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Quebrando
PARADlliMA!i
Ed René Kivitz
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Ahnã
Rua Manuel Alonso Medina, 298- São Paulo - SP - CEP 04650-031 Tels./Fax (11) 5686-5058 • 5686-7046 • 5523-9441
Site: www.abbapress.com.br E-mail: [email protected]
© Abba Press Editora Ltda Categoria: Liderança Cód.: 01.106.0995.6 7ª Edição no Brasil Dezembro de 2008 Revisão de texto por Lourenço Stélio Rega Coordenação Editorial Oswaldo Paião Jr. Impressão e Acabamento Imprensa da Fé ISBN 978 - 85-85931-01-9 Arte da Capa
Durante anos, os suíços dominaram, absolutos, o conceito de narcar a hora. O relógio suíço tinha a máquina e a mais avançada tecnologia. Até que um novo paradigma revolucionou o mercado. Surgiu o relógio digital, à bateria de quartzo, produzido com alta tecnofogía pelos asiáticos, principalmente japoneses em parceria com os americanos. A ironia é que foram os suíços que inventaram os relógios a quartzo, mas ficaram presos no seu paradigma de relógios mecânicos.
A concepção artística da capa deste livro, procura inovar e ilustrar a quebra dos paradigmas. Por isso, causa certa estranheza em alguns observadores. Essa experiência demonstra o quanto é difícil para nós, especialmente evangélicos, aceitarmos novas maneiras de fazer as coisas e ver o mundo.
É permitida a reprodução de partes desse livro, desde que citada a fonte e com a devida autorização dos editores.
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Ahnã
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Prefácio ... 05
Introdução ... 07
1. O Conceito de Paradigmas ... 11
II. Bases Bíblicas e Teológicas Para a Igreja ... 15
1. A Razão de Ser da Igreja 2. A Missão da Igreja 3. A Filosofia da Igreja III. A Igreja e Seus Paradigmas ... 37
1. A Igreja e o Templo 2. A Igreja e o Domingo 3. A Igreja e o Clero 4. A Igreja e o Culto Síntese e Quadro Sinóptico dos Paradigmas IV. A Igreja e Seus Novos Paradigmas ... 57
1. Pequenos Grupos e Discipulado 2. Pequenos Grupos e Cuidado do Rebanho 3. Pequenos Grupos e Ministérios Pessoais 4. Pequenos Grupos e Liderança na Igreja Quadro Sinóptico a Respeito dos Pequenos Grupos V. Radicalizando na Visão ... 7 5 VI. Conclusão ... 97
Ao Douglas Spurlock, meu inesquecível discipulador
À Igreja Batista de Água Branca, minha grande família
À minha esposa Silvia Regina, e meus filhos Fernanda e Vitor, pedacinho de céu na minha vida
Agradecimentos
Almir Cordeiro Jr.,
que me iniciou nas ciências do Planejamento Estratégico
Lourenço Stélio Rega,
que revisou e lapidou o texto
Comissão de Planejamento Estratégico da Igreja Batista de Água Branca:
Nelson Beck Machado, Eliseu Jorge, Marcos Flávio de Cabral Moraes Jr.,
João Alexandre Fabossi, Alberto Sanches Borgufío, Walter Gomes Jr., Claudio Lemos Pinheiro, Roberto Nobuyuki Handa, Jaime Augusto Cisterna, que discutiu teologia com piedade e amor ao corpo de Cristo
O Pastor Ed René Kivitz é um dos mais proeminentes pensadores da nossa geração de pastores que o Espírito Santo tem levantado na Igreja Evangélica do Brasil.
O presente trabalho revela o modo objetivo, claro e profundo de seu pensamento. Isto porque o Ed é sobre-tudo, pastor. Ele pensa com acuidade intelectual, mas dirige o fluxo de seu trabalho para o estímulo pastoral que a igreja precisa receber.
Neste livro você vai encontrar um dos temas mais desafiantes que está posto para a Igreja nessa virada de milênio: a quebra de paradigmas que foram sacralizados, mas nada tem a ver com a revelação de Deus em Sua palavra.
Identificar que paradigmas são esses, como e por-que eles devem ser por-quebrados é a tarefa a por-que o pastor Ed se propõe neste livro. E consegue.
O que você vai sentir enquanto ler, é que o texto é provocativo, porém sério e reverente. Não há nele ne-nhum desejo de "mudança por mudança". Ao contrário, as razões para mudar são teológicas estrategicamente justificadas e elas fazem total sentido.
Eu, pessoalmente, me sinto extremamente compro-metido com o tema deste livro. Afinal, faz alguns anos que venho insistindo na necessidade da quebra de al-guns paradigmas que atrapalham a realização plena da missão da igreja. Por esta razão, o livro do pastor Ed René Kivitz me dá um profundo senso de gratificação ministerial, pois não apenas visa minhas convicções aqui apresentadas, mas feitas de maneira muito melhor do que eu jamais fiz.
Saio em busca de um jeito de ser Igreja capaz de equilibrar fidelidade às Escrituras e relevância mi-nisterial na sociedade urbana contemporânea. Arrisco-me nesta aventura com o coração apoiado em três pilares. Primeiro, o temor de quem sabe que a Igreja não é uma instituição humana nem o resultado do esforço de alguns poucos amigos em desenvolverem um projeto de convivência. Sei que a Igreja é o povo de Deus, um povo que o Senhor Jesus comprou com seu próprio sangue (At 20.28). Sei que por trás das formas institucionais e por trás de estatutos, regimentos, cons-tituições, costumes e culturas, há um povo que é pro-priedade peculiar de Deus (1 Pe 2.9). Sei que devo medir minhas palavras, tomar cuidado quando o ardor dos meus poucos anos me impulsionar a criticar, apontar novos caminhos ou sugerir mudanças, e falar muito cautelosamente, com um olho no leitor e outro no semblante do Senhbr da Igreja.
Em segundo lugar, move-me um fortíssimo senso de respeito e gratidão aos irmãos que de boa vontade se gastaram e deixaram-se gastar por este empreen-dimento eterno chamqdo Igreja (2 Co 12.15). Olho para a Igreja hoje sabendo que a estrutura eclesiástica que temos é fruto de "sangue, suor e lágrimas" de tantos que, assim como nós, amaram a Igreja e se deram por ela.
Finalmente, há no meu coração um senso de obrigação. A fidelidade a Deus e ao seu povo não nos deixa outra alternativa do que não encararmos de frente, tendo em vista uma reflexão séria e piedosa, os diversos jeitos de ser igreja hoje. A ambição do meu
coração é repetir a caminhada de Davi, que "serviu a sua própria geração segundo a vontade de Deus" (At
13.36).
Lembro-me do dia quando um irmão mais idoso, diácono da Igreja onde eu servia como pastor, bateu no meu ombro e me disse em tom solene: "Não se fazem mais pastores como antigamente". Numa fração de segundos os grandes expoentes de minha denominação passaram pela minha mente. Pensamentos como "a dignidade do púlpito" ou "a postura de um ministro de Deus" ecoaram em minha consciência trombando-se com meu auto-retrato.
A observação sobre "pastores como antigamente" me atormentou por muito tempo e ocupou muito de minhas reflexões e orações, até que um dia Deus me respondeu trazendo-me um desafio ainda maior do que a reprodução dos modelos do passado. Compreendi que é certo que não se fazem mais pastores como anti-gamente, justamente pelo jato de que já não se fazem mais pastores para antigamente.
Dewey Mulholland disse que "a reforma Protes-tante do Século XVI foi essencialmente teológica, mas ainda precisamos urgentemente de uma reforma eclesiológica". Estas palavras deram o tom do meu pre-paro acadêmico para o exercício do ministério pastoral. Desde então, sou movido pela convicção de que a Igreja está o que não é, e que o mote presbiteriano é um desafio renovado para cada geração de cristãos: "uma Igreja reformada, sempre se reformando". Eclesiologia é meu tema predileto ejá nem me lembro mais quanto tempo faz que por ele me apaixonei.
Assim pois, ainda que respeitosa e cautelosa-mente, caminho pelos bastidores de estruturas e men-talidades vigentes na eclesiologia evangélica brasileira,
em busca de coerência entre a fidelidade às Escrituras e a relevância ministerial na sociedade urbana contemporânea.
Este texto que você tem em mãos é resultado de mais de 10 anos de pesquisa e experimentos concomi-tantes ao serviço pastoral. Sigo à risca o ditado que ensina que "copiar de um é plágio; copiar de mil é pesquisa". Talvez, e muito provavelmente, as idéias, opiniões e conclusões que você mesmo nutre acerca da Igreja estejam esboçadas nestas páginas. Não du-vido. Muitas delas cresceram em mim após conversas com pastores, participações em congressos, escuta de preletores diversos, trânsito entre o rebanho, conselhos de homens fiéis, muita leitura e, principalmente, periodos longos e intensos de recolhimento na presença de Deus. Tudo isso, experiência muito próxima da sua. Aqui está o norte provisório de meu serviço como pastor de uma igreja local num grande centro urbano como São Paulo, que espero servir de referencial para sua busca não menos intensa de servir a Deus, servin-do à igreja de forma atual, relevante, bíblica e cheia da imprescindível unção do Espírito Santo.
1
O
Conceito
de
Paradigmas
~que
é um paradigma? O dicionário indica ser uma palavra de origem grega (gr. paradeigma) que significa "modelo" ou "padrão". A melhor fonte para nossa conceituação é Joel Arthur Barker, que desde 197 4 vem trabalhando com pesquisas e consultoria para grandes empresas, principalmente nas áreas de inovação e antecipação ao futuro. Barker (1992, p.32), após citar vários autores e pesquisadores, tais como Thomas Khun, autor de A estrutura das revoluçõescientíficas, amplamente usado no mundo das ciências,
Wills Harmon, homem chave do Standford Research Institute, e Marilyn Ferguson, editora e produtora do New Sense Bulletin, apresenta sua definição de "para-digma":
Conjunto de regras e regulamentos (explícitos e não explícitos) que fazem duas coisas: (1) estabelecem li-mites ou fronteiras; (2) nos dizem como devemos nos comportar dentro destes limites de forma
a
sermos bem sucedidos.Além desta definição, Barker (1992, p.35) nos apresenta uma lista de palavras que se associam ao conceito de paradigma. São elas:
Teorias Medidas Modelos Hábitos Métodos Princípios Padrões Estruturas Rotinas Costumes Convenções Dogmas Senso comum Janelas convencionais Valores Preconceitos Tradições Doutrinas Ideologias Regras
Paradigmas são, portanto, as fronteiras dentro das quais o sucesso deve ser construído e as soluções para os problemas devem ser encontradas. Paradigmas
são limites de possibilidades. Paradigmas são "verda-des" que se fixaram na mente e que indicam um jeito de ser, viver ou fazer as coisas. Novos paradigmas sur-gem quando alguém descobre um jeito diferente de encarar ou fazer alguma coisa. Após repetidas expe-riências bem sucedidas à luz dos novos paradigmas,
eles acabam por se instalar como regras que possuem um ar de definitivas, até que alguém as quebre, gerando outros e novos paradigmas. Veja uma breve lista de situações resultantes da quebra de paradigmas nos últimos anos:
@! O desrespeito à autoridade, na família e na sociedade em geral.
@! A valorização da informação como maior
ri-queza.
!@Abordagem pública da sexualidade; linguagem obscena no rádio e 1V.
!@ Aceitação gradativa do homossexualismo. !@ Descoberta de que nem sempre o maior é o melhor: "small is beautiful".
[@ O "mundo digital".
l@ A participação da mulher na política e nos negócios.
l@ O Japão como paradigma de qualidade. Agora, observe algumas coisas que tempos atrás foram tidas como improváveis, ou mesmo impossíveis. Veja o que disseram alguns dos mais ilustres homens do passado (Barker, 1992, p. 89).
l@ "Voar através de máquinas mais pesadas que o ar é impraticável e insignificante, senão completa-mente impossível" (Simon Newcomb, astrônomo, em 1902)
[@ Mulheres sensíveis e responsáveis não querem
votar" ( Grover Cleveland, em 1905)
[@ "Quem será o louco que vai querer ouvir atores
falando?" (Harry Warner, Warner Brothres Pictures, em 1927)
[@ Eu penso que existe um mercado mundial para
apenas cinco computadores" (Thomas Watson, chair-man da IBM, em 1943)
[@ "Não existe qualquer razão para que uma
pes-soa tenha um computador em casa" (Ken Olsen, Pre-sidente da Digital Equipment Corporation, em 1977)
Os paradigmas, portanto, ao mesmo tempo em
que estabelecem os limites e referenciais de segurança pessoal e institucional, podem se transformar em blo-queios para projetos que beneficiariam milhares de
pessoas. Quebrar urna regra de trânsito, pode custar a vida de alguém, e nesse caso, o paradigma é um instrumento para a segurança e a ordem nos grandes centros urbanos. Por outro lado, deixar de repensar os paradigmas ou obstacular seus aprimoramentos ou mutações pode causar grandes prejuízos.
A esta altura de nossa argumentação duas res-salvas são necessárias. A primeira diz respeito ao fato de que ninguém vive sem paradigmas. É impossível viver sem regras e padrões de raciocínio. Nesse caso, devemos verificar constantemente se nossos paradig-mas estão compatíveis com a realidade.
A segunda ressalva brota do ditado popular que adverte para o fato de que ao jogarmos fora a água da bacia, devemos cuidar para não jogarmos também o bebê que foi banhado. Evidentemente, há critérios que devem ser observados quando falamos em "quebrar paradigmas". O equilíbrio nessa questão talvez se enquadre nas mais dificeis artes.
Nesse caso, a quebra de paradigmas deve ser norteada pelos mais elevados valores morais de urna sociedade, e em nosso caso, enquanto cristãos, pelas Sagradas Escrituras que apresentam princípios imu-táveis e universais. Em outras palavras, há paradig-mas irrevogáveis. Encontrá-los é urna das mais subli-mes tarefa dos que pretendem mudar o mundo.
II
Bases Bíblicas
e Teológicas
Para a Igreja
:Í-ormulação Estratégica, Planejamento Es-tratégico, Downsizing, Qualidade Total, Reengenharia, dentre outros, são termos identificados com a exce-lência em produtos e serviços na administração mo-derna. São termos técnicos, não raras vezes entrelaça-dos e controvertientrelaça-dos, capazes de afirmar o óbvio com tamanha precisão que as organizações que negligen-ciam estes processos estão fadadas ao fracasso. São ferramentas tão válidas para as organizações, quanto as fórmulas da física são válidas para a construção de aviões e as leis espirituais para a saúde existencial.
Karl Lachler, meu professor na Faculdade Teo-lógica Batista de São Paulo, sempre dizia em suas aulas que "tudo que está na Bíblia é verdade, mas nem tudo que é verdade está na Bíblia". Certamente a área de estruturas e processos organizacionais enquadra-se nesta afirmação. Isto é, quando focalizamos a comu-nidade cristã local como grupo de cristãos unidos em função de objetivos comuns, obviamente a sabedoria chamada secular tem muito a nos ensinar, sem que isso desmereça quaisquer conteúdos bíblicos e teoló-gicos.
Nesse caso, o uso das mais modernas e eficazes concepções gerenciais e administrativas é
perfeita-mente plausível no contexto da comunidade cristã. Assim como um pastor se vale dos ensinamentos da psicologia para sua prática de conselheiro, dos insights
da sociologia e antropologia para a interpretação de sua cultura, e dos recursos da medicina para cuidar do filho com febre, também deve valer-se dos princípios para gerenciamento de pessoas ou grupos, tendo em vista não somente viabilizar que cada cristão cumpra seu ministério pessoal, como também mobilizar a Igreja como um todo para que cumpra sua missão no mundo. Com isto em mente, com a mesma seriedade com que dou ouvidos aos teólogos mais credenciados, tam-bém presto atenção àquilo que os administradores e consultores têm a dizer, mesmo porque muitos deles são cristãos apaixonados pelo Rei e pelo reino. Foi com homens assim que aprendi a distinguir alguns concei-tos interessantes, capazes de nos conceder uma melhor visualização de nossas instituições.
CONCEITO DEFINIÇÃO
Razão Necessidade do mercado que justifica a
de Ser existência de uma instituição
Resposta de uma instituição à uma
neces-Missão sidade específica do mercado; o que a
insti-tuição pretende fazer para suprir a neces-sidade do mercado
Fator de distinção entre instituições afins; o que caracteriza e cria a singularidade de uma
Filosofia instituição (os manuais usam ainda outros termos tais como crenças, valores, cultura ou
1. A Razão de Ser da Igreja
Que razões teria Deus para estabelecer a Igreja no mundo e trabalhar para sua manutenção e expan-são? Qual é a razão de ser da Igreja? Qual é o propósito principal da Igreja?
Escolhi a carta do apóstolo Paulo aos Efésios para basear minhas respostas. Ali, estão expostos os propósitos eternos de Deus, coisas que Deus planejou e fez antes da fundação do mundo e que foram se concretizando na história. Efésios é uma síntese de toda a Bíblia, e um texto tão abrangente que pode tratar com profundidade tanto dos conflitos do Oriente Médio quanto das brigas de um casal na segunda-feira.
Sendo fato que, como diz Efésios, as coisas come-çam a acontecer desde antes da fundação do mundo, então o melhor que podemos fazer é "começar do início por uma questão de princípios": Génesis é nosso ponto de partida.
O texto de Génesis narra a criação do ser huma-no, nas pessoas de Adão e Eva. A narrativa nos dá conta de que Deus delegou a Adão e Eva poder e autori-dade sobre a criação, e eles tornaram-se responsáveis pela administração do universo (Gn 1.26-28). Valeres-saltar que Deus não .deu autonomia ao ser humano, apenas compartilhou com ele a administração da cria-ção. Nada no universo pode ser autônomo em relação a Deus, senão teríamos dois deuses.
Houve, porém, um momento em que o ser huma-no resolveu assumir o controle do universo para gover-ná-lo por si mesmo, deixando Deus de lado. Deus era o paradigma através do qual o ser humano derivava sua concepção de certo e errado, bem e mal. Mas, o ser humano acreditou que, tendo acesso à árvore do
conhecimento do bem e do mal, poderia assumir o papel de normatizador do universo, poderia chamar para si o direito de ser a fonte de autoridade acerca do bem e do mal, do certo e do errado. Deus, que era o centro de todas as coisas, foi posto de lado.
Evidentemente, Deus fez valer o contrato. Dizia a cláusula de segurança que no dia em que o ser humano partisse para "carreira solo", morreria (Gn 2.1 7). De fato, o advento do pecado trouxe a morte, em pelo menos cinco dimensões:
(1) Morte fISica, porque agora o homem, criado
para viver eternamente, experimenta a fragilização do seu corpo até às últimas conseqüências (Gn 3.22).
(2) Morte social, porque o homem, criado para
uma vida de comunhão e companheirismo com seus semelhantes, agora experimenta uma sucessão inter-minável de guerras e conflitos, transferindo sempre, à semelhança de Adão e Eva (Gn 3.12, 13), suas culpas interiores para terceiros.
(3) Morte existencial, porque o homem, criado
com completo autodomínio, experimenta a realidade do medo, da culpa e a fragmentação de si mesmo, chegando a ponto de afirmar ser capaz apenas de fazer o mal que aborrece e incapaz de concretizar o bem que deseja (Gn 3. 10; Rm 7.15).
(4) Morte cósmica, porque o homem, criado para
dominar a criação, tornou-se hóspede e prisioneiro do universo, sofrendo o flagelo de maremotos e terremo-tos, padecendo o câncer e a AIDS, e vivendo menos. Tudo isso resultado de um universo administrado pela
criatura, que é incapaz de administrar a si mesma. (5) Morte espiritual, a mais básica e determinante de todas as outras. Separação de Deus, quebra do rela-cionamento básico e expulsão do paraíso, ou expul-são da presença de Deus (Gn 3.23,24).
Cedendo à tentação da serpente, o ser humano criado para dominar sob a ação e bênção de Deus, tornou-se um hóspede prisioneiro do universo, sob a ira e o juízo de Deus. O universo se desconjuntou e tudo ficou fora do lugar. A terra, que Deus dera aos filhos dos homens (Sl 115.16), os filhos dos homens a entregaram ao inimigo, e por isso a Bíblia chama o Diabo de "deus deste século (presente ordem)" (2 Co 4.4), e diz o que "o mundo (universo criado) jaz no maligno" (1 Jo 5.19). Diz também que o ser humano não está mais sob a influência de Deus, mas sim sob a tirania do "príncipe das potestades do ar, o espírito que opera nos filhos da desobediência", e agora não faz mais a vontade de Deus, mas "a vontade da carne e dos pensamentos", vive seguindo seus instintos des-controlados e seus desejos desenfreados (Ef2. l-3). Não é de admirar que o mundo esteja todo desarranjado.
Efésios, entretanto, vai mais além. Descreve que Deus jamais desistiu de sua criação e projetou um plano de resgate. Estabeleceu um propósito bem defi-nido e tomou todas providências para que ele se consu-masse. Diz o apóstolo Paulo que o propósito eterno de Deus é "fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra" (Ef 1.1 O). Isto é, Deus pretende trazer de volta para debaixo do seu controle o universo usurpado pelo diabo.
veio como enviado do Pai para "buscar e salvar o que se havia perdido" {Lc 19.10). Na cruz, o Senhor Jesus "arrancou as armas dos principados e potestades e triunfou sobre eles" (Cl 2.15). Em outras palavras, com sua morte, o Senhor Jesus estava reconciliando o mun-do com Deus, isto é, satisfazenmun-do a justiça ultrajada de Deus (2 Co 5.19-21), e readquirindo os direitos sobre todo o universo. Por isso a teologia diz que o universo pertence a Deus duas vezes: por direito de criação e por direito de redenção.
Deus Pai honrou o sacrifício do Senhor Jesus, e deixou isso bem claro ressuscitando-o de entre os mor-tos e "fazendo-o sentar-se à sua direita nos céus, muito acima de todo principado, e autoridade, e poder, e do-mínio, e de todo nome que se nomeia, não somente neste século mas também no vindouro" (Ef 1.20,21).
Foi por isso que o Senhor Jesus, ressurreto, reu-niu seus discípulos e declarou solenemente que "toda a autoridade me foi dada no céu e na terra" (Mt 28.19). Em síntese, a boa notícia do evangelho é que o universo tem um novo chefe: Jesus Cristo, o Senhor.
Podemos concordar com Ariovaldo Ramos quando diz que o status do Senhor Jesus é tríplice:
(1) O Senhor Jesus é o centro de todo o imiverso:
"fazer convergir em Cristo todas as coisas" (Ef 1.10). Isto quer dizer que tudo no universo deve acontecer segundo os interesses e de acordo com o jeito do Senhor Jesus.
(2) O Senhor Jesus é o cabeça de todo o universo:
"sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés( ... ) para ser cabeça sobre todas as coisas" (Ef 1.22). Isto implica
dizer que o Senhor Jesus é a única autoridade sobre tudo e todos, e que todas as realidades devem se curvar
à sua vontade.
(3) O Senhor Jesus é a plenitude do universo:
"cumpre tudo em todas as coisas" (Ef 1.23). O que significa que todas as realidades devem expressar o Senhor Jesus, uma vez que somente em coerência com ele o universo faz sentido, adquire seu potencial má-ximo e realiza em si mesmo o propósito para o qual foi criado.
A comparação entre esta percepção teológica e a realidade do mundo nos conduzem à constatação de que todo o universo pertence ao Senhor Jesus de direito de criação e redenção, mas ainda está em rebeldia, o que nos introduz na seqüência de Efésios, quando o apóstolo Paulo nos ensina que "para que o Senhor Jesus exerça domínio, seja o cabeça, sobre todo o uni-verso, Deus o constituiu cabeça da Igreja" (Ef 1.22,23). Isto é, o projeto inicial de Deus ainda está valendo: os céus ainda são os céus do Senhor e a terra continua entregue aos filhos dos homens. Deus ainda pretende agir no mundo e dominar sua criação através daqueles que se submetem a Ele.
Conclui-se, portanto, que a Igreja ocupa lugar central no processo de retomada do reino de Deus. A estratégia de Deus para redimir o universo inclui a criação de uma nova humanidade em Cristo Jesus. Paulo, apóstolo, ensina que:
"... a criação aguarda com ardente expectativa a
revelação dos filhos de Deus. Porquanto
a
criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causadaquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjunta-mente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguar-dando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo" (Rm 8.18-23).
"Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação" (2Co
5.19).
Em outras palavras, a plena redenção do uni-verso se consumará quando a nova humanidade em Cristo estiver construída. O ato redentor de Deus reco-locando o homem em seu status original trás impli-cações para a harmonia plena do universo. O raciocínio teológico segue a lógica de que assim como todo o universo foi afeta do pelo pecado do homem, assim também todo o universo será resgatado com a redenção do homem.
Falando em termos de causa e efeito, podemos afirmar que o pecado do homem é a causa, e a desar-monia cósmica é a conseqüência. Logo, a redenção do homem teria como conseqüência o resgate de todo o universo. Este é o sentido do pensamento do apóstolo Paulo: (1) a criação geme e aguarda a redenção dos filhos de Deus, que a libertará do cativeiro; (2) Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, dei-xando de levar em conta as transgressões dos homens.
é a reconciliação da criação com o Criador. Isto é, "a necessidade do mercado que justifica a existência da Igreja" é que Cristo quer ser Senhor de fato sobre todo o universo criado, devolvendo-o à harmonia original, através da reconciliação do homem com Deus. O diagrama elaborado por Karl Bosma resume bem toda esta argumentação de Efésios e a razão de ser da Igreja:
2. A Missão da Igreja
Como, então, a Igreja responde à sua razão de ser? Isto é, o que a Igreja deve fazer no mundo para que todas as coisas sejam submetidas, de direito e de fato, ao controle do Senhor Jesus? A resposta a estas perguntas define a missão da Igreja.
A chamada Grande Comissão, em suas múltiplas formas deve ser o nosso referencial:
"Foi me dada toda autoridade no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado, e eis que estou convosco todos os dias
até a consumação dos séculos" (Mateus 28.18-20).
"Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura" (Marcos 16.15).
"Assim está escrito que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressurgisse dentre os mortos; e que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém" (Lucas 24.46,47)
"Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra" (Atos 1.8).
Estes textos propõem, como afirmou o Rev. John Stott (1975, p. 27), uma "ênfase cumulativa" que pode conduzir à falsa interpretação de que a missão da Igreja se resume em pregar; converter e ensinar. Entretanto, há alguns pilares básicos no comissionamento da Igreja que, sendo negligenciados, reduzem em muito o con-ceito de missão:
(1) A abrangência da missão da Igreja é quase ilimitada. O texto de Mateus fala a respeito de toda autoridade, toda a divindade, todas as nações, todas as ordens do novo Rei, todos os dias. A abrangência deste comissionamento indica que a missão da Igreja extrapola a conversão do indivíduo, sendo, na verdade, um projeto global de redenção.
{2) O conteúdo da proclamação da Igreja envolve
muito mais do que o plano da salvação. O evangelho todo, ou "todo o conselho de Deus", como disse o após-tolo Paulo (At 20.27), inclui a totalidade do propósito de Deus para a sua criação.
(3) O comissionamento está alicerçado no fato de que toda a autoridade está de volta nas mãos do Senhor
Jesus. A Igreja é responsável por proclamar que o
uni-verso tem um novo soberano, que o tempo da rebeldia cessou e que o reino de Deus foi inaugurado. Esta, na verdade, é a boa nova: haverá uma "consumação dos séculos", um fim bom para a criação e a instalação do reino eterno de Deus, e dele farão parte todos aqueles que a partir de agora se submeterem ao novo Rei, todos aqueles que se "arrependerem, e forem redimidos de seus pecados" (Me 1.14).
O fim último da missão da Igreja não é a conver-são em massa de pecadores, mas a instalação definitiva do reino de Deus: "Santificado seja o teu nome, venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6.9, 10). Como bem disse John Stott (1989, p. 43):
"não devemos separar a salvação do reino de Deus. Na Bíblia, estes dois são virtualmente sinônimos, modelos alternativos que descrevem a mesma obra de Deus. Quando Jesus disse aos seus discípulos: 'quão difícil é entrar no reino de Deus', parece ter sido natural que eles respondessem com a pergunta: 'Então, quem pode ser salvo?' (Me 10.24-26). É evidente que, para eles, entrar no reino de Deus era o mesmo que ser salvo".
Em síntese, Deus não está resgatando apenas pessoas, está resgatando o universo e restaurando a plena ordem e harmonia cósmica sob os pés do Senhor Jesus. À luz desta compreensão, devemos concordar com Lausanne quando afirma que a missão da Igreja é levar o evangelho todo para o homem todo,
promo-vendo a manifestação histórica do reino de Deus como um sinal do que será a terra nova. Fazer discípulos é apenas uma dimensão desta ação integral de estar no mundo como o Senhor Jesus no mundo esteve: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo 20.21).
Mais uma vez lanço mão de argumentos de Ariovaldo Ramos (1995, p. 43):
''..4s vezes penso que a Igreja se comporta como um
bizarro grupo guerrilheiro: imagine um grupo guerri-lheiro cujo objetivo seja o de agregar às suas fileiras o
maior número de cidadãos do país; imagine que o grupo, depois de muito esforço, consiga isto, ou seja, mais de 50% da população do país tomou-se membro do tal grupo; entretanto, como esse era todo o objetivo do grupo, este, mesmo constituindo a maioria da nação, não está no poder, isto é, tem a maioria das pessoas mas não afetou em nada a realidade à sua volta. A Igreja, muitas vezes, parece comportar-se assim
também. Todo o seu objetivo é arrebanhar a maioria das pessoas da cidade para si, sem, contudo, ter um projeto para a cidade. É por isso que, muitas vezes, a Igreja, apesar de crescer muito numa cidade, não muda nada a vida da mesma. Não queremos apenas aumentar o número de convertidos numa cidade, queremos nos apossar dela. Queremos que mesmo os que não se converterem sejam afetados pela
presença de Deus na cidade, e que, por causa da palpabilidade desta presença, pensem muito bem antes de levantarem-se contra a vontade de Deus. Nosso modus operandi, nessa conquista, não é a busca pelo poder político ou econômico; é o interceder, o salgar, o profetizar e o servir até que, pelo efeito do fermento, a cidade toda fique levedada (Lc 20.21 )".
Na década de 80, o movimento que no Brasil foi batizado de Evangelical, enfatizou a "missão integral, ou holística, da Igreja". A proposta para as dimensões da ação da Igreja no mundo era dupla: resgatar o in-divíduo e atacar os centros nervosos da sociedade. O conceito de pecado era abrangente: "individual" e "estrutural", devendo a igreja enfrentar tanto as hostes espirituais que oprimem indivíduos, quanto as hostes espirituais que geram estruturas sociais que conspiram contra os interesses do reino de Deus, e igualmente aprisionam indivíduos. A máxima "corpo sem alma é defunto, e alma sem corpo é fantasma", trouxe extraor-dinária implicação missiológica: resgatar pessoas inteiras, propiciando-lhes o acesso ao pão de trigo e dando-lhes, pela graça, o pão da vida.
O possível conflito entre evangelizar e servir gerou intensa discussão. O relatório final da Consulta sobre a relação entre a Evangelização e a Responsa-bilidade Social, realizada em Grand Rapids em junho
de 1982 (Série Lausanne - Vol 2, 1983, p. 20), apazi-guou os ânimos ao concluir que:
(1) A ação social é conseqüência da evangeli-zação, pois através da pregação do evangelho Deus
produz nas pessoas o novo nascimento, e esta nova vida se manifesta no serviço prestado aos outros. A
solidariedade, enquanto marca do caráter cristão à luz do modelo de Jesus que "veio para servir" (Me 10.45) e "andou por toda parte fazendo o bem" (At 10.38), é caracteristica da Igreja em missão. A Bíblia ensina que o Senhor Jesus deu-se a si mesmo por nós, não apenas para "remir-nos de toda iniqüidade", mas também com o fim de "purificar para si mesmo um povo exclusiva-mente seu, zeloso de boas obras" (Tt 2.14), de modo que "somos criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou, a fim de que andássemos nelas"(Ef 2.10).
(2) A ação social é ponte para a evangelização,
pois abre portas para a proclamação do evangelho. O próprio Jesus algumas vezes manifestou obras de mise-ricórdia antes de proclamar o reino de Deus.
(3) A ação social é parceira da evangelização, uma
vez que até mesmo no ministério de Jesus a proclama-ção e o serviço andavam de mãos dadas. Ele alimentou os famintos, curou os enfermos, instruiu os ignorantes e proclamou as boas novas do reino de Deus.
Muito se falou também acerca dos níveis de tratamento que a Igreja deveria dar à questão social.
A maioria acreditava que a Igreja deveria "dar o peixe e ensinar a pescar". Mas um grupo considerável estava convencido que, além destas duas dimensões, a Igreja deveria somar forças para a transformação das estru-turas sociais, à luz do conceito de co-beligerância, desenvolvido por Francis Schaeffer. Isto é, unir-se à sociedade civil organizada em razão de valores comuns na promoção da justiça e da paz. A Consulta sobre a relação entre a Evangelização e a Responsabilidade
Social também se pronunciou dizendo que a responsa-bilidade social dos cristãos deveria contemplar a (1)
filantropia, (2) os projetos comunitários de desenvol-vimento, e (3) a ação política (1983, p.38).
Evidentemente, toda esta discussão gerou exces-sos, e alguns polarizaram na carona da teologia da Libertação que absolutizou o social e estrutural. Ou-tros, escaparam pela via da ingênua convicção de que "mudando o indivíduo, muda-se a estrutura", e foca-lizaram apenas a evangelização.
Vale ressaltar que não devemos confundir o reino de Deus com a sociedade cristianizada, como fizeram os teólogos do "evangelho social", que acreditavam que poderiam estabelecer o reino de Deus na terra. Con-fesso que, por vezes acredito que alguns discursos ufa-nistas de lideranças evangélicas no Brasil caminham nesta direção, ou do anseio constantiniano de casar Estado e Igreja, numa união que a história jâ provou infrutífera e danosa para ambos. Todos sabemos que o reino de Deus está inaugurado, mas não está con-sumado; será consumado quando o Senhor Jesus tiver posto todos os inimigos debaixo dos seus pés e, tendo destruído todo poder, e domínio, e autoridade, inclusive a morte, entregar o reino a Deus, o Pai (1Co15.24-26). Por outro lado, é indiscutível que, como disse Charles Finney (Stott, 1989, p. 20), "o evangelho libera um poderoso impulso rumo a reforma social", e que esse impulso já se manifestou historicamente, como no caso do avivamento wesleyano na Inglaterra do sé-culo XIX, resultando por exemplo na reforma do sis-tema penitenciário, na abolição do tráfico de escravos, no surgimento dos primeiros sindicatos e na melhoria das condições de trabalho nas minas e fábricas. Assim, pois, quando falamos acerca da missão da Igreja,
devemos encarar a ação integral da Igreja no mundo, e não apenas a dimensão do resgate ao indivíduo.
Este é o embasamento bíblico-teológico para a ação da Igreja tanto em sua dimensão universal, como corpo de Cristo, quanto para sua dimensão local, en-quanto comunidade cristã. Evidentemente, uma comu-nidade cristã local jamais conseguirá conquistar o mundo para Cristo. Mas no sentido teológico, que orienta a igreja a agir "tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra" (At 1.8), devemos crer que o âmbito de atuação de uma igreja não pode se restringir a um bairro, uma cidade ou um país. A ação de uma igreja deve ser simultânea no distante e no imediato a partir de seu próprio con-texto.
c. s.
Lewis, resume bem tudo isso quando diz que o mundo é um território ocupado pelo inimigo e "o Cristianismo é a história de como o rei justo desem-barcou (poderíamos dizer, desemdesem-barcou disfarçado) e nos chama para uma grande campanha de sabotagem".3. A Filosofia da Igreja
Até agora vimos que a missão da Igreja é levar o evangelho todo para o homem todo. Mas, cada igreja desenvolverá sua própria maneira de cumprir esta mis-são, que chamamos defilosofiade ministério. Afilosofia diz respeito às ênfases e valores peculiares de cada igreja local. Diz respeito a um jeito de ser, ao como cumprir sua missão deixada pelo Senhor da Igreja. Mais ainda do que os conceitos de razão de ser e
mis-são, a filosofia tem tudo a ver com paradigmas, uma vez que é na filosofia que as comunidades deixam transparecer seu jeito de pensar, seus limites de
pos-sibilidades e seus padrões de comportamento.
Nesse caso, não podemos encontrar uma decla-ração de.filosofia que seja comum a todas as
comu-nidades locais. Podemos e devemos crer que os con-ceitos de negócio, missão e estratégia possuem defi-nições bíblicas que não podemos alterar. O conceito de filosofia, entretanto, varia de igreja para igreja, de contexto para contexto. Cada comunidade cristã, por-tanto, é responsável por elaborar sua declaração de filosofia à luz de bases bíblicas e teológicas, mas
deve-mos compreender que a Bíblia oferece razoável margem de liberdade que favorece visões diferentes entre si.
Há uns 12 anos atrás tive meu primeiro contato com estes conceitos através de Peter Wagner, quando insistiu: "Escreva Sua Filosofia de Ministério" ( 1984, pg 1 75). O texto contava a experiência de quatro dife-rentes igrejas na área de Los Angeles. A primeira, a
Catedral de Cristal, liderada por Robert Schuller, foi
chamada por Wagner de "igreja da vida real", uma vez que o ministério era direcionado para pessoas avessas à religião. Schuller dizia que não gostava de pregar, pois o povo de sua região não dava crédito às Escri-turas. O púlpito era usado para testemunhar o que Jesus podia fazer "na vida real das pessoas". Seus ser-mões eram, e ainda são, discursos filosóficos recheados de teologia.
O segundo modelo foi a Grace Community Chur-ch, chamada de "igreja-escola", e pastoreada por John
MacArthur, que dedicava-se quase que exclusivamente a expor as Escrituras para um povo que levava cader-nos para anotações dos sermões.
O terceiro exemplo foi a Vineyard Christian Fellowship, chamada de "igreja da geração jovem",
entre 18 e 30 anos iam como se estivessem vestidas para um show de rock. John Wimber era o pastor à
época. Vineyard hoje está bem diferente. A filosofia mudou.
Finalmente, Wagner apresentou a Paradise Bap-tist Church, que denominou de "igreja do empurrão espiritual", que pela ênfase no poder do Espírito Santo tornara-se uma das mais destacadas igrejas dos negros de Los Angeles.
Alex Periscinoto, em sua coluna CRIAÇÃO &
CONSUMO, no jornal "Folha de São Paulo", apresentou e elogiou a filosofia de ministério da Metro Baptist Church, de Nova York. Sua fonte foi um anúncio da Igreja com o seguinte título: "Desabrigados no fim do quarteirão. Prostitutas na esquina. Traficantes de crack no outro lado da rua. Que ótimo lugar para uma Igreja".
Abaixo, seguia o texto que singulariza a "Metro Baptist Church":
"Jesus não freqüentava clubes de campo, teatros ou restaurantes caros, ele sempre ia onde havia carências. As mesmas que correm soltas na cidade de Nova York hoje em dia. Carências como seres humanos famintos e com frio dormindo nas grades dos exaustores do metrô por causa do ar quente. Carências como pessoas capturadas na teia do abuso e do uso de drogas. Ou carências como homens, mulheres e crianças vendendo seus preciosos corpos por uma migalha de comida, um abrigo ou simplesmente um lugar qualquer para passar a noite. Conhecemos estas carências tão bem porque as vemos todos os dias. Nossa Igreja fica bem no meio da Clin.ton South, lugar mais conhecido como A Cozinha do Inferno. Bem, agora Deus está na Cozinha do Inferno. Nossos ministros oferecem comida e roupas, enquanto nossa congregação oferece
amor e apoio. Gostamos de pensar que isso é o que Jesus faria. Visualizamos o dia em que nossa vizinhança mudará de estar cheia de luta para estar cheia de amor. Só nesse dia nós nos mudaremos".
Outro exemplo bastante salutar é a Lake Avenue Community Church, em Pasadena, Califórnia, com sua
estrutura montada em três pilares: célula, que reúne
12 a 15 pessoas; congregação, cada uma com seu
pas-tor, reunindo aproximadamente 150 pessoas; e cele-bração, que reúne a igreja toda. Ray Ortlund, em seu
livro Senhor, faça da minha um milagre, narra como
em 1968, deu o pontapé inicial nesta filosofia, colo-cando a Igreja diante de três compromissos básicos: (1) onde quer que você esteja espiritualmente, entregue de novo seu coração a Jesus; (2) comprometa-se com o corpo de Cristo; e (3) comprometase com o mundo -com seu trabalho neste mundo e seu testemunho a ele.
A Willow Creek Community Church, em Chicago,
EUA, é outro exemplo inovador e inspirador baseado em quatro princípios básicos, que englobam: (1) ares-ponsabilidade pessoal do cristão em testemunhar; (2) a diferença entre as necessidades dos cristãos e não cristãos; (3) o processo distinto da jornada espiritual de cada pessoa; e (4) o fato de cada cristão é capacita-do por Deus para ministrar no corpo de Cristo.
Bill Hybels, 45, principal pastor da Willow Creek, em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo,
em 25 de dezembro de 1991, salienta que a intenção da Igreja é proporcionar a oportunidade de que as pessoas se relacionem com Deus à distância dos rituais chatos da religião. Com uma abordagem atual, sem a velha distinção entre social e espiritual, Bill Hybels
pretende fugir da coação e manipulação, enfatizando a instrução e o esclarecimento do povo a respeito de temas relevantes. A Willow Creek, em função de sua filosofia, é um dos mais discutidos modelos eclesiás-ticos atualmente nos Estados Unidos.
Também no Brasil, esta diversidade de filosofias de ministérios tem segmentado o povo evangélico a partir de diferentes propostas de vivência da fé. Consi-derando que a filosofia de ministério indica claramente o que cada pessoa pode esperar ou até mesmo procurar em uma comunidade cristã, cada comunidade traz para si um certo tipo de pessoas.
Usando a linguagem do marketing, ainda que
ressaltando-se o perigo das generalizações, podemos afirmar que cada segmento cristão possui um apelo distinto para o mercado. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, concentra sua ênfase na solução para problemas. Todo o apelo da Igreja do Bispo Edir
Macedo está voltado para a tríade cura-exorcismo-pros-peridade como veículo para satisfação de necessidades imediatas.
As igrejas pentecostais históricas enfatizam o poder do Espírito Santo, notadamente na manifestação
de dons espirituais de êxtase verbal - daí a ênfase no dom de línguas estranhas, revelações e profecias, e do
confronto com os poderes das trevas. As igrejas chama-das neo-pentecostais enfatizamfenômenos espirituais,
o que explica os dentes de ouro, sopros e quedas, arre-batamentos, visões, bem como uma boa dose de pros-peridade financeira como resultado da intervenção milagrosa de Deus.
As igrejas reformadas enfatizam o saber teológico,
o que nos leva considerar que os pentecostais vão ao templo para falar com Deus e os reformados vão ao
templo para falar a respeito de Deus.
Em síntese, está claro que as igrejas, enquanto comunidades cristãs locais, são diferentes entre si. Vale ressaltar, entretanto, que, respeitados os limites bíbli-cos, não há qualquer razão para que se busque a uni-formidade entre as filosofias de ministério, ou que se afirme um modelo eclesiástico como único e universal. Na verdade, a diversidade de visões ministeriais é um reflexo da multiforme sabedoria de Deus expressa em sua Igreja, como também um resultado concreto da diversidade do corpo de Cristo. Devemos, portanto, va-lorizar e respeitar as formas que as igrejas vão assu-mindo cultural e historicamente.
III
A Igreja e Seus
Paradigmas
9'eter Wagner, no artigo já citado, comenta que todas as filosofias de ministério são válidas e alcançam pessoas diferentes. Veja o que ele diz: "Nenhuma igreja pode fazer todo o trabalho; nenhuma igreja consegue ministrar a todas as necessidades humanas. Portanto, a excelência no ministério envolve fazer algumas esco-lhas. Ninguém pode dizer: Temos alguma coisa para cada tipo de pessoa'. Cada Igreja deve decidir sua iden-tidade peculiar e potencializar sua personalidade úni-ca". É esta "personalidade única" que chamamos de
filosofia.
George Barna (1991, p. 52) caminha na mesma direção, quando afirma que "igrejas podem atrair mais pessoas para si mesmas empreendendo um pequeno número de ministérios chave com excelência, do que realizando muitas coisas apenas adequadamente". Em outras palavras, é mais eficaz fazer poucas coisas real-mente bem feitas, do que muitas coisas com quali-dade apenas razoável.
Este conceito de filosofia ministerial traz consigo duas questões básicas que merecem considerações. Em primeiro lugar, é evidente que há distâncias diferen-tes entre as filosofias ministeriais e os princípios da palavra de Deus. É perfeitamente possível que uma
comunidade cristã esteja assentada em areia movediça, uma vez que não é raro encontrarmos igrejas funcio-nando à luz de princípios nitidamente conflitantes com os modelos bíblicos. É fato que alguns modelos ecle-siásticos são mais compatíveis com os modelos bíblicos do que outros, e cabe a cada liderança cristã o exercício do discernimento tendo o Espírito Santo como fonte de luz e a Bíblia como bússola para a jornada.
Em segundo lugar, é importante registrar que todas as comunidades cristãs, sem exceção, funcionam a partir de uma filosofia. Nem sempre seus membros ou líderes têm consciência dos valores e princípios que norteiam sua vivência religiosa, mas certamente res-pondem a um tipo de raciocínio lógico, e nem sempre verdadeiro. Isto é, cada líder possui seu "jeito próprio de pensar a Igreja", sua natureza e missão, que acaba por influenciar a prática ministerial, a estrutura ecle-siástica, as ênfases e ações cotidianas do ministério pastoral e comunitário.
Em se tratando de diversidade na filosofia, o pro-blema é que parece haver cada vez menos diversidade. A maioria dos líderes tem a tendência de reproduzir os modelos e responder aos paradigmas de seu tempo. Enxergam a Igreja sob lentes herdadas e nem sempre param para avaliar a compatibilidade do modelo ado-tado com os referenciais das Escrituras. São guiados por paradigmas definidos de antemão, e na maioria das vezes, não se dão conta de que respondem a uma "inteligência" raras vezes tão inteligente assim.
Nesse caso, considerando que a igreja pode ser também avaliada como uma organização sujeita aos limites impostos pelos paradigmas, temos a obrigação de avaliar como as igrejas funcionam hoje, verificar se sempre funcionaram assim ou se há outro jeito de ser
igreja, mais eficaz e mais compatível com a palavra de Deus.
Conquanto não seja possível enquadrar todas as comunidades cristãs num único jeito de ser, acredito que hã uma mentalidade vigente, uma certa maneira de pensar a igreja, que se torna representativa da gran-de maioria das comunidagran-des cristãs. Creio que pogran-de- pode-mos identificar esta mentalidade eclesiástica à luz de quatro grandes conceitos, ou paradigmas, a saber: cul-to, clero, domingo e templo.
Certo semanário denominacional publicou re-portagem onde o articulista elogiava o vigor de uma comunidade cristã. Dizia o artigo que a Igreja batizava mais de 300 novos cristãos por ano e que atendia mais de 400 crianças a cada domingo em sua escola domi-nical. Comentava acerca do culto jovem no sábado à
noite, que reunia mais de 1000 jovens semanalmente, e dos quatro cultos dominicais, todos com casa cheia. Arrematava dizendo que o grande desafio para aquela igreja, como também para todas as demais igrejas, era ampliar aquele imenso santuário, abrindo-o em forma de leque, construindo dezenas e dezenas de galerias (tal qual aquela mega-igreja de Seul) e enchê-lo de almas salvas por Cristo Jesus.
Obviamente, uma Igreja com estes números exer-ce influência significativa na sociedade, principalmente em se tratando do contexto do nordeste brasileiro, mas o articulista foi incapaz de vê-la. Por que? Por causa dos paradigmas "culto, clero, domingo e templo". Que fatores impediram o articulista de valorizar a influência dos profissionais cristãos na sociedade, a extensão das obras sociais desenvolvidas pela Igreja, ou quem sabe o arrojo missionário daqueles irmãos? Os paradigmas viciaram a mente do cristão a compreender a Igreja como
um acontecimento semanal. Daí o conceito de que uma
igreja viva é aquela que possui um imenso santuário que por sua vez está sempre cheio de "almas salvas por Cristo".
Lembro-me também de um grande painel que encontrei na entrada de uma instituição cristã. Mostra-va um sujeito seguido por sua casinha à caminho do templo, com os seguintes dizeres: "Eu e minha casa serviremos ao Senhor". Novamente um flagrante dos paradigmas "culto, clero, templo e domingo". Eles são responsáveis pela representação de serviço a Deus co-mo freqüência ao templo. Creio que o painel seria mais fiel ao espírito da Escritura se mostrasse o cristão sain-do sain-do templo e afirmansain-do seu compromisso de serviço.
Um outro, e último exemplo, é a propaganda de um seminário teológico cuja campanha dizia: "Invista em você e prepare-se para ser um servo que reflita neste mundo a vida de Jesus Cristo". Na capa, havia um desenho estilizado de um pastor no púlpito. Erro: associar o "refletir a vida de Jesus Cristo no mundo" com algo que é desenvolvido pelo clero, o pregador, no templo, no domingo e no culto. A filosofia está correta, mas os paradigmas impedem-na de concretizar-se.
Nas próximas páginas tentaremos avaliar estes paradigmas à luz da Bíblia, buscando compreender não apenas como limitam o potencial da igreja, mas principalmente quais são algumas alternativas possí-veis para que a igreja redescubra a liberdade estrutural característica do cristianismo primitivo. O ensinamento bíblico é que a Igreja do Senhor Jesus está desafiada a viver além dos limites do culto-clero-domingo-templo.
1. A Igreja e o Templo
A Bíblia possui várias avenidas principais. Marti-nho Lutero dizia que a Bíblia é cristocêntrica; os teó-logos da libertação já preferem transitar pela teologia do reino de Deus; outros irmãos seguem adiante pelas tortuosas e sinuantes estradas escatológicas; e tantas outras possibilidades podem ser alistadas. Creio que uma das avenidas principais da Bíblia é a narrativa do processo de Deus em busca de compartilhar sua vida e presença com as pessoas, criadas à sua imagem e semelhança. Se estou bem certo, encontro seis fases deste processo de Deus.
( 1 J Face à Face no Paraíso
No início, o ser humano e Deus conversavam face à face na virada do dia (Gn 2. 7). Até que o pecado tomou lugar e o ser humano foi expulso da presença de Deus. A partir de então, Deus não estava mais pre-sente entre os homens, devendo ser buscado através de ofertas e sacrifícios. A decadência humana foi acelerada: os exemplos de Abel (Gn 4.4) e Enoque (Gn 5.24) são isolados e o quadro mais próximo de um mun-do administramun-do pela criatura, sem que o Criamun-dor tenha vez e voz, é a geração que precede o dilúvio (Gn
6.1-12). Mas Deus iniciou um longo projeto de redenção e entrou numa nova fase do processo de repartir sua vida com as pessoas.
(2) No Meio do Povo, no Tabernáculo
Deus chamou um homem de nome Abrão e lhe fez a promessa de abençoar todas as famílias da terra,
fazendo dele, Abrão, o pai desta nação abençoada (Gn 12.1-3). Seguem-se narrativas de cultos com os Patriar-cas edificando altares onde Deus a eles se manifestava, e isso pode ser interpretado na perspectiva de Deus em busca do homem, e não do homem em busca de Deus, visto que o culto era sempre um ato segundo: Deus se manifestava e o homem respondia com sacrifi-cios e ofertas.
Enquanto isso, Deus esperou quatrocentos anos para que a nação prometida começasse a aparecer: a semente de Abraão se multiplica e torna-se numerosa sob o domínio tirânico do Egito e, somente então, Deus dá continuidade ao seu plano redentor.
A proposta de Deus é a libertação de Israel, para guiá-lo pelo deserto através de Moisés (SI 77.20). Este povo que percorreria o deserto seria identificado como povo de Deus, um reino sacerdotal, uma ponte entre Deus e as nações (Êx 19.1-6). Deus providenciou, en-tão, uma forma de sinalizar sua bênção e repartir sua presença com o povo no deserto. E exatamente aí come-çou a segunda fase do processo de Deus em repartir sua vida e presença com as pessoas: o Tabernáculo, o
templo móvel que estava sempre no meio do povo,
acompanhando-o em suas andanças pelo deserto ime-diatamente após a libertação da escravidão no Egito (Êx 25.8; 29.45,46; 33. 7).
O Tabernáculo foi uma experiência que perdurou por mais de quatrocentos anos, até o início do periodo do reino unido, quando o rei Davi desejou "construir uma casa para Deus" (2 Sm 7).
(3) Com Endereço, no Templo
sua vida e presença com as pessoas interrompeu o projeto original que ganhava corpo com a figura do Tabernáculo. Deus queria sinalizar sua presença no meio do povo, mas não queria um endereço fixo. Davi, entretanto, projeta o Templo argumentando que a casa de Deus não poderia ser uma tenda que alguém monta e desmonta enquanto que a casa do rei era feita de cedro e cheia de todas as riquezas.
A reação de Deus à proposta de Davi foi seme-lhante ao incidente do estabelecimento da monarquia: a princípio desaconselha, mas acaba abençoando. Deus deixou claro que não desejava um endereço, e aproveitou a ocasião para fazer a Davi a promessa de que um dos seus descendentes construiria uma casa eterna onde, ali sim, Deus habitaria (1 Sm 8.4-22; 2 Sm 7; 1Cr17.4-15; 2 Cr7.12-18). Em termos imedia-tos, este descendente era Salomão, mas ficou muito claro que na verdade era uma referência ao Senhor Jesus, pois a promessa apontava para "um reino esta-belecido para sempre" (2 Sm 7.13, 16).
(4) Em toda a sua glória, em Jesus de Nazaré Jesus de Nazaré é a expressão máxima da pre-sença de Deus no mundo. É Deus encarnado. Aspa-lavras do próprio Senhor Jesus deixam claro sua cons-ciência a este respeito: "Eu e o Pai somos um, de modo que quem me vê a mim, vê o Pai" (Jo 10.30; 14.9).
(5) Nas Pessoas, na Igreja
Quase mil anos depois de Salomão, o Senhor Jesus está diante do templo de Jerusalém, que já não era mais aquele construído por Salomão, mas o
re-constrnído por Zorobabel, fazendo a seguinte decla-ração: "Derribai este santuário, e em três dias o levanta-rei". João, o evangelista, explica que Jesus se referia ao seu corpo, numa alusão claríssima à ressurreição
(Jo 2.19-21).
É neste contexto que devemos entender a pro-messa de Jesus: "Na casa do meu Pai há muitas mora-das; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou prepa-rar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos tomarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também" (Jo 14.2,3). Jesus cumpre sua promessa: morre, e após três dias ressus-cita com a casa do Pai pronta e com lugar suficiente para todos os que pela fé se unissem a Ele. A glória de Deus, antigamente localizada no Tabernáculo e depois no Templo, agora estava em Cristo e seria comparti-lhada com todos os que, pela fé, têm comunhão com Ele.
As palavras de Jesus "eu vou e volto" devem ser entendidas como referentes à sua morte e ressurreição, e não como indicativas de sua segunda vinda, pelo menos por 4 razões:
1. A preocupação dos apóstolos dizia respeito ao presente, e não ao feturo: o que aconteceria com eles após a morte de Jesus e não após a sua própria morte; 2. Qualquer judeu em Jerusalém que ouvisse a expres-são "casa do Pai" enxergaria o Templo, e não o céu; 3. O contexto da afirmação de Jesus é Jo 2.19-21, quando a casa do Pai é identificada com o Templo de Jerusalém e o corpo de Cristo, e não com o céu;
4. A promessa de "estar onde Jesus estiver" tem
pre-visão de três dias para o seu cumprimento; não se trata
de "morrer e ir para o céu", mas de experimentar
his-toricamente a presença de Jesus.
A casa do Pai é, portanto, a Igreja, o corpo de Cristo, onde temos perfeita comunhão com o Senhor Jesus. Nosso reencontro com o Senhor Jesus não é uma promessa escatológica, mas uma realidade vigente através do Espírito Santo. Afinal, o Senhor Jesus prometeu que estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos {Mt 28.20), e que, juntamente com seu Pai viveria e faria morada naqueles que guardassem sua palavra {Jo 14.23).
Os apóstolos compreenderam nitidamente a mensagem, pois que chamaram a igreja de "templo santo para morada de Deus em Espírito" (Ef 2.21,22), "pedras vivas, edificadas como casa espiritual" ( 1 Pe 2.5) e ensinaram que o Espírito Santo habita na igreja, o corpo de Cristo (1Co3.19; 6.19).
Estevão afirmou que "o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens" (At 7.48), de modo que quem tem um lugar sagrado para a adoração é o povo pagão, que procura templos e colinas. O Templo exerceu sua função tipológica no Antigo Testamento, mas agora os cristãos sabem que Deus é Espírito, e é
necessário que os que o adoram o adorem em Espírito e em verdade" (Jo 4.24). Este é o ensinamento à mulher que desejava saber "onde adorar a Deus": "No coração", disse Jesus.
A glória de Deus está nas pessoas e, nesse caso, o Novo Testamento derruba o primeiro paradigma.
Cris-tãos podem sobreviver sem templos. Aliás, já
pois o primeiro templo surgiu após a conversão de Constantino e o conseqüente estabelecimento do cris-tianismo como religião oficial do Império. A chamada Santa Helena, mãe de Constantino, fez esse "favor" para os cristãos. Igreja é sinônimo de pessoas, e não de templos.
Evidentemente, as Igrejas continuarão tendo seus templos. O desafio é no sentido de que consigam enxergá-los como instrumentos facilitadores da execu-ção de sua agenda ministerial. Os templos não são um fim, são um meio, uma ferramenta. E, nesse caso, toda vez que a agenda ministerial da igreja colidir com o templo, enquanto espaço físico, a igreja deve encon-trar outro ambiente onde responder à sua vocação peregrina.
(6) Face à Face, no Céu
A sexta e última fase do processo de Deus em compartilhar sua vida e presença com o homem será a plenitude da experiência espiritual, quando, no céu, nós conheceremos a Deus como também somos conhe-cidos e o veremos tal qual ele é (1 Co 13.12; 1 Jo 3.2}.
Até lá, quem deseja encontrar-se com Deus não precisa procurar um templo, basta embrenhar-se no meio do povo de Deus.
2. A Igreja e o Domingo
Paulo, apóstolo, evidentemente conhecia o arcabouço da Lei de Moisés, que prescrevia dias e horas para o culto a Deus. A Lei indicava sacrifícios diários, mensais, anuais, e estabelecia o sábado como dia san-to, dedicado ao Senhor (Êx 20.8}.
Muitas interpretações são possíveis a respeito das razões para a guarda do sábado. Pessoalmente, creio que o sábado, enquanto interrupção de trabalho, presta-se como instrumento disciplinador e facilitador para que nos lembremos sempre de que a realidade última da vida não está restrita ao espaço fisico, natural e visível. O sábado é a obrigação de parar de trabalhar, parar de produzir, parar de pensar em coisas, riquezas e conquistas. O sábado é um dia especial para a refle-xão sobre o significado dos outros seis dias. Uma opor-tunidade para colocar a alma no compasso de Deus, como que desintoxicando-a da tirania do fazer e produ-zir como fonte de valorização do ser diante de Deus.
Esse é o entendimento de Paul Stevens, em seu livro Disciplinas para um coração faminto. Diz ele que
"em um sentido mais profundo, não guardamos o sá-bado; o sábado é quem nos guarda. A finalidade do sábado era ser o período de lazer intencional em que refletíssemos sobre a origem e os alvos de nossa vida na terra. Logo, o sábado nos mantém voltados para Deus, como quem está viajando com destino ao céu"
(1993, p. 205). Isso está em perfeito acordo com a compreensão de Jesus, que ensinava que a guarda do sábado não era uma obrigação a ser cumprida com fins meritórios, mas sim um instrumento facilitador da espiritualidade humana: "O sábadofoifeito por cau-sa do homem, e não o homem por caucau-sa do sábado"
(Me 2.27).
O sábado judaico, portanto, era um instrumento para ensinar o povo a buscar a Deus e entrar no gozo de sua presença. Justamente por isso é que o autor de Hebreus compara o descanso sabático com o céu: estar plena, eterna e conscientemente na presença de Deus (Hb 4.9-11).
Paulo, apóstolo, interpreta este ensinamento dizendo aos cristãos que ninguém poderia julgá-los "por causa de dias de festa, ou de lua nova ou de sába-dos" (Cl 2.16) e que aqueles que 'julgam iguais todos os dias" devem ser respeitados porque o fazem igual-mente para o Senhor (Rm 14.5). Paulo está dizendo que não precisamos encarar o sábado como um dia específico da semana a ser reservado para Deus, mesmo porque os cristãos do primeiro século, em função da ressurreição do Senhor Jesus, optaram pelo domingo como dia de suas reuniões (Lc 24.1; At 20. 7; 1 Co 16.2; Ap 1. 1 O). O que precisamos guardar é o propósito do mandamento da guarda do sábado, independentemente de dia e hora. O princípio bíblico a respeito do sábado, portanto, tem mais a ver com práticas devocionais do que com um dia da semana a ser dedicado às atividades eclesiásticas. Diz respeito ao processo de cultivar a intimidade com Deus independentemente do kronos.
E, nesse caso, o segundo paradigma também já foi quebrado.
3. A Igreja e o Clero
A estrutura religiosa do Antigo Testamento esta-va baseada numa hierarquia que incluía o sumo sacer-dote, os demais sacerdotes e os levitas. Eles eram res-ponsáveis por representar o povo diante de Deus e oficiar todo o processo de ofertas e sacrificios, tanto no Tabernáculo como no Templo.
O apóstolo Paulo ensinou que a estrutura religio-sa do Velho Testamento era como "sombras do que haveria de vir" (Cl 2.17), e o autor de Hebreus, seguindo o mesmo raciocínio, apontou para Jesus como o mais perfeito sacerdote, que apresentou o mais perfeito