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Texto

(1)

E P E R C E P Ç Ã O S E N S O R I A L

emanuel

dimas

de

melo

pimenta

(2)

título: NATUREZA, ARTEFACTOS E PERCEPÇÃO SENSORIAL autor: Emanuel Dimas de Melo Pimenta

ano: 1995

Arquiitectura, filosofia, estética, cognição editor: ASA Art and Technology UK Limited

© Emanuel Dimas de Melo Pimenta © ASA Art and Technology

www.asa-art.com

www.emanuelpimenta.net

Todos os direitos reservados. Nenhum texto, fragmento de texto, imagem ou parte desta publicação poderá ser utilizada com objectivos comerciais ou em relação a qualquer uso comercial, mesmo indirectamente, por qualqueis meios, electrónicos ou mecânicos, incluindo fotocópia, qualquer tipo de impressão, gravação ou outra forma de armazenamento de informa-ção, sem autorização prévia por escrito do editor. No caso do uso ser permitido, o nome do auto deverá ser sempre incluído.

(3)

Num único dia,

nossos pulmões aspiram cerca de vinte mil vezes

nossos corações batem cerca de cem mil vezes!

Todos os dias.

Durante as horas de vigília, os nossos olhos realizam

diariamente

-cerca de quinhentos mil movimentos de rastreamento.

(4)

Grande parte das vezes quando falamos da Natureza,

ou das coisas naturais,

estamos falando de nós próprios. Nós linguagem,

nós cultura.

Espécie de animismo virtual que, fascinantemente,

resgata traços de uma humanidade

(5)

Viciados

numa educação literária e visual, não estamos ainda habituados a pensar

que somos apenas colónias de formas de vida,

incluindo aquilo a que chamamos pensamento.

Basta dizer estas poucas palavras para que algumas pessoas

rapidamente torçam o nariz e comecem a se perguntar:

(6)

trata-se de discurso de algum diletante,

uma abordagem amadora, não técnica.

E logo um julgamento imediato: não se trata de arquitectura,

de música, fotografia ou literatura.

Mas,

linguagem é o fundamento primeiro de tudo

(7)

Estejamos tratando de arquitectura, de física, de poesia ou de

matemática.

Em Sânscrito,

a palavra vac significa simultaneamente

divindade e comunicação.

Essa é a raiz etimológica da nossa palavra

voz.

Raiz que denuncia o sentido primeiro de deus.

(8)

Quando tratamos da Natureza

tratamos da nossa própria forma de pensar,

tornando-a um poderoso artefacto. Não é o que o mundo é,

mas sim como fazemos o que o mundo é.

(9)

A consciência modifica a matéria afirmação com a qual John Wheeler

lançava anos atrás

outra ideia essencial:

it from bit.

Pensar o pensamento enquanto artefacto.

(10)

O simétrico espelhamento entre natural e artificial

Conheceu, entre outros,

dois momentos fundamentais

em todo o percurso da humanidade: Roma Antiga e o Renascimento.

Ambos coincidentes

com o desenvolvimento de tecnologias

que desencadearam uma forte intensificação

(11)

O papiro produzido no Egipto e o papel trazido da China.

Cadmo,

o mitológico rei que terá introduzido

as letras do alfabeto na Grécia, semeou os dentes de um dragão

(12)

Desses dentes

nasceram homens fortemente armados.

Cadmo não sabia como os controlar e tratou de atirar pedras,

de forma tribal, sem planos, aleatoriamente,

fazendo com que aqueles homens desconfiados de si próprios

(13)

Só depois,

com apenas cinco sobreviventes, Cadmo conseguiu assumir

a autoridade da liderança.

Como mostrou Marshall McLuhan, o alfabeto fonético significava

para a Antiga Grécia o poder,

a autoridade e o controle

(14)

Cadmo

representa uma transição de tecnologias.

Os dentes do dragão semeados geraram o poder

que acabou com as Cidades Estado e que permitiu a exuberância do

Império Romano.

Foi o ruído produzido pelas pedras de Cadmo

o responsável pela desarticulação daquele exército.

(15)

Assim,

surgiu o domínio Romano

sobre a produção de papiro no Egipto.

Um novo exército nascido de dentes de um novo dragão

um exército controlado à distância e um pensamento que inaugura

pela primeira vez

a autónoma ideia de arte. Para os antigos Gregos,

arte e técnica possuíam apenas uma palavra:

(16)

Platão não estabelecia qualquer distinção entre arte e ciência.

No final da Alta Idade Média, com a crescente importação de

papel produzido na China, surgem a perspectiva plana, a imprensa de Gutemberg e o relógio mecânico.

(17)

Com o Renascimento,

a paradigmática separação entre natural e artificial

substituiu a arte como imitação da Natureza

formulada por Aristóteles,

e a arte como imitação da natureza no seu modus operandi,

(18)

As exuberantes transformações do final

do segundo milénio –

súbita mudança de escala demográfica,

efeitos da supercomunicação

e a inauguração massiva dos meios de telepresença –

têm representado uma fase de radical metamorfose

(19)

Não apenas os nossos corpos são colónias vivas

em constante efervescência,

tornam-se também nós interactivos numa trama de conexões,

(20)

projectado

na varredura impressa sobre as telas dos computadores

ou nos aparelhos de televisão. Olhos e ouvidos se estendem

planetariamente

através de satélites de telecomunicações

substituindo o poder do central comando da escrita

pelo poder da híper informação em tempo real.

(21)

A ideia de mudança –

enquanto momento isolado de transformação –

é substituído pela ideia de contínua metamorfose.

Uma transformação provavelmente

comparável à do Neolítico,

acontecida há cerca de dez mil anos atrás.

(22)

A uniformização dos sistemas de linguagem

gerada a partir da imprensa de Gutemberg –

transformando edifícios

em compartimentos especializados de espaço tempo

e seres humanos em indivíduos aparentemente exactos

e previsíveis – é substituída

pelo universo não estereotipado dos sistemas interactivos.

(23)

Assim,

a comunicação one-way

que revelou o sentido da solidão e do artificial,

dá lugar à comunicação de duas mãos,

revelando integração e nova mente, Natureza.

Um desdobramento especular em um universo fractal,

onde simetrias se reflectem num labirinto caótico.

(24)

Mas,

num primeiro momento

há sempre uma primitivização. Isto é:

da mesma forma que o início da fotografia

foi imitação da pintura,

a imagem do flanneur produzida pelo universo literário

é replicada pelos sistemas interactivos

na imagem hipnótica de seres humanos zumbi

(25)

Nesse primeiro momento a imagem da Humanidade passa a estar literalmente presa à tela da televisão e dos computadores

(26)

O procedimento interactivo

não permite uma iconologia literal e

pouco a pouco

o ser humano zumbi se descobre – como nas Metamorfoses de Ovídio

enquanto nova Humanidade trans-sensorial.

(27)

Dentro de alguns meses

a rede Internet possuirá mais de cem milhões de usuários.

Nenhuma cidade no planeta possui uma população

desse tamanho. Apenas dez países

em todo o mundo possuem mais

(28)

O continente Europeu, por longo tempo

bloco fragmentado em diferentes culturas,

transforma-se rapidamente

(29)

A antiga ideia de arte,

estabelecida enquanto conceito de alta definição,

dá lugar à instabilidade

- implicando a desconstrução da estrutura comercial

antes fundada na aura

(30)

Uma metamorfose que,

produzindo efémeros artefactos, destroi as fronteiras especializadas

entre popular e erudito.

Uma metamorfose para o fim da ideia de revolução!

(31)

Pela primeira vez, desde o Neolítico,

o século XX inaugura um ser humano

para o qual

a agricultura não é a sua principal actividade

(32)

O século XX gerou três grandes revoluções: a bomba atómica, a superpopulação e a supercomunicação. A primeira desnudou, pela primeira vez,

a frágil condição da Humanidade enquanto espécie,

e produziu uma questão cósmica: somos realmente importantes para o

(33)

A superpopulação

produziu a ideia de mudança de fase aplicada às mutações da

Humanidade e da Natureza. A mudança sem meio termo

Escala.

A última revolução produziu a explosão do

conhecimento,

(34)

Com a bomba atómica

o planeta passou a se orientar exclusivamente

por uma nova ideia de tempo, standard e uniformizadora: horas, minutos e segundos em

tempo real, em todo lugar.

(35)

O que antes era separado por milhares de quilómetros

de terras e oceanos,

passou a estar presente no conflito urbano

das grandes cidades dentro de redes de redes

de telecomunicação. Assim,

as cidades foram os primeiros conjuntos humanos

(36)

E lentamente,

o foco de atenção da cidade transformou-se

no lazer.

Nos últimos anos do segundo milénio,

as cidades mais valorizadas do mundo

são as que estão envolvidas com divertimento e lazer, e não aquelas que implicam a

produção de riqueza.

(37)

Assimetrias civilizatórias passam a se mover

sobre

um novo tipo de geografia virtual.

Uma nova topologia planetária,

para a qual a transição e o controlo do tráfego de ideias

(38)

Controlo de tráfego não enquanto censura de ideias

ou de acção

mas sim enquanto desenho de ruído. Design sensorial.

Extensões sensoriais, até então mecânicas e

omnidirecionais,

dão lugar a sistemas interactivos, verdadeiras

(39)

A elaboração do mundo artificial inaugurado pela intensificação

de extensões mecânicas,

como o alfabeto fonético e a roda, dá lugar ao mundo hípernatural

conectando a pré-História com a pós-História.

A Utopia de Thomas Morus transforma-se

(40)

Uma transição

para que René Berger chamou de teleantropos.

Um novo ser humano Tele Humanidade feita de informação

(41)

Cultura e órgãos humanos, plasma

distribuídos em bancos por todo o planeta,

agregados numa nova espécie humana.

O Oeste despertará o Leste quando tivermos a noite como

(42)

Ao contrário dos sistemas omnidirecionais,

que produzem a sensação de isolamento e da artificialidade, a interactividade produz a sensação de integração e gera o efeito de um novo nomadismo. A solidariedade é a condição essencial do nómada,

(43)

Os meios de comunicação

não são mais extensões fora do organismo,

mas sim parte activa dele parte dos nossos sentidos.

O artefacto e o artificial

ambos gerados etimologicamente pelo sentido

de fazer segundo a lei dão lugar ao natural, que etimologicamente

significa génese e gnose.

(44)

Planeta,

deus & Natureza

enquanto conhecimento. A criação interrompida e

fragmentada

do processo de comunicação one-way

dá lugar à criação contínua da descoberta.

(45)

A ideia da vida limitada,

ou desenhada pela morte enquanto necrose

é substituída pela ideia da vida em constante mutação

através da apoptose.

Isso também em termos culturais. O maravilhamento diante das coisas

é o fundamento primeiro da filosofia.

(46)

Em Teaeteto, Sócrates afirma Que

percepções não são geradas

como experiências privadas e que

todas as coisas,

em toda a sua variedade, são geradas no intercurso

entre elas,

como resultado de mudança

(47)

Alterando a nossa paleta sensorial, mudamos o sentido

(48)

Ainda em Teaeteto, Sócrates:

o universo é mudança

e nada mais há senão mudança. Há dois tipos de mudança, que podem ser distinguidas

não pela frequência da sua ocorrência

mas pelos seus poderes: uma é activa,

(49)

O intercurso e a fricção entre esses dois tipos

faz surgir um infinito número de gerações,

que nascem sempre como gémeos: há a coisa percebida

e há a percepção. Natural & artificial.

Referências

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