CONHECIMENTO E INTERESSE ACERCA DA GINÁSTICA RÍTMICA
Izabele Regina Scheffer¹; Sivia Deutsch¹; Tiago de Souza Megale¹1LACEM/D.E.F/I.B./UNESP RESUMO
A Ginástica Rítmica (G.R.), por ser um esporte relativamente novo, não possui muitos adeptos e profissionais especializados para o seu desenvolvimento no Brasil. Uma das razões é a falta de aptidão e interesse dos profissionais de educação física em trabalhar com a modalidade. Com isso, esta pesquisa teve por objetivo verificar o conhecimento e o interesse de estudantes de Educação Física em G.R. Os resultados apresentados mostram que os estudantes desconhecem o esporte e mesmo vivenciando a modalidade na graduação, não se sentem aptos a trabalhar com a G.R. A falta de aptidão se deve ao fato de apenas as Universidades formarem esses profissionais e muitas delas apenas ensinarem o fundamental e não aprofundarem em seus conceitos. Para uma melhora da formação de técnicos nesta e nas demais modalidades, o Brasil poderia seguir exemplo de outros países que em conjunto com associações, fede rações e confederações promovem cursos para a formação de técnicos.
Palavras chave: Ginástica Rítmica, conhecimento e interesse.
INTRODUÇÃO
A ginástica rítmica é uma modalidade desportiva essencialmente feminina que se fundamenta na expressividade artística. É conceituada como a busca do belo, uma explosão de talento e criatividade, em que a expressão corporal e o virtuosismo técnico se desenvolvem juntos, formando um conjunto harmonioso de movimento (LAFFRANCHI, 2001, p. 3).
A Ginástica Rítmica caracteriza-se por ser um esporte que associa a perfeição dos gestos técnicos à composição de coreografias (DELEW, apud VIEIRA, 1989). É uma modalidade esportiva nova que foi reconhecida e oficializada pela FIG em 1963 (VIEIRA, 1989).
Segundo a Federação Internacional de Ginástica (2005), a Ginástica Rítmica (GR) é uma arte dinâmica, criativa, natural e orgânica com movimentos de características próprias, diferentes de outras escolas de expressão corporal.
As provas podem ser tanto individuais como em conjunto, cada exercício em conjunto deve obrigatoriamente ser executado por 5 ginastas.
Segundo GONZALES (2004) a Ginástica Rítmica pode ser classificada como:
1º) Esporte individual em que não há interação com o oponente: atividades motoras em que a atuação do sujeito não é condicionada diretamente pela necessidade de colaboração do colega nem pela ação direta do oponente, nas provas individuais.
2º) Esporte coletivo em que não há interação com o oponente: atividades que requerem a colaboração de dois ou mais atletas, mas que não implicam a interferência do adversário na atuação motora, nas provas em conjunto.
Segundo MOLINARI (2007) a história nos mostra que a Ginástica Rítmica é um esporte recente, muito complexo e que teve seu início na necessidade e competência de um gra nde profissional em querer desenvolver a percepção musical através de movimentos corporais expressivos e contextualizados. Essa modalidade esportiva começou a ser praticada desde o final da Primeira Guerra Mundial, mas não possuía regras específicas nem um nome determinado. Várias escolas inovaram os exercícios tradicionais da Ginástica Artística, misturando -os com música. Então a Ginástica Rítmica como esporte independente passou a ser chamada de Ginástica Moderna (1962), em reconhecimento pela Federação I nternacional de Ginástica (F.I.G.).
Mais tarde em 1975, passou a ser denominada de Ginástica Rítmica Desportiva, estabelecendo -se definitivamente sua característica competitiva. A Ginástica tornou-se um esporte olímpico oficial em 1984, somente com competições individuais. Nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, incluiu-se as competições de conjunto.
A corda, a bola e o arco foram os primeiros aparelhos a serem trabalhados, as maças e a fita foram elaborados e desenvolvidos no ano de 1966. Em 1984, a G.R. já reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional foi introduzida nos Jogos Olímpicos daquele ano.
É interessante como a Ginástica Rítmica cada vez mais praticada no mundo e em constante reestruturação procura aprimorar a estreita relação entre a perfeiçã o técnica e a arte de executar movimentos expressos através da música.
Para CAÇOLA e LADEWIG (2005) a GR, hoje, é considerada um dos mais belos esportes da atualidade e nas Olimpíadas, um dos esportes que atrai mais público. A ginasta pode competir a partir do ano em que completa 15 anos, ou seja, entre os 15 e 20 anos a atleta deve estar no auge de sua performance desportiva.
Nos últimos anos a Ginástica Rítmica do Brasil vem se destacando no âmbito mundial, participando de campeonatos como jogos Sul-Americanos, Pan-Americanos e Jogos Olímpicos. Apesar desse crescimento a GR é bastante desconhecida pelos brasileiros sendo muitas vezes confundida com a Ginástica Artística.
Segundo MOLINARI (2007), o Brasil participou da estréia olímpica da G.R. em Los Angeles –1984 com a ginasta Rosana Favilla, que não se classificou para a final. Em Barcelona 1992, Marta Schonharst conseguiu a 41ª colocação entre as 43 ginastas que disputaram o evento. Nos Jogos de Sidney, em 2000, o conjunto brasileiro conseguiu o seu melho r resultado em uma Olimpíada ficando em oitavo lugar. Outra grande conquista do Brasil na G.R. foi a medalha de ouro nos Jogos pan-americanos de Winnipeg, Canadá, em 1999.
REIS (2004) acredita que a GR ocupa um espaço cada vez maior na mídia devido a sua inclusão relativamente recente nos Jogos Olímpicos. Para a autora, no Brasil ocorre de forma gradativa com trabalhos significativos por todo o território nacional e pelos bons resultados apresentados pela seleção brasileira nas provas de conjunto e de algu mas ginastas se destacando nas provas individuais em competições internacionais.
Esse esporte que traz tanta admiração vem crescendo muito dentro do nosso país, especialmente a partir da conquista do ouro no Campeonato Pan -Americano de 1999 e a classificação para a competição final dos oito melhores na última Olimpíada.
De acordo com LANARO FILHO e BÖHME (2001) o nível técnico da Ginástica Rítmica Desportiva (GRD) tem evoluído significativamente, graças à seriedade do trabalho realizado pelas técnicas brasileiras, e apoio que temos recebido de técnicos e coreógrafos provenientes de países onde a GRD é mais desenvolvida, principalmente da Europa. Aos poucos a GRD vem se popularizando em nosso país, o número de praticantes cresce a cada ano, locais oferecidos para a sua prática têm aumentado e tem melhorado bastante o nível dos profissionais especializados, cujo número é ainda relativamente pequeno. Porém mesmo com os bons resultados conquistados em competições internacionais, ainda são encontradas muitas dific uldades para um maior desenvolvimento da modalidade no Brasil.
A falta de profissionais formados em educação física que se interessam e estejam aptos para trabalhar com essa modalidade parece ser um dos vários fatores que impossibilitam o desenvolvimento da G.R. No Brasil. Outro fator, que merece destaque é falta de preparação técnica para os profissionais atuarem nessa modalidade.
De acordo com NUNOMURA (2004), no contexto internacional, há programas específicos para a formação dos profissionais de Ginást ica Artística (GA), assim como para as diversas modalidades esportivas, e que são desenvolvidos em um trabalho integrado entre Associações, Federações e Confederações. No Brasil, a situação é muito diferente, a responsabilidade fica a cargo das Universidades, através dos cursos de graduação e de especialização, porém estes temas não são trazidos com o devido aprofundamento. Segundo a mesma autora há carência de profissionais qualificados para atuarem nestes novos campos de conhecimento. No Canadá, nos
demanda do Esporte, ou seja, aos profissionais que pretendem avançar na carreira de técnico, assim como para as diversas modalidades esportivas e que s ão desenvolvidos em um trabalho integrado entre Associações, Federações e Confederações. No Brasil não há nenhum sistema de formação para profissionais que almejam seguir na carreira de técnico. A formação de Associações ainda não faz parte de nossa cultura e as Federa ções e as Confederações também não criaram um sistema de formação dos profissionais do Esporte. Assim, essa responsabilidade fica a cargo das Universidades, através dos cursos de graduação e de especialização. Embora os cursos atuais de graduação em Esporte oferecer disciplinas que abordam os aspectos do Esporte como psicologia, treinamento desportivo, administração e marketing, pedagogia, entre outros, estes temas não são trazidos com o devido aprofundamento. Em geral, são poucas as modalidades esportivas que são incluídas nestes cursos e estes fornecem conhecimentos gerais, pois não há tempo suficiente para que elas sejam aprofundadas.
No curso de graduação em Educação Física (Licenciatura e Bacharelado) na UNESP de Rio Claro, os alunos devem optar por cursar um mínimo de 6 fundamentos esportivos dos 10 oferecidos (Futebol de campo e futsal, ginástica artística, ginástica rítmica, capoeira, judô, basquete, atletismo, voleibol e handebol), portanto, devido a não obrigatoriedade, alguns alunos do curso, mesmo tendo a formação em Educação Física, as vezes, nem entrem em contato com a G.R.
Assim, o objetivo desse estudo foi verificar conhecimento adquiridos e o interesse em Ginástica Rítmica dos alunos do 4º Ano do curso de graduação de Educação Física da UNESP de Rio Claro.
DESCRIÇÃO METODOLÓGICA
Foi elaborado um questionários informativo, para os alunos do quarto ano do curso de graduação de Educação Física da UNESP de Rio Claro, cujo objetivo era identificar se os mesmos se interessavam em trabalhar com a Ginástic a Rítmica e se os mesmos se sentiam aptos para isso.
No questionário aplicado era apresentado as seguintes perguntas:
1) Você teve alguma vivência com a Ginástica Rítmica (GR)? ( ) sim ( ) Não Onde?
2) Você conhece os aparelhos usados na GR? C ite ( ) sim ( ) Não Aparelhos:
3) A GR é considerada um esporte? ( ) sim ( ) Não
Se sim, de que tipo?
( ) individual ( ) coletiva ( )ambos
4) Você se sente apto (a) para dar aulas de GR? ( ) sim ( ) Não
5) Você gostaria de trabalhar com GR? ( ) sim ( ) Não
Para análise da segunda questão só foi considerado correto os nomes dos aparelhos quando eram respondidos os nomes dos 5 aparelhos corretamente.
AMOSTRAS
Participaram desse estudo 30 alunos do curso de Educação Fí sica da UNESP de Rio Claro, do quarto ano, sendo 18 mulheres com idade entre 20 a 26 anos e 12 Homens, com idade entre 21 a 25 anos.
PROTOCOLOS UTILIZADOS
O questionário foi aplicado individualmente e respondido sob a supervisão do aplicador, para que não houvesse interferência externa.
Para obtenção do consentimento dos sujeitos para participação no estudo foi elaborado um termo de consentimento livre e esclarecido que foi assinado por todos os participantes.
DESCRIÇÃO DOS RESULTADOS
As respostas dos alunos do quarto ano foram as seguintes:
Perguntas Sim Não Obs.
Você teve alguma vivência com a
Ginástica Rítmica? 73,3% 26,7 % 66,6% vivenciaram o esporte na graduação e apenas 6,6% em outros lugares.
Você conhece os aparelhos usados
na GR? Cite 90% 10%
43,3% citaram os aparelhos corretamente
A GR é considerada um esporte? De
que tipo? 100% 0%
13,3% acreditam que seja individual, 13,3% coletivo e 73,3% ambos.
Você se sente apto (a) para dar
aulas de GR? 26,7%
73,3 % Você gostaria de trabalhar com GR? 20% 80%
Tabela 1 - Respostas dos alunos do quarto ano.
Segundo as respostas dadas pelos alunos podemos observar na primeira questão que 73,3% dos alunos tiveram vivência em GR, sendo que apenas 6,6% tiveram essa vivência fora da graduação. É importante ressaltar também que apenas 66,6% dos alunos freqüentaram as aulas de fundamento esportivo de G.R., e 33,3% não freqüentaram as aulas.
Podemos observar na segunda questão que 90% dos alunos responderam que conheciam os aparelhos utilizados na G.R., mas apenas 43, 3 % citaram corretamente, todos os aparelhos, nessa questão freqüentemente tivemos respostas como nomes dos aparelhos da Ginástica Artística, observando certa confusão entre os alunos sobre o esporte ao qual eles estavam sendo questionados.
Quanto a terceira pergunta 100% consideraram a GR um esporte, porém não houve 100% de concordância a respeito da classificação que ela se encontra, segundo GONZALES (2004), a GR é classificada como um esporte estético ou técnico combinatório: individual e coleti vo para as provas em conjunto, onde não há interação com o oponente.
Na quarta questão observamos que mesmo que 66, 6 % tenha tido a vivência da G.R. Na graduação apenas 26,7 % se sentem aptos a trabalhar com esse esporte.
Diminuindo ainda a porcentagem na última questão quando perguntamos sobre o interesse desses alunos em trabalharem com esse esporte, obtendo apenas 20% de respostas afirmativas.
CONCLUSÕES
A GR é um esporte muito recente e que vem crescendo em nosso país, apesar da cultura esportiva brasileira ser o futebol, alguns esportes vem se destacando no âmbito internacional com a Ginástica Artística e a Ginástica Rítmica, não podendo esquecer da conquista da medalha de ouro do conjunto de GR em 1999 no Campeonato Pan americano e da classificação d a equipe entre as 8 melhores no último Jogos Olímpicos.
Contudo vemos que apesar desse crescimento, há uma escassez de técnicos e pessoas interessadas em trabalhar e divulgar essa modalidade esportiva. Sabemos que para ser técnico não basta apenas ser ginasta, deve-se ter um curso superior de Educação Física atendendo as leis do CONFEF/CREF. Porém ainda que a responsabilidade da formação de técnicos em GR esteja a cargo das universidades (NUNOMURA, 2004), os alunos do último ano da graduação, não se sentem aptos a trabalhar com esse esporte. Talvez a situação fosse diferente se houvesse cursos para a formação de técnicos como ocorre no contexto internacional, ou se houvesse parcerias com universidades e federações, para promover tais cursos e contribuir com o melhor desempenho da modalidade.
Esses cursos poderiam despertar interesses em pessoas formadas em Educação Física a trabalhar com essa modalidade esportiva, pois observamos que os alunos do quarto ano, que tiveram vivência na graduação, ainda demonstram a falta de conhecimento dos aparelhos e a falta de interesse em trabalhar com a GR, com isso a carência dos profissionais na área aumenta e por sua vez a dificuldade de crescimento da modalidade também.
Concluímos que os futuros profissionais de Educação Física desconhecem essa modalidade esportiva tão rica e que vem crescendo a cada dia e que há falta de interesse maior ainda de se trabalhar com essa modalidade esportiva. E mesmo os que têm interesse em trabalhar com a modalidade muitas vezes não se sent em aptos para tal, pois apenas vivenciaram e não se aprofundaram em seus conhecimentos, pois a preparação desses profissionais cabe apenas à Universidade, que deve passar aos seus alunos um amplo campo de conhecimento que abrange a área da Educação Física.
REFERÊNCIAS
CAÇOLA, P.M; LADEWIG, I. A utilização de dicas na aprendizagem da Ginástica Rítmica: um estudo de revisão.2005, Disponível em http://www.efdeportes.com/efd82/gr.htm. Acesso em: 17.jul.2007
CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE GINÁSTICA – CBG. Site oficial. Código de pontuação
Provisório 2005-2008/GR. disponível em: http://www.cbginastica.com.br. Acesso em: 26 out. 2005. GONZALEZ, Fernando. Sistema de classificação de esportes com base nos critérios: cooperação, interação com o adversário, ambiente, des empenho comparado e objetivos táticos da ação. [artigo científico]. 2004. Disponível em:
<http://www.efdeportes.com/efd71/esportes.htm>. Acesso em: 22 mar. 2007.
LANARO FILHO, P. ; BÖHME, M.T.S. Detecção, seleção e promoção de talentos esportivos: um estudo de revisão. Revista Paulista de Educação Física. v. 15, n.2, p.154 -168, 2001.
LAFFRANCHI, Barbara. Treinamento Desportivo aplicado à ginástica rítmica . Londrina: Unopar, 2001.
MOLINARI, A. M.P. Ginástica Rítmica: esporte, história e desenvolvimento.2007. Disponível em:www.cdof.com.br/esportes4.htm Acesso em: 17. jul.2007
NUNOMURA, M. A Formação dos Técnicos de Ginástica Artística: os modelos internacionais. Revista Brasileira de Ciência e Movimento. Brasília, v.12, n.3, p. 63-69, 2004
REIS. E.J.B. Aspectos relevantes da seleção musical para as séries de ginástica rítmica – uma visão das técnicas. 2004. Dissertação (mestrado em educação física) – instituto de Biociência, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro.
VIEIRA, R. M. M. O fenômeno da expressão na ginástica rítmica desportiva. 1989. Dissertação (mestrado em educação física) – Escola de Educação Física, Universidade de São Paulo, São Paulo.