CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS
UNIDADE ACADÊMICA DE DIREITO
CURSO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS
SINVAL COSTA DE OLIVEIRA NETO
FECUNDAÇÃO ARTIFICIAL HOMÓLOGA PÓTUMA E O DIREITO
SUCESSÓRIO
SOUSA - PB
2011
FECUNDAÇÃO ARTIFICIAL HOMÓLOGA PÓTUMA E O DIREITO
SUCESSÓRIO
Monografia apresentada ao Curso de
Ciências Jurídicas e Sociais do CCJS
da Universidade Federal de Campina
Grande, como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em
Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: Profº Me. Eduardo Jorge Pereira de Oliveira.
SOUSA – PB
2011
F E C U N D A Q A O A R T I F I C I A L H O M O L O G A P O S T U M A E O D I R E I T O S U C E S S O R I O
T r a b a l h o de c o n c l u s a o de curso apresentado ao curso de Direito do Centra de Ciencias Jurfdicas e Sociais da Universidade Federal d e C a m p i n a G r a n d e , c o m o exigencia parcial da o b t e n c a o do titulo de Bacharel e m Ciencias J u r i d i c a s e Sociais.
Orientador: Prof. Eduardo Jorge Pereira de Oliveira
B a n c a e x a m i n a d o r a : Data de a p r o v a c a o :
Orientador: Prof. Eduardo Jorge Pereira de Oliveira
Prof3: V a n i n a Oliveira Ferreira de S o u s a
ate a m o r t e o direito de voce dize-las". (Voltaire)
A g r a d e g o primeiramente a D e u s todo poderoso, p r o v e d o r de t u d o e de t o d o s . G r a g a s a fe investida e m sua b o n d a d e , pude concluir tao grandioso ato.
A g r a d e g o a o s m e u s pais, J o a o Martins e Maria Z o r a i d e , que a p e s a r d e s e p a r a d o s j n v e s t i r a m na minha f o r m a g a o c o m o pessoa e c o m o profissional.
A g r a d e g o a o s m e u s avos, Sinval Costa e Maria Z e n a i d e , in memoriam. Entes que sao objeto d e g r a n d e orgulho do m e u ser, e q u e , c o m s e u amor, carinho e protegao, m e r e g e m , g u a r d a m e g o v e r n a m d e s d e s e m p r e .
A g r a d e g o aos m e u s tios-avos, J o s e Marcelino e Maria Cristina, os quais m e a c o l h e r a m e m s e u lar, d e s d e q u e eu era crianga, e f o r a m diretamente responsaveis pela f o r m a g a o dos m e u s principios, carater, e d u c a g a o , e me e n s i n a r a m o que e f e t i v a m e n t e era o certo e o errado, contribuindo a s s i m para minha garra de enfrentar a vida e suas dificuldades.
A minha irma Larissa F e r n a n d e s , c o m a quai resido d e s d e o inicio d a f a c u l d a d e e q u e , a c o m p a n h o u e contribuiu para m e u a m a d u r e c i m e n t o pessoal e profissional, m e d a n d o forga e orientagao perante as horas dificeis. T a m b e m a minha irma S a r a h Ingrid, cuja personalidade forte abriu m e u s olhos para a vida.
A o m e u orientador E d u a r d o J o r g e , c o m o qual p u d e contar diante de m o m e n t o s de n e c e s s i d a d e , e que foi responsavel pela m i n h a aprovagao. A l e m d o s d e m a i s professores que m e g u i a r a m e o r i e n t a r a m , para que c h e g a s s e ao fim desta c a m i n h a d a .
A m i n h a n a m o r a d a A l a n a Batalha, q u e m a n t e v e - s e junto a m i m a c o r d a d a durante as dificeis m a d r u g a d a s de produgao do presente trabalho monografico, e que m e d e u forgas e carinho para enfrentar esta realidade.
A o s m e u s c o l e g a s de curso, c o m os quais tive a o p o r t u n i d a d e de conviver os cinco longos a n o s de f a c u l d a d e , e dividir experiencias, realizagoes, a p r e n d i z a d o , dentre diversas outras b o a s coisas adquiridas d u r a n t e todo este t e m p o .
Por f i m , a o s m e u s queridos e verdadeiros a m i g o s , c o m os quais ;tive pude contar d u r a n t e o s m o m e n t o s dificeis, e tenho a certeza q u e c o n t i n u a r a m e m minha vida para s e m p r e .
O trabalho trata da a u s e n c i a de legislagao que reconhega o s direitos sucessorios do s e r h u m a n o advindo d e f e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a . A n a l i s a n d o - s e o o r d e n a m e n t o civel no q u e t a n g e ao Direito de Familia e ao Direito S u c e s s o r i o , o b s e r v a - s e que ante o progresso cientifico e f u n d a m e n t a l o r e c o n h e c i m e n t o pelo meio juridico d o s m e t o d o s utilizados para fertilizagao c o m o f o r m a de a t e n d e r as n e c e s s i d a d e s d a q u e l e s q u e nao p o d e m ter filhos naturalmente, e s p e c i a l m e n t e da f e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a . A questao g a n h a ainda m a i s c o m p l e x i d a d e q u a n d o se trata de c a s o s e m que as t e c n i c a s sao realizadas a p o s a m o r t e do genitor, utilizando-se de material genetico p r e v i a m e n t e a r m a z e n a d o . A questao q u e se i m p o e e se existe a possibilidade de r e c o n h e c i m e n t o d o s direitos sucessorio do nascido por meio de fertilizagao artificial h o m o l o g a p o s t u m a , t e n d o - s e c o m o hipotese a n e c e s s i d a d e de regulamentagao d a materia por legislagao ordinaria. O objetivo d a pesquisa e e x a m i n a r o s m e t o d o s existentes de reprodugao assistida e s e u s reflexos no r e c o n h e c i m e n t o d a filiagao n e s s e s c a s o s , verificar o s parametros para o r e c o n h e c i m e n t o do direito sucessorio e m geral, identificar a observancia ou nao de dispositivos constitucionais e legais quanto ao r e c o n h e c i m e n t o d o s direitos s u c e s s o r i o s no caso e m estudo e, por f i m , analisar a possibilidade de seu r e c o n h e c i m e n t o . O estudo proposto e de g r a n d e n e c e s s i d a d e haja vista tratar-se de materia q u e influi d i r e t a m e n t e na vida cotidiana b e m c o m o tern relagao c o m os avangos sociais e tecnologicos, o s quais se tratados de f o r m a indiferente pelo Direito pode resultar e m inseguranga juridica. Para realizagao desta pesquisa sao utilizados c o m o m e t o d o de a b o r d a g e m o m e t o d o dedutivo, c o m o m e t o d o de p r o c e d i m e n t o faz-se uso do c o m p a r a t i v o , m o n o g r a f i c o e funcionalista e c o m o tecnica de pesquisa faz-se utiliza d a d o c u m e n t a g a o por pesquisa bibliografica. A p o s a analise da possibilidade de r e c o n h e c i m e n t o de filiagao pela f e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a post mortem e a obrigatoriedade de t r a t a m e n t o igualitario a o s filhos e m virtude de preceito constitucional, constata-se a n e c e s s i d a d e de criagao de lei propria que r e g u l a m e n t e o s direitos sucessorios neste caso e s p e c i f i c o .
Palavras- c h a v e : Material genetico. F e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a post mortem. Direito sucessorio. A u s e n c i a de Legislagao.
T h e w o r k a d d r e s s e s the lack of legislation w h i c h recognizes inheritance rights arising f r o m the h u m a n h o m o l o g o u s artificial fertilization. A n a l y z i n g the civil order in relation to Family L a w and S u c c e s s i o n Law, it is o b s e r v e d that by the scientific progress is essential for the legal recognition of t h e m e t h o d s used for fertilization in order to m e e t the n e e d s of t h o s e w h o c a n n o t h a v e children course, especially of h o m o l o g o u s artificial fertilization. T h e issue b e c o m e s even m o r e c o m p l e x w h e n it c o m e s to c a s e s w h e r e the t e c h n i q u e s are performed after t h e death of t h e parent, using genetic material previously stored. T h e q u e s t i o n to be a n s w e r e d is w h e t h e r there is the possibility of recognizing the rights of s u c c e s s i o n born t h r o u g h p o s t h u m o u s h o m o l o g o u s artificial fertilization, a n d it w a s hypothesized t h e need for regulation of the matter by ordinary legislation. T h e objective of this research is to e x a m i n e existing m e t h o d s of assisted reproduction a n d its impact o n the recognition of m e m b e r s h i p in t h e s e c a s e s , check the p a r a m e t e r s for the recognition of inheritance law in g e n e r a l , identify the c o m p l i a n c e or non-constitutional and legal provisions regarding the recognition of inheritance in our case a n d , finally, e x a m i n e the possibility of its recognition. T h e p r o p o s e d study is of great necessity considering that it is a matter that directly affects t h e daily life and is related to social and technological a d v a n c e s , which are treated indifferently by law may result in legal uncertainty. For this research are u s e d as a method of a p p r o a c h the deductive m e t h o d as a m e t h o d of procedure m a k e s use of the c o m p a r a t i v e , m o n o g r a p h i c and functional a n d technical research d o c u m e n t a t i o n by using the literature. After e x a m i n i n g the recognition of h o m o l o g o u s artificial fertilization m e m b e r s h i p by post-m o r t e post-m and t h e requirepost-ment of equal treatpost-ment for t h o s e children by virtue of constitutional provision, there is a need to create its o w n law regulating inheritance rights in that case.
K e y w o r d s : G e n e t i c Material. H o m o l o g o u s artificial fertilization p o s t - m o r t e m . S u c c e s s i o n . Lack of legislation.
Art - Artigo C C - C o d i g o Civil C F - Constituigao Federal C F M - C o n s e l h o Federal de Medicina FIV - F e c u n d a g a o in vitro G I F T - T r a n s f e r e n c i a Intratubaria de G a m e t a s
ICSI - Injegao Intracitoplasmatica d e E s p e r m a t o z o i d e RA - R e p r o d u g a o assistida
1 I N T R O D U g A O 11 2 A R E P R O D U Q A O H U M A N A A S S I S T I D A 13 2.1 DA R E P R O D U Q A O M E D I C A M E N T E A S S I S T I D A : C O N C E I T O E P A R T I C U L A R I D A D E S 14 2.2 O P E R C U R S O H I S T O R I C O - E V O L U T i V O 15 2.3 T E C N I C A S DE R E P R O D U Q A O H U M A N A A S S I S T I D A 19 3 D O D I R E I T O S U C E S S O R I O 27 3.1 S U C E S S A O : C O N C E I T O , A B E R T U R A E T R A N S M I S S A O DA H E R A N Q A 28 3.2 DA L E G I T I M A Q A O P A R A S U C E D E R : R E G R A G E R A L E E X C E Q O E S 33 3.3 E S P E C I E S D E S U C E S S A O E S U C E S S O R E S 3 4 4 F E C U N D A Q A O A R T I F I C I A L H O M O L O G A P O S T U M A E O D I R E I T O S U C E S S O R I O 4 3 4.1 R E P R O D U Q A O A S S I S T I D A NA C O N S T I T U I Q A O F E D E R A L E N O C O D I G O C I V I L D E 2 0 0 2 4 4 4.2 A F I L I A Q A O NA R E P R O D U Q A O A S S I S T I D A H O M O L O G A P O S T U M A E M R E L A Q A O A O C O D I G O CIVIL D E 2 0 0 2 4 5 4.3 N E C E S S I D A D E U R G E N T E DE I N S E R Q A O D O T E M A N O O R D E N A M E N T O JURI'DICO B R A S I L E I R O 4 9 5 C O N C L U S A O 56 R E F E R E N C E S 58
1 I N T R O D U Q A O
O presente trabalho a b o r d a r a a t e m a t i c a da possibilidade de r e c o n h e c i m e n t o d o s direitos sucessorios do nascido atraves d e f e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a post
mortem.
De fato, a vida tern infcio no seio familiar, s e n d o s o n h o d a maioria das p e s s o a s constituirem sua propria familia por meio do c a s a m e n t o ou d e outras f o r m a s d e uniao e a c o n s e q u e n t e geragao d e prole. E m muitos c a s o s , c o n t u d o , por fatores naturais alguns casais e n c o n t r a m - s e impossibilitados de realizar este sonho, o que g e r a g r a n d e frustragao, haja vista que a d e s c e n d e n c i a c o n c e d e t a m b e m a ideia de perpetuidade. Q u a n d o isso ocorre, a ciencia que p a s s o u por grandes evolugoes no ultimo seculo f o r n e c e m e c a n i s m o s q u e possibilitam a concepgao de urn filho. U m a d a s f o r m a s de se o b t e r tal resultado e atraves d a fecundagao artificial h o m o l o g a . Esta consiste na obtengao de material genetico do genitor a ser i m p l a n t a d o na futura m a e , ou m e s m o , na retirada de material genetico de a m b o s para fertilizagao fora do o r g a n i s m o m a t e r n o .
O b s e r v a - s e que o atual o r d e n a m e n t o brasileiro, a p e s a r de nao disciplinar de maneira satisfatoria e s s a s praticas cientificas, j a identifica sua utilizagao, trazendo a possibilidade de r e c o n h e c i m e n t o d a filiagao n e s s e s casos. C o n t u d o , a lei patria nao disciplinou q u e s t o e s pertinentes a s u c e s s a o . O direito sucessorio passa a ser discutido nos c a s o s e m q u e a f e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a e realizada post
mortem, ou seja, a p o s a m o r t e do d o a d o r do material genetico. Devido a falta de
regulamentagao sobre esta materia, ha q u e s t i o n a m e n t o s a c e r c a d a possibilidade ou nao de ser conferido direito a heranga d a crianga que n a s c e r t e n d o sido gerada p o s t e r i o r m e n t e a m o r t e do s e u a s c e n d e n t e , h a v e n d o d i s c u s s a o se ha c a p a c i d a d e de ser c o n s i d e r a d o herdeiro l e g i t i m e testamentario ou de nao ser passivel de participar d a s u c e s s a o .
Frente a essa situagao, sera q u e s t i o n a d a a possibilidade ou nao do r e c o n h e c i m e n t o d o s direitos sucessorios para o nascido por meio de f e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a post mortem e sera a p r e s e n t a d a a hipotese de regulamentagao d a disciplina por lei e s p e c i f i c a . Esse estudo sera de f u n d a m e n t a l importancia para o
m e i o a c a d e m i c o e juridico e m virtude d a n e c e s s i d a d e d e regulamentagao de c a s o s faticos que se a p r e s e n t a m , sob pena de c a u s a r inseguranga juridica.
A s s i m s e n d o , objetivar-se-a e x a m i n a r os m e t o d o s existentes de reprodugao assistida e s e u s reflexos no r e c o n h e c i m e n t o da filiagao, verificar o s p a r a m e t r o s para o r e c o n h e c i m e n t o do direito sucessorio e m geral, identificar a observancia o u nao de dispositivos constitucionais e legais q u a n t o ao r e c o n h e c i m e n t o d o s direitos s u c e s s o r i o s no caso e m estudo e, por f i m , analisar a possibilidade d e seu r e c o n h e c i m e n t o e a n e c e s s i d a d e de regulamentagao d a materia por legislagao e s p e c i f i c a .
O u t r o s s i m , sera feito uso do m e t o d o dedutivo c o m o f o r m a d e a b o r d a g e m , haja vista que partira do estudo d a s regras gerais visando r e c o n h e c i m e n t o d a filiagao e do direito sucessorio para se obter solugoes objetivando o r e c o n h e c i m e n t o d o s direitos sucessorios d e s t i n a d o s a crianga oriunda d a f e c u n d a g a o artificial h o m o l o g a post m o r t e m . C o m o metodo de p r o c e d i m e n t o far-se-a uso do m e t o d o c o m p a r a t i v o , b u s c a n d o diferengas e s e m e l h a n g a s entre os c a s o s de s u c e s s a o ja previstos no o r d e n a m e n t o e o do caso e m e s t u d o , o monografico ja q u e sera realizado estudo de t o d o s os a s p e c t o s q u e e n v o l v e m a questao e o metodo funcionalista, ja q u e se observara a fungao d a s u c e s s a o e os direitos inerentes aos filhos. C o m o tecnica de p e s q u i s a se utilizara a d o c u m e n t a g a o por pesquisa bibliografica, ja que a pesquisa sera e m b a s a d a e m material doutrinario e legislativo.
D e s s a f o r m a , o trabalho que se apresenta pretendera d e m o n s t r a r a urgencia d e insergao d a materia e m c o m e n t o no o r d e n a m e n t o juridico c o m o f o r m a de disciplinar fatos q u e ja o c o r r e m na s o c i e d a d e e que nao p o d e m p e r m a n e c e r s e m r e g u l a m e n t a g a o .
2 A R E P R O D U Q A O H U M A N A A S S I S T I D A
G r a n d e parte d a s p e s s o a s almeja deixar d e s c e n d e n t e s , para que estes a l e m d e tudo p o s s a m dar continuidade ao n o m e da famflia, s u a s tradigoes, cultura, p o s s a m cuidar d e s e u s genitores na velhice, e n f i m , u m a especie de imortalizagao d o s seres. Este fato faz c o m q u e a reprodugao seja u m d o s principais objetivos d a vida e o torna f u n d a m e n t a l para a constituigao d a f a m i l i a , u m d o s pilares da ciencia juridica d e s d e a antiguidade, a l e m d e ser a unica f o r m a s e g u r a , ate a atualidade, d e perpetuagao da e s p e c i e h u m a n a .
A f o r m a natural pela qual os s e r e s h u m a n o s se r e p r o d u z e m e a s e x u a d a , o u seja, os novos indivfduos serao g e r a d o s atraves d a copula de dois seres de sexos diferentes, procedimento este que possibilitara a f u s a o de dois g a m e t a s (masculino e f e m i n i n o ) , c o n s e q u e n t e m e n t e o surgimento de novos d e s c e n d e n t e s . Diversos p r o b l e m a s afligem o p r o c e d i m e n t o natural anteriormente citado, dentre eles, principalmente a infertilidade e a esterilidade.
D e s d e os t e m p o s m a i s primordios o h o m e m v e m t e n t a n d o solucionar o s p r o b l e m a s que a m e a g a m a perpetuagao de sua especie, e r e c e n t e m e n t e , gragas a o s a v a n g o s tecnologicos, m a i s e s p e c i f i c a m e n t e a biogenetica, v e m o b t e n d o exito. A t r a v e s d e s t e s a v a n g o s , t o r n o u - s e possivel a casais a c o m e t i d o s pela infertilidade o u esterilidade, a realizarem o sonho de ser u m pai o u u m a m a e . A t r a v e s d o s m e t o d o s de reprodugao m e d i c a m e n t e assistida, ate m e s m o m u l h e r e s solteiras ou viuvas p o d e m concretizar a pretensao de ter u m filho. E inegavel q u e esses m e t o d o s f o r a m l o u v a v e l m e n t e aceitos pela s o c i e d a d e m u n d i a l , p o r e m , ao m e s m o t e m p o e m que gerou d i s c u s s o e s de c u n h o etico, m o r a l , cientifico, religioso e juridico.
A s conquistas cientificas tern provocado varias d u v i d a s e indagagoes no que t a n g e a o s m o l d e s atuais da legislagao, visto que o a m b i t o social t a m b e m e modificado pelos a c o n t e c i m e n t o s . Nao ha de se discordar, que estas conquistas modificaram os conceitos q u e por seculos g o z a r a m de total credibilidade, t r a n s p a r e c e n d o q u e tudo e passivel de m u d a n g a s . Estas p r o v o c a m conflitos de tutela nas varias ciencias (dentre elas o Direito), principalmente por nao c o n s e g u i r e m a c o m p a n h a r t a n t o progresso entre o que esta previsto nos d i p l o m a s legais e o que e vivenciado nos dias atuais pela s o c i e d a d e .
2.1 DA R E P R O D U Q A O M E D I C A M E N T E A S S I S T I D A : C O N C E I T O E P A R T I C U L A R I D A D E S
A titulo de m e l h o r c o m p r e e n s a o do t e m a q u e sera a b o r d a d o a frente, d e v e m o s ter c o n h e c i m e n t o de conceitos basicos acerca da reprodugao m e d i c a m e n t e assistida.
De a c o r d o c o m M a c h a d o1 o vocabulario inseminagao, derivado do latim e originado no verbo "\nseminare", f o r m a d o pela preposigao in ( e m ) m a i s seminare, que significa s e m e n t e , grao, princfpio, o r i g e m , fonte e, e definido c o m o sendo a f o r m a d e f e c u n d a g a o do ovulo pela uniao d o s e m e n , por m e i o s nao naturais d e c o p u l a . O adjetivo artificial, que t a m b e m deriva do latim, "artificiallis" significa feito c o m arte, resultou do substantivo "artificium", palavra que serve para d e s i g n a r atividades e n t e n d i d a s c o m o arte, tecnica, habilidade, e o u t r a s no m e s m o sentido.
A inseminagao artificial, t a m b e m d e n o m i n a d a "concepgao artificial" "fertilizagao artificial", "reprodugao assistida" o u "fertilizagao assistida" a l e m de outras d e n o m i n a g o e s utilizadas, consiste no p r o c e d i m e n t o tecnico-cientifico d e levar o ovulo ao e n c o n t r o do e s p e r m a t o z o i d e , s e m a ocorrencia do coito. Constitui-se, portanto, na pratica, do conjunto de tecnicas, q u e objetivam provocar a geragao de u m ser h u m a n o , atraves de outros m e i o s que nao o do relacionamento s e x u a l , c o n f o r m e o supracitado a u t o r2.
E m razao d a variada n o m e n c l a t u r a citada, Leite, E.3 esclarece que "[.••] a e x p r e s s a o mais aceita e R e p r o d u g a o Assistida ( R A ) , e m f a c e da d e n o m i n a g a o d a d a pelo C o n s e l h o Federal de Medicina [...]".
C o n f o r m e G o m e s4 d e n o m i n a - s e reprodugao h u m a n a assistida, a introdugao de e s p e r m a no interior do canal genital f e m i n i n o , por p r o c e s s o s m e c a n i c o s , s e m que t e n h a havido aproximagao sexual c o m o fim de originar u m ser h u m a n o . O o p e r a d o r recolhe e m u m a seringa o material f e c u n d a n t e , injetando-o na c a v i d a d e uterina d a m u l h e r o u , nao s e n d o isso p o s s i v e l , retira o ovulo da mulher para fecunda-lo na
1 MACHADO, M.H. Reprodugao assistida: aspectos eticos e juridicos. Curitiba: Jurua, 2003. p. 25.
2 Ibid. p. 27.
3 LEITE, Eduardo de Oliveira. Procriacdes artificiais e o Direito: aspectos medicos, religiosos,
psicologicos, eticos e juridicos. Sao Paulo: Revista dos Tribunais, 1995. p. 11.
proveta, c o m s e m e n do marido ou de outro h o m e m para, depois, introduzi-lo e m s e u utero o u no de outra mulher. Essa tecnica pretende auxiliar a resolugao dos p r o b l e m a s da fertilidade h u m a n a , facilitando o processo de procriagao q u a n d o o u t r a s t e r a p e u t i c a s nao t e n h a m sido ineficazes.
Canziani apud F r e i t a s5 afirma q u e :
A reprodugao humana assistida e basicamente, a intervencao do homem no processo de procriagao natural, com o objetivo de possibilitar que pessoas com problema de infertilidade e esterilidade satisfagam o desejo de alcangar a maternidade ou a paternidade.
A s s i m , a reprodugao assistida e entendida s e g u n d o o Relatorio W a m o c k , c o m o a introdugao do s e m e n na vagina d a m u l h e r o u sua insergao no utero, por m e i o s distintos d a c o p u l a . Essa tecnica pode se dar d e f o r m a h o m o l o g a ou heterologa. Na primeira utiliza-se o material genetico do casal, e n q u a n t o que na s e g u n d a e e m p r e g a d o o material genetico d e outra p e s s o a , c o n f o r m e a c e n t u a m A n d r o v a n d i , Franga e C a r r a s q u e i r a6.
O b s e r v a - s e q u e , d e s d e o inicio do uso d a s m o d a l i d a d e s de reprodugao artificial, valores culturais, religiosos e j u r i d i c o s v e m s e n d o rediscutidos, u m a vez que o ato reprodutivo nao ocorre de maneira natural, e as v e z e s ate c o m pessoa estranha a relagao matrimonial.
2.2 O P E R C U R S O H I S T O R I C O - E V O L U T I V O
A tentativa de resolver o problema da esterilidade e infertilidade v e m d e s d e a a n t i g u i d a d e , devido a s e r e m estes os principals motivos que o b s t a m a perpetuagao d a especie h u m a n a . O b s e r v a - s e , s e g u n d o F e r n a n d e s7:
5 FREITAS, D.P. (coord.) C u r s o de direito de familia Florianopolis: Vox Legem, 2004. p. 158. 6 ANDROVANDI, A.; FRANCA, D. G. de; CARRASQUEIRA, S. de A. Reprodugao assistida e a s
relagoes de parentesco, 2004. Disponivel em: <www.ufrgs.com.br>. Acesso em: 20 fev. 2005.
7 FERNANDES, Tycho Brahe. A reprodugao assistida em face da bioetica e do biodierito:
[...] ja no seculo XIV se realizava a inseminagao artificial em peixes, e, no seculo XV, no bicho-da-seda. Afirma-se que em 1332 se teria obtido a fecundagao de uma egua com interferencia humana, sendo relatado que a tecnica era utilizada como artificio de guerra, seja pela inseminagao de eguas dos inimigos com semen de cavalos velhos ou doentes, seja por furto do semen dos bons cavalos dos adversarios. Posteriormente, em 1670, Marcelo Malgighi logrou o encaixe de germens nos ovos de bicho-da-seda. No seculo XVIII foram produzidas algumas experiencias nesta area, sendo que em 1767 o alemao Ludwig Jacobi trabalhava com a reprodugao de peixes, enquanto o abade italiano LazzaroSpallanzan, em 1777, logrou obter a fecundagao de uma cadela por meio de inseminagao artificial, nascendo, daf, tres crias. Ja no seculo XIX a inseminagao artificial foi aplicada em outros mamiferos como eguas, vacas e ovelhas, destacando-se nas pesquisas com mamiferos o russo Elie Ivanoff.
O novo fato d a c a p a c i d a d e d e reprodugao ser possfvel s e m o contato sexual d e s p e r t o u a curiosidade de diversos cientistas, f a z e n d o c o m que eles e s t u d a s s e m e t e n t a s s e m d e s e n v o l v e r a tecnica para q u e pudesse ser realizada e m seres h u m a n o s . O primeiro caso de R.A ocorrido entre seres h u m a n o s foi na Idade Media, A r n a u d d e Villeneuve, medico de reis e p a p a s , teria obtido sucesso na inseminagao artificial, e m 1494-5, da Rainha D. J o a n a de Portugal, e s p o s a de Henrique IV de Castela, "O Impotente", c o n f o r m e afirma L e i t e8. Ha quern afirme que a m e s m a deu a luz a u m a m e n i n a , p o r e m , por ela ter sido g e r a d a atraves de u m metodo polemico e controverso, s e u pai nao a r e c o n h e c e u . S e m d u v i d a , u m d o s principals precursores d a R.A foi a invengao do microscopio, a p r o x i m a d a m e n t e no ano de 1.590. A partir d a i , e de seculos de e s t u d o , no inicio do seculo XIX a inseminagao artificial j a era c o m u m e m g r a n d e parte do m u n d o , milhares de p e s s o a s j a h a v i a m sido g e r a d a s atraves d e s t e m e t o d o .
Outra importante inovagao no c a m p o da Reprodugao Artificial foi o d e s e n v o l v i m e n t o d a f e c u n d a g a o in vitro, que veio a trazer novas e s p e r a n g a s a casais inferteis. A tecnica c o m e g o u a ser desenvolvida d e s d e a d e c a d a de 1950, pelo medico embriologista britanico Robert Geoffrey E d w a r d s , p o r e m , so efetivada na d e c a d a de 70 c o m o n a s c i m e n t o do primeiro b e b e de proveta d o m u n d o , c h a m a d o Louise J o y B r o w n , que nasceu a 25 de j u l h o d e 1978, e m Bristol, Inglaterra. Gragas a s e u s e s t u d o s e d e s e n v o l v i m e n t o d a tecnica, Robert G. E d w a r d s foi c o n t e m p l a d o m e r e c i d a m e n t e c o m o Nobel de medicina de 2 0 1 0 .
8 LEITE, Eduardo de Oliveira. Procriagoes artificiais e o direito: aspectos medicos, religiosos,
B e b e de proveta e a q u e l e g e r a d o a partir de u m a inseminagao artificial ou fertilizagao in vitro, o u seja, nao e o r i u n d o de u m a f e c u n d a g a o normal ocorrida pela relagao sexual entre u m h o m e m e u m a mulher, m a s antes d a f e c u n d a g a o g e r a d a e m laboratorio.
Leite, E .9 relata q u e o primeiro bebe d e proveta da A m e r i c a Latina nasceu no Brasil, e m sete d e outubro 1984, na regiao metropolitana de Curitiba - PR, seu n o m e e A n n a Paula B. Caldeira, a t u a l m e n t e c o m vinte e sete a n o s de idade. Cerca de u m ano d e p o i s , nasce na Australia B a b y Z o e , o primeiro ser h u m a n o gerado pela utilizagao d e u m embriao c r i o p r e s e r v a d o . A tecnica de criopreservagao consiste e m s u b m e t e r os e s p e r m a t o z o i d e s ao frio, s e m e m p r e g o do glicerol, p o d e n d o a s s i m ser c o n s e r v a d o s por muito t e m p o , s e m alteragao de sua viabilidade. O c o n g e l a m e n t o do e s p e r m a permitiu a criagao d o s b a n c o s d e e s p e r m a .
O b s e r v a - s e que o aperfeigoamento d a crioconservagao coincide c o m a e p o c a d a s e g u n d a guerra m u n d i a l . A s s i m s e n d o , B a r b o z a1 0 e s t a m p a e m s e u s e n s i n a m e n t o s o seguinte a c o n t e c i m e n t o :
Fato e que, durante aquele periodo, foram realizadas macicamente inseminacoes pelo exercito americano, transportando por aviao esperma dos soldados que lutavam no Pacifico, sem saber quando retornariam a America. Em 1945, o jurista BORRELL noticia o nascimento de vinte mil criancas fruto de inseminagao artificial, as quais foram consideradas filhos legitimos, por decisao sem precedentes tomada pelo juiz Henry Greenberg, da Corte Suprema de Nova York. O mesmo se verificou reiativamente as tropas inglesas na Coreia, o que levou os ingleses a incrementar tais praticas, de tal sorte que a questao chegou a Camara dos Comuns, que proibiu a inscrigao de filho concebido por esperma de doador anonimo como legitimo em 19 de abril de 1945.
O s a c o n t e c i m e n t o s historicos s u p r a m e n c i o n a d o s f o r a m considerados precursores para a aceitagao social d a s t e c n i c a s de reprodugao h u m a n a assistida, e m razao d a seguranga e d o s resultados positivos oferecidos por eles, gragas a o s a n o s de pesquisas e d e d i c a g a o d e diversos cientistas. P e s s o a s que por a l g u m motivo e r a m privados do s o n h o d e u m a paternidade ou m a t e m i d a d e t i n h a m a c h a n c e de realizar s e u s s o n h o s .
9 Ibid. p. 31-32.
1 0 BARBOZA, Heloisa Helena. A filiagao em face da inseminagao artificial e da fertilizagao "in
Diante de todo e s s e progresso, os m e t o d o s d e reprodugao assistida se difundiram por todo o m u n d o c o m notavel rapidez. D a d o s f o r n e c i d o s por C a r e l l i1 1 atraves da revista Veja a n u n c i a m que j a n a s c e r a m m a i s de 3 0 0 . 0 0 0 (trezentos mil) b e b e s de proveta, sendo q u e 7.000 (sete mil) deles no Brasil; q u e no Brasil existem cerca de 2 0 . 0 0 0 (vinte mil) e m b r i o e s c o n g e l a d o s ; q u e 2 0 0 e m b r i o e s brasileiros f o r a m a d o t a d o s nos ultimos cinco a n o s ; e q u e 9 9 % d a s m u l h e r e s estereis ja p o d e m ser m a e s .
Coisas que ha alguns a n o s nao passaria d e m e r a ficgao cientifica, c o m o a utilizagao de celulas-tronco no t r a t a m e n t o de d o e n g a s , clone de animais, barrigas de aluguel, criopreservagao d e e m b r i o e s e g a m e t a s , fertilizagao in vitro, hoje sao reais. P o d e m o s p e r c e b e r este p a r a d i g m a s e g u n d o as afirmagoes de V a l e n t e1 2:
Na decada de 90 os cientistas ja faziam todo tipo de experiencias em termos de inseminagao artificial. Comegaram, ai, a nascerem os folhos de mulheres virgens ou na menopausa, algo impensavel poucos anos antes. As manipulagoes geneticas bizarras nao pararam. Surgiam semens congelados de pessoas falecidas que fecundavam ovulos de pessoas vivas e avos que deram a luz aos seus proprios netos.
O m a r c o inicial d a s d i s c u s s o e s acerca d a inseminagao p o s t u m a surgiu ainda na d e c a d a de oitenta. S e g u n d o P i n t o1 3 no caso "Affair Parpalaix", o casal Corine e Alain Parpalaix, havia iniciado u m r e l a c i o n a m e n t o ha p o u c a s s e m a n a s , q u a n d o o j o v e m d e s c o b r i u u m c a n c e r nos testiculos. C o m o inicio d a quimioterapia o rapaz ia se tornar infertil, logo, decidiu d e p o s i t a r seu s e m e n e m u m a clinica especializada, para fins de utilizagao posterior. Durante o avango d a d o e n g a , o casal decidiu se casar, e dois dias a p o s a cerimonia A l a i n falece. Corine foi ao banco de s e m e n para se s u b m e t e r a inseminagao artificial, p o r e m esta foi n e g a d a pela clinica por falta de previsao legal, d a n d o o r i g e m a s s i m a disputa judicial. No final do c a s o , a tribuna francesa d e t e r m i n o u que a clinica realizasse a inseminagao, m a s , c o m a d e m o r a do processo judicial, o material genetico ja estava despotencializado para concluir a f e c u n d a g a o .
1 1 CARELLI, G. Tudo por um filho. Revista Veja. Sao Paulo. Ano 34. n. 18, 09 maio 2001. p. 108-115. 1 2 VALENTE, Claudia Maria dos Santos. Inseminagao postuma: complicagoes juridicas. 2007.
Disponivel em: <http://www.r2learning.com.br/_site/artigos/artigo_default.asp?ID=389>. Acesso em: 11 set. 2011.
1 3 PINTO, Carlos Alberto Ferreira. Reprodugao assistida: inseminagao artificial homologa post
mortem e o direito sucessorio. Sao Paulo, 2008. Disponivel em: <http://recantodasletras.uol.com.br/textosjuridicos/879805>. Acesso em: 18 abr. 2011.
M e s m o diante d e resultados s u r p r e e n d e n t e s , o s e s t u d o s , p e s q u i s a s , m e t o d o s e a s t e c n o l o g i a s nao se e s t a g n a r a m , c o n t i n u a n d o e m processo d e a p e r f e i c o a m e n t o e s u r p r e e n d e n d o c a d a v e z m a i s a s o c i e d a d e atual. O c o r r e u q u e , a v e l o a d a d e evolutiva d a e n g e n h a r i a genetica e d a biotecnologia nao foi a c o m p a n h a d a pelo processo tutelar legal. Logo, principios absolutos que norteiam o direito e disciplinas juridicas f o r a m relativizados, d e i x a n d o - n o s i m p o t e n t e s diante d a situagao, e d e m o n s t r a n d o a carencia d e u m a legislagao especifica acerca do t e m a a b o r d a d o .
2.3 T E C N I C A S DE R E P R O D U Q A O H U M A N A A S S I S T I D A
A s tentativas de resolver os p r o b l e m a s q u e i m p e d e m a reprodugao h u m a n a v e m d e s d e a n t i g a m e n t e , c o m o j a expresso anteriormente. A s principals p r e o c u p a g o e s estao voltadas para a infertilidade e/ou a esterilidade, que p o d e m se originar tanto de c a u s a s f e m i n i n a s c o m o m a s c u l i n a s , mistas, s e m c a u s a aparente o u de o r i g e m d e s c o n h e c i d a .
Insta ressaltar, por oportuno, q u e a infertilidade, c o n f o r m e a Organizagao Mundial de S a u d e1 4, e c o n s i d e r a d a d o e n g a , de a c o r d o c o m a Classificagao Internacional de Doengas e m sua D e c i m a Revisao ( C I D - 1 0 ) . No capitulo XIX d a aludida classificagao, e n c o n t r a s e a lista d e d o e n g a s do aparelho geniturinario ( N 0 0 -N 9 9 ) , dentre as quais se constata a infertilidade masculina ( -N 4 6 ) e a infertilidade f e m i n i n a (N97).
A esterilidade (infertilidade natural adquirida, t e m p o r a r i a ou definitiva) pode ter c a u s a s naturais e adquiridas. A s c a u s a s naturais referem-se e m geral a m a s f o r m a g o e s congenitas (as p e s s o a s n a s c e m estereis). E as c a u s a s adquiridas sao a q u e l a s d e c o r r e n t e s de d o e n g a s ou da esterilizagao q u i m i c a ou cirurgica. M a c h a d o1 5 a p r e s e n t a c o m o c a u s a s de esterilidade f e m i n i n a e m a s c u l i n a :
1 4 ORGANIZACAO MUNDIAL DE SAUDE. Classificagao internacional de doengas: CID-10.
Disponivel em: <HTTP://www.cid10.hpg.ig.com.br>. Acesso em: 26 mar. 2005.
1 5M A C H A D O , M.H. Reprodugao assistida: aspectos eticos e juridicos. Curitiba: Jurua, 2003. p.
E S T E R I L I D A D E FEMININA E S T E R I L I D A D E MASCULINA
1 . C a u s a s ovaricas: a) a u s e n c i a de g o n a d a s : seja congenita o u adquirida ( t u m o r e s , extracao cirurgica, inflamagoes), b) a n o m a l i a s d a ovulagao, c) alteragoes da f a s e lutea, d ) e n d o m e t r i o s e s , e) t e n d e n c i a letal d o o c u l o . 2. C a u s a s tubaricas: e a obstrugao tubarica c o n s i d e r a d a a principal c a u s a . 3. C a u s a s uterinas: a) por lesao do e n d o m e t r i o , b) por falta d e p e r m e a b i l i d a d e , c) p o r f a t o r m e c a n i c o .
4. C a u s a s cervicais: a) alteragoes c o n g e n i t a s , b) posigoes a n o r m a i s , c) alteragoes morfalogicas o u na d i m e n s a o do colo, d) m i o m a s e polipos cervicais, e) cervicites, f) lesoes t r a u m a t i c a s , g ) alteragoes funcionais.
5. C a u s a s vaginais: devido a m a f o r m a g a o congenita, alem d e outras.
6. C a u s a s psiquicas.
7. O u t r a s c a u s a s : c o m o a o b e s i d a d e , alteragao d a s glandulas renais, o u tireoides, carencias v i t a m i n i c a s importantes, d r o g a s , etc.
1. A nivel testicular podem ser consideradas como causa de infertilidade ou esterilidade masculina: a) alteragao congenita por inexistencia de espermatogenias por anomalias cromossomicas; b) ausencia de espergenia por destruigao ou por imaturidade.
2. Anomalias nas vias excretoras. 3. Alteragoes das glandulas acessorias. 4. Anomalias diversas na ejaculagao ou na inseminagao.
5. Defeitos estruturais ou morfologicos dos espermatozoides.
Nesta linha, Leite, E. relata q u e :
A situagao da esterilidade feminina (ate o final do seculo XV era inadmissivel a ideia de que pudesse ocorrer esterilidade masculina) nao mudou muito, na Idade Media apenas, com a descoberta de novos elementos terapeuticos, procurava-se curar o mal, quer pelo emprego de rudimentar farmacopeia (chas, ervas), quer pelo recurso - ainda dominante - das medidas acientificas: uso de metais e pedras preciosas, inovacoes religiosas, rituais, flagelacoes, etc.
E m contra partida, gragas a e v o l u c a o d a biogenetica, f o r a m criadas e a p e r f e i c o a d a s as tecnicas d e R. A. R e f o r c a n d o o s conceitos, a R e p r o d u g a o Artificial e o c o n j u n t o de tecnicas, utilizadas por m e d i c o s especializados, que tern por principal objetivo tentar viabilizar a gestagao e m m u l h e r e s c o m dificuldade de engravidar. N e s s e sentido K r e l l1 7 afirma q u e :
A reproducao humana assistida constitui um remedio terapeutico para combater o mal da infertilidade humana e, assim, realizam o postulado de se fazer o bem aos seres humanos; elas podem ser utilizadas desde que exista a probabilidade efetiva de sucesso e nao se incorra em risco grave a saude para o paciente ou possivel descendente, consagrando o principio da beneficencia e nao da maleficencia.
Existem varios m e t o d o s de Inseminagao Artificial, dentre os principals e mais utilizados pelos m e d i c o s - devido a g a r a n t i r e m m e l h o r resultado - estao a Injegao Intracitoplasmatica d e E s p e r m a t o z o i d e (ICSI), Transferencia Intratubaria de G a m e t a s ( G I F T ) , a Transferencia Intratubaria d e Zigotos (ZIFT) e a Fertilizagao In
Vitro (FIV). Importante para m e l h o r c o m p r e e n d e r o t e m a e explicitar as
caracteristicas d e c a d a u m d e s s e s m e t o d o s d e R.A.
A microinjecgao intracitoplasmatica de e s p e r m a t o z o i d e s , h o d i e r n a m e n t e c o n h e c i d a por ISCI (sigla inglesa para intracytoplasmicsperminjection), foi introduzida e m 1992. C o n s i s t e na introdugao d e u m unico e s p e r m a t o z o i d e no citoplasma do ovocito, atraves de u m p r o c e d i m e n t o laboratorial c o m o uso d e m i c r o a g u l h a s . O p r o c e d i m e n t o ajuda a evitar a dificuldade do meio natural, e m que o e s p e r m a t o z o i d e tern de penetrar a m e m b r a n a do ovocito, para dar inicio ao processo
1 6 LEITE, Eduardo de Oliveira. Procriagoes artificials e o direito: aspectos medicos, religiosos,
eticos e juridicos. Sao Paulo: Revista dos Tribunals, 1995. p. 18.
1 7 KRELL, Olga Julbert Gouveia. Reprodugao humana assistida e filiagao civil: principios eticos e
d a f e c u n d a c a o . O metodo s e m e l h a n t e a fertilizagao in vitro e indicado n o r m a l m e n t e para p r o b l e m a s d e infertilidade m a s c u l i n a . Nas palavras de R o g e r1 8:
Injegao Intracitoplasmatica de Espermatozoide (ICSI) e um processo realizado em laboratorio, atraves de microagulhas de apenas seis microns, chamada de micropipeta, onde se insere um espermatozoide no nucleo da celula ovaria atraves de um processo artificial, e quando constatada a fecundagao, e introduzo este ovulo fecundado no utero materno;
Utiliza-se e s s a tecnica para s a n a r varios p r o b l e m a s de infertilidade m a s c u l i n a , a e x e m p l o d a o l i g o z o o s p e r m i a , v a s e c t o m i a irreversivel, p r o b l e m a s de f o r m a g a o e m o v i m e n t o d o s e s p e r m a t o z o i d e s , entre outros.
A Gamete Intra Fallopian Transfer (GIFT), n a c i o n a l m e n t e c o n h e c i d a c o m o T r a n s f e r e n c i a Intratubaria de G a m e t a s , e u m processo pelo qual e transferido g a m e t a s (celulas sexuais m a s c u l i n a s e f e m i n i n a s ) para a t r o m p a de Falopio. Neste p r o c e d i m e n t o , a fertilizagao ocorre in vivo, ou seja, dentro do o r g a n i s m o d a m u l h e r e c o m o se f o s s e u m a atividade reprodutiva n o r m a l . Reforgando o e n t e n d i m e n t o , nela "os e s p e r m a t o z o i d e s p r o c e s s a d o s e o s ovulos colhidos anteriormente por aspiragao vaginal sao transferidos d i r e t a m e n t e para as t r o m p a s por laparoscopia", c o m o a d u z P e s s i n i1 9. O p r o c e d i m e n t o e s e m e l h a n t e a fertilizagao in vitro, p o r e m nesta a f e c u n d a g a o ocorre n u m a placa de laboratorio c h a m a d a de proveta, e n q u a n t o q u e na G I F T nao ha a uniao e manipulagao d o s g a m e t a s no laboratorio, pois o s m e s m o s sao transferidos para o interior do o r g a n i s m o feminino, para que la ocorra a f e c u n d a g a o .
T a n g e n t e a transferencia intratubaria de zigotos (ZIFT), que e x p r i m e a e x p r e s s a o e m ingles Zygote Intra Fallopian Trasnfer, ha de se observar q u e e u m a tecnica s e m e l h a n t e a G I F T . Nesta os g a m e t a s masculino e f e m i n i n o sao postos e m contato, in vitro, e m condigoes propicias a f u s a o . O zigoto o u zigotos resultantes sao transferidos para o interior d a s t r o m p a s uterinas, atraves d e sua insergao por p r o c e d i m e n t o m e d i c o , d i r e t a m e n t e na t r o m p a d e Falopio. Nas sabias ligoes de S e r a f i n i2 0:
1 8 ROGER, Abdelmassih. Tudo por um bebe. 2. ed. Sao Paulo: Globo. 1999.
1 9 PESSINI, Leocir. Problemas atuais de bioetica. 8. ed. Sao Paulo: Centra Universitario Sao
Camilo: Loyola, 2007. p. 297.
Consiste na transferencia de pronucleo ou zigotos para as trompas de Falopio. Para a realizagao desse metodo, os ovulos sao colhidos por aspiracao transvaginal e fertilizados em tubos de ensaios. Os ovulos fertilizados no estagio de pronucleos (indications laboratoriais de que ocorreu a fertilizagao normal) ou zigotos (ovulo feitilizado antes da divisao celular embrionaria) sao transportados para a trompa de Falopio, atraves da
videomicrolaparoscopia ou laparoscopia convencional.
Insta salientar, que nos dois m e t o d o s supra relacionados ha u m a transferencia intratubaria, p o r e m , na G I F T sao transferidos os e s p e r m a t o z o i d e s e o ovulo ao passo q u e , na ZIFT, o que e transferido e o zigoto, ou seja, a f u s a o entre o ovulo e o e s p e r m a t o z o i d e . E m a m b o s os p r o c e d i m e n t o s o material genetico e inserido na t r o m p a sob o m e s m o p r o c e d i m e n t o m e d i c o , d e n o m i n a d o s laparoscopia ou v i d e o m i c r o l a p a r o s c o p i a , m a s , e t r a n s p a r e n t e que na transferencia de material g e n e t i c o e m estado mais a v a n g a d o , no caso a ZIFT, as c h a n c e s de sucesso sao maiores.
Dentre o s m e t o d o s de R.A, a Fertilizagao ou F e c u n d a g a o In Vitro (FIV) e a m a i s utilizada, p o r e m e a m a i s c o m p l e x a . C o m o ja c o m e n t a d o , e b e m s e m e l h a n t e m e c a n i c a m e n t e c o m a ICSI, a unica diferenga e que e m v e z de utilizar-se m i c r o a g u l h a s para f e c u n d a r o ovulo, e utilizado a p e n a s u m g a m e t a masculino. N e s s e p r o c e d i m e n t o , o material genetico do casal e colhido, para que posteriormente a f e c u n d a g a o ocorra, fora do corpo da mulher, e m t u b o s de ensaio ou proveta, d a i a d e n o m i n a g a o bebe de proveta. Para S i l v a2 1 FIV e:
A tecnica mediante a qual se reune em um tubo de ensaio os gametas masculinos e femininos (espermatozoide e ovulos), em meio artificial apropriado que possibilite a fecundagao ou a formagao do ovo ou zigoto, o qual, ja iniciada a reprodugao celular, sera implantado no interior do utero materno.
E a tecnica e m que m a i s se o b t e m resultados positivos, e m situagoes o n d e a fertilizagao artificial nao pode solucionar, s e n d o indicada q u a n d o se d e t e c t a m fatores m a s c u l i n o s que nao p e r m i t e m a fertilizagao a p e n a s pela jungao d o s e s p e r m a t o z o i d e s a o s ovocitos por m e i o de cultura apropriada, c o m o nos c a s o s de
2 1 SILVA, Elaine Cristina da. Temas polemicos de direito de famiiia. Rio de Janeiro: Freitas Bastos,
o b s t r u c a o tubaria, m u l h e r e s q u e p e r d e r a m as t r o m p a s o u q u e n a s c e r a m s e m utero, contra d o e n g a s q u e p r o v o c a m inflamagoes pelvicas, dentre outras c a u s a s .
A c e r c a do processo de transferencia de e m b r i o e s para o utero d a mulher, que ocorre na FIV, o C o n s e l h o Federal de M e d i c i n a2 2, na Resolugao 1.957/10, estabelece q u e "o n u m e r o d e e m b r i o e s a s e r e m transferidos para a receptora nao pode ser superior a quatro". Nao o b s t a n t e , e x p r e s s a limitagoes, no que t a n g e a idade de c a d a mulher, d e t e r m i n a n d o q u e : " E m relagao ao n u m e r o de e m b r i o e s a s e r e m transferidos, sao feitas a s seguintes d e t e r m i n a g o e s : m u l h e r e s c o m ate 35 a n o s : ate d o i s e m b r i o e s ; m u l h e r e s entre 36 a 39 a n o s : ate tres e m b r i o e s ; m u l h e r e s c o m 4 0 a n o s o u mais: ate quatro e m b r i o e s " .
Importa lembrar q u e , o d e s c a r t e ou a destruigao d o s e m b r i o e s entraria e m confronto c o m a legislagao legal, m a i s especificamente do artigo 2 2 5 paragrafo 1§ da Constituigao F e d e r a l2 3, que versa acerca da preservagao do patrimonio genetico nacional. L o g o , o s e m b r i o e s e x c e d e n t e s obrigatoriamente terao que ser c o n g e l a d o s para q u e p o s s a m ser utilizados e m t e c n i c a s d e procriagao artificial ou pesquisas cientificas. C o m efeito, a legislagao nacional (Lei n. 11.105/05) permite a utilizagao d o s e m b r i o e s e x c e d e n t e s para fins d e pesquisa, a e x e m p l o d a s celulas tronco, d e s d e que o s m e s m o e s t e j a m c o n g e l a d o s ha mais de tres a n o s e que a utilizagao seja permitida pelos s e u s titulares.
A l e m d e s s a s tecnicas de Inseminagao Artificial, outro metodo utilizado a t u a l m e n t e e a m a t e r n i d a d e d e substituigao, q u e a p e s a r de nao ser c o n s i d e r a d a u m a tecnica de R.A, possibilita a procriagao, p o d e n d o realizar-se c o m o uso de qualquer d a s tecnicas anteriormente citadas. O presente trabalho cientifico esta voltado e s p e c i f i c a m e n t e para a s t e c n i c a s de reprodugao artificial, logo, o metodo supra sera b r e v e m e n t e m e n c i o n a d o .
A p o s o previo c o n h e c i m e n t o d o s m e t o d o s supracitados, e importante frisar que e n c o n t r a m respaldo legal (art. 2 2 6 § 7° d a C F / 8 82 4, principio da d i g n i d a d e da pessoa h u m a n a e paternidade r e s p o n s a v e l ) , d e s d e que o b s e r v a d o s o s parametros e regras eticas n o r m a i s de s a u d e e seguranga d a s clinicas especializadas que o
2 2 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolugao n° 1.957/2010. Disponivel em:
<http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/2010/1957_2010.htm>. Acesso em: 02 mar. 2011.
2 3 BRASIL. Constituigao (1988). Constituigao Federal, de 05 de outubro de 1988. Vade mecum:
academico de direito. 8. ed. Sao Paulo: Rideel, 2009.
praticam. E necessaria t a m b e m a c o m p r e e n s a o d a s d u a s f o r m a s pelas quais a fertilizagao artificial pode ocorrer: A h o m o l o g a e a heterologa. A primeira ocorre q u a n d o o material genetico utilizado para a inseminagao artificial e o dos conjuges, o u seja, o s e m e n do marido e o ovulo d a e s p o s a ; a s e g u n d a ocorre q u a n d o o material pertence a terceiro. A d u z c o r r e t a m e n t e V e n o s a2 5 q u a n d o d e n o m i n a " h o m o l o g a a inseminagao proveniente do s e m e n do marido o u do c o m p a n h e i r o ; heterologa, q u a n d o proveniente de u m estranho". N e s s e m e s m o sentido, c o m p l e t a
O semen pode ser do conjuge ou do convivente da mulher, e uma vez introduzido no utero da-se ao processo o nome de inseminagao homologa; e quando o semen e proveniente de terceiro, para mulher casada ou solteira, e chamado de fertilizagao heterologa, que e indicado nos casos de doengas sexualmente transmissiveis.
Diante d a polemica que envolve a R.A heterologa, sera a p e n a s a b o r d a d a a f o r m a h o m o l o g a no presente estudo.
A facilidade de a r m a z e n a r e c o n s e r v a r material genetico e m clinicas especializadas, e, a escolha do m o m e n t o que sera gerado o b e b e pode d e m o r a r anos, variando de a c o r d o c o m a n e c e s s i d a d e e/ou pretensao de quern o fez, p o d e n d o inclusive, ocorrer a p o s a m o r t e de u m d o s c o n j u g e s . Q u a n d o ocorre a p o s a morte do de cujus e e evidenciado que o casal a l m e j a v a a c o n c e p g a o da crianga, sera d e n o m i n a d o de fertilizagao artificial h o m o l o g a p o s t u m a , t e m a central d e s s e estudo, c o n f o r m e ensina A l b u q u e r q u e F i l h o2 7:
As novas tecnicas de inseminagao artificial possibilitam, no entanto, a ocorrencia material de filiagao biologica apos a morte do autor da sucessao, de modo que o homem ou a mulher que houver conservado material genetico, esperma ou ovulo podera possibilitar que terceiro, especialmente o conjuge ou companheiro, utilize do mesmo apos o seu falecimento.
2 5 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: direito de familia. v. 6. 9. ed. Sao Paulo: Atlas, 2009. p.
229.
2 6 CRUZ, Ivelise Fonseca da. Efeitos da reprodugao humana assistida. Sao Paulo. SRS.2008. p.
25.
2 7 ALBUQUERQUE FILHO, Carlos Cavalcanti. Fecundagao artificial post mortem e o direito
s u c e s s o r i o . Recife: ESMAPE, [2006?]. Disponivel em:
T a l fato, a p e s a r d e cada v e z m a i s c o m u m a t u a l m e n t e , no Brasil ainda nao existe legislagao especffica que o tutele, os unicos dispositivos existentes c o n s t a m na Resolugao n. 1.957/10 do C o n s e l h o Federal de Medicina ( C F M ) , e no Codigo Civil vigente no artigo 1.597, inciso III, aparato este m e r a m e n t e descritivo e etico. A notoria c o m p l e x i d a d e d e s t e assunto, e s e u e m i n e n t e d e s a m p a r o legal, v e m p r o v o c a n d o diversas d i s c u s s o e s no meio juridico. C o m o intuito de solucionar a p r o b l e m a t i c a , diversos d o u t r i n a d o r e s tern estudado o t e m a a f u n d o , e apresentado s e u s e n t e n d i m e n t o s . C o m o todo assunto polemico, naturalmente havera d i v e r g e n c i a s de e n t e n d i m e n t o , a s s i m , s e g u n d o o aponta A g u i a r2 8 "[...] no q u e se refere aos direitos d a f e c u n d a g a o post mortem a doutrina se divide e m tres correntes: e x c l u d e n t e , relativamente excludente e inclusiva". T a i s correntes serao o p o r t u n a m e n t e e s t u d a d a s e m capitulo proprio.
Q u a n d o c o m p a r a d o e m piano internacional, constata-se que o Brasil esta atrasado e m relagao a t a n t o s . E m muitos a fertilizagao artificial p o s t u m a de carater h o m o l o g a ja e tutelada por s u a s legislagoes ha m a i s de 10 anos.
O b s e r v a - s e inicialmente que as n o r m a s que r e g e m o processo sucessorio no o r d e n a m e n t o juridico brasileiro nao f o r a m e l a b o r a d a s v i s l u m b r a n d o a ocorrencia de u m a f e c u n d a g a o p o s t u m a . Por hora, f i q u e m o s c o m o e n t e n d i m e n t o de que a legislagao que objetiva tutelar o s reflexos sucessorios da fertilizagao artificial p o s t u m a e n c o n t r a - s e e m conflito interno, tanto de principios, textos legais, e ate m e s m o tratados internacionais. Existem projetos de leis visando tutelar o t e m a , p o r e m , e n f r e n t a m processo burocratico e nao ha previsao de q u a n d o entrarao e m vigor.
3 D O D I R E I T O S U C E S S O R I O
A s u c e s s a o causa mortis traz e m seu a m a g o inter-relagao especial c o m o direito d e familia, na v e r d a d e , o E s t a d o ao atribuir interesse publico ao processo sucessorio o fez c o m o f o r m a de garantir a d e f e s a da entidade familiar.
Nao e possivel o a f a s t a m e n t o d a q u e l e s d o s herdeiros tratados c o m o necessarios d o s beneficios d a s u c e s s a o causa mortis, n e m m e s m o por expressa determinagao feita e m vida pelo a u t o r d a heranga, ressalvada as hipoteses de exclusao e d e s e r d a g a o do individuo, tal regra trata-se, pois, de reflexo da tutela familiar no direito sucessorio.
A b e m pouco t e m p o o c a s a m e n t o funcionava c o m o conceito inerente a ideia d e familia, contudo os novos valores e a n s e i o s sociais relativizaram o rigor d e s s e preceito. O surgimento de nucleos t i p i c a m e n t e familiares s e p a r a d o s da nogao tradicional, c o m o as unioes entre p e s s o a s do m e s m o sexo, incitaram calorosas d i s c u s s o e s que c u l m i n a r a m n u m a verdadeira revolugao de bases no Direito de Familia.
A t u a l m e n t e , o nucleo familiar e interpretado sob o prisma da afetividade que nutre a uniao entre os s e u s c o m p o n e n t e s , os c a s a d o s , o u quern viva sob o manto da uniao estavel (inclusive os h o m o s s e x u a i s ) , portanto, estao a b a r c a d a s pelas garantias sucessorias.
C u m p r e , d e s d e logo, ressaltar a importancia da atuagao jurisprudencial nessas m u d a n g a s , a p o s a "reforma do judiciario" i m p l e m e n t a d a pela E m e n d a Constitucional n. 45 de 2 0 0 4 , que conferiu ao S u p r e m o Tribunal Federal a liberdade de c o m p l e m e n t a r a lei escrita, p a s s a n d o a condigao de verdadeira fonte do Direito, este tern e x e c u t a d o a tarefa de articular o direito positivo c o m o s novos reclames da justiga.
Foi atraves d a atuagao jurisprudencial que se e s t e n d e u os efeitos da uniao estavel a s relagoes h o m o a f e t i v a s , b e m c o m o a propria delimitagao do conceito de uniao estavel.
M e s m o c o m t o d a evolugao no c a m p o sucessorio e familiar, o Direito brasileiro ainda esta alheio as t e c n o l o g i a s relacionadas c o m a fecundagao h o m o l o g a
i g n o r a n d o os interesses s u c e s s o r i o s d o s seres h u m a n o s havidos destas tecnicas de reprodugao, c a u s a n d o verdadeira perplexidade n o s o p e r a d o r e s do direito.
A rigor, o Direito de Heranga e garantia f u n d a m e n t a l presente no artigo 5°, X X X d a Constituigao F e d e r a l2 9, e c o m o todo preceito constitucional d e v e ser interpretado pelo seu sentido material. L e v a n d o e m consideragao a inegavel relagao de familia existente entre o filho que a d v e m a p o s a m o r t e do seu genitor, e o de
cujus, surge a n e c e s s i d a d e d e se implementar, c o m urgencia, dispositivos que
s u p r a m a dita lacuna tecnica na lei civil.
Nesta o p o r t u n i d a d e , serao tecidos c o m e n t a r i o s sobre os p r o c e d i m e n t o s sucessorios a d o t a d o s atualmente na legislagao civil brasileira, s u a s vicissitudes e peculiaridades.
3.1 S U C E S S A O : C O N C E I T O , A B E R T U R A E T R A N S M I S S A O DA H E R A N Q A
O t e r m o s u c e s s a o , tornado e m aspecto mais a m p l o , e e m p r e g a d o para caracterizar o processo e m que u m a pessoa transfere a titularidade de d e t e r m i n a d a situagao juridica para outra, na v e r d a d e , "a ideia de sucessao se revela na p e r m a n e n c i a de u m a relagao de direito, q u e perdura e subsiste a d e s p e i t o d a m u d a n g a d o s respectivos titulares", c o n f o r m e ensina G o n g a l v e s3 0.
P o d e se afirmar, s e m m a i o r e s indagagoes, que se trata de u m f e n o m e n o corriqueiro na d i n a m i c a d a s relagoes civis, ocorre no a m b i t o obrigacional, q u a n d o na c o m p r a e v e n d a o c o m p r a d o r s u c e d e o vendedor, ou na seara real, pela tradigao da coisa, entre outras hipoteses no interim dos varios ramos do Direito Civil, c a s o s e m que se registra a s u c e s s a o na m o d a l i d a d e inter vivos.
C o n t u d o , s u c e s s a o vista sob o aspecto estrito, designa o c o m p l e x o de n o r m a s que atribuem a u m individuo, o u u m grupo d e t e r m i n a d o , a f a c u l d a d e de
BRASIL. Constituigao (1988). Constituigao Federal, de 05 de outubro de 1988. Vade mecum: academico de direito. 8. ed. Sao Paulo: Rideel, 2009.
recolher os b e n s d a heranga da pessoa natural a p o s a ocorrencia do evento m o r t e desta, c o m p r e e n d e n d o o s s e u s direitos e e n c a r g o s . A s s i m , a ligao B i a n c o3 1:
A ideia de sucessao sugere, genericamente, a de transmissao de bens, pois implica a existencia de um adquirente de valores, que substitui o antigo titular. Assim, em tese, a sucessao pode operar-se a titulo gratuito ou oneroso, inter vivos ou causa mortis. Todavia, quando se fala em direito das sucessoes entende-se apenas a transmissao em decorrencia de morte, excluindo-se, portanto, do alcance da expressao, a transmissao de bens por ato entre vivos.
T r a t a - s e da s u c e s s a o causa mortis, fato juridico que g o z a de trato e m capitulo proprio do Codigo Civil, que discrimina as e s p e c i e s de s u c e s s a o e s u c e s s o r e s , e a lei processual d e s c r e v e d e p r o c e d i m e n t o especial para o a p e r f e i g o a m e n t o desta modalidade de s u c e s s a o .
O interesse estatal pela s u c e s s a o causa mortis v e m de e p o c a s r e m o t a s , ha registros de n o r m a s sucessorias na Grecia Classica, t a m b e m na India na m e s m a e p o c a , regramento este f u n d a d o e m praticas religiosas e consuetudinarias. T o d a v i a , a disciplina so g a n h o u tragos nitidamente j u r i d i c o s a partir da Lei d a s XII T a b u a s , vigente e m R o m a , a o n d e caso o pater familias viesse a falecer s e m deixar t e s t a m e n t o sua s u c e s s a o se daria s e g u n d o p r o c e d i m e n t o d e t e r m i n a d o pelo Estado.
O direito sucessorio a m a d u r e c e u junto c o m a nogao d e patrimonio, que a t u a l m e n t e e visto c o m o u m a projegao e c o n o m i c a da personalidade do seu titular, e a p o s sua morte d e v e cumprir c o m a s obrigagoes a s s u m i d a s por ele, b e m c o m o seguir sua v o n t a d e , na m e d i d a e m que esta p o s s a ser interpretada. De a c o r d o c o m G o n g a l v e s3 2, a s u c e s s a o sob e s s e prisma e u m a f o r m a de dar continuidade a vida h u m a n a atraves d a s varias geragoes, c o n t u d o , e d e se ressaltar que a vida h u m a n a s e g u e i n d e p e n d e n t e m e n t e da s u c e s s a o civil, pois c o n f o r m e assevera M o n t e i r o3 3, esta e a p e n a s u m reflexo juridico patrimonial d e s s a continuidade.
A t r a n s m i s s a o do patrimonio d a pessoa natural para sua prole e uma c o n s e q i i e n c i a logica do direito d e propriedade, que tern entre s u a s caracteristicas
3 1 BIANCO, Tatiani. O s direitos s u c e s s o r i o s na uniao estavel. Disponivel em:
<http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?nJink=revista_artigos_leitura&artigo_id=2537>. Acesso em: 21 out. 2011.
3 2 GONCALVES, Carlos Roberto. Direito d a s s u c e s s o e s . 5. ed. Sao Paulo: Saraiva, 2011. p. 25. 3 3 MONTEIRO, Washington de Barros. C u r s o de direito civil: direito de familia. v. 2. 36. ed. atual.
e s s e n c i a i s o fato de nascer para p e r p e t u i d a d e , pois c o n f o r m e ensina o m e s m o d o u t r i n a d o r3 4, "projeta-se a l e m da morte do autor d a heranga, c o n j u g a d o ou nao c o m o direito d e familia", o n d e os v i n c u l o s de s a n g u e e a v o n t a d e do titular e quern d i r e c i o n a m o destino do d o m i n i o s o b r e s e u s bens. Kipp citado por G o n c a l v e s3 5 e n t e n d e ser necessaria a s u c e s s a o causa mortis n e s s e s moldes, pois, de m o d o diverso haveria d e s i n t e g r a c a o do conceito de propriedade, convertendo-o e m mero usufruto vitalicio.
O s jusnaturalistas f a z e m d u r a s criticas a esta f o r m a positivada no o r d e n a m e n t o de s u c e s s a o causa mortis, a t r i b u e m a ela a pecha do enriquecimento s e m c a u s a dos beneficiarios, j a q u e estes nao c o l a b o r a r a m c o m a construgao d a s riquezas acrescidas. Criticas c o r r o b o r a d a s pelos socialistas, que a c r e s c e n t a m que a p o s a m o r t e do titular s e u s bens d e v e r i a m ser revertidos e m prol do Estado e utilizados para o b e m de toda c o m u n i d a d e .
E m contrapartida a s filosofias supracitadas, ha a corrente a m p l a m e n t e majoritaria, que a d o r n a a m a i o r parte d o s o r d e n a m e n t o s juridicos do m u n d o , inclusive o brasileiro, o n d e a liberdade de opinar no destino que t o m a r a o o s bens pessoais a p o s a morte f u n c i o n a c o m o estimulo ao trabalho do ser h u m a n o , consiste no p o d e r de propiciar b e m - e s t a r para aqueles c o m quern o titular do patrimonio m a n t e v e , e m vida, lacos de s a n g u e e d e afetividade, nao p o d e n d o ser abolido.
A propria Constituigao Federal cuidou e m definir a natureza juridica de direito f u n d a m e n t a l ao direito de heranga (art. 5°, X X X ) , regramento c o m p l e m e n t a d o pelo C o d i g o Civil. O novo diploma civilista, q u e substituiu o Codigo de Bevilaqua, veio c o m u m a serie de modificagoes e m relagao ao Direito Sucessorio.
Na v e r d a d e , m u d a n g a s f o r a m n e c e s s a r i a s para articular a lei a o s novos c o s t u m e s e valores sociais, nao s e n d o mais crivel a adogao d a m e s m a visao estreita q u e e m p r e s t a v a o texto de 1916.
A guisa de ilustragao p o d e ser citado a inclusao do conjuge sobrevivente no rol d e s u c e s s o r e s necessarios, c o n c o r r e n d o , inclusive, c o m o s d e s c e n d e n t e s , o u a s c e n d e n t e s , o n d e , no d i p l o m a r e v o g a d o , o c u p a v a a condigao de herdeiro legitimo facultativo, no terceiro e s c a l a o da o r d e m sucessoria. T a m b e m houve a s u p r e s s a o de
34 Ibid. p. 7-8.
q u a l q u e r diferenga entre filhos, s e j a m eles legitimos o u adotivos, t e m a que sera r e t o m a d o e m m o m e n t o oportuno neste trabalho.
Q u a n t o a t r a n s m i s s a o d a h e r a n g a , o C o d i g o C i v i l3 6, e m seu art. 1.784, a d u z q u e os b e n s do de cujus sao t r a n s m i t i d o s a o s herdeiros logo a p o s a abertura da s u c e s s a o , abertura essa que se da i m e d i a t a m e n t e a p o s o t e r m i n o d a existencia da pessoa autora d a heranga, o u seja, q u e a c o n t e c e c o m sua morte. Tal regra e tida c o m o ficgao legal, evita que o patrimonio flutue s e m titular, c u m p r e d e s d e logo advertir q u e , a s u c e s s a o causa mortis so ocorre c o m a morte natural, nao se p o d e n d o falar e m heranga de pessoa viva.
C o n t u d o , q u a n d o a pessoa for declarada a u s e n t e , nos t e r m o s d o s artigos 26 e seguintes do C o d i g o Civil, ou por q u a l q u e r outro motivo tiver s e u obito presumido ( e m decorrencia de situagao e x t r e m a , q u e carregue fortes indicios que o obito tenha ocorrido), pode vir a ser aberta sua s u c e s s a o . Salvo e s s a s hipoteses, e n q u a n t o o autor estiver vivo, e v e t a d a a s u c e s s a o deste. O a u s e n t e e a pessoa que a b a n d o n a s e u domicilio s e m deixar a d m i n i s t r a d o r d o s bens, n e m registros sobre seu paradeiro, o legislador, a p e s a r de dar abertura para sucessao do a u s e n t e , o p t o u pela cautela, e conferiu a l g u m a protegao ao s e u patrimonio pelo p e r i o d o e m q u e nao se p o d e m conferir efeitos definitivos a presungao de obito.
Por ser interesse publico a c o n s e r v a g a o d o s b e n s do a u s e n t e , o magistrado d e v e d e t e r m i n a r m e d i d a s para efetiva-la, e m c o n f o r m i d a d e c o m o s artigos 22 a 28 do d i p l o m a civil e m c o m e n t o3 7, c o n t u d o , prolongando-se a a u s e n c i a a protegao se volta para o s herdeiros e e aberta a s u c e s s a o provisoria, p e r d u r a n d o a ausencia abre-se a s u c e s s a o definitiva.
Nao existe no o r d e n a m e n t o patrio o instituto da m o r t e civil, presente e m e p o c a preterita no Direito R o m a n o , a morte que gera efeito sucessorio e estritamente a natural (que n u m a definigao sincretica, e m t e r m o s medicos, e a c e s s a g a o d a s f u n g o e s vitais) o u a p r e s u m i d a .
C o m o esclarece G o n g a l v e s3 8, "e indispensavel, e m regra, para que se possa ser c o n s i d e r a d a aberta a s u c e s s a o d e u m a pessoa a prova d e sua morte real,
3 6 BRASIL. Codigo civil. Lei n° 10.406, de 10 de Janeiro de 2002. Vade mecum: academico de direito.
8. ed. Sao Paulo: Rideel, 2009.
37 Ibid.
m e d i a n t e a apresentagao do atestado d e obito", ou que se encerre os prazos legais e s t a b e l e c i d o s para a presungao de obito do autor d a heranga.
A p o s o evento morte d a p e s s o a natural, h a v e n d o herdeiros, a t r a n s m i s s a o se d a s e g u n d o a o r d e m de vocagao hereditaria prevista no art. 1.829 do Codigo C i v i l3 9, na falta de herdeiros, a universalidade do patrimonio do de cujus pertencera ao m u n i c i p i o , o Distrito Federal o u a Uniao, c o n f o r m e o local o n d e e s t e j a m localizados os bens, c o n f o r m e art. 1.844 do m e s m o c o d i g o4 0.
E m s u m a , a morte do autor d a heranga, a abertura da sucessao e a t r a n s m i s s a o d o s b e n s o c o r r e m c o n c o m i t a n t e m e n t e , por forga d a ficgao legal, na pratica, todavia, o beneficiario tern d e aceitar a sua fragao ideal do acervo hereditario (ou t o d o ele c o n f o r m e o c a s o ) , p o d e n d o t a m b e m repudia-lo.
A b e r t u r a d a s u c e s s a o e t r a n s m i s s a o a u t o m a t i c a d o s bens por forga da lei e d e t e r m i n a d o pelo principio d a saisine, f e n o m e n o tratado por parte d o s estudiosos c o m o simples delagao o u devolugao d a heranga, e atinge d e s d e logo o s beneficiarios, regra que vale de pleno direito para o s herdeiros. O s legatarios, por seu t u r n o , investem-se na p r o p h e d a d e dos b e n s infungiveis d e s d e a abertura da s u c e s s a o , c o n t u d o , sobre os f u n g i v e i s so tera o d o m f n i o findo o processo de partilha.
Tal deferimento imediato do patrimonio e m prol d o s herdeiros e feito c o m o u m todo unitario, m e s m o q u e muitos sejam o s beneficiarios, e regra-se, ate a definigao d a partilha, pelas regras do c o n d o m i n i o , c o n f o r m e o art. 1.791, paragrafo unico, do C o d i g o C i v i l4 1.
S e g u n d o as regras d a saisine a s u c e s s a o se processara c o n f o r m e a normatizagao legal vigente a e p o c a d a abertura d a s u c e s s a o , b e m c o m o o imposto
causa mortis e d e v i d o s e g u n d o a aliquota estabelecida a m e s m a data, de a c o r d o
c o m a S u m u l a n° 2 1 2 do Superior Tribunal F e d e r a l4 2, o q u e implica dizer que se a abertura o c o r r e u a n t e s d a Constituigao Federal de 1988, nao serao aproveitadas os novos r e g r a m e n t o s trazidos c o m sua p r o m u l g a g a o , por e x e m p l o , os filhos adotivos
3 9 BRASIL. Codigo civil. Lei n° 10.406, de 10 de Janeiro de 2002. Vade mecum: academico de direito.
8. ed. Sao Paulo: Rideel, 2009.
40 Ibid. 4 1
Ibid.
4 2 BRASIL. Sumula n° 212 do Superior Tribunal Federal. Vade mecum: academico de direito. 8. ed.
do de cujus q u e j a tinha filhos naturais, na esteia d a lei r e v o g a d a , nada receberao a titulo d e s u c e s s a o legitima.
Outro f u n d a m e n t o relevante q u e se extrai do principio d a saisine e que, o herdeiro que sobrevive d e p o i s d a m o r t e do de cujus, a i n d a que por u m instante, vindo logo d e p o i s a falecer, aproveita o s efeitos da t r a n s m i s s a o do acervo hereditario, e m e s m o s e m aceita-lo, p o d e r a t r a n s m i t i r a s e u s s u c e s s o r e s .
3.2 DA L E G I T I M A Q A O P A R A S U C E D E R : R E G R A G E R A L E E X C E Q O E S
A regra diz que basta estar vivo o u pelo m e n o s c o n c e b i d o (caso e m que surge expectativa de direito), e ter o parentesco c o m o de cujus, para q u e se diga que a p e s s o a tern c a p a c i d a d e para s u c e s s a o , j u i z o este feito ao t e m p o d a abertura d a s u c e s s a o . Portanto, nao se t r a n s m i t e a heranga para pessoa que nao existe, o u ja falecida, o u ficticiamente criada e i m a g i n a d a . A c a p a c i d a d e sucessoria e a aptidao para ser herdeiro, a condigao pessoal para se revestir d a q u a l i d a d e de herdeiro, o u seja, para receber a heranga, a condigao para ser titular do direito hereditario invocado, s e g u n d o assevera Leite, G .4 3.
Essa assertiva e j u s t a m e n t e o que da interesse cientifico a esta pesquisa, nao se pode transmitir heranga para u m ser nao c o n c e b i d o . A lei civil muito e m b o r a seja atual nao abarca as m o d e r n o s p r o c e d i m e n t o s m e d i c o s c a p a z e s de projetar u m filho a p o s a morte d o genitor, motivo pelo qual o s s e r e s h u m a n o s frutos de f e c u n d a g a o h o m o l o g a post mortem, nao e s t a o a m p a r a d o s pelas garantias sucessorias.
C o m o preleciona a m e s m a autora "A c a p a c i d a d e sucessoria e translativa, e verificada s e m p r e e m relagao a p e s s o a e ao falecido, o u seja, sera analisada a aptidao ao exercicio do direito sucessorio d a pessoa e m f a c e de d e t e r m i n a d a h e r a n g a "4 4.
4 3 LEITE, Gisele. Esclarecimentos sobre exclusao do direito s u c e s s o r i o por indignidade e
deserdacao. Disponivel em: < http://jusvi.com/artigos/41783>. Acesso em: 28 out. 2011.