Instituto de Matem´atica, Estat´ıstica e Computa¸c˜ao Cient´ıfica
JO ˜
AO SOCORRO PINHEIRO FERREIRA
MODELAGEM MATEM ´
ATICA DE SISTEMAS
EPIDEMIOL ´
OGICOS CL ´
ASSICOS: UM ESTUDO
EXPLORAT ´
ORIO
CAMPINAS 2016
MODELAGEM MATEM ´
ATICA DE SISTEMAS
EPIDEMIOL ´
OGICOS CL ´
ASSICOS: UM ESTUDO
EXPLORAT ´
ORIO
Disserta¸c˜ao apresentada ao Instituto de Ma-tem´atica, Estat´ıstica e Computa¸c˜ao Ci-ent´ıfica da Universidade Estadual de Campi-nas como parte dos requisitos exigidos para a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Mestre em Matem´atica Aplicada e Computacional.
Orientadora: Profª. Drª. Elaine Cristina Catapani Poletti
Este exemplar corresponde `a vers˜ao final da dissertac¸˜ao defendida pelo aluno Jo˜ao Socorro Pinheiro Ferreira, e orientada pela Profª. Drª. Elaine Cristina Catapani Po-letti.
Campinas 2016
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica Maria Fabiana Bezerra Muller - CRB 8/6162
Ferreira, João Socorro Pinheiro,
F413m FerModelagem matemática de sistemas epidemiológicos clássicos : um estudo exploratório / João Socorro Pinheiro Ferreira. – Campinas, SP : [s.n.], 2016.
FerOrientador: Elaine Cristina Catapani Poletti.
FerDissertação (mestrado profissional) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica.
Fer1. Biomatemática. 2. Teoria dos sistemas dinâmicos. 3. Modelos
epidemiológicos SIR. I. Poletti, Elaine Cristina Catapani,1975-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Mathematical modeling of classical epidemiological systems : an exploratory study
Palavras-chave em inglês: Biomathematics
Theory of dynamic systems SIR epidemic models
Área de concentração: Matemática Aplicada e Computacional Titulação: Mestre em Matemática Aplicada e Computacional Banca examinadora:
Elaine Cristina Catapani Poletti Graciele Paraguaia Silveira Renata Zotin Gomes de Oliveira Data de defesa: 29-11-2016
Programa de Pós-Graduação: Matemática Aplicada e Computacional
Prof(a). Dr(a). ELAINE CRISTINA CATAPANI POLETTI
Prof(a). Dr(a). GRACIELE PARAGUAIA SILVEIRA
Prof(a). Dr(a). RENATA ZOTIN GOMES DE OLIVEIRA
A Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.
Aos meus pais, Jos´e Estoesses Ferreira e Maria de Nazar´e Pinheiro Ferreira.
`A minha esposa, Mary Terezinha Salles.
Aos meus filhos, Carlos Rodolfo Salles Ferreira, Cec´ılia Rafaela Salles Ferreira e Caroline Ra´ıssa Salles Ferreira.
Aos meus irm˜aos, Jos´e Maria Pinheiro Ferreira, Maria das Dores Pinheiro Ferreira, Nazar´e de Jesus Pinheiro Ferreira, Maria da Assun¸c˜ao Pinheiro Ferreira, Pedro Pinheiro Ferreira e em especial a Antˆonio Carlos Pinheiro Ferreira (In Memorian).
Aos meus cunhados, Led (Maria Esmeraldina), Sandro Pantoja, Marilene, Diocl´eia, Djalma, Osena, Osana, Olga, Margareth e Socorro.
Aos meus sobrinhos, Carlinhos, Mayara, Nayra, Samara, Lylian, Aline, Felipe, Diocarla, Lana e Camila.
`A Unicamp, por ser o ambiente acadˆemico e cient´ıfico mais ecl´etico e com grande potencial em ensinar e difundir a ciˆencia `as pessoas que se (pre)disp˜oem a apreender e disseminar da mesma forma `a sociedade.
Ao Coordenador do Mestrado, Professor Doutor Cristiano Torezann, que por muitas vezes foi sol´ıcito e colaborou de forma construtiva e significativa diante das dificuldades que passamos durante a realiza¸c˜ao desta p´os-gradua¸c˜ao.
Aos professores doutores Ademir Jos´e Petenate, Antonio Campelo, Graziele Jorge, Jo˜ao Eloir Strapasson, Ricardo Miranda Martins, Sueli Irene Rodrigues Costa e Sim˜ao Nicolau Stelmastchuk, por ministrarem as disciplinas do curso com dinamismo envolvente.
Aos colegas de turma, Carlos (Resende - RJ), Mickael (Rio Branco - AC), Marcolino (Cod´o - MA), Adriano (MA), Dr´ausio (SP), Geovan (S˜ao Luiz -MA), ´Emerson (Mato Grosso), Paulo (S˜ao Luiz - MA) e os outros que no momento n˜ao consigo lembrar os nomes.
`A orientadora, Professora Doutora Elaine Cristina Catapani Poletti, por ter sugerido este valoroso tema, do qual possibilitou-me um aprofundamento sobre a beleza que a Matem´atica oportuniza `a humanidade sobre a compreens˜ao da natureza. Enaltecemos ainda, os feedback de qualidade escritos sobre o texto produzido, que por muita das vezes contribu´ıram para o aperfei¸coamento deste texto.
`A banca avaliadora - composta por membros titulares e suplentes - por ter aceito o convite de participa¸c˜ao e avalia¸c˜ao desta disserta¸c˜ao e contribuir para o engrandecimento da mesma .
testa-se pela l´ogica e pela experimenta¸c˜ao. Da´ı a necessidade de fazer a distin¸c˜ao muito clara entre modelo e a parte do mundo exte-rior que se sup˜oe que ele representa.”
Esta disserta¸c˜ao tem como problem´atica desenvolver um estudo explorat´orio sobre quatro sistemas epidemiol´ogicos cl´assicos, a saber: SI, SIR, SIS e SIRS, com objetivo de compre-ender as respectivas dinˆamicas epidemiol´ogicas de cada sistema, analisando-os qualitati-vamente quanto `a natureza de seus pontos cr´ıticos (an´alise de estabilidade), no decorrer de uma epidemia. A metodologia utilizada foi a de pesquisa em fontes prim´arias e se-cund´arias pela internet e tamb´em em literatura impressa. Apresentamos uma classifica¸c˜ao de estabilidade de sistemas autˆonomos n˜ao lineares utilizando os resultados de Poincar´e, os m´etodos de Lyapunov e a contribui¸c˜ao de outros matem´aticos citados no texto. Ao final da disserta¸c˜ao ´e apresentada uma aplica¸c˜ao pr´atica de modelagem matem´atica do sistema epidemiol´ogico SI, para doen¸ca de Chagas no Amap´a e posteriormente uma dis-cuss˜ao geral sobre o tema/t´ıtulo, explanando as t´ecnicas abordadas.
Palavras-chave: Biomatem´atica. Teoria dos sistemas dinˆamicos. Modelos epidemiol´ogicos
This Master’s thesis has as problematic to develop an exploratory study on four classi-cal epidemiologiclassi-cal systems, namely: SI, SIR, SIS and SIRS, in order to understand the respective epidemiological dynamics of each system, analyzing them qualitatively as to the nature of their points (Stability analysis) in the course of an epidemic. The metho-dology used was the research in primary and secondary sources through the internet and also in printed literature. We present a stability classification of nonlinear autonomous systems using the Poincar´e results, the Lyapunov methods and the contribution of other mathematicians cited in the text. At the end of the dissertation, a practical application of mathematical modeling of the SI epidemiological system for Chagas disease in Amap´a is presented, followed by a general discussion about the theme / title, explaining the techniques discussed.
Keywords: Biomathematics. Theory of Dynamic (Autonomous) Systems. SIR Epidemic
1.1 Retrato de fase de um sistema no R2. O eixo horizontal representa o tra¸co
(Θ), o vertical o determinante (Γ) e a par´abola da fun¸c˜ao (1.25). . . 25 1.2 (a) Repulsor (n´o), 0 < λ1 < λ2. (b) Atrator (n´o), λ1 < λ2 < 0. (c) Sela,
λ1 <0 < λ2 . . . 25
1.3 (a) λ1 = 0 < λ2, as trajet´orias afastam-se do eixo horizontal. (b) λ1 = 0 >
λ2, as trajet´orias aproximam-se do eixo horizontal. . . 26
1.4 (a) λ1 < 0 e λ2 = 0, as trajet´orias aproximam-se do eixo vertical. (b)
λ1 >0 e λ2 = 0, as trajet´orias afastam-se do eixo vertical. . . 27
1.5 (a) λ > 0. (b) λ < 0. . . 29 1.6 Diagrama de fase do sistema linear de EDO 1.13, com λ1 >0 e λ2 <0. O
ponto estacion´ario ¯X = (0, 0)) ´e inst´avel e classificado como ponto de sela. 32 1.7 Resumo da an´alise qualitativa dos quatro pontos de equil´ıbrio do sistema
1.29. . . 37 2.1 Modelo compartimental SI com taxa de infec¸c˜ao (transmiss˜ao) r. . . 42 2.2 Gr´afico da fun¸c˜ao I(t) = 0.1e0.1t
0.9+0.1e0.1t, do modelo SI, para I0 = 0.1, S0 = 0.9
e r = 0.1. . . 44 2.3 Gr´afico da fun¸c˜ao S(t) = 0.9
0.9+0.1e0.1t, do modelo SI, admitindo-se I0 = 0.1,
S0 = 0.9 e r = 0.1. . . 45
2.4 (a) Gr´afico para o caso de S0 > I0, t > 0; (b) Gr´afico para o caso em que
S0 = I0, t = 0. . . 46
2.5 Esquema da dinˆamica do modelo SIR. . . 47 2.6 Plano de fase da EDO dI
dt = I(rS − a). . . 58
2.7 Fluxograma do modelo SIRS com uma taxa γ de recuperados para suscet´ıveis. 61 2.8 Retrato de fase do submodelo SIRS com uma taxa γ de recuperados para
suscet´ıveis. Os autovetores s˜ao reais negativos. . . 64 2.9 Esquema do modelo epidemiol´ogico SIS, com N constante e dinˆamica vital. 64 2.10 Esquema do modelo epidemiol´ogico SIS com N constante (sem dinˆamica
3.1 Gr´afico de dispers˜ao dos casos de Doen¸cas de Chagas no Amap´a, no per´ıodo de 1999 a 2013, juntamente com a reta de regress˜ao linear. . . 72 3.2 Gr´afico das fun¸c˜oes S(t) e I(t) indicando o ponto em que S(t) = I(t) de
1.1 Propriedades de estabilidade e instabilidade de sistemas lineares e local-mente lineares. . . 33 3.1 Distribui¸c˜ao de casos confirmados de doen¸ca de Chagas no Estado do
SUM ´
ARIO
INTRODUC¸ ˜AO 13
1 SISTEMAS AUT ˆONOMOS 16
1.1 Sistemas autˆonomos . . . 16
1.1.1 Conjunto solu¸c˜ao de sistema autˆonomo linear no Rn . . . 17
1.1.2 Pontos cr´ıticos e estabilidade . . . 21
1.2 Sistemas autˆonomos lineares no R2 . . . 22
1.2.1 Diagrama ou retrato de fase . . . 24
1.3 Sistemas autˆonomos n˜ao lineares . . . 32
1.3.1 Sistemas localmente lineares . . . 32
1.3.2 Conjunto solu¸c˜ao de SANL no Rn . . . 37
1.3.3 M´etodos de Lyapunov . . . 38
2 MODELOS EPIDEMIOL ´OGICOS CL ´ASSICOS 42 2.1 Modelo SI . . . 42 2.1.1 Taxa de infec¸c˜ao r . . . 46 2.2 Modelo SIR . . . 46 2.2.1 Taxa de infec¸c˜ao: r . . . 47 2.2.2 Taxa de remo¸c˜ao: a . . . 47 2.2.3 Popula¸c˜ao constante: N . . . 48
2.2.4 Pontos cr´ıticos e estabilidade do sistema SIR . . . 49
2.2.5 Modelo SIR no R3 . . . 49
2.2.6 Sistema SIR no R2 . . . 53
2.3 Modelo SIRS . . . 60
2.3.1 Modelo SIRS com taxa γ . . . 60
2.4 Modelo SIS . . . 63
2.4.1 Modelo SIS com N constante (com dinˆamica vital) . . . 64
3.1.1 Modelo SI . . . 71
4 DISCUSS ˜OES GERAIS 74
CONCLUS ˜AO 77
INTRODUC
¸ ˜
AO
Muitas doen¸cas epidˆemicas s˜ao conhecidas e estudadas h´a muito tempo no ˆambito da Biologia, da Medicina e da sa´ude p´ublica. As principais preocupa¸c˜oes est˜ao relaci-onadas `a velocidade de propaga¸c˜ao, bem como o modo de abrangˆencia e distribui¸c˜ao, evolu¸c˜ao, frequˆencia, entre outras. O intuito de tais estudos, certamente, est´a vinculado `as formas de controle, al´em ´e claro, das formas de preven¸c˜ao.
O estudo das epidemias, de acordo com [21], iniciou-se com a investiga¸c˜ao sobre peste negra que atingiu a Europa no s´eculo XIV e matou cerca de um ter¸co da popula¸c˜ao. Por epidemia, segundo [28], entende-se como uma doen¸ca infecciosa, de car´ater transit´orio que se propaga e atinge um grande n´umero de indiv´ıduos numa dada regi˜ao.
Segundo [21], h´a quatro principais microorganismos causadores de doen¸ca: v´ırus, bact´erias, protozo´arios e fungos.
De acordo com [25], as principais doen¸cas causadas em humanos, de acordo com o agente causal, s˜ao:
• por v´ırus: var´ıola, dengue, gripe espanhola, febre amarela, sarampo, AIDS, polio-melite, chikungunya, etc.
• por bact´erias: peste negra, botulismo, cancro mole, carb´unculo (antrax), coquelu-che, c´olera, etc.
• por protozo´arios: giard´ıase, ameb´ıase, tricomon´ıase, toxoplasmose, leishmaniose, doen¸ca de chagas e mal´aria.
• por fungos: est˜ao fortemente relacionadas por micoses, doen¸cas da pele entre outras, como por exemplo: leveduras, mofo, v´arios dermat´ofitos (infec¸c˜oes o por tineas), fungos, dimorfos, esporotricose e outros.
Tais doen¸cas tˆem sido comumente causadoras de epidemias por infec¸c˜oes virais, bacterianas e parasit´arias, mas consideravelmente menos por infec¸c˜oes f´ungicas.
Com o desenvolvimento da humanidade algumas doen¸cas deixaram de ser comuns e deram lugar a outros tipos de infec¸c˜oes que assolam as pessoas. N˜ao obstante, os ve´ıculos de informa¸c˜oes trazem alertas sobre doen¸cas que tˆem se propagado e atingido abruptamente as pessoas, tal como a epidemia de esporotricose que tem contaminado
gatos, na zona oeste do Rio de Janeiro, e pode ser transmitida para os humanos (Jornal O Globo On Line, agosto de 2015)1. Nesse sentido, esta disserta¸c˜ao volta-se para o estudo
e a explora¸c˜ao de modelos epidemiol´ogicos estudados sob a ´otica da Biomatem´atica (a Matem´atica que estuda a vida), na ´area da ciˆencia, do ramo da Matem´atica Aplicada, que tem se preocupado em estudar fenˆomenos biol´ogicos atrav´es da modelagem matem´atica e favorecer entendimentos diversos sobre tais fenˆomenos.
Tendo em vista que estudos preditivos sobre a dissemina¸c˜ao de doen¸cas ainda se colocam como um desafio para a sociedade atual, a modelagem matem´atica tem favorecido estudos sobre o comportamento de algumas epidemias e suas formas de controle, bem como abrangˆencias, manipula¸c˜ao de dados estat´ısticos, an´alise de propaga¸c˜ao, entre outros [1]. Normalmente, os modelos matem´aticos se colocam como uma ferramenta de apoio que possibilita a explora¸c˜ao de parˆametros, a gera¸c˜ao de cen´arios, estudos de formas de espalhamentos geogr´aficos e de mecanismos para controle de doen¸cas, etc, [18].
Em termos de an´alises e impactos de espalhamento geogr´afico de doen¸cas, ressalta-se o estudo de [24] que aborda a dinˆamica sobre a distribui¸c˜ao espacial de casos de Leish-maniose, bem como o estudo apresentado por [15] sobre a difus˜ao da Mal´aria, importante doen¸ca em Mo¸cambique, pa´ıs localizado no sudeste do Continente Africano, banhado pelo Oceano ´Indico. Outra pesquisa realizada por [23], apresenta a forma de controle da Toxosplamose atrav´es do estudo da dispers˜ao de gatos, os hospedeiros respons´aveis pela dissemina¸c˜ao da doen¸ca.
Sobre a dengue, doen¸ca esta que tem se tornado um problema de sa´ude p´ublica no mundo, segundo a Organiza¸c˜ao Mundial da Sa´ude (OMS), em diversas regi˜oes, [13] apresentam um modelo evolutivo para a dengue segundo aspectos ambientais; [8] e [27] estudam modelos de transmiss˜ao da doen¸ca, entre v´arios outros estudos.
Em [14] ´e apresentado um estudo desenvolvido sobre a influenza H1N1, a partir da varia¸c˜ao do modelo cl´assico SIR onde S representa os indiv´ıduos suscet´ıveis da popula¸c˜ao, I os infectados e R os removidos.
Em [16], foi realizado um estudo sobre Tuberculose, no munic´ıpio de Cod´o - MA, no per´ıodo de 2001 a 2014 com o objetivo de compreender a dinˆamica epidemiol´ogica da doen¸ca e fazer progn´osticos para os anos posteriores a 2014, a partir dos dados coletados no Sistema de Informa¸c˜ao de Agravos de Notifica¸c˜ao - SINAN e IBGE,
Sobre meningite, [22] aplicou cinco modelos matem´aticos sobre os casos de in-cidˆencia da doen¸ca, com m´etodos e metodologias diferenciadas para melhor compreender a dinˆamica da doen¸ca.
S˜ao v´arias as doen¸cas estudadas sob a ´otica da modelagem matem´atica, assim sendo, com a ideia de apresentar o estudo sobre os modelos mais utilizados, surge este trabalho com abordagem dos principais modelos SI, SIR, SIS e SIRS e conceitos que
1
subsidiam an´alises e interpreta¸c˜oes.
Desta forma, seguem apresentados neste trabalho cap´ıtulos que introduzem uma discuss˜ao sobre os modelos, a partir das ideias iniciais
O trabalho est´a organizado em quatro cap´ıtulos.
No Cap´ıtulo 1, ´e realizada uma apresenta¸c˜ao de sistemas autˆonomos com o prop´osito de subsidiar as discuss˜oes sobre os modelos epidemiol´ogicos cl´assicos Neste cap´ıtulo, explana-se a determina¸c˜ao de pontos de equil´ıbrio de um sistema autˆonomo linear e dos n˜ao lineares, em destaque na vizinhan¸ca destes pontos de equil´ıbrios.
No Cap´ıtulo 2, seguem apresentados e discutidos os modelos epidemiol´ogicos cl´assicos SI, SIR, SIS e SIRS. Tal cap´ıtulo possibilita uma abordagem acerca dos modelos, na ´otica da modelagem matem´atica, que (assim desejamos) subsidia entendimentos acerca de abrangˆencia, crit´erios, estabilidade de cada modelo e comp˜oe um material de estudo.
No Cap´ıtulo 3, est´a a aplica¸c˜ao de modelagem matem´atica da doen¸ca de Cha-gas, que por vez manifesta-se como epidˆemica e uma busca pela valida¸c˜ao do modelo epidemiol´ogico cl´assico SI, para a mesma.
No Cap´ıtulo 4, s˜ao realizadas as discuss˜oes gerais sobre os sistemas epidemiol´ogicos a partir dos resultados obtidos durante a produ¸c˜ao desta disserta¸c˜ao.
Por fim, a Conclus˜ao cont´em algo mais geral sobre os modelos estudados - algumas reflex˜oes mais abrangentes, buscando conjecturar possibilidades de estudo que se abrem com os sistemas cl´assicos
Cap´ıtulo 1
SISTEMAS AUT ˆ
ONOMOS
Com o objetivo de introduzir a modelagem matem´atica de sistemas epidemiol´ogicos cl´assicos, apresenta-se inicialmente, neste cap´ıtulo, se¸c˜oes e subse¸c˜oes sobre sistemas autˆonomos de equa¸c˜oes diferenciais ordin´arias de primeira ordem.
1.1 Sistemas autˆonomos
De acordo com [5] (2011, p. 386), consideremos sistemas com duas equa¸c˜oes dife-renciais simultˆaneas da forma
dx/dt= F (x, y), dy/dt= G(x, y), (1.1)
cont´ınuas com derivadas parciais cont´ınuas em algum dom´ınio D do plano xy. Se (x0, y0)
´e um ponto nesse dom´ınio, ent˜ao, pelo Teorema 7.1.1 (ver [5], 2011, p. 279), existe uma ´unica solu¸c˜ao x = φ(t), y = ψ(t) do sistema (1.1) satisfazendo as condi¸c˜oes iniciais
x(t0) = x0, y(t0) = y0. (1.2)
A solu¸c˜ao est´a definida em algum intervalo de tempo I que cont´em o ponto t0.
O problema de valor inicial (1.1), (1.2)
dx/dt = f(x), x(t0) = X0, (1.3)
˙X = F(X), (1.4)
onde x = xi + yj, f(x) = F (x, y)i + G(x, y)j e X0 = x
0i + y0j. Nesse caso, a solu¸c˜ao ´e
expressa como x = φ(t) como uma curva tra¸cada por um ponto se movendo no plano xy, o plano de fase.
As fun¸c˜oes F e G nas Eqs. (1.1) n˜ao dependem da vari´avel independente t, mas ape-nas das vari´aveis dependentes x e y. Um sistema com essa propriedade ´e dito autˆonomo.
O sistema
X0 = Ax, (1.5)
onde A ´e 2 × 2, ´e uxemplo simples de um sistema autˆonomo bidimensional . Por outro lado, se um ou mais elementos da matriz de coeficientes forem uma fun¸c˜ao de vari´avel independente t, ent˜ao o sistema n˜ao ´e autˆonomo.
Em particular, o sistema autˆonomo (1.1) tem um campo de dire¸c˜oes associado que ´e independente do tempo. Em consequˆencia, existe apenas uma trajet´oria passando por ponto (x0, y0) no plano de fase.
Sistemas autˆonomos ocorrem, com frequˆencia, em aplica¸c˜oes. Fisicamente, um sis-tema autˆonomo ´e aquele cuja configura¸c˜ao ´e independente do tempo, incluindo parˆametros f´ısicos e for¸cas ou efeitos externos. A resposta do sistema as condi¸c˜oes iniciais dadas ´e independente, portanto, do instante em que as condi¸c˜oes s˜ao impostas.
1.1.1 Conjunto solu¸c˜ao de sistema autˆonomo linear no R
nPara escrever o vetor solu¸c˜ao X = (x1, . . . , xn) destes sistemas, deve-se levar em
considera¸c˜ao a sua linearidade, pois dependendo desta classifica¸c˜ao, ter´a um tipo de solu¸c˜ao anal´ıtica.
O SAL - Sistema Autoˆonomo Linear - tem solu¸c˜ao anal´ıtica, cujo conjunto solu¸c˜ao ´e definido por:
X =Xn
i=1
civieλit (1.6)
em que os λi s˜ao as ra´ızes do polinˆomio caracter´ıstico da matriz A, chamados de
autova-lores da matriz A e os vi, os respectivos autovetores associados aos autovalores.
Por exemplo, para n = 2, tem-se a solu¸c˜ao vetorial:
X =X2 i=1 civieλit= c1v1eλ1t+ c2v2eλ2t ou x1(t) x2(t) = c1 v11 v21 e λ1t+ c 2 v12 v22 e λ2t ou x1(t) = c1v11eλ1t+ c2v12eλ2t x2(t) = c1v21eλ1t+ c2v22eλ2t (1.7)
Teorema 1.1. A solu¸c˜ao de um sistema autˆonomo linear (SAL) ´e da forma
X(t) = P etDP−1X0 (1.8)
matricial da matriz diagonal Dn×n, cujos elementos s˜ao os autovalores da matriz A, P−1
´e a inversa de P e X0 ´e vetor unit´ario cujas componentes s˜ao as constantes c1, · · · , cn.
Demonstra¸c˜ao. Seja ˙X = AX um sistema autˆonomo linear no Rn. Sabe-se que ˙X = dX/dt. Substituindo-se, tem-se: dX/dt = AX. Usando o m´etodo de separa¸c˜ao de vari´aveis para integra¸c˜ao, tem-se: dX/X = Adt. Integrando-se ambos os membros desta igualdade, componente a componente, obt´em-se: R
dX/X = AR
dt. Resolvendo-se a integral, tem-Resolvendo-se: ln|X|= tA + K. Resolvendo-Resolvendo-se o logaritmo natural, decorre que:
X = e(tA+K). Aplicando-se a propriedade de produto de potˆencia no lado direito desta
igualdade, tem-se: X = etAeK. Para determinar o valor da constante K, usa-se a condi¸c˜ao
de contorno, X(0) = X0. Assim, e0eK = X0. Substituindo-se este ´ultimo resultado em
X = etAX
0. A matriz A ´e diagonaliz´avel e pode ser decomposta em um produto matricial,
conforme a seguir: A = P DP−1. Substituindo-se este resultado no anterior, obt´em-se:
X(t) = et(P DP−1)
X0. Pelo m´etodo de exponencial matricial, tem-se que: etA = P etDP−1.
Substituindo-se esta matriz exponencial, no resultado anterior, obt´em-se a equa¸c˜ao (1.8), em que P ´e a matriz dos autovetores, D ´e a matriz diagonal, cujos elementos s˜ao os autovalores, P−1 ´e a matriz inversa de P e X
0 ´e um vetor das constantes.
Para obter o resultado (1.8) usamos o seguinte teoerema:
Teorema 1.2. A exponencial matricial da matriz A ´e
etA = P etDP−1. (1.9)
Demonstra¸c˜ao. A s´erie de Taylor da fun¸c˜ao exponencial f(t) = et ´e sn=
∞ X
n=0
tn
n!. De ma-neira an´aloga, para a fun¸c˜ao exponencial f(tA) = etA, ´e a equa¸c˜ao (1.10):
etA = ∞ X n=0 tnAn n! (1.10)
A matriz A ´e diagonaliz´avel e pode ser escrita como: A = P DP−1.
A n-n´esima potˆencia da matriz quadrada A ´e obtida por:
An= A · A · · · A (n vezes) . Consequentemente, An= P DP−1· P DP−1· P DP−1· · · P DP−1 = P DIDP−1· · · P DP−1 = P D2P−1· · · · P DP−1 An= P DnP−1. (1.11)
Substituir (1.11) em (1.10), tem-se: etA = ∞ X n=0 tnP DnP−1 n! .
Como a s´erie acima depende de n, os termos independentes de n podem ser colocados em evidˆencia. Assim, as matrizes P e P−1 s˜ao escritas conforme a seguir:
etA= P ∞ X n=0 tnDn n! ! P−1,
contudo, a s´erie de potˆencia entre parˆenteses ´e a s´erie de Taylor para:
etD = ∞ X n=0 tnDn n! Portanto, (1.12) etA = P etDP−1
como quer´ıamos demonstrar.
A seguir, um exemplo de sistema autˆonomo no R2 onde apresentaremos a solu¸c˜ao
de acordo com as fun¸c˜oes vetoriais (1.6) e (1.8):
Exemplo 1.1. Considere o sistema autˆonomo linear de EDO’s:
˙x1 = x1− x2 ˙x2 = −4x1+ x2 . (1.13)
Este sistema pode ser escrito sob a forma linear (1.5),
˙x1(t) ˙x2(t) = 1 −1 −4 1 x1 x2 em que ˙X = ˙x1(t) ˙x2(t) , A= 1 −1 −4 1 e X = x1 x2 . A matriz A= 1 −1 −4 1
´e diagonaliz´avel, porque pode ser fatorada do seguinte modo:
em que D= λ1 0 0 λ2 = 3 0 0 −1
´e a matriz diagonal formada pelos autovalores ,
P =h v1 v2 i = −1 1 2 2
´e a matriz, cujas colunas s˜ao os autovetores associados, respectivamente, ao λ1 e λ2, e
P−1 = −1/2 1 4 1/2 1/4 = − 1 4 2 −1 −2 −1
´e a matriz inversa de P .
Portanto, a solu¸c˜ao geral do sistema (1.13), ´e:
x1(t) x2(t) = c1e3t −1 2 + c2e −t 1 2
ou, explicitando as duas fun¸c˜oes solu¸c˜oes, conforme abaixo:
X = x1(t) = −c1e3t+ c2e−t x2(t) = 2c1e3t+ 2c2e−t (1.14) para t ∈ R.
Em termos de exponenciais matriciais, a solu¸c˜ao geral (1.14) do sistema linear (1.13), pode ser representada a partir da equa¸c˜ao vetorial (1.8):
X(t) = P etDP−1X(0)
onde etD ´e a exponencial matricial da matriz diagonal D e X(0) =
x1(0) = a x2(0) = b , s˜ao as
constantes das condi¸c˜oes iniciais do problema de valor inicial. Verifica¸c˜ao da equa¸c˜ao (1.8) para a solu¸c˜ao (1.14): Substituir as matrizes P , etD = e3t 0 0 e−t e P−1 na equa¸c˜ao (1.8), tem-se: x1(t) x2(t) = −1 1 2 2 e3t 0 0 e−t −1 4 2 −1 −2 −1 x1(0) = a x2(0) = b x1(t) x2(t) = −1 4 −1e3t 1e−t 2e3t 2e−t 2 −1 −2 −1 a b
x1(t) x2(t) = −1 4 −2e3t−2e−t e3t−1e−t 4e3t−4e−t −2e3t−2e−t a b x1(t) x2(t) = −1 4 (−2e3t−2e−t)a + (e3t−1e−t)b (4e3t−4e−t)a + (−2e3t−2e−t)b x1(t) x2(t) = −1 4
(−2a + b)e3t+ (−2a − b)e−t
(4a − 2b)e3t+ (−4a − 2b)e−t x1(t) x2(t) = a 2 − b 4 e3t+a 2 + b 4 e−t −a+b 2 e3t+a+2be−t x1(t) x2(t) = −−a 2 + b 4 e3t+a 2 + b 4 e−t 2 −a 2 + b 4 e3t+ 2a 2 + b 4 e−t X = x1(t) = −c1e3t+ c2e−t x2(t) = 2c1e3t+ 2c2e−t (1.15) onde c1 = −a 2 + b 4 e c2 = a 2 + b 4 .
Portanto, este resultado (1.15) corresponde exatamente ao da equa¸c˜ao (1.14). Na subsec¸c˜ao seguinte, estudaremos os pontos cr´ıticos e a estabilidade de um sis-tema dinˆamico.
1.1.2 Pontos cr´ıticos e estabilidade
Nos sistemas autˆonomos, muitas vezes ´e mais interessante o estudo do compor-tamento das fun¸c˜oes solu¸c˜oes na vizinhan¸ca de um ponto fixo que o estudo da pr´opria solu¸c˜ao. Este comportamento ´e denominado estabilidade do sistema e pode ser analisado a partir dos sinais de seus autovalores e de sua complexidade.
Defini¸c˜ao 1.1. Ponto cr´ıtico
Segundo [2], dado o sistema ˙X= F (X), um ponto ¯X ∈ Rn ´e dito ponto cr´ıtico do sistema se fi( ¯X) = 0, para todo i = 1, · · · , n, ou seja ˙X = 0.
Defini¸c˜ao 1.2. Ponto cr´ıtico est´avel
De acordo com [2], um ponto cr´ıtico ¯X do sistema autˆonomo ˙X = F (X) ´e um
ponto est´avel se, dados >0 e δ > 0 tal que toda solu¸c˜ao φ(t) do sistema que satisfaz em t= t0, φ(t0) − ¯X < δ, ent˜ao φ(t) − ¯X < , ∀t ≥ t0.
Em [14], temos que: “Isso significa que toda solu¸c˜ao que come¸ca pr´oxima ao ponto cr´ıtico ¯X (raio δ) permanece pr´oxima a ele (raio )”.
Em [2], um ponto cr´ıtico ¯X do sistema autˆonomo ˙X = F (X) ´e um ponto
assin-toticamente est´avel se existir δ >0 tal que kφ(t0) − ¯Xk< δ, ent˜ao lim φ(t) = ¯X, quando
t → ∞.
A autora [14], esclarece tamb´em que: “Isso significa que uma solu¸c˜ao que come¸ca pr´oxima ao ponto cr´ıtico ¯X, n˜ao somente permanece pr´oxima a este ponto, como tamb´em
tende a ele quando t → ∞”.
Defini¸c˜ao 1.4. Ponto cr´ıtico inst´avel
Conforme [2], um ponto cr´ıtico ¯X do sistema autˆonomo ˙X = F (X) ´e um ponto
inst´avel se existe > 0 tal que para todo δ > 0 se verifica kφ(t0) − ¯Xk< δ, existe algum
t > t0 tal que kφ(t) − ¯Xk> .
A autora [14], “Isso significa que ao menos uma solu¸c˜ao que come¸ca pr´oxima ao ponto cr´ıtico ¯X se afasta do mesmo”.
No Exemplo 1.1, a origem ´e um ponto cr´ıtico inst´avel e denominado de ponto de sela .
Nesta disserta¸c˜ao ser˜ao analisados somente os sistemas autˆonomos no R2 e no R3
e por isso a partir da se¸c˜ao seguinte, concentraremos nossos estudos somente nestas duas dimens˜oes.
1.2 Sistemas autˆonomos lineares no R
2S˜ao sistemas que possuem duas equa¸c˜oes diferenciais ordin´arias lineares ou n˜ao lineares1. Estudaremos primeiramente os lineares, conforme a equa¸c˜ao (1.16).
˙x1 = a11x1+ a12x2 ˙x2 = a21x1+ a22x2 (1.16)
A sua forma matricial ´e a representada na equa¸c˜ao (1.17):
˙x1 ˙x2 = a11 a12 a21 a22 x1 x2 . (1.17)
Geralmente s˜ao reduzidos a forma (1.18):
˙X = AX, (1.18) onde X = (x1, x2) = x1 x2
´e o vetor solu¸c˜ao. Para encontrarmos a sua solu¸c˜ao anal´ıtica,
devemos proceder da seguinte maneira: determinar os autovalores e posteriormente os autovetores associados.
1N do A.: Esta se¸c˜ao foi inclu´ıda haja vista que a maioria dos sistemas autˆonomos n˜ao lineares desta
Os autovalores s˜ao as ra´ızes ou zeros do polinˆomio caracter´ıstico da matriz A determinado por (1.19):
P(λ) = det (A − λI2) . (1.19)
Neste caso, tem-se:
P(λ) = det a11 a12 a21 a22 − λ 1 0 0 1 P(λ) = λ2−(a11+ a22)λ + (a11a22− a12a21) Portanto, P(λ) = λ2−(a11+ a22)λ + (a11a22− a12a21). (1.20)
Se tomarmos a11+ a22= T r(A) = Θ e a11a22− a12a21 = det(A) = Γ, podemos
es-crever o polinˆomio da seguinte forma:
P(λ) = λ2− T r(A)λ + det(A). ou
P(λ) = λ2−Θλ + Γ. Os autovalores s˜ao obtidos por:
λ1,2= 1 2 Θ ∓√Θ2−4Γ. (1.21) em que (1.22) ∆(Θ, Γ) = Θ2−4Γ,
´e o discriminante do polinˆomio (1.20).
Os autovetores associados aos respectivos autovalores s˜ao calculados, atrav´es da equa¸c˜ao matricial:
Av = λv, (1.23)
com v 6= 0.
Teorema 1.3. O ponto cr´ıtico ¯X do sistema linear ˙X= AX ´e assintoticamente est´avel
se os autovalores λ1 e λ2 s˜ao reais e negativos ou tem parte real negativa; est´avel, mas
n˜ao assintoticamente est´avel, se os autovalores λ1 e λ2 s˜ao imagin´arios puros; inst´avel se
Demonstra¸c˜ao. A demonstra¸c˜ao encontra-se em [5] e [14].
Lema 1.1. Seja ¯X= (0, 0) ponto cr´ıtico do sistema linear
˙x1 = a11x1+ a12x2 ˙x2 = a21x1+ a22x2 (1.24) Dizemos que ¯X= (0, 0):
(a) ´e assintoticamente est´avel se Θ = T r(A) < 0 e Γ = det(A) > 0; (b) ´e est´avel se Θ = T r(A) = 0 e Γ = det(A) > 0;
(c) ´e inst´avel se Θ = T r(A) > 0 ou Γ = det(A) < 0.
Demonstra¸c˜ao. Consultar [5] ou [14].
Por exemplo, a matriz A, do sistema (1.13), possui Θ = 2 > 0 e Γ = −3 < 0, enquadrando-se no item (c) do Lema 1.1 ´e classificado como inst´avel, coincidindo com a classifica¸c˜ao dos autovalores (subsubcaso 1.2.1).
1.2.1 Diagrama ou retrato de fase
A defini¸c˜ao a seguir ´e de autoria do autor desta disserta¸c˜ao.
Defini¸c˜ao 1.5. O retrato de fase de um sistema autˆonomo ´e um esbo¸co do campo de
vetores, mostrando os pontos cr´ıticos e algumas solu¸c˜oes que come¸cam ou terminam nesses pontos, denominadas de trajet´oria do fluxo.
Para esbo¸car o retrato de fase em cada ponto cr´ıtico, deve-se analisar a par´abola
Γ(Θ) = 14Θ2, (1.25)
de concavidade voltada para cima, com foco F = (0, 1) e v´ertice V = (0, 0), conforme esbo¸cado na Figura (1.1).
Se ∆ > 0, ent˜ao Γ < 1 4Θ
2. Isto significa que o ponto (Θ, Γ) est´a localizado abaixo
da par´abola.
Se ∆ = 0, ent˜ao Γ = 1 4Θ
2. Isto significa que os pontos (Θ, Γ) est´a localizado sobre
a par´abola.
Se ∆ < 0, ent˜ao Γ > 1 4Θ
2. Isto significa que o ponto (Θ, Γ) est´a localizado acima
da par´abola.
Os autovalores dependem do sinal do discriminante ∆ = Θ2−4Γ, que por
conse-guinte podem ocorrer trˆes casos: ∆ < 0, ∆ = 0 ou ∆ > 0. Cada um destes casos, tamb´em est´a subdividido em outros conforme os estudos a seguir:
Figura 1.1: Retrato de fase de um sistema no R2. O eixo horizontal representa o tra¸co
(Θ), o vertical o determinante (Γ) e a par´abola da fun¸c˜ao (1.25).
Fonte: Do Autor, com o aux´ılio do software Mathematica 10.1, do Wolfran (2016).
Caso 1. ∆ > 0 . A matriz A tem dois autovalores reais distintos λ1 e λ2. Arbitrariamente:
λ1 < λ2.
A matriz A ´e diagonaliz´avel e ∃ P invert´ıvel tal que P DP−1 = A. Da exponencial
matricial, temos que: A = etA, segue que:
P AP−1 = P etAP−1 = eP tAP−1 = eλ1t 0 0 eλ2t . (1.26)
Vamos subdividir o Caso 1, em sete (07) subcasos:
1.1 0 < λ1 < λ2. Quando t → +∞ as trajet´orias do fluxo tendem ao infinito,
logo temos um repulsor, comumente designado por n´o (Figura 1.2(a)). Ponto cr´ıtico inst´avel.
(a) (b) (c)
Figura 1.2: (a) Repulsor (n´o), 0 < λ1 < λ2. (b) Atrator (n´o), λ1 < λ2 < 0. (c) Sela,
λ1 <0 < λ2 .
Fonte: Do Autor, com o aux´ılio do software Mathematica 10.1, do Wolfran (2016).
1.2 λ1 < λ2 < 0. Quandot t → +∞ os fluxos aproximan-se da origem, logo a
1.3 λ1 < 0 < λ2. Como os autovalores tem sinais opostos, quando t → +∞
uma parcela do fluxo tende a zero e outra ao infinito, sendo que neste caso, denomina-se ponto de sela (Figura 1.2(c)). Ponto cr´ıtico inst´avel.
1.4 λ1 = 0 < λ2. Sabemos que P AP−1 = P etAP−1 = etλ1 0 0 eλ2t = e0 0 0 eλ2t = 1 0 0 eλ2t x(t) y(t) = 1 0 0 eλ2t x0 y0 = x0 etλ2y 0
Assim, x(t) = x0 ´e constante e y(t) = eλ2ty0 ´e crescente. O diagrama de
fase est´a representado na Figura 1.3(a). Quando este caso ocorre, o sistema autˆonomo n˜ao linear ´e classificado a priori como inst´avel, isto porque o Θ = Tr(J) > 0 e o Γ = det(J) = 0. Por´em s˜ao necess´arios mais estudos sobre as fun¸c˜oes fi, para i = 1, 2, 3, · · ·. As trajet´orias s˜ao retil´ıneas, “nascendo”no eixo
horizontal e se afastando dele, isto porque o λ2 >0. No diagrama de fase, h´a
trˆes solu¸c˜oes: y0 <0, y0 = 0 e y0 >0.
(a) (b)
Figura 1.3: (a) λ1 = 0 < λ2, as trajet´orias afastam-se do eixo horizontal. (b) λ1 = 0 > λ2,
as trajet´orias aproximam-se do eixo horizontal.
Fonte: Do Autor, com o aux´ılio do software Mathematica 10.1, do Wolfran (2016).
1.5 λ1 = 0 > λ2
De modo an´alogo, que P ·A·P−1 = P ·etA·P−1 = etλ1 0 0 eλ2t = e0 0 0 e−λt = 1 0 0 e−λ1t x(t) y(t) = 1 0 0 e−λ1t x0 y0 = x0 e−λ1ty 0 .
aproximam-se do eixo dos x (horizontal). Todos os pontos do eixo horizontal x s˜ao pontos estacion´arios. O diagrama de fase est´a representado na Figura 1.3(b).
1.6 λ1 <0 e λ2 = 0
De modo an´alogo, que P ·A·P−1 = P ·etA·P−1 = e−λ1t 0 0 e0·t = e−λ1t 0 0 e0 = e−λt 0 0 1 x(t) y(t) = e−λ1t 0 0 1 x0 y0 = e−λ1tx 0 y0 . Assim, x(t) = e−λ1tx
0 e as trajet´orias retil´ıneas aproximam-se do eixo dos y
(vertical) e y(t) = 0, constante. Todos os pontos do eixo vertical s˜ao pontos estacion´arios. O diagrama de fase est´a representado na Figura 1.4(a).
(a) (b)
Figura 1.4: (a) λ1 <0 e λ2 = 0, as trajet´orias aproximam-se do eixo vertical. (b) λ1 >0
e λ2 = 0, as trajet´orias afastam-se do eixo vertical.
Fonte: Do Autor, com o aux´ılio do software Mathematica 10.1, do Wolfran (2016). 1.7 λ1 >0 e λ2 = 0
De modo an´alogo, que P ·A·P−1 = P ·etA·P−1 = eλ1t 0 0 e0·t = eλ1t 0 0 e0 = eλt 0 0 1 x(t) y(t) = eλ1t 0 0 1 x0 y0 = eλ1tx 0 y0 . Assim, x(t) = eλ1tx
0 e as trajet´orias retil´ıneas afastam-se do eixo dos y
(ver-tical). Todos os pontos do eixo vertical s˜ao pontos estacion´arios. O diagrama de fase est´a representado na Figura 1.4(b).
Caso 2 ∆ = 0 . A matriz A tem dois autovetores iguais , λ1 = λ2 = λ, ou seja, pode-se
A matriz pode ser m´ultipla da matriz identidade In: P AP−1 = λ 0 0 λ = λ 1 0 0 1 ou P AP−1 = λ 0 0 λ + 0 0 0 .
Ent˜ao, o que nos diz a forma canˆonica de Jordan: h´a tamb´em trˆes (03) subcasos a serem analisados conforme descritos a seguir:
2.1 A matriz A ´e m´ultipla da matriz identidade de ordem 2, I2:
P AP−1 = λ 0 0 λ
. H´a trˆes subsubcasos a serem analisados:
2.1.1 λ > 0: o ponto de equil´ıbrio ´e um repulsor (n´o). O retrato de fase est´a representado na Figura 1.5(a). Ponto cr´ıtico inst´avel.
2.1.2 λ < 0: O ponto de equil´ıbrio ´e um atrator (n´o). Seja a matriz sim´etrica A= −2 0 0 −2 = −2 · 1 0 0 1
, neste caso a matriz A ´e igual a matriz
identidade m´ultiplacada por um escalar λ. As trajet´orias s˜ao semirretas se aproximando do ponto estacion´ario, por isso quanto a sua natureza ´e clas-sificado como assintoticamente est´avel. O retrato de fase est´a representado na Figura 1.5(b).
2.1.3 λ = 0: todos os pontos s˜ao estacion´arios.
λ1 = λ2 = 0
De modo an´alogo, que P · A · P−1 = P · etA · P−1 = etλ1 0 0 eλ2t = e0 0 0 e0 = 1 0 0 1 x(t) y(t) = 1 0 0 1 x0 y0 = x0 y0 .
Assim, x(t) = x0 e y(t) = y0 s˜ao constantes e as trajet´orias, s˜ao pontos
sobre os eixos dos x (horizontal) e dos y. (Ver Figura 1.5(c)).
No Item 2.2, vamos estudar o subcaso em que a matriz A n˜ao ´e m´ultipla escalar da identidade. Este item tamb´em est´a subdividido em outros trˆes (3) subcasos. 2.2 P AP−1 = P etAP−1 = etDetN = etλ 0 0 etλ 1 t 0 1 = etλ etλt 0 etλ
(a) (b)
Figura 1.5: (a) λ > 0. (b) λ < 0.
Fonte: Do Autor, com o aux´ılio do software Mathematica 10.1, do Wolfran (2016).
2.2.1 λ > 0: x(t) y(t) = etλ etλt 0 etλ x0 y0 . x(t) = x0eλt+ y0teλt y(t) = y0eλt
No ponto de equil´ıbrio ¯X = (0, 0), temos:
x(0) = x0 y(t) = y0 .
Dividindo-se a fun¸c˜ao x(t) por y(t), obt´em-se: x(t)
y(t) = x0
y0
+ t.
Portanto, o ponto de equil´ıbrio ´e um repulsor (n´o) e consequentemente o ponto de equil´ıbrio inst´avel.
2.2.2 λ < 0: o estudo ´e an´alogo ao anterior e o ponto de equil´ıbrio ´e um atrator (n´o). Consequentemente o ponto de equil´ıbrio assintoticamente est´avel. 2.2.3 λ = 0: P etAP−1 = 1 t 0 1 . x(t) y(t) = 1 etλt 0 1 x0 y0
x(t) = x0+ y0t
y(t) = y0
.
O diagrama de fase neste caso, s˜ao retas paralelas ao eixo dos x, com sentido para o +∞ para y0 >0, para o −∞ para y0 <0 e todo o eixo dos
xpara y = 0 (todo o eixo dos x ´e formado por pontos estacion´arios). Este subcaso tamb´em ´e conhecido como cisalhamento.
Caso 3. ∆ < 0 . A matriz A n˜ao tem autovetores reais. Portanto, o polinˆomio caracter´ıstico tem autovalores complexos, λ1 = a+ib e λ2 = a−ib, conjugados, com b 6= 0. Ent˜ao,
o que nos diz a forma canˆonica de Jordan: h´a seis subcasos a serem analisados. A forma canˆonica de Jordan, ´e:
P AP−1 = a −b b a .
N˜ao existe a parte nilpotente. Como ´e a forma do fluxo neste caso? Seja: R= a −b b a R2 = a −b b a a −b b a = a2− b2 −ab − ab ab+ ab a2− b2 ou da forma: R = a −b b a = a 0 0 a + 0 −b b 0 .
Note que a primeira parcela ´e aI2 e a segunda
0 −b
b 0
´e comutativa. A
exponen-cial matriexponen-cial da primeira, ´e:
e a 0 0 a = ea 0 0 ea .
As n-´esimas portˆencias da segunda matriz, s˜ao:
0 −b b 0 2 = −b2 0 0 −b2 = −b2I 0 −b b 0 3 = −b2I 0 −b b 0 = 0 b3 −b3 0
0 −b b 0 4 = (−b2I)2 = b4I.
E assim por diante · · ·
A exponencial matricial da segunda matriz, ´e a s´erie de Taylor:
e 0 −b b 0 = 1 0 0 1 0! + 0 −b b 0 1! + −b2 0 0 −b2 2! + 0 b3 b3 0 3! + −b2 0 0 −b2 2! +· · · = 1 − b2 2! + b4 4! − · · · −b+ b3 3! − b5 5! + · · · b − b3!3 + b55! − · · · 1 −b2!2 +b4!4 − · · · = cos(b) −sen(b) sen(b) cos(b) .
Portanto, a exponencial matricial de
P etAP−1 = eta 0 0 eta cos(b) −sen(b) sen(b) cos(b) . 3.1 a > 0 e b > 0 x(t) y(t) = eta 0 0 eta cos(b) −sen(b) sen(b) cos(b) x0 y0 . O fluxo (diagrama de
fase) ´e espiral com foco na origem (ponto de equil´ıbrio), movimentando-se no sentido anti-hor´ario. Neste caso, o ponto de equil´ıbrio ´e inst´avel, tamb´em conhecido como repulsor.
3.2 a > 0 e b < 0: An´alogo ao caso anterior, por´em a espiral movimenta-se no sentido hor´ario.
3.3 a < 0 e b > 0: O ponto estacion´ario ´e um foco atrator. A espiral movimenta-se no sentido anti-hor´ario, aproximando-se da ponto, portanto ´e est´avel.
3.4 a < 0 e b < 0: An´alogo ao caso anterior, por´em a espiral move-se no sentido hor´ario. Est´avel.
3.5 a = 0 e b > 0
´E denominado de centro. ´E inst´avel (estruturalmente inst´avel). As trajet´orias movem-se no sentido anti-hor´ario.
3.6 a = 0 e b < 0: De maneira an´aloga ao caso anterior, por´em as trajet´orias movem-se no sentido hor´ario.
Por exemplo, o sistema (1.13) ´e inst´avel na origem, porque os seus autovalores s˜ao reais e um deles ´e positivo, e o ponto de equil´ıbrio ¯X = (0, 0) ´e denominado de ponto
de sela (subsubcaso 1.2.1). A Figura 1.6 ilustra o diagrama de fase, onde as retas que passam pelo ponto de equil´ıbrio est˜ao na dire¸c˜ao dos vetores pr´oprios da matriz A.
Figura 1.6: Diagrama de fase do sistema linear de EDO 1.13, com λ1 > 0 e λ2 < 0. O
ponto estacion´ario ¯X = (0, 0)) ´e inst´avel e classificado como ponto de sela.
Fonte: Do Autor, com o aux´ılio do software Mathematica 10.1, do Wolfran (2016).
Defini¸c˜ao 1.6. Ponto de equil´ıbrio hiperb´olico
O sistema ˙X = AX de equa¸c˜oes diferenciais diz-se hiperb´olico se todos os autova-lores de A tem parte real n˜ao nula.
Na se¸c˜ao seguintes abordaremos os sistemas autˆonomos n˜ao lineares.
1.3 Sistemas autˆonomos n˜ao lineares
Segundo [14]:Todo o estudo feito at´e o momento diz respeito a pontos cr´ıticos de siste-mas autˆonomos lineares. No entanto, quando s˜ao considerados sistemas autˆonomos n˜ao lineares nem sempre isso ´e poss´ıvel, principalmente por existirem, em alguns casos, muitos pontos cr´ıticos, o que permite que o comportamento de uma solu¸c˜ao pr´oxima a um ponto cr´ıtico possa ser influenciada pelo fato de tamb´em estar pr´oxima a outro ponto cr´ıtico. ([14])
1.3.1 Sistemas localmente lineares
Segundo [5], o sistema˙X = AX + h(X) (1.27)
´e um sistema localmente linear desde que ¯X = (0, 0) seja um ponto cr´ıtico isolado deste
lim X→(0,0)
kh(X)k
kXk = 0. (1.28)
Sobre estabilidade de sistemas localmente lineares, [5] e [14] afirmam que o teorema (1.4) caracteriza, atrav´es da natureza dos autovalores, o caso em que o sistema a ser analisado se enquadra.
O teorema a seguir, encontra-se em [5].
Teorema 1.4. Sejam λ1 e λ2, os autovalores do sistema (1.24) correspondente ao sistema
localmente linear (1.27). Ent˜ao o tipo e a estabilidade do ponto cr´ıtico ¯X = (0, 0) do
sistema linear (1.24) e do sistema localmente linear (1.27) s˜ao como descrito na Tabela 1.1.
Demonstra¸c˜ao. Ver [5].
Tabela 1.1: Propriedades de estabilidade e instabilidade de sistemas lineares e localmente lineares.
Autovalores Sistema linear Sist. localm. linear
Tipo Estabilidade Tipo Estabilidade
λ1 > λ2 >0 N I N I λ1 < λ2 <0 N AE N AE λ1 <0 < λ2 PS I PS I λ1 = λ2 >0 NP ou NI I N ou PE I λ1 = λ2 <0 NP ou NI AE N ou PE AE λ1, λ2 = a ± ib a >0 PE I PE I a <0 PE AE PE AE
λ1 = ib, λ2 = −ib C E C ou PE Indeterminado
Legenda: N, n´o; I, inst´avel; AE, assintoticamente est´avel; PS, ponto de sela; NI, n´o impr´oprio; NP, n´o pr´oprio; PE, ponto espiral; C, centro; E, est´avel.
Fonte: [5] (2011).
A nomenclatura para a tipologia de sistemas lineares e locamente lineares acontece em fun¸c˜ao do sinal dos autovalores da matriz A, por isso ´e comum encontrar denomina¸c˜oes como n´o (n´odulo), ponto de sela, n´o pr´oprio ou impr´oprio, ponto espiral ou centro. Ob-serve na Tabela 1.1, quando os autovalores tˆem sinais iguais o tipo do ponto de cr´ıtico ´e n´o; quando possuem sinais contr´arios, ponto de sela; quando s˜ao iguais, podem ser n´o pr´oprio ou impr´oprio; quando s˜ao complexos, ponto de equil´ıbrio ou centro.
Para os sistemas localmente lineares, a tipologia ´e muito semelhante, ocorrendo pequenas mudan¸cas de nomenclaturas.
Exemplo 1.2. Seja o sistema autˆonomo n˜ao linear
˙x1 = x1(4 − x1− x2) ˙x2 = x2(6 − x2−3x1) (1.29)
O sistema (1.29) pode ser reescrito como ˙x1 = x1(4 − x1− x2) = 4x1− x12− x1x2 = f1(x1, x2) ˙x2 = x2(6 − x2−3x1) = 6x2− x22−3x1x2 = f2(x1, x2) ˙x1 ˙x2 = 4 0 0 6 x1 x2 + −x2 1− x1x2 −x2 2 −3x1x2 o que reduz a: ˙X = AX + h(X),
comprovando com isto que trata-se de um sistema autˆonomo n˜ao linear (SANL). ´E um sistema localmente linear porque a condi¸c˜ao (1.28) ´e satisfeita. Para verificar tal condi¸c˜ao, segundo [5], ´e conveniente introduzir coordenadas polares, fazendo x1 = rcos(θ) e x2 =
rsen(θ). A norma euclidiana do vetor X ´e kXk= qx2
1+ x22. Em coordenadas polares ´e:
kXk=q(rcos(θ))2+ (rsen(θ))2 =qr2cos2(θ) + r2sen2(θ) =qr2(cos2(θ) + sen2(θ)) = r.
A norma euclidiana da fun¸c˜ao vetorial h(X) ´e: kh(X)k=q
h2 1+ h22. Ent˜ao: lim X→(0,0) kh(X)k kXk = limr→0
r2qcos4(θ) + 8cos3(θ)sen(θ) + 10cos2(θ)sen2(θ) + sen4(θ)
r =
= lim
r→0r
q
cos4(θ) + 8cos3(θ)sen(θ) + 10cos2(θ)sen2(θ) + sen4(θ) = 0,
quando r → 0. Portanto, o sistema (1.29) ´e localmente linear perto da origem.
Pontos de equil´ıbrio
S˜ao os ¯Xi ∈ Rn tais que
f( ¯Xi) = 0
Neste caso, procede-se da maneira seguinte:
x1(4 − x1− x2) = 0 x2(6 − x2−3x1) = 0 ⇒ x1 = 0 ou (4 − x1− x2) = 0 x2 = 0 ou (6 − x2−3x1) = 0 [(x1 = 0) ∪ (4 − x1− x2 = 0)] ∩ [(x2 = 0) ∪ (6 − x2−3x1 = 0)]
Temos duas possibilidades:
1. (x1 = 0 e x2 = 0) ou (x1 = 0 e 6 − x2 −3x1 = 0)
⇓ ¯
ou
2. (4−x1−x2 = 0 e x2 = 0) ou (4−x1−x2 = 0 e 6−x2−3x1 = 0)
⇓ ¯
X3 = (4, 0) X¯4 = (1, 3).
Portanto, os pontos de equil´ıbrio s˜ao: ¯X1 = (0, 0), ¯X2 = (0, 6), ¯X3 = (4, 0) e ¯X4 = (1, 3).
Estabilidade
Para estudarmos a estabilidade em cada um dos quatro pontos de equil´ıbrio en-contrados anteriormente, utilizando-se a matriz jacobiana, conforme a seguir.
Seja a fun¸c˜ao:
F : R2 → R2, definida por:
F(x1, x2) = (f1(x1, x2), f2(x1, x2)),
onde f1(x1, x2) = 4x1− x21− x1x2 e f2(x1, x2) = 6x2− x22−3x1x2).
A matriz jacobiana de F ´e obtida por:
J F(f1, f2) = ∂f1 x1 ∂f1 x2 ∂f2 x1 ∂f2 x2 .
Calculando-se as quatro derivadas parciais da jacobiana, temos: ∂f1 ∂x1 = ∂(4x1− x21− x1x2) ∂x1 = 4 − 2x 1− x2 ∂f1 ∂x2 = ∂(4x1− x21− x1x2) ∂x2 = −x1 ∂f2 ∂x1 = ∂(6x2− x22−3x1x2) ∂x1 = −3x 2 ∂f2 ∂x2 = ∂(6x2− x22−3x1x2) ∂x2 = 6 − 2x 2−3x1
Portanto, a matriz jacobiana do sistema (1.29), ´e:
J F(f1, f2) = 4 − 2x1− x2 −x1 −3x2 6 − 2x2−3x1 .
Com efeito, a matriz jacobiana ´e: J F(0, 0) = 4 0 0 6 .
Os autovalores, s˜ao: λ1 = 4 e λ2 = 6, pelo subcaso 1.2.1, ¯X1 = (0, 0) ´e um ponto
de equil´ıbrio inst´avel (n´o inst´avel). A Figura 1.7a, mostra o fluxo das trajet´orias partindo (afastando) da origem.
(b) An´alise do ponto de equil´ıbrio do ponto ¯X2 = (0, 6).
Substituindo-se o ponto na matriz jacobiana, tem-se:
J F(0, 6) = −2 0 −18 −6 .
Os autovalores, s˜ao: λ1 = −6 e λ2 = −2, pelo subcaso 1.2.1, ¯X1 = (0, 6) ´e um ponto
de equil´ıbrio assintoticamente est´avel (n´o est´avel). A Figura 1.7, mostra o fluxo das trajet´orias aproximando-se da origem.
(c) An´alise do ponto de equil´ıbrio do ponto ¯X3 = (4, 0).
De maneira an´aloga, tem-se:
J F(4, 0) = −4 −4 0 −6 .
Os autovalores, s˜ao: λ1 = −6 e λ2 = −4, pelo subcaso 1.2.1, ¯X3 = (4, 0) ´e um ponto
de equil´ıbrio assintoticamente est´avel (n´o est´avel) . A Figura 1.7, mostra o fluxo das trajet´orias aproximando-se da origem.
(d) An´alise do ponto de equil´ıbrio do ponto ¯X4 = (1, 3).
De maneira an´aloga, tem-se:
J F(1, 3) = −1 −1 −9 −3 . Os autovalores, s˜ao: λ1 = −2 − √ 10 < 0 e λ2 = −2 + √ 10 > 0, pelo subcaso 1.2.1, ¯X4 = (1, 3) ´e um ponto de equil´ıbrio inst´avel (ponto de sela). A Figura 1.7,
mostra o fluxo das trajet´orias (is´oclinas) aproximando-se e afastando-se do ponto estacion´ario.
A seguir apresentaremos a Figura 1.7 com um resumo dos quatro pontos estacion´arios do sistema autˆonomo n˜ao linear (1.29).
Figura 1.7: Resumo da an´alise qualitativa dos quatro pontos de equil´ıbrio do sistema 1.29. Fonte: Do Autor (2016).
Na subse¸c˜ao seguinte apresentaremos a solu¸c˜ao geral de um sistema autˆonomo n˜ao linear.
1.3.2 Conjunto solu¸c˜ao de SANL no R
n Seja o SANL abaixo n˜ao homogˆeneo:˙X = AX + h(X) (1.30)
com A ∈ Rn×n, X ∈ Rn e h(X) ∈ Rn.
A sua solu¸c˜ao pode ser definida a partir dos seguintes procedimentos: o sistema (1.30) pode ser reescrito como:
˙X − AX = h(X). (1.31)
Multiplicar o sistema (1.31) pelo fator integrante µ = e−AX, logo:
que corresponde a regra do produto de primeira derivada: d dt Xe−AX = e−AX h(X)
aplicando-se o m´etodo de separa¸c˜ao de vari´aveis para integra¸c˜ao, tem-se:
dXe−AX = e−AXh(X)dt ou
e−AXdX = e−AXh(X)dt A igualdade abaixo:
P e−AXP−1 = P e−tAP−1 ´e verdadeira se, e somente se,
e−AX = e−tA Assim,
e−tAdX = e−tAh(X)dt.
Integrando-se em X o lado esquerdo e em t o lado direito da equa¸c˜ao anterior, tem-se:
e−tAX = Z e−tAh(X)dt + K X = R e−tAh(X)dt + K e−tA
Logo, a solu¸c˜ao ´e:
X(t) = etAM(t) + KetA, (1.32) onde M(t) = Z e−tAh(X)dt e e−tA = P e−tDP−1.
1.3.3 M´etodos de Lyapunov
O primeiro teorema de Lyapunov ´e usado para linearizar um sistema autˆonomo n˜ao linear e analisar a estabilidade em torno dos pontos de equil´ıbrios desse novo sistema. A estabilidade local ´e usualmente determinada usando o primeiro m´etodo de Lya-punov, ou seja, pela lineariza¸c˜ao. Quando n˜ao ´e poss´ıvel utilizar a lineariza¸c˜ao para determinar a estabilidade, pois o ponto de equil´ıbrio n˜ao ´e hiperb´olico2, ent˜ao segue-se
para o segundo m´etodo de Lyapunov, o m´etodo direto. O principal valor do segundo m´etodo de Lyapunov est´a na possibilidade de se estabelecer a estabilidade global.
Primeiro m´etodo
De acordo com os autores [2], [19] e [14], o primeiro teorema de lineariza¸c˜ao de Lyapunov3, ´e aplicado ao linearizar-se um sistema autˆonomo n˜ao lineare no R2e classificar
a sua estabilidade de modo an´alogo aos sistemas lineares. Um estudo detalhado est´a apresentado no Teorema 1.4.
Segundo m´etodo
Sobre estes crit´erios, [2], prop˜oem a seguinte defini¸c˜ao, que servir´a de funda-menta¸c˜ao para o enunciado do segundo teorema de Lyapunov.
Defini¸c˜ao 1.7. Seja L uma fun¸c˜ao continuamente diferenci´avel definida em Ω ⊂ Rn com
valores reais.
Dizemos que L ´e uma fun¸c˜ao de Lyapunov se: 1. L(0) = 0, 0 = (0, · · · , 0);
2. L(X) > 0 se X 6= 0 (isto ´e, L ´e localmente definida positiva); 3. L satisfaz uma das seguintes condi¸c˜oes:
(a) L ´e n˜ao crescente sobre qualquer trajet´oria em Ω;
(b) L ´e estritamente decrescente sobre qualquer trajet´oria em Ω; (c) L ´e estritamente crescente sobre qualquer trajet´oria em Ω.
O autor [2] observa que as condi¸c˜oes (a), (b) e (c) de 3 podem ser testadas sem conhe-cermos as trajet´orias, pois o objetivo da teoria ´e analisar o comportamento do fluxo sem dispor das trajet´orias explicitamente.
Basta utilizar a regra da cadeia e veremos que d dtL(X) = n X k=1 ∂L ∂xk dxk dt = h∇L · F (X)i = ϕ(X) = div (1.33) e, portanto, podemos expressar estas condi¸c˜oes da seguinte forma, ∀X ∈Ω e X 6= 0:
4. (a.) h∇L(X) · F (X)i ≤ 0, (b.) h∇L(X) · F (X)i < 0, (c.) h∇L(X) · F (X)i > 0,
isto ´e, ϕ(X) = h∇L(X) · F (X)i ´e, (a.) negativa semidefinida, (b.) negativa definida e (c.) positiva definida.
Teorema 1.5. Teorema de Lyapunov[2] Seja F : Ω ⊂ Rn
→ Rnum campo continuamente
diferenci´avel com um ponto cr´ıtico na origem, F(0) = 0, e considere o sistema autˆonomo n˜ao linear da forma
˙X = F(X). (1.34)
Suponha que exista uma fun¸c˜ao L de Lyapunov satisfazendo uma das condi¸c˜oes (a.), (b.) ou (c.). Ent˜ao, o ponto cr´ıtico ser´a, respectivamente
a) est´avel: h∇L(X) · F (X)i ≤ 0 ;
b) assintoticamente est´avel: h∇L(X) · F (X)i < 0; c) inst´avel: h∇L(X) · F (X)i > 0
Demonstra¸c˜ao. Encontra-se em [2].
O exemplo a seguir encontra-se em [19].
Exemplo 1.3. Classifique a estabilidade da origem do sistema
˙x = −x2− x31 ˙y = x1− x32 . (1.35)
Para classificar a estabilidade do sistema autˆonomo n˜ao linear (1.35), devemos supor que exista uma fun¸c˜ao de Lyapunov da forma quadr´atica
L(x1, x2) = ax21+ bx 2
2, (1.36)
com a, b constantes reais, na vizinhan¸ca do ponto de equil´ıbrio ¯X = (0, 0) do sistema
(1.35).
De imediato, ´e f´acil verificar que as duas primeiras condi¸c˜oes da Defini¸c˜ao 1.7 s˜ao satisfeitas, porque: L(0, 0) = 0 para X = (0, 0) e L(X) > 0, ∀ X ∈ Ω e X 6= (0, 0), para a e b > 0 (´e denominada de globalmente4 definida positiva ).
A terceira condi¸c˜ao, ´e analisar o sinal do divergente da fun¸c˜ao escalar (1.33). O campo vetorial do sistema (1.35) ´e:
F = (−x2− x31, x1− x32).
4N. do A. Segundo [19], se o dom´ınio Ω corresponde a todo espa¸
co de fase (ou seja, Ω = R2), ent˜ao
O gradiente de (1.36), ´e:
∇L(X) = (2ax1,2bx2).
A fun¸c˜ao escalar (1.33) ´e:
ϕ(X) = h∇L(X) · F (X)i
= h(2ax1,2bx2), (−x2− x31, x1− x32)i
= 2ax1(−x2− x31) + 2bx2(x1− x32)
= −2ax1x2−2ax41+ 2bx1x2−2bx42,
tomando-se a = b, o termo cruzado x1x2 desaparece e tem-se que:
ϕ(X) = −2ax41−2ax4 2 = −2(ax 4 1+ ax 4 2) < 0,
para (x1, x2) 6= (0, 0) e a qualquer n´umero real positivo. Por exemplo, se considerarmos
a= 1, na express˜ao acima, tem-se:
ϕ(X) = −2(x21+ x22) < 0 (1.37) e pelo Item 4.(b.) da Defini¸c˜ao 1.7 a fun¸c˜ao (1.37) ´e globalmente definida negativa.
Portanto, pelo Item b) do Teorema 1.5, L(x1, x2) = x21+ x22 ´e fun¸c˜ao de Lyapunov
desse sistema de equa¸c˜oes (1.35) e o ponto ¯X = (0, 0) ´e globalmente assintoticamente
est´avel.
Cap´ıtulo 2
MODELOS EPIDEMIOL ´
OGICOS
CL ´
ASSICOS
Com o prop´osito de explorar, ent˜ao, as compreens˜oes que a modelagem matem´atica propicia sobre modelos epidemiol´ogicos, seguem apresentados os modelos epidemiol´ogicos objeto de estudo desta pesquisa: os modelos SI, SIR, SIS e SIRS .
2.1 Modelo SI
O modelo conhecido como SI, sem dinˆamica vital, ´e considerado o modelo epi-demiol´ogico mais simples. Trata-se de um modelo compartimental que considera uma popula¸c˜ao dividida em dois grupos de indiv´ıduos: suscet´ıveis (S) e infectados (I), como apresentado no esquema na Figura 2.1. A constante de proporcionalidade r entre os dois grupos ´e denominada de taxa de infec¸c˜ao.
Figura 2.1: Modelo compartimental SI com taxa de infec¸c˜ao (transmiss˜ao) r. Fonte: Do Autor, apud [12].
Este modelo pode ser adequado para doen¸cas de car´ater crˆonico no qual o indiv´ıduo uma vez infectado, n˜ao se recupera, nem mesmo se torna suscet´ıvel novamente, tal como ocorre em algumas doen¸cas como a doen¸ca de Chagas1, entre outras.
Matematicamente, o modelo SI ´e representado pelo sistema de duas equa¸c˜oes di-ferenciais ordin´arias n˜ao lineares, indicado por (2.1):
dS dt = −rSI dI dt = rSI . (2.1)
Considerando N(t) = S(t) + I(t) a popula¸c˜ao total, temos dN
dt = 0 , ou seja, N ´e
constante. Assim, S(t) = N(t) − I(t), e, assumindo N(t) = 1 com t > 0 , tem-se:
S(t) = 1 − I(t), (2.2)
onde S e I representam, respectivamente, propor¸c˜oes de indiv´ıduos suscet´ıveis e infecta-dos. Substituindo a equa¸c˜ao (2.2) em (2.1), tem-se:
dI
dt = r (1 − I) I. (2.3)
Tomando-se a equa¸c˜ao (2.3) e aplicando-se o m´etodo de separa¸c˜ao de vari´aveis, tem-se a equa¸c˜ao (2.4):
dI
(1 − I) I = rdt (2.4)
Da´ı, utilizando o m´etodo de integra¸c˜ao por fra¸c˜oes parciais, vem:
1 (1 − I) I = A1 (1 − I)+ A2 I = A1I + A2(1 − I) (1 − I)I = (A1− A2)I + A2 (1 − I)I , onde A1 = 1 e A2 = 1.
Assim, retomando a equa¸c˜ao (2.4) e aplicando a integral e manipulando-se alge-bricamente, tem-se: Z 1 (1 − I)Idt= Z 1 (1 − I)dt+ Z 1 Idt= Z rdt ⇔ −ln|1 − I|+ln|I|= rt + c ⇔ I 1 − I = e rt+c I = Ke rt 1 + Kert Assim, I(t) = Kert
1+Kert ´e a solu¸c˜ao geral de (2.4) com K constante.
Usando as condi¸c˜oes inicias : I(0) = I0 e S(0) = S0 , tem-se:
I0 = Ke0 1 + Ke0 = K 1 + K ⇒ K = −I0 I0−1 = −I0 −S0 = I0 S0