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A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA EM CABO VERDE: O CASO DO PODER LOCAL

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Academic year: 2021

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A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA EM CABO

VERDE: O CASO DO PODER LOCAL

Orientador: Professor Doutor Diogo Pires Aurélio

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração

Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais

Lisboa 2020

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A transição democrática em cabo verde: o caso do poder local

GIL MOREIRA BARBOSA

A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA EM CABO

VERDE: O CASO DO PODER LOCAL

Dissertação defendida em Provas Públicas para a obtenção de grau de Mestre em Ciência Política – Cidadania e Governação no Curso de Mestrado em Ciência Política – Cidadania e Governação, conferido pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, no dia 26 de Maio de 2020, nomeado pelo Despacho de Reitoral nº 119/2020, mediante a seguinte composição de Júri:

Presidente: Professor Doutor Fernando Rui de Sousa Campos

Arguente: Professor Doutor José Filipe Pinto Orientador: Professor Doutor Diogo Pires Aurélio

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração

Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais

Lisboa 2020

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Epígrafe

Nós não somos o que gostaríamos de ser.

Nós não somos o que ainda iremos ser.

Mas, graças a Deus,

Não somos mais quem nós éramos

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Dedicatória

Aos meus filhos Silvano e Daniel e à minha esposa Menilita Barbosa que foram motivo da minha inspiração para a concretização desse sonho

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Agradecimentos

Em primeiro lugar agradeço a Deus por tudo que Ele fez por mim, meu refúgio e meu porto seguro e, que sem Ele nada sou.

Agradeço aos meus pais, António Barbosa e Mafalda Moreira que de uma forma incondicional apoiaram-me nesta tarefa, com palavras de apoio e incentivo principalmente nos momentos mais difíceis desta caminhada.

Aos meus manos e manas com suas palavras de encorajamento e pela confiança depositada em mim que no final deste esforço haverá sorrisos de alegria.

Ao meu orientador Professor Doutor Diogo Aurélio pela paciência e incentivo que me demostrou, pelos conselhos e orientações durante todo este percurso.

Aos meus amigos que de uma forma ou de outra me apoiaram com palavras de incentivos que este sonho seria possível.

À Associação Nacional dos Municípios de Cabo Verde que me disponibilizaram uma vasta documentação sobre o Poder Local em Cabo Verde.

Aos funcionários das várias bibliotecas em Lisboa, em especial da biblioteca Vítor Sá.

Aos funcionários do Arquivo Nacional e Biblioteca Nacional de Cabo Verde.

A todos aqueles que direta ou indiretamente colaboraram para a realização deste trabalho.

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Resumo

O presente trabalho aborda a transição democrática em Cabo Verde e o caso do Poder Local entre o regime autoritário de partido único e o regime democrático. Esta dissertação focar-se-á em três momentos. No primeiro referem-se as razões pelas quais há uma transição de um regime para outro, os tipos de transição de regimes e os tipos de transição que ocorreram no continente africano. Neste sentido, esta dissertação preocupou-se em demonstrar as condições que permitem classificar uma democracia consolidada e as dificuldades nos processos de consolidação democrática nos países africanos. No segundo momento discutir-se-á o processo de transição do regime autoritário para a democracia, analisando as características do regime monopartidário em Cabo Verde e a decadência do partido único naquele arquipélago, que resultou na abertura política e na instauração da democracia em Cabo Verde. Finalmente, no terceiro momento, analisar-se-á o Poder Local antes da abertura política e o seu contributo, no regime democrático, para a consolidação de democracia em Cabo Verde.

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Abstract

The present work addresses the democratic transition in Cape Verde and the case of local power between the authoritarian single-party regime and the democratic regime. This dissertation encompasses three focal points. The first one concerns general causes of the transition from one regime to another, types of regime transitions, and the types of transitions that have occurred on the African continent. This section aims to demonstrate the conditions that allow for a classification of a consolidated democracy and the difficulties involved in the past democratic consolidation processes in African countries. The second focal point discusses the transition process from an authoritarian regime to democracy. Characteristics of the single-party Cape Verdean regime that resulted in the political opening and establishment of democracy in the archipelago will be presented here. Finally, local power before the political opening and its contribution to the democratic regime and, thus, the consolidation of democracy in Cape Verde will be analyzed as the third focal point.

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Listas de Siglas e Abreviaturas

ANMCV – Associação Nacional dos Municípios de Cabo Verde BO – Boletim Oficial

CIDC – Comissão de Investigação e Divulgação Cultural CRCV – Constituição da República de Cabo Verde FFM – Fundo Financiamento dos Municípios FMC – Fundo Municipal Comum

FMC – Fundo Municipal Comum FSM – Fundo Solidariedade Municipal ICE – Imposto sobre Consumos Especiais IUR – Imposto único sobre Rendimento IVA – Imposto sobre Valor Acrescentado

JACCV – Juventude Amílcar Cabral Cabo Verde LOPE - Lei sobre a Organização Política do Estado LQDA - Lei-Quadro de Descentralização Administrativa MPD – Movimento para Democracia

OE – Orçamento do Estado

OMCV – Organização de Mulheres de Cabo Verde ONU – Organização da Nações Unidas

OPAD-CV – Organização Pioneiros de Cabo Verde OUA – Organização da Unidade Africana

PAICV – Partido Africano da Independência de Cabo Verde

PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde PCD – Partido da Convergência Democrática

PSD – Partido Social Democrático

RFA – Regime Financiamento das Autarquias RJPP – Regime Jurídico dos Partidos Políticos

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Índice Epígrafe ... 3 Dedicatória ... 4 Agradecimentos ... 5 Resumo... 6 Abstract ... 7

Listas de Siglas e Abreviaturas ... 8

INTRODUÇÃO... 10

CAPÍTULO I FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: TRANSIÇÕES E CONSOLIDAÇÕES DEMOCRÁTICAS ... 13

1.1 – A transição para a democracia e a consolidação democrática ... 13

1.2 As consolidações democráticas em África ... 27

CAPÍTULO II A TRANSIÇÃO DO REGIME MONOPARTIDÁRIO PARA O REGIME MULTIPARTIDÁRIO EM CABO VERDE ... 33

2.1 O regime monopartidário em Cabo Verde ... 33

2.2 As causas do enfraquecimento do Partido Único ... 39

2.3 A abertura política e as primeiras eleições livres ... 42

CAPÍTULO III O CASO DO PODER LOCAL ... 53

3.1 O poder local antes da transição democrática ... 53

3.2 O novo ‘rosto’ do poder local no regime democrático - descentralização/regionalização ... 55

3.3 Financiamento dos municípios ... 64

3.4 A Consolidação do Poder Local ... 66

CONCLUSÃO ... 74

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INTRODUÇÃO

O final da década de 80 e início dos anos 90 do século XX foi marcado por grandes transformações políticas que culminaram em processos de transição de regimes autoritários para regimes democráticos. Como diz Linz (2015), “a transição do autoritarismo para a democracia tende a iniciar-se quando os líderes do regime autoritário começam a ponderar a possibilidad10e de uma reforma que conduza a uma certa democracia política” (Linz, 2015, p. 113). Segundo Della Porta (2003) “uma transição para a democracia inicia-se frequentemente com processo de liberalização, que comporta um enfraquecimento da censura, um aumento dos espaços de expressão por alguns grupos de interesse e uma oposição política, introdução de algumas garantias legais para os indivíduos, libertação dos presos políticos e regresso dos exilados” (Della Porta, 2003, p. 79).

Os processos de transição política concentraram-se particularmente nos países do Leste Europeu, da América Latina e da África. No continente africano, os processos de transição política não ocorreram de forma tão contínua como nos países do Leste Europeu que sofreram um “efeito contágio” com a subida ao poder de Michael Gorbatchov na antiga União Soviética e a consequente derrocada dos regimes marxistas do leste europeu. Este facto, não só teve consequências notáveis nos países do leste europeu, como provocou uma autêntica revolução em todo mundo. Deste modo, segundo Querido (2011), “as pequenas ditaduras do terceiro mundo que vinham conseguindo substanciais apoios do Ocidente […] viram-se bruscamente ameaçadas de extinção” (Querido, 2011, p. 245).

Os casos de transição de regime no continente africano constituem uma boa referência para estudos de transição política tendo em conta que a maioria dos países daquele continente ter herdado um legado autoritário do colonialismo europeu que se perpetuou depois da independência pela implantação de regimes monopartidários de partido único que governaram durante muitos anos.

As possibilidades de haver uma consolidação democrática, no continente africano suscitam muitas dúvidas. Muitos estudiosos consideram que muitos países africanos não conseguiram concluir a primeira etapa do processo de transição verdadeiramente e não apenas de fachada. De facto, muitos países daquele continente nem sequer cumprem os princípios basilares do processo de transição, como o facto de eleições livres e diretas. Diante deste cenário, considera-se a consolidação democrática em África uma realidade muita remota. É praticamente

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unanime entre os académicos ao considerarem que os processos de transição no continente africano originaram “democracias virtuais” e, que ainda faltam cumprir muitos requisitos para atingir, pelo menos, uma democracia real.

Este trabalho focar-se-á no processo de transição política em África, mais concretamente no caso de Cabo Verde, um país singular graças à sua composição étnica e social que se carateriza por uma grande homogeneidade.

O objetivo principal deste trabalho é de compreender o processo de transição do regime monopartidário para o regime multipartidário ocorrido em Cabo Verde nos finais de 1990 que ditou a derrota do partido único que governara há quinze anos; analisar a relação entre o Poder Central e o Poder Local durante o regime monopartidário bem como a importância que este tinha em relação àquele. Do mesmo modo pretende-se também analisar o caso do Poder Local depois da transição, ou seja, durante o regime democrático, numa perspetiva comparada.

Deste modo, poder-se-á perguntar: qual era a autonomia do Poder Local antes da transição democrática? No regime monopartidário, que critérios eram utilizados para ‘eleger’ o representante máximo da Câmara e Assembleia Municipal? Será que a democracia trouxe algo de novo ao Poder Local? Qual o papel do Poder Local para a consolidação da democracia em Cabo Verde?

Para esta tarefa, analisar-se-á, primeiramente, o regime que antecedeu o regime democrático, os condicionantes do processo de transição, a forma como ocorreu esse processo de transição. Tentar compreender a dinâmica de transição democrática ocorrida naquele país arquipelágico.

Para alcançar o objetivo deste trabalho, utilizou-se alguns métodos, como da análise tipológica a fim de caraterizar os tipos de transições existente na literatura política, com maior foco nos casos ocorridos no continente africano com as suas particularidades e diferenças num quadro comparado com outros modelos considerados referências. O esforço de tentar compreender o processo de transição democrática em Cabo Verde, utilizou-se o método de análise de documentos dos partidos, os boletins oficiais, na análise e comparação dos dados eleitorais das primeiras eleições tanto legislativas como presidenciais, e análise dos programas do governo.

Do mesmo modo, utilizou-se a análise de conteúdo, mais concretamente na interpretação das revisões constitucionais. Tem-se a consciência das limitações

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metodológicas utilizadas para a elaboração deste trabalho, isto deve-se muito ao facto da existência de grande carência em Cabo Verde, das fontes bibliográficas, típicos de muitos países africanos, que privilegiaram mais as tradições orais mas essa deficiência deve-se, sobretudo, ao fato de existir em Cabo Verde uma carência de fontes escritas, típica das sociedades africanas que são, na sua maioria, de tradição oral e, portanto, não possuem uma tradição de publicação e arquivo de documentos e dados. Tal deficiência é ainda maior no campo político.

Este trabalho divide-se em três capítulos. No primeiro capítulo, far-se-á uma revisão da literatura analisando as razões pela qual haja uma transição de um regime para outro, descrever-se-á os tipos de transição de regimes dentro do âmbito da Ciência Política, os tipos de transição que ocorreram em África, bem como as condições que permitem classificar uma democracia consolidada e os entraves aos processos de consolidação democrática nos países africanos. No segundo capítulo descrever-se-á as características do regime monopartidário em Cabo Verde e o enfraquecimento do partido único naquele arquipélago que sucedeu na abertura política e na inauguração da democracia em Cabo Verde. Analisar-se-á também as mudanças instituídas pelo primeiro governo eleito democraticamente após quinze anos de regime do partido único. No terceiro capítulo, abordar-se-á sobre o Poder Local numa perspetiva comparada entre o regime autoritário e democrático, e o papel deste na consolidação da democracia em Cabo Verde.

No que se refere à formatação e elaboração desta dissertação, teve-se em conta as normas para a elaboração e apresentação de Dissertações da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT). Deste modo, optou-se por uma das duas normas aceites pela instituição, a norma da American Psychological Association (APA).

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CAPÍTULO I FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: TRANSIÇÕES E CONSOLIDAÇÕES DEMOCRÁTICAS

1.1 A transição para a democracia e a consolidação democrática

O final da década de 80 e início dos anos 90 do século XX foi marcado por grandes transformações políticas, que culminaram em processos de transição de regimes autoritários para regimes democráticos. Tendo em conta que este trabalho está focado na transição do regime autoritário para a democracia, pretende-se esclarecer alguns conceitos e questões que se consideram importantes para este tema: o que são regimes autoritários? O que significa uma transição para a

democracia? Quando é que uma democracia é considerada consolidada?

Entende-se por regimes autoritários,

“sistemas de pluralismo político limitado, cuja classe política não presta contas dos seus atos, que não se baseiam numa ideologia de referência devidamente articulada, mas se caracterizam por mentalidades próprias, onde não existe uma mobilização política disseminada e em larga escala, salvo em alguns momentos do seu desenvolvimento, e em que um líder, ou por vezes um pequeno grupo, exerce o poder dentro de limites mal definidos no plano formal, mas efetivamente previsíveis” (Linz, 2015, pp.18-19).

Trata-se, portanto, de um pluralismo limitado. No entender de Pasquino (2002) “seria preferível falar de pluralidade de organizações”, tendo em conta que esse regime apresenta inúmeras limitações sob vários pontos de vista. De acordo com este autor, nos regimes autoritários “são poucas as organizações que têm autorização para exercer o poder político, e as que existem são todas legitimadas pelo líder” (Pasquino, 2002, p. 286). Por outro lado, Linz (2015) afirma que o elemento mais característico dos regimes autoritários é o elemento pluralista, mas um pluralismo limitado, se o compararmos com o que existe nas democracias. Do mesmo modo, afirma o mesmo autor, “esta limitação pode ser legal ou de facto, mais ou menos severa, reduzida a grupos estritamente políticos ou extensível a grupos de interesses” (Linz, 2015, p. 19). Neste sentido, pode dizer-se que os regimes autoritários caraterizam-se mais pela mentalidade do que propriamente por uma ideologia. Por mentalidade entende-se, segundo Linz (2015), citando Theodor Geister, “modos de pensamento e sentimento, mais emocionais do que racionais, que fornecem modos não codificados de reagir face às diferentes situações” (Geister apud Linz, 2015, p. 22). Portanto, a mentalidade é uma atitude intelectual, uma predisposição psíquica movediça e que não tem forma. Por outro lado, usando do mesmo modo a definição de Geister, citado por Linz (2015), as ideologias são “sistemas de pensamento mais ou menos intelectualmente

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elaborado e organizado, amiúde em forma escrita, por intelectuais ou pseudointelectuais ou com seu apoio” (Geister apud Linz, 2015, p. 22). A ideologia é um conteúdo intelectual, uma reflexão a posteriori, ou seja, a ideologia vem depois, ao contrário da mentalidade que é prévia.

Tendo em conta o tema, este trabalho, focar-se-á nos processos de transição de regimes autoritários para regimes democráticos. Neste sentido, a pergunta: o que significa uma transição democrática? Quando é que uma democracia é considerada consolidada?

“A transição do autoritarismo para a democracia tende a iniciar-se quando os líderes do regime autoritário começam a ponderar a possibilidade de uma reforma que conduza a uma certa democracia política” (Linz, 2015, p. 113). Por sua vez, Della Porta considera que

“uma transição para a democracia se inicia frequentemente com processo de liberalização, que comporta um enfraquecimento da censura, um aumento dos espaços de expressão por alguns grupos de interesse e uma oposição política, introdução de algumas garantias legais para os indivíduos, libertação dos presos políticos e regresso dos exilados” (Della Porta, 2003, p. 79).

Por outro lado, Garretón (1991) afirma que uma transição democrática é o princípio de um regime democrático que até então não se identificava com a democracia. Portanto, uma democratização política é entendida como um conjunto de processos que englobam num todo os mecanismos da transição do regime autoritário para a democracia. Tendo como ponto de partida as transições ocorridas nos finais dos anos 80 e inícios dos anos 90, Garretón (1991) considera que mesmo quando se concretiza uma transição de um regime para outro, neste caso, de autoritarismo para a democracia, não é suficiente para resolver todos os problemas da sociedade, visto que, não passa de um mero processo político. A transição apenas instaura o primeiro governo eleito democraticamente, isto é, a partir das eleições livres e diretas. Contudo, a transição per se, não resolve os problemas dos cidadãos, pois isto só acontece quando esta estiver totalmente consolidada.

Segundo Linz (2015), geralmente, a transição começa com um acontecimento dramático, ainda que a força desse acontecimento seja amiúde a culminação de uma série de acontecimentos. Em consequência, “os governantes autoritários assumem frequentemente o compromisso público e oficial de realizar eleições livres e de devolver o poder ao eleitorado numa determinada data” (Linz, 2015, p. 122). Também a transição pode ocorrer de um golpe no qual se obriga os governantes a abandonar o

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poder, deixando o poder de forma temporária nas mãos dos revolucionários, que se comprometem a devolver o poder ao eleitorado com a realização de eleições.

De facto, uma das condições para a transição democrática é a marcação de eleições livres. Contudo, isso não é suficiente para considerar uma transição completa. Porque “não se pode considerar a democracia como estando plenamente estabelecida até que os representantes eleitos criem ou restaurem as regras constitucionais básicas e se definam as funções dos diferentes órgãos do governo” (Linz, 2015, p. 123). Do mesmo modo, a fase de elaboração da Constituição faz parte do processo de transição, uma vez que a estabilidade ou instabilidade política futura depende muito desse período da redação da Constituição. Portanto, “a aprovação de uma Constituição que apenas satisfaz a maioria e é totalmente recusada pela oposição, dificilmente poderá ser considerada como uma moldura adequada à política quotidiana e à estabilidade do governo” (Linz, 2015, p. 123).

Apesar das eleições serem as condições imprescindíveis para a democratização, não se excluem outros componentes que se consideram fundamentais para cogitar um regime democrático. Schmiter e Karl (1991) pressupõem que um regime democrático moderno deve garantir na Constituição os direitos dos cidadãos e que haja uma competitividade legal entre aqueles que queiram governar. Deste modo, o sistema político oferece múltiplos canais e processos de expressão de interesses permitindo que estes interesses, sejam eles individuais ou coletivos, possam ser representados e, apelando sempre à responsabilidade dos políticos pelos seus atos perante os cidadãos.

A democratização de um regime pressupõe muito mais do que um simples processo de transição, pois, é de evitar uma analogia do processo de transição com o de liberalização política, e deste com o de democratização. De facto, é habitual confundir-se o processo de liberalização com o de democratização, pois, são processos diferentes que acontecem em momentos exclusivos. Qualquer processo de liberalização é antecedente a uma democratização. Contudo, nem todos os casos de liberalização conduzem necessariamente à democratização. Segundo Linz e Stepan (1999), a liberalização acontece normalmente num contexto não-democrático que permite algumas mudanças no plano social e político. Neste sentido, diminui o nível de censura, causando o enfraquecimento da opressão política, dando maior flexibilidade no seio da sociedade, permitindo o surgimento de organizações autónomas e, uma maior tolerância à oposição política. Por outro lado,

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“o processo de liberalização reduz os incentivos à participação nas instituições do regime e abre espaços às tentativas de pôr à prova os limites da liberdade e do poder, surtindo isto muitas vezes o efeito contrário, ao agudizar a repressão, o que, por sua vez, dececiona as expetativas e aumenta as frustrações” (Linz, 2015, p. 108).

Por sua vez, Weffort (1989) afirma que a liberalização seria a primeira fase de um processo de transição democrática, isto é, a liberalização significa que as pessoas se sentem apenas protegidas do exercício arbitrário do poder. Porém, a democratização significa a participação nas decisões, ou seja, no exercício efetivo da cidadania tanto em seus direitos quanto em seus deveres

De acordo com Huntington (1994), pode identificar-se três tipos de transição política. Primeiro, “a transição por transformação”. Neste tipo de transição são os próprios líderes do regime autoritário que tomam a iniciativa de modo a permitir uma abertura política. Contudo, ocorre que em muitos casos destas transições, os líderes dos regimes autoritários têm essa iniciativa partindo do pressuposto que vão manter-se no poder, mesmo proporcionando as eleições. Segundo, “substituição ou rutura”. Neste tipo de transição, a iniciativa parte da oposição, cujo objetivo consiste na mudança política. É de realçar que nestes casos, a maioria dos líderes no poder são conservadores e, deste modo, não são favoráveis à mudança. Entretanto, o início da democratização só é possível, neste caso, porque a oposição aumenta a sua força de tal modo que acaba por derrubar o regime autoritário. Terceiro, “transição por transtituição”. Neste caso, a democratização é fruto de esforços e compromissos entre os que governam e a oposição.

Em Cabo Verde, o processo de transição política teve a sua origem no então partido único, o PAICV, que nas primeiras eleições, realizadas em janeiro de 1991, estava confiante num resultado favorável, que lhe permitisse continuar a governar. Neste contexto, afirma Évora (2004), o próprio secretário geral do então partido no poder ficou surpreso com os resultados obtidos nessas eleições, porque mesmo antes das eleições fizera uma sondagem às populações e a mesma garantia a vitória do PAICV. De facto, nas primeiras eleições, o PAICV não obteve o resultado que almejara, pois, o seu concorrente ganhou com a maioria absoluta. O resultado das eleições não deixou surpreso apenas o PAICV, mas também o próprio partido que ganhou, o MPD, pois, tinha sido criado poucos meses antes das eleições e tinha consciência das suas limitações face a um partido que governava há 15 anos. Um dos objetivos do recém-criado partido, nessas primeiras eleições, era, primeiramente, marcar o seu espaço como força de oposição a um partido que até então não tinha

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tido oposição. A este propósito, afirmou Querido, “uma força política acaba de se construir, sem qualquer programa sério de governação e sem qualquer outro objetivo anunciado que não o de destruir e ilegalizar o PAICV” (Querido, 2011, p. 251).

Neste caso concreto da transição política em Cabo Verde, pode dizer-se, antes de mais, que se verificou aquilo que Huntington (1994) designou como a terceira vaga de democratizações, em que a maioria dos partidos da oposição eram recém -criados e apresentavam-se diante das populações como solução ou alternativa ao partido único, do qual o povo já estava exausto. Estes partidos assumiram-se como uma nova esperança do povo face ao regime.

Mas no caso de Cabo Verde, pode dizer-se também que o processo de transição democrática é um misto de transformação e transtituição. Do ponto de vista da transformação, houve a iniciativa do líder autoritário a dar os primeiros passos rumo à mudança. Por outro lado, do ponto de vista da transtituição, é de salientar o papel preponderante da oposição no que se refere à definição das regras relevantes do processo de mudança política e do novo paradigma que se avizinhava.

Os modelos de transição referidos por Huntington abrangem sobretudo o contexto das transições ocorridas na América Latina e no Leste Europeu, ao passo que este trabalho tem o seu foco na realidade africana, mais concretamente, na transição democrática em Cabo Verde. Apesar disso, julgamos ser pertinente analisar as transições democráticas ocorridas no continente africano fazendo analogia com essas transições ocorridas pela mesma altura na América Latina e no Leste Europeu.

Serão totalmente diferentes as transições ocorridas nesses três continentes? O que têm em comum? No que é que diferem? À primeira vista, a resposta é que são semelhantes, apesar de cada continente e até mesmo cada país (do mesmo continente) ter peculiaridades específicas, que derivam da cultura de cada continente e, de forma mais específica, de cada país. Uma segunda abordagem depara-se com um denominador em comum; o facto de todos, ou a maioria, serem países não democráticos que almejam democratizar o regime. É evidente que cada um deles iniciou, uns de forma mais rápida e outros mais lenta, o seu processo de democratização do regime. No entanto, como já se sublinhou, cada país tem o seu contexto interno próprio e influências externas do continente no qual está inserido, muitas vezes dos países vizinhos. Como se sabe, no caso africano, a maioria dos países que dele fazem parte são profundamente marcados pela multiplicidade

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religiosa, étnica e cultural. Esta multiplicidade dificultou, em muitos países, o processo de transição, bem como a consolidação da democracia.

O continente africano foi profundamente marcado no início da década 90 pela vasta onda de transições políticas. Segundo Nzouankeu (1991), as transições democráticas no continente africano apresentam singularidades próprias. Segundo o mesmo autor, podem considerar-se três modelos inéditos de transições: Transição por via de uma conferência nacional; transição imposta pela população e transição feita pelo regime. No primeiro caso, o objetivo é fazer uma transição pacífica. Benin é o país africano protótipo deste modelo de transição rumo à democracia. Segundo Bokalo (1993), no início dos anos 90, Benin vivia uma profunda crise político-económica que levou a vários protestos da população. Diante do sucedido, o regime autoritário organizara uma conferência nacional, cujo objetivo era o diálogo, a fim de as forças sociais e políticas chegarem a um acordo de modo a porem um término ao regime autoritário e iniciarem a consequente transição para a democracia. De facto, “este modelo de transição alargou-se pela África em 1991, seguindo o exemplo do Benin, como foi, por exemplo, o caso do Gabão, Congo, Mali, Togo, Níger e Zaire” (Bokalo, 1993, p. 16).

No segundo caso, transição imposta pela população, segundo Nzouankeu, (1991), a reforma política é antecedida de violência e, em muitos casos, de forma extrema, obrigando os governantes a fazerem reformas, de modo a pôr o fim à crise e evitar novos atos de violência e desordem social. Como exemplo deste tipo de transição, temos os casos de Argélia e Costa do Marfim. Nesses países, os níveis de violência foram tão extremos, que obrigaram o regime autoritário a reconhecer novos partidos da oposição e a calendarizar o processo de transição democrática (Nzouankeu, 1993, p.403).

O terceiro caso, a transição feita pelo regime, é semelhante à transição imposta pela população. A diferença consiste na antecipação do governo, o qual promete reformas políticas a fim de evitar atos de violência popular. Ou seja, o governo, apercebendo-se do aumento do nível de descontentamento da população, promete reformas no sistema político de modo a evitar atos de violência. Segundo Nzouankeu (1991), neste tipo de transição existem duas vertentes. A primeira, uma vontade sincera do regime autoritário em democratizar-se. A segunda, uma estratégia política do regime autoritário para serenar a população e evitar uma crise política, sendo a transição apenas um novo instrumento de dominação política.

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Analisou-se, até ao momento, os tipos de transição política que podem ocorrer e as suas particularidades. Mas é fundamental que se analise também as razões ou motivos que levaram regimes autoritários a mudarem as regras que os suportavam.

Muitos regimes autoritários viram-se forçados à abertura política devido a perda da legitimidade e, em muitos casos, devido ao insucesso económico. Os processos de transição política (terceira vaga) concentraram-se particularmente nos países do Leste Europeu, da América Latina e da África. No continente africano, esses processos não ocorreram de forma tão contínua como nos países do leste europeu, que sofreram um “efeito contágio” com a subida ao poder de Michael Gorbatchov na antiga União Soviética e a consequente derrocada dos regimes marxistas. Este facto não só teve consequências notáveis nos países do leste europeu, como provocou uma autêntica revolução em todo mundo. Deste modo, “as pequenas ditaduras do terceiro mundo que vinham conseguindo substanciais apoios do Ocidente e que sempre se posicionaram como peões no xadrez da disputa entre os dois grandes blocos viram -se, bruscamente, ameaçadas de extinção” (Querido, 2011, p. 245). De facto, os líderes do mundo ocidental decretaram o isolamento e a exclusão do mercado mundial dos países, principalmente, os pequenos e fracos, caso não adotassem as regras do pluralismo democrático e, sobretudo, uma completa abertura à iniciativa privada de todos os setores da vida económica. Portanto,

“na nova ordem estabelecida, aos governantes dos pequenos países cuja sobrevivência dependia, em larga medida, da ajuda do Ocidente, não restava outra saída: contrafeitos ou não, preparados ou não, tiveram que, à pressa e por vezes desajeitadamente, renegar as suas antigas convicções ou conveniências e declarar nos respetivos países o pluralismo político” (Querido, 2011, p. 245).

Normalmente, os regimes autoritários de partido único asseguravam a sua legitimidade através do nacionalismo e da ideologia. Ora, nos finais da década de 80, muitos desses regimes entraram em decadência e as desigualdades sociais tornaram -se mais evidentes, pelo que só a ideologia não bastava. Segundo Huntington (1994), esta decadência foi mais sentida nos regimes de cariz comunista (marxista-leninista), pois o regime tornou-se num claro obstáculo ao crescimento económico, impedindo esses países de se expandirem economicamente. O fator económico teve um papel fundamental nesse processo de transição democrática. O aumento do preço do petróleo, limitando as possibilidades de crescimento económico dos países de ideologia marxista-leninista, provocou desagrado contra o regime. Por outro lado, onde se verificou um crescimento económico e a consequente melhoria de vida das

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populações, principalmente da classe média, esta pressionou os líderes do regime a uma mudança política.

Outro fator influente no enfraquecimento dos regimes autoritários e no processo de transição política é o papel da Igreja Católica, muito mais sentida no Leste Europeu. Segundo Huntington (1994), em muitos destes países, a Igreja Católica teve um papel importante, ao fazer uma forte oposição aos regimes autoritários. No caso de Cabo Verde, também houve uma certa “tensão” entre o governo autoritário e a Igreja Católica local. Évora (2004) defende, de um modo genérico, que a Igreja Católica não chegou a assumir um papel de extrema relevância no processo de transição para a democracia em Cabo Verde, pois manifestou o seu apoio imediato ao partido da oposição, devido aos ressentimentos do clero católico local com o regime (Évora, 2004, p. 31). Contudo, esta ideia foi refutada por Fafali Koudawo (2011), o qual afirma que “a Igreja Católica desempenhou um papel muito importante enquanto entrave ao poder do PAIGC/CV, […] como força de resistência ao projeto de controlo total da sociedade pelo partido único” (Koudawo, 2011, p. 122).

Entretanto, dos fatores referidos, é sem dúvida o fator externo, principalmente a nível económico, que teve mais influência nos processos de transição democrática no continente africano. Como se sabe, os países africanos têm uma vasta dependência das ajudas externas, de uma forma especial aqueles que não têm muitos recursos naturais, como é o caso de Cabo Verde. Nesta perspetiva, poder-se-á dizer que um dos fatores preponderantes na aceleração do processo de transição no continente africano está intimamente ligado à ajuda externa, mais especificamente ao setor económico.

No caso concreto de Cabo Verde, poder-se-á distinguir 5 fatores fundamentais que influenciaram o processo de transição para a democracia. O primeiro é comum a quase todos os países africanos: a pressão exterior para uma mudança política, ou seja, para a democracia, sob a ameaça de não receberem ajuda, principalmente financeira. Tendo em conta que o maior aliado do PAICV era o comunismo do Leste Europeu, que por sua vez já não podia ajudá-lo por causa da derrocada dos regimes marxistas e a consequente subida ao poder de Michael Gorbatchov na antiga União Soviética, o partido único em Cabo Verde só tinha uma alternativa: ceder à pressão do Ocidente.

O segundo fator refere-se especificamente ao setor económico. De facto, o processo de liberalização da economia, iniciado em meados dos anos 80 pelo regim e,

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obrigou uma mudança no seio do próprio regime político. A necessidade de dar um novo dinamismo à economia levou o governo autoritário a adotar novas linhas de desenvolvimento a nível económico, dando mais possibilidades de investimento ao setor privado em áreas que até então eram da exclusividade do Estado. “O fraco desempenho da economia estatizada tinha originado desemprego e desequilíbrios sociais, e de forma a evitar uma revolta da população, os líderes do regime viram -se obrigados a darem início ao processo de transição democrática” (Silva, 1997, pp.3-7). Por outro lado,

“Nos finais dos anos 80, os indicadores gerais do desenvolvimento do país eram ainda bem pouco encorajadores: as ligações com o exterior e a integração económica do arquipélago no continente continuavam extremamente difíceis; as pequenas dimensões do mercado interno, aliadas ao baixíssimo poder de compra da população cabo-verdiana, continuavam sendo um sério obstáculo a qualquer atividade económica” (Querido, 2011, p. 235).

O terceiro fator está relacionado com a relação do partido único com a Igreja Católica em Cabo Verde, que não era muito saudável devido a algumas decisões políticas do partido que eram contrárias à doutrina da Igreja Católica. Neste sentido, afirma Almada (2011), os embates do Estado com a Igreja Católica, ao tomar certas medidas que não tiveram suficientemente em conta nem o momento, nem a realidade sociológica e cultural cabo-verdiana, como foi o caso da Lei da Reforma Agrária de 1982 e a Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez, em 1986, em nada facilitaram o bom relacionamento entre as duas instituições. Tais políticas do governo de partido único levaram a Igreja Católica local a uma reação através do seu representante máximo em Cabo Verde, o bispo D. Paulino Évora.

No Natal de 1990 na mensagem dirigida aos fiéis católicos de Cabo Verde, dizia o chefe máximo da Diocese:

“(…) aos católicos está vedado, está proibido dar o seu voto a partidos cujos princípios ideológicos, os objetivos e processos que preconizam, a realização histórica para que tendem, se lhes afigurem incompatíveis com a conceção cristã do homem e da sua vida em sociedade” (Évora, 1990, p. 9)

Segundo o bispo, era ponto assente que não merecem a confiança e o voto os programas que não asseguram o respeito pelos valores mais fundamentais, como a religião, a família, a vida, mesmo ainda dentro do ventre materno. Portanto, tendo em conta que mais de 90% da população cabo-verdiana era católica, esta tensão entre a Igreja Católica local e o governo influenciou bastante os eleitores que puniram, através de votos, o partido único nas eleições de janeiro de 1991.

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O quarto fator adveio da divisão e conflito de interesses no seio do próprio partido. Com medo de perderem os seus cargos, os elementos mais conservadores dentro do partido não eram recetivos à abertura política. Deste modo,

“os elementos mais conservadores, aqueles que receavam perder, com a abertura, o estatuto privilegiado de que beneficiavam, apesar dos pesares, tiveram que ceder e reconhecer que era impossível manter por muito mais tempo o regime de partido único. O que esperavam poder ainda conseguir era retardar e controlar todo o processo de mudança” (Querido, 2011, p. 246).

O ponto fundamental foi a mudança ministerial feita pelo então secretário geral do partido, Pedro Pires, poucos dias antes do Congresso extraordinário do PAICV, que provocou divergências e desagrado no interior do próprio partido. De facto,

“Osvaldo Lopes da Silva, profundamente revoltado por achar que tinha sido injustamente demitido do cargo de Ministro dos Transportes e Turismo, em termos duros e pouco usuais entre os camaradas vindos da Guiné, chamou Pedro Pires de ‘um simples comandante de retaguarda’ enquanto ele tinha lutado de armas na mão, contrariando assim o acordo de cavalheiros inicialmente firmado” (Querido, 2011, p. 248).

Diante deste cenário, rapidamente surgiram os primeiros sinais claros de mudança, que provocaram uma grande agitação no povo e uma onda que foi crescendo cada vez mais.

O quinto fator está relacionado com o papel da oposição. O surgimento de uma nova força política, o MPD (Movimento para a Democracia), trouxe novo rumo ao processo de reforma política. Sem um programa muito elaborado, o Movimento que acabara de surgir apostou em pequenas frases fáceis de fazer passar: “O PAIGC/CV é o causador de todas as desgraças do país; a democracia é o remédio milagroso para todos os males; o Movimento nascente é a encarnação da própria democracia” (Querido, 2011, p. 249). Essas mensagens facilmente surtiram efeito junto da população, principalmente nas camadas mais desfavorecidas

Até ao momento falou-se dos processos de transição de regimes autoritários para regimes democráticos, dos tipos de transição política existentes, das peculiaridades de transição política no continente africano, bem como das suas causas e consequências. Agora, centrar-nos-emos nos processos de consolidação democrática e nos requisitos necessários para classificar um regime como consolidado.

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O processo de transição política de um regime autoritário para um regime democrático não termina logo a seguir à alternância de regime. É necessária a consolidação do regime democrático. A maioria dos teóricos da democracia defende que um processo de mudança, de um regime autoritário para a democracia, passa necessariamente por dois processos. O primeiro é a transição do regime autoritário para o democrático, e o segundo, a consolidação do regime democrático recém-instalado.

Quando termina a transição para a democracia? Como saber quando se consolidou a democracia?

Não há uma data concreta ou um momento preciso para determinar o término do processo de transição. Contudo, “o êxito da realização de eleições livres, a convocação de um novo Parlamento, de cuja confiança o executivo dependerá, ou a tomada de posse de um novo presidente marcam o fim desse período” (Linz, 2015, pp. 122-123).

Segundo Weffort (1992), a maioria dos regimes democráticos que surgiram na terceira vaga da democratização revelaram algumas dificuldades em se consolidarem. Muitos deles não foram além das eleições e não avançaram para o processo de consolidação. Nestes casos, o governo é escolhido de acordo com eleições regulares, baseadas no voto secreto e no sufrágio universal, podendo existir uma certa competição entre os partidos políticos. Contudo, apesar dos direitos de associação até poderem ser respeitados, existe um défice de outros direitos e liberdades essenciais para que sejam considerados regimes democráticos.

Segundo considera O’Donnell (1994), se uma transição não der um passo à frente rumo à consolidação, corre o risco do insucesso da democracia. Para este autor, caso não seja consolidada a democracia instaurada, pode dar-se a morte da mesma, a qual tanto pode ser uma morte “súbita”, através de golpe militar, como uma “morte lenta”, quando desaparecem aos poucos os pilares essenciais da democracia. Para diminuir o risco de um retrocesso do regime autoritário, é necessário que os atores democráticos unam esforços para conduzir a transição do regime à consolidação democrática.

O processo de consolidação democrática exige algumas condições sine qua

non. “Falar de consolidação democrática exige analisar três condições mínimas e

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governa democraticamente” (Linz, 2015, p. 130). Contudo, existem outras características ou condições inerentes a estas três, como por exemplo, a dimensão constitucional, os comportamentos e as atitudes.

Quanto à dimensão constitucional: “um regime democrático está consolidado quando tanto as forças governamentais como as que estão fora do governo se sujeitam e habituam a resolver os conflitos de acordo com leis específicas, procedimentos e instituições sancionados pelo novo processo democrático” (Linz, 2015, p. 131). Portanto, quando todos os intervenientes políticos se consciencializarem que o conflito político se resolve seguindo normas estabelecidas, a democracia torna-se incontestada.

Do ponto de vista dos comportamentos, “um regime democrático está consolidado quando não há atores nacionais, sociais, económicos ou institucionais a despender recursos significativos em tentativas de estabelecer regimes não democráticos ou a consumar uma sucessão” (Linz, 2015, p. 131). Deste modo, quando não há nenhuma tentativa de derrubar o regime democrático, quer pelas forças internas quer pelas forças externas, por partes de grupos políticos, a democracia torna-se o fundamento de toda a ação política.

Do ponto de vista das atitudes,

“o regime democrático considera-se consolidado quando uma maioria expressiva da opinião pública, ainda que o país se debata com graves problemas económicos e exista uma insatisfação geral com o governo eleito, acredita que as instituições e os procedimentos democráticos constituem a forma mais apropriada ao governo da vida coletiva, e o apoio a alternativas antissistema apenas provém de uma minoria mais ou menos excluída das forças pró-democráticas” (Linz, 2015, p. 131).

Assim, quando todos acreditam, mesmo em tempos de crise, que a única forma de dar a volta à situação deve ser conseguida de acordo com as regras democráticas, a democracia torna-se a única forma de fazer política.

Deste modo, considera-se uma democracia consolidada quando “nenhum dos principais atores políticos, partidos ou interesses organizados, forças ou instituições, considerarem haver alternativa aos processos democráticos de chegar ao poder, e onde nenhuma instituição ou grupo político tem direito a vetar a ação dos governantes democraticamente eleitos” (Linz, 2015, p. 124). Portanto, há consolidação “quando “a democracia é vista como o único jogo possível na sociedade (the only game in town)” (Linz, 2015, p. 124).

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Para além destas condições, Linz (2015) apresenta mais cinco categorias. Primeiro, a necessidade de criar condições favoráveis ao progresso de uma sociedade civil livre e ativa. Entende-se, neste caso, por sociedade civil o “espaço onde se propicia a emergência de grupos, movimentos e indivíduos relativamente autónomos, que se auto-organizam e procuram veicular valores, criar associações e solidariedades e promover os seus interesses” (Linz, 2015, p. 132).

Segundo, a necessidade de uma sociedade política autónoma. Neste caso, entende-se por sociedade autónoma “aquele espaço onde os atores políticos competem pelo legítimo direito de controlar o poder público e o aparelho de Estado” (Linz,2015, p. 133).

Terceiro, império da lei no qual todos os atores políticos, principalmente o governo e o aparelho da administração pública, se submetem de forma a garantir as liberdades individuais e de associação. Isto significa que “os atores políticos mais importantes, em especial o governo democrático e o aparelho do Estado, têm de prestar contas e habituar-se ao império da lei” (Linz, 2015, p. 134). Por outras palavras, um Estado sujeito à lei: “a consolidação da democracia exige um Estado sujeito ao império da lei, com mecanismos de constrangimento incorporados” (Linz, 2015, p. 135).

Quarto, a necessidade de uma burocracia do Estado ao dispor do novo governo democrático. Significa isto que “uma democracia moderna requer a força suficiente para comandar, regular e cobrar impostos. E para isso precisa de dispor de um Estado funcional, com uma burocracia utilizável pelo novo governo democrático” (Linz, 2015, p. 137).

Quinto, a necessidade de uma sociedade económica institucionalizada, visto que “as democracias consolidadas e modernas exigem a construção e a aceitação de um conjunto de normas sociopolíticas, de instituições e de regulamentos que medeiam as relações do Estado com o mercado” (Linz, 2015, p. 137).

Em jeito de conclusão, pode dizer-se que uma democracia consolidada compreende cinco domínios intimamente ligados, cada um com a sua função própria, mas ineficazes quando agem de forma isolada, ou seja, só se atingem resultados satisfatórios, ou eficazes, quando eles agem como se fossem um só. É um sistema interativo, porque

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“numa democracia a sociedade civil precisa do apoio de leis que garantam a liberdade de associação, e precisa do auxílio da burocracia do Estado de modo a garantir que aqueles que tentam ilegalmente coartar tal direito sejam punidos. A sociedade política está incumbida da gestão da burocracia do Estado e da estrutura reguladora que guia e baliza a sociedade económica” (Linz, 215, p. 140).

Dito de outra maneira, cada um dos domínios do sistema democrático exerce impacto sobre as outras áreas. Num processo de consolidação, as mediações entre esses domínios são constantes e cada um deles é influenciado pelos outros.

Segundo O’Donnell (1991), a maioria dos países em que se instalaram regimes democráticos na ‘terceira vaga da democracia’ estão aquém de consolidarem as suas democracias, visto que esbarraram com alguns fatores que lhes impossibilitaram institucionalizar o regime democrático. Este autor considera que estes regimes herdaram uma crise económica e social colossal, impossibilitando o processo de consolidação e correndo assim o risco de um retrocesso ao antigo regime.

No caso concreto de Cabo Verde, a alternância governativa ocorreu dez anos após às primeiras eleições livres e diretas. Compreende-se que, nos primeiros dez anos, o país não foi além de eleger um governo democrático, ficando na impossibilidade de dar um passo à frente rumo à consolidação. É evidente que nesses dez anos algo foi feito, contudo, insuficiente para consolidar o regime democrático. É natural e comum muitos países do terceiro mundo estagnarem depois da transição democrática, devido às grandes dificuldades que encontram os partidos ao chegarem ao poder. De facto,

“a dificuldade das democracias do terceiro mundo em consolidarem-se está intimamente ligada à incapacidade de se criar um conjunto de instituições democráticas capazes de se transformarem em pontos decisivos do poder político. Daí, uma democracia não-institucionalizada, caracterizada por instituições débeis e a persistência de outras instituições que, mesmo sem serem formalizadas, têm uma grande influência na elaboração de políticas públicas” (O’Donnell, 1991, p. 26).

É de realçar que a transição de um regime autoritário para um governo eleito democraticamente não significa, nem garante, a consolidação do regime. Neste sentido, muitos atores políticos enganaram-se ao não se preocuparem em criar instituições que garantissem a instalação de um regime democrático, ou seja, a institucionalização da democracia. Não basta apenas uma sociedade civil, uma sociedade política autónoma, uma economia e um Estado eficiente, é necessário também um princípio de accountability para a consolidação efetiva do regime democrático. Segundo O’Donnell (1994), sem este princípio torna-se difícil preservar

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os direitos da democracia e, por outro lado, aumentam os riscos de arbitrariedade. Portanto, uma democracia consolidada exige a responsabilização ética não só dos governantes, mas também de todo o aparelho da administração pública perante os cidadãos. Deste modo, accoutability

“implica que todos os registos financeiros sejam sujeitos à inspeção, e todos os funcionários da função pública, principalmente os que lidam com o dinheiro público, têm a obrigação de agirem de forma transparente (…) e aqueles que tratam o tesouro público como se do seu património pessoal se tratasse, devem ser responsabilizados e punidos com a pena de prisão” (Linz e Stepan, 1999, p. 216).

A maioria das democracias do terceiro mundo registam um nível muito de baixo de accountabily, uma vez que nestas democracias vigora o sistema patrimonialista, embora seja contra funcionamento do Estado de direito. Recorde-se que o Estado de direito “é fundamental no processo de democratização, uma vez que, sem ele, os cidadãos não poderiam exercer, em liberdade e independência, os seus direitos políticos” (Linz, 2015, p. 135).

Terminamos, assim, este ponto, que teve como objetivo principal a conceitualização de termos como a transição e a consolidação dos regimes democráticos, bem como os tipos de transição e as suas causas, e também as características que permitem que um regime seja classificado como sendo consolidado. Como vimos, a transição de um regime autoritário para a democracia e a consolidação democrática são processos diferentes e que ocorrem em momentos destintos.

1.2 As consolidações democráticas em África

Existe uma ideia pouca favorável e generalizada sobre a concretização efetiva de transição democrática e a consequente democratização do regime nos países africanos. São vários os fatores, e de diversa índole - por exemplo, política, social, económica e cultural – que têm dificultado a consolidação da democracia no continente africano. De acordo com Flanary (1998), o fator político foi o que m ais influenciou os processos da democratização.

Muitos países africanos começaram o processo de transição do regime autoritário para a democracia. Contudo, muitos ficaram parados nesta primeira fase, sem avançarem para a etapa seguinte, que seria a consolidação do regime. Uma das

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condições mínimas e prévias para uma transição e consolidação democrática é haver um governo eleito através de eleições livre e diretas, além de uma total separação dos poderes, a saber: Legislativo, Executivo e Judicial.

No continente africano, nota-se um grande défice no que respeita à transição democrática, isto é, poucos são os países daquele continente que completaram as suas transições. Nos finais dos anos 90, muitos dos regimes autoritários iniciaram o processo de transição democrática, permitindo, assim, a legalização de novos partidos políticos, direitos de associação, reformas constitucionais, a fim de proporcionar eleições livres e diretas. Contudo, vários autores defendem que o processo da abertura política em África não passou de uma fachada, como testemunham as muitas fraudes eleitorais. Nesse sentido, afirma Bokalo (1993), a maioria dos regimes autoritários africanos centralizou o processo eleitoral, de modo a controlar o aparelho do Estado. Por sua vez, Joseph (1998) considera que o facto de a maioria dos países africanos permitir que a população vá às urnas não significa que estas eleições sejam livres, visto que não é garantido um verdadeiro direito de escolha. Em muitos casos, a liberdade de escolha é retirada ao povo através da pressão militar e policial, que desempenha uma enorme influência sobre os processos eleitorais. Deste modo, “os resultados das transições políticas em África são casos de ‘democracias virtuais’, pois existe apenas um funcionamento ilusório das instituições democráticas” (Joseph, 1998, p. 4).

Muitos autores consideram as democracias no continente africano “democracias virtuais”, tendo em conta que o processo de transição apenas se iniciou devido a forte pressão internacional, obrigando as autoridades à abertura política, ou seja, ao multipartidarismo. Acontece que a maioria desses países não apresentavam condições internas suficientes para este feito. As imposições por parte dos países benfeitores não deixaram aos países africanos outra escolha, senão ceder à pressão e adotarem um “constitucionalismo de aparência”, a fim de conseguir ajuda internacional.

Uma outra condição básica para a consolidação democrática é a existência do Estado. No continente africano, pela sua heterogeneidade, religiosa, étnica, cultural, torna-se mais difícil consolidar o Estado. Esta multiplicidade torna-se um obstáculo á consolidação. É de salientar que “existe mais do que uma nação viva no seio do Estado e que, iniciada uma transição para a democracia, uma situação económica difícil pode prolongar-se” (Linz,2015, p. 140). Nesses casos, o caminho a seguir é o

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das políticas que sejam capazes de aumentar a homogeneidade cultural, ou seja, políticas de incremento do Estado-nação. A mensagem dos líderes deve passar pela consciencialização do povo de que o Estado deve ser ‘da e para nação’. Por esse motivo,

“nas Constituições que escrevem e nas políticas que se desenvolvem, a língua dominante torna-se a única oficial e, ocasionalmente, a única aceitável na burocracia do Estado e na educação; a religião da nação é favorecida e a cultura da nação dominante é privilegiada nos símbolos nacionais” (Linz, 2015, p. 141).

Dito de outra forma, “as políticas democráticas na construção do Estado são todas aquelas que dão ênfase a uma cidadania alargada e inclusiva e que conferem direitos iguais a todos” (Linz, 2015, p. 141).

O outro fator que se pode identificar como obstáculo à consolidação no continente africano é a herança autoritária, que remonta aos tempos da colonização e foi reavivada no pós-independência com a introdução de regimes autoritários. É neste sentido que Flanary (1998) considera que a estrutura autoritária tem impedido o crescimento e desenvolvimento da democracia em África.

É interessante sublinhar que uma das razões pelas quais os líderes africanos iniciaram à luta pela independência era precisamente o facto de acreditarem que como Estados independentes obteriam mais-valias no que se refere ao bem-estar do povo, através da diminuição da pobreza e da instauração da paz. Contudo, tal não passou de uma utopia, uma vez que depois de alcançarem a independência nada disso se concretizou, pelo contrário, mantiveram as estruturas centralizadas e autoritárias da época colonial sob novo rosto, o sistema de partido único. É evidente que houve uma certa descontinuidade após a independência, mas também continuou, de certa maneira, uma herança deixada pelos antigos colonos, como por exemplo, o aspeto económico e a burocracia do Estado.

Com um grau elevadíssimo de centralismo e uma economia fraca, o Estado, nesses países africanos, tornou-se numa via principal para ascensão social. Nesse sentido, afirma Falton (1990), a classe dominante em África é aquela que dispõe do poder do Estado. Isso significa que todos aqueles que não possuem o poder do Estado estão num nível inferior em relação aos que beneficiam desse privilégio, que os tornam a classe dominante. Percebe-se assim as fraudes e as corrupções, visto que o poder político se tornou quase exclusivamente num meio de enriquecimento pessoal para uma minoria que detém o poder. Trata-se, segundo Flanary (1998), de

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uma política que se baseia nas relações clientelistas, no qual o Estado não passa de um negócio que gera dinheiro, poder e status.

Uma outra condição para a consolidação democrática é a existência de uma sociedade política autónoma. O facto é que em muitos países africanos esta condição é inexistente, o que torna um entrave à consolidação da democracia. Depois da independência muitos países do continente africano optaram por regimes monopartidários, que de certo modo, estagnou todo e qualquer tipo de concorrência política.

Um outro fator que impossibilita a democratização do regime em África é o facto de muitos governos não reconhecerem a legitimidade do multipartidarismo, mesmo depois da abertura política e da realização de eleições livres, ou seja, não reconhecem uma oposição legal. Neste sentido, Nzouankeu (1991) considera que o facto desses governos não reconhecerem uma oposição legítima e legal advém da ideia de que o partido é o Estado. Segundo este autor, se não houver uma separação legal entre o partido e o Estado, este continua a beneficiar o partido dominante. De facto, uma grande maioria dos países africanos mantem uma burocracia amplamente politizada, na medida em que os altos cargos estão reservados àqueles que, direta ou indiretamente, pertencem ao partido. Deste modo, torna-se difícil consolidar a democracia, visto que a burocracia não funciona.

Por outro lado, encontra-se nesses países uma sociedade civil débil, não só pelo colonialismo, mas também pela adoção de regimes monopartidários que permitiram uma cultura de submissão naquele continente. De acordo com Boadi (1996), este facto deve-se à implementação do autoritarismo em África, que, de certa maneira, impossibilitou o desenvolvimento de uma sociedade civil forte e deixou as associações de cidadãos sob o controlo do regime e sem poderem participar na atividade política. Segundo Monga (1997), a sociedade civil nos países africanos continua muito coagida e, de certa forma, há um desinteresse generalizado e um desencanto político. Considera o mesmo autor que muitos governos daquele continente não reconheceram constitucionalmente os direitos da sociedade civil, mesmo com a instauração do multipartidarismo. De facto, em muitos desses países, os governos mantêm sob controlo apertado as associações da sociedade civil e, até mesmo, as organizações sociais, não reconhecendo, por exemplo, os sindicatos.

Por sua vez, Joseph (1998) realça que, em muitos países do continente africano, o direito ao voto não é um dado adquirido e, muitas vezes, o sufrágio nem

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sequer é universal, principalmente nos regimes onde vigora o militarismo e onde as eleições são controladas ou mesmo boicotadas.

A existência de uma sociedade económica institucionalizada, uma sociedade económica que seja capaz de mediar as relações entre o Estado e o mercado, é uma das condições para a consolidação democrática. Mais uma vez, os países africanos apresentam um grande défice neste setor. Segundo Flanary (1998), a colonização dos países do continente africano não permitiu que haja um desenvolvimento de uma economia autónoma e produtiva. Em vez disso, instaurou um sistema de exploração económica alicerçado numa dinâmica de dependência. Neste sentido, compreende-se o facto de, no período pós-independência, os regimes de partido único em África se terem tornado mais dependentes do Ocidente e do Leste europeu e, consequentemente não modernizaram, nem dinamizaram, o setor económico.

De acordo com Nzouankeu (1991), o partido único preservou uma grande dependência no continente africano. O Estado é visto como “grande negócio”, do qual só beneficia um grupo restrito no poder e seus familiares, permitindo, deste modo, o alastramento da corrupção naquele continente, que parece ser uma rotina nos países africanos. Por outro lado, Flanary (1998) considera que um dos grandes erros dos Estados africanos é o facto de não garantirem uma qualidade de vida estável às pessoas e não serem capazes de promoverem o desenvolvimento e o crescimento de uma economia autónoma e eficaz. Uma economia fortemente centralizada e baseada na planificação estatal tornou-se, sem dúvida, numa das barreiras face ao desenvolvimento de uma economia privada sustentável e, consequentemente, um entrave à consolidação da democracia em África.

Entretanto, a maioria dos autores consideram a democracia africana como “democracia virtual”, uma vez que as possibilidades de uma consolidação democrática são mínimas. Muitos politólogos defendem que só será possível uma consolidação nos países africanos quando houver uma mudança radical no seio da sociedade e do Estado. Por outro lado, Monga (1997), reconhece que é fundamental que os africanos reconheçam a legitimidade e autoridade do Estado. Uma autoridade que não se baseie no medo ou na violência, mas sim na moral. Assim, quando o Estado for reconhecido legal e institucionalmente como o poder legítimo, garantirá o pluralismo político, ou seja, o reconhecimento de outros partidos políticos. Por outro lado, é da competência do Estado garantir as liberdades civis, tais como o direito de associação,

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de manifestação, a liberdade de imprensa e a realização de eleições através do voto secreto.

Segundo Nzouankeu (1991), para que haja realmente democracia nos países africanos, é necessário, além de um Estado democrático e uma sociedade democrática, uma geopolítica democrática. Uma geopolítica democrática constituiria, de certa maneira, um estímulo acrescentado à consolidação da democracia naquele continente. Segundo o mesmo autor, uma das causas da fragilidade da democracia em África consiste na existência de certa hostilidade à democracia na maioria das regiões. Esta antipatia à democracia pode causar consequências graves ao regime, inclusive o regresso ao regime anterior, ou seja, ao autoritarismo. Neste sentido, percebe-se que a regionalização do pluralismo seria uma - valia no que se refere à criação de zonas politicamente homogéneas, podendo, de certa maneira, contagiar não só as outras regiões como também os países vizinhos.

Referências

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