Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 8, p. 54821-54831 aug. 2020. ISSN 2525-8761
Vivências e arte cerâmica MBYÁ-GUARANI: pertencimento e resistência
nas aldeias para roké e yyrembé em domingos Petroline/Rs
Experiences and ceramic art MBYÁ-GUARANI: belonging and resistance in the
villages to roké and yyrembé in domingos Petroline/Rs
DOI:10.34117/bjdv6n8-047
Recebimento dos originais:08/07/2020 Aceitação para publicação: 07/08/2020
Daciene de Paula Oliveira
Mestranda em Educação Ambiental PPGEA - FURG
Endereço: Rua Professor Antônio Gomes de Freitas, nº150- Bairro :Salgado Filho – Rio Grande/RS Brasil.
E-mail: [email protected]
Gianpaolo Knoller Adomilli
Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul -UFRGS. Professor no curso de Arqueologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG)
Instituição: FURG
Endereço Institucional: Av. Itália-Carreiros km8 – Prédio ICHI sala 11- Rio Grande/RS -Brasil E-mail: [email protected]
Martin Cesar Tempass
Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor no curso de Arqueologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG)
Instituição: FURG
Endereço Institucional: Av. Itália-Carreiros km8- Prédio ICHI sala 11- Rio Grande/RS -Brasil E-mail: [email protected]
RESUMO
Os Mbyá-Guarani ocupam um vasto território que compreende parcelas do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Porém, esse território é ocupado de forma descontinua. Para estabelecerem suas aldeias eles escolhem apenas os lugares com as configurações ambientais necessárias para a manutenção do seu modo de ser. Recentemente, os Mbyá-Guarani, visando valorizar a sua cultura e também obter recursos financeiros, estão recebendo “visitantes” em suas aldeias. Aos visitantes são oferecidas várias atividades, como trilhas, exposição de artesanato e oficinas cerâmicas. Assim, neste artigo procuramos analisar como estes indígenas comunicam aos visitantes os seus saberes sobre o território que ocupam, a partir de etnografia realizada nas aldeias YYrembé e Para Roké, distrito de Domingos Petroline - Rio Grande, RS, Brasil.
Palavras-chave: Mbyá-Guarani; vivências; resistência. ABSTRACT
The Mbyá-Guarani occupy a vast territory comprising portions of Brazil, Paraguay, Argentina and Uruguay. However, this territory is occupied on a discontinuous basis. To establish their villages, they choose only the places with the necessary environmental settings to maintain their way of
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being. Recently, the Mbyá-Guarani, aiming at valuing their culture and also obtaining financial resources, are receiving “visitors” in their villages. Visitors are offered various activities, such as trails, handicrafts and ceramic workshops. Thus, in this article we seek to analyze how these indigenous people communicate to their visitors their knowledge about the territory they occupy, based on ethnography carried out in the villages YYrembé and Para Roké, Domingos Petroline district - Rio Grande, RS, Brazil.
Keywords: Mbyá-Guarani; experiences; resistance.
1 INTRODUÇÃO
O presente artigo objetiva apresentar reflexões sobre os saberes dos Mbyá-Guarani em relação ao ambiente em que vivem e produzem conhecimento. Para isto, apresentaremos alguns dados levantados pela primeira autora deste artigo, obtidos a partir de uma pesquisa etnográfica em andamento em duas aldeias Mbyá-Guarani no município de Rio Grande - RS. Nesta perspectiva, propomos uma reflexão sobre a relação entre as vivências indígenas e seu território tradicional enquanto diálogo de saberes, sobretudo considerando as relações entre as sociedades indígenas e a sociedade não-indígena, seus saberes e práticas ambientais.
Ao formularmos a proposta do presente artigo estamos considerando que os indígenas, no atual momento, estão em busca de alternativas para falar sobre
sua cultura e sobre os diferentes aspectos de construções sociais, as diferenças e semelhanças entre os povos indígenas e não-indígenas, além de lançar novos olhares e perspectivas sobre as diferentes formas de viver e as relações estabelecidas com a natureza, entre humanos e não-humanos.
Desde tempos remotos os Mbyá-Guarani ocupam um vasto território que compreende parcelas do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Mas, esse território é ocupado de forma descontinua, apenas nos lugares com as configurações ambientais necessárias para a manutenção do seu modo de ser. Assim, no passado e no presente, as aldeias (tekoá) dos Mbyá-Guarani são como “ilhas” distribuídas dentro do seu território mais amplo. No passado esse território era partilhado com outros grupos indígenas, com quem os Mbyá-Guarani mantinham relações bélicas ou amistosas. Hoje, esse território é dominado pela sociedade envolvente, mediante ameaças e prejuízos aos povos autóctones. Mas, apesar de tudo, os indígenas resistem. Após séculos de genocídios e roubo de territórios, eles continuam resistindo física e culturalmente aos ataques dos não indígenas. Atualmente a resistência precisa ocorrer de várias formas, para fazer frente a constante expansão urbano industrial e do agronegócio. E uma dessas formas de resistência acionadas pelos Mbyá-Guarani é a pratica das Vivências nas aldeias.
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O posicionamento das populações indígenas no mundo atual e globalizado vem exigindo a criação de formas econômicas alternativas. E isso exige uma capacidade dos indígenas para rearticular e ressignificar alguns aspectos de sua cultura para que eles possam ser melhor “consumidos” pelos brancos. Mas, ao mesmo tempo, essas rearticulações e ressignificações, sempre relacionadas com propostas de desenvolvimento sustentável, além de proporcionar uma maior renda também visam a valorização e a preservação das culturas indígenas. Isso pode ser claramente percebido nas atividades de “Vivências” que vem ocorrendo em diversas aldeias de inúmeras etnias. Para os objetivos do presente artigo serão relatadas as vivências nas aldeias (tekoá) Mbyá-Guarani Pará Roké e YYrembé, ambas na localidade de Domingos Petroline, interior do município de Rio Grande – RS.
2 VIVÊNCIAS NA TEKOÁ PARA ROKÉ E TEKOÁ YYREMBÉ
As vivências nas aldeias, basicamente, são momentos de participação e compartilhamento dos saberes indígenas com os não-indígenas. Aos visitantes os Mbyá-Guarani oferecem atividades como rodas de conversa, pintura corporal, apresentação de dança e música, artesanato, gastronomia e oficinas de arte cerâmica. São os próprios Mbyá-Guarani que decidem quais elementos da sua cultura que podem ser usados como atrativo turístico e estabelecem os limites do que pode ou não pode ser, por exemplo, comunicado, comercializado e/ou explorado.
O trabalho etnográfico nas aldeias Mbyá-Guarani desenvolveu-se sobre a perspectiva do turismo e suas relações com o meio ambiente. Para tanto, nas observações das vivências, foram consideradas as percepções tanto dos indígenas quanto dos visitantes: os indígenas como agentes de transmissão dos conhecimentos e os turistas como agentes receptores. Consideramos especialmente as trocas entre estes grupos, sejam econômicas e/ou culturais.
A partir do que foi vivenciado, segue um relato dos objetivos e da observação das etapas das atividades de vivências, organizados pelos Mbyá-Guarani. Todas as organizações destas atividades são elaboradas pelos próprios Mbyá-Guarani, com o objetivo de arrecadar doações, vender artesanatos e valorizar a sua cultura frente aos brancos. Nas atividades os “visitantes” são guiados por trilhas na mata, enquanto são fornecidas explicações sobre manejos de armadilhas e o uso de diversas plantas. São apontadas as árvores utilizadas para construção de casas e outros instrumentos, como, por exemplo, o arco e flecha. Além do uso prático, também são evocados os usos simbólicos de cada recurso encontrado na mata.
Há também uma preocupação por parte dos Mbyá-Guarani em transmitir, através de contos e conversas, alguns conhecimentos chave para a preservação da sua cultura. E para eles a preservação da cultura é, consequentemente, a preservação do meio ambiente. A integração com turistas (juruá
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- como são chamados os ``brancos´´) é importante para a obtenção de recursos para o sustento das comunidades, principalmente para a aquisição de alimentos no comércio. E a demanda pelos alimentos do comércio é grande, posto que as aldeias em estudo foram (re)estabelecidas recentemente e ainda estão em fase de implantação da sua horticultura tradicional, baseada no sistema de coivara.
Figura 1: Canto das crianças - Tekoá Para Roké
Fonte: Daciene Oliveira
Como medida de proteção cultural, os Mbyá-Guarani mantém em segredos vários aspectos do seu sistema xamânico-cosmológico. Assim, os aspectos mais sagrados não são expostos nestes eventos turísticos. E outros aspectos são retrabalhados de forma didática para uma compreensão mais fácil por parte dos visitantes. Alguns deles inclusive são retrabalhados para evitar estigmatizações.
Estas vivências ocorrem eventualmente, de acordo com as demandas dos visitantes e as necessidades dos organizadores. Não há um calendário programado, mas podemos dizer que os eventos ocorrem esporadicamente, com acentuação nos meses de abril e maio, por se tratar de um período de comemorações da cultura indígena e também por existir um maior interesse dos visitantes. Assim, as vivências não impactam as demais atividades do cotidiano das aldeias e também pouco impactam o ambiente visitado.
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Ao percorrer as trilhas o visitante observa um grande número de artefatos da cultura material do grupo. Mas, com cuidado de manter em segredo os aspectos mais importantes, no lugar dos itens originais são apresentadas apenas algumas réplicas, sem o emprego dos materiais de caráter sagrado. Assim, armadilhas, construções, ferramentas e modos de plantios são apresentados como alegorias didáticas.
Sobre o artesanato do grupo, é importante destacar que o artesanato oferecido aos turistas difere significativamente do que é usado cotidianamente. O artesanato tradicional é bastante discreto, mas o que é oferecido aos turistas se destaca pela força das cores, posto que os Mbyá-Guarani imaginam que na estética dos visitantes o colorido é que confere beleza.
Figura 2: Artesanato – YYrembé
Fonte: Daciene Oliveira
O mesmo ocorre com os alimentos típicos oferecidos aos turistas. Nas atividades que acompanhamos foram oferecidos o xipá (bolo frito), aróca (suco de mel), mandió bity (mandioca assada), jety bity (batata doce assada), urú bity (frango assado), mbojapé (pão tradicional) e avaxi bity (milho assado). Muitos deles foram servidos regados com mel (ei). A escolha desses alimentos, em
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vez de outros, é feita de forma a evitar estigmatizações. São escolhidos apenas os alimentos que são culturalmente agradáveis também aos visitantes.
Em todas as atividades propostas aos visitantes os Mbyá-Guarani tecem algumas falas com explicações pontuais sobre o que estão mostrando, sempre encaixadas em um discurso mais amplo de valorização da sua cultura. Muitos turistas fazem perguntas (inclusive perguntas preconceituosas) e os anfitriões se esforçam ao máximo para responder satisfatoriamente. Os Mbyá-Guarani são muito divertidos e brincalhões. Risadas fazem parte das atrações.
Os Mbyá-Guarani, por uma questão cosmológica (Cf. TEMPASS, 2012), não retiram da natureza mais do que precisam. É uma atitude de reciprocidade. A natureza fornece tudo que eles culturalmente precisam e por isso ela deve ser tratada com profundo respeito. E isso é sempre destacado nos seus discursos. Eles sempre destacam, que diferentemente dos juruá, eles, sim, sabem preservar a natureza. E inclusive dão dicas de manejo para os visitantes. E chega a ser curioso quando, diante de armadilhas armadas didaticamente na trilha, o foco do discurso não é a morte de um animal, mas sim a preservação da vida das espécies. E mais do que isso, discursos sobre a qualidade de vida que os animais devem ter.
Então, com essas oportunidades, os visitantes podem conhecer e entender sobre a natureza e sobre outras culturas, de forma holística, possibilitando que os seres humanos, através da interação, possam perceber-se como parte da natureza, senti-lá e apreciá-lá.
3 AS CERÂMICAS MBYÁ-GUARANI: TEKOÁ YYREMBÉ
Para os Mbyá–Guarani o barro é mais do que uma matéria-prima para construções. Eles atribuem ao barro significados que revelam a importância de se preservar o solo e o meio ambiente. Para eles, empregar o barro é uma forma de resistência cultural. E nisso se destaca a participação das crianças. Como nos diz o cacique Eduardo, “que é importante manter casinha de barro na aldeia, para as crianças pode ver, pode saber como se faz casinha”. E completa seu Teófilo(Xamã/Karaí): “o índio só está pronto pra casar quando sabe construir a sua própria casa”. Os fatores cosmológicos estão diretamente ligados as produções dos Mbyá-Guarani, tendo como guia para suas construções fatores espirituais e simbólicos revelados através dos sonhos.
Os Mbyá-Guarani produzem apenas aquilo que está de acordo com o seu sistema xamânico cosmológico, pois é através destes aspectos que são revelados as capacidades e as relações sociais e econômicas dos grupos.
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 8, p. 54821-54831 aug. 2020. ISSN 2525-8761 Figura 3: Construção casa de barro
Fonte: Daciene Oliveira
No caso dos indígenas da aldeia YYrembé, tanto as mulheres como os homens produzem artefatos cerâmicos. Porém entre os Mbyá-Guarani existe um fator que determina se a pessoa tem ou não o ‘’dom’’ de ser ceramista, que é revelado na hora da queima das peças. Segundo os Mbyá-Guarani, a pessoa é revelada como ceramista se as peças da primeira queima não se quebrarem ou sofrerem rachaduras. Diana, esposa do Cacique Eduardo, foi a principal responsável pela retomada dos projetos cerâmicos do grupo. Ela diz que para aferir a qualidade do barro (matéria-prima) é bom ir amassando com a mão e vendo se está seco ou não. Mas cada pessoa tem que saber qual a melhor textura para fazer um objeto (artefato), “porque a pessoa sente e sabe quando tá bom”. Ela diz, “apertando assim, entre os dedos e vendo se dá de modelar e fazer um bixinho ou um pote”.
Para os Mbyá–Guarani, os objetos cerâmicos possuem características econômicas e simbólicas; Alguns artefatos são usados em rituais xamânicos, como os cachimbos, ou Petynguá como chamado na língua Guarani. O significado da palavra petynguá vem de “Pety” que significa fumo e “-gua” tem sentido de lugar, continente (MARQUES, 2012, p. 98), ou seja: lugar do fumo.
A agência envolvida no petynguá vai além da pessoa que o está fumando. Por si só o cachimbo possui capacidades agentivas, e o fato de produzir a fumaça que inspira
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discursos sábios demonstra apenas uma das potencialidades envolvidas nessa agência (MARQUES, 2012 p. 108).
Figura 4: Petyngua
Fonte: Daciene Oliveira
De acordo com Pestana e Silva (2018), os Petynguá produzidos na aldeia YYrembé, estão passando por um processo de objetificação, pois apesar de suas características como objeto ritualístico de grande importância na constituição xamânica e cosmológica, eles estão sendo oferecidos aos não-indígenas (juruá), como forma de constituir alianças. Porém, os objetos não possuem valores xamânicos quando oferecidos. E, além dos petynguá, outros objetos cerâmicos vêm sendo produzidos, tanto para o consumo interno quanto para as relações de trocas com os juruá.
Os artefatos cerâmicos são dotados de grande valor cultural para os Mbyá-Guarani, porém atualmente são poucas as comunidades/aldeias que produzem estes objetos. Acreditamos que a substituição por outros objetos incorporados dos brancos é um dos motivos para a diminuição das produções, assim como a dificuldade de encontrar matéria-prima. A produção dos objetos cerâmicos é bastante complexa e demorada. Considerando a busca pela matéria-prima, modelagem, secagem e queima, uma peça leva no mínimo um mês para ficar completamente pronta. Estes objetos
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produzidos na aldeia YYrembé possuem pouco potencial econômico, sendo que nem são comercializados em sua totalidade.
Figura 5: Produção cerâmica
Fonte: Daciene Oliveira
O principal objetivo é manter a cultura viva, com suas características tradicionais. Outro objetivo é levar os conhecimentos tradicionais dos Mbyá-Guarani aos não indígenas, como forma de valorização cultural, social e econômica. Para isto, em suas atividades de vivências/turismo na aldeia, eles oferecem um momento de oficina cerâmica para os não-indígenas, buscando a troca de saberes.
4 PERTENCIMENTO AO LUGAR DE MBYÁ-GUARANI
Edward Relph (2012, p. 17), diz que “por meio de lugares que indivíduos e sociedades se relacionam com o mundo”. E que “essa relação tem potencial para ser responsável e transformadora”. Pensando sobre os reflexos que os lugares, as experiências e a essência que cada ``lugar´´ representa,
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podemos refletir que estar em um lugar é estar com nossos corpos, que nos movimentamos com eles, e nos envolvemos com o lugar no qual estamos, ou fazemos parte. E que assim, é no corpo que está o primeiro lugar que se habita o ``eu´´. Ou seja, o ser. De acordo com Merleau-Ponty (2011), do corpo surgem e fluem a experiência, a compreensão e o conhecimento do mundo. Assim experimentamos os lugares, porque vivemos nos lugares ou temos algum tipo de ligação como eles. E deste modo nos integramos aos lugares, assim como eles nos integram. Tornando possível a nossa própria experiência.
A interação com o mundo, com os lugares, faz com que eles e nós sejamos possíveis. Os significados dos lugares está no que compõe o ``ser social´´, e desta maneira não se deve fazer distinções entre corpo, matéria, e o espírito, entre paisagens naturais e culturais (TILLEY, 2014, p. 26). Nesta perspectiva o significado não está imposto nas coisas nem na consciência, e sim no curso da ação. As informações e as referências se dão pelo contato com o lugar, com o ambiente onde estão. Desta forma a percepção age como uma forma de ação em relação as atividades da vida. Para Tilley (2014) a experienciação do mundo se estende a partir do corpo e expande-se para além das particularidades do lugar. Com isto os lugares podem ser percebidos com um conjunto de relações entre os sentimentos humanos, emoções, permanências, movimento e prática em uma região geográfica que pode ter ou não seus limites estabelecidos, assim os lugares produzem um potente meio de compreensão, e socialização, já que compreender um lugar é compreender quem você é, e o lugar que se pertence.
E os Mbyá-Guarani ao mostrarem para os visitantes o seu lugar (ou os seus lugares) estão nos falando sobre as suas relações, sobre as suas emoções e seus movimentos. E isso tudo experienciado através dos seus corpos e almas. Isso porque ao movimentarem-se pelo seu amplo território ou mesmo dentro das suas aldeias eles vão se construindo como pessoas. Vão construindo o seu corpo e a sua alma de acordo com os seus preceitos cosmológicos.
Ao passar isso para os visitantes, os Mbyá-Guarani não estão apenas valorizando a sua cultura, mas estão também apontando as incoerências nos modos de vida da sociedade envolvente. E os turistas absorvem esses ensinamentos de forma diversa. Grosso modo podemos dizer que metade vê simplicidade no modo de ser Mbyá-Guarani e a outra metade vê complexidade. Mas, de uma forma ou de outra, ambos os grupos saem encantados com o que aprenderam nas visitas.
As nossas pesquisas sobre essa temática estão apenas começando, mas já podemos perceber que as atividades turísticas dos Mbyá-Guarani atingem os seus objetivos ao modificarem, de alguma forma, a percepção dos visitantes sobre a natureza. Ou sobre as naturezas, posto que cada grupo possui diferentes recortes sobre o que é e o que não é considerado natureza, de acordo com a sua cultura.
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Ou, de acordo com Bruno Latour (1994), sobre os híbridos de natureza e cultura. Ao falarem de sua natureza eles estão nos falando sobre a sua cultura, e vice-versa. Ao falarem do seu lugar eles estão nos falando sobre o seu mundo – e vice-versa. E esse falar sobre si é uma importante ferramenta de resistência.
REFERÊNCIAS
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: 34, 1994.
LITTLE, Paul. E. Etnodesenvolvimento local: autonomia cultural na era do neoliberalismo global. Tellus, Campo Grande, v. 2, n. 3, p. 33-52, 2002.
MARQUES, Roberta Pôrto . Um estudo de caso sobre o fumo, o uso dos cachimbos e as práticas
de fumar entre os Mbyá-Guarani (RS). Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 6, n. 1, p. 97-118,
jan./jun. 2012.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo, 2011.
PESTANA, Marlon, SILVA, Luiz Henrique. ÑAEÚ PETYNGUÁ – QUE TRECO É ESSE? Rev. Memorare, Tubarão, v.5, n.3, p. 15-25 set/dez. 2018.
RELPH, Edward. Reflexões sobre emergência, aspectos e essência de lugar. In: MARANDOLA Jr., Eduardo; HOLZER, Werter; OLIVEIRA, Lívia de (Org.). Qual o espaço do lugar?: geografia, espitemologia, fenomenologia. São Paulo: Perspectiva, 2012.
TEMPASS, Mártin César. A doce cosmologia Mbyá-Guarani: uma etnografia de saberes e sabores. Curitiba: Appris, 2012.
TILLEY, Chris. Do corpo ao lugar à paisagem uma perspectiva fenomenológica. VESTIGIOS - Revista Latino Americana de Arqueologia Histórica, v. 18, n. 1, jan-jun .2014.