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Perifeminas e representações sem fronteiras: entre interseccionalidades e agenciamentos

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Academic year: 2021

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CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA

Heloá Barroso Cintra

Perifeminas e representações sem fronteiras: entre interseccionalidades e agenciamentos

FLORIANÓPOLIS 2019

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Heloá Barroso Cintra

Perifeminas e representações sem fronteiras: entre interseccionalidades e agenciamentos

Dissertação submetida ao Programa de Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do título de mestre em Literatura

Orientadora: Prof.ª Dra. Cláudia Junqueira de Lima Costa.

Florianópolis 2019

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Heloá Barroso Cintra

Perifeminas e representações sem fronteiras: entre interseccionalidades e agenciamentos

O presente trabalho em nível de mestrado foi avaliado e aprovado por banca examinadora composta pelos seguintes membros:

Prof.ª Claudia Junqueira de Lima Costa, Dra. Universidade Federal de Santa Catarina

Prof.ª Simone Pereira Schmidt, Dra. Universidade Federal de Santa Catarina

Prof.ª Ramayana Lira de Sousa, Dra. Universidade do Sul de Santa Catarina

Certificamos que esta é a versão original e final do trabalho de conclusão que foi julgado adequado para obtenção do título de mestre em Literatura.

____________________________ Prof. Dr. Marcio Markendorf

Coordenador do Programa

____________________________ Prof.ª Dra. Cláudia Junqueira de Lima Costa

Orientadora

Florianópolis, 19 de junho de 2019. Marcio

Markendorf:915 73483168

Assinado de forma digital por Marcio Markendorf:91573483168 Dados: 2019.09.02 08:45:58 -03'00' Claudia Junqueira de Lima Costa:49629620944

Digitally signed by Claudia Junqueira de Lima Costa:49629620944

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AGRADECIMENTOS

Agradeço às servidoras/es e professoras/es da Universidade Federal de Santa Catarina e do Programa de Pós-Graduação em Literatura por me oferecerem os aparatos e as estruturas necessárias para meus estudos. Aos que ali trabalham meu muito obrigado.

À CAPES, pela bolsa de estudo que possibilitou não só que eu cogitasse a prestar o mestrado, mas também que garantiu seu prosseguimento.

À Noêmia Guimarães Soares por me ensinar tanto e por sempre acreditar em mim. Você foi extremamente importante para que esse percurso se iniciasse e para que ele fosse mais cheio de amor. Obrigada pela excelente formação que me proporcionou.

Agradeço à minha orientadora Cláudia Junqueira de Lima Costa por acreditar na minha pesquisa, pela paciência e por me dar os direcionamentos necessários quando preciso.

À professora Simone Pereira Schmidt, por também acreditar em mim quando quis começar o mestrado. Embora não tenha conseguido ser sua aluna ao longo da pós-graduação, seus textos foram essenciais para a escrita desta dissertação e para que eu pudesse ter outros olhares para a Literatura. Aproveito para agradecer por gentilmente fazer parte da minha banca de defesa.

À Ramayana Lira, por estar presente na minha qualificação e na minha defesa. Quando leio meu trabalho final, vejo nitidamente suas contribuições nele. Obrigada por acolher minhas inquietações e sugerir leituras tão instigantes. Você agregou muito a esta pesquisa.

À Susan de Oliveira, que participou da banca de qualificação e que me ofereceu caminhos teóricos e metodológicos significativos.

Às autoras e organizadoras de Perifeminas II por compartilharem suas experiências com o mundo e pela obra que tanto me tocou e me inspirou.

Às amizades feitas na pós-graduação. À Nana Martins pelo apoio e alento oferecido. À Dani Stoll por sempre torcer por mim e pelos trabalhos que realizamos juntas.

Às minhas amigas de Pouso Alegre que me mostram que tenho sempre um ninho para onde voltar. Em especial, à Gabi e à Letícia pela paz e bondade que emanam e por todos os momentos que compartilhamos juntas. Sou muito feliz tendo vocês em minha vida!

Obrigada à Bruna Kocsis pelos imensos sorrisos e gargalhadas, por me arrumar trampos e por esta parceria que já nos acompanha desde 2008. À Fernanda Akemi por estar sempre ao meu lado e pelas conversas aconchegantes que temos. Você me enche de amor,

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amiga! Ao Gabriel Lima, por ser meu raio de sol e minha alegria em muitos momentos de dificuldades.

À Iva que desde da época que morei em Campinas sempre me acode com muito carinho e puxões de orelha. Agora, com a distância, fica as visitas esporádicas e as ligações telefônicas, mas o amor nunca muda, só cresce. Você me ensina a ser gentil e forte e jamais conseguirei agradecer por tudo que aprendo com você.

À Rosana, pelas ajudas acadêmicas, pelas conversas que sempre me fazem pensar mais e por forrar maravilhosamente bem meu estômago.

Aos meus amigos mais que queridos que a graduação em Francês me trouxe e que não só me ouviram falar sobre o mestrado, como também foram meus parceiros neste trajeto. Em especial, meu muito obrigado à Adriene por me ensinar sempre um pouquinho mais sobre amizade, pelos trabalhos que fizemos juntas e que me fizeram admirá-la cada vez mais. Muitas vezes quando o tempo estava curto, você foi paciente e acreditou que eu daria conta. Obrigada, pela confiança e pelas trocas que tivemos. É noix. Ao Fabrício, jamais saberei agradecer o suficiente. Lembro que você subia as escadarias do pantanal só para me ajudar a estudar linguística, isso é só um pouco do que você já fez por mim. Quero seus abraços sempre na minha vida. Adri e Fabrício, amo vocês.

Às amizades feitas no castelo. Nós éramos vizinhos e vocês me receberam como se fosse da família, o que agora sou. Lá do alto do morro, foram muitas festas, pindaíbas, generosidades, corres, brigas, videogames, comidas, coreografias e conversas compartilhadas. Minha gratidão e amor é enorme e incondicional. Ao Cássio, por ter arrumado um espaço para mim neste grande e seletivo coração. Agradeço pelas mangas na janela, pela comida vegetariana preparada especialmente para mim, pelas parcerias na BU, pelos dias em que passamos assistindo série, ouvindo música, pelos gestos de amor diário. Cássio, condragulations, my dear. Shantay, you stay. Ao Gabriel, pela expansividade contagiante, pelos passeios, por sua sensibilidade e por fazer de sua casa a nossa. Ao Igor por ser minha fonte de alegria e de esperança. Jamais esquecerei sua reação quando disse que tinha passado no mestrado, naquele dia soube que essa conquista era nossa. Morar com você neste último ano foi a melhor coisa que me aconteceu e sinto falta de ter aqui para compartilhar as conquistas e tretas diárias. Ao Uiu, por ser uma inspiração para mim. Por me ensinar a lutar pelos nossos sonhos e pelas pessoas que amamos. Admiro sua força e o carinho com que trata todos a sua volta. Em Florianópolis, na Bahia ou em Brasília você vibrou comigo em todos os momentos.

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Ao meu irmão Guilherme, que acompanha tudo com poucas palavras, mas não com menos amor. Obrigada por me acalmar quando os prazos estavam curtos e por me ouvir e me acolher quando foi necessário.

Por fim, o agradecimento mais especial. À minha mãe, que em todas as ocasiões, mesmo com os obstáculos que a distância coloca, esteve ao meu lado. Cada linha foi escrita pensando em você, mãe. Jamais poderei agradecer por todo amor e ajuda que me ofereceu e continua a oferecer. Tudo que amo em mim, na verdade, é o que tenho em comum com você. Foi com você que o desejo de fazer o mestrado começou e para você vão minhas últimas palavras nesta dissertação, sempre com meu maior amor.

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Que nossas batidas ecoem em pick ups para além de nossos eventos, que nosso corpo se mova onde quer que haja uma roda de break, que nossa arte seja vista nos muros de cada cidade e que nossas rimas, a nossa poesia, o nosso oxigênio, não seja silenciado nunca mais, mas se faça ouvir, ecoe e fomente novas ondas revolucionárias. (Daniela Gomes, 2016)

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RESUMO

Tomando por base as conceptualizações de Deleuze e Guattari sobre cartografias em rizomas, a presente dissertação tem por objetivo contribuir para os debates acerca das teorias e práticas feministas sobre o conceito de (auto) representação e as estratégias assentadas na multiplicidade de demandas políticas e de construções identitárias. Nesse sentido, mapearei processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização no rizoma Perifeminas

II (2014), corpus desta pesquisa, buscando estabelecer conexões entre as teorias pós-coloniais,

os feminismos negros e decoloniais. Na complexidade do espaço fronteiriço, discutirei a hipótese de que em Perifeminas II (2014) a articulação dessas escritoras com o Hip Hop e outros agenciamentos traçam linhas de fuga rumo à desejos de representações menos categóricas sem se afastar, no entanto, da intersecção de gênero, classe e raça como eixos sociais estruturantes dessas narrativas.

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ABSTRACT

Departing from Deleuze and Guattari’s conceptualizations about rhizomatic cartography, this thesis aims to contribute to the debate on feminist theories and practices regarding the concept of (auto) representation and strategies based on the multitude of political demands and the construction of identities. I will map the processes of territorialization, deterritorialization, and reterritorialization in the rhizome Perifeminas II (2014), corpus of this research, while establishing links between postcolonial theories, black and decolonial feminism. Situeted in complex border space of theses conceptual assemblages, I will discuss that in Perifeminas II (2014) the articulation of these female writers with Hip Hop and other agencies delineate escape lines to less categorical representations without eschewing, however, the gender, class, and race intersections conceived as social axes structuring these narratives.

Keywords: Autorepresentation. Intersectionality. Assemblage. Hip Hop.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Grafite de Rebeca Santos Lawinsky/RB’K ...43

Figura 2 – Jacques Ettiene Arago. "Castigo de Escravo" (1839) ...44

Figura 3 – Recorte 1 da capa de Perifeminas II (2014)...87

Figura 4 – Recorte 1 da contracapa de Perifeminas II (2014)...88

Figura 5 – Recorte 2 da capa de Perifeminas II (2014) ...98

Figura 6 – Recorte 2 da contracapa de Perifeminas II (2014) ...98

Figura 7 – Capa Perifeminas II (2014) ...101

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

FFH2B – Frente Feminina de Hip Hop de Bauru FNMH² – Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ONGs – Organizações Não Governamentais VAI – Valorização de Iniciativas Culturais

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 15 1.1 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO ... 22 2 PRIMEIRAS CARTOGRAFIAS ... 25 2.1 SOBRE RIZOMAS ... 25 2.2 ANTOLOGIAS 100% FEMININAS ... 27

3 “BREDAS E SISTAS, FYA BURN NA BABYLON” ... 48

3.1 “TE CUIDA, PATRIARCADO! ” ... 66

3.1.1 “Quero falar da dor das mulheres” ... 70

3.1.2 “O Hip Hop, a SuperAção e as Mulheres” ... 76

4 “SEM FRONTEIRAS” ... 87

4.1 “SE É PELO RAP NÃO IMPORTA O CEP” ... 106

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 123

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1 INTRODUÇÃO

Em Um teto todo seu (2014), Virginia Woolf narra sua visita ao Museu Britânico e seu espanto ao constatar que apesar dos inúmeros livros que ocupavam as prateleiras nada se poderia saber sobre a vida das mulheres antes do século XVIII. Se indaga porque as mulheres não escreviam poesias nessa época, quais seriam suas rotinas, onde elas estariam, se saberiam escrever e até mesmo se tinham sala de estar.

Começa a imaginar, numa espécie de devaneio, como teria sido se Shakespeare tivesse uma irmã, Judith, tão fascinante quanto ele e dotada da mesma capacidade e entusiasmo artístico. Enquanto para o dramaturgo ela vislumbra uma vida marcada por facilidades de acesso, desde ir à escola até sua imersão no cenário artístico londrino, para Judith, restaria a clausura do ambiente doméstico, o casamento arranjado, uma fuga para Londres e a rejeição enquanto escritora. Assim, ao passo que Shakespeare alcança a glória, sua irmã comete suicídio. Conclui então, que teria sido impossível que qualquer que fosse a mulher, seja ela dotada de certo prestígio político, artístico ou econômico escrever uma obra tal qual Shakespeare na época em que ele viveu. Impossibilidade gerada, sobretudo, pelos privilégios conferidos aos homens dentro da sociedade patriarcal, onde o escrever e o publicar tornam-se exclusividades de alguns e interdições para outras.

A autora prossegue afirmando que livros não são escritos por indivíduos intangíveis e abstratos, mas sim “são obras de seres humanos sofredores e estão ligadas a coisas flagrantemente materiais” 1 (2014, p. 54). Tal materialidade, supõe-se, está assentada nas

condições físicas adequadas de trabalho e também na materialidade que a própria realidade oferece como subsídio e acesso para a produção literária. Em outras palavras, escrever não é somente expressar-se, mas também uma ação centrada nas possibilidades permitidas pelas estruturas sociais e materiais de uma sociedade gendrada2. Se há obstáculos às mulheres na

literatura, há de se pensar também na escrita enquanto ação de resistência e luta. Autoras do

1 Embora pode-se aproximar a obra de Woolf (2014) ao feminismo liberal, haja vista a relação estabelecida pela

autora entre a emancipação das mulheres, a propriedade privada e o acúmulo de capital, inicio minha dissertação com a sua reflexão, pois busco evidenciar a histórica ausência de mulheres nos grandes meios de produção literária e a relação dessa a classe social. Nesse sentido, essa relação incorpora a noção de acesso, ou não, aos meios de produção material e a luta de classes.

2 Por sociedades gendradas utilizo a definição de Suzana Funck presente na tradução da pesquisadora do artigo

“A tecnologia do Gênero” escrita por Lauretis. Sociedades gendradas são conceitualizadas pela tradutora como “os espaços marcados por especificidades de gênero” (LAURETIS, 1994, p. 206).

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século XIX como Amantine Dupin e Mary Ann Evans, escreveram sob os pseudônimos de George Sand e George Eliot, respectivamente, ainda que fossem impelidas socialmente a não assumirem tais funções.

Em 2017, oitenta e oito anos após a primeira publicação do livro de Woolf (2014), surge no Brasil o movimento literário Mulherio das Letras. A escritora Maria Valéria Rezende, uma das idealizadoras e participante do projeto, indignada com a inexistência de mulheres entre os ganhadores do prêmio Jabuti de 2016, cria um grupo na rede social facebook para reunir mulheres envolvidas com a Literatura. O grupo assim se consolida a partir da inquietação advinda de algumas escritoras frente à ausência de mulheres no circuito hegemônico da produção literária. Questionam também que quando presentes nesses contextos as autoras mulheres são representadas por escritoras já inseridas no cânone literário, tal como Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Hoje, com mais de seis mil membros, o movimento visa fortalecer, auxiliar e prestigiar mulheres ligadas ao universo literário. Os relatos de Maria Valéria Rezende exemplificam o contexto vivenciado por mulheres que se dedicam às Letras no Brasil:

Você olhava os prêmios literários e tinha uma, duas mulheres. O resto era só homem. Isso me provocava.3

Houve um repórter de um grande jornal paulistano que escreveu que não existia restrição às mulheres escritoras, mas que não havia tantas mulheres produzindo literatura. Nós mostramos que somos muitas.4

Se você olha o catálogo de autores brasileiros de grandes editoras, é uma minoria de mulher. Eles ficam reeditando Clarice Lispector eternamente, Lygia Fagundes Telles eternamente, Rachel de Queiroz eternamente e o espaço para as novas escritoras é quase zero.5

Dentro do quadro literário apresentado pelas escritoras acima há ainda uma outra estrutura social de poder, para além de gênero e classe, que tensiona sistemas de opressão e exclusão literária: a raça6. Pesquisas coordenadas por Dalcastagnè (2012) mostram como o

campo literário brasileiro, antes de ser um território de múltiplas representatividades e

3 D’ANGELO, Helô. Conheça o Mulherio das Letras, articulação de autoras por igualdade no mercado

editorial. Disponível em:

<https://revistacult.uol.com.br/home/mulherio-das-letras-grupo-nacional-de-autoras-por-igualdade-no-mercado-editorial/>. Acesso em setembro de 2018.

4 A TRIBUNA JORNAL. Segundo encontro do Mulherio das Letras será no Guarujá. Disponível em:

<http://www.atribuna.com.br/noticias/noticias-detalhe/cultura/segundo-encontro-do-mulherio-das-letras-sera-em-guaruja/?cHash=e76f4f1e533356bc21ce8f1fa1c1cd67>. Acesso em outubro de 2018.

5 MAIA, André Luiz. O timbre do Mulherio das Letras. Disponível em: <

https://teeteto.com.br/o-timbre-do-mulherio-das-letras-4d5797e9fd9f>. Acesso em outubro de 2018.

6 Nessa dissertação o termo raça, bem como suas derivações, não é compreendido como um conceito

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legitimidades, é marcado por forte homogeneidade de gênero, classe e raça. Suas pesquisas revelam que de 2006 a 2011 apenas uma mulher foi premiada nos principais prêmios literários brasileiros (Portugal Telecom, Jabuti, Machado de Assis, São Paulo de Literatura, Passo Fundo Zaffari & Bourbon). Consta também, que de 1990 a 2004, 72,7% dos romances publicados pelas principais editoras do país eram de autoria masculina e que 93,9% do total de publicação é escrito por brancos. Vale ressaltar que a maioria desses escritores ocupam profissões onde há apropriação da norma culta da língua, como jornalistas e acadêmicos.

Conceição Evaristo, em entrevista ao jornal “Nexo”7, chama a atenção para o fato de

que as mulheres negras sempre produziram literatura, o que muda no cenário literário brasileiro atual é a expansão de seu espaço de recepção, não somente de produção. A escritora cita como exemplo o fato do primeiro romance brasileiro Úrsula (1859) ter sido escrito por Maria Firmina dos Reis, mulher negra que, escrevendo na mesma época que José de Alencar, foi apagada da história literária do país. Segundo Evaristo as mulheres só começaram a aparecer enquanto escritoras no Modernismo e ainda mais tardiamente as mulheres negras.

Assim, seja nas prateleiras da Inglaterra do século XX, seja nas do Brasil do século XXI, a vivência à margem das mulheres, sobretudo das mulheres negras, no contexto literário mostra-se como uma constante. Em Um Teto Todo Seu (2014), Woolf atribui essa ausência à impossibilidade da escrita, tendo em vista que às mulheres esse direito era negado através das coibições procedentes das estruturas materiais e sociais. A fala de Maria Valéria Rezende, que elucida a crítica das mulheres ligadas ao Mulherio das Letras, aponta que, apesar de agora estarem produzindo massivamente literatura e participando do cenário editorial, obras escritas por mulheres ainda continuam excluídas das prateleiras literárias, espaços marcadamente uniformes no que tange à sua composição. Conceição Evaristo e Dalcastagnè (2012) nos mostram que, nessas estantes, as mulheres negras estão ainda mais ausentes do que as mulheres brancas.Quando no circuito literário (editoras, escolas, universidades, prêmios literários) abre-se caminho somente à representatividade de determinados grupos

7 LIMA, Juliana Domingos de. Conceição Evaristo: minha escrita é contaminada pela condição de mulher

negra. 2017. Disponível em:

<https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/05/26/Concei%C3%A7%C3%A3o-Evaristo- %E2%80%98minha-escrita-%C3%A9-contaminada-pelacondi%C3%A7%C3%A3o-de-mulher-negra%E2%80%99>. Acesso em janeiro de 2019.

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hegemônicos, outras vozes que destoam dessa posição de privilégio são marginalizadas. Dalcastagnè escreve:

a definição dominante de literatura circunscreve um espaço privilegiado de expressão, que corresponde aos modos de manifestação de alguns grupos, não de outros, o que significa que determinadas produções estão excluídas de antemão (DALCASTAGNÈ, 2012, p. 16).

Nota-se, portanto, como o campo literário não é um espaço neutro e homogêneo, mas sim uma zona de disputas de poderes onde se legitima e se universaliza determinada escrita em detrimento de outras. Schmidt (2013), citando Donna Haraway (1994)8, afirma que a

escrita seria “um jogo mortalmente sério, porque o que está em questão é justamente a possibilidade (ou a negação) da representação” (SCHMIDT, 2013, p. 223). Frente a representatividade e a representação historicamente negadas às mulheres nos circuitos literários e na compreensão de que literatura é também política, haja vista que se trata das possibilidades de existência dos indivíduos em uma sociedade, muitas escritoras articularam e articulam — à exemplo do uso de pseudônimo e do movimento Mulherio das Letras — estratégias diversas para romperem o silêncio das mulheres nas prateleiras literárias e serem lidas e ouvidas. Assim, escrevem no “apesar de”, isto é, a despeito dos obstáculos produzidos pela sociedade patriarcal, racista e classista persistem em escrever. Nesse contexto de resistência literária, insere-se o livro Perifeminas II- Nossas Histórias (2014), projeto que surge na periferia do sistema literário e corpus deste trabalho.

Para Dalcastagnè (2012), haveria dois caminhos possíveis para o/a pesquisador/a que se dedica a analisar as obras de autoras/es fora do cânone. O primeiro seria analisar a obra pelas suas especificidades, sem hierarquizá-la de acordo com os preceitos literários prevalecentes. A segunda opção, seria incluir a obra dentro dos conceitos já estabelecidos, ou seja, mostrar que a autora ou o autor pode ser integrado a estilística literária dominante. Ambas as possibilidades, afirma Dalcastagnè (2012), são legítimas, mas que adotar o segundo caminho implica em aceitar determinados inconvenientes, como a necessidade de justificar o objeto de estudo enquanto literatura e, por consequência, não interpelar a estrutura hierárquica literária. Por outro lado, se o/a pesquisador/a optar pela primeira possibilidade, abre-se caminho para o questionamento do próprio conceito de literatura e a possibilidade de se

8 HARAWAY, Donna. Um manifesto para os cyborgs: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de

1980. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 243-288.

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descobrir quem são as/os silenciadas/os pelo cânone literário, de onde falam e o que falam, contribuindo assim para a democratização do fazer literário.

Sob a luz dos caminhos metodológicos apontados por Dalcastagnè (2012) e na perspectiva da primeira linha de análise por ela sugerida, a proposta inicial desta dissertação tinha por objetivo compreender as autorrepresentações de mulheres subalternas (SPIVAK, 2010), tendo como campo de análise o livro Perifeminas II- Sem Fronteiras (2014). Para tanto, na primeira hipótese desta dissertação, propunha-me a uma reflexão sobre as ausências e os silêncios presentes no discurso literário, bem como as potencialidades de descentramentos encontradas nas vozes dessas mulheres. A hipótese defendida era a de que a obra, enquanto produção literária de autoria feminina não canônica, estruturasse, estética e politicamente, perspectivas de representação que divergiam de modelos hegemônicos. Por exemplo, ao trazer a escrita das mulheres periféricas quais histórias apareceriam na obra? Quem seriam essas mulheres? Quais temas são abordados? O que falam sobre eles? Fazia-se necessário, portanto, vincular aspectos de gênero, raça e classe, utilizando como aporte teórico-crítico as contribuições dos feminismos negros, decoloniais e pós-coloniais9.

No entanto, à medida que esta dissertação se construía, compreendi que por mais que houvesse um fator representacional importante a ser analisado, tendo em vista o contexto político, social e artístico em que a obra se insere, as potencialidades de estudos existentes no livro iam para além dos vieses permitidos pelas teorias supracitadas que concebem a interseccionalidade como ferramenta primordial de pesquisa.

Essa categoria de análise, fruto das problematizações e reivindicações de movimentos sociais, introduz nas pautas de discussões dos Estudos Feministas e de Gênero a voz e a experiência das mulheres negras, indígenas e chicanas em um ambiente marcadamente composto por pessoas brancas falando sobre e para brancos. Assim, a interseccionalidade questiona as estruturas do movimento e do pensamento feminista, ao introduzir raça e outros eixos sociais como categorias analíticas que devem ser encaradas em sua contingência com o gênero.

9 Nesse momento inicial da pesquisa não me atentava às contribuições das feministas pós-estruturalistas que

encontram na interseccionalidade “uma saída para o essencialismo do gênero e para o abandono de

pensamentos categóricos” (BOGIC, 2017, p. 144, tradução minha). Isto porque, minha intenção era, sobretudo, enfatizar o racismo estrutural que sustenta relações de colonialidade e o fato da obra ser produzida em contexto latino-americano.

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Embora reconheça a interseccionalidade como um importante instrumento de pesquisa, Puar (2013) tece críticas quanto aos limites de sua aplicabilidade no que tange à teorização da diferença. Afirma a autora, por exemplo, que essa categoria analítica opera mediante a ratificação da posição privilegiada ocupada por mulheres brancas nas estruturas sociais e de pensamento. Trata-se, como pode ser observado no excerto abaixo, mais de uma posição referente ao modo como a teoria foi empregada — geradora de um padrão racial — do que ao conceito em si.

Contudo, o método da interseccionalidade é mais predominantemente utilizado para qualificar a “diferença” específica das “Mulheres de Cor”, uma categoria que agora se tornou, eu diria, simultaneamente vazia de significado específico, por um lado, e superestimada em seu emprego, por outro. Dessa forma, a interseccionalidade sempre produz um Outro, o qual sempre é uma “Mulher de Cor”, que deve, invariavelmente, mostrar-se como resistente, subversiva ou articuladora de um protesto (PUAR, 2013, p.547).

Portanto, ainda que a interseccionalidade permita aprofundar a compreensão das dinâmicas que estruturam sistemas de opressão e de subordinação, ela também instaura um protótipo identitário dessa diferença: mulheres negras com experiências atreladas à luta e à resistência. Foi então que comecei a refletir criticamente sobre um conceito que se mostrava “absoluto nos seus efeitos” (PUAR, 2013) quando em diálogo com a obra aqui analisada.

Interessa-me, nesse momento introdutório da dissertação, apropriar-me da crítica empreendida por Puar (2013), pois nela encontro subsídios teóricos que se articulam com as inquietações que surgiram no decorrer da escrita. Perguntava-me, por exemplo: 1) como compreender, sob uma perspectiva representacional e interseccional, um objeto de estudo em que as narrativas empreendidas se mostram tão heterogêneas (desde os loci de enunciação – diferentes países e cidades — até o gênero literário adotado — poesia, grafite, prosa)? 2) como abarcar toda essa heterogeneidade sem incorrer na formação de identidades fixas e universalizantes? 3) sendo o subtítulo da obra “sem fronteiras”, como colocar margem a esse arranjo infindável? Minha intenção, vale dizer, não é responder de maneira categórica a essas perguntas, mas usá-las como fios condutores e problematizadoras desta pesquisa.

Além disso, neste trabalho compreendo o Hip Hop, um dos pontos centrais de articulação das autoras e das narrativas aqui analisadas, como uma cultura em movimento. Nesse sentido, impossibilitado de ser apreendido enquanto estrutura coesa e vedada.

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Concordo com Araújo (2016) quando, ao citar Goldman (2005)10 afirma que:

(...) mais do que prender-se às noções de cultura, sociedade e identidade que podem ser articuladas por movimentos culturais, é interessante atentar-se aos movimentos que neles e por eles são produzidos, bem como linhas de fuga e territórios existenciais construídos nesses processos (ARAUJO, 2016, p. 22).

Posto isso, optando por manter a identidade e a representação como categorias em aberto, o conceito de rizoma cunhado por Gilles Deleuze e Félix Guattari é introduzido nesta dissertação como uma maneira de traçar as inúmeras possibilidades de conexões e desconexões possíveis às narrativas presentes em Perifeminas II (2014), bem como de acompanhar os movimentos gerados por estas ações. Assim, compreender a obra enquanto rizomática é atentar-se ao fato de que cada relato não se encerra na consolidação de um “eu”, mas constitui existência a partir das intensidades de elos potenciais. Pensar em e por rizomas é traçar linhas de segmentaridades que estratificam e territorializam, e linhas de fuga que desterritorializam e se reterritorializam em um movimento interligado e por vezes inesperado (DELEUZE; GUATTARI, 2000).

O rizoma conecta-se, desconecta-se, reconecta-se segue uma direção, linhas, muda de direção. Ele territorializa-se, mas também desterritorializa-se de um ponto a outro qualquer. A lei do rizoma é o próprio movimento, sua potência está na multiplicidade, no devir, na velocidade, nas linhas de fuga, nos movimentos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização (SILVA, 2016, p. 26).

Apesar de a interseccionalidade e do agenciamento11 serem compreendidos enquanto

correntes de pensamento antagônicas e incompatíveis, haja vista que o primeiro advoga a favor de políticas representacionais — que como visto em Puar (2013) gera um padrão racial a ser questionado — enquanto que o segundo abandona lógicas identitárias – não se trata mais de representar, mas sim de agenciamentos e conexões –,“para que separar os dois quando certamente deve haver deusas-ciborgueanas em nosso meio?” (PUAR, p. 367, 2013) A pergunta postulada por Puar (2013) nos conduz às possibilidades de fricção entre as duas teorias e à viabilidade de agenciamentos e intersecções em Perifeminas II (2014), onde as

10 GOLDMAN, Márcio. Introdução: Políticas e Subjetividades nos Novos Movimentos Culturais. Ilha – Revista

de Antropologia, Universidade Federal de Santa Catarina, v. 9, número 1, 2005, p.9-22.

11 Para Deleuze e Guattari (2000) os rizomas são compostos por agenciamentos. Além disso, é importante dizer

que para os autores todo processo de territorialização pressupõe uma saída desse território, assim como toda desterritorialização busca a construção de novos territórios, uma reterritorialização.

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linhas de fuga nos transportam aos desejos de representações menos categóricos sem se afastar, no entanto, da intersecção de gênero, classe e raça como eventos estruturantes dessas narrativas. Em outras palavras, compreendo que embora possa ser identificado modelos representacionais em Perifeminas II (2014), há sempre brechas que permitem que essas representações sejam porosas e fluidas, territorilializadas e re-desterritorializadas.

Assim, expandi o arcabouço teórico e metodológico desta dissertação seguindo as linhas e as inquietações deixadas pela análise da obra, fazendo-se necessário algumas colagens conceituais, ou para introduzir o termo que traduz agencement do francês para o inglês, algumas assemblages12. No domínio das artes, através das assemblages, os artistas

expressam seus imaginários a partir de encaixes, justaposições e montagens de objetos dos mais variados tipos, como tecidos, madeiras, materiais descartados e papéis. Qualquer elemento pode ser incorporado à obra sem que perca seu sentido original, ao mesmo tempo que seu significado já não é mais o mesmo quando no conjunto da obra. Não me interessa, portanto, abandonar os pressupostos dos feminismos negros, decoloniais e pós-coloniais, mas sim, articulá-los à conceitos como o de rizoma, agenciamento, territorialização desterritorialização e reterritorialização.

Portanto, me apropriando dos conceitos cunhados por Gilles Deleuze e Félix Guattari, chamo atenção para os processos que envolvem o rizoma Perifeminas II (2014) que se estruturam em consonância com a experiência de escrita desta dissertação marcada pela territorialização de uma determinada teoria (feminismos pós-coloniais, negros e decoloniais), pelas linhas de fuga que nos conduzem à desterritorialização do que antes era concebido conceitualmente e pela reterritorialização do pensamento em outros espaços conceituais. Ao desterritorializar concepções teóricas em mim, desterritorializa-se também meu corpus de análise, como a vespa e a orquídea que já não são mais as mesmas quando em rizomas (DELEUZE; GUATTARI, 2000).

1.1 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO

Esta dissertação está organizada em três capítulos, além da introdução e das considerações finais. Na introdução tratei de apresentar os questionamentos teóricos e

12 Segundo Puar (2013) a tradução do francês agencement para o inglês e para o português, assemblage e

agenciamento respectivamente, é uma tradução infeliz, já que não transmitem a noção de layout, esquema, organização e relação presente na palavra em francês.

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metodológicos que permearam a escrita deste estudo e introduzi alguns conceitos chaves para a análise aqui desenvolvida. Intentei também justificar brevemente a importância da obra tendo em vista o panorama histórico-cultural em que ela se insere.

No primeiro capítulo, busco delinear as primeiras cartografias de Perifeminas II (2014). Abordo inicialmente os princípios que caracterizam os rizomas de modo a fundamentar minhas escolhas teóricas e argumentar o porquê este conceito se faz importante à presente pesquisa. Em seguida, defino as antologias, gênero literário no qual se assenta a obra de análise deste trabalho, e traço cartografias inventadas das escritoras e das idealizadoras do projeto para situá-las no contexto mais amplo de sua produção. Pretendo com isto, forjar percursos que permitem a existência da obra enquanto coletividade, reconhecendo alguns aspectos centrais e materiais de sua elaboração.

No segundo capítulo, faço uma retomada histórica do movimento Hip Hop com o intuito de colocá-lo em diálogo com a obra aqui analisada, considerando à representação e à representatividade das mulheres nesta cultura. Me proponho através do agenciamento

Perifeminas II-Hip Hop, acompanhar as linhas de segmentaridades e de fugas que permitem

que este movimento das periferias globais se des-re-territorialize por meio das estratégias políticas e estéticas adotadas pelas mulheres de Perifeminas II (2014). Questões relativas, ao machismo, ao feminismo e à violência de gênero serão abordadas mais diretamente nesta parte da pesquisa.

A partir dos grafites da capa e da contracapa da obra, no capítulo seguinte, proponho um debate teórico sobre a representação. Aproximo-me da perspectiva interseccional de Crenshaw, reconhecendo sua importância histórica e analítica para a Crítica de Gênero e para os Estudos Feministas, embora também me atenha a apontar as ponderações feitas por outras/os teóricas/os que permitem complexificar sua conceitualização (Henning, Piscitelli, Prins). O argumento de Puar (2013) sobre uma teoria híbrida da interseccionalidade com o agenciamento aparece como um recurso para alguns impasses encontrados na análise desta dissertação e também para algumas das críticas feitas pelos teóricos supracitados, bem como a proposta de Braidotti sobre a diferença positivada. As figuras do ciborgue e das espécies companheiras (HARAWAY) permitem pensar a representação para além das dicotomias entre humanos e não humanos, em consonância com as imagens das mulheres-árvores-raízes-rizomas encontradas nos grafites da capa e da contracapa.

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Em seguida, a partir do agenciamento periferias-minas, inspirado no título da obra e reconhecido como uma conexão de alta intensidade entre as narrativas, trago representações e subjetividades criadas a partir deste elo. Como será possível observar, raça, local, gênero e sexualidade se tornam categorias polissêmicas, significadas a partir das relações estabelecidas entre as narrativas e também pela especificidade do texto de cada autora. Por fim, nas considerações finais, será possível evidenciar as conclusões mais significativas apontadas em cada capítulo, bem como acompanhar para onde e como estas linhas de segmentaridades e de fugas traçadas ao longo da dissertação contribuem para novos caminhos sobre o estudo da representação de mulheres na literatura.

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2 PRIMEIRAS CARTOGRAFIAS

2.1 SOBRE RIZOMAS

Se reconhecemos a antologia Periferminas II (2014) como um rizoma é preciso de antemão adentrar na obra Mil Platôs (2000) de Gilles Deleuze e Félix Guattari para compreender os princípios e os conceitos abordados pelos autores quando instituem essa ontologia da multiplicidade. Para a Botânica o rizoma é, tradicionalmente, um caule subterrâneo ou aéreo que cresce horizontalmente, com numerosas ramificações que brotam sem direção definida, podendo criar raízes, bulbos e tubérculos. Para a filosofia de Deleuze e Guattari, o rizoma torna-se um modelo teórico de resistência ético-estético-político que se contrapõe à noção de arborescência encontrada em Decartes, cuja raiz seria a metafísica, o caule a física e a copa e os frutos a ética (CORDEIRO, 2017). Se o pensamento arbóreo, característico das sociedades ocidentais, prescreve a instauração de dicotomias, de homogeneizações e de universalizações, o rizoma conecta um ponto ao outro inesperadamente, sem hierarquias, sem categorias centrais e estáveis.

Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo "ser", mas o rizoma tem como tecido a conjunção "e.… e.… e.…" Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser (DELEUZE; GUATTARI, 2000, n. p.).

O uso infindável do conectivo “e”, que sustenta uma adição e uma continuação, manifesta dois dos princípios que caracterizam o rizoma: a conexão e a heterogeneidade. Se a árvore cria raiz em um ponto, o rizoma ramifica seus pontos de contato. Nas conexões que o constituem não há ordem, não há rumos definidos, pré-estabelecidos e centrais. Ele é, pois, multiplicidade, terceiro princípio estabelecido pelos autores.

A multiplicidade, implica em determinações, grandezas e dimensões que crescem alterando sua natureza ao estabelecer novas conexões, ela é a própria realidade e supera “as dicotomias entre consciente e inconsciente, natureza e história, corpo e alma” (BRUCE; HAESBERT, 2002, n.p.). Esse crescimento das dimensões é chamado pelos autores de agenciamento.

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Na multiplicidade não há unidade de medida ou pontos fixos, como a árvore, mas agenciamentos e linhas. São justamente as linhas de fuga ou as desterritoriazações que a delineiam, pois através delas “o rizoma pode fugir, se esconder, se ressignificar, sabotar, cortar caminho; o que as formas impedem de acontecer” (CORDEIRO, 2017, p. 49).

As linhas de fugas nos levam ao quarto princípio postulado pelos autores: o de ruptura a-significante. O rizoma pode ser podado e cortado em qualquer lugar, sem, no entanto, deixar de buscar outros territórios de recomposição ou de efetuar uma retomada rizomática. Assim como as formigas que podem ser parcialmente destruídas, mas não deixam de reconstruir seus caminhos e suas moradas, o rizoma também é dotado de tal capacidade, pois as linhas de fuga, ao escapar, não extinguem sua existência, já que linhas de segmentaridades garantem o prosseguimento do rizoma. No entanto, quando volta ao território, isto é, se reterritorializa-se, o rizoma já não é o mais mesmo.

Todo rizoma compreende linhas de segmentaridade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído, etc; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. Estas linhas não param de se remeter umas às outras. É por isso que não se pode contar com um dualismo ou uma dicotomia, nem mesmo sob a forma rudimentar do bom e do mau (DELEUZE; GUATTARI, 2000, n.p.).

Para acompanhar os traçados dessas linhas, outro princípio que rege o rizoma, o da cartografia, apresenta-se como ferramenta necessária para a realização de um estudo das multiplicidades. Se a decalcomania, com um eixo central de onde deriva dicotomicamente outras categorias conceituais, é da ordem da arborescência, o mapa é do rizoma. Nesse sentido, longe de ser um método que mapeia o absoluto, o cartografar acompanha movimentos contínuos de (re)(des)territorialização. À título de exemplificação, a decalcomania pode ser comparada a um retrato 3x4, cuja ênfase está na cópia fiel de quem é fotografado. O fotógrafo, para que a imagem seja precisa e nítida, necessita que seu modelo fique o mais parado possível (COSTA, 2014b). Imagine agora que se o fotógrafo — ou o modelo — se movimenta, a imagem captada será a de um borrão de inúmeras linhas que expressam o trajeto feito pela câmera. É justamente esse borrão que importa ao cartógrafo, pois seu interesse não está na cópia fiel da realidade, mas nos processos complexos e inconstantes gerados pelos movimentos. Assim, “ao invés de coletar verdades, o cartógrafo abre caminho para os fluxos, para aquilo que aponta para a criação e que justamente resiste aos congelamentos” (COSTA, 2014b, p. 75).

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Os princípios de conexão, de heterogeneidade, de multiplicidade, de ruptura a-significante e de cartografia que caracterizam o rizoma permite encarar as supostas contradições e diferenças em Perifeminas II (2014) não como dicotomias hierárquicas, já que não há unidades centrais, mas como relações horizontais que escapam às noções prévias, uma vez que o rizoma é da ordem do movimento.

Sendo o território, nas palavras dos autores, um ninho, “um centro estável e calmo, estabilizador e calmante, no seio do caos” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 116), procuro agora cartografar processos de re-des-territorialização em Perifeminas II (2014). Em outras palavras, busco rastrear as linhas de segmentação que estratificam e possibilitam a formação de um território — que garantem que mesmo com as fugas, escapadelas e destruições parciais, o rizoma se sustente — e as linhas de fuga que escapam dos movimentos totalizadoras e que permitem que o Hip Hop, cultura em movimento, e a obra aqui analisada se reterritorializem constantemente.

2.2 ANTOLOGIAS 100% FEMININAS

A antologia, enquanto gênero literário, surgiu na Inglaterra do século XVIII devido ao volume intenso de literatura impressa produzido na época, às novas práticas comerciais literárias e também em consequência do aumento do público letrado no país. No Brasil, a consolidação e popularização do gênero se dá sobretudo no século XX e está vinculada ao desenvolvimento do mercado editorial e da educação nacional (ZAMBELLI, 2017).

A conceptualização mais tradicional e recorrente do termo antologia, além de se referir a parte da botânica que estuda as flores, se assenta na noção da reunião de vários textos que se apresentam enquanto uma unidade, como pode ser observado na definição do dicionário E-dicionário de Termos Literários, segundo o qual antologias são “colecção de textos (com ou sem comentário) seleccionados segundo determinados critérios e representativos de uma literatura ou do conjunto da obra de um autor”13. Para Benedict (2003)

antologias expressam a diversidade social, aglutinando o que há em comum e também as divergências literárias. Assim, diferentes textos são reunidos sem que percam suas

13 CEIA, Carlos. Enciclopédia. E-Dicionário de Termos Online. Disponível em : <

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singularidades. Mantendo-se únicos, no encontro com outros geram comparações e diferenciações.

A antologia é um trabalho e muitos trabalhos. Inclusiva e exclusiva, comunal e fraturada, uma representação física da sociabilidade e do elitismo, heteroglóssica mas homogênea, a antologia literária implica na atividade de comparação e diferenciação literária [...]. É a encarnação literária das tensões sociais e evidencia o período inicial de modernização: a reunião em um todo composto de diversos elementos que ainda mantêm sua integridade14 (BENEDICT, 2003, p.252, tradução

minha).

Em relação ao presente estudo, a definição estabelecida por Benedict (2003) permite a compreensão da impossibilidade de se postular uma representação única em Perifeminas II (2014). Uma análise de antologias suscita um olhar para aquilo que une e para aquilo que se diferencia e não para expectativas de representações invariáveis, haja vista que antologias são “um e muitos trabalhos”.

Embora as definições que caracterizam uma antologia possam variar segundo diversos critérios e contextos “nada es inocente en una antología, ya que toda presencia implica una ausencia” (PALENQUE, 2007, p. 1). Considerando-se que esse gênero literário pressupõe um projeto editorial em sua criação, a seleção de textos ou de autores se mostra inevitável. Assim, antologias funcionam como dispositivos que ampliam as vozes ou os silêncios na história literária e cultural. Em outras palavras, tentativas unificadoras ou totalizadoras de narrativas singulares, que garantem o acesso e o registro a determinados autores e a exclusão de outros. Obras antológicas são consideradas, por conseguinte, reveladoras daquilo que é “dignamente literário” para uma determinada sociedade e contribuem para a consolidação de cânones literários.

As antologias demonstram como as obras literárias são disseminadas e consumidas. Elas dialogam conosco sobre as modas literárias, os valores estéticos ou sobre a recepção e o gosto do leitor. Ao pé da letra, elas podem atuar como indicadores de desempenho, ou seja, podem revelar que autores e obras são dignos de seleção e publicação, pelo menos no que depender do antologista ou do editor15 (BAUBETA,

2008, p. 27 apud ALVES, 2014, p.74, tradução do autor ).

14 “The anthology is one work and it is many works. Inclusive and exclusive, communal and fractured, a physical representation of sociability and of elitism, heteroglossic yet homogeneous, the literary anthology entails the activity of literary comparison and differentiation.[...] It is the literary embodiment of the social tensions and project of the early period of modernization: the gathering together into a composite whole of diverse elements that yet retain their integrity.”

15 “Anthologies demonstrate how literary works are disseminated and consumed, they speak to us about literary fashions, aesthetic values or reader reception and taste. Taken at face value, they may act as performance indicators, showing which authors and works have been deemed worthy of selection and publication, at least by the anthologist and the publisher. ”

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Mas o que se faz quando muitos leitoras/es e escritoras/es não se sentem representadas/os ou não conquistam espaços em antologias que circulam nos mercados hegemônicos da literatura? Pois criam suas próprias. Como mostra Jéssica Balbino em sua dissertação de mestrado intitulada de “Pelas Margens: vozes femininas na Literatura Periférica” (2016), ao analisar a produção da literatura periférica/marginal16 no Brasil em um

recorte de quinze anos (2001-2016), pode-se perceber um crescente de obras autopublicadas. Muitas/os escritoras/es publicam seus livros junto às pequenas editoras, enquanto outras/os criam seus próprios selos editoriais. Balbino (2016) cita como exemplos dessas novas editoras, dentre outras, as Edições Maloqueiristas, criada pelo coletivo Maloqueirista em 2002; a editora Doburro, que surge em 2011 e é coordenada por Daniel Minchoni; a Selo Povo, criada em 2008 por Ferréz; e a Padê Editorial criada em 2016 por Tatiana Nascimento e Bárbara Esmênia.

A produção de novas antologias de literatura marginal/periférica, portanto, está atrelada ao crescimento do público leitor dessa nova literatura e à presença de novos antologistas e editores no mercado editorial que atendam a essa demanda, logo, ao surgimento de novos projetos literários. Essas antologias, por sua vez, longe de serem somente um reflexo do crescimento editorial da literatura marginal/periférica e das novas possibilidades de acesso à publicação, também procedem dos encontros ocorridos em saraus, territórios da vocalização da arte, da partilha e do encontro das periferias. Sobre a relação entre participação de mulheres nos saraus e a publicação de novas antologias, Balbino (2016) escreve:

É neste momento que consolida-se o hábito de publicar antologias com os participantes dos saraus. Após as primeiras, que tinham uma participação pífia de mulheres, algumas outras, à frente de coletivos e saraus passaram a organizar-se em grupos exclusivamente femininos, a fim de garantir o uníssono da voz que lhes é negada, especialmente na equidade de participação nos saraus e eventos (BALBINO,2016, p. 98).

As pesquisas de Balbino (2016) indicam que, nas 61 obras analisadas, a participação de mulheres em antologias é 21% menor que a dos homens (1173 escritores contra 928 escritoras). A autora constata que esse número vem se modificando desde 2012, quando a

16 Nessa dissertação adota-se o termo literatura marginal/periférica em concordância com Jéssica Balbino

(2016), por serem os termos mais usados pelos escritores que representam “literatura feita às margens do cânone, editoriais, frequentadores de saraus e moradores de periferia ” (BALBINO, 2016, p. 15).

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participação de mulheres em antologias marginais/periféricas começou a aumentar. Em 2014, ano de publicação da obra Perifeminas II, o número de mulheres presentes em antologias supera, pela primeira vez, o de homens (98 escritoras contra 71 escritores). Segundo Balbino (2016), isso se deve, dentre outros fatores, as publicações de antologias escritas exclusivamente por mulheres.

É precipitado concluir a que deve-se este aumento nos últimos dois anos, já que trata-se de uma pesquisa que está em desenvolvimento e também acompanha uma cultura em movimento, no entanto, podemos observar que há uma crescente de publicações 100% femininas ou, que há também, uma organização maior por parte das mulheres, coletivos e por conseguinte, mais mulheres participando de saraus e contribuindo com as escritas. Além disso, há também mais mulheres publicando obras autorais, conforme veremos adiante (BALBINO, 2016, p. 106).

Nota-se, portanto, como a produção de antologias escrita somente por mulheres aparece como um dispositivo que aumenta a produção e a circulação de narrativas feitas por elas. Além disso, antologias, ao reunir textos de autoras/es diferentes, possibilita que as/os leitoras/es tenham contato com autoras/es não conhecidas/os da literatura marginal/periférica, ampliando o alcance das vozes dessas mulheres. Desse modo, é importante compreender que

Periferminas II (2014), no que refere ao gênero literário adotado, faz parte desse movimento

de organização das mulheres da periferia em prol do aumento da representatividade literária. Como afirma Balbino no prefácio da obra aqui analisada:

Pensar em um livro coletivo — na segunda edição — com 50 mulheres pode parecer comum quando não se conhece a própria história ou o véu de preconceito e abusos velados que acompanham o “sexo feminino”, especialmente quando são mulheres ligadas à periferia, ao feminismo, ao Hip Hop e a literatura marginal (FRENTE NACIONAL DE MULHERES NO HIP HOP, 2014, n.p).

Em sua dissertação, Balbino (2016) faz uma intensa pesquisa sobre as mulheres que produziram literatura marginal/periférica de 2001 a 2016. A autora buscou mapear, através da análise de livros publicados no período, da realização de 400 formulários de automapeamento e do acesso a outras plataformas de pesquisa (trabalho de campo, entrevistas, etc.), quem são essas escritoras, sobre o que falam, o que estão produzindo, além de outras questões decorrentes de sua análise sobre a experiência e a produção dessas mulheres que escrevem. A pesquisa de Balbino (2016) se faz importante para esta dissertação, dentre outros motivos, pelo mapeamento por ela efetuado das produções de antologias brasileiras, como denomina a autora, 100% femininas, isto é, escritas exclusivamente por mulheres. Retomo a linha histórica dessas antologias, bem como os apontamentos feitos por Balbino (2016) sobre a

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temática, pois creio ser importante para a compreensão de Perifeminas II (2014) seu território de produção, que não se fecha em si mesmo, mas que estabelece agenciamentos com outros movimentos e antologias.

Como visto, a obra aqui analisada faz parte de um contexto em que antologias são utilizadas como ferramentas de luta para se mudar o padrão de seleção literária, nesse sentido, o conceito de antologia não está mais territorializado somente ao que é “dignamente literário”, mas também ao reconhecimento de que esta amplia a participação das mulheres na literatura.

A primeira antologia escrita somente por mulheres e que integra a literatura marginal/periférica data de 2009 e se chama Império Lampinho. Produzida por meio de uma parceria entre o Sarau Elo da Corrente e o Coletivo Cultural Poesia na Brasa, ela é definida como “um livro repleto de sutilezas e sentimentos que se tornou forte, mostrando que as mulheres da periferia não precisam balançar suas bundas em danças eróticas, enquanto são chamadas de cachorras para que possam ser vistas ou quem sabe ouvidas”.17

No mesmo ano publica-se a obra Hip-Hop Mulher, Conquistando Espaços. Organizada por Tiely Queen, a antologia, que conta com poesias, prosas e grafites, apresenta os escritos de Elizandra Souza, Roseane Ribeiro (Jovens Feministas de São Paulo e Hip-Hop Mulher), Valéria Melki Busin (Católicas pelo Direito de Decidir), Janaína Oliveira e Latoya Guimarães. Além dos textos das autoras, o livro aborda também questões relativas à saúde da mulher, como direitos sexuais e reprodutivos e métodos anticonceptivos. Ao final da obra, uma página de telefones úteis onde pode ser encontrado, por exemplo, o número da Central de Atendimento à Mulher e da Delegacia de Defesa da Mulher.

Percebe-se que nas duas obras supracitadas que marcam o início das antologias marginais/periféricas 100% femininas incorporam-se pensamentos e militâncias feministas. Em Império Lampinho (2009) nota-se a crítica das autoras à objetificação e a hiperssexualização das mulheres da periferia; em Hip-Hop Mulher, Conquistando Espaços (2009) há preocupação quanto à violência contra a mulher e também ao direito ao corpo. Essa característica, isto é, o feminismo enquanto elemento constituinte desses processos editoriais será perceptível em todas as antologias que citarei aqui.

17 SARAU DA BRASA. Lançamento Império Lampinho. 2009. Disponível em:

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A Coletânea de Literatura Feminina Negra Louva Deusas, publicada em 2012 pelo coletivo Louva Deusas, reúne textos de 25 autoras negras da contemporaneidade oriundas de diversas localidades do Brasil. A obra, como escreve Bárbara Nascimento na apresentação, atenta-se a uma questão cara aos Estudos Literários: a literatura negra brasileira está vinculada a temática ou aos indivíduos que a escrevem? Para responder à pergunta, a professora de língua portuguesa e de literatura brasileira escreve que a obra resolve essa questão ao atender tanto a premissa do autor quanto a da temática:

temos aqui uma seleção de textos escritos por mulheres que se reconhecem e se afirmam negras. São registros identitários, vivências transcritas, memórias individuais que revelam valores de um coletivo por muitas vezes invisibilizado (LOUVA DEUSAS, 2012, p. 9).

O mesmo coletivo publica, em 2015, Além dos Quartos — Coletânea Erótica Negra

Louva Deusas com a participação de 41 escritoras e 11 desenhistas negras, sendo duas delas

escritoras de outros países, uma franco-marroquina e outra franco-sudanesa. O livro aborda temas ligados à sexualidade das mulheres negras e ao racismo patriarcal.18 As coletâneas

produzidas pelo coletivo Louva Deusa traçam uma linha de fuga ao feminismo presente nas primeiras antologias aqui citadas ao abordar unicamente questões relativas as experiências das mulheres negras, evocando o protagonismo dessas mulheres enquanto narradoras de suas próprias histórias.

Em 2013, o coletivo Mjiba, nome atribuído às jovens guerreiras que lutaram pela independência do Zimbabué, publica outra obra 100% feminina, a antologia Pretextos de

Mulheres Negras. Com a participação de 22 mulheres negras, sendo uma delas da Costa Rica

e a outra de Moçambique, o livro conta com textos em prosa e poesia, além da biografia e da foto das autoras que escrevem. Em entrevista à Balbino (2016), Elizandra Souza afirma sobre a produção dessa antologia:

(...) a gente não inventa a roda, a gente traz (...) pra mim é importante referenciar quem veio antes. Quando eu fiz Pretextos [de Mulheres Negras], eu não estava inventando a roda, tinha uma antologia no Rio, da ONG Criola, em 1998, o livro foi inspirado nessa antologia, só que nessa [do Rio de Janeiro] eram ensaios, artigos acadêmicos e tinham mulheres negras, mas tinham também mulheres brancas falando sobre mulheres negras, e no nosso caso tinha a autorrepresentatividade, então, eu fico feliz que tem várias questões em relação ao machismo, dentro da literatura, sei lá, eles tem umas questões que não foram resolvidas ainda, mas têm um novo olhar. Essa nova geração tem outras possibilidades, principalmente com as

18 LOUVA DEUSAS. Lançamento do livro “Além dos Quarto: Coletânea Erótica Negra Louva Deusas”. 2016. Disponível em: < https://louvadeusas.wordpress.com/>. Acesso em outubro 2018.

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novas tecnologias, a possibilidade de troca é muito maior (BALBINO, 2016, p. 129).

Elizandra Souza em sua fala evidencia que a produção de Pretexto de Mulheres

Negras (2013) não está atrelada somente aos processos de criação ou de inovação, mas se

concretiza na inspiração de projetos literários criados anteriormente. São conexões realizadas que permitem que o rizoma, ou a “roda”, se movam. Mas os rizomas, como dito anteriormente, também possuem linhas de fuga, logo, a antologia em questão traz a autorrepresentação como um mote importante em sua construção, diferentemente da obra Oro

Obírin — 1º prêmio literário e Ensaístico sobre a condição da Mulher Negra, que inspira a

antologia. Como nos aponta a fala de Elizandra, autorrepresentar-se abre possibilidades de novas vozes no cenário literário — e consequentemente a criação de novos territórios para a literatura — e irrompem questionamentos a respeito da representação ocidental do homem e da mulher universal, revelando deste modo:

uma literatura em que o corpo-mulher-negra deixa de ser o corpo do ‘outro’ como objeto a ser descrito, para se impor como sujeito-mulher-negra que se descreve, a partir de uma subjetividade própria experimentada como mulher negra na sociedade brasileira” (EVARISTO, 2005, p. 54).

A relevância dada às autoras, à representação e à representatividade é percebida não só pelas narrativas que constroem e pela seleção das escritoras da obra, mas também pela presença de fotos e biografias que viabilizam identidades negras e a elaboração de um registro memorial.

Tal prática, isto é, a ênfase na autorrepresentação e no registro histórico, também pode ser percebida na antologia publicada pela Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop (FNMH²) Perifeminas — Nossa História (2013), primeiro volume da obra em análise nesta dissertação. Uma das idealizadoras da Frente e integrante do projeto Lunna Rabetti/ Luana Rabetti afirma sobre a importância de dar ênfase às mulheres que participaram da iniciativa:

Tivemos a preocupação de colocar a foto da autora, porque a gente percebe que na literatura nunca aparecem foto das personagens, mesmo na literatura comum, nunca teve. Também fizemos questão de pôr o nome inteiro da autora, porque também é uma grande falha da nossa literatura [a mulher] era sempre a esposa do fulano de tal. Essas mulheres nunca tinham nomes. [Por isso] colocamos um breve release de cada autora também, para saberem quem é essa pessoa e o contato dela direto, o e-mail, para não ter intermediários (BALBINO, 2016, p. 126).

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Financiado pelo programa de Valorização de Iniciativas Culturais19 (VAI) e com a

publicação de 2000 exemplares, a obra marca uma iniciativa histórica, seja para a literatura, seja para o Hip Hop20. O primeiro volume das antologias Perifeminas (2013; 2014) é uma

compilação de textos inéditos de 63 mulheres brasileiras, de 11 Estados diferentes, ligadas ao Hip Hop e que tem por objetivo trazer à cena a participação das mulheres na consolidação e construção da cultura Hip Hop no Brasil, assim como questionar a representatividade e o lugar da mulher na literatura, como visto na fala acima de Lunna Rabetti. A obra fala do Hip Hop a partir da percepção de Mcs, Djs, Grafiteiras, B.Girls, letristas, poetisas e de outras mulheres envolvidas com o movimento. Sobre a publicação dessa primeira antologia pela FNMH², Lunna Rabetti declara:

O primeiro Perifeminas veio com a proposta de ser a “Nossa história” e conta um pouco sobre a história do movimento hip-hop desde o início sob a ótica da mulher, com a participação das mulheres, porque muito era questionado sobre o quanto as mulheres apareceram no movimento hip-hop, e na verdade elas sempre estiveram desde o início, então nesse livro a gente consegue resgatar essa história e trazer mulheres que estão desde o início no movimento, né, como MC Regina, Sharylaine, Ieda Hills, que são mulheres que estavam há 30 anos, assim como a gente abre espaço para mulheres que vieram nessa caminhada até a atualidade (BALBINO,2016, p. 125).

Trata-se, portanto, de uma antologia que visa escrever novas páginas sobre um cenário considerado hegemonicamente masculino. Agora o protagonismo é das mulheres e são elas que contam a história do Hip Hop no Brasil. A autorrepresentação é, portanto, aspecto importante não só desta, como também das outras antologias aqui apresentadas, pois se a literatura é, como vimos na introdução, uma área predominantemente masculina, branca e elitista, evidenciar novos sujeitos de produção artística e literária, bem como novas práticas narrativas é, pois, mexer nas estruturas hegemônicas do contexto literário e cultural brasileiro. Além disso, mostrar que as mulheres estão e sempre estiveram presentes no Hip Hop requer um resgate da participação e das experiências das que fortalecem o movimento21 no país,

como nos mostra Lunna Rabetti:

19 Trata-se de um programa desenvolvido pela Prefeitura de São Paulo que visa apoiar financeiramente

atividades artísticas e culturais, principalmente de jovens de baixa renda das regiões do Município de São Paulo e desprovidos de recursos e equipamentos culturais.

20 O termo Hip Hop adota diversas grafias, como: hip hop, Hip Hop, Hip-Hop e hip-hop. Adoto a grafia Hip Hop

por ser a utilizada pelas escritoras que dialogo.

21 Nessa dissertação o Hip Hop é reconhecido tanto como uma manifestação cultural quanto um movimento

social, pois como demonstra Matsunaga (2006), as divergências existentes entre os dois termos se relacionam com o sentido que cada integrante do Hip Hop atribui a esses dois conceitos. Como as autoras de Perifeminas

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A ideia do livro é realmente mostrar que existem mulheres no movimento hip-hop, que existem mulheres nas comunidades que escrevem e dar toda essa visibilidade para elas. Depois que lançamos esse primeiro Perifeminas, teve um boom tão grande, que a gente começou a receber vários e-mails, em torno de 150 mulheres entraram em contato com a gente, querendo saber o que era isso, que era uma novidade, e ao mesmo que é gratificante você estar realizando um projeto como esse, pela importância que ele tem, a gente também fica triste porque em 2013 ainda não tinham lançado algo assim contando a nossa história (BALBINO, 2016, p. 126).

Frente à repercussão e ao sucesso da primeira antologia, um ano depois do primeiro volume, a FNMH² publica, também com o financiamento do programa VAI e com tiragem de 2000 exemplares, o livro Perifeminas II - Nossas Histórias (2014)22. A obra é, na verdade,

parte integrante do Projeto Perifeminas II, que consiste em três momentos: curso com Lunna Rabetti sobre como publicar livros; um segundo momento de publicação do livro com a participação das escritoras e de convidados; e, por fim, a distribuição de 500 exemplares para Organizações Não Governamentais (ONGs), Secretarias de Cultura e bibliotecas (FRENTE NACIONAL DE MULHERES NO HIP HOP, 2014, n.p). Essas três etapas demonstram a preocupação das organizadoras não somente em publicar o livro, mas também em compartilhar informações e conhecimentos através de cursos; garantir a presença e o envolvimento ativo das mulheres que escreveram a obra com sua publicação; e assegurar sua circulação, através de sua distribuição em lugares de fácil acesso ao público leitor, como bibliotecas.

Sobre o lançamento do primeiro volume das antologias, Araújo (2016) descreve, ressaltando as atividades e as ações que perpassam os eventos de divulgação:

O lançamento desse livro era uma atividade realizada em diversos lugares, tendo eu acompanhado algumas vezes esse evento em outras cidades. O Sarau fora feito do lado de fora da Casa [do Hip Hop Sanca] e o espaço encheu-se de pessoas (cerca de cinquenta), de diversas idades. Como decoração do ambiente, foi feito um varal de poesias, letras de música e desenhos de mulheres. O dj, que em algum momento

II (2014) utilizam tanto movimento quanto cultura para se referir ao Hip Hop adoto os dois termos sem

colocá-los de maneira antagônica, mas sim como aspectos de um mesmo fenômeno artístico e político.

22 Insta dizer que embora em nenhum momento as escritoras associem a obra Perifeminas II (2014) a uma

antologia, enquadro o livro nesse gênero literário, não só pelos apontamentos que introduzem essa parte da dissertação, mas também pelo posicionamento de Balbino (2016) frente à questão, que não só analisou antologias escritas exclusivamente por mulheres, como também integra a obra Perifeminas II (2016). Para ela, antologias marginais/periféricas são obras que reúnem mais de um texto ou autor comprometidos com a literatura marginal/periférica.

Referências

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