoso central – maconha, alucinógenos, LSD, êxtase e anticolinérgicos – produzem uma série de distorções qualitativas no funcionamento do cérebro, como delírios, alucinações e alteração no senso-percepção.
Todas estas substâncias psicoativas são potenciais causadores de dependência. De acordo com (BRASIL 2004; CID-10 1993; DUNCAN, SCHMIDT & GIUGUIANI 2004; DSM-IV 1994; OMS 2001; PULCHEIRO, BICCA & SILVA 2002; SENAD 2008 ) há uma diferenciação nos concei tos de uso abusi vo e dependênci a de SPA. De acordo com os autores, o uso abusivo é caracterizado por um hábito de usar social, ou seja, uso constante com prejuízos nas obrigações de trabalho, escola ou em casa. Já a dependênci a é distinguida pela necessidade, nitidamente aumentada em quantidade, diminuição da qualidade e freqüência pelo uso de SPA compulsivamente.
De acordo com OMS (2001); Ministério da Saúde (2003); SENAD (2008) a dependência química se caracteriza por um transtorno que afeta diferentes âmbitos sociais e familiares em diversos contextos e circunstâncias, predominando a heterogeneidade dos sujeitos dependentes.
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16 Pulcherio, Bicca e Silva (2002), corroborando com o par ágrafo acima, afirmam que a dependência química se distingue pela necessi dade física ou psicológica do uso da substânci a de modo contínuo, tornando-se um hábito e perdendo o discernimento e o ímpeto de dizer não para o uso. No entanto, os autores distinguem a dependênci a psicológica como a busca pelo saciar a vontade de sentir o prazer que a droga proporciona. Os autores também conceituam a noção de dependência física como sendo a “adaptação fisiológica do organismo ao uso crônico da SPA”, dessa forma quando o usuário tenta parar acaba sofrendo da síndrome de abstinência, “provocando sintomas fisiológicos pela retirada abrupta da droga” (p.09). Tais sintomas podem ocorrer em forma de náuseas, dores de cabeça, delírium tremens, entre outros.
Dentro da Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento (CID-10, 1993) todas as dependênci as químicas são classificadas dentro de um mesmo conjunto, o de “Transtornos Mentais e do compor tamento decor rentes do uso da [...] ” e então identificam o nome da substância. De acordo com o CID-10 as classificações para os transtornos decorrentes ao uso de SPA vão de F10, que é devido ao uso de álcool ao F19 classificando o transtorno mental decorrente do uso de múltiplas drogas.
Ao encontro do CID-10, o Manual Diagnóstico Estatístico de Doenças Mentais (DSM IV), organizado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA, 1994), classifica a dependência química como “transtorno relacionado ao uso de substânci a”. Os critérios principais para inclusão desse transtorno são prejuízos à cognição ou no humor, que são os sintomas mais corriqueiros, comportamentais e fisiológicos que indiquem um uso compulsivo pelo indivíduo mesmo este se este sabendo que há problemas, perdas significativas pelo padrão de uso de SPA. O DSM-IV também indica que o diagnóstico de dependênci a de substância “pode ser aplicado a qual quer classe de substâncias, exceto cafeína ” (p.171).
Portanto, compreende-se a dependênci a de substânci as psicoativas ou dependência química, como um transtorno devido aos prejuízos familiares, sociais que deteriora, desequilibra todas as relações dos usuários de SPA fazendo-o buscar somente a satisfação, o prazer, a sensação de alívio que as drogas de abuso lhe proporcionam. Essa busca compulsiva pelo uso de SPA, invade, envolve progressivamente a vi da do dependente quími co.
17 2.1 DO PROCESSO DE CRAVING
Pulcherio, Bicca e Silva (2002) afirmam que o processo de craving é uma compulsão, um desejo, uma busca exacerbada pela satisfação imediata, pela sensação de alívio. Os autores expõem que o termo fissura foi uma tradução para dar sentido a palavra inglesa craving, que na tradução real quer dizer desejo ardente. Craving é termo mais adequado nos meios científicos, porém, o termo fissura é culturalmente utilizado entre usuários e dependentes de SPA e também na relação entre técnico (médico, psicólogo, entre outros) e os pacientes conforme Araújo et. al. (2008). Com isso, os termos craving e/ou fissura são utilizados como sinônimos para o mesmo processo ent re os autores descritos neste capítul o.
Conforme Dalgalarrondo (2000) o processo de fissura é um dos sintomas psicofisiológicos que o indivíduo sofre pelo abuso de SPA, sendo este um sinal de abstinênci a pela retirada ou falta da substância no organismo. Ou seja, quando ocorre uma “diminuição da freqüência do uso da substância ou mesmo quando a ingestão da dr oga é interrompida” (p. 213).
Quando ocorre a fissura, o indivíduo pode sofrer algumas alterações fisiológicas dependendo do grau de dependênci a. Dalgalarrondo (2000) afirma que a intensidade do processo de abstinência depende de cada droga ingerida ou mesmo do grupo de drogas que o sujeito seja dependente. Em geral essa fissura pode causar dores fortes de barriga, enjôo, ansiedade exacerbada, náuseas, sudoreses e até convul sões.
De acordo com Araújo (et al, 2008, p.58) a fissura é concebida como “um intenso desejo de consumir determinada substância”. No entanto, os autores ainda contemplam, mais além deste conceito, a idéia de a fissura ser definida como um “estado de motivação orientado ao consumo de drogas” (p. 58). Ao encontro dessas afirmações, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2001) define a fissura como sendo “o desejo de repetir as experiências e os efeitos” causados pela utilização de SPA.
Chaves et. al. (2011) afirmam que o processo de fissura é um determinante para a compulsividade no uso de SPA e sua dependênci a. Também afirmam que o processo de fissura aumenta a possibilidade de o dependente químico obter
18 problemas de saúde, familiares e sociais devido à falta de estratégias para lidar com o craving. Ainda de acordo com os autores, a existência de algumas estratégias de controle da fissura é contornada por questões sociais, ambientais e familiares, situações essas que aumentam consideravelmente a intensidade do processo de fissura para o dependente quími co, esteja ele em uso ou e m abstinência.
Conforme Alvarez (2007), Chaves, et. Al. (2011), Marlatt, Donovan & cols. (2009) as principais influências para o processo de fissura são os conflitos familiares, os recursos financeiros e os ambientes sociais. Ou seja, de acordo com os autores, o processo de craving ocorre quando acontecem alguns conflitos na família que envolve o dependente quími co, uma quanti a em dinheiro ou algum objeto de valor que o dependente químico possa trocar por droga de abuso. Os autores também explicitam que o processo de fissura pode ter como gatilho os fatores ambiental e/ou social, onde o indivíduo deve lidar diretamente com situações que o fazem associar ao uso e as sensações que a droga proporcionava antes de se tratar. Essas situações podem ocorrer em um bar onde ingeria álcool com amigos, dentro de casa onde deve organizar a bagunça ou a desordem em que a casa se encontra, em festas familiares onde as pessoas da sua própria família fazem o consumo de drogas, em situações judiciais onde gera bastante desconfor to, entre outras.
Então a fissura pode ser conceituada, a partir dos autores citados neste tópico, por ser um desejo compulsivo de usar uma determinada substânci a que pode levar o sujeito a um estado de consciência alterado, ou seja, aumentando a sensibilidade e alterando a per cepção do indivíduo à partir de variadas situações. De acordo com Marlatt, Donovan & cols. (2009, p.30) a “fissura e a recaída são fenômenos independentes [...] a fissura é preditiva da recaída”, então a recaída acontece após a fissura, no entanto a fissura pode ocorrer sem necessar iamente acontecer a r ecaída.
De acordo com Diehl, Cordeiro, Laranjeira & cols (2010) alguns estudos recentes vem relacionando o processo de craving a fatores genéticos, ou seja, dependentes de SPA com histórico familiar também de dependênci a apresentam “maior intensidade de fissura em situação de estresse do que aqueles que não têm essa história” (p. 63). Ainda de acordo com os autores, o processo de fissura:
19 [...] está relacionado a alterações em vários sistemas de neurotransmissão, como dopamina, serotonina, opioides, grutamato e noradrenalina, que podem variar de acordo com o comportamento de procura pelas drogas. (p. 62) Com isso, percebe-se que a fissura não é somente um componente psicológico, mas também fisiológico e genético do dependente de SPA. Por isso, o uso de medicamentos é de extrema importância para a redução dos sintomas da fissura. Porém, ainda não temos medicamentos com eficácia comprovada para a anulação do processo de craving em sua totalidade. No entanto, há estudos em andamento para comprovação dos efeitos desses fármacos para a inibição total do processo de fissura, conforme aponta Diehl , Cordeiro, Laranjeira & cols. (2010).
2.2 DO TRATAMENTO
Atualmente o Brasil desenvolve alguns métodos de tratamento para reabilitação de dependênci a química, ou seja, para pessoas que queiram se tratar do uso que faz de SPA. Os modelos de assistência a saúde dos usuários de drogas de abuso são: tratamento em Serviço Ambulatorial (Caps-Ad), tratamento em Comunidade Terapêutica, tratamento em Institutos de Psiquiatria (IPQ) e tratamento em Serviços de Atenção a Saúde em Geral como em Hospitais e Unidade Básica de Saúde (UBS), Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos Anônimos (NA). Todas as estruturas de assistência ao usuário de SPA são diferenciadas. Nesses contextos o trabalho deve ser de integração entre os setores e serviços, não havendo melhor ou pior, mas sim aquele que é mai s adequado ao mo mento do usuário. (BRASIL, 2004). Dentro dessas estruturas de tratamento ao usuário de SPA o Caps-ad tem papel fundamental e central nos encaminhamentos para todos os serviços de apoio, ou seja, o Caps-ad funciona como um articulador entre a rede de atenção ao tratamento da dependênci a química. Logo, é de responsabilidade do Caps-ad promover atendimento clínico em regime de atenção diária, agenciar a inserção social dos usuários através de ações intersetoriais e adequar a entrada dessas pessoas no serviço de assistência ao paciente com transtornos mentais devido ao uso de drogas. É de suma responsabili dade também reaver os laços familiares desses pacientes, auxiliando-os em seu trabalho de reorganização desses laços. (SHIOKAW A, 2010).
20 Com isso, conforme Shiokawa (2010) o Caps-ad serve tanto como serviço de tratamento ambulatorial, como também de apoio ao encaminhamento para rede de atenção, ou seja, encaminhando os pacientes para UBS, CREAS, IPQ, Comunidades Terapêuticas, hospitais gerais, como também recebendo tais pacientes, formando uma rede de apoio eficiente no tratamento da Dependênci a Química. O Caps -ad conta com u ma gama de profissionais especializados para esse tratamento como psicólogos, psiquiatras, clínicos gerais, enfermeiros, assistentes sociais, entre outros. O tratamento no Caps-ad está focado nos objetivos de tratamento do paciente, não se restringindo a abstinência em si, trabalhando junto a redução de danos, ou seja, atuando em prol da diminuição e conscientização dos problemas de saúde envol vidos no abuso de SPA.
O tratamento em Comunidade Terapêutica funciona em regime semi-aberto, ou seja, como uma residência terapêutica em que os residentes seguem regras especifi cas, restringindo alimentação, laços sociais e o uso de SPA, tendo que o usuário ficar totalmente abstinente das drogas de abuso. O tempo para tratamento em comunidade terapêutica varia de oito meses a um ano, sendo que os usuários que se adequarem passam por graus que funcionam bem como hierarquias, como monitores e coordenadores.
Nas unidades do IPQ são tratados os pacientes que apresentam problemas maiores em decorrência da dependênci a, ou seja, transtornos físicos e ou psíquicos mais graves, sendo esse tratamento em regime de desintoxicação, onde os usuários passam alguns dias. A passagem de um paciente no IPQ dura de acordo com o seu grau de dependênci a e podem levar de quinze a trinta dias internados para esse processo. Nesta fase de desintoxicação, o IPQ contribui com atividades terapêuticas, assistindo seus paci entes no desenvolvimento da autonomia e també m com grupos de familiares, fazendo atividades reflexivas e informativas sobre a dependência quími ca.4
Todos os meios de tratamentos contam com o apoio externo dos métodos de reflexão, orientação pelos grupos de AA e NA, sendo que a proposta principal funciona a partir do principio dos 12 passos. Esses grupos são compostos por dependentes químicos em abstinência, composto por uma hierarquia de tempo sem uso, ou seja, cada usuário abstinente por determinado tempo recebe uma insígnia
4
Disponível em: <http://www.saojosecentrodepsiquiatria.com.br/atividades_terapeuticas.php>. Acessado em 06/10/2012.
21 que determina a função e orientação dessa pessoa neste grupo. Tais grupos estão espalhados pelas cidades, geralmente funcionando em uma sala com horários pré-dispostos para atender a todas as demandas de pessoas que queiram se tratar da dependência química. As reuniões acontecem de forma gratuita estando em mais de “cento e trinta países e contando com cer ca de 55.000 r euniões semanai s”5
.
Os 12 passos, contido em quase todos os meios de tratamento são fundamentos filosóficos que requerem disciplina e constituídos de acordo com a numeração conforme Figura 1:
1º. Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis. 2º. Viemos a acreditar que um Poder maior do que nós poderia devolver-nos à sanidade.
3º. Decidimos entregar nossa vontade e nossas vidas aos cuidados de Deus, da maneira como nós o compreendíamos. 4º. Fizemos um profundo e destemido inventário moral de nós mesmos.
5º. Admitimos a Deus, a nós mesmos e a outro ser humano a natureza exata das nossas falhas. 6º. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter. 7º. Humildemente pedimos a Ele que removesse nossos defeitos.
8º. Fizemos uma lista de todas as pessoas que tínhamos prejudicado, e dispusemo-nos a fazer reparações a todas elas.
9º. Fizemos reparações diretas a tais pessoas, sempre que possível, exceto quando faze-lo pudesse prejudica-las ou a outras.
10º. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
11º. Procuramos, através de prece e meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, da maneira como nós O compreendíamos, rogando apenas o conhecimento da Sua vontade em relação a nós, e o poder de realizar essa vontade.
12º. Tendo experimentado um despertar espiritual, como resultado destes passos, procuramos levar esta mensagem a outros adictos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.
Figura 1
Fonte: Site <http://www.alcoolicosanonimos.org.br/36-principios/os-doze-passos.html>. Acesso em: 21 de nov. 2012.
Estes são os principais meios de tratamento para a dependênci a química existentes no Brasil, sendo que, como referido anteriormente, são todos complementares, sendo de exclusivo as pessoas que queiram se tratar da dependência de SPA, no entanto nem todos se basei am no foco da abst inência total, ou seja, com o objetivo de parar de usar todas as drogas de abuso. Entre as políticas de tratamento, se destacam as políticas focadas na redução de danos, que se baseiam fundamental mente nas pessoas que “não conseguem ou não querem parar de usar drogas” (p. 18) sendo um redutor dos danos causados pelo uso e abuso de drogas. Esse programa age, a princípio, na diminuição da proliferação de doenças causadas pelo uso e abuso de drogas, por exemplo, HIV e Hepatite, assim como na troca de substâncias que causam maior prejuízo por outras que causam menor prejuízo à saúde, como usar somente maconha ao invés de crack e ir diminuindo esse uso com o tempo. A política de redução de danos propõe
5
22 alternativas para minimizar os prejuízos psicológicos, sociais, econômicos e físicos que estão atr elados ao uso e abuso de SPA . (BRASIL, 2008).
As unidades do Caps-ad trabalham com a política de redução de danos, portanto, atuam não somente na abstinência total, mas sim, da abstinência parcial recomendado nos fundamentos desta política. Por exercer essa política os Caps-ad atuam com propostas em grupo e individuais. Portanto, atuam com tratamento ambulatorial, voltado a abordagens psicoterapêuticas e farmacológicas, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde ( 2003).
Diehl, Cordeiro, Laranjeira & cols. (2010) afirmam, ao encontro das políticas públicas de tratamento da dependênci a química, que os tratamentos fundamentados na combinação de abordagens psicoterapêuticas, motivacionais e farmacológicas aumentam a aderência, o vínculo e os resultados no tratamento. Porém, o tratamento com fármacos deve ser elaborado por profissionais especializados e sempre com bastante cautela, pois as medicações utilizadas para esses tratamentos, os benzodiazepínicos, também são grandes causadores de dependência. Portanto, a administração de medicamentos deve ser fundamental mente super visionada eticamente por um profissional da medicina.
3 MÉTODO
Esta pesquisa é de natureza quantitativa, pois serão apresentados tabelas, gráficos onde foi possível orientar sobre a quantidade do fenômeno estudado. Também é classificada como exploratória, pois teve o objetivo de compreender o fenômeno formulando hipóteses, propostas, intervenções e estudos posteriores. Este estudo também é de levantamento de dados, visto que foi aplicado um questionário (Apêndice A), estruturado com perguntas fechadas. Também teve característica de coorte transversal onde se pôde averiguar a intensidade das amostras, ou seja, foi utilizado para descrever associações entre variáveis, onde teve como principal característica avaliar a intensidade do processo de craving entre dependentes quími cos em tratamento do mun icípio de Florianópolis.
23 O questionário foi elaborado a partir das características apresentadas no relatório final de um trabalho para disciplina de “Metodologia da Pesquisa II”, denominado “Craving: um estudo de caso sobre a percepção de um dependente químico acerca das principais influências para o processo de fissura”. Nesse trabalho foram apresentados alguns dados relevantes para nortear os objetivos específicos e o questionário da presente pesquisa, baseando -se nas principais categorias que são: influências familiares, influências sociais e influências de recursos financeiros. Para o questionário foi utilizado o termo fissura, visto que é o termo mais utilizado culturalmente pelos sujeitos em tratamento e pelos profissionais da área.
O questionário foi elaborado com perguntas fechadas para a organização e orientação das respostas dos usuários. O questionário foi aplicado em sala fechada e silenciosa no próprio Caps-ad, individualmente, onde o pesquisador pôde auxiliar na aplicação dos questionários junto a cada participante. Também foi reservado horários tanto com a instituição quanto com os participantes e aplicado o instrumento no período da manhã e da tarde, período este em que os usuários estavam participando dos projetos terapêuticos. A duração aproximada foi de 15 minutos.
Após as autorizações do Comitê de Ética em Pesquisa Unisul (CEP) e da Secretaria da Saúde de Florianópolis, foi realizado contato com o coordenador do Caps-ad para agendar uma apresentação do projeto e também verificar os melhores horários para aplicação dos questionários. Na aplicação do questionário, primeiramente foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para os participantes da pesquisa, onde os participantes leram, tiraram dúvidas e assinaram os documentos de autorização. Os participantes que optaram por responder assinaram o termo ficando uma cópia com o pesquisador e outra com o próprio participante. Foi enfatizado o sigilo das respostas e também a autonomia de desistir do procedimento a qual quer momento da pesqui sa.
Os sujeitos foram escolhidos aleatoriamente sem distinção de tempo de tratamento, onde foi possível analisar e comparar o maior número de pessoas e a percepção dos participantes envolvidos em relação ao processo de fissura. Então os critérios para seleção dos participantes foram:
24 a) Estar em tratamento ambulatorial para dependênci a química no Caps-ad (Continente) de Florianópolis;
b) Ter idade acima dos 18 anos;
Participaram dessa pesquisa, 43 usuários do Caps-ad (Continente), sendo estes 38 homens e 05 mulheres, com idade média de 42,7 anos, em tratamento ambulatorial no Caps-ad do Continente da cidade de Florianópolis. Desses 43 participantes 26% eram solteiros, 10% casado, 3% divorciado, 2% viúvos e 2% em união estável. Os sujeitos de pesquisa estavam em média 7,37 meses em tratamento e tinham projeto terapêutico estabelecido em média de 3,18 dias, sendo que todos r esponderam entre 1 e 5 di as de pr ojeto no Caps -ad. Como ocupação dos sujeitos, 58% responderam que são aposentados, pensionistas ou na perícia, 37% estão empregados, trabalhando ou de atestado e 5% são trabalhadores autônomos. Quanto a moradia, 39% dos participantes moram em casa própria, 35% dos que estão em tratamento moram na Casa de Apoio Social, que abriga moradores de rua de Florianópolis e 26% dos participantes moram de aluguel. Nenhum participante respondeu que mor a com amigos.
Dos usuários que já fizeram outros tratamentos , 70% responderam que o Caps-ad não era o primeiro tratamento e 30% respondam que sim, o Caps-ad era o seu primeiro tratamento para dependência química. A média de tratamentos anteriores foi de 3,23, entre estes, mas que não foi perguntado diretamente no questionário, pode estar Comunidade Terapêutica, Hospitais Psiquiátricos, Alcoólicos Anôni mos, Narcóticos Anôni mos, entre outros.
O Gráfico 1 aponta para uma discrepância entre sujeitos com nível de escolaridade fundamental incompleto, chegando a um percentual de 39% e de superior completo somente 2% dos suj eitos.
25 39% 12% 14% 23% 5% 5% 2% Fundamental Incompleto Fundamental Completo Médio Incompleto Médio Incompleto Técnico Incompleto Técnico Completo Superior Inc ompleto Superior Completo
Gráfico 1: Nível de escolaridade. Fonte: elaboração do autor (2013).
A pesquisa teve como finalidade de estabelecer categorias e subcategorias de análise, tabulação e interpretação das informações e dos dados comparados. Os dados foram coletados à partir de um instrumento (Apêndice A) onde foram organizados em uma planilha e tabulados conforme os objetivos: influências familiares, influências sociais e influências financeiras. O tratamento dos dados foi objetivado à partir da tabulação, onde foi efetuada em uma tabela realizada no Microsoft Office Excel 2007, em que foi possível efetuar gráficos das categorias e subcategori as, verificando a ocorrência percentual dos dados coletados. Já na análise e discussão de dados, foram elaborados gráficos, onde foi possível analisar a quantidade, média e correlações dos dados, e articulado esses dados a luz do referencial teórico pesquisado, identificando a intensidade das principais influências para o processo de craving.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
Para analisar os dados coletados e verificar se os objetivos propostos foram alcançados, elaboraram-se categorias à priori, tais como: Influências familiares; Influências sociais e Influências financeiras. Dentro destas categorias, foram organizadas outras subcategorias que respondessem aos objetivos específicos e geral desta pesqui sa. Estas subcategor ias serão abordadas nos próximos tópicos.
26 Como pode ser observado no questionário que segue no Apêndice A, para cada subcategoria da influência no processo de fissura, foi delimitado os seguintes valores: (0) que não causa nenhum sintoma de fissura; (1) apresentam poucos sintomas de fissura como pensamentos rápidos e durando cerca de 5 minutos; (2) apresentam fissura razoável frente a uma situação, com sintomas de nervosismo, ansiedade, sonhos usando a substância e pensamentos que duram em média 10 minutos; (3) como um forte desejo compulsivo que envolve maneiras de conseguir a droga, formas de utilizá-la, locais para usá-la, e pode durar desde 15 minutos até tempo de obter a sensação de alívio dos sintomas que a droga proporciona, conforme apontam Araujo et. al. (2008) e Chaves el. al. (2011). A partir das respostas , foi realizada uma média de cada subcategoria chegando-se a uma média geral da categori a, como apr esentado no Gráfico 2:
Gráfico 2: Categoria das principais influências para o processo de fissura. Fonte: elaboração do autor (2013).
No Gráfico 2 é possível verificar que entre as categorias elencadas há um destaque para a influência de recursos financeiros, visto que a média ficou em 1,64, ou seja, entre pouca e média intensidade. Com relação a influência social a média ficou em 1,04, ou seja, pouca intensidade para o processo de fissura e a categoria de família teve média de 0,53, sendo esta entre sem e pouca influência. Este gráfico mostra um panorama geral sobre a influência no processo de fissura e vai ao encontro do que diz Alvarez (2007), Chaves, et. Al. (2011), Marlatt, Donovan & cols. (2009), quando enfatizam que o processo de fissura sofre influência nos âmbitos
INFLUÊNCIAS NO PROCESSO DE FISSURA
0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 INTENSIDADE INFLUÊNCIAS 0,534883953 1,046511628 1,643410853
27 familiar, social e financeiro. Embora tenha sido apresentada como uma baixa influência, todos os três aspectos exercem influência de alguma forma para o processo de fissura.
Conforme é apresentado no Gráfico 2, a influência devido aos recursos financeiros é a que apresentou média mais alta, pois de acordo com Chaves, et. al. (2011) o primeiro passo para conseguir usar a droga é comprá-la e isso depende de recursos financeiros como dinheiro, objetos de valor ou dívidas financeiras com os traficantes. Por essa razão, a média de influência sobre os recursos financeiros foi a mais alta, conforme aponta no Gr áfico 2.
No âmbito familiar Silva e Serra (2004) evidenciam a influência da família para o desenvol vimento de “crenças básicas disfuncionais”6 (p.35), ou seja, os pais, irmãos, avós, entre outros familiares muitas vezes desvalorizam o sujeito, fazendo-o criar uma hipótese destrutiva sobre si mesmo. Sendo assim, conforme os autores, a relação com a família, caso não haja uma ressignificação sobre essa situação, pode afetar o processo de fissura do dependente químico, fazendo-o sentir vontade de usar a droga. Conforme Silva e Serra (2004), Broeker e Jou (2007), Marlatt e Donovan (2009) afirmam, a disfunção familiar pode afetar no processo de aprendizagem, ou seja, nas crenças do sujeito, podendo ser um gerador de fissura nos momentos de conflitos. Logo, a relação com os pais pode ser um fator determinante tanto para influenciar no processo de fissura como um porto seguro para o tratamento e r eabilitação do dependente quími co.
Já no que diz respeito aos fatores de influências sociais, Marlatt, Donovan & cols. (2009) afirmam que os laços sociais são de suma importância para que o dependente químico fique abstinente. Porém, dependendo de situações, ambientes e pessoas, a pressão social pode desencadear o processo de fissura e levar o dependente químico a recaída. No entanto, os autores ressaltam a importância de vínculos soci ais sadios para que o dependente químico não sofr a com o processo de fissura, ou seja, amigos que o influenciem a continuar abstinente, reuniões em centros comunitários que o fortaleçam a continuar sem usar SPA e evitar passar por lugares onde ger almente usava a dr oga.
6 Crenças disfuncionais que fazem com que o indivíduo tenha um padrão de comportamento onde busque
prazer em situações denominadas “estratégias compensatórias”, ou seja estratégias que visam aliviar a aflição causada por determinadas situações SILVA, SERRA (2004, p.35).
28 Desta forma conclui-se este sub-capítulo demonstrando que todas as categorias apresentadas influenciam para o processo de craving, com isso será apresentado nos sub-capítulos seguintes cada categoria com suas subcategori as, demonstrando o quanto cada uma i nfluencia para o processo de craving.
4.1 INTENSIDADE DO CRAVING DEVIDO A INFLUÊNCIA F AMILIAR
Esta categoria será analisada pelas subcategorias: pai, mãe, irmãos, cônjuge, filhos e avós. O Gráfico 3 demonstra a média da intensidade da fissura para cada subcategori a.
Gráfico 3: Subcategorias relacionadas as influências familiares. Fonte: elaboração do autor (2013).
0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 INTENSIDADE
Influências Familiares para o Processo de Fissura
Influências Famili ares 0,44186047 0,81395349 1,02325581 0,46511628 0,41860465 0,04651163 PAI MÃE IRMÃOS CÔNJUGE FILHOS AVÓS
29 Schenker e Minayo (2005), Guimarães et. al. (2009) enfatizam que a rede de apoio familiar são grandes influenciadoras tanto para a dependência química quanto para o seu tratamento. Conforme Sobral e Pereira (2012), a família do dependente químico acaba criando uma co-dependência, ou seja, uma família disfuncional, muitas vezes se culpabilizando pelo sofrimento do indivíduo como também julgando e o condenando pela situação de sofrimento vivenciada por esta. Com isso, a família gera angústia para os sujeitos, fazendo-os reviver pensamentos de usar a droga para abafar esse sofrimento que não consegue li dar.
Das subcategori as, a que mais chamou a atenção foram as influências pela relação com irmãos, visto que apareceram com a média mais alta de 1,02, com intensidade baixa. Conforme Silva e Serra (2004), os irmãos geralmente são comparados entre eles pelos pais, fazendo com que um deles aparente maior relevância na relação parental e o outro acabe ficando com mais “crenças básicas disfuncionais” decorrentes dessas comparações. Pode-se considerar que estas influências também são advindas dos pais, pois estes que expõe os irmãos a uma certa disputa de comparação. Com isso, pode-se trabalhar com a hipótese de essas relações apresentarem maior intensidade para o processo de fissura, visto que tais relações podem gerar conflitos internos que remetam as comparações realizadas pelos pais na infância e acabam por fazer o dependente químico pensar em usar droga para deixar de sofrer com essa relação. Guimarães et. al. (2009) apontam para o fato de algumas famílias de dependentes químicos só terem a mãe, afirmando a importância de ter irmãos (irmãs) mais velhos para que estes façam o papel de pai, cumprindo o “papel de cuidadores [...] e modelo saudável”7 (p.73) de desenvol vimento. Os autores também apontam o modelo de irmão dependente químico para o desenvol vimento da dependênci a desses sujeitos, o que pode ocorrer em alguns casos nesta pesquisa. Com isso, os autores apresentam tanto influências positivas quanto negativas das relações com irmãos, indo ao encontro dos dados apresentados no Gráfico 3, onde aponta uma influência baixa para o processo de fissura.
Já na subcategoria pai pode-se verificar que ficou com uma média (0,44), quase sem influência para o processo de fissura. No entanto, a literatura não aponta o pai como fator influenciador para o processo de fissura, mas sim de pais, focando
7
30 em uma relação parental entre mãe e pai. Porém, conforme aponta Schenker e Minayo (2005), Guimarães et. al (2009), a violência, a falta de interesse dos pais pelas atividades dos filhos, ameaças, a presença dos filhos nos atos de violência entre os pais são fortes influenciadores para o desenvol vimento da dependência química. Com isso, os autores afirmam que há grande chance do dependente químico recair após voltar a relação com os pais, pois são relações conflitantes e que geram angústi a, revolta, desejo nos sujeitos de voltarem a usar drogas e “abafar” os problemas com a família, fazendo com que estes aparentam ser menores do que o consumo de drogas. Os autores também afirmam que em muitas famílias os pais são separados ou foram a óbito, faltando uma das figuras ou do pai ou da mãe. Porém, com a baixa intensidade apresentada no Gráfico 3, pode-se levantar a hipótese de que a influência pela relação com o pai está baixa pelo fato do pai não estar presente nestas relações, visto que nunca tiveram relação com o pai, por este ter saído de c asa cedo ou falecido.
Outro dado importante nesta categoria e que ficou em segunda média mais alta com 0,81 foi a intensidade da fissura devido a relação com a mãe. Sobral, Pereira (2012) enfatizam a relação de ambigüidade da co-relação familiar com a mãe, pois muitas vezes as mães defendem os filhos nos erros e em outras vezes elas os julgam. Schenker e Minayo (2005), Guimarães et. al (2009) enfatizam a dificuldade que as mães tem de colocar limites e disciplina nos filhos, considerando normal o uso de drogas dos filhos. Um dos fatores que influenciam ao processo de fissura conforme apontam os autores é a desconfiança dos pais em relação as atividades do dependente quími co, sendo que estes se sentem apr eensivos todas as vezes que vão realizar qualquer atividade, pois seus pais sempre lhes questionam, olham com desconfi ança, gerando angústia no dependente químico. Sendo assim, pode-se afirmar que a relação com a mãe é um fator que influencia tanto no tratamento, pelo carinho, acolhimento que estas têm para o dependente químico, como também a influência para o processo de craving, gerando fissura nos momentos de conf lito.
Já na subcategori a cônjuge a média está entre nenhuma e baixa influência (0,46) para o processo de craving. Marinho (2012) aponta a relação conjugal como um fator importante para o tratamento. No entanto, a autora afirma que um fator que gera angústia para o dependente químico em tratamento é a relação desgastada
31 com o cônjuge, devido ao uso da droga, pois a relação acaba se tornando conflituosa. Sendo assim, estes conflitos acabam sendo um influenciador para o processo de fissura dos indivíduos, apesar de a amostra ter apresentado baixa influência, conforme apontado no Gráfico 3.
Um dado que chama a atenção pela baixa intensidade é o da subcategoria avós, com média de (0,04), quase que sem nenhuma influência para o processo de craving. Uma hipótese para essa baixa influência é que muitos usuários não tinham mais relação com avós, visto que estes já haviam falecido há algum tempo. Porém, Kaiser e Silva (2010) afirmam que a relação com avós é afetiva, de carinho, sendo muitas vezes u m acolhedor para o dependent e químico em processo de r eabilitação, sendo assim, favorecem pouco para influenciar o processo de fissura dos dependentes quími cos em tratamento.
Com isso, podemos afirmar que nem todos os fatores familiares são influenciadores para o processo de fissura, pois, conforme apresentado no Gráfico 3 a média ficou entre (0,04) e (1,02). Uma hipótese para a média entre nenhuma influência e baixa influência pode ser a de que muitos sujeitos em tratamento não têm nenhuma relação com família, sendo que alguns são moradores de rua e outros a família já tinha falecido. Porém, muitos usuários, conforme foi apontado anteriormente e também como afirmam os autores apresentados, percebem a família como um porto segur o para o tr atamento, favorecendo par a o não sur gimento do processo de craving nestes suj eitos.
4.2 INTENSIDADE DO CRAVING DEVIDO A INFLUÊNCIA SOCIAL
Esta categoria será analisada pelas subcategorias: bares, shows, solidão, amigos da ativa, lugares da ativa, trabalho, festas de família, estudos, viagens restaurantes e situações judiciais. O Gráfico 4 demonstra a média da intensidade da fissura para cada subcat egoria.
32
Gráfico 4: Subcategorias relacionadas as influências sociais. Fonte: elaboração do autor (2013).
Chama à atenção a subcategori a solidão, onde a média é (2,13), ficando esta influência entre razoável e bastante. Conforme apontam Marlatt, Donovan & cols. (2009) o apoio social é crucial para o processo de reabilitação e estar sozinho piora os sintomas de fissura. Santos (2006) citando Robbins et. al. (2000) afirma que a relação do craving com estados negativos ligados a solidão é extremamente relevante, visto que a sensação de solidão gera bastante tédio e angústia. Carvalho et. al. (2011) afirmam que um grande fator que favorece a recaída é a solidão, pois a situação de ociosidade gera um grande vazio para o dependente químico. Sendo assim, a solidão é percebida como fator proeminente para o processo de craving, ou seja, evocam com bastante freqüência o pensamento de uso da substânci a para aliviar as sensações de afeto negativo.
Em contrapartida situações de bares, shows, festas de família, lugares da ativa e de amigos da ativa também se sobressaem às outras, visto que ficaram com valores entre pouca e razoável influência para o processo de fissura. Conforme enfatizam Marlatt, Donovan & cols. (2009), amigos que fazem uso de droga, lugares onde o dependente químico geralmente usava são fatores de exposição ao risco, “fatores de gatilho” ou o que os autores chamam de “aprendizagem prévia das respostas preparatórias aos efeitos da droga” (p.30, 31). Ou seja, o ritual de usar drogas é apreendido e com isso os sujeitos ficam sensívei s a determinadas situações e ambientes, provocando a fissura. Os autores ainda afirmam que
0 1 2 3 4 INTENSIDADE
Influências Sociais para o Processo de Fissura
Influências Sociai s 1,55814 1,16279 2,13953 1,72093 1,81395 0,93023 1,04651 0,32558 0,60465 0,67442 0,88372 BARES SHOWS SOLIDÃO AMIGOS
DA ATIVA LUGARES DA ATIVA TRABALH O FESTAS DE FAMÍLIA
ESTUDOS VIAGENS RESTAUR ANTES
JUDICIAI S
33 dependentes quími cos devem buscar apoio de amigos que os incentivem a manter a abstinênci a.
Em situações de estudos, que teve média de 0,32 , e o trabalho com média de 0,93, entre nenhuma influência e influência baixa para o processo de fissura, podem estar relacionados a “crenças básicas”, conforme Silva, Serra (2004) de que o sujeito é um “mau aluno” ou que não vai conseguir aprender, não vai conseguir fazer, vai fazer errado. Essas crenças podem favorecer o processo de fissura do indivíduo. No entanto, apesar desse dado t er aparecido, é uma influência baixa, visto que os estudos e o trabalho podem ser um aliado, reforçando o tratamento, no processo de reinserção social. Ou seja, conforme Galduróz (1999) e Duarte (2006), os estudos auxiliam no processo de concentração, criação de novos vínculos de amizades voltadas ao objetivo de aprender e abre novas possibilidades de pensar e planejar o futuro.
Carvalho et. al. (2011) afirmam que a “inatividade desperta o desejo pelo uso de substânci as psicoativas” (p.60), fazendo com que essa situação influencie o processo de craving e também favorecendo a recaída do dependente químico no uso descontrolado da droga. Desta forma, o dependente químico que consegue usar as ferramentas do trabalho e da educação como ponto positivo para sua reinserção social e motivação para continuar abstinente, terá um fortalecimento das suas expectati vas futuras no que se refere a projetos pessoais. Sendo assim, podem-se considerar os estudos e o trabalho como aliados para o processo de reinserção social e enfraqueci mento do processo de fissura, pois os dependentes químicos que possuem essas relações bem estabel ecidas conseguem usar dessa estratégia para não sentirem a fissura.
Os autores não apontam o fator de relações judiciais como influenciador para o processo de craving e nem como fator de influência para o processo de recaída, porém, uma das hipóteses é a representação penal que envolve os processos judiciais. Conforme aponta m Castro, Maia (2010), os processos judiciais envolvem muitas angustias, pois esses processos geralmente são disputas e, caso uma parte já “possua alguma perturbação prévia” (p.16) esse quadro tende a piorar de acordo com os encaminhamentos do julgamento. Com isso, pode-se levantar a hipótese de que este seja um influenciador para o processo de craving, pois esses conflitos
34 geram angustia para as partes envolvidas, gerando pensamentos compulsivos para aliviar esses sintomas, ou sej a, usar a droga.
Sendo assim, podemos afirmar que os fatores sociais são geradores de influência para o processo de craving, visto que as médias variaram entre (0,32) e (2,13).
4.3 INTENSIDADE DO CRAVING DEVIDO A INFLUÊNCIA DE RECURSOS FINANCEIROS
A categoria de influências de recursos financeiros para o processo de fissura será analisada partindo de três subcategorias: dinheiro, objetos de valor e dívidas. O Gráfico 5 demonstra a média da intensidade da fissura para cada subt egoria:
Gráfico 5: Subcategorias relacionadas às influências de recursos financeiros. Fonte: elaboração do autor (2013).
Conforme aponta o Gráfico 5 a subcategori a que chama atenção é a de dinheiro, tendo como média 2,30, objetos de valor com média 1,18 e dívidas financeiras com média 1,44.
O dinheiro para o dependente químico é um grande influenciador para o processo de fissura, gerando uma média de (2,30), entre razoável e forte fissura nos sujeitos da pesquisa. Conforme apontam Chaves et. al (2011), a fissura pode ser relacionada a “pistas internas e externas, geralmente relacionadas a um reforço
0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 INTENSIDADE
Influências Financeiras para o Processo de
Fissura
Influências Financeiras 2,302325581 1,186046512 1,441860465 DINHEIRO OBJETOS DE VALOR DIVIDAS FINANCEIRAS35 positivo ou o alivio de um estado negativo” (p. 1171). No caso do dinheiro, conforme apresentado por uma entrevista dos autores, pode ser deparado como uma pista externa, ou seja, o dinheiro é primeiro e a melhor moeda de troca pela droga, visto que esse pode ser trocado pelo seu valor real, ao contrário dos objetos de valor que são barganhados por um val or muito abaixo do real quando é trocado pela dr oga.
Outra subcategoria que chama a atenção é de objetos de valor, por estar em uma média abaixo das outras, pois de acordo com Chaves el. al. (2011), muitos dependentes químicos trocam, na falta de dinheiro, objetos de valor pela droga e quando não tem nem dinheiro e nenhum objeto que possa trocar, muitos acabam por furtar, efetuando roubos para conseguir algum dinheiro ou objeto de valor e assim trocar por drogas. Muitas vezes o dependente químico está em tratamento e seguimento, abstinente e recebe algum objeto de valor de presente, gerando o processo de fissura, pois pode-se trocar esse objeto por droga. Sendo assim, os objetos de valor são influenciadores para o processo de fissura, visto que podem ter sua representação como moeda de troca por drogas. Quando o dependente químico não tem di nheiro ou nenhum ob jeto de val or para trocar por drogas, acabam fazendo dívidas com os tr aficantes.
A subcategori a de dívidas financeiras ficou com média entre baixa e razoável influência (1,44) para o processo de fissura. Buchele et. al. (2004), Schenker e Minayo (2005) afirmam que as dificuldades financeiras são fatores que podem influenciar no processo de fissura e também à recaída. Conforme afirmam Childress et. al. (1987); Litt et. al., (1990); Tiffany e Drobes, (1990); Childress et. al., (1994); Robbins et. al., (2000); Tavares et. al. 2005; (apud Castro, 2006) os afetos negativos são influenciadores para o processo de craving, sendo assim, as relações de dívidas financeiras geram angústias para o sujeito. O craving devido a dívidas financeiras, ou necessidades financeiras, também são influenciadores nos comportamentos violentos como os de furtos e roubos, ou seja, os sujeitos buscam o crime para consegui r pagar suas contas que, muitas vezes, são realizadas pelos próprios traficantes, conforme apontam Castro (2006) e Baltieri, Cortez (2009). Estes traficantes acabam ameaçando de morte os dependentes químicos endividados, assim como também fazendo ameaças aos seus familiares, sendo esse um motivador, um influenciador para o processo de fissura, pois as ameaças geram angústia nos sujeitos dependentes quími cos.