Rio de Janeiro
Sesc / Serviço Social do Comércio Rio de Janeiro
2017
Serviço Social do Comércio Departamento Nacional
Gênero, Raça
e Etnia,
Diversidades
Sesc │Serviço Social do Comércio
Presidência do Conselho Nacional
Antonio Oliveira Santos DEPARTAMENTO NACIONAL
Direção-Geral
Carlos Artexes Simões
Diretoria de Saúde, Assistência e Lazer
Janaína Pochapski
Diretoria de Educação
Fernando José de Almeida
Diretoria de Administração e Finanças
Robson Costa PUBLICAÇÃO
Assessoria de Formação e Pesquisa
Cláudia Márcia Santos Barros
Coordenação de Estudos e Pesquisas
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Equipe Técnica
Rita Martorelli CONTEÚDO
Gerência de Saúde
Sebastiana R. Marinho Ribeiro
Equipe Técnica
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Gerência de Assistência
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Equipe Técnica
Veronica Tomsic
Consultoria
Jeane Felix (Departamento de Habilitações Pedagógicas/Centro de Educação/UFPB)
Silvani Arruda
Assessoria Técnica
Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) Ana Cláudia Pereira (Oficial de Projetos na Área de Gênero e Raça) Anna Lúcia Cunha (Oficial de Programa na Área da Juventude) Fernanda Lopes (Representante auxiliar) Jennifer Gonçalves (Assistente do Programa na Área de Saúde Reprodutiva e Direitos)
PRODUÇÃO EDITORIAL
Departamento de Comunicação
Pedro Hammerschmidt Capeto
Supervisão Editorial
Jane Muniz
Projeto Gráfico
Conceito Comunicação Integrada Ltda.
Copidesque
Clarisse Cintra
Revisão
Gustavo Barbosa
Arte-finalização e Produção Gráfica
Celso Mendonça
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação SESC. Departamento Nacional.
Gênero, raça e etnia, diversidades / Sesc, Departamento Nacional. – Rio de Janeiro : Sesc, Departamento Nacional, 2017.
32 p. ; 27 cm. – (Guia de promoção da saúde sexual e da saúde reprodutiva; v. 3)
Bibliografia: p. 31-32. ISBN 978-85-8254-058-9.
1. Saúde Sexual. 2. Saúde reprodutiva. 3. Educação sexual. 4. Sexualidade. 5. Promoção da saúde. I. Título. II. Série.
CDD 613.95 ©Sesc Departamento Nacional, 2017
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Apresentação
O Sesc, na área de Educação em Saúde, vem historicamente desenvolvendo projetos de prevenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST/HIV), planejamento reprodutivo, preparação para a maternidade, sexualidade e direitos reprodutivos e saúde da mulher, envolvendo rastreamento de câncer do colo do útero e de mama.
Este Guia de Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva resulta de um processo coletivo de reflexão teórica acerca da prática, realizado em conjunto pelo Departamento Nacional, Departamentos Regionais do Sesc e Fundo das Nações Unidas para Populações (UNFPA), contando com a experiência de especialistas no assunto.
Com este documento, pretende-se sistematizar conhecimentos e práticas construídos por esses diversos atores nas ações de Promoção da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (PSSSR), com o objetivo de fundamentar conceitual e metodologicamente os projetos e ações que trabalhem com esta temática.
Unificar ações e projetos voltados para a Promoção da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (PSSSR) é o desafio a ser realizado em cada Departamento Regional por meio de um planejamento único, com base na sua realidade e em necessidades encontradas (diagnóstico), onde se explicite quais temáticas serão trabalhadas, de que maneira e em quais períodos.
Portanto, este Guia desenvolve um arcabouço teórico com conceitos, além de sugestões de ações educativas, dicas de materiais aos quais o corpo técnico pode recorrer para o planejamento e reali-zação das ações e o aprofundamento das reflexões.
Inicialmente tratamos, no Fascículo 1, da Educação em Saúde, seus princípios orientadores, que vão nortear todas as ações de PSSSR, assim como apresentamos um histórico da construção do Sesc nesta área. Em seguida destacamos os marcos referenciais da saúde, como a Promoção da Saúde, a VIII Conferência Nacional de Saúde e a atuação na atenção básica.
No Fascículo 2, trabalhamos os pressupostos conceituais e metodológicos: direitos, saúde sexual e saúde reprodutiva nos diferentes ciclos de vida, com seus avanços e desafios, maternidade e paternidade, adoção e outros desafios de saúde pública a serem enfrentados, como o aborto, o número crescente de cesáreas e a violência obstétrica. Destacamos neste capítulo a atuação do Sesc no planejamento reprodutivo e na saúde da mulher.
O Fascículo 3 traz reflexões sobre as relações de gênero, assim como discute a diversidade sexual, os direitos relacionados a essa diversidade e a promoção da SSSR na população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Aborda também questões de raça e etnia. Após esta discussão, entramos no Fascículo 4, que trata da prevenção das IST/HIV em locais como escolas, empresas e comunidades, trazendo um histórico da Aids no Brasil e apresentando o Projeto Transando Saúde, que capacita desde 2003 agentes multiplicadores de saúde em empresas do comércio e escolas.
O Fascículo 5 discute violências de gênero, sexual e contra a população LGBT, trazendo os mar-cos legais para este enfrentamento.
Concluindo, detalhamos no Fascículo 6 como construir os projetos na área da Promoção à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Projetos estes com diversas temáticas já trabalhadas pelos Departamentos Regionais – também apresentadas neste Guia – compondo um grande plano de ação. Neste capítulo discorremos sobre o processo de planejamento que pressupõe a realização de ações integradas e participativas, a partir da premissa da ação educativa, dos eixos da programação (ciclos de vida e cenários), da elaboração do diagnóstico situacional e de contexto, e dos fatores
determinantes em SSSR. Tratamos ainda da construção do Plano de Ação e dos Relatórios, essen-ciais para a avaliação e o acompanhamento dos Projetos.
Ressaltamos que este Guia reflete a atuação da Atividade Educação em Saúde nos Departamentos Regionais do Sesc ao longo da história construída por meio de ações e projetos voltados para a PSSSR. Expressa experiências, avanços, desafios e dificuldades na implementação de projetos de-senvolvidos na história do Sesc, como Nossa Escolha, Transando Saúde, Álbum de Família e Sesc Saúde Mulher e outras ações de prevenção e promoção voltadas para esta área. Traz ainda novos projetos aumentando as linhas de atuação das ações de PSSSR.
Como modo de tornar mais pedagógico e dinâmico o trabalho dos Departamentos Regionais, busca-mos, sobretudo, trazer sugestões de práticas, respaldadas nos marcos legais – nacionais e internacionais –, nos princípios orientadores do Sesc e nos temas trabalhados, apresentando um leque de possibilida-des para se abordar cada uma das dimensões da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Acreditamos que a troca de experiências permitirá o despertar de novos conhecimentos a partir de uma relação dialógica, problematizando situações do cotidiano que possibilitarão a construção de uma maior compreensão das experiências vividas e uma concepção mais crítica da realidade (FREIRE, 1987).
Trabalhamos na perspectiva de uma educação problematizadora, desenvolvida com base na cons-trução coletiva e no diálogo entre os diferentes atores. Acreditamos que os processos de ensino--aprendizagem são coletivos, ou seja, é possível aprendermos uns com os outros, em quaisquer situações. Seremos, pois, sujeitos de um mesmo processo de aprendizagem em que todos/as aprendem juntos/as, crescem juntos/as e compõem uma rede de aprendizagens e de solidariedade, que pode ser muito potente.
Desejamos continuar construindo a história da PSSSR no Sesc conjuntamente com os Departamentos Regionais e as instituições parceiras. Que este Guia se torne realmente um do-cumento vivo, inspirador de reflexões e ações, no compromisso desta instituição de promover a saúde, a autonomia e a qualidade de vida da população brasileira.
Fascículo 3
Gênero, Raça e Etnia, Diversidades
3.1 Gênero e Racismo ...8
3.1.1 Discriminação no ambiente de trabalho ...10
3.2 O Que é Isso Chamado Gênero? ...12
3.3 Gêneros e Diversidades ...16
Não se nasce mulher, torna-se mulher
(BEAUVOIR, 2009).
A humanidade é composta por pessoas diferentes. E essa diversidade faz parte da vida de cada um/a de nós. As pessoas têm características físicas diferentes, pertencem a arranjos familiares dis-tintos, têm histórias de vida próprias e singulares. Há diferenças que dizem respeito à cor da pele, à raça/etnia, ao fato de ser homem ou ser mulher, a ser jovem ou mais velho/a, entre tantas outras. As diferenças nos enriquecem e dão um colorido especial à vida, o problema é quando elas são transformadas em desigualdades.
Transformar as diferenças em desigualdades é o que faz com que grupos de diferentes caracterís-ticas sejam vistos como mais ou menos importantes e, por conta disso, sejam tratados de forma hierarquicamente diferente. Segundo Charão ([20--?]),
[...] construir pontes que aproximem as realidades de brancos e negros no Brasil é um desafio monumental de engenharia social e econômica. Nas últimas duas décadas, políticas públicas de natureza diversa, adotadas em diferentes níveis de governo, têm sido capazes de impulsionar a construção das bases da igualdade.
A melhoria nas condições de vida, bem como no acesso a serviços e direitos da população negra, tem sido demonstrada em vários estudos, mas ainda há um longo caminho a percorrer na direção de garantir o exercício de direitos iguais, independente de gênero, raça/etnia, idade, local de mora-dia ou quaisquer outras características e/ou diferenças individuais e coletivas.
Em outros termos, mesmo que a Constituição Federal afirme que todas as pessoas são iguais, o que podemos perceber é que vivemos em uma sociedade em que pessoas são excluídas e/ou dis-criminadas a partir de atributos supostamente “naturais” (como cor, sexo, gênero, idade ou per-tencimento étnico) ou por terem uma determinada profissão, religião, por serem vistos pela socie-dade como indesejáveis ou de menor valor. É fundamental que a Educação em Saúde considere esses aspectos nas ações de promoção da saúde sexual e da saúde reprodutiva desenvolvida nos Departamentos Regionais.
3.1
Gênero e Racismo
1O racismo é uma ideologia que se realiza nas relações entre pessoas e grupos, no desenho e de-senvolvimento das políticas públicas, nas estruturas de governo e nas formas de organização dos Estados. Ou seja, trata-se de um fenômeno de abrangência ampla e complexa que penetra e par-ticipa da cultura, da política e da ética. Por sua amplitude, o racismo precisa ser também reconhe-cido como um sistema, uma vez que se organiza e se desenvolve por meio de estruturas, políticas, práticas e normas capazes de definir oportunidades e valores para pessoas e populações a partir de sua aparência atuando em diferentes níveis: pessoal, interpessoal e institucional.
O racismo também é uma maneira de usar as diferenças entre as raças como um modo de domi-nação. Não é, portanto, apenas uma reação ao outro, mas uma maneira de subordinar o outro. Fundamentalmente, se caracteriza por ser um tipo de conhecimento que se mantém por repeti-ção, ignorância e preconceito, supostamente sustentado por aspectos biológicos e a “natureza” da raça ou etnia.
Em termos gerais, é possível afirmar que os sujeitos femininos (incluindo aqui, além das mulhe-res, travestis e transexuais) dos diferentes grupos raciais estão em desvantagem em muitos aspec-tos em relação aos homens de seu grupo racial. Há, também, uma série de desigualdades entre os diferentes grupos de mulheres, como entre as mulheres brancas e as mulheres negras, por exem-plo, em termos de ocupação profissional, acesso à educação, salários etc. Nessa complexidade, cada mulher ou grupo de mulheres vivenciará de modo específico os efeitos do racismo patriarcal heteronormativo. Por outro lado, no Brasil, mulheres do grupo racial dominante usufruem de indicadores que, com frequência, são melhores do que os observados para os homens heterosse-xuais dos grupos raciais inferiorizados.
No que diz respeito à saúde, o racismo afeta a garantia de acesso aos serviços públicos, parti-cularmente, por ser um fator estruturante na desumanização da atenção prestada a este contin-gente populacional. O Ministério da Saúde reconhece que o racismo e as desigualdades raciais têm impactos diretos na saúde da população negra e, no intuito de superar essas dificuldades, lançou, em 2009, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra que tem por objetivo central “promover a saúde integral da população negra, priorizando a redução das desigualdades étnico-raciais, o combate ao racismo e à discriminação nas instituições e serviços do SUS” (Brasil, 2013a, p. 19). Essa política é um importante instrumento de reconhecimento das desigualdades raciais e de seus efeitos nas condições de saúde da população negra.
A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra traz as seguintes diretrizes (BRASIL, 2013a, p. 26):
Inclusão dos temas Racismo e Saúde da População Negra nos processos de formação e educa-ção permanente dos trabalhadores da saúde e no exercício do controle social na saúde.
Ampliação e fortalecimento da participação do Movimento Social Negro nas instâncias de controle social das políticas de saúde, em consonância com os princípios da gestão participativa do SUS, adotados no Pacto pela Saúde.
Incentivo à produção do conhecimento científico e tecnológico em saúde da população negra.
Promoção do reconhecimento dos saberes e práticas populares de saúde, incluindo aqueles preservados pelas religiões de matrizes africanas.
Implementação do processo de monitoramento e avaliação das ações pertinentes ao combate ao racismo e à redução das desigualdades étnico-raciais no campo da saúde nas distintas esferas de governo.
Desenvolvimento de processos de informação, comunicação e educação, que desconstruam estigmas e preconceitos, fortaleçam uma identidade negra positiva e contribuam para a redução das vulnerabilidades.Para refletir
O Ministério da Saúde publicou o Manual de doenças mais importantes, por razões étnicas, na população brasileira afro-descendente, trazendo informações sobre as enfermidades que mais afetam a população negra.
Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/doencas_etnicas.pdf.
Trabalhando a temática
Informe que o nome da atividade é Coisas e Pessoas. Escolha, aleatoriamente, um grupo para ser as “coisas” e o outro as “pessoas”. Leia as regras para cada grupo:
Coisas: As coisas não podem pensar, não sentem, não podem tomar decisões, não têm sexualidade, têm que fazer aquilo
que as pessoas lhes ordenem. Se uma coisa quer se mover ou fazer algo, tem que pedir permissão à pessoa.
Pessoas: As pessoas pensam, podem tomar decisões, têm sexualidade, sentem e, além disso, podem pegar as coisas
que queiram.
Peça para o grupo das “pessoas” pegar “coisas” e fazer com elas o que quiser. Poderão ordenar que façam quaisquer atividades. Dê ao grupo de 3 a 5 minutos para que “as coisas” desempenhem os papéis designados pelas pessoas, dentro do espaço da sala ou do pátio. Solicite aos grupos que regressem aos seus lugares e apresentem os conceitos de precon-ceito, discriminação e racismo:
Preconceito – refere-se a predisposições negativas a respeito de uma pessoa ou um grupo de pessoas com base em
características físicas ou culturais.
Discriminação – conduta (ação ou omissão) que viola direitos das pessoas com base em critérios injustificados e injustos,
tais como a raça, o sexo, a idade, a opção religiosa e outros.
Abra para a discussão utilizando a seguinte questão:
Que estratégias podemos utilizar para promover uma cultura de valorização da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas e nos ambientes de trabalho?
Encerre explicando que um dos exemplos mais nítidos de discriminação e coisificação pode ser encontrado, por exem-plo, na escassa ocupação de mulheres negras e homens negros em altos postos da gestão pública e privada, na pouca produção de bonecas e bonecos negras e negros, nos comentários “cabelo bom” (para se referir aos cabelos lisos) e “cabelo ruim” para se referir aos cabelos crespos.
Para saber mais
A página eletrônica do Geledés Instituto da Mulher Negra (http://www.geledes.org.br) é um importante espaço para aprender mais sobre racismo e os direitos humanos das pessoas negras.
A ONG Criola (http://criola.or.br) foi parceira em ação anterior envolvendo promoção da saúde sexual e reprodutiva.
3.1.1
Discriminação no ambiente de trabalho
O termo discriminar significa: separar; diferenciar; estabelecer diferença; distinguir; não se misturar; formar grupo à parte por alguma característica étnica, cultural, religiosa etc.; tratamento desigual ou injusto de uma pessoa ou grupo de indivíduos, em face de alguma característica pessoal, cultural, racial, étnica, classe social ou convicções religiosas. O ato ou ação de discriminar é um fenômeno eminentemente social, que desvaloriza e provoca a desigualdade entre pessoas ou grupos sociais. Ao checarmos os números da desigualdade no Brasil, é possível perceber que “sexo” e “raça” são as duas variáveis que mais influenciam sobremaneira a posição social de uma pessoa na sociedade em que vivemos. Tanto o tempo de escolaridade quanto o tipo de emprego que conseguem e até o salário que alcançam em um mesmo tipo de emprego variam significativamente segundo essas duas variáveis. Tais características funcionam como mecanismos de exclusão e estratificação social, indo contra uma sociedade que prega princípios igualitários.
De acordo com publicação eletrônica mensal do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser),2 a desigualdade entre os rendimentos dos homens
brancos e das mulheres pretas e pardas em outubro de 2014 era igual a 133,3%. Na mesma data, as mulheres brancas tiveram rendimentos 28,4% mais elevados do que os homens pretos e pardos.
Como resultado dos diversos esforços governamentais para se promoverem ações afirmativas,3
entre setembro de 2014 e outubro de 2014 o rendimento médio da População Economicamente Ativa (PEA) branca masculina se elevou em 1,9%, enquanto o mesmo indicador dos homens pre-tos e pardos aumentou 3,1%. Na comparação com outubro de 2013, os homens brancos experi-mentaram aumento do rendimento da ordem de 2,2%. O mesmo indicador dos homens pretos e pardos variou positivamente em 4,2%. Dentre o grupo feminino da PEA, em outubro de 2014, observou-se elevação de 1,8% no rendimento das brancas, e de 2,8% para as pretas e pardas, com-parativamente a setembro de 2014. Entre outubro de 2013 e outubro de 2014, o rendimento se elevou em 5,8%, para as trabalhadoras brancas, e em 3,7% para as trabalhadoras pretas e pardas. Segundo dados da publicação Políticas sociais – acompanhamento e análise, produzida pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a renda mensal das pessoas negras foi em média 41,6% inferior àquela paga as pessoas brancas em 2012 (POLÍTICAS SOCIAIS, 2014). A mesma publicação indica que o rendimento masculino é o dobro do feminino, que os homens brancos são os mais bem pagos e, contrariamente, as mulheres negras ganham menos. Nessa direção, é possível afirmar que há “uma hierarquia existente no mercado de trabalho, na qual os homens brancos estão no topo e as mulheres negras, na base” (POLÍTICAS SOCIAIS, 2014). Esse fenô-meno, todavia, é bastante complexo.
As evidências demonstradas por este e outros estudos estatísticos mostram que a mulher ganha menos por seu trabalho do que o homem; o trabalhador negro ganha menos que o branco; a tra-balhadora negra ganha menos que a tratra-balhadora branca; a mulher ocupa as posições de trabalho menos vantajosas e tem menos oportunidades de progredir na carreira; a mulher negra predomina no trabalho doméstico e os estudantes negros e os pobres estão subrepresentados nas universida-des (COUTINHO, 2001, p. 24). Esses dados chamam atenção para a necessidade de trabalhar-mos, nas ações desenvolvidas na Atividade de Educação com questões de raça e etnia, visando contribuir para a redução de estigmas e preconceitos raciais e étnicos.
O racismo institucional, também denominado racismo sistêmico, funciona como um mecanismo estrutural que garante a exclusão seletiva dos grupos racialmente subordinados – negros/as, indí-genas, ciganos/as, quilombolas, dentre outros, atuando como alavanca para a exclusão diferenciada de diferentes sujeitos e grupos. Opera de modo a induzir, manter e condicionar a organização e a ação do Estado, suas instituições e políticas públicas – atuando também nas instituições privadas, produzindo e reproduzindo a hierarquia racial (GELEDÉS, [20--?]). Deixa, ainda, pessoas e gru-pos mais vulneráveis a situações de adoecimento e violência.
3. Ações afirmativas “são políticas focais que alocam recursos em benefício de pessoas pertencentes a grupos discriminados e vi-timados pela exclusão socioeconômica no passado ou no presente. Trata-se de medidas que têm como objetivo combater discrimi-nações étnicas, raciais, religiosas, de gênero ou de casta, aumentando a participação de minorias no processo político, no acesso à educação, saúde, emprego, bens materiais, redes de proteção social e/ou no reconhecimento cultural”. Cf. GRUPO DE ESTUDOS MULTIDISCIPLINARES DA AÇÃO AFIRMATIVA, 2011.
Para refletir
O artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil (1988), parágrafo XLII, define que a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei.
Em 1995, ano de comemoração do Tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares, a mobilização e a participação dos movimentos negros foram importantes para as mudanças que ocorreram em termos de inserção da questão racial na pauta da agenda nacional.
Em 2001, a realização da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e formas correlatas de Intolerância foi um importante evento, e nele o Brasil teve uma participação de destaque. A posição oficial do Brasil nesta conferência selou o compromisso do governo brasileiro em relação às políticas de Ação Afirmativa nos campos do mercado de trabalho, da saúde, das populações tradicionais (como os remanescentes de quilombos) e, finalmente, da educação. Foi neste contexto que houve o reconhecimento das comunidades remanescentes de quilombos e do seu direito a terra. A Lei nº 10.639 de 2003 instituiu o ensino obrigatório de história e cultura afro-brasileiras nas escolas, valorizando a luta da população negra e garantindo sua contribuição nas áreas social, econômica e política na história do Brasil (BRASIL, 2011a; PEREIRA et al., 2009).
3.2
O que é isso chamado gênero?
Durante muito tempo se acreditou que as características pessoais teriam uma relação direta com a biologia. Tendia-se a pensar que homens e mulheres, por serem dotados de um corpo sexuado, identificável por meio dos órgãos genitais externos, teriam desejos e comportamentos delimitados por suas características biológicas. Os homens, definidos pelo pênis como marcador da mascu-linidade, seriam mais fortes e teriam mais necessidade de relação sexual do que uma mulher. Já as mulheres, grupo caracterizado por apresentar uma vagina, seriam, naturalmente, cuidadoras – das/os filhas/os, do marido, dos parentes – e propensas à submissão ao desejo do companheiro. A partir dos estudos sobre gênero, percebeu-se que muito do que se tinha como característica bio-lógica e imutável era, na verdade, uma construção social que teria uma relação muito maior com as expectativas que a sociedade e a cultura têm sobre um sexo ou outro e, também, em relação ao que seria um sexo “normal”, entendido como aquele que é OU masculino (pênis) OU femi-nino (vagina), invisibilizando ou classificando outras formações morfológicas intersexuais como “anomalias” a serem corrigidas com intervenções médicas. Assim, a família, a escola, a igreja, os meios de comunicação, os ambientes de trabalho reforçam, muitas vezes, o modo como homens e mulheres devem agir e se expressar.
A vivência da sexualidade é parte da construção de cada ser humano e não se limita às caracte-rísticas físicas de macho e fêmea ou ao ato sexual. Ela é uma forma de expressão, comunicação e afeto que se manifesta a todo o momento, seja por meio de um gesto, de um olhar ou de uma ação. Embora a sexualidade seja vivida de modo singular por cada pessoa ao longo de toda a sua vida (de acordo com seus desejos, sua história, suas emoções e relações com as outras pessoas),
essa experiência está sempre contextualizada em um sistema de normas morais, éticas ou legais legitimadas pela sociedade em determinado tempo ou lugar. Segundo Louro (2008):
[...] aprendemos a viver o gênero e a sexualidade na cultura, através dos discursos repetidos da mídia, da igreja, da ciência e das leis e também, contemporaneamente, através dos discursos dos movimentos sociais e dos múltiplos dispositivos tecnológicos. As muitas formas de expe-rimentar prazeres e desejos, de dar e de receber afeto, de amar e de ser amada/o são ensaiadas e ensinadas na cultura, são diferentes de uma cultura para outra, de uma época ou de uma geração para outra. E hoje, mais do que nunca, essas formas são múltiplas. As possibilidades de viver os gêneros e as sexualidades ampliaram-se. As certezas acabaram. Tudo isso pode ser fascinante, rico e também desestabilizador. Mas não há como escapar a esse desafio. O único modo de lidar com a contemporaneidade é, precisamente, não se recusar a vivê-la.
Vale enfatizar, no entanto, que falar sobre gênero é bem mais do que atribuir diferentes funções com base no sexo biológico. Trata-se de uma questão de poder na medida em que a relação entre o masculino e o feminino é desigual e assimétrica. Muitas vezes, homens e mulheres têm seus dese-jos, prazeres e suas habilidades tolhidas por pertencerem a um sexo ou a outro. E, para desenvolver ações voltadas para a igualdade entre os gêneros, não podemos perder de vista que:
Gênero pode ter sentidos distintos nos diferentes contextos sociais.
Gênero tem um caráter relacional, ou seja, só é possível pensar e/ou conceber o feminino e o masculino na relação entre um e o outro.
Gênero diz respeito aos aprendizados e expectativas sobre o que é ser homem e ser mulher em uma determinada sociedade. Refere-se, ainda, às dimensões da história, da cultura, da polí-tica e da economia.Embora o termo gênero diga respeito tanto às mulheres quanto aos homens, a maior parte dos estudos de gênero foi tradicionalmente composta por análises sobre mulheres. Boa parte desses estudos enfocava assimetrias de poder entre homens e mulheres, denunciando práticas e dinâmi-cas de subordinação feminina. Somente após vários anos de estudos feministas é que se realizaram no Brasil as primeiras pesquisas sobre homens e masculinidades.4
E não podia ser diferente. Afinal, o conceito de gênero diz respeito tanto à construção social do feminino quanto do masculino. Um bom exemplo é como se dá a socialização masculina. Desde pequenos os meninos aprendem que não devem levar “desaforo” para casa, que devem ser fortes e que é “proibido” chorar. Quando chegam à adolescência, muitos deles aprendem que é necessário provar sua virilidade o tempo todo, sendo competitivos e assumindo riscos. Não é à toa que o
4. Sobre homens e masculinidades ver, por exemplo, publicações do Instituto Papai, disponíveis em: http://institutopapai.blogspot. com.br/.
número de homicídios e mortes por acidentes de trânsito é maior entre as pessoas do sexo mascu-lino do que feminino, principalmente entre adolescentes e jovens.5
As meninas, por sua vez, aprendem que ser mulher é ser “doce, meiga e cuidadora”’. Geralmente, no dia de seu aniversário recebem presentes como bonecas, bichinhos de pelúcia, kits de maquia-gem ou roupas cor de rosa. Ou seja, aprendem que seu espaço de atuação é, prioritariamente, o doméstico, e que sempre precisam “estar bonitas para agradar os outros, sobretudo os homens”. Também não é por acaso que o maior número de casos de violência doméstica atinja a população feminina. Vistas como submissas aos homens em várias culturas, são as mulheres que vivenciam um maior número de situações de violência neste ambiente.6 Os brinquedos, inclusive,
represen-tam uma potente estratégia das pedagogias do gênero e da sexualidade que nos ensinam, desde cedo, que no mundo há coisas de homens e coisas de mulheres. Um exemplo disso que estamos indicando é facilmente observável em qualquer loja de brinquedos em que os fogõezinhos, pa-nelas, vassouras e outros utensílios domésticos são disponíveis em cor de rosa na parte da loja destinada às meninas, assim como os carrinhos, robôs, maletas com equipamentos médicos e de engenharia são disponíveis na parte da loja destinada aos meninos.
Por outro lado, a realidade está aí para mostrar o inverso: há mulheres que desempenham dife-rentes tarefas que antes eram atribuídas aos homens e existem homens que preferem ficar mais tempo em casa com os/as filhos/as do que ser o único responsável por prover financeiramente as necessidades da família. O mundo mudou. Precisamos incorporar essas mudanças nas nossas atividades de educação em saúde sexual e em saúde reprodutiva.
A construção social de gênero (feminino e masculino) é um dos princípios fundamentais para a com-preensão das relações que estabelecemos em nossa vida cotidiana. Segundo Meyer (2003), gênero é um marcador que estrutura e organiza a sociedade. A autora destaca que é a partir da perspectiva de gênero que a sociedade indica que determinados comportamentos e modos de ser e estar no mundo são de homens ou de mulheres, em uma organização generificada dos sujeitos. Parte, também, da premissa de que muito do que se acredita sobre o “jeito de ser homem” e o “jeito de ser mulher” tem origem nas expectativas e aprendizados socioculturalmente construídos. É preciso ressaltar a importância de se investir nas escolas e em empresas para mudar esse foco na desigualdade. Ao aceitarmos que a constru-ção de gênero é histórica e se faz incessantemente, estamos entendendo que as relações entre homens e mulheres, os discursos e as representações dessas relações podem ser mais justas e compartilhadas.
5. De acordo com dados do Instituto Sangari, tanto nos óbitos por acidentes de transporte como no caso dos homicídios, observa-se uma forte prevalência de mortes masculinas. Provavelmente, devido à maior presença no trânsito de motoristas e/ou ocupantes de veículos do sexo masculino – 81,6% dos óbitos por acidentes de transporte na população total são homens. Entre os jovens, essa proporção é pouco maior – 83% (WAISELFISZ, 2011).
6. De acordo com o Instituto Sangari, entre 1998 e 2008, foram assassinadas no país 42 mil mulheres no Brasil. Entre os homens, 17% dos incidentes que resultaram em mortes aconteceram na residência ou habitação. Já entre as mulheres, essa proporção se eleva para perto de 40% (WAISELFISZ, 2011).
Mesmo percebendo que as relações estão mudando, em termos da igualdade e equidade de gêne-ro, ainda temos muito que avançar. Como indica Louro (2008),
a inscrição dos gêneros – feminino e masculino – nos corpos é feita, sempre, no contexto de uma determinada cultura e, portanto, com as marcas dessa cultura. As possibilidades da se-xualidade – das formas de expressar os desejos e prazeres – também são sempre socialmente estabelecidas e codificadas.
Trabalhando a temática
Solicite que se formem grupos de quatro ou cinco pessoas. Distribua jornais e revistas para cada um dos subgrupos. Peça que, inicialmente, folheiem o material recebido e que marquem o número de vezes que estas pessoas aparecem utilizando o quadro, ao final da descrição da ação educativa.
Informe que terão 40 minutos para analisarem as publicações recebidas e que, depois, cada grupo irá apresentar seus números e a análise que fizeram a partir dos dados levantados. Depois das apresentações, aprofunde a discussão por meio das questões a serem respondidas.
Encerre afirmando que, embora no Brasil a Constituição diga que todas as pessoas são iguais e têm os mesmos direitos, independentemente do sexo, da idade e da raça ou etnia, na prática não é bem isso que acontece. Encerre explicando que a mídia impressa, audiovisual e digital tem um efeito importante na divulgação de informações, valores e comporta-mentos atribuídos a homens e mulheres, a brancos, negros, asiáticos, indígenas.
Quadro 2: Folha de apoio – Gênero e racismo
População Nº de vezes que
aparecem na publicação
Como são retratados/as
Homens adultos brancos Mulheres adultas brancas Homens adultos negros Mulheres adultas negras Adolescentes e jovens do sexo masculino brancos Adolescentes e jovens do sexo feminino brancas Adolescentes e jovens do sexo masculino negros Adolescentes e jovens do sexo feminino negras Mulheres brancas com mais de 60 anos
Homens brancos com mais de 60 anos
Mulheres negras com mais de 60 anos
Homens negros com mais de 60 anos
3.3
Gêneros e Diversidades
Aprendemos comumente que há uma tríade natural composta por sexo-gênero-sexualidade. Nessa direção, nasceríamos mulher-feminina-heterossexual ou homem-masculino-heterossexual. Nessa sequência naturalizada, dicotômica e bipolar, deixamos de fora as múltiplas formas de ser homem e mulher, de expressar feminilidades e masculinidades e de vivenciar a sexualidade. Conforme explicado anteriormente, gênero e sexualidade são construções socioculturais. Cada pessoa, em um determinado contexto histórico e tempo, poderá expressar sua feminilidade, sua masculinidade e sua sexualidade de diversas formas. É o que chamamos de diversidades.
Para começo de conversa, temos que resistir à tendência de reproduzirmos automaticamente os modelos educativos que marcaram a nossa formação. Salvo raras exceções, as experiências de educação em saúde sexual e saúde reprodutiva vividas pela maioria dos/as profissionais de hoje tinham como objetivo central modelar e disciplinar a vivência da sexualidade. Mesmo que, em muitos casos, esta não seja a intenção dos/as profissionais, hoje, sabemos que esse pretenso disci-plinamento, com base em um modelo único a ser seguido, cumpre a função social de reproduzir e alimentar, na escola, na empresa ou na unidade de saúde, os preconceitos, a discriminação e a exclusão das pessoas consideradas “diferentes”.
Vale reforçar que várias influências e fatores determinam a maneira como se expressa o desejo hu-mano, sempre múltiplo e assumindo diferentes formas. Em cada um/a de nós está a plasticidade e estranheza desses desejos. A alguns tipos, permitimos que se expressem livremente. “De outros, sentimos vergonha, medo, repulsa, culpa, confusão. E mais ainda, o modo como lidamos com os nossos desejos está relacionado com o contexto cultural em que vivemos, que valoriza algumas práticas e maneiras de viver a sexualidade e rechaça outras” (ARAUJO; CALAZANS, 2007). Partindo daí, não faz sentido classificarmos de imorais ou desviantes certas maneiras de viver a sexualidade e de tentar definir o que é normal. Se vamos falar sobre esse tema, precisamos ampliar o olhar entendendo a diversidade humana como um direito, respeitando as diferentes vivências da sexualidade.
Sabemos que a tarefa não é simples, pois a sexualidade é um tema amplo e polêmico. Embora todas as sociedades tenham crenças, valores, costumes e tabus que moldam a vivência da sexuali-dade, os desejos humanos existem e se manifestam de diferentes formas.
Uma revisão crítica sobre as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero precisa fazer parte do conteúdo das ações educativas no Sesc, reconhecendo-se que, entre os seres humanos, a diversidade é a norma e não a exceção. Precisamos aprender, também, que apesar de a diver-sidade ser uma característica típica da condição humana, as diferenças podem ser utilizadas pela sociedade para justificar relações de poder de umas pessoas sobre as outras. Como poderemos lidar com isso?
Para saber mais
Viagem solitária – memórias de um transexual 30 anos depois, de João W. Nery
O livro autobiográfico conta a história de João, que, no final da década de 1970, fez uma cirurgia de mudança de sexo. Foi o primeiro homem transexual ou transformem operado no Brasil. João conta sua infância reprimida, a adolescência solitária, as dificuldades amorosas, a possibilidade do exercício profissional como psicólogo, as dificuldades jurídicas quanto ao seu novo nome, os quatro casamentos e a paternidade.
3.4
A Promoção da SSSR na Diversidade – População LGBT
A Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais conta, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), com respaldo político e institucional explicitado no Pacto pela Saúde 2006, em suas três dimensões: o pacto pela vida, o pacto em defesa do SUS e o pacto de gestão do Sistema Único de Saúde, que integram o programa Mais Saúde: Direito de Todos, lançado em 2008, e que se constitui em uma reorientação das políticas de saúde, com vistas à ampliação do acesso a ações e serviços de qualidade (BRASIL, 2013b).
Diretrizes da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (BRASIL, 2013b):
I - respeito aos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, contri-buindo para a eliminação do estigma e da discriminação decorrentes das homofobias, como a lesbofobia, gayfobia, bifobia, travestifobia e transfobia, consideradas na determinação social de sofrimento e de doença.
II - contribuição para a promoção da cidadania e da inclusão da população LGBT por meio da articulação com as diversas políticas sociais, de educação, trabalho e segurança.
III - inclusão da diversidade populacional nos processos de formulação, implementação de outras políticas e programas voltados para grupos específicos no SUS, envolvendo orientação sexual, identidade de gênero, ciclos de vida, raça-etnia e território.
IV - eliminação das homofobias e demais formas de discriminação que geram a violência contra a população LGBT no âmbito do SUS, contribuindo para as mudanças na sociedade em geral. V - implementação de ações, serviços e procedimentos no SUS, com vistas ao alívio do sofri-mento, dor e adoecimento relacionados aos aspectos de inadequação de identidade, corporal e psíquica, relativos às pessoas transexuais e travestis.
VI - difusão das informações pertinentes ao acesso, à qualidade da atenção e às ações para o enfrentamento da discriminação, em todos os níveis de gestão do SUS.
VII - inclusão da temática da orientação sexual e identidade de gênero de lésbicas, gays, bis-sexuais, travestis e transexuais nos processos de educação permanente desenvolvidos pelo
SUS, incluindo os trabalhadores da saúde, os integrantes dos Conselhos de Saúde e as lide-ranças sociais.
IX - produção de conhecimentos científicos e tecnológicos visando à melhoria da condição de saúde da população LGBT.
X - fortalecimento da representação do movimento social organizado da população LGBT nos Conselhos de Saúde, Conferências e demais instâncias de participação social.
No programa Mais Saúde: Direito de Todos, são encontradas metas específicas para promover ações de enfrentamento das iniquidades e desigualdades em saúde (para grupos populacionais de negros, quilombolas, LGBT, ciganos, prostitutas, população em situação de rua, entre outros). Por sua vez, a Política Nacional de Gestão Estratégica e Participativa (ParticipaSUS) garante viabilidade às ações de promoção da equidade em saúde nas esferas estaduais e municipais (BRASIL, 2009d, p. 8).
Para saber mais
Programa Mais Saúde: Saúde da População em Situação de Rua. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publica-coes/saude_populacao_situacao_rua.pdf.
Tais estratégias e políticas públicas são fundamentais porque vivemos em uma sociedade forte-mente homofóbica e, apesar de políticas específicas, a discriminação e a violência contra a comu-nidade LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – é uma constante. Em 2012, por exemplo, a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) apre-sentou o segundo Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, mostrando que, em um ano, o Poder Público Federal registrou um aumento de 166,09% de denúncias e 46,6% de violações contra o público LGBT, envolvendo 1.713 vítimas e 2.275 suspeitos. Considerando os casos de discriminação, violência psicológica e agressão física, o número de violações foi maior que o de denúncias, uma vez que uma mesma vítima pode sofrer mais de uma violação. A média de 2012 foi de 3,23 violações para cada vítima (BRASIL, 2012d). Os dados deste relatório foram elabora-dos por meio do Disque 100, da SDH, do Ligue 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), e da Ouvidoria do Sistema Único de Saúde (SUS), do Ministério da Saúde. O estudo enumera as mais diversas violências sofridas pela população LGBT.
A diversidade sexual7
Para compreender a diversidade sexual, vale a pena resgatar a construção social do feminino e do masculino, entendendo gênero como construção histórica, cultural e política. Portanto, é possível perceber a existência de diferentes formas de ser homem e de ser mulher. Para melhor entender
a diversidade sexual, muitos autores partem de três eixos: o sexo biológico, a identidade de gênero e a orientação sexual.
Sexo biológico – é constituído pelas características fenotípicas (órgãos genitais externos, órgãos reprodutores internos, mamas, barba) e genotípicas (genes masculinos e genes femininos) presentes em nosso corpo. À semelhança das plantas e animais, pela combinação dos cromossomos X e Y, existem somente dois sexos: XY produz um ser chamado de macho e XX um ser chamado de fêmea. É importante ressaltar, no entanto, que mesmo a natureza não funciona com uma separação rígida, pois há pessoas que nascem com dois órgãos genitais, conhecidos como intersexuais ou hermafroditas.
Identidade de gênero – refere-se a algo que não é dado e sim construído por cada indivíduo a partir dos elementos fornecidos por sua cultura: o fato de alguém se sentir masculino e/ou feminino. Isto quer dizer que não há um elo imediato e inescapável entre os cromossomos, o órgão genital, o aparelho reprodutor, os hormônios, enfim, o corpo biológico em sua totalidade, e o sentimento que a pessoa tem de ser homem ou mulher. Em uma definição sociológica, poderíamos dizer que a identidade é um conjunto de fatores que forma um complexo “jogo do eu”, onde entram em cena a interioridade (como a pessoa se vê e se comporta) e a exterioridade (como ela é vista e tratada pelos demais). Neste sentido, podemos dizer que ninguém “nasce homem ou mulher”, mas que nos tornamos o que somos ao longo da vida, devido à constante interação com o meio social. Enfatizamos aqui o termo “e/ou” no tocante às masculinidades e feminilidades: em primeiro lugar porque há pessoas que nasceram com pênis e se sentem femi-ninas, e vice-versa; em segundo lugar, porque se refletirmos melhor veremos que cada um(a) de nós, traz em si os dois elementos. Mas no fundo, o que se considera masculino ou feminino é resultado de convenções sociais.
Orientação sexual – aqui entendida como a seta ou direção para onde aponta o desejo erótico de cada pessoa, pode ser homossexual quando se deseja alguém do mesmo sexo, bissexual quando se desejam ambos os sexos ou heterossexual quando o objeto do desejo é do outro sexo. A orientação sexual é uma atração espontânea e não influenciável, que só pode ser conhecida plenamente pelo indivíduo que a vivencia. É, portanto, um equívoco dizer que se trata de uma opção sexual, pois não depende de escolhas conscientes nem pode ser aprendida.
De acordo com Bulgarelli (2010):
[...] a diversidade é o conjunto de diferenças e semelhanças que nos caracterizam, não apenas as diferenças. Diversos não são os outros que estão em situação de vulnerabilidade, desvanta-gem ou exclusão. Essa maneira de encarar a diversidade como uma característica de todos nós e não de alguns de nós faz toda diferença quando trabalhamos o tema. Não se trata de incluir os que ficaram do lado de fora porque eles são os diversos. Eles ficaram do lado de fora porque estamos cometendo injustiças e não porque são “desajustados” e os incluídos são os perfeitos.
Em se pensando as ações educativas do Sesc, podemos aprender uns com os outros a valorizar a diferença e ampliar os horizontes. Não basta, portanto, dizer não à discriminação. É preciso dizer sim à diversidade por meio de práticas inclusivas, favorecendo interações criativas, trocas, aprendizados conjuntos.
Trabalhando a temática
O vídeo Medo de quê? 8 conta a história de Marcelo, um jovem gay. Como tantos outros jovens, ele tem sonhos, desejos e planos. Seus pais, seu amigo João e a comunidade onde vive também têm expectativas em relação a ele. Porém, nem sempre os desejos de Marcelo correspondem às expectativas das pessoas. Uma boa maneira de iniciar essa atividade é explicando que este vídeo é um desenho animado sem palavras, com 18 minutos de duração.
Apresente o vídeo e observe as reações às cenas. Após a exibição, estimule os participantes a fazer livremente seus comentários. Em seguida, solicite que eles se reúnam em subgrupos (duplas ou trios) e que escrevam um texto curto, contando o que aconteceu com o personagem central do vídeo quando ele se tornou adulto.
Abra para o debate, a partir das seguintes perguntas: 1. Uma pessoa escolhe se quer ser hetero, bi ou homossexual? 2. Homossexualidade é uma doença mental?
3. Homossexualidade tem cura?
Encerre explicando que sentir uma atração afetivossexual ou desejar uma pessoa do mesmo sexo não é um erro da natureza, trata-se apenas de outro meio de expressão da sexualidade e da capacidade de amar que todo ser humano tem. A homossexualidade – seja ela feminina ou masculina –, a transexualidade e a travestilidade não são doenças nem perturbações mentais. Portanto, é descabida a ideia de que é possível “curar” as pessoas que têm uma orientação sexual ou uma identidade de gênero diferentes da heterossexualidade.
No ambiente escolar, por sua vez, temos que aprender a lidar com o bullying homofóbico e trans-fóbico,9 um fenômeno cotidiano na vida de adolescentes e jovens.
Entende-se por bullying uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou fí-sicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma de-nominação em português, é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato.
Considerado uma das formas de violência que mais cresce no mundo, o bullying e o cyberbullying (que é o bullying via internet) ocorrem em qualquer contexto social, como escolas, universidades, famílias, vizinhança e locais de trabalho. O que, à primeira vista, parece um simples apelido ino-fensivo pode afetar emocional e fisicamente o alvo da ofensa.
8. Disponível em: https://vimeo.com/11589454. 9. Cf. UNESCO, 2013.
Homossexuais, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais são as pessoas que mais sofrem situa-ções de bullying nas escolas. Por esta razão, utiliza-se o termo bullying homofóbico ou transfóbico para ser referir às situações de violência contra homossexuais e bullying transfóbico para transexu-ais e travestis.
O impacto do bullying homofóbico e transfóbico na vida das pessoas é perceptível por meio das seguintes situações: evasão escolar, depressão, afastamento do convívio social, vulnerabilidade às IST/HIV e ao uso do álcool e outras drogas.
Em 2011, a Unesco reuniu representantes de ministérios da Educação, agências da ONU, organi-zações não governamentais e setores acadêmicos de mais de 25 países.10 Os participantes emitiram
uma declaração conjunta, fazendo um apelo aos governos para que assegurem o acesso universal à educação de qualidade, eliminando a prevalência devastadora e inaceitável do bullying homofóbico em instituições de ensino no mundo inteiro.
De acordo com a Unesco (2013), esse tipo específico de bullying tem graves repercussões na edu-cação, violando o direito à educação e prejudicando o rendimento escolar. O bullying homofóbico ocorre em todos os países, independentemente de crenças ou culturas. A discriminação com base em orientação sexual e identidade de gênero real ou percebida é tão inaceitável quanto a discrimi-nação com base em raça, sexo, cor, deficiência ou religião. Todos os alunos têm o mesmo direito de acesso a uma educação de qualidade em um ambiente escolar seguro (Unesco, 2013, p. 12).
Para refletir
No Brasil, a educação inclusiva está amparada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96). Esta lei assegura o direito à escola a todas as pessoas (brasileiras ou estrangeiras residentes no país), sem discriminar negativa-mente singularidades ou características específicas de indivíduos ou grupos humanos (RIBEIRO, 2012).
Trabalhando a temática
Divida os/as participantes em quatro grupos e explique que cada grupo será uma agência de publicidade que deverá fazer uma campanha para diminuir a vulnerabilidade de adolescentes e jovens em relação às violências.
Informe que cada grupo terá cinco minutos para “vender” sua campanha e que, para melhor apresentá-la, deverá elaborar um cartaz bem criativo e terá de 30 a 40 minutos para preparar a proposta e o cartaz explicando como será a campanha. Depois do término das apresentações, chame um/a representante de cada grupo e avise que o “cliente” mudou de ideia e resolveu mudar a campanha. O grupo terá apenas mais 15 minutos para reformular o cartaz. Não poderá ser feito um novo cartaz, apenas poderá ser acrescentada uma nova frase no início ou no final da proposta inicial.
10. A lista completa das organizações representadas na consulta está disponível em: http://www.unesco.org/new/en/hiv-and-aids/ our-priorities-in-hiv/gender-equality/.
Informe que a nova campanha deverá ser, agora, direcionada a formas de se prevenir o bullying homofóbico, abordando temas como: uso do banheiro, nome social, respeito aos/às alunos/as que tenham uma orientação sexual e identidade de gênero diferente da heterossexual.
Após 15 minutos, os grupos farão a reapresentação do cartaz. Quando finalizarem, proponha uma votação para se deci-dir qual das propostas está mais adequada à sua escola ou empresa.
Encerre explicando que, dentre as vulnerabilidades às quais está exposta a comunidade LGBT, encontram-se: a homofo-bia, a lesbofobia e a transfobia; a negação do direito à livre orientação sexual e de identidade de gênero; dificuldades de acesso ao diagnóstico, aos insumos de prevenção e ao tratamento das IST e Aids. Reforce que o medo de sofrer precon-ceito e/ou discriminação faz, por exemplo, com que muitos adolescentes e jovens gays, bissexuais, travestis e transexuais evitem ao máximo procurar unidades públicas de saúde para acompanhamento médico.
Termos importantes sobre os temas gênero,
raça e etnias, diversidades
Afro-brasileiro/a. Descendentes de africanos com nacionalidade brasileira.
Antirracismo. Movimento de rejeição consciente ao racismo e suas manifestações.
Assexualidade. Uma das formas de manifestação da sexualidade humana, que se caracteriza pela falta de atração sexual por pessoas do mesmo ou do outro sexo. Uma pessoa assexuada pode se apaixonar, se relacionar e ser feliz em uma relação afetiva mesmo não sentindo atração sexual. Bissexual. Pessoa que tem desejos, práticas sexuais e relacionamento afetivo-sexual com pessoas de ambos os sexos.
Butches. Mulheres lésbicas que se vestem e se comportam de maneira bastante masculinizada, aproximando-se do modo de se portar dos homens machões.
Cisgênero. Termo que designa a identidade de gênero que está em consonância com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, ou seja, quando sua conduta psicossocial, expressa nos atos mais comuns do dia a dia, está inteiramente de acordo com o que a sociedade espera de pessoas do seu sexo biológico.
Comunidades remanescentes de quilombos / Comunidades quilombolas. Espaços de re-sistência cultural que, durante a escravidão, abrigavam escravos fugidos do cativeiro. Ainda hoje, há terras ocupadas por descendentes de quilombolas espalhadas por todo o Brasil.
Convenções sociais de gênero. Ideias difundidas em determinada sociedade sobre como ho-mens e mulheres devem se comportar.
Cross-dressers. Homens que gostam de se vestir com peças de roupas femininas, mas que não são necessariamente homossexuais.
Desigualdades raciais. Manifestações dos resultados da discriminação racial. Podem ser perce-bidas, por exemplo, nas diferenças salariais existentes entre negros e não negros. Têm origem em causas históricas e sociais, como o preconceito e a discriminação racial.
Discriminação. Conduta que, por ação ou omissão, viola direitos das pessoas com base em crité-rios injustificados e injustos, tais como raça, sexo, idade, opção religiosa e outros. A discriminação é a tradução prática, a exteriorização, a manifestação, a materialização do racismo, do preconceito e do estereótipo.
Discriminação racial. Conduta que se caracteriza pela distinção, exclusão, restrição ou prefe-rência com base em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica, e que tem como obje-tivo ou efeito impedir que certas pessoas possam, em igualdade de condições, usufruir de direitos humanos e liberdades fundamentais no campo social, cultural, político ou em qualquer outro domínio da vida pública.
Diversidade sexual. Expressão que designa as várias formas de expressão da sexualidade huma-na. A homossexualidade, a bissexualidade e a heterossexualidade integram a diversidade sexual. Diversidade sexual e diversidade de gênero. Termos utilizados para designar as diferentes formas de expressão da sexualidade humana e as atitudes e modos de ser considerados masculinos ou femininos.
Drag king. Mulher não necessariamente lésbica, que usa de artifícios de vestimenta, maquiagem e
maneirismos para interpretar um personagem com características masculinas.
Drag queen. Personagem construída com o uso exacerbado de elementos do gênero feminino. Na
maioria das vezes, drag queens são debochadas e espalhafatosas, com o objetivo de realizar perfor-mances bem-humoradas. Trata-se, no fundo, de uma fantasia capaz de mexer com o público, pois traz à tona diversos estereótipos de gênero com os quais a drag queen brinca. É importante ressaltar que se trata apenas de uma figura interpretada em determinadas situações e lugares. Ela não é uma personagem vivida 24 horas por dia. O indivíduo que gosta de ser drag queen geralmente não tem desejo de alterar seu corpo por meio de cirurgia ou implantes, tampouco com tratamento hormo-nal, como ocorre com os travestis e os/as transexuais.
Estereótipo. Generalização a todo um grupo ou categoria social de algumas características (fí-sicas e/ou morais), na maioria das vezes negativas, apresentadas apenas por algumas pessoas per-tencentes a tal grupo. Dessa forma são definidos diferentes “lugares de poder” a serem ocupados, relacionados às identidades.
Etnia. Grupo de pessoas que consideram ter um ancestral comum e compartilham da mesma lín-gua, da mesma religião, da mesma cultura, das tradições e visão de mundo, do mesmo território ou das mesmas condições históricas. Grupo étnico.
Gay. Pessoa que tem desejos, práticas sexuais e/ou relacionamento afetivo-sexual com outras pes-soas do mesmo sexo. Esse termo se aplica principalmente aos homossexuais masculinos.
Gênero. A compreensão das relações de gênero perpassa várias conceituações e estudos, desde a construção de papéis masculinos e femininos, do aprendizado destes que formam a identidade dos sujeitos; da sexualidade; do enfoque na violência contra a mulher; das discussões sobre as mascu-linidades, até as questões que conseguem relacionar gênero e poder, colocando em evidência que a subordinação feminina não é natural, estática e imutável. Com o tramitar histórico, percebe-se que as identidades não são fixas, mas mutáveis e transformáveis, além de serem plurais e diversas. Assim, vai se gestando a concepção de gênero como relacional, ou seja, pertencente às relações sociais entre os sujeitos e um modo de significar as relações de poder.
Heteronormatividade. Lógica pela qual se supõe que todas as pessoas sejam (ou devam ser) heterossexuais, e que, consequentemente, os sistemas de saúde, educação, jurídico e midiático sejam construídos à imagem e à semelhança desses sujeitos. São eles que estão plenamente qua-lificados para usufruir desses sistemas ou de seus serviços e para receber os benefícios do Estado. Os outros, que fogem a essa norma, poderão na melhor das hipóteses ser reeducados, reformados (se for adotada uma ótica de tolerância e complacência); ou serão relegados a um segundo plano (tendo de se contentar com recursos alternativos, restritivos, inferiores); quando não forem sim-plesmente excluídos, ignorados ou mesmo punidos.
Heterossexualidade. Termo que diz respeito a desejos, práticas sexuais e relações afetivas entre pessoas de sexos/gêneros diferentes.
Homofobia. Atitude de colocar lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, ou aqueles/as identificados como tal, em uma condição de inferioridade ou de anormalidade, com base na lógica heteronormativa. Manifesta-se de diferentes formas: medo, aversão, ódio, violência e discrimina-ção. A expressão pode ser adaptada para se referir a grupos mais específicos. Assim, a homofobia que atinge lésbicas é às vezes referida como lesbofobia; a que atinge homens e mulheres bissexuais, como bifobia; e a que atinge travestis e transexuais, como transfobia.
Homossexualidade. Orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo ou gênero.
Hormonioterapia. Modalidade de tratamento à base de substâncias que agem no organismo, modificando o corpo – masculino ou feminino – a partir do sentimento de pertencimento ao gênero que não corresponde ao seu sexo biológico.
Implantes de silicone. Próteses utilizadas em cirurgias plásticas para aumentar as mamas ou ou-tras partes do corpo. No caso das travestis e transexuais, pelo alto preço da cirurgia, muitas vezes elas buscam aplicação clandestina de silicone industrial, correndo riscos de reações alérgicas, de-formações severas no corpo e dificuldades para andar, além de mortes por infecção generalizada.
Injuria racial. Ofensa à honra de alguém com a utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem.
Intersexo. Fenômeno orgânico, oriundo de um desequilíbrio entre os fatores e eventos respon-sáveis pela determinação e diferenciação sexuais, que se configura quando o indivíduo apresenta ambiguidades, anomalias ou incongruências no componente biológico da sua identidade sexual, ou seja, no seu sexo. No enfoque dos Direitos Humanos, destacam-se no intersexo, sobretudo, dois componentes: o direito à saúde e o direito à identidade.
Lésbica. Pessoa do gênero feminino que têm desejos, práticas sexuais e/ou relacionamento afeti-vo-sexual com outras pessoas do gênero feminino.
LGBT. Sigla correspondente a “lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais”. Entretanto, esta sigla tem muitas variantes, com ordens diferentes das letras e com o acréscimo de outras. Por exemplo: pode-se acrescentar um T (para distinguir travestis e transexuais), ou mais dois T (para destacar transgêneros em geral, travestis e transexuais). Por um tempo, no Brasil, empregou-se o S para simpatizantes, o que não é mais adotado. Eventualmente novos termos são acrescidos em virtude da rapidez com que essas questões são discutidas.
Movimento LGBT. Movimento formado por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. No conjunto das conquistas político-sociais da atuação deste movimento, enqua-dra-se a sensibilização da população de modo geral para as formas de discriminação por orienta-ção sexual, que têm levado estudantes a abandonarem a escola, por não suportarem o sofrimento causado pelas piadinhas e ameaças cotidianas dentro e fora dos muros escolares. Esses mesmos movimentos têm apontado a urgência de inclusão, no currículo escolar, da diversidade de orien-tação sexual, como meio de superação de preconceitos e enfrentamento da homofobia. Há pouco mais de uma década, era impensável a Parada do Orgulho Gay, atualmente denominada Parada LGBT, por exemplo, que ocorre em boa parte das grandes cidades brasileiras. Cada vez mais ve-mos hove-mossexuais ocupando a cena pública de diferentes formas. A atual luta pela parceria civil constitui uma das muitas bandeiras dos movimentos homossexuais com apoio de vários outros movimentos sociais.
Política de Saúde Integral LGBT. Conjunto de diretrizes do Ministério da Saúde para a im-plementação de ações que têm por objetivo a eliminação da discriminação contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e a promoção da saúde desses grupos.
Preconceito. Conjunto de crenças e valores preconcebidos e apreendidos, sem razão objetiva ou refletida, que levam um indivíduo ou um grupo a nutrir opiniões a favor ou contra os membros de determinados grupos, antes de uma efetiva experiência com estes. No terreno das relações ra-ciais, o emprego do termo normalmente se refere “ao aspecto negativo de um grupo herdar ou gerar visões hostis a respeito de outro, distinguível com base em generalizações”.
Processo Transexualizador. Conjunto de estratégias e procedimentos assistenciais com o obje-tivo de realizar modificações corporais do sexo, em função de um sentimento de desacordo entre seu sexo biológico e seu gênero, em atendimento às legislações e pareceres médicos.
Queer. Termo que costuma ser traduzido por estranho, ridículo, excêntrico, raro, extraordiná-rio, e que é usado pejorativamente para designar homens e mulheres homossexuais. Ou, como argumenta Judith Butler, como a força de uma invocação sempre repetida, um insulto que ecoa e reitera os gritos de muitos grupos homofóbicos, ao longo do tempo, e que, por isso, adquire força, conferindo um lugar discriminado e abjeto àqueles a quem é dirigido. Por outro lado, este termo, com toda sua carga de estranheza e de deboche, é assumido por uma vertente dos movimentos homossexuais precisamente para caracterizar sua perspectiva de oposição e de contestação. Para esse grupo, queer significa colocar-se contra a normalização, venha ela de onde vier. Seu alvo mais imediato de oposição é, certamente, a heteronormatividade compulsória da sociedade.
Raça. Noção que teve um intenso uso ideológico no século XIX para justificar a ideia de que há raças superiores e inferiores, o que legitimou a subjugação e a exploração de povos considera-dos, sob essa lógica, biologicamente inferiores. A ciência do século XX, especialmente a genéti-ca, demonstrou que o conceito biológico de raça não tem sustentação científigenéti-ca, porque há mais diferenças entre os indivíduos considerados da mesma raça, do ponto de vista genético, do que entre as supostas raças, ou seja, a espécie humana é única e indivisível. As diferenças de fenótipo (diferenças aparentes) não implicam diferenças biológicas ou genéticas que justifiquem a classifi-cação dos sujeitos em diferentes raças ou a distinção hierárquica entre os povos (raças superiores ou inferiores). O termo “raça” ainda é utilizado para informar como determinadas características físicas (cor de pele, tipo e textura de cabelo, formato do nariz e do crânio, formato do rosto), e também manifestações culturais, influenciam, interferem e até mesmo determinam o destino e o lugar dos sujeitos na sociedade brasileira, em razão da carga de preconceito e discriminação aos quais estão submetidos os grupos não brancos.
Racismo. Ideologia que justifica a organização desigual da sociedade ao afirmar que grupos ra-ciais ou étnicos são inferiores ou superiores, em vez de considerá-los simplesmente diferentes. O racismo atribui sentidos pejorativos a determinados padrões da diversidade humana, e significados sociais negativos aos grupos que detêm essas características. Não se trata de opinião pessoal, por-que as ideias preconceituosas e as atitudes racistas e discriminatórias são mantidas por gerações e, em cada tempo e lugar, manifestam-se de um modo, por meio de piadas, da apresentação de personagens negros e indígenas nos filmes, novelas, desenhos, propagandas etc.
Racismo institucional. Tipo de racismo que se reflete em situações de desvantagem para pes-soas de grupos raciais ou étnicos discriminados, no acesso a benefícios gerados pelo Estado e por demais instituições e organizações.
Redesignação sexual. Conjunto de procedimentos médicos e cirúrgicos pelos quais a aparência e as possibilidades eróticas dos órgãos sexuais de uma pessoa são modificadas a partir do gênero que a pessoa reconhece como seu.
Sexismo. Atitude de discriminação em relação às mulheres. Desprezo frente ao sexo oposto, muitas vezes próximo da misoginia (aversão a tudo que é feminino ou de mulheres), que pode existir não apenas por parte de alguns homens (entre gêneros) como também entre as próprias mulheres (intragêneros).
Sexo. Termo que designa a diferença anatômica entre as pessoas. Conjunto de características físi-cas segundo as quais um ser vivo é classificado como macho ou fêmea e lhe é atribuído um papel específico na reprodução.
Sexualidade. Parte integrante da personalidade de cada um de nós. A vivência da sexualidade é própria do ser humano, constitui uma dimensão da liberdade humana e está relacionada com a busca do prazer físico e emocional.
Teoria Queer. Posicionamento que emergiu nos Estados Unidos em fins da década de 1980, em oposição crítica aos estudos sociológicos sobre minorias sexuais e gênero. Surgida em de-partamentos normalmente não associados às investigações sociais, como os de Filosofia e crítica literária. Na década de 1990, a Sociologia canônica começaria a valorizar o estudo da sexualidade a partir de obras como As transformações da intimidade: Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas, de Anthony Giddens (1992), e A dominação masculina, de Pierre Bourdieu (1998). Transexuais. Pessoas que, tendo nascido do sexo masculino ou feminino, identificam a si mes-mas como sendo do gênero oposto. Essa identificação conduz, em geral, mes-mas não de maneira ex-clusiva, à modificação hormonal e/ou cirúrgica do corpo e, em particular, dos genitais.
Transformistas. Homens, não necessariamente homossexuais, que se vestem de mulher para fazer shows musicais e de humor em casas noturnas.
Transgênero. Termo que se aplica às pessoas cuja expressão de gênero não corresponde ao com-portamento que normalmente se espera delas, em função do que é socialmente definido para o masculino ou feminino. Mais recentemente, tem sido usado também para definir pessoas que transitam entre as identidades de gênero, isto é, entre as masculinidades ou feminilidades.
Transexualidade. Quando se pensa na temática da transexualidade, mostra-se improvável não se pensar nos conceitos de sexo e nome civil. Isto porque é no Registro Civil de Pessoas Naturais que, em última análise, o “direito se dirá”. Por mais que a Resolução do Conselho Federal de Medicina afirme ser prerrogativa médica diagnosticar a transexualidade, é no direito que os refle-xos da cidadania serão pleiteados. Não se pode pensar transexualidade sem os olhos voltados para