E P E R C E P Ç Ã O S E N S O R I A L
emanuel
dimas
de
melo
pimenta
título: NATUREZA, ARTEFACTOS E PERCEPÇÃO SENSORIAL autor: Emanuel Dimas de Melo Pimenta
ano: 1995
Arquiitectura, filosofia, estética, cognição editor: ASA Art and Technology UK Limited
© Emanuel Dimas de Melo Pimenta © ASA Art and Technology
www.asa-art.com
www.emanuelpimenta.net
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Num único dia,
nossos pulmões aspiram cerca de vinte mil vezes
nossos corações batem cerca de cem mil vezes!
Todos os dias.
Durante as horas de vigília, os nossos olhos realizam
diariamente
-cerca de quinhentos mil movimentos de rastreamento.
Grande parte das vezes quando falamos da Natureza,
ou das coisas naturais,
estamos falando de nós próprios. Nós linguagem,
nós cultura.
Espécie de animismo virtual que, fascinantemente,
resgata traços de uma humanidade
Viciados
numa educação literária e visual, não estamos ainda habituados a pensar
que somos apenas colónias de formas de vida,
incluindo aquilo a que chamamos pensamento.
Basta dizer estas poucas palavras para que algumas pessoas
rapidamente torçam o nariz e comecem a se perguntar:
trata-se de discurso de algum diletante,
uma abordagem amadora, não técnica.
E logo um julgamento imediato: não se trata de arquitectura,
de música, fotografia ou literatura.
Mas,
linguagem é o fundamento primeiro de tudo
Estejamos tratando de arquitectura, de física, de poesia ou de
matemática.
Em Sânscrito,
a palavra vac significa simultaneamente
divindade e comunicação.
Essa é a raiz etimológica da nossa palavra
voz.
Raiz que denuncia o sentido primeiro de deus.
Quando tratamos da Natureza
tratamos da nossa própria forma de pensar,
tornando-a um poderoso artefacto. Não é o que o mundo é,
mas sim como fazemos o que o mundo é.
A consciência modifica a matéria afirmação com a qual John Wheeler
lançava anos atrás
outra ideia essencial:
it from bit.
Pensar o pensamento enquanto artefacto.
O simétrico espelhamento entre natural e artificial
Conheceu, entre outros,
dois momentos fundamentais
em todo o percurso da humanidade: Roma Antiga e o Renascimento.
Ambos coincidentes
com o desenvolvimento de tecnologias
que desencadearam uma forte intensificação
O papiro produzido no Egipto e o papel trazido da China.
Cadmo,
o mitológico rei que terá introduzido
as letras do alfabeto na Grécia, semeou os dentes de um dragão
Desses dentes
nasceram homens fortemente armados.
Cadmo não sabia como os controlar e tratou de atirar pedras,
de forma tribal, sem planos, aleatoriamente,
fazendo com que aqueles homens desconfiados de si próprios
Só depois,
com apenas cinco sobreviventes, Cadmo conseguiu assumir
a autoridade da liderança.
Como mostrou Marshall McLuhan, o alfabeto fonético significava
para a Antiga Grécia o poder,
a autoridade e o controle
Cadmo
representa uma transição de tecnologias.
Os dentes do dragão semeados geraram o poder
que acabou com as Cidades Estado e que permitiu a exuberância do
Império Romano.
Foi o ruído produzido pelas pedras de Cadmo
o responsável pela desarticulação daquele exército.
Assim,
surgiu o domínio Romano
sobre a produção de papiro no Egipto.
Um novo exército nascido de dentes de um novo dragão
um exército controlado à distância e um pensamento que inaugura
pela primeira vez
a autónoma ideia de arte. Para os antigos Gregos,
arte e técnica possuíam apenas uma palavra:
Platão não estabelecia qualquer distinção entre arte e ciência.
No final da Alta Idade Média, com a crescente importação de
papel produzido na China, surgem a perspectiva plana, a imprensa de Gutemberg e o relógio mecânico.
Com o Renascimento,
a paradigmática separação entre natural e artificial
substituiu a arte como imitação da Natureza
formulada por Aristóteles,
e a arte como imitação da natureza no seu modus operandi,
As exuberantes transformações do final
do segundo milénio –
súbita mudança de escala demográfica,
efeitos da supercomunicação
e a inauguração massiva dos meios de telepresença –
têm representado uma fase de radical metamorfose
Não apenas os nossos corpos são colónias vivas
em constante efervescência,
tornam-se também nós interactivos numa trama de conexões,
projectado
na varredura impressa sobre as telas dos computadores
ou nos aparelhos de televisão. Olhos e ouvidos se estendem
planetariamente
através de satélites de telecomunicações
substituindo o poder do central comando da escrita
pelo poder da híper informação em tempo real.
A ideia de mudança –
enquanto momento isolado de transformação –
é substituído pela ideia de contínua metamorfose.
Uma transformação provavelmente
comparável à do Neolítico,
acontecida há cerca de dez mil anos atrás.
A uniformização dos sistemas de linguagem
gerada a partir da imprensa de Gutemberg –
transformando edifícios
em compartimentos especializados de espaço tempo
e seres humanos em indivíduos aparentemente exactos
e previsíveis – é substituída
pelo universo não estereotipado dos sistemas interactivos.
Assim,
a comunicação one-way
que revelou o sentido da solidão e do artificial,
dá lugar à comunicação de duas mãos,
revelando integração e nova mente, Natureza.
Um desdobramento especular em um universo fractal,
onde simetrias se reflectem num labirinto caótico.
Mas,
num primeiro momento
há sempre uma primitivização. Isto é:
da mesma forma que o início da fotografia
foi imitação da pintura,
a imagem do flanneur produzida pelo universo literário
é replicada pelos sistemas interactivos
na imagem hipnótica de seres humanos zumbi
Nesse primeiro momento a imagem da Humanidade passa a estar literalmente presa à tela da televisão e dos computadores
O procedimento interactivo
não permite uma iconologia literal e
pouco a pouco
o ser humano zumbi se descobre – como nas Metamorfoses de Ovídio
–
enquanto nova Humanidade trans-sensorial.
Dentro de alguns meses
a rede Internet possuirá mais de cem milhões de usuários.
Nenhuma cidade no planeta possui uma população
desse tamanho. Apenas dez países
em todo o mundo possuem mais
O continente Europeu, por longo tempo
bloco fragmentado em diferentes culturas,
transforma-se rapidamente
A antiga ideia de arte,
estabelecida enquanto conceito de alta definição,
dá lugar à instabilidade
- implicando a desconstrução da estrutura comercial
antes fundada na aura
Uma metamorfose que,
produzindo efémeros artefactos, destroi as fronteiras especializadas
entre popular e erudito.
Uma metamorfose para o fim da ideia de revolução!
Pela primeira vez, desde o Neolítico,
o século XX inaugura um ser humano
para o qual
a agricultura não é a sua principal actividade
O século XX gerou três grandes revoluções: a bomba atómica, a superpopulação e a supercomunicação. A primeira desnudou, pela primeira vez,
a frágil condição da Humanidade enquanto espécie,
e produziu uma questão cósmica: somos realmente importantes para o
A superpopulação
produziu a ideia de mudança de fase aplicada às mutações da
Humanidade e da Natureza. A mudança sem meio termo
Escala.
A última revolução produziu a explosão do
conhecimento,
Com a bomba atómica
o planeta passou a se orientar exclusivamente
por uma nova ideia de tempo, standard e uniformizadora: horas, minutos e segundos em
tempo real, em todo lugar.
O que antes era separado por milhares de quilómetros
de terras e oceanos,
passou a estar presente no conflito urbano
das grandes cidades dentro de redes de redes
de telecomunicação. Assim,
as cidades foram os primeiros conjuntos humanos
E lentamente,
o foco de atenção da cidade transformou-se
no lazer.
Nos últimos anos do segundo milénio,
as cidades mais valorizadas do mundo
são as que estão envolvidas com divertimento e lazer, e não aquelas que implicam a
produção de riqueza.
Assimetrias civilizatórias passam a se mover
sobre
um novo tipo de geografia virtual.
Uma nova topologia planetária,
para a qual a transição e o controlo do tráfego de ideias
Controlo de tráfego não enquanto censura de ideias
ou de acção
mas sim enquanto desenho de ruído. Design sensorial.
Extensões sensoriais, até então mecânicas e
omnidirecionais,
dão lugar a sistemas interactivos, verdadeiras
A elaboração do mundo artificial inaugurado pela intensificação
de extensões mecânicas,
como o alfabeto fonético e a roda, dá lugar ao mundo hípernatural
conectando a pré-História com a pós-História.
A Utopia de Thomas Morus transforma-se
Uma transição
para que René Berger chamou de teleantropos.
Um novo ser humano Tele Humanidade feita de informação
Cultura e órgãos humanos, plasma
distribuídos em bancos por todo o planeta,
agregados numa nova espécie humana.
O Oeste despertará o Leste quando tivermos a noite como
Ao contrário dos sistemas omnidirecionais,
que produzem a sensação de isolamento e da artificialidade, a interactividade produz a sensação de integração e gera o efeito de um novo nomadismo. A solidariedade é a condição essencial do nómada,
Os meios de comunicação
não são mais extensões fora do organismo,
mas sim parte activa dele parte dos nossos sentidos.
O artefacto e o artificial
ambos gerados etimologicamente pelo sentido
de fazer segundo a lei dão lugar ao natural, que etimologicamente
significa génese e gnose.
Planeta,
deus & Natureza
enquanto conhecimento. A criação interrompida e
fragmentada
do processo de comunicação one-way
dá lugar à criação contínua da descoberta.
A ideia da vida limitada,
ou desenhada pela morte enquanto necrose
é substituída pela ideia da vida em constante mutação
através da apoptose.
Isso também em termos culturais. O maravilhamento diante das coisas
é o fundamento primeiro da filosofia.
Em Teaeteto, Sócrates afirma Que
percepções não são geradas
como experiências privadas e que
todas as coisas,
em toda a sua variedade, são geradas no intercurso
entre elas,
como resultado de mudança
Alterando a nossa paleta sensorial, mudamos o sentido
Ainda em Teaeteto, Sócrates:
o universo é mudança
e nada mais há senão mudança. Há dois tipos de mudança, que podem ser distinguidas
não pela frequência da sua ocorrência
mas pelos seus poderes: uma é activa,
O intercurso e a fricção entre esses dois tipos
faz surgir um infinito número de gerações,
que nascem sempre como gémeos: há a coisa percebida
e há a percepção. Natural & artificial.