Departamento de Ciências e Tecnologias da Informação
V
ISITA
(
S
)
AO MUSEU
:
OS UTILIZADORES E A INFORMAÇÃO
OFICIAL DISPONIBILIZADA ATRAVÉS DA
I
NTERNET
Olga Cristina Campos de Sousa
Dissertação submetida como requisito parcial para para obtenção do grau de
Mestre em Informática Aplicada à Sociedade da Informação e do Conhecimento
Orientador:
Doutor Abílio Oliveira, Professor Auxiliar
ISCTE-IUL
A
GRADECIMENTOSA concretização deste trabalho apenas foi possível graças ao envolvimento, participação e colaboração por parte de um conjunto de pessoas, às quais gostaria de expressar a minha gratidão pela presença constante e apoio concedido.
Gostaria de agradecer aos responsáveis e interlocutores dos museus que acederam ao pedido de colaboração proposto (reconhecendo desta forma a relevância e pertinência do presente estudo), através quer da autorização para a distribuição dos inquéritos, quer pela disponibilização de recursos humanos próprios para a aplicação do mesmo: Dr. João Carvalho Dias e Dra. Deolinda Cerqueira, do Museu Calouste Gulbenkian; Dra. Paula Brito, do Museu Nacional de Arte Antiga; Dra. Susana Costa, do Museu do Fado e Dra. Iria Zeferino, do Museu das Comunicações.
Queria ainda agradecer ao meu orientador, Professor Dr. Abílio Oliveira, pelo apoio, incentivo e disponibilidade manifestada na concepção e acompanhamento deste trabalho.
Aos meus companheiros de trabalho ao longo do mestrado, por constituírem um grupo de trabalho formidável e também bons amigos, o meu muito obrigada pela paciência, apoio e companheirismo nos bons e menos bons momentos deste mestrado: Gonçalo Pais, Filipe Fernandes e em especial, ao Baltasar Cordeiro pela disponibilidade e empenho com que me acolheu nos vários momentos de desânimo e dificuldade.
A todos os amigos e colegas que directa ou indirectamente contribuíram para a concretização deste estudo, com especial relevância para a Natália Constâncio e para a Zélia Dias, pela amizade, apoio e preciosa ajuda a vários níveis.
Devo também um muito obrigada à tia Ermelinda, por ter desempenhado um papel importante no desenvolvimento do meu gosto por museus e exposições, incentivando-me desde cedo a frequentar estes espaços.
Um agradecimento muito especial à minha família (em específico, Nela, Luís, Hugo e Duarte), pela presença constante, apoio incondicional, paciência e tolerância infindável em todos os momentos que partilhamos desde sempre (bons, maus, tristes, felizes, complicados... enfim, todos mesmo).
Last but not least, um agradecimento em jeito de dedicatória à minha mãe, Telma Campos, sempre
presente em todos os momentos e elementos da minha vida (presentes, passados e futuros) e que me incutiu o apreço pela cultura e suas variadas expressões; e ao tio João Manuel, pelo seu enorme coração e generosidade, e sem o qual nada disto teria sido possível.
R
ESUM OA realidade dos museus sofreu profundas alterações com a emergência da sociedade em rede e consequente alteração do paradigma tecnológico. A crescente importância da Internet junto dos utilizadores dos museus, e a alteração das funções museológicas tradicionais, com a introdução da função informacional, provocou mudanças fulcrais na natureza da experiência museológica. Neste contexto, os sítios Web e as ferramentas Web 2.0 revelaram-se instrumentos fundamentais para a integração dos museus. Ao disponibilizarem informação complementar e de contexto relativamente à informação comunicada pelo próprio museu, e permitindo a participação activa do utilizador, os sítios e as ferramentas Web contribuem para a relação desenvolvida entre o museu e os seus utilizadores. A investigação empírica desenvolveu-se em torno de quatro museus, e respectivas ferramentas Web, onde foi aplicado um questionário aos utilizadores presenciais, cujos dados foram tratados com análises de componentes principais, análises de variância e correlações. Foram ainda realizadas análises de usabilidade e acessibilidade aos sítios Web. Os resultados obtidos indicam uma baixa utilização e uma reduzida associação com a visita presencial. Estes resultados contribuem para uma leitura da relação entre os utilizadores, os recursos Web e os museus em Portugal, apontando para a necessidade de novas abordagens, no sentido de responderem de forma mais eficaz às necessidades dos seus utilizadores.
A
BSTR ACTThe affirmation of the net society and the growing importance of the Internet changed the reality of the museums. The introduction of the information as a function, affected the museum traditional functions, and the museological experience was altered. The development of websites and use of Web 2.0 instruments reveled to be fundamental to the process of integration, providing context and complementing the information provided by the museum, allowing the user to participate actively. By providing complementary and contextual information, communicated by the museum itself, and allowing the interaction with users, the websites and Web 2.0 tools may contribute, in a great extend, to the relation developed traditionally between the museum and its users. The empirical study included four Portuguese museums and their Web tools, with the application of a questionnaire, and the obtained data was processed statistically, by means of factorial principal analysis, unvaried analysis of variance, correlations, descriptive statistics, and an usability and accessibility evaluation on the websites. The findings reveal a low use and participation of the Web resources by the museum users, establishing a low connection with the visit. These results contribute to a new way of analyzing the relations between the users, Web resources and museum, in Portugal, and reveal the necessity of new approaches to the subject.
Í
NDICE DE FIGUR ASFigura 1 – Distribuição mundial do número de utilizadores por 100 habitantes……… 23
Figura 2 – Distribuição etária dos utilizadores do Facebook em Portugal………. 24
Figura 3 – Distribuição do sexo dos utilizadores do Facebook em Portugal………. 24
Figura 4 – Distribuição por museu……… 49
Figura 5 – Distribuição do sexo………. 49
Figura 6 – Distribuição da idade, por escalões etários………. 49
Figura 7 - Distribuição das habilitações literárias………... 49
Figura 8 – Distribuição da distância de residência………. 113
Figura 9 – Distribuição da relevância da informação transmitida por terceiros………. 113
Figura 10 – Distribuição, por país, do local de residência dos utilizadores estrangeiros… 113 Figura 11 – Distribuição das médias de participação nas actividades promovidas pelos museus……….. 114
Figura 12 – Distribuição das médias relativas à relevância das fontes informativas relativas ao museu……….. 114
Figura 13 – Distribuição do número de visitas realizadas no último ano a museus ……… 114
Figura 14 – Distribuição do número de visitas realizadas ao museu em causa…………... 114
Í
NDICE DE T ABE LAS Tabela 1 – Número de utilizadores da Internet em Portugal, em percentagem……… 22Tabela 2 – Análise comparativa das Web Content Accessibility Guidelines (WCAG)……. 41
Tabela 3 - Estrutura factorial das dimensões relativas à Relevância da informação disponibilizada sobre actividades relativas ao museu………... 51
Tabela 4 - Estrutura factorial das dimensões relativas à Disponibilização de informação sobre serviços prestados pelos museus através dos recursos Web……….. 52
Tabela 5 - Estrutura factorial das dimensões relativas à Avaliação dos recursos Web… 54 Tabela 6 - Estrutura factorial das dimensões relativas às Actividades lúdicas frequentadas pelos utilizadores ……… 55
Tabela 7 - Estrutura factorial das dimensões relativas à Utilidade da informação online relativa às actividades lúdicas………... 56
Tabela 8 - Resultados das análises de variância da variável museu sobre as dimensões dos recursos Web (médias observadas)………. 58
Tabela 9 - Resultados das análises de variância sobre as dimensões dos recursos Web e os escalões etários (médias observadas)……… 60
Tabela 10 - Resultados das análises de variância sobre as dimensões dos recursos Web, os museus e escalões etários (médias observadas)……….. 61
Tabela 11 - Resultados das análises de variância do sexo e museus, sobre as
dimensões dos recursos Web (médias observadas)………. 63
Tabela 12 - Correlações entre as dimensões encontradas relativas aos recursos Web…. 64 Tabela 13 - Correlações entre variáveis dependentes Actividades lúdicas e Informação disponível online sobre as actividades………. 66
Tabela 14 - Análise da usabilidade dos sítios Web dos museus em estudo………. 67
Tabela 15 - Análise de acessibilidade dos sítios Web dos museus……… 70
Tabela 16 – Frequências, médias e desvios-padrão………. 114
Tabela 17 – Análise inicial de componentes principais, relativa à relevância da informação………. 125
Í
NDICE GER AL Agradecimentos……… I Resumo……….. II Abstract……….. III Índice de figuras……… IV Índice de tabelas……….. IV Introdução geral……… 1 1ª Parte ………. 4 1. O museu………. 4 1.1 Introdução ao capítulo………. 4 1.2 Funções e objectivos………... 41.3 Correntes e tendências museológicas recentes………. 7
1.4 O museu em Portugal……….. 8
1.5 Museu real e museu virtual………. 10
1.6 Museus virtuais colectivos……….. 15
2. A Internet……… 17
2.1 Introdução ao capítulo………. 17
2.2 Sociedade em rede e informacionalismo………. 18
2.3 A Web 2.0: ferramentas……….. 20
2.4 A Internet na sociedade portuguesa………. 22
3. A experiência museológica……… 25
3.1. Introdução ao capítulo………. 25
3.2. Os museus e os museus portugueses na Web……….. 25
3.3. Relação museu-utilizador: comunicação mediada………. 28
3.4 Públicos dos museus……….. 31
3.5 Caracterização dos utilizadores de museus portugueses………. 35
3.6 Usabilidade e acessibilidade……….. 36
2ª Parte ………. 44
4. Investigação empírica………. 44
4.1 Introdução e enquadramento teórico do objecto……… 44
4.2 Objectivos………. 45 4.3 Método……… 46 4.3.1 Participantes………. 46 4.3.2 Instrumentos de medida……….. 46 4.3.3 Procedimentos……….. 47 4.3.4 Variáveis……… 47
4.3.5 Tratamento dos dados………. 48
4.3.6 Interpretação dos resultados……….. 48
4.3.6.1 Dimensões significantes encontradas……….. 50 4.3.6.2 Efeitos observados (por análises de variância) sobre as dimensões obtidas… 57
4.3.6.3 Associações significativas entre as dimensões encontradas (correlações)….. 63
4.3.6.4 Análise dos sítios Web……… 67
5 Discussão……….. 71 6 Conclusões………. 76
Bibliografia Anexos
I
NTRODUÇÃO GE RALA afirmação da sociedade em rede, baseada tecnologicamente na Internet e no intercâmbio de informação permitido pela World Wide Web (WWW), veio mudar de forma profunda a realidade dos museus e a forma como estes comunicam e disponibilizam informação ao público em geral (Teather, 1998; Jackson, Bazley & Patten, 1998). A interactividade permitida pelo contacto via Web, a articulação permitida com centralização na informação como função museológica e a possibilidade de construção, pelo utilizador, de aprendizagens significativas, impeliram estas instituições culturais a procurarem novas formas de contacto (Schweibenz, 1998; Sabin, 1998; Alsford, 1991).
Num momento inicial, o sítio Web revelou-se como a forma mais eficaz de transmissão de informação oficial por parte dos museus aos seus utilizadores, físicos e virtuais (Teather & Wilhelm, 1999). Actualmente, a afirmação da Web 2.0 e a crescente afirmação do software social e de partilha, suscitou a expectativa de estas instituições recorrerem a estes recursos para evidenciarem a sua presença e actividades, pois a informação disponibilizada passa a estar num domínio em que os conteúdos são gerados pelo próprio utilizador, possibilitando uma dinâmica comunicacional de partilha (Peacock & Browbill, 2007; Salgado, 2008). O utilizador encontra-se cada vez mais envolvido no processo de construção e difusão da informação, e os museus, como instituições detentoras de vastos acervos patrimoniais e ricos recursos, são passíveis de comunicação virtual, como elementos promotores do desenvolvimento de processos de participação e partilha.
O investimento na construção de sítios Web pelos museus, que possam dispor de informação e conteúdos de vários tipos e naturezas (desde elementos de carácter geral, a visitas virtuais e catálogos das peças do acervo, complementadas com informação de contexto), e a crescente participação destas instituições nas redes sociais, em que desempenham um papel de elemento propiciador à participação activa e consequente apropriação pelos utilizadores da informação (no sentido do desenvolvimento de aprendizagens construtivas), levanta dúvidas relativamente ao efeito que estes recursos possam ter sobre a relação tradicional desenvolvida ente o utilizador e a instituição e sobre a natureza da informação difundida por estes. Com as ferramentas Web 2.0, verifica-se uma diminuição do controlo do museu sobre os conteúdos que disponibiliza (Marty, 2007 a, 2008; Russo, Watkins, Kelly & Chan, 2006; Goldman & Schaller, 2007).
Os museus portugueses, sejam tutelados pela Administração (central e local) ou por instituições e entidades privadas, têm revelado, desde a década de 1990, uma crescente preocupação com a presença na Internet, inicialmente pela detenção de sítios Web, e posteriormente pela adesão às variadas ferramentas Web 2.0 para a promoção dos seus serviços e elementos, divulgação de informação relativa ao museu (de carácter oficial e institucional), e envolvimento dos seus públicos nas actividades que desenvolvem (Monteiro & Silva, 2009; Neves & Nunes, 2008).
Os estudos desenvolvidos em Portugal quanto à relação entre os museus e as ferramentas Web incidem, prioritariamente, sobre a adopção destes recursos (quem, quando e quais os recursos) e sobre a utilização que lhes é dada, relativamente à natureza da informação disponibilizada (Pedro,
2009; Pinho, 2007). Perante a crescente preocupação, discutida pela comunidade museológica internacional, sobre a relação entre o museu e os recursos Web utilizados, no sentido do diagnóstico da informação a disponibilizar, e da possível influência dessa informação sobre a efectivação de visitas presenciais ao museu, considerámos pertinente extrapolar estas questões para a realidade portuguesa, que consideramos relevantes e interessantes, a vários níveis. Refira-se ainda que se verifica uma carência de estudos nacionais que abordem o tema dos museus e recursos Web, sob a presente perspectiva.
Pretendemos compreender de que forma é que a informação de carácter oficial disponibilizada online pelos museus influencia a opinião desenvolvida pelos utilizadores relativamente ao museu físico, tendo sido traçados seis objectivos gerais, neste sentido. A partir da concretização destes, pretendemos inferir em que medida é que a opinião dos utilizadores presenciais dos museus varia, de acordo com a informação a que potencialmente poderão ter acedido online, e se esta influencia de alguma forma a realização de visitas presenciais.
O primeiro objectivo deste trabalho relaciona-se com a forma como os utilizadores consultam a informação disponibilizada online pelos museus, pretendendo avaliar se os utilizadores dos museus em causa (independentemente da frequência de visita ao mesmo), recorrem às ferramentas Web disponibilizadas, como forma de obtenção de informação inicial ou complementar sobre a instituição. O segundo objectivo prende-se com a natureza da informação procurada: verificando-se que as várias ferramentas Web utilizadas pelos museus disponibilizam informação de carácter variado (e que o tipo de informação se encontra associado ao tipo de ferramenta utilizada), procura-se determinar qual a informação mais procurada pelos utilizadores, ou seja, verificar a adequação e a pertinência dos conteúdos disponibilizados.
O terceiro objectivo refere-se à relação entre os recursos Web e a visita presencial: dado que a informação disponibilizada via Web pretende complementar e contextualizar a informação disponível no museu físico (não havendo substituição entre as duas realidades, mas sim articulação), procura-se averiguar se o facto de o museu possuir representação activa online pode influenciar a visita presencial do utilizador. Este mesmo princípio subjaz ao quarto objectivo, considerando a alteração da opinião do utilizador com base no recurso à informação online, face aos elementos e serviços específicos que o museu físico disponibiliza (colecção, instalações, edifícios, serviços de apoio). O quinto objectivo incide sobre os recursos Web utilizados, para determinar o instrumento a que os utilizadores recorrem com maior frequência, e o seu grau de conhecimento sobre (todas) as ferramentas utilizadas pelo museu na divulgação de informação oficial.
Por último pretendemos identificar se a disponibilização de informação oficial através dos instrumentos Web constitui um factor de satisfação das necessidades de informação dos utilizadores. Este trabalho estrutura-se em duas partes: na primeira parte realizamos o enquadramento teórico das temáticas em estudo e a forma como se interligam: nos capítulos 1, 2 e 3 são abordados os conceitos elementares: museu, Internet e experiência museológica. Na segunda parte, apresentamos a investigação empírica, apresentando os motivos e objectivos subjacentes à investigação realizada,
assim como a metodologia aplicada para a sua prossecução. Incluímos também uma análise de usabilidade e acessibilidade dos sítios Web dos museus em estudo. São discutidos os resultados, à luz de outros estudos relativos à mesma temática. Por fim, apresentamos as conclusões finais, e sugerimos possíveis abordagens para projectos futuros.
1.
O
M
USE U1.1
INTRODUÇÃO AO CAPÍT ULONeste primeiro capítulo do enquadramento teórico, serão abordadas algumas dimensões relativas ao conceito de museu. Começamos com as suas funções e objectivos, relativamente aos conceitos oficiais e de acordo com as tendências evolutivas (e.g. ICOM, 2007; EGMUS, 2009; INE, 2009; Schweibenz, 1998; Teather, 1998), as correntes museológicas recentes, como se afirmaram e de que forma contribuíram para a evolução do conceito (e.g. Gob & Drouget, 2003; Almeida, 1996; Teather & Wilhelm, 1998). Será ainda abordada a evolução histórica das instituições museológicas em Portugal (e.g. Pimentel, 2005; Ramos, 1993; Nabais, 1993; Neves, Santos & Nunes, 2008), a definição de museu virtual e tipologias propostas para este conceito, em articulação com o museu real (e.g. Levy, 1997; Pozzolo, 2004; Giaccardi, 2004; Schweibenz, 2004; Piacente, 1996; Marty, 2007). O capítulo finaliza com a caracterização de alguns projectos de redes de museus virtuais (e.g. Proença, Brito, Ramalho & Regalo; 1998; Geira, 2008; IMC, 2011; Purday, 2009).
1.2
FUNÇÕE S E OBJE CTIV OSO termo «museu» deriva da palavra grega museión, referindo-se ao templo das musas, para onde eram enviadas oferendas e objectos de valor. Se essa noção de espaço, distante e inatingível, ainda prevalece para alguns, actualmente a acção do museu tem como elemento central o utilizador e as suas necessidades de informação. De acordo com o International Council of Museums (ICOM, 2007) e com os preceitos definidos pela Declaração de Caracas (1992), no que respeita à comunicação e património, as funções museológicas de curadoria, conservação, investigação e comunicação do património da humanidade são desenvolvidas pelos museus no sentido de assegurar as necessidades informativas, educativas e de lazer do utilizador em geral. Para esta instituição:
“Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu
desenvolvimento, aberto ao público, e que adquire, conserva, estuda, comunica e expõe testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente, tendo em vista o estudo, a educação e a fruição”
(ICOM, 2001, para. 2).
Este conceito abrange ainda monumentos e sítios naturais, arqueológicos e etnográficos (adquirem, conservam e comunicam prova material das pessoas e ambiente); instituições detentoras de colecções e exposições de espécies vivas de plantas e animais (jardins zoológicos e botânicos, aquários); reservas e parques naturais; centros de ciência e planetários; galerias de arte sem fins lucrativos; institutos de conservação e centros expositivos (da responsabilidade de bibliotecas e arquivos); organizações locais, regionais, nacionais e internacionais responsáveis por museus; organizações de investigação sobre actividades relativas aos museus e à museologia; centros culturais e entidades que promovam a preservação e gestão do património vivo e actividade criativa
digital; e outras entidades consideradas como tal pelo International Council of Museums (ICOM, 2007).
Relativamente à produção de estatísticas culturais, a UNESCO (2009), para fins de processamento estatístico, classifica a acção dos museus como pertencendo à área denominada como património
cultural e natural, quanto aos domínios culturais definidos para fins estatísticos. Este domínio inclui,
ainda, sítios arqueológicos e históricos, paisagem cultural e património natural; actividades de gestão dos sítios e colecções com significado histórico, estético, científico, ambiental e social, museus vivos, cerimónias e museus virtuais, em formato CD e em sítio Web.
A nível europeu, a harmonização das estatísticas referentes à actividade museológica são definidas de acordo com as indicações dadas pelo European Group on Museum Statistics (EGMUS). Estabelecido em 2002, este grupo de trabalho agrega representantes de 27 países europeus (membros da União Europeia e outros Estados europeus), com a missão de coligir e publicar dados estatísticos comparáveis sobre os museus europeus. Apesar de Portugal não possuir representante neste grupo, através da ALKOMI (Abriged List of Key Museum Indicators) é possível aceder a dados relativos aos museus nacionais. Este grupo adoptou como definição oficial de museu a emitida pelo ICOM, tendo definido três categorias de museus (concordantes com os princípios definidos pela UNESCO): museus de arte, arqueologia e história; museus de ciência, tecnologia e etnologia, e outros museus, classe que inclui os museus especializados, regionais, gerais e todos os que não se enquadrem em qualquer outra categoria (EGMUS, 2009).
A nível nacional, a necessidade de regulação do sector e de harmonização da diversidade institucional da museologia nacional, levou à produção de instrumentos legais de base para a regulamentação do domínio dos museus e respectivas redes, clarificadores de conceitos e definidores de objectivos de acção adequados às tendências museológicas actuais. De acordo com o artigo 3º da Lei-quadro dos Museus (Lei nº 47/2004 de 19 de Agosto):
“1 - Museu é uma instituição de carácter permanente, com ou sem personalidade jurídica, sem
fins lucrativos, dotada de uma estrutura organizacional que lhe permite: garantir um destino unitário a um conjunto de bens culturais e valorizá-los através da investigação, incorporação, inventário, documentação, conservação, interpretação, exposição e divulgação, com objectos científicos, educativos e lúdicos; facultar acesso regular ao público e fomentar a democratização da cultura, a promoção da pessoa e o desenvolvimento da sociedade.
2- Consideram-se museus as instituições, (…) que apresentem as características e cumpram as funções museológicas previstas na presente Lei para o museu, ainda que o respectivo acervo integre espécies vivas, tanto botânicas como zoológicas, testemunhos resultantes da materialização de ideias, representações de realidades existentes ou virtuais, assim como bens de património cultural imóvel, ambiental e paisagístico” (Portugal, 2004, p. 5379).
Em 2000, o Instituto Nacional de Estatística (INE) introduziu alterações metodológicas no tratamento da informação relativa aos inquéritos aos museus1, o que provocou uma quebra na série. A publicação da Lei-quadro dos Museus Portugueses veio criar uma parceria entre o Instituto Nacional de Estatística (INE), o Observatório das Actividades Culturais (OAC) e o Instituto dos Museus e Conservação (IMC), para a promoção de uma redefinição dos parâmetros de recolha de dados (questionário e identificação das unidades), levada a cabo em 2007, e que provocou uma descontinuidade nos valores obtidos (INE, 2009).
Apesar da concordância quanto à adopção generalizada da definição de museu, a nível nacional e internacional, e quanto às suas dimensões, funções, objectivos e centralização no indivíduo e na informação, teoricamente este conceito continua a levantar questões e indefinições, quanto a critérios e funções. Schweibenz (1998) considera que o museu tem como funções primordiais a comunicação e a disseminação do conhecimento, procurando, para tal, conjugar a informação e o entretenimento (edutainment), elemento fundamental na competição pela atenção dos utilizadores, em relação aos
mass media e a outras actividades de lazer. Apesar de o museu se encontrar ligado ao objecto, a
informação tornou-se a função central do museu, desempenhando um papel fundamental no processo de ensino-aprendizagem: se o utilizador não possuir suficiente informação, não compreenderá o objecto e não conseguirá estabelecer uma ligação com este. Cabe ao museu criar o significado e o contexto para que os utilizadores consigam compreender e apreender o objecto, de forma significativa.
Teather (1998), ao discutir o conceito de museu, aborda a dicotomia museu tradicional versus novo museu, opondo os objectos museológicos como centro da actividade destas instituições, em que as suas funções e actividades sobre as colecções compreendam a colecção, conservação, apresentação e interpretação das peças. O museu é identificado com o edifício e as suas funções, centrando-se no «como» em vez de «o quê» (esta perspectiva dificulta a inclusão dos museus no grupo das instituições com colecções vivas ou mesmo sem colecções, centros de ciência e interpretativos e de arte, em que a informação é a componente central da experiência museológica). Na década de 1960-70, verifica-se o questionamento da natureza elitista e fechada da acção dos museus, em que a informação passa a constituir o recurso fundamental para o desempenho das suas funções, facilitando a formulação da sua missão, e equilibrando as suas funções tradicionais. A centralização da acção do museu na informação permite a validação da colecção, da cultura intangível e das suas réplicas, sem desvalorização das coleções de objectos originais; e que o museu ganhe uma posição central, face a uma sociedade em que os serviços baseados na informação geram valor e estatuto económico (elemento fundamental para a sua sobrevivência) e a simplificação do processo de equilíbrio entre as funções tradicionais e a educação e comunicação (MacDonald & Alsford,1991). A consequente democratização do acesso ao museu alterou a centralização da sua acção para o indivíduo como elemento activo e participante e uma orientação para o público geral, em que o museu é entendido como estando ao serviço ao serviço da sociedade e da comunidade em que se insere (em detrimento das suas colecções), contribuindo para a produção de conhecimento e
1
para a evolução social (Magalhães, 2005). Sem se resumir a ser um repositório de informação, o museu deve responder às necessidades informativas da sociedade, auxiliando os seus utilizadores na exploração e construção de conhecimento a partir da informação que detém, utilizando-a para gerar conhecimento (MacDonald & Alsford,1991).
1.3
CORRE NTES E TE NDÊ NCIAS M US EOLÓGICAS RE CE NTESA museologia e o museu tendem, cada vez mais, a afastar-se do paradigma iluminista que se encontrou na origem do seu (re)nascimento. A afirmação da modernidade, e com esta a tendência para a abertura do museu ao cidadão comum, introduz alterações profundas nos princípios da museologia clássica. Seria com a afirmação da nova museologia e com o crescente ganho de importância das tecnologias de informação que se verificaria a democratização da experiência museológica: o utilizador torna-se o elemento central, e a informação a função dominante (Gob & Drouguet, 2003; Teather, 1998). As novas orientações para a museologia traçavam, assim, fortes críticas à museologia tradicional, centrada no objecto e voltada para uma elite social, defendendo uma (nova) estrutura de museu, em que a centralidade se desloca para o visitante (como actor interventivo e elemento de mudança) e em que o museu deve ser desenvolvido no contexto da comunidade em que se integra e relativamente à qual se encontra em serviço. O objecto deixa de constituir o centro da acção do museu, passando a ser um meio para a obtenção de ideias sobre as quais o museu assenta a sua actividade (Almeida, 1996). O novo museu deve ser verdadeiramente democrático e, de acordo com a Declaração de Santiago do Chile (1972), constituir uma entidade de intervenção social (Magalhães, 2005), em que o património é considerado integralmente, deixando de ser classificado por categorias, derivado da interacção directa museu-comunidade (Aras & Teixeira, 2010). Para Eco (1989), o museu tradicional poderá assumir qualquer uma das seguintes abordagens: didáctica, móvel, experimental e lúdico-interactiva.
Esta corrente museológica traz uma ampliação dos conceitos de património museológico, ao incluir na presença museológica todos os elementos do território em que o museu se localiza (Magalhães, 2005), e fornecendo uma abordagem mais ampla que a tradicional expositiva, englobando conceitos como ecomuseu e museu descentralizado. O campo do objecto é alterado, inclusive quanto à participação e contextualização, passando a ser visto como um apoio da memória e como moderador da relação com a comunidade (Aras & Teixeira, 2010). Com o surgimento dos ecomuseus, em que os objectos se encontram inseridos na sua realidade, por defeito reflecte-se no alargamento do campo do objecto. A vocação educacional do museu e de animação cultural afirma-se, não só desenvolvendo uma aproximação à comunidade, proporcionando aprendizagens significativas, mas também como estratégia pedagógica de aproximação aos mais jovens, educando-os para a realidade museológica (Magalhães, 2005; Aras & Teixeira, 2010). Introduz-se ainda o conceito de museu integral como reflexo das preocupações sociais subjacentes e em que o museu se encontra ao serviço das pequenas comunidades locais e regionais.
Com a nova museologia, a centralização da actividade do museu na informação (as ideias, em torno das quais devem agir), está interligada com as várias dimensões do museu. Os museus são apresentados como lugares com contexto social, económico e político, com relevância em termos da
compreensão do significado das comunidades e do processo identitário dos indivíduos. A crescente democratização e generalização no acesso aos museus, e posterior extensão do museu para a dimensão virtual, elevam a categoria do utilizador a curador do museu virtual. Para Teather & Wilhelm (1998) e Teather (1999), emerge assim um novo conceito, o de museologia participatória, fortemente influenciada pela afirmação das teorias construtivistas em educação: os sítios Web, através do seu potencial comunicativo, devem promover uma experiência única, não reprodutível (no museu físico) e que se traduza numa aprendizagem significativa. Estes recursos devem ser simultaneamente centrados no utilizador e no objecto, fornecendo uma compreensão holística do museu: “the constructivist website, then, would invite visitors to construct their own knowledge. (…) Such a site would enable visitors to connect with objects and ideas through a range of activities and experiences that employ their life experiences” (Teather & Wilhelm, 1998, para. 54). A ênfase no processo de ensino-aprendizagem é colocada no indivíduo e na forma como este constrói o processo de memória, identidade e contexto social.
1.4
O M USEU EM PORTUGALO primeiro museu público português surge em 1838, no Porto, sob a designação de Museu Allan. Embora pertencesse a um particular, encontrava-se aberto ao público, em horário estabelecido e restrito. Com a morte do seu proprietário, a colecção é adquirida pela Câmara Municipal do Porto, e o museu é rebaptizado de Museu Portuense (Pimentel, 2005). Esta instituição constitui um marco para a história do sistema museológico português, pois separa o período em que o museu é visto como uma instituição privada de acesso condicionado (séc. XVII, início do séc. XIX), ou um gabinete de curiosidades (Pimentel, 2005), do período de generalização do acesso aos museus públicos. Antecessores dos museus, os gabinetes de curiosidades agregavam, nos séculos XVI e XVII, objectos raros ou estranhos, dos ramos da biologia muito considerados na época (animalia, vegetalia e mineralia); e objectos provenientes de realizações humanas.
No período anterior, o conceito de museu em Portugal coincide com a constituição de colecções, mais ou menos vastas, de maior ou menor interesse, desenvolvidas por reis, nobres e religiosos. Neste contexto, destaca-se o Real Museu da Ajuda, criado pelo Marquês de Pombal para D. José I, e que incluía um museu de história natural, um jardim botânico e um gabinete de física (Ramos, 1993). A este estadista é ainda atribuída a responsabilidade pela criação da colecção numismática da Casa da Moeda. O último grande museu criado em contexto monárquico constitui, ainda hoje, o museu mais visitado da Rede Portuguesa de Museus, e um dos mais visitados a nível nacional: criado por D.Amélia e instalado no antigo picadeiro real do Paço de Belém, o Museu dos Coches Reais agrega, numa extensa e rica colecção, coches e outras viaturas, arreios, selas e fardamentos, entre outras peças.
A Primeira República vem trazer uma contribuição activa do Estado, para o reconhecimento da importância dos museus públicos, que se traduziu na produção legislativa, tendo em vista a definição
de circunscrições artísticas, e a consideração do museu como elemento fundamental para a educação. No que se refere à construção de museus, verificou-se, em Portugal, uma tendência inversa à europeia, onde era promovida a construção de grandes museus nacionais, representativos do Estado e da sua ideologia, produtos de uma lógica nacionalista e instrumento de legitimação do Estado, como é o caso do Louvre ou do Rijksmuseum. Durante este período histórico ocorre, em Portugal, um processo de descentralização dos museus, que levou à criação de 13 museus regionais (Ramos, 1993). A este processo estão profundamente associados dois instrumentos legislativos, fundamentais para a criação e enriquecimento dos acervos dos museus regionais: a Lei da Separação do Estado das Igrejas, de 1911, e a regulamentação das expropriações por utilidade pública e urgente, de 1912, que favoreceram a acumulação pelo Estado de peças museológicas. A tendência para a regulamentação legislativa da acção dos museus é continuada pelo Estado Novo, que sublinha e incentiva a importância dos museus regionais. Assente sobre o princípio da restauração, a sua acção passou pelo restauro e reconstituição de edifícios simbólicos, e pela reunião e guarda das peças museológicas em espaços considerados culturalmente convenientes. A nível da implementação de unidades museológicas, destacam-se, neste período, a construção de museus baseados em princípios nacionalistas e saudosistas (Ramos, 1993), destacando-se os museus etnográficos regionais e o museu de Arte Popular, inaugurado em 19482. Durante este período político, o momento mais marcante em termos museológicos e expositivos foi a Exposição do Mundo Português, em 1940. Desenvolvida à imagem da Exposição Universal de 1937 em Paris, esta exposição não era dirigida à comunidade internacional, nem aberta à sua participação, constituindo um momento de propaganda à estabilidade do Estado Novo (Pimentel, 2005).
Em 1965, é publicado o Regulamento Geral dos Museus de Arte, História e Arqueologia, que para além da enumeração dos museus existentes, apelava à dinamização destes como centros culturais, modernização da sua gestão, desenvolvimento de políticas de atracção de visitantes e acção educativa, sugerindo a aproximação dos museus às escolas (Ramos, 1993). Durante este período político, destaca-se a abertura do Museu Calouste Gulbenkian, em 1969, excepcional tanto pelo investimento financeiro implicado como pela quantidade de recursos humanos mobilizados. A sua implementação implicou um trabalho de investigação profundo e de actualização nas práticas museológicas, consistuindo um passo fundamental na evolução das práticas museológicas nacionais. Com o 25 de Abril de 1974, a democratização e a abertura do país ao exterior, a realidade museológica nacional sofre profundas alterações, que resultam, essencialmente, da exposição dos responsáveis pelos museus e pela política cultural às correntes museológicas internacionais. Na década de 1980, com a afirmação da nova museologia, a valorização das colecções etnográficas e o reaproveitamento dos sítios e monumentos, verificam-se mudanças significativas na situação dos museus e monumentos nacionais (Nabais, 1993). Surgem também novos padrões museológicos, nomeadamente com a introdução do conceito de ecomuseu (destacando-se, nesta tipologia, o ecomuseu municipal do Seixal, inaugurado em 1982).
2
Posteriormente, verificou-se a sua integração no Museu de Etnografia, derivado do não reconhecimento da sua validade científica como unidade museológica.
As décadas de 1990 e início do século XXI, caracterizam-se por um crescente ganho de importância das novas práticas museológicas, baseadas nos conceitos de núcleo museológico, museu local, museologia participativa (como é o caso de Mértola, vila-museu) e museus de empresa de que são exemplos representativos o Museu da Água (EPAL) e o Museu da Electricidade (EDP). A renovação da imagem dos museus torna-se uma prioridade, derivada da importância que a comunicação visual adquire, assim como a aproximação do museu à comunidade, espaço onde este se insere e para o qual subsiste (Nabais, 1993). Verifica-se, igualmente, um crescimento apreciável do número de equipamentos e eventos culturais, de acesso generalizado ao público como produto cultural comum, de que são exemplo o Centro Cultural de Belém e a Expo’98.
Em 2000, é estabelecida a Rede Portuguesa de Museus, que transpõe para os museus nacionais os princípios transversais à estrutura da sociedade em rede. Esta estrutura surge, simultaneamente, num contexto de grande dinamismo e de grande fragilidade no que se refere às políticas públicas nacionais para o sector museológico, e também como resultado do Inquérito aos Museus em Portugal, realizado em 2000 (Neves, Santos & Nunes, 2008). Estabelecida pelo Despacho Conjunto nº 16/2000, de 17 de Maio, é definida como “um sistema de mediação e de articulação entre entidades de índole museal, tendo por objectivo a promoção da comunicação e da cooperação com vista à qualificação da realidade museológica portuguesa” (Portugal, 2000, p. 9633). A sua estrutura de projecto foi prorrogada continuamente, até à sua integração no Instituto dos Museus e da Conservação (IMC, IP), em 2007. Este instituto, criado pelo Decreto-Lei nº 215/2006, de 27 de Outubro (sendo os seus estatutos estabelecidos pela Portaria nº 377/2007, de 30 de Março), agrega funções de coordenação e de execução dos procedimentos para a credenciação e integração dos museus na Rede Portuguesa de Museus, supervisão dos museus, coordenação e promoção dos programas de apoio técnico e financeiro, acompanhamento dos projectos e controlo da sua execução, e colaboração na gestão das estatísticas de visitantes e bases de dados relativas à realidade museológica portuguesa. Mais recentemente, no âmbito do PREMAC (Plano de Redução e Melhoria da Administração Central), e de acordo com a nova Lei Orgânica da Presidência do Conselho de Ministros (Decreto-Lei nº 126-A/2011, de 29 de Dezembro), é prevista a fusão do IMC com o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico e a Direcção Regional da Cultura de Lisboa, passando a integrar a Direcção-Geral do Património Cultural, que agregará as suas funções (de acordo com o estabelecido no artigo 28º deste diploma).
1.5
MUSEU RE AL E M USEU VIRTUALFace ao contexto informacionalista emergente, onde a Internet se afirma como instrumento e meio fulcral para a sua difusão/divulgação, é colocado um novo desafio aos museus: como se adaptar? A construção dos sítios Web surge como resposta a esta questão. No entanto, a presença do museu no ciberespaço levantou fortes divergências, quanto à conceptualização de museu virtual, tendo conduzido à indefinição do conceito e da relação que este deve estabelecer com o utilizador e com o museu físico. Ao museu virtual são associadas diversas designações e tipologias, numa procura de
definição de um conceito que se revelou demasiado vasto e complexo, sendo desenvolvidos estudos sobre os efeitos deste conceito sobre o museu físico.
Levy (1997) define o termo virtual, considerando que este pode ser entendido sob três perspectivas: informática, filosófica e sentido corrente, sendo que o conceito mais utilizado resulta da ligação entre os três sentidos. Filosoficamente, como algo que existe em potência, mas não em acto; correntemente, entendido como designando a irrealidade (ausência de presença palpável); e, para a informática, como conjunto de códigos digitais acessíveis apenas através de um descodificador, (como um ecrã) em potenciais imagens. O processo de virtualização é entendido dinamicamente, em que o real é transposto para o potencial (de acordo com a acepção filosófica de virtual), não sendo desmembrado, mas sofrendo uma mutação na sua identidade, em que a sua consistência passa a existir a nível potencial.
Pozzolo (2004) define a essência do conceito de museu (físico) como residindo precisamente na sua virtualidade, o que o aproxima, à partida, ao museu virtual nos princípios que o definem:
“Museums extract each objects from an environment which, at the site of origin, is deemed to hold
some significance. The object is then transferred to a new site, the museum, in which the relationships with its original environment and time are recreated. In this sense, museums are virtual (…). They already represent somehow, a meta-place” (Pozzolo, cit. em Giaccardi, 2004, para. 1).
No mesmo sentido, Tolva (2005) entende o museu físico como local de representação apoiada tecnologicamente: apresenta algo que foi criado, usado ou identificado noutro lugar, utilizando ferramentas tecnológicas para criar representações virtuais dos objectos. O museu funciona como plataforma possibilitadora de experiências e contextos, como entidade virtualizada; o museu (físico e virtual) disponibiliza representações rigorosas dos objectos, contextualizados, reconstruídos e relocalizados.
Os museus virtuais constituem uma realidade cada vez mais comum, ao articularem o real e o virtual, possibilitando o desenvolvimento de “híbridos culturais”, em que as novas tecnologias de informação e comunicação permitem a renovação da comunicação cultural (Castells, 2001). Os museus são vistos como instituições de intervenção cultural (perante uma realidade de mudança comunicacional e de redefinição temporal e espacial), não apenas como repositórios patrimoniais, mas como espaços de inovação e de experimentação. Neste contexto, é salientado o papel dos museus de arte, considerados possuidores de capacidades de afirmação cultural e de uma linguagem transversal aos novos protocolos de comunicação.
No entanto, Walsh (1997) salienta que o primeiro momento de integração na WWW se traduziu numa transposição linear da sua forma de ver e de actuar no ciberespaço, resultando na duplicação das colecções e dos serviços e produtos museológicos, e no questionamento da adequação da sua abordagem. A dimensão digital traduz-se numa nova forma de museu, em que os objectos são enriquecidos com informação: o meta-museu (MacDonald & Alsford, 1997). O meta-museu consistirá num museu físico com uma dimensão digital, em que as oportunidades das tecnologias digitais para
disseminação de conhecimento, numa escala nunca considerada possível, e a pressão para responder às expectativas do público, serão factores chave para a sua transformação. Em suma, é constituída uma nova dimensão para os museus – a dimensão digital.
As tecnologias da informação vêm permitir a possibilidade de reprodução digital dos objectos dos museus, disponibilizáveis e acessíveis de forma rápida e simples. Esta conjugação contribui para o desenvolvimento de processos de aprendizagem imediatos e intuitivos, decorrentes das novas oportunidades de acesso interactivo aos objectos. Virtualmente, os visitantes são convidados a ver, combinar, recontextualizar e interligar a informação de que necessitam. O museu virtual é um «não lugar», onde se encontram peças indisponíveis, num espaço diferente, onde é possível realizar actividades fisicamente impossíveis. O museu virtual consiste numa oportunidade de extensão pela duplicação dos objectos, maximização de acessibilidades, formas de comunicação, e novos espaços de exposição (Giaccardi, 2004).
“The virtual museum is a logically related collection of digital objects composed of a variety of media,
(…) Because of its capacity to provide connectedness and various points of access, it lends itself to transcending traditional methods of communicating and interacting with the visitor being flexible toward their needs and interests” (Schweibenz, 1998, p. 190).
O museu virtual dispõe de múltiplos níveis, perspectivas e dimensões, tendo como objectivos o fornecimento da informação de contexto ao objecto, e permitindo ao utilizador a construção de conhecimento. Sendo a experiência museológica condicionada pelas expectativas do utilizador, o museu virtual pode contribuir para a formação de expectativas informadas, aproximando-as à realidade do museu físico.
“A virtual museum is an organized collection of electronic artifacts and information resources - virtually anything which can be digitized” (McKenzie, 1997, para. 4). Sob este princípio, a colecção pode incluir pinturas, desenhos, fotografias, diagramas, gravações, vídeos, artigos de imprensa, transcrições de entrevistas, bases de dados numéricas e toda uma vasta panóplia de itens passíveis de ser armazenados num servidor. Pode também incluir referências e ligações a recursos vários, relevantes para o objectivo do museu. Este autor distingue dois tipos de museus virtuais: de marketing, centrado na divulgação com o objectivo de aumentar o número de visitantes presenciais (e, eventualmente, vendas através da loja); e de aprendizagem, com o fim de promover a visita e a investigação, sendo disponibilizados recursos de aprendizagem. Neste contexto, ganham especial relevância as capacidades de armazenamento e comunicação de dados, propiciadas pela Internet, com as vantagens decorrentes do desenvolvimento de relações de longa duração com o público e da promoção de aprendizagens livres, opcionais e significativas (Jackson, Bazley & Patten, 1998; Falk & Dierking, 1998). Alsford (1991) analisa o conceito de museu comparativamente com o de hipermédia, no que respeita à interactividade, que salienta ser elemento comum e fundamental para os dois domínios. Ao considerar os museus e a hipermédia como sistemas de informação, com a missão de auxiliar os utilizadores no processo de ensino-aprendizagem, avança com três características
comuns: ambientes intensivos em informação (possuindo mais informação do que a que tem capacidade de disponibilizar), capacidade de aumentar o número de sentidos dirigidos à informação (multimédia e capacidade de diversificação das formas de expor a informação), disponibilização da informação em camadas, evitando a sobrecarga, e possibilitando vários níveis de informação ao mesmo tempo. Deste modo, os dois sistemas são complementares e devem ser utilizados como tal, por forma a disponibilizarem oportunidades de construção de conhecimento pelos utilizadores. Schweibenz (2004) alerta para a complexidade da definição do museu virtual, ao enumerar vários conceitos associados: museu online, museu electrónico, hipermuseu, museu digital, Web museu. Para este autor, o museu virtual não constitui alternativa ou substituto para o museu real, na medida em que não pode oferecer objectos reais, mas tem a capacidade de transportar ideias e conceitos das colecções para o espaço digital. Neste sentido, é proposta uma tipologia de museu virtual com quatro conceitos: brochure museum - apresenta informação básica sobre o museu; content museum - vocacionado para a colecção, apresenta o museu como um serviço de informação, convidando o utilizador à exploração, fortemente orientado para o objecto; learning museum - vocacionado para o contexto, apresenta vários pontos de acesso, de acordo com o segmento de público, promovendo a ligação entre o visitante e a colecção online, e motivando para a visita real; e virtual museum - não possuindo expressão no mundo físico, fornece informação sobre a colecção, relacionando-a com outras colecções virtuais. Para Piacente (1996) a estrutura tipológica para a caraterização dos museus virtuais, considera três tipos: a brochura electrónica (página Web simples, semelhante a uma brochura ou panfleto, com o qual se pretende a promoção do museu); museu no mundo virtual (recria a estrutura e o modo de funcionamento do museu físico, mas online); museu verdadeiramente interactivo (em que é estabelecida uma relação com o museu real, numa abordagem de reinvenção, solicitando-se a participação dos utilizadores).
Wersig & Schuck-Wersig (1997, cit. por Schweibenz, 1999, p. 381), classificam os museus virtuais em quatro categorias: presença minimal - consistindo em nome, morada e horário de funcionamento (informação útil); presença básica - incluindo informação básica e uma descrição breve do museu e sua colecção; presença básica com informação adicional - sobre a exposição permanente e exposições especiais ou temporárias; presença extensiva na Web - com página própria contendo informação sobre o museu e as suas colecções, incluindo ferramentas de marketing e interactivas. As categorizações tipológicas apresentadas para o museu virtual, convergem numa tipificação dos sítios
Web dos museus, princípios subjacentes e objectivos derivando das dificuldades conceptuais
reconhecidas na definição de museu virtual. Karp (2004) entende que, embora inicialmente se verificasse uma correspondência entre o museu virtual e o sítio Web, a sua utilização, para designar representações digitais de museus tradicionais por entidades não museológicas, tem levantado questões conceptuais: o museu virtual passa a ser entendido como uma metáfora, aplicável na apresentação de actividades criativas e repositórios de conhecimento.
Falk & Dierking (1992) descrevem três elementos fundamentais para a experiência museológica interactiva, que influenciam a forma como os utilizadores experienciam o museu: contexto físico (disposição do espaço), pessoal (conhecimentos prévios, objectivos e experiências e estado de
espírito) e social (interacção social entre os visitantes, acompanhantes, e pessoal do museu). Destacando a importância do contexto social para a visita ao museu, considera-se que este inclui a comunicação mediada por computadores, integrando o museu físico com o virtual, pelo uso de tecnologias móveis e virtuais.
As dimensões física e virtual relacionam-se intimamente: Cooper (2006) compara o museu físico e o museu virtual, identificando vantagens e desvantagens inerentes à natureza intrínseca de cada uma das dimensões. Para o museu físico, o facto de disponibilizar objectos tridimensionais (fruição directa do objecto), contextualizados e organizados por curadores, mas permitindo a exploração pelos utilizadores sem preparação prévia e ao seu próprio ritmo, constituem vantagens significativas, no entanto a existência física levanta alguns problemas decorrentes da impossibilidade de alteração da localização dos objectos, e de acesso a todos os objectos que constituem o acervo do museu. Por oposição, o museu virtual permite o acesso a peças não expostas fisicamente, possibilidade de recurso a fontes informativas externas para a interpretação dos objectos (durante a visita), criação, pelo utilizador, as suas próprias narrativas e conexões (inexistência de ordenação/contextualização prévia). A disponibilização de representações do objecto (desordenadas e descontextualizadas) e na dependência total do utilizador, e na exploração do sítio Web.
Perante a dualidade museu real/museu virtual, Marty (2007a) conclui que estas duas realidades não são entidades separadas, funcionando de forma complementar já que muitos dos visitantes utilizam o sítio Web para o planeamento das visitas presenciais (o sítio Web apoia as actividades do museu físico), e após a visita presencial, constitui uma oportunidade para aprender mais sobre o museu. “The relationship between museums and museum websites is complementary, and one should not assume that online and in-house museum visitors need access to completely different types of information resources” (Marty, 2007a, p. 14). Ambas devem estimular a visita do utilizador: o museu virtual promovendo a visita presencial, e o museu físico estimulando o acesso ao sítio Web (antes e após a visita). Esta relação é especialmente relevante quanto à satisfação das necessidades informativas do utilizador, na medida em que a visita ao museu virtual pode alterar as expectativas dos visitantes, superando barreiras de informação, criando novas oportunidades de exploração e ultrapassando restrições de tempo e espaço (interactividade). Neste sentido, Goldman & Schaller (2004) exploram a questão da motivação face à visita online, compreendendo que esta dinâmica poderá auxiliar os profissionais dos museus a produzir experiências eficazes e enriquecedoras. Appen, Kennedy & Spadaccini (2006) salientam a importância da Web 2.0 como uma nova geração de instrumentos, gerando novas formas de comunicação, numa plataforma descentralizada e democratizada, com o poder de alterar a posição dos museus perante a comunidade: a sua gratuitidade, abertura, ubiquidade e facilidade de utilização, permitem a constituição simples de comunidades online, sem condicionantes orçamentais. Estas ferramentas espelham a teoria do construtivismo social de Lev Vygotsky, em que o diálogo entre pares possibilita a construção e a organização do conhecimento, beneficiando com a exposição às práticas comunitárias e à interacção social e cultural, como elementos de construção independente do conhecimento (Appen, Kennedy &
Spadaccini, 2006). Para Kelly (2009), os museus devem reconsiderar e admitir que a Web 2.0 é uma tendência dominante, devendo reconhecer a importância da adesão, nomeadamente quanto às redes sociais e à partilha de conhecimentos, extensível aos técnicos do museu. As principais preocupações relativas à adesão referem-se a: sustentabilidade (dependência da adesão a um terceiro serviço, logo, dependência da adesão às redes sociais, por exemplo); preservação digital do ambiente 2.0, factores humanos (dependência da escolha, entusiasmo e interesse dos aderentes), acessibilidade (face aos cidadãos com necessidades especiais).
O software social constitui uma área prioritária e inovadora, manifestando dinamismo num leque variado de aspectos: partilha de imagens e de vídeos, realidade virtual, blogues e redes sociais, como vantagens inerentes ao museu, constituindo soluções de baixo risco e custos, e de gestão flexível. Kelly & Russo (2008) apontam como vantagens da adesão ao software social:
• Facilidade no desenvolvimento de diálogo entre utilizadores e destes com o museu; • Construção de inter-relações entre os próprios utilizadores;
• Aproximação de comunidades de interesses;
• Melhoramento da partilha de conhecimentos, a nível interno e externo; • Eficiência no que diz respeito aos custos envolvidos;
• Simplicidade de utilização.
Os museus poderão beneficiar das comunidades online, pelo encorajamento à participação, regresso, empatia e sentimento, verificando-se uma forte ligação (directa e positiva) entre visitas virtuais e visitas presenciais: quanto mais visitas online maior a probabilidade de visita presencial. Quanto maior o tempo despendido pelos utilizadores na Web, maior será o nível de envolvimento do utilizador e maior será a probabilidade de desenvolvimento de experiências significativas, factores que constituem elementos positivos face à Web 2.0. No entanto, há a considerar a qualidade da informação gerada, a integridade e a precisão da mesma. A Web 2.0 constitui uma evolução - não uma substituição, permitindo o desenvolvimento de actividades na Web sem que os museus percam os seus recursos únicos (Dawson, MacDonald & Trepanier, 2008)
1.6
M
USEUS VIRTUAI S COLECTIV OSOs sítios Web dos museus foram recentemente complementados pelo desenvolvimento de projectos colectivos de acesso a peças museológicas, pertencentes a museus, arquivos e bibliotecas. Estes portais coligem metainformação relativa aos objectos, de acordo com princípios de cooperação e funcionamento em rede. Nestes casos, o enfoque coloca-se sobre a peça, sendo a informação relativa à instituição detentora complementar às características do elemento.
“No single museum has a monopoly on truth nor can present a complete picture of the human
condition; no more should we imagine that all heritage can be encompassed by museums. The museum world benefits from the large number of institutions and their diversity (…). But this vast
composite resource will never meet its full potential until museums find ways to share their information through joint venturing – notably the formation of networks.” (MacDonald & Alsford, 1991, p. 309)
Em Portugal, destacam-se a rede MatrizNet, já na sua versão 3.0, e o projecto Geira. Um dos primeiros projectos de desenvolvimento de redes de colaboração entre museus em Portugal foi o projecto Geira, desenvolvido entre 1996 e 1999. Promovido pelas Universidades do Minho e Trás-os-Montes e Alto Douro, reuniu vários museus do Norte de Portugal tendo em vista a partilha de custos quanto ao uso de novas tecnologias da informação. Este projecto organizou-se em torno de várias áreas patrimoniais: ciência e tecnologia, documentação em bibliotecas e arquivos, objectos e museus ou sítios arqueológicos e ambiente, geologia e biologia (Proença, Brito, Ramalho & Regalo, 1998). Originalmente os seus objectivos previam:
• Aumentar o grau de consciência dos museus perante as tecnologias da informação;
• Promover a utilização, pelos curadores, de inventários digitais normalizados das colecções de património cultural nacional;
• Desenvolver o uso da Internet como ferramenta de comunicação, através da construção de páginas Web, pelos técnicos dos museus;
• Promover o acesso público às colecções museológicas, nomeadamente através de
apresentações multimédia interactivas.
A sua actuação desenvolveu-se no sentido da divulgação do potencial científico e tecnológico, valorização do património cultural, e estimulo à conservação e protecção do ambiente, tendo como principais áreas de intervenção o observatório em ciência e tecnologia no ensino superior, a catalogação electrónica do património documental, a inventariação e catalogação electrónica do património móvel e a caracterização pluridisciplinar do património natural (Geira, 2008)
O MatrizNet, catálogo colectivo para publicação online de bens culturais móveis, imóveis e imateriais dos museus que integram a Rede Portuguesa de Museus (actualmente dependentes do Instituto dos Museus e Conservação), agrega também informação sobre peças presentes em exposições temporárias e informação adicional sobre as colecções, como biografias dos autores e bibliografias de informação contextualizadora (IMC, 2011). A versão 3.0 deste projecto (lançada a 1 de Janeiro de 2011) promove o acesso ao público em geral ao sistema de inventariação e catálogo dos museus da Rede Portuguesa de Museus. Disponibilizando um motor de pesquisa sobre as trinta e quatro bases de dados integrantes, permite a obtenção de informação em formato texto, vídeo, imagem e som. A pesquisa pode ser efectuada a três níveis (simples, orientada e avançada), e é transversal a todas as bases de dados e instituições integrantes. Na sequência deste projecto, surge o MatrizPix, vocacionado para a gestão e divulgação do inventário fotográfico nacional digitalizado, a ser disponibilizado através do MatrizNet (IMC, 2011).
A nível da União Europeia, merece referência o projecto Europeana, integrado no esforço de digitalização do património europeu a nível cultural, audiovisual e científico, e que colige peças integrantes de fundos de museus, bibliotecas e arquivos dos Estados-membros, constituindo um
recurso Web de referência para a área cultural e patrimonial. Portugal encontra-se representado neste projecto por vários organismos, das áreas de acção de biblioteca, arquivo e museologia, como a Biblioteca Nacional de Portugal e a Fundação Calouste Gulbenkian. Desde 2011, integra a divulgação das colecções dos museus portugueses, por articulação com o MatrizNet (IMC, 2011). A Europeana foi oficialmente inaugurada a 20 de Novembro de 2008. Em Janeiro de 2012 permitia o acesso a 20 milhões de objectos digitais provenientes dos Estados-membros via um interface multilingue (actualmente, disponível em 31 línguas), tendo como objectivo tornar acessível todo o património cultural, audiovisual e científico da Europa. O surgimento da Europeana baseou-se num projecto pioneiro, desenvolvido conjuntamente pela França, Hungria e Portugal, de integração de textos digitalizados, e também com base no projecto Biblioteca Digital Europeia, promovida pelo CENL (conferência dos bibliotecários nacionais europeus). Assim, o projecto inicialmente designado de EDL-net (agregando organizações de património, universidades, institutos de investigação e projectos), altera a designação para Europeana, que significa “coisas europeias”.
O portal da Europeana agrega apenas metadados, numa imagem thumbnail e um URL3 que estabelece a ligação ao servidor onde se encontra o objecto digital. O portal permite a realização das pesquisas e a consequente ligação ao local de origem da peça digitalizada. As grandes vantagens deste projecto residem na simplificação do processo de agregação de objectos digitais, ausência de novos servidores (onde seriam guardados os conteúdos duplicados, e onde não se coloca o problema da preservação e actualização), assim como a salvaguarda dos direitos de autor e direitos conexos, concedendo visibilidade à entidade fornecedora de conteúdos (Purday, 2009).
2.
A
INTERNET
2.1
INTRODUÇÃO AO CAPÍT ULONeste capítulo, introduzimod os conceitos e elementos relacionados com a existência e funcionamento da World Wide Web, introduzindo temáticas relativas ao objecto da investigação e que nos permitem compreender algumas tendências. Começaremos por definir os conceitos de sociedade em rede e informacionalismo, assim como o de sítio Web (e.g. Castells, 2004, 2005; Levy, 1997 e 2004; Carvalho, Simões & Silva, 2005). E decorreremos sobre o aparecimento e caraterização da
Web 2.0, suas caraterísticas principais e as ferramentas que possibilitam (e.g. Berners-Lee, 1999;
O´Reilly, 2005 e 2006; OCDE, 2006 e 2007). Por fim, analisamos a situação da sociedade portuguesa face à utilização da Internet: hábitos, comportamentos e tendências (e.g. Cardoso, Costa, Conceição & Gomes, 2005; Eurostat, 2012; Cardoso & Espanha 2010 e 2011).