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GALVAO 2005 ConflitosArmadoseRecursosNaturais novasguerrasemAfrica

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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DENISE LÚCIA CAMATARI GALVÃO

Conflitos Armados & Recursos Naturais:

As “novas” guerras na África

Brasília

2005

(2)

DENISE LÚCIA CAMATARI GALVÃO

Conflitos Armados & Recursos Naturais:

As “novas” guerras na África

Dissertação apresentada à Universidade de Brasília, junto ao Instituto de Relações Internacionais como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Relações Internacionais, na Área de Concentração de História das Relações Internacionais.

Orientador: Prof. Dr. Wolfgang A. K. Döpcke

Brasília

2005

(3)

DENISE LÚCIA CAMATARI GALVÃO

Conflitos Armados & Recursos Naturais:

As “novas” guerras na África

Dissertação apresentada à Universidade de Brasília, junto ao Instituto de Relações Internacionais como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Relações Internacionais.

Aprovada em 26/07/05

Banca examinadora

:

__________________________________________ Prof. Dr. Wolfgang A. K. Döpcke (Orientador)

__________________________________________ Prof. Dr. Eduardo José Viola (membro)

__________________________________________ Prof. Dr. Pio Penna Filho (membro)

(4)

Essa natureza humana que gosta da guerra funciona como um rio. É impossível mudar a natureza de um rio. Mas, se ele causar enchentes toda hora, destruindo casas e vidas, a gente faz o quê? Fica de braços cruzados choramingando: “Oh, não podemos mudar a natureza do rio”? Não. Fazemos uma represa, por exemplo. Então. Do mesmo jeito que usamos a razão para barrar um rio, podemos usá-la para frear a desconfiança, o medo e a cobiça que movem as pessoas e seus governantes.

(5)

Agradecimentos

Agradeço aos meus pais, que sempre me estimularam a ler e a escrever; aos precedentes mestres e doutores na família, que me deram exemplo;

ao Daniel, cuja companhia foi contrapeso às horas de cansaço; ao professor Wolfgang, que me proporcionou valiosa orientação;

aos amigos que me acompanharam durante o trabalho;

(6)

Resumo

A correlação entre conflitos armados e recursos naturais leva à ocorrência de guerras por recursos, que são casos em que a disputa por recursos representa um fator crucial à dinâmica do conflito armado. Esse fenômeno, a inspirar um paradigma de guerra relacionado, sobretudo, ao período pós-bipolaridade da ordem internacional e do continente africano, propõe um caminho para o entendimento de fenômenos como os conflitos armados em Serra Leoa, Angola e República Democrática do Congo. O estudo desses casos oferece evidências não somente de que a competição por recursos naturais como fonte de renda em economias de guerra alimenta conflitos, mas também de que certos recursos exercem papéis importantes nas estratégias das facções beligerantes, de modo que se relativizam as alianças e as rivalidades entre as organizações combatentes e se firma uma tendência ao prolongamento da insegurança. A presença das riquezas naturais como protagonistas no cenário de conflito armado corresponde a Estados débeis, em que redes internacionais e atores privados têm influência determinante nos desígnios da política e no desenvolvimento de relações econômicas informais.

Palavras-chave: guerras, África, conflito armado, pós-Guerra Fria, Angola, Serra Leoa, Congo (ex-Zaire)

(7)

Abstract

The co-relation between armed conflicts and natural resources induce the ocurrence of resource was, which are armed conflicts crucially determined by the dispute for resources. This paradigm of war, related notably to the period post-Cold War and to Africa, proposes a particular way to understand fenomenona such as the “new” wars in Sierra Leone, Angola and the Democratic Republic of Congo. These three case studies offer indications that the competition for exploitation of natural resources profits in economies of war feeds conflicts. Furthermore, some resources play important roles in belligerent factions' strategies, so that the alliances and rivalries between the combatant organizations become less rigid and the insecurity is prone to persist. The presence of hatural resources as the main variables determining armed conflicts corresponds to weak states, where international networks and private agents influence politics and the development of informal economy.

Key-words: wars, Africa, armed conflicts, post-Cold War, Sierra Leone, Angola, Congo (ex-Zaire)

(8)

Sumário

Lista de siglas ... 10

Lista de figuras ... 12

Introdução ... 13

Capítulo 1 – Conflitos armados: abordagens paradigmáticas ... 16

1.1 Introdução ... 16

1.2 “Velhas” guerras e a transformação ... 19

1.3 Guerra como processo ... 27

1.4 “Novas” guerras ... 29

1.4.1 Identidade & conflitos armados ... 30

1.4.1.1 Guerras como meio de busca de reversão de marginalização de base étnica 31 1.4.1.2 Etnicidade & caos em conflitos armados ... 33

1.4.2 Desordem & oportunidades: funcionalidade da guerra ... 36

1.4.3 Conflitos armados & recursos naturais ... 39

1.4.3.1 Escassez de recursos & conflitos armados ... 42

1.4.3.2 Abundância de recursos & conflitos armados ... 43

1.4.3.2.1 Greed X Grievance ... 45

1.5 Análise multidimensional de conflitos armados ... 51

1.6 Conclusão ... 58

Capítulo 2 – Disputa por recursos e falência do Estado em Serra Leoa ... 62

2.1 Introdução ... 62

2.2 Sucintos antecedentes políticos ... 64

2.3 Disputas por recursos antes da deflagração do conflito armado ... 66

2.4 Conflito armado e variações na balança de poder interna ... 70

2.4.1 Primeira fase: Instauração da desordem e falência do Estado (1991-1995) ... 71

2.4.2 Segunda fase: Reação estatal por meio da iniciativa privada (1995-1997) ... 79

2.4.3 Terceira fase: O jugo do terror (1997-1999) ... 85

2.4.4 Quarta fase: Conturbado caminho ao apaziguamento (1999-2002) ... 93

2.5 Guerra por recursos? ... 101

(9)

Capítulo 3 – O conflito armado transformado em Angola ... 111

3.1 Introdução ... 111

3.2 Um conflito armado mutante ... 113

3.3 O petróleo e a sobrevivência do regime do MPLA ... 125

3.4 A UNITA e a economia dos diamantes ... 134

3.5 A interpretação do conflito armado em Angola ... 145

3.5.1 Fatores identitários nas origens da polarização social e o nível de análise do Estado ... 146

3.5.2 Agenda econômica e inserção internacional como fatores do conflito angolano . 149 3.6 Conclusão ... 157

Capítulo 4 – O colapso e a competição armada pelos despojos do Congo ... 159

4.1 Introdução ... 159

4.2 A crise do Estado no pós-Guerra Fria (1990-1996) ... 162

4.3 A guerra civil (1996-1997) ... 168

4.4 O turbulento “entre-guerras” (1997-1998) ... 173

4.5 A segunda guerra congolesa: a “guerra mundial africana” (1998-2002) ... 176

4.5.1 A escalada horizontal do conflito armado: motivações das partes beligerantes ... 177

4.5.2 Repartição do território congolês ... 178

4.5.3 Guerra & negócios: a agenda econômica do conflito armado ... 184

4.5.4 Ruptura do embalo destrutivo: o abrandamento do conflito armado? ... 198

4.6 Balanço dos fatores causais da violência política organizada no Congo ... 205

4.7 Conclusão ... 210

Conclusões ... 213

(10)

Lista de siglas

ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados ADF – Allied Democratic Forces (Uganda)

AFDL – Alliance des forces démocratiques pour la libération du Congo-Zaïre AFRC – Armed Forces Revolutionary Council (Serra Leoa)

ALiR – Armée de Libération du Rwanda CDF – Civil Defense Forces (Serra Leoa)

CNDD – Conseil nationale pour la défense de la démocratie (Burundi) CNS – Conférence nationale souveraine (Congo)

ECOMOG – ECOWAS Monitoring Group

ECOWAS – Economic Community of West African States FAA – Forças Armadas Angolanas

FAB – Forces armées burundaises FAC – Forces armées congolaises FAR – Forces armées rwandaises FAZ – Forces armées zaïroises

FDD – Forces pour la défense de la démocratie (Burundi) FDLR – Forces démocratique de libération du Rwanda FMI – Fundo Monetário Internacional

FRPI – Front de résistance patriotique de Ituri (Congo) MLC – Mouvement pour la libération du Congo

MONUA – Missão da Organização das Nações Unidas em Angola MONUC – Mission de l'Organization de Nations Unies au Congo MPLA – Movimento para a Libertação de Angola

RCD – Rassemblement Congolais pour la Démocratie (Congo)

RCD-ML – Rassemblement Congolais pour la Démocratie – Mouvement de Libération (Congo)

RCD-N – Rassemblement Congolais pour la Démocratie – Nationale (Congo) RPA – Rwandan Patriotic Army

RPF – Revolutionary Patritic Front (Ruanda) RRSLAF – Republic of Sierra Leone Armed Forces

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ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados RUF – Revolutionary United Front (Serra Leoa)

SADC – Southern African Development Community SLPP – Sierra Leone People's Party

UDPS – Unión pour la Démocratie et le progrès social (Congo) UNAMSIL – United Nations Mission to Sierra Leone

UNAVEM – United Nations Verification Mission (Angola) UNITA – União para a Libertação Total de Angola UUPC – Union de les patriotes congolaises UUPDF – Ugandan People's Defense Forces WWFP – World Food Program

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Lista de figuras

Gráfico 1.1 Conflitos armados por tipos, 1946-2003 Tabela 1.2 Conflitos por recursos enumerados por Collier

Mapa 1.3 África: conflitos armados e crises humanitárias, anos 1990 Tabela 2.1 Governos de Serra Leoa na década de 1990

Tabela 2.2 Fases do conflito armado em Serra Leoa, 1991-2002 Mapa 2.3 Conflito armado em Serra Leoa: primeira fase, 1991-1995 Tabela 2.4 Exportações de Serra Leoa, 1991 e 1995 (US$1 milhão) Mapa 3.1 Angola: províncias e principais cidades

Tabela 3.2 O petróleo na economia angolana, 1992-1999 Tabela 3.3 Gastos em defesa do governo angolano, 1992-1999 Tabela 3.4 O diamante na economia angolana, 1992-1999 Tabela 4.1 Autoridades políticas sobre o território do Congo

Tabela 4.2 Exportações oficiais do Congo, 1989-1995 (em US$ milhões) Mapa 4.3 Distribuição aproximada dos grupos armados no Congo em 2000 Tabela 4.5 Principais organizações rebeldes atuando no Congo, 1998-2004 Tabela 4.6 Exportações congolesas, 1995-2000 (em milhões de dólares)

(13)

Introdução

Após o fim da bipolaridade mundial, a vitória do liberalismo econômico e político não estabeleceu uma ordem internacional tranqüila e segura. Durante a década de 1990, ocorreram diversos conflitos armados, a insistir que a segurança e a paz internacional ainda são metas, e não realidade. Fenômenos como a primeira guerra do Golfo, o fracasso do apaziguamento da Somália e de Angola, o violento desmembramento da ex-Iugoslávia e o genocídio de Ruanda, deixaram claro, já na primeira metade dos anos 1990, que o tema da guerra ainda é de fundamental relevância para as relações internacionais.

Observando-se esses conflitos armados, notou-se que a maioria deles escapa do padrão da guerra moderna, entre Estados-nacionais soberanos. A maior parte das guerras passaram a ser intra-estatais, em contextos de Estados fragmentados, com o poder descentralizado e a proliferação da economia informal ou ilícita. Além disso, a localização dos conflitos passou para fora Europa Ocidental, o principal palco de guerras na história mundial moderna e contemporânea. Na África, na Ásia, no Oriente Médio, na América Latina e no sudeste da Europa, conflitos prolongados, de difícil solução, fizeram vítimas indiscriminadamente.

Coadunados com a nova dinâmica empírica, estudiosos de diversas disciplinas desenvolveram novas abordagens paradigmáticas, a fim de buscar a compreensão da realidade complexa e dinâmica dos conflitos armados do período pós-Guerra Fria. A idéia da transformação da guerra se propagou e, em contraste com as “velhas” guerras do século XIX e até as guerras mundiais, foi criado o conceito de “novas” guerras. Relacionada à globalização ou à pós-modernidade, essa nova abordagem paradigmática é heterogênea e inovadora em relação ao pensamento ocidental predominante em relações internacionais.

O surgimento de novos modelos de explicação, inspirados pelas “novas” guerras, introduziu a ênfase em elementos que eram marginais nos estudos das “velhas” guerras. O principal deles é a disputa por recursos, que passou a ser considerada, em algumas abordagens, o mais importante fator explicativo das causas e da persistência dos conflitos armados. A agenda econômica das guerras, assim, assumiu destaque nas novas abordagens. Vários estudos

(14)

afirmavam que a incidência de violência política está correlacionada à disponibilidade e à dependência econômica de recursos naturais.

O objetivo desta dissertação é testar a capacidade explicativa da abordagem paradigmática das “novas” guerras, com foco na relação entre conflitos armados e recursos naturais, em três casos de conflitos armados: Serra Leoa (1991-2002), Angola (com ênfase no período 1992-2002) e República Democrática do Congo (1996-1997 e 1998-2002). Essas são algumas das “novas” guerras na África, continente que justificou o envio de vinte missões de paz pelas Nações Unidas no pós-Guerra Fria.

A guerra em Serra Leoa envolveu a organização rebelde Revolutionary United Front (RUF), cujas táticas incluíam a perpetração de violência indiscriminada contra a população civil, o recrutamento forçado de combatentes e o contrabando de diamantes minerados nas regiões sob seu controle. Como o Estado serra-leonês faliu, foram necessárias, a fim de conter o interesse dos rebeldes em promover a insegurança, não só milícias de resistência civil, mas também uma empresa privada de prestação de serviços de segurança pública, uma missão de paz regional dos países da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), e uma missão de peacekeeping das Nações Unidas de até 17 mil componentes. A economia de guerra da RUF, com base nos diamantes e em relações ilícitas com colaboradores na Libéria e em outros países, possibilitou que os rebeldes travassem a guerra.

Em Angola, o conflito ideológico entre União para a Independência Total de Angola (UNITA) e Movimento para a Libertação de Angola (MPLA), originado da falta de consenso entre os movimentos nacionalistas após a partida da metrópole portuguesa, se transformou. Depois da retirada dos aliados estrangeiros, no contexto do fim da Guerra Fria, e da realização de eleições, o conflito se renovou, tornando-se um confronto das elites das duas partes beligerantes. De um lado, estava a forte economia do petróleo, que garantiu a sobrevivência do regime do MPLA, por meio dos investimentos de empresas petrolíferas multinacionais; de outro lado, a economia de garimpo e contrabando de diamantes, que alimentava a crença da organização insurgente em uma vitória militar. A guerra só terminou após a morte, em batalha, do líder da UNITA.

No Congo (ex-Zaire), o colapso do Estado nos últimos anos da ditadura de Mobutu Sese Seko deixou lugar para disputas por poder, envolvendo a intervenção direta de vários Estados vizinhos. Na guerra civil entre 1996 e 1997, uma aliança de insurgentes congoleses, com o suporte de Ruanda, Uganda, Burundi e Angola, precisou de apenas oito meses para instalar

(15)

Laurent-Désiré Kabila no governo. Porém, a instabilidade persistiu e, em 1998, iniciou-se uma guerra que dividiu o território congolês em zonas de ocupação, entre as organizações rebeldes, com o apoio de tropas ugandenses, ruandesas e burundinesas, enquanto a porção mantida sob o domínio do Estado congolês contou com a presença, também, de militares de Angola, da Namíbia e do Zimbábue, para apoiar as forças governamentais. O controle dos mercados locais proporcionou oportunidades às forças estrangeiras, de gerar renda a partir da exploração e comercialização de recursos naturais disponíveis – diamantes, ouro, columbita-tantalita, madeira-de-lei, cobalto, cobre, etc. A retirada das tropas estrangeiras, completada em 2002, não garantiu uma pacificação do país, particularmente da área mais rica em recursos, a região leste.

O estudo desses três casos, com ênfase na dimensão da competição por recursos, será feito à luz das abordagens paradigmáticas das “novas” guerras, apresentadas no primeiro capítulo. Como alternativa à aplicação do modelo dos conflitos por recursos, que remete ao ponto de vista da funcionalidade da violência, tem-se outras abordagens, que argumentam que a causa dos conflitos está nas divisões existentes na sociedade, entre grupos de diferentes identidades. No que se refere à relação entre identidade e conflitos armados, a abordagem da guerra como meio busca de reversão da marginalização e a caracterização de guerras étnicas como fenômenos sem sentido são as duas principais, que são consideradas neste trabalho.

A dissertação está dividida em quatro capítulos. O primeiro capítulo apresenta o arcabouço conceitual e paradigmático na abordagem das “novas” guerras, incluindo a visão da guerra como um processo, a análise multidimensional de conflitos armados e as aproximações que relacionam identidade, funcionalidade da desordem e recursos naturais a conflitos armados. Os capítulos 2, 3 e 4 correspondem aos estudos de caso de Serra Leoa, Angola e Congo, respectivamente. Por fim, as conclusões da dissertação atestam que o modelo de explicação com base na disputa por recursos naturais abundantes é útil à compreensão das “novas” guerras na África aqui estudadas, sendo que a agregação de outras variáveis também é essencial, pois as guerras são fenômenos complexos e multicausais.

(16)

Capítulo 1

Conflitos armados: nova abordagem paradigmática

1.1 Introdução

O desenvolvimento recente das pesquisas sobre guerra veio em resposta aos gritos da realidade, que apresentava fenômenos que pareciam ser inexplicáveis, como “os homens tombam em massa nas guerras em que kalachnikovs de segunda mão, peças de artilharia de um outro século, dinamite subutilizada nos canteiros de construção, veículos sabotados artesanalmente ou simples facções [que] fazem estragos indescritíveis”.1 A participação de crianças como

combatentes armados, a prática de violência sexual como arma de guerra, facções com objetivos genocidas e imensos fluxos de refugiados – por volta de 20 milhões de pessoas em todo o mundo, além de um número semelhante de pessoas internamente deslocadas por causa de conflitos armados – não eram eventos que poderiam passam desapercebidos.

Nesta dissertação, a expressão conflito armado é usada como sinônimo de guerra, sendo que é empregada a significação ampla de guerra, segundo Grotius: “a guerra é o estado de indivíduos, considerados como tais, que resolvem suas controvérsias pela força”.2 Esta definição

geral compreende todos os tipos de guerra, sem excluir sequer “a guerra privada que, sendo mais antiga que a guerra pública e tendo incontestavelmente a mesma natureza, deve ser designada, por esta razão, por este único e mesmo nome que lhe é próprio”,3 apesar de que, por vezes, a

1 SALAME, Ghassan. “As guerras do pós-Guerra Fria”. In: SMOUTS, Marie-Claude (Org.). As novas relações

internacionais: Práticas e teorias. Trad.: Georgete M. Rodrigues. Brasília: Editora Universidade de Brasília,

2004. p. 281. Para algumas organizações armadas, armas leves de tecnologia obsoleta tornaram-se signo de poder. “The Kalashnikov lifestyle is our business advantage.”, afirmou um combatente do NPLF, grupo rebelde da Libéria. Cf.: RENO, William. Warlord Politics and the African State. Boulder: Lynne Rienner, 1998.

2 GROTIUS, Hugo. O direito da guerra e da paz. Ijuí: Ed. Unijuí, 2004. Vol. 1. p. 71-72. 3 Ibid.

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denominação de guerra é unicamente reservada à guerra pública. Portanto, a transformação da guerra tratada nas abordagens recentes está contida nesta definição abrangente. No entanto, não se pode confundir guerra com crime organizado, embora a distinção, às vezes, seja muito tênue. Nas guerras, o foco é o poder, entendido como a capacidade de produzir efeitos sobre os outros indivíduos, determinando o comportamento dos outros.4 Os combatentes podem utilizar meios

lícitos ou não. A classificação de guerras em públicas ou privadas, de acordo com a natureza dos interesses das partes beligerantes, coexiste com outras tipificações úteis.

A maioria das guerras tem como a referência o poder de um Estado reconhecido internacionalmente, pois desafiam a soberania de um Estado. Portanto, a maior parte das guerras podem ser classificadas entre quatro tipos básicos: (i) conflitos armados inter-estatais ocorrem entre dois ou mais Estados; (ii) conflitos armados extra-estatais acontecem entre um Estado e um grupo não estatal fora de seu território, como as guerras coloniais; (iii) conflitos armados internos-internacionalizados dão-se entre o governo de um Estado e grupos de oposição armada, com intervenção de outros Estados; e (iv) conflitos armados internos são entre o governo de um Estado e grupos de oposição armada, sem intervenção de outros Estados.5

Na segunda metade do século XX, percebeu-se que a incidência de conflitos armados mudou, tanto na sua intensificação, na sua mudança de lugar ou na natureza de sua relação com Estados. No período de 1946 a 2001, houve 229 conflitos armados em 148 países, com um mínimo de 25 mortes em batalha por ano, sendo que um total de 116 desses conflitos em 78 países ocorreram no período de 1989 a 2003,6 demonstrando que a ocorrência de conflitos

armados não só permaneceu como um sério problema no período pós-Guerra Fria, mas também intensificou-se. A maioria do total de 218 guerras – com mais de 1.000 mortes em batalha por ano – contabilizadas no período de 1945 a 2001, mais de 90 por cento, se deram na África, na Ásia, na América Latina e no Oriente Médio.7 Dos 225 conflitos de intensidades variadas de

1946 a 2001, a maioria absoluta, 163 deles, são conflitos internos – dos quais 32 envolveram a participação externa de outros Estados e 131 não –, 21 são conflitos extra-estatais e apenas 42

4 BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola & PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. Trad.: Carmem C. Varriale et al. Vol. 2. 12ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. p. 933-936.

5 GLEDISTSCH, Nills et al. “Armed Conflict, 1946-2001”. Journal of Peace Research. Vol. 39, n. 5, 2002. p. 615-637.

6 ERIKSSON, Mikael & WALLENSTEEN, Peter. “Armed Conflict, 1989-2003”. Journal of Peace Research. Vol. 41, n. 5, 2004. p. 625-636.

7 Conflitos armados contabilizados na base de dados do Departamento de Ciência Política da Universidade de Hamburgo, disponível em <http://www.akuf.de>

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são conflitos inter-estatais.8 Já no período entre 1989 e 2003, essa tendência é mais acirrada, com

116 conflitos em 78 países, dos quais apenas sete eram conflitos inter-estatais.9

Essa crescente predominância de conflitos internos, seja pelo aumento absoluto como relativo do número dos mesmos, é mostrada no gráfico abaixo.

Gráfico 1.1

Fonte: Uppsala Conflict Data Set.10

Nesse capítulo, será apresentada a nova abordagem paradigmática, que enfatiza os conflitos armados mais freqüentes no pós-Guerra Fria, que são os conflitos internos e localizados no continente africano, mas também em várias partes do mundo. Para se diferenciar das guerras no modo como predominaram na história moderna, denominam-se “novas” guerras. O foco é a 8 Trata-se do banco de dados conflitos armados de Upssala. Cf.: GLEDISTSCH et al. “Armed Conflict

1946-2001: A New Dataset”. Journal of Peace Research. Vol. 39, n. 5, 2002. p. 620. 9 ERIKSSON & WALLENSTEEN, op. cit., p. 625-636.

10 Cf.: GLEDISTSCH et al, op. cit.; ERIKSSON & WALLENSTEEN, op. cit..

19 46 19 48 19 50 19 52 19 54 19 56 19 58 19 60 19 62 19 64 19 66 19 68 19 70 19 72 19 74 19 76 19 78 19 80 19 82 19 84 19 86 19 88 19 90 19 92 19 94 19 96 19 98 20 00 20 02 0 10 20 30 40 50

Conflitos armados por tipo, 1946-2003

Extra-estatais Inter-estatais Internos internaci-onalizados Internos N úm er o de c on fl it os

(19)

relação entre conflitos armados e recursos naturais, sejam eles abundantes ou escassos, partindo do pressuposto que nas “novas” guerras existe uma dimensão de disputa por recursos, que é relevante. De modo complementar, também são considerados outros paradigmas.

A seguir, será apresentado o “velho” paradigma de guerra e a noção de transformação dos conflitos na história do século XX. Em seguida, será mostrado o paradigma de guerra como processo, que abarca o movimento em fenômenos que se estendem no tempo. A terceira parte trata das novas guerras, em três seções: (i) a primeira refere-se aos conflitos armados que se relacionam a questões de identidade, seja porque são empregados como meio de busca de afirmação identitária, ou por se manifestarem em rivalidades étnicas aparentemente sem sentido político; (ii) a segunda releva a funcionalidade da desordem nos conflitos armados; e (iii) a terceira seção, que é a mais importante, especifica a correlação entre guerras e recursos naturais, de modo que a escassez ou a abundância de recursos seja causa de conflitos, e apresenta o debate

greed versus grievance. A quarta parte do capítulo expõe a análise multidimensional de conflitos

armados, passando pelos níveis sistêmico, do Estado e do indivíduo. Por fim, há uma conclusão sobre a abordagem paradigmática a ser levada em consideração no estudo dos casos de conflitos armados com ênfase na disputa por recursos.

1.2 “Velhas” guerras e a transformação

A noção tradicional da guerra moderna é dominada pelo pensamento de Carl von Clausewitz.11 O modelo clausewitziano definiu de maneira abstrata a guerra, como um ato de

violência com o qual se pretende obrigar o nosso oponente a obedecer à nossa vontade. Só que, para Clausewitz, o sujeito é sempre a unidade política nacional, capaz de definir sua vontade claramente; ou seja, essa definição trata de guerra entre Estados e por um fim político definível. O Estado emprega a força sem limites – incluindo esforço bélico –, mas de maneira subalterna à política, ou seja, como um cálculo racional. Uma vez submetido o adversário, retorna-se à política sem violência, porque a guerra é subordinada à política.

Além disso, os estudos clássicos observavam a natureza histórica da guerra, notando que é um fenômeno que se manifesta de maneiras diferenciadas nos períodos da História. Tradicionalmente, aborda-se a história da guerra atrelada à evolução da tecnologia aplicada aos 11 CLAUSEWITZ, C. von. Da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

(20)

instrumentos e estratégias de guerrear. As qualidades diferenciadas correspondem, grosso modo, às peculiaridades das unidades políticas predominantes em cada período. Cada sociedade tem sua forma característica de fazer a guerra, e a história das guerras modernas está intimamente ligada à história dos Estados. A guerra ficou caracterizada nesse “velho” paradigma como uma construção do Estado moderno, centralizado, racional, hierarquicamente ordenado e territorial – o que tem se tornado um anacronismo. Nesse sentido, rebeliões, guerras coloniais e guerras de guerrilhas eram deixadas de lado, seja por não condizer com a condição de monopolista da violência legítima sobre o território e à população correspondente ao Estado, seja por romper com a noção de que em guerras confrontavam-se “iguais”.

Com a introdução da pólvora, “[a] forma ‘Estado moderno’ incide sobre a guerra incrementando a sua extensão e intensidade.”12. É quando se criam os exércitos permanentes,

compostos por soldados uniformizados, a representar o monopólio do emprego da violência legítima inerente ao Estado. O interesse estatal passa a ser a única possível justificativa legítima para a guerra – a instrumentalização da violência –, em detrimento de considerações de justiça ou de reivindicações de atores não-estatais. Até mesmo a regularização do sistema bancário, a criação da moeda nacional e a separação dos cofres públicos em relação à fortuna pessoal do rei foram medidas incluídas em reformas administrativas implementadas por Estados europeus ocidentais com a finalidade de financiar os exércitos profissionais, bem como a administração e a atividade tributária. Porém, não se pode olvidar que causas emotivas, por parte dos líderes políticos e dos generais, também fizeram estourar guerras, ainda que o interesse racional do Estado era sempre alegado. Para Clausewitz, guerra era uma atividade racional, acima de tudo, ainda que emoções e sentimentos fossem mobilizados a seu serviço.13

Destarte, a guerra distingue-se do crime, ao ser definida como algo empreendido apenas por Estados soberanos, sendo que os soldados eram definidos como equipe com permissão para se engajar na violência armada em prol do Estado e, para obter e manter essa licença, soldados deviam ser cuidadosamente registrados, marcados e controlados, para que se mantivesse a reserva absoluta à participação de atores privados. Assim, os soldados só deveriam lutar usando uniforme, abertamente portando suas armas e obedecendo a um comandante, que seria responsável pelas ações de seus subordinados. Os soldados não deveriam recorrer a métodos tais 12 BONANATE, Luigi. A guerra. Trad.: Maria Tereza Buonafina. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. p.

36.

13 KALDOR, Mary. New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era. Stanford: Stanford University Press, 1999. p. 10.

(21)

como violações de tréguas, voltar ao combate depois de ter sido feito prisioneiro e outras, enquanto que a população civil deveria ser deixada alheia aos combates.14

Nas guerras a partir do final do século XVIII, havia clareza, também, como enumera Mary Kaldor:

a) na distinção entre o público e o privado, entre a esfera de atividade estatal e a de atividade não-estatal;

b) na distinção entre o interno e o externo, entre o que ocorria dentro do território, claramente definido, do Estado e o que ocorria fora;

c) na distinção entre a economia e a política, que era associada ao advento do capitalismo, a separação das atividades econômicas privadas em relação às atividades econômicas públicas estatais, e a remoção da coerção física das atividades econômicas; d) na distinção entre o civil e o militar, entre as relações jurídicas domésticas

não-violentas e a luta violenta externa, entre sociedade civil e o barbarismo;

e) na distinção entre o portador de armas legítimo e o não-combatente ou criminoso; e f) acima de tudo, havia se firmado a própria distinção entre guerra e paz.15

A distinção particular entre o ambiente internacional e o ambiente doméstico condiz com a análise teórica realista da política internacional, herdeira da teoria política do contratualismo, na qual assinala-se, em primeiro lugar, que, enquanto dentro do Estado o pacto social garante uma situação estável, de aceitação da jurisdição do poder público, na arena internacional, a ausência de uma forma de governo supra-nacional permite que vigore um risco permanente de conflito de cada unidade autônoma contra qualquer outra, no que divirjam interesses. De acordo com Wight:

a causa fundamental da guerra não está nem nas rivalidades históricas, nem na paz injusta, nem nos ressentimentos nacionais, nem na corrida armamentista, nem na pobreza, nem na competição econômica pelos mercados e pelas matérias-primas, nem nas contradições do capitalismo [...]. A causa fundamental da guerra reside na ausência de um governo internacional; em outras palavras, na anarquia dos Estados soberanos.16

14 CREVELD, Martin Van. Transformation of War. New York: The Free Press, 1991. p. 41. 15 KALDOR, op. cit., p. 12.

16 WIGHT, Martin. A política do poder. Trad.: C. Sérgio Duarte. 2 Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002.

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A ausência de uma autoridade legítima supranacional universal, porém, não seria um motivo determinante do constante risco de guerra no ambiente internacional, se os Estados e suas sociedades não costumassem interagir entre si, criando laços de interdependência. Para cada ação de um Estado existe uma reação por parte de outros. Cada um reage de acordo com suas capacidades, e os conflitos armados inter-estatais só acontecem por haver desequilíbrio na distribuição de poder entre os Estados, de modo que existam aqueles que, dispondo de mais condições de fazer valer sua vontade por meios belicosos, possivelmente o farão, porque isso lhes proporcionaria ganhos. O risco de guerra seria, portanto, característica inerente das relações internacionais, uma forma comum e constante de manifestação das relações entre os Estados.

No mesmo sentido, na longa tradição no pensamento ocidental e no modo como as organizações internacionais tratam as guerras civis, perseverou sobremaneira o entendimento de guerra e paz como fenômenos distintos. Assim, as Nações Unidas institucionalizaram um padrão de solução de conflitos em que, uma vez assinado o acordo de cessar-fogo entre as partes beligerantes, poder-se-ia enviar uma força para manter a paz, com mandato restrito a reagir a violações do acordo, entre outras funções. Isso pressupunha que a situação geral de guerra seria substituída por outra de paz, apenas pela força de uma caneta.

As categorias apresentavam-se com tal clareza separadas, que Clausewitz argumenta, em sua tese central, que a guerra tende a extremos, levando ao conceito de guerra absoluta. Na guerra absoluta, o Estado pressiona cada vez mais contra a resistência para a consecução de seus objetivos, as forças armadas buscam um desarmamento completo do oponente, para eliminar qualquer possibilidade de contra-ataque, e o máximo de paixão e de hostilidade em relação ao oponente confere a maior força de vontade. A guerra real, por sua vez, diferencia-se da guerra absoluta, seja porque o objetivo político é limitado ou porque o apoio popular é insuficiente. Esta resulta da tensão entre os constrangimentos políticos e práticos e a tendência inexorável a guerra absoluta.

No contexto em que Clausewitz escrevia, das guerras do início do século XIX, havia uma tendência a evitar a batalha, preferiam-se tréguas a assaltos ofensivos, as campanhas freqüentemente eram interrompidas pelo inverno e retiradas estratégicas eram usuais. Para esse teórico, entretanto, a batalha era a atividade típica da guerra, aliás, a única atividade. A mais relevante conclusão de Da guerra é a importância da força esmagadora e da prontidão para o uso da força.

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Argumenta Kaldor que algumas dinâmicas daquele período aproximaram a teoria clausewitziana da realidade. Uma foi o avanço da tecnologia industrial, incluindo a introdução das ferrovias e do telégrafo, a produção em massa de armas, particularmente armas portáteis. A segunda foi o aumento da importância das alianças, que possibilitavam o acúmulo de forças. A terceira foi a codificação do direito da guerra, iniciada na Declaração de Paris (1856), que regulava o comércio marítimo em tempos de guerra, e avançada no Código Lieber, que estabelecia as regras e princípios básicos para a guerra terrestre, na Convenção de Genebra de 1864, na Declaração de São Petersburgo de 1868, nas Conferências da Haia de 1899 e 1907 e na Conferência de Londres de 1908, que trataram de desenvolver o direito internacional sobre a condução da guerra relativa a temas como o tratamento de prisioneiros, doentes e feridos, e os não-combatentes, assim como o conceito de necessidade militar e sua aplicação. Em suma, a guerra moderna, do modo como foi realizada no século XIX, era guerra entre Estados, com crescente ênfase em escala e mobilidade, e necessitava cada vez mais de uma organização racional e de uma doutrina científica que norteassem essas grandes aglomerações de violência.

As guerras da primeira metade do século XX aproximaram ainda mais a realidade da noção de guerra absoluta de Clausewitz, ao combinar produção em massa, política de massa e comunicações de massa, convergindo em destruição em massa. Ao mesmo tempo, para Kaldor, algumas características das guerras contemporâneas foram antecipadas nas guerras totais do século passado. As distinções entre público e privado, entre militar e civil, entre combatentes e não-combatentes foram se atenuando, à medida que alvos civis passaram a ser visados como objetivos militares. Em segundo lugar, a justificativa da guerra em termos de interesse do Estado perdeu validade. O objetivo comum necessário à violência legítima socialmente organizada foi desviado para causas mais abstratas, por ideologias, seja, em nome da democracia ou do fascismo, do liberalismo ou do socialismo. Em terceiro lugar, o contínuo desenvolvimento tecnológico de novas armas, produzidas em larga escala e a mais baixos custos, com agregação de funcionalidades de mais letalidade e precisão, até desembocar na construção de armas de destruição em massa, químicas, biológicas e nucleares, as quais não distinguem alvos militares – por isso legítimos – de alvos civis, aumentando e agravando o risco de efeitos colaterais que vitimam inocentes.

Assim, as guerras das últimas décadas não podem ser interpretadas satisfatoriamente com base no paradigma de Clausewitz, pois obedecem a novos padrões, cujas origens remontam à

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Segunda Guerra Mundial, quando o modelo clausewitziano foi levado ao extremo e se esgotou. Nos conflitos armados contemporâneos, os pares dicotômicos enumerados acima, claramente distintos nas “velhas” guerras, não são mais tão estanques e, em alguns casos, as distinções desapareceram. O que se seguiu às guerras totais do início do século XX foram conflitos armados que não tendem a extremos, mas casos em que, possivelmente, até mesmo a situação de guerra se estabilizava, movida por forças próprias.

A disputa mundial bipolar não chegou a batalhas – que eram o cerne de toda guerra, para Clausewitz –, devido ao risco nuclear. O risco de escalada a níveis insustentáveis e inviáveis influenciou a não-deflagração, de fato, entre as superpotências bipolares, particularmente na ocasião da crise dos mísseis soviéticos em Cuba, em 1961. Além disso, o poder atômico hierarquizou de tal modo os Estados que deixou de ser factível a possibilidade de qualquer Estado fazer a guerra contra qualquer outro, o que, em grande parte, inutilizou a guerra como instrumento de política exterior por muitos Estados. Assim, a Guerra Fria nunca foi travada de fato, nem foi ganha em campos de batalha.

A oposição de ideologias sobre o modo de organizar as relações sociais e políticas, bem como o mercado, entre o capitalismo e socialismo, não moveu combates entre as sociedades que as defendiam. Particularmente, essa justificação abstrato-ideológica, mais intangível, às vezes, não foi convincente ou nem suficiente, nas intervenções em conflitos distantes, em que a situação, o certo e o errado, não eram tão claros – caso dos norte-americanos no Vietnã e dos soviéticos no Afeganistão. O que ficou evidente no período pós-guerra é que há poucas causas que constituem um legítimo objetivo de guerra, pelo qual pessoas se dispõem a morrer.17

Além disso, em 1945, o direito internacional proscreveu a agressão de um Estado contra o outro, ao consagrar o princípio do não-uso da força, a não ser nos casos excepcionais previstos na Carta das Nações Unidas, que são em auto-defesa ou sob autorização em resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O direito internacional humanitário, que reúne as regras a serem aplicadas pelos Estados e por seus agentes individuais em situações de conflitos armados, foi codificado nas Convenções de Genebra de 1949 e nos Protocolos Adicionais de 1977.

17 KALDOR, Mary. New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era. Stanford: Stanford University Press, 1999. p.27.

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E, no período entre 1945 e 1989, os chamados conflitos de baixa intensidade tiveram impactos mais significativos no enfraquecimento das partes envolvidas, em razão da drenagem de recursos escassos, do que no fortalecimento político da parte vitoriosa. Nos casos de guerras civis, representaram obstáculo ao desenvolvimento de cada país como um todo. Houve várias guerras em várias partes do mundo, incluindo o Leste Europeu, causando a morte de mais pessoas do que na Segunda Guerra Mundial, seja no Vietnã, na Guatemala, no Afeganistão ou em Angola.

Ainda durante a ordem internacional bipolar, às margens dos dois blocos de poder, era possível notar essa nova forma de violência socialmente organizada, originada a partir dos movimentos de resistência em tempos de guerra e da guerrilha, ao estilo Mao Tse-tung. Eram conflitos contra os regimes incumbentes, em nome de uma ideologia e cujo êxito dependia do apoio popular. Só que, “[d]uring the Cold War, their character was obscured by the dominance

of East/West conflict; they were conceived as a peripheral part of the central conflict.”18 Assim

eram as guerras de libertação colonial, que mobilizavam ampla participação popular contra um inimigo comum, as forças imperialistas.

No pós-Guerra Fria, também os conflitos armados são majoritariamente distribuídos geograficamente na periferia do sistema internacional – e não na Europa Ocidental, nos Estados Unidos ou no Japão –, mobilizam combatentes irregulares – muitas vezes insurgentes contra as forças regulares do governo de seu país – e envolvem civis, que pouco se distinguem dos combatentes, seja porque ocasionalmente pegam em armas, seja porque às vezes tornam-se alvo de guerra. Não somente essas características das guerras periféricas das décadas anteriores se reiteraram, como também outras surgiram, conforme o novo contexto internacional. Algumas transformações ocorreram em decorrência da intensificação do liberalismo econômico desde os anos 1980 e do fim da ordem internacional bipolar.

Uma dessas transformações foi que, se um dos princípios que guiavam as relações internacionais durante a Guerra Fria era que a segurança era uma questão global, no pós-Guerra Fria, a segurança mundial tornou-se regional.19 Durante o período da longa Guerra Fria, mesmo

os chamados “conflitos de baixa intensidade”,20 embora movidos por motivações locais,

18 Ibid., p. 30.

19 CLAPHAM, Christopher. “The Changing World of Regional Integration in Africa”. In: Regional

Integration in Southern Africa: Comparative International Perspective. p. 63.

20 O termo conflito de baixa intensidade foi cunhado no contexto da Guerra Fria, pelos militares dos Estados Unidos, para descrever guerras de guerrilha e terrorismo, com as quais o comprometimento

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norte-afetavam, em intensidades variadas, os interesses dos governos dos Estados Unidos e/ou da União Soviética, de modo que se faziam interferir de alguma maneira, por meio de fornecimento de armas de apoio militar, ajuda financeira ou apoio na esfera político-diplomática. Em alguns desses conflitos, o ambiente internacional foi um fator tão significativo que, na perspectiva globalista, eram guerras lutadas “por procuração”, as “proxy wars”, em nome da superpotência de que as forças locais eram clientes, a fim de não desequilibrar o balanço de poder expresso na distribuição de áreas de influência entre os dois blocos.21 Depois que as superpotências deixaram

de ter interesse em implementar políticas positivas sobre os conflitos fora do centro do sistema internacional, os Estados pós-coloniais africanos, que haviam aproveitado o capital disponível para barganha política extraído da disputa bipolar para sobreviver, deixam de dispor dessa assistência de patrões externos.

As partes conflitantes, portanto, deixaram de ser capazes de obter apoio de governos de grandes potências, para desenvolverem novas formas de aquisição de meios financeiros para guerrear. Com isso, integraram-se às redes em crescente intensificação de comércio e fluxo financeiro e de mercadorias do mercado global, tanto formais como informais,22 além do

ocasional emprego de serviços de segurança prestados por empresas privadas de atuação transnacional.

Martin van Creveld assinalou que as guerras do final do século XX se pareciam mais com as da Europa Medieval, do que com as do precedente século. Naquele tempo, os motivos políticos, sociais, econômicos e religiosos eram completamente implexos. Como os exércitos eram constituídos por mercenários, todas as lutas eram repletas de combatentes oportunistas. Muitos deles desrespeitavam a organização que os haviam contratado para fingir que combatiam; em vez disso, dedicavam-se em rapinar os campos em proveito próprio. Absorvidos pela guerra, os civis sofriam sob a violência.23

americano era limitado. As intervenções norte-americanas eram movidas, principalmente, pela perseguição de objetivos geopolíticos e ideológicos. Cf.: CREVELD, Martin van. The Transformation of War. New York: The Free Press, 1991. p.18-25.

21 YOUNG, C. “African Relations with the Major Powers”. In: CARTER, G. M. & P. O’MEARA (Eds.).

African Independence. The First Twenty-Five Years. Bloomington: Indiana University Press, 1986. p. 218-248.;

CLAPHAM, Christopher. Africa and the International System. Cambridge: Cambridge University Press, 1996. p. 134-158.

22 CLAPHAM, Christopher S. “International Relations of Africa after the End of the Cold War”. In: KIENLE, E. & W. HALE. (Ed.). The End of the Cold War: Effects and Prospects for Asia and Africa. London, I. B. Tauris, 1997; DÖPCKE, Wolfgang. “A inserção internacional da África sob o signo da globalização e do fim da bipolaridade – teses e idéias”. In: X Congresso ALADAA: Cultura, Poder e Tecnologia: África e Ásia face à Globalização. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2001.

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As observações de Creveld ensejam um novo paradigma de guerra. Esse novo paradigma, contudo, é recente no sentido da abordagem acadêmica, ainda que as “novas” guerras designadas não sejam novidade absoluta em relação às guerras históricas. Não faz parte do escopo deste trabalho checar o quão novas são as características das “novas” guerras, pois não serão estudados casos de outro período histórico. Nesta dissertação, releva-se a abordagem paradigmática das “novas” guerras, a seguir, cujas perspectivas são à luz do contraste com as “velhas” guerras e da semelhança com a realidade do final do século XX, ainda que algumas características dessas “novas” guerras sejam velhas, por exemplo, semelhantes não só aos dos conflitos armados da Europa antes da consolidação dos Estados-nacionais, mas também aos da África pré-colonial.

1.3 Guerra como processo

A noção de transformação da guerra relaciona-se à observação dos conflitos armados como fenômenos dinâmicos. Distingue-se, assim, a abordagem da guerra como um processo, em relação à percepção da guerra como um fenômeno pontual, presente em muitos estudos quantitativos. Em vez de considerar conflitos armados como eventos incidindo sobre sociedades, como se houvesse um estado de guerra único, o ponto de vista que releva a permanente mutação da guerra, destaca sua dinâmica. Dedica atenção às diferenças entre as fases, referentes a variações quanto aos atores preponderantes, aos métodos mais empregados, a perspectivas de curto ou longo prazo dos agentes e aos objetivos perseguidos em cada etapa.

Por exemplo, levando em conta que a intensidade o uso da violência aumenta e, mais tarde, se reduz, Reychler identifica dezessete fases em um conflito:24

Fases da dinâmica de conflito armado 1 Conflito em gestação 10 Vitória

2 Conflito latente 11 Pré-negociações 3 Protestos pacíficos 12 Negociação 4 Confrontação pacífica/formação de um front 13 Cessar-fogo 5 Confrontação armada 14 Acordo de paz

6 Intensidade de guerra pouco elevada 15 Execução do acordo de paz 7 Intensidade de guerra elevada 16 Restauração da paz 8 Chances de escalada

9 Aumentos das chances de escalada

17 Paz durável

24 REYCHLER, Luc. “Les crises et leurs fondements: La prévention des conflits violents”. In: GRIP/MÉDECINS SANS FRONTIÈRES. Conflits en Afrique: Analyse des crises et pistes pour une prevention. Paris: Editions Complexe, 1997. p. 58-61.

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A sistematização acima é uma simplificação, pois, na realidade, o processo de conflito armado pode transpor fases, se reverter, se acelerar ou se estender, surgindo, ainda, novas fases. Avaliações que indiquem uma classificação de momentos no período do curso de um conflito armado são particularmente importantes para intervenções externas, como as das Nações Unidas, na implementação de políticas de prevenção de conflitos, aviso prévio, proposição de negociações, oferta de mediação, facilitação de solução negociada, envio de forças de manutenção da paz, e apoio no cumprimento de reformas visando a soluções duráveis. Além disso, a noção de guerra como processo é interessante na observação da transformação da guerra em termos de objetivos, interesses, perspectivas, balanço de poder, atores principais, intensidade, impactos, métodos de combate e táticas de financiamento dos esforços de guerra.

Sandole propôs o estudo dos papéis de variáveis em diferentes estágios do ciclo de vida dos conflitos, dividido em três períodos sucessivos: prévio, intermediário e posterior.25 Observou

que existe uma tendência a que o conflito se desenvolva de modo que o estágio prévio desemboque em conflito efetivo e, “once process come to characterise conflict, it does not

matter how (or when) the conflict started”.26 Como a hierarquia entre as variáveis muda de uma

fase para a outra, um conflito armado, durante seu curso, se reforça e se perpetua, movido por forças possivelmente diferentes daquelas que compuseram o quadro de condições para que o conflito estourasse. Distinguem-se, portanto, causas: do início, da intensidade, da duração e do fim da guerra.

A percepção dos indivíduos sobre o conflito e suas motivações também variam, à medida que cada um aprende com as experiências passadas, de violência, danos ou perdas, elevando, em geral, os níveis de ódio, ressentimento, medo ou desejo de vingança. “Over time, the behaviour

of the opposing party may appear to become, in itself, sufficient reason for continuing and intensifying one's own conflict behaviour”.27 Dessa forma, podem se estabelecer diferentes regras

de jogo nos relacionamentos sociais, que sejam características e adaptadas ao conflito. Os atores fazem cálculos intertemporais, e até atitudes defensivas podem ser interpretadas como ameaças. Os riscos são mais altos e a perspectiva na tomada de decisões é de curto prazo.

25 SANDOLE, Dennis J. D. “A Comprehensive Mapping of Conflict and Conflict Resolution: A Three Pillar Approach”. Peace and Conflict Studies. Vol. 5, n. 2. Fairfax, Virginia: George Mason University, Dezembro 1998. Disponível em: <http://www.gmu.edu/academic/pcs/sandole.htm> Acesso em: 29/06/2005. 26 SANDOLE, Dennis J. D. Apud: PORTO, J. G. “Contemporary Conflict Analysis in Perspective”. In:

LIND, Jeremy & Kathryn STURMAN (Ed.). Scarcity and Surfeit. The ecology of Africa’s conflicts. Pretória: African Centre for Technology Studies and Institute for Security Studies, 2002. p. 18.

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1.4 “Novas” guerras

Os “novos” conflitos armados são definidos como o empreendimento de violência física organizada, incluindo embates armados efetivos ou latentes, de duração permanente ou intermitente, tanto intra-estatais como inter-estatais. Os conflitos opõem partes dessemelhantes, tanto organizações armadas estatais como não-estatais, tanto forças armadas dispondo de helicópteros e morteiros como insurgências compostas por crianças. Os critérios do número de mortos em batalha por ano e da motivação política não são sempre úteis, uma vez que o número de mortes violentas pode ser maior em “tempo de paz” do que em “tempo de guerra”, e motivos econômicos têm um papel significativo.28

Existem várias abordagens acerca da transformação dos conflitos armados, exprimindo diferentes pontos de vista. Algumas ressaltam um fator explicativo em detrimento de possíveis outros, enquanto que outras vertentes tentam ser mais holísticas. Há, contudo, alguns pontos em comum. Em geral, as chamadas “novas” guerras emergem em um ambiente de Estados fracos, em consolidação ou em desintegração – que se assemelham por haver uma ruptura do monopólio do legítimo uso da violência organizada. Ainda que movidas principalmente por forças locais ou regionais, essas guerras envolvem uma miríade de conexões a redes29 e sistemas

inter-continentais de interação e trocas, sendo entendidas no contexto do processo chamado de globalização, entendido como intensificação e aceleração das interligações globais em múltiplas dimensões – política, econômica, militar e cultural – de modo assimétrico.30

As “novas” guerras mesclam a violência entre organizações armadas com motivos políticos; o crime organizado, ou seja, a violência perpetrada por grupos privados organizados por propósitos privados, geralmente ganhos financeiros; e violações dos direitos humanos em larga escala, isto é, violência perpetrada por Estados ou grupos políticos organizados contra indivíduos.31 Diferenciam-se das guerras do velho paradigma em função de seus objetivos, seus

métodos e seu modo de financiamento. A finalidade das “novas” guerras são objeto de diversas interpretações, as quais convergem para a alocação das principais motivações das organizações 28 BILLON, Phillippe Le. “The Political Ecology of War: Natural Resources an Armed Conflicts”.

Political Geography n. 30. Pergamon, 2001. p. 569.

29 ROCHA, Antônio Jorge Ramalho da. “O lugar do Brasil na geopolítica global”. In: CERVO, Amado L. & SARAIVA, José Flávio S. (Orgs.). O crescimento das relações internacionais no Brasil. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, 2005. p. 95-99.

30 HELD, David. Global Transformations. Stanford, California: Stanford University Press, 1999. 515p. 31 KALDOR, Mary. New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era. Stanford: Stanford

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insurgentes no modo de distribuição e apropriação de poder político e de recursos econômicos – de modo independente das elites que controlam o Estado e de acordo com o quê isso significa em termos distributivos. Os seus métodos incluem a tendência a evitar batalhas e a controlar porções territoriais por meio do domínio coercitivo sobre os habitantes, além de técnicas de disseminação de medo e ódio, que significam a neutralização do inimigo. Seu modo de financiamento é uma economia de guerra globalizada, descentralizada, com prática de pilhagem e uso do mercado negro ou assistência externa, e que só pode ser mantida mediante contínua violência.32 Em suma,

as “novas” guerras tornam inexatas as distinções claras que existiam no “velho” paradigma (vide

supra).

A seguir, serão observadas as correntes de interpretação dos conflitos armados que se tem desenvolvido sobretudo na última década, com seus detalhes principais. A literatura sobre o tema da transformação das guerras é tanto geral, englobando todos os continentes, como africanista, com foco na realidade da África. Alguns estudiosos chamaram a atenção para a agenda econômica da guerra, estudando possíveis causas econômicas da guerra, ao relacionar certos fatores de natureza econômica com a incidência, a duração e o desfecho de guerras. Desses, alguns concentraram-se na relação entre os conflitos armados e recursos naturais. Nesse sentido, às vezes recursos abundantes eram enfatizados; outras vezes, a competição por recursos escassos. Alguns analistas, por outro lado, eram mais fortemente atraídos pelas disputas entre grupos identitários distintos, chamando esses conflitos de guerras étnicas. Outros se impressionavam com o caráter da violência empregada nos conflitos, que parecia ser exagerado, enquanto que outros identificavam funções objetivas exercidas pela violência, a ponto que alguns argumentaram que a guerra adquiria uma racionalidade, a qual lhe atribuiria um fim em si mesma, além de uma dinâmica de auto-perpetuação. Outros, ainda, influenciados pela melhor contribuição de Waltz, em sua obra Man, State, and War, propunham uma análise multidimensional das guerras, ao reconhecer que a guerra não somente é um fenômeno e em constante transformação.

1.4.1 Identidade e conflitos armados

Os conflitos armados da década de 1990 foram freqüentemente relacionados a questões de identidade, especialmente em relação a religião e origem étnica dos indivíduos e dos grupos. 32 KALDOR, op. cit., p. 9.

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Às diferenças e rivalidades étnicas entre partes beligerantes foram atribuídas as causas de conflitos, que geraram fragmentação de territórios ou de sociedades. Particularmente em relação aos Estados pós-coloniais da África, as unidades políticas multiétnicas e os grupos étnicos transnacionais se intercalaram em vários conflitos políticos que implicaram polaridades aparentemente identitárias ou irredentistas. A relação entre etnicidade e conflitos armados é mais antiga do que o fim da Guerra Fria, mas, no final do século XX, chamou a atenção, pelo grau de violência física que foi documentado, da mídia internacional, de organizações não-governamentais de promoção dos direitos humanos e de scholars de diversas disciplinas.

Nem todos os conflitos armados que envolvem grupos étnicos como facções combatentes devem ser classificados como guerras étnicas. Um grupo étnico define-se como uma população humana identificável, com memórias históricas, mitos e ancestrais comuns, elementos culturais partilhados, ligação com a terra natal e senso de solidariedade entre ao menos alguns de seus membros.33 As guerras étnicas, portanto, são definidas como “episodes of violent conflict between governments and national, ethnic, religious, or other communal minorities (ethnic challengers) in which the challengers seek major changes in their status”.34

Como tratam-se, em geral, de insurreições de minorias, as guerras étnicas costumam se materializar em guerrilhas, em busca de maiores poderes políticos. Neste capítulo, serão sistematizadas duas abordagens de conflitos armados em referência à questão da identidade dos combatentes: (i) guerra como meio de lutar contra a marginalização de base identitária e (ii) guerra como expressão de ódios ancestrais entre grupos identitários rivais.

1.4.1.1 Guerra como meio de buscar a reversão da marginalização

Os conflitos internos relacionados a diferenças identitárias podem gerar guerras como meio de os grupos sociais marginalizados, informal ou juridicamente, buscarem a reformas que revertam sua marginalização. Essa abordagem ressalta a guerra como uma luta legítima de um grupo identitário que aspire autonomia política ou corrigir desigualdades de direitos. O que 33 MALAQUIAS, Assis. Ethnicity and Conflict in Angola: Prospects of Reconciliation”. In: CILLIERS, Jakkie & DIETRICH, Christian (Eds.). Angola’s War Economy: The role of oil and diamonds. Pretória: Institute for Security Studies, 2000. p. 97; HOROWITZ (1985) Apud SAMBANIS, Nicholas. “Do Ethnic and Non-Ethnic Civil Wars Have the Same Causes? A Theoretical and Empirical Inquiry (Part I)”. Journal of Conflict Resolution. Vol. 45, n.3. Junho de 2001. p. 6.

34 STATE FAILURE TASK FORCE. “Internal Wars and Failures of Governance, 1955-2001”. University of Maryland, State Failure Task Force, 2002. Disponível em: <www.bsos.umd.edu/cidcm/stfail/> Acesso em 08/12/2004.

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predomina nessa abordagem é a visão da etnicidade como um conceito mais associado a identidade política e cultural do que a posição econômica.

Destaca-se a abordagem das necessidades humanas básicas afirma que as necessidades básicas de um grupo identitário, como segurança, reconhecimento, participação e autonomia, quando negadas pela organização social e política, são as origens de conflitos.35 Essas

necessidades se expressam nas identidades étnicas, religiosas e culturais, e são absolutas, não podem ser negociadas, ou seja, as guerras se devem a circunstância, políticas ou instituições de sistemas políticos e econômicos que visam à negação ou à supressão das necessidades básicas. Por exemplo, perseguição política ou desigualdade de direitos com base em discriminação identitária denigrem a expressão da identidade de um grupo. Essa marginalização política gera ressentimentos e desejo de reformas, que se demonstram em passeatas e manifestações pacíficas, mas também na organização de grupos armados.

Essas guerras estão relacionadas à politização da etnicidade,36 que é um fenômeno

freqüente, por dois motivos: (i) os custos de se mobilizar rebeliões são menores ou inexistentes se estas são de um único grupo étnico e reivindicam as demandas ou satisfazem os ressentimentos desse grupo, por causa da existência de interesses comuns e do senso de solidariedade entre membros do mesmo grupo étnico;37 e (ii) há uma tendência à prática de

nepotismo étnico na elite política, que se manifesta em atos dos incumbentes que favorecem seus pares do mesmo grupo identitário, em detrimentos dos grupos percebidos como mais dessemelhantes.38

A vertente psicológico-social da perspectiva das necessidades humanas, cujo expoente é Horowitz, considerava os grupos étnicos como meio de satisfação da necessidade humana individual de pertencer a uma coletividade, por meio da qual seria possível que seus membros alimentassem sua auto-estima. Dessa forma, ocorreria conflito quando essas satisfações

35 BURTON, John. Apud: AMOO, Sam G. “The Challenge of Ethnicity and Conflicts in Africa: The Need for a New Paradigm”. Nova York: United Nations Development Programme, Emergency Response Division, Janeiro 1997. p. 5.

36 ROTHSCHILD, Joseph. Apud: MALAQUIAS, Assis. Ethnicity and Conflict in Angola: Prospects of Reconciliation”. In: CILLIERS, Jakkie & DIETRICH, Christian (Eds.). Angola’s War Economy: The role of oil

and diamonds. Pretória: Institute for Security Studies, 2000. p. 98.

37 SAMBANIS, Nicholas. “Do Ethnic and Non- Ethnic Civil Wars Have the Same Causes? A Theoretical and Empirical Inquiry (Part I)”. Journal of Conflict Resolution. Vol. 45, n. 3, Junho 2001. p. 265.

38 VANHANEM, Tatu. “Domestic Ethnic Conflict and Ethnic Nepotism: A Comparative Analysis”.

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psicológicas fossem ameaçadas por outro grupo, sendo que as elites étnicas seriam capazes de manipular as massas, de acordo com uma rationale materialista.39

As políticas de promoção e manutenção da marginalização de grupos identitários praticadas pelos governos, geralmente, são uma condição social patológica; porém, na África, a falha do Estado no favorecimento democrático de todos dos grupos identitários sob sua jurisdição representa um desafio de governança, que remonta aos efeitos do processo de formação dos Estados africanos.40 Nessa abordagem, a identidade étnica, por ser o meio pelo

qual se garante a segurança pessoal, poderia ser mais relevante para um indivíduo do que a identidade nacional, uma vez que a função do Estado de governar integrar as relações entre os grupos que o compõe não é cumprida total ou parcialmente.

Essa abordagem, portanto, checa as causas das rivalidades que são postas à prova em conflitos armados. Além disso, o entendimento da guerra como luta contra a marginalização supõe ser o controle do Estado a única maneira de se garantir a satisfação das necessidades básicas de um grupo identitário, o que engendraria “a desperate struggle to win the control of

state power [...] since this control means for all practical purposes being all powerful and owning everything. Politics becomes warfare, a matter of life and death.”.41 A perspectiva de que

“the winner takes it all” aprofunda violência política no nível pessoal de cada indivíduo componente do grupo identitário afligido. Justificariam-se, assim, as emoções extremas ocasionadas nos conflitos armados.

1.4.1.2 Etnicidade & caos em conflitos armados

O nível de violência inter-pessoal empregada em conflitos armados, com atrocidades contra não-combatentes tornando-se prática sistemática, como o deslocamento forçado de grandes fluxos de refugiados, violações sexuais, mutilações e outras formas de tratamento cruel, parecia, em alguns casos, ser injustificável. Por que em um conflito interno, visando a objetivos políticos, uma tática primordial de organizações combatentes seria a instauração de um clima de medo generalizado pela promoção do terror? A resposta que a maioria dos estudos acadêmicos 39 DIAMOND, Larry. “Ethnicity and Ethnic Conflict”. The Journal of Modern African Studies. Vol. 25,

n.1. 1987. p. 117-128.

40 AMOO, Sam G. “The Challenge of Ethnicity and Conflicts in Africa: The Need for a a New Paradigm”. United Nations Development Programme, Emergency Response Division. Nova York, Janeiro de 1997. p. 7. 41 AKE, Claude. Apud: AMOO, op. cit., p. 9.

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sobre conflitos armados em Estados fracos até o final da década de 1990 deu é que essas guerras eram anormalidades, disfunções dos padrões sociais, econômicos e políticos dentro de uma sociedade. A guerra haveria perdido qualquer função política, e um retorno a ódios étnicos e religiosos primitivos ensejaria o fim do primado político.42 A atribuição dessas características se

inspirava na falta de correspondência desses conflitos em relação ao entendimento da guerra como meio de obtenção de fins políticos, seja de autonomia política, para obter o controle do governo central ou para promover reformas no sentido da materialização de uma ideologia. A atribuição de irracionalidade aos conflitos tinha como corolário a inevitabilidade dessa violência.

Identificou-se um “novo barbarismo”, comparável às guerras da Europa medieval antes da Paz de Westphalia de 1648.43 Para Kaplan, os combatentes eram “influenciados pelos piores

dejetos da cultura pop ocidental e por antigos ódios tribais”,44 em contexto de proliferação de

doenças, superpopulação, violência gratuita, escassez de recursos, migrações de refugiados, erosão do Estado-nação e das fronteiras internacionais, crescente poder dos exércitos, de empresas de segurança privada e dos cartéis internacionais de tráfico de drogas. Conflitos como os da Libéria, da ex-Iugoslávia e da Argélia foram descritos “como um universo inexplicável, irracional, povoado de indivíduos entregues a suas pulsões mortíferas primitivas”.45 Essa visão

foi reforçada pela mídia e por ONGs alarmistas, enaltecendo a destruição feita pela guerra e sustentando sua inevitabilidade, e orbitando em torno da noção de estado de natureza de Hobbes.

Esse discurso sobre a desordem e o caos, em sua vertente mais fatalista e ocidente-centrista, concentrou-se no Sul, região do planeta em que a natureza humana seria ainda mais selvagem. Esse ponto de vista ressaltou a brutalidade de massacres e a regressão para a barbárie, além das rivalidades e ódios fundamentalistas com base na etnia e na religião, como leitmotivs da permanência da guerra no mundo, a ponto de se afirmar que o “Sul é povoado de bárbaros que se matam entre si e, às vezes, semeiam tumulto no Ocidente” e que conflitos como os da Libéria, da Bósnia, de Ruanda e da Argélia “marcam a diferença entre os civilizados e os bárbaros, os laicos e os fanáticos”. Dessa forma, criou-se, ainda, uma falsa “nova bipolaridade”, na qual o caos seria

42 BIGO, Didier. “Novos olhares sobre os conflitos?”. In: SMOUTS, Marie-Claude (Org.). As novas

relações internacionais: Práticas e teorias. Trad.: Georgete M. Rodrigues. Brasília: Editora Universidade de

Brasília, 2004. p. 295.

43 KEEGAN, John. Uma História da Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 1994; KAPLAN, Robert. “The coming anarchy”. Atlantic Monthly. February, 1994.

44 KAPLAN, Robert D. À beira da anarquia: Destruindo os sonhos da era pós-guerra fria. Trad.: Carlos Henrique Truschmann. São Paulo: Futura, 2000. p. 21-77.

Referências

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