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69 O ENSINO DE HISTÓRIA DO SÉCULO XX:
reflexões em sala de aula.
Roberto Santana Santos1
Resumo:
O presente artigo é um estímulo a se pensar o ensino de história do século XX no Ensino Médio, suas abordagens, métodos e conteúdos. Tem o intuito de auxiliar e propor medidas que os professores podem adotar ao se depararem com as dificuldades de tratar o período cronológico em questão.
Palavras-chave: ensino de história; século XX; Ensino Médio. Resumen:
Este artículo es un estímulo para pensar en la enseñanza de la historia del siglo XX en la escuela secundaria, sus enfoques, métodos y contenidos. Tiene como objetivo ayudar y proponer medidas que los profesores pueden adoptar cuando se enfrentan a las dificultades de tratar con ese periodo cronológico.
Palabras clave: enseñanza de la historia; siglo XX; Escuela Secundaria.
1 Mestre em História Política pela UERJ. Professor substituto do Departamento de
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Esse artigo não é uma tentativa de teorização ou lançar tendência. É apenas um exercício de reflexão sobre o Ensino de História na Educação Básica, tendo como objeto de análise o trabalho com o século XX. Nasce de percepções e experiências em sala de aula do autor enquanto professor de história do Colégio Pedro II, campus Humaitá II.
Essa referida experiência vem do trabalho com o terceiro ano do ensino médio nos anos letivos de 2012, 2013 e 2014, nos quais os obstáculos cotidianos do fazer docente se colocaram: tempo de aula, abrangência do conteúdo, necessidade de elaboração de materiais didáticos e avaliações que dessem conta dos objetivos pedagógicos a serem alcançados.
Pela proximidade cronológica com nosso tempo presente, o ensino de história do século XX passa ainda por uma busca pela periodização e divisão de conteúdos se não ideal, pelo menos satisfatória. Cursei a terceira série do ensino médio no ano de 2004, portanto, já após o fim do século XX, e sinto grande diferença em relação à abordagem feita em alguns pontos quando comparo meu tempo de estudante à minha atual condição de docente.
Primeiramente, devemos refletir sobre a periodização do século XX. Adoto aqui a atual postura do conjunto dos professores de história do Colégio Pedro II, ao iniciar o conteúdo da terceira série pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) para a história geral e pela Primeira República (1889-1930) para a história do Brasil. A história da América
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Latina ficará para outra oportunidade, pois não caberia nesse artigo, o que, em hipótese nenhuma, diminui sua importância.
Essa divisão já deixa evidente que a periodização histórica nada tem a ver com datas redondas, mas sim, com a avaliação de determinados momentos históricos que podem ser compreendidos como uma conjuntura singular.
I – História Geral
Para a história geral, a obra de referência ainda é Era dos Extremos de Eric Hobsbawm. Sua noção de “breve século XX (1914-1991)” é a predominante para o ensino de história do Novecentos. Esse livro apresenta a Revolução Russa de 1917 como o maior acontecimento do século, já que, para Hobsbawm, quase tudo que foi realizado no século XX guardava uma posição a favor ou contra os ideais bolcheviques (HOBSBAWM, 1995).
Nesse trabalho, Hobsbawm divide o século em três eras: a Era da
Catástrofe (compreendendo a destruição e matança sem fim das guerras
mundiais, da Grande Depressão e do nazifascismo, mas também da Revolução Russa, que apesar do conteúdo positivo para o autor não deixou de ser realizada “a ferro e fogo”). A Era de Ouro, na qual, apesar da Guerra Fria, o capitalismo central alcançou níveis de bem-estar social nunca antes imaginados pela humanidade, junto à popularização de bens duráveis, e por outro lado, o socialismo parecia um destino plausível, com sua expansão através da Revolução Chinesa, Revolução Cubana e os processos de independência política na África e Ásia. Por
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último, o historiador inglês aponta para a Era do Desmoronamento, a partir da década de 1970. Automaticamente nos remetemos para o fim do bloco socialista do Leste europeu, onde os fatos mais marcantes são a Queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991. Mas também ele destaca que o desaparecimento do inimigo vermelho permite ao capitalismo global uma nova rodada de concentração brutal de capitais, o sequestro da democracia pelas megaempresas e o retrocesso em políticas de proteção ao trabalhador e ao cidadão, destruindo a ideia de que seria possível “humanizar” o capitalismo ou realizar uma transição pacífica e gradual para um estágio mais avançado de organização social e produtiva.
Podemos tomar esse arquétipo explicativo para ensejar uma divisão de conteúdo a ser trabalhada em sala de aula no ensino médio. A partir desse ponto, parece que encontramos já uma maneira satisfatória de trabalhar a primeira metade do século XX com os alunos e alunas da escola básica, no que tange à história geral.
A Era da Catástrofe tem um conteúdo bem claro: Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa, Grande Depressão, Nazifascismo e Segunda Guerra Mundial. As abordagens, no entanto, podem ser distintas. O estudo do primeiro conflito mundial guarda muito menos importância em suas batalhas, e muito mais nas modificações geopolíticas que resulta: o aparecimento do primeiro Estado socialista da humanidade, a mudança do eixo central da economia capitalista para os Estados Unidos, a humilhação do Tratado de Versalhes imposto a Alemanha e que seria utilizado como elemento agregador do nazismo.
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Defendo aqui que a Revolução Russa é o tópico mais importante, não só como alternativa ao capitalismo, mas da necessidade dos estudantes realmente entenderem as diferenças socioeconômicas dessa experiência em relação ao mundo em que vivem hoje. É crucial a compreensão do que é a coletivização, socialização dos meios de produção, das diferenças entre socialismo e comunismo. Isso permite ao aluno e à aluna o entendimento tanto da organização econômica do socialismo quanto do capitalismo. Mais do que isso, permite a eles compreender que tanto a teoria marxista quanto à liberal não são um monólito; que cada um guarda suas diversas correntes.
Podemos exemplificar essa discussão com as diferentes posições que disputaram o destino da Revolução Russa após a NEP2 ou com as
saídas para a crise mundial do capitalismo do entre guerras, em que o
New Deal é o prenúncio de um modelo de organização do capital que se
tornaria hegemônico nos países centrais durante boa parte da Guerra Fria, e que desafia o ideário liberal clássico, sem deixar, contudo, de ser capitalismo.
A Segunda Guerra Mundial pode ser apresentada pelo seu peso geopolítico, que se estende até os dias de hoje (vide a composição do Conselho de Segurança da ONU, o debate sobre a tecnologia atômica e, mesmo com o fim da União Soviética, o peso geopolítico que a Rússia detém na atualidade). Por que não utilizar essa discussão para
2 Da qual o tópico mais abordado é a polêmica Stalin x Trotsky, mas que está muito longe de se restringir
a somente isso. Estava em jogo a forma de construir o socialismo e dirigir o processo revolucionário em um momento em que faltava inclusive referencial teórico para tal.
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desconstruir mitos da cultura pop, num debate presente-passado? Não queridos, os Estados Unidos não foi o principal responsável pela derrota do nazismo.
A partir daqui muitos professores sentem dificuldades. Após o fim da Segundo Guerra Mundial vários podem ser os caminhos a serem abordados. Falar sobre a Guerra do Vietnã, o Apartheid na África do Sul ou o conflito entre israelenses e palestinos? Está claro que as características da Guerra Fria – como a bipolaridade, conflitos localizados e corrida armamentista – são o ponto inicial, mas depois disso abre-se um leque de oportunidades.
Seguindo os passos de Hobsbawm, o importante é nos orientarmos pela linha mestra. E o fio condutor do século XX são os ideais de Outubro de 1917. Essa abordagem pode ser tomada a partir de um contraponto entre a União Soviética do revisionismo e da coexistência pacífica em relação à Revolução Chinesa e, principalmente, à Revolução Cubana, experiência mais próxima da nossa realidade.
Entra aqui também os processos de libertação na África e Ásia, com destaque para os promovidos através da luta armada, como Argélia, Vietnã e Angola. Precisamos encontrar uma forma de abordagem geral, pois estudar caso a caso é impossível (sequer fazemos isso no ensino superior, quiçá na escola básica). Por isso é necessário dar ênfase, em minha modesta opinião, à opção pela luta armada e a influência profunda dos casos chinês e cubano, já que eles são balizadores para a compreensão geral do período (a Era de Ouro do socialismo, segundo Hobsbawm). Os estudos de caso para África e Ásia podem ser trabalhados
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em seminários onde cada grupo apresenta um país diferente, reservando ao professor o papel de trabalhar o pano de fundo.
Isso nos permite posteriormente a entender a Era de Ouro do capitalismo, a opção pelo keynesianismo e o Estado de Bem-Estar Social durante boa parte da Guerra Fria. Essas mudanças são reações defensivas do capital internacional num momento de avanço revolucionário, o que não impediu, de um lado, a rearticulação do imperialismo de modo distinto, através do controle econômico mundial por um número cada vez mais restrito de empresas (o caso do Congo ou o Golpe de 1964 são ótimos para trabalhar essa noção em sala de aula); e por outro lado, a contestações ocorridas nos próprios países centrais, especialmente no ano de 1968, com uma juventude que muitas vezes levava às ruas do Primeiro Mundo cartazes retratando Che Guevara e Mao Tse-tung. Os estudantes adolescentes se identificam muito com essa parte da matéria que dá ênfase à mobilização e à cultura jovem, nas quais se misturam líderes revolucionários, astros do rock and roll e questões ligadas à sexualidade.
Para a Era do Desmoronamento (a partir dos anos 1970) é crucial o entendimento das mudanças produtivas do capitalismo mundial, apresentando de maneira casada os conceitos de globalização, neoliberalismo e toyotismo, sabendo que os alunos já trabalham esses tópicos em outras matérias, como geografia e sociologia. E a incapacidade do socialismo soviético em acompanhar esse novo ritmo de produção, muito em parte, pela própria burocratização do processo revolucionário que se arrastava desde a década de 1950.
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Exemplos do cotidiano, como a terceirização de trabalhadores dentro do próprio espaço escolar, os celulares made in China que todos têm nos bolsos e mochilas e a escalada de violência devido o tráfico de drogas, armas e a corrupção política e policial (triste realidade de muitos alunos) podem e devem ser utilizados como exemplos. Estamos aqui falando do mundo deles, o mundo no qual eles nasceram e vivem.
Creio que não devemos cair na armadilha do “mandato político” como divisão para o estudo da história na escola básica. Para entendermos a União Soviética, não vamos estudar Krushov, depois Brejnev, depois Gorbatchov. Nem tampouco, ficar diferenciando Jimmy Carter de Ronald Reagan. Os estudantes têm que entender o porquê do socialismo soviético não ter dado certo, ou quais as diferenças do capitalismo antes e depois da década de 1970. Esses são exemplos da abordagem que pode levar os estudantes a compreender o mundo em que vivem, e não ficar discutindo especificidades de pessoas e acontecimentos que são rapidamente apagados da mente da aluna após a prova.
II – História do Brasil
Para a história do nosso país adotamos a seguinte divisão cronológica: República Velha (1889-1930), Era Vargas (1930-1945), Nacional-desenvolvimentismo (1946-1964), Ditadura (1964-1985) e Neoliberalismo (1985–dias atuais). Posicionamentos políticos, ideológicos e historiográficos podem levar a nomenclaturas e abordagens distintas, mas há consenso na divisão cronológica realizada dessa maneira na
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maioria das vezes. Falta aqui uma obra acadêmica de peso que proponha, teorize e conceitue uma abordagem geral do desenvolvimento brasileiro ao longo do século XX, uma espécie de “Era dos Extremos tupiniquim”.
Para a República Velha nos deparamos com o mesmo problema já anteriormente abordado: como falar de todas as revoltas do período (Canudos, Chibata, Cangaço, etc) com tempo tão espremido de aula? Mais uma vez creio que uma boa tática de sala de aula é deixar as revoltas para seminários apresentados pelos alunos, enquanto na aula expositiva o professor se concentra em apresentar as características gerais, principalmente a “questão social como caso de polícia”, que explica as explosões violentas de descontentamento popular do período.
A Era Vargas é um dos períodos mais estudados da história brasileira, e ao mesmo tempo, muitas vezes apresentado aos alunos com um reducionismo infantil. Apresentar Vargas (assim como Perón na Argentina), como fascista não é só um erro, como expressa uma visão muito eurocêntrica da história latino-americana.
O entre guerras é um período muito sui generis, não só para o mundo, mas também para o Brasil. Como momento de muitas peculiaridades singulares é que devemos apresentá-lo aos alunos, ou eles podem ficar perdidos. Por exemplo, se Vargas foi durante o Estado Novo um ditador, isso não nos permite chamar Carlos “golpe de Estado” Lacerda de democrático. Da mesma forma, como compreender que uma parte da burguesia queria há todo momento derrubar Vargas (e o levou ao suicídio) se sua política industrializante favorecia essa mesma burguesia?
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Adotei, com considerável sucesso segundo os alunos, entre os anos letivos de 2012 e 2014, o projeto nacional-desenvolvimentista de Vargas como polo central para entender as disputas políticas e de classe (e frações de classe) no período 1930-1945 e também de 1946-19643. A
utopia do desenvolvimento capitalista autônomo, de domínio da tecnologia de ponta, com proteção trabalhista à população e tendo o nacionalismo enquanto ideologia agregadora foi o projeto que as forças políticas desses dois períodos se colocaram a favor ou contrárias, à esquerda e à direita.
Há ainda a dificuldade de alguns livros didáticos em trabalhar a periodização da história do Brasil pós-1945. Entre 2012 e 2014 tive que trabalhar com um livro em que havia um capítulo intitulado da seguinte maneira: “Fluxos e refluxos da democracia (de 1945 aos nossos dias)”! Um verdadeiro assassinato historiográfico e didático que encaixota de Dutra a Lula na mesma conjuntura histórica (FARIA, 2010). Parecia até preguiça dos autores em escrever!
Precisamos debater com os alunos que esse projeto nacional-desenvolvimentista tinha seus limites, avanços e problemas, que levou a alianças políticas que se forjaram e se desfizeram ao longo do tempo. Que a polêmica trabalhismo x populismo se estende ao estudo historiográfico até hoje e revela inclusive a posição político-ideológica de quem escreve a história. Que não podemos classificar da mesma forma os projetos
3 Adotei então para o período da história brasileira de 1930 a 1964 a centralidade do
nacional-desenvolvimentismo de Vargas, assim como Hobsbawm fez com a Revolução Russa para todo o século XX, guardado as devidas proporções de trabalho e autores, obviamente.
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desenvolvimentistas de Vargas e Kubitschek, ou colocar no mesmo saco políticos como Dutra, Tancredo Neves e Brizola. Um pouco de utilização da teoria marxista da dependência4 ajuda muito em trabalhar os
conceitos de capitalismo autônomo e capitalismo dependente, da utilização do nacionalismo por forças tanto à esquerda, quanto à direita em países periféricos, como o Brasil.
Independente de utilizar trabalhismo ou populismo em sala de aula, as professoras devem ter em mente que o conceito muda ao longo do tempo, que o trabalhismo/populismo de Jango já é diferente do de Vargas e o de Brizola já é diferente do de Jango. Ora, não foi o próprio Jango, herdeiro político de Vargas, a propor uma reforma no projeto desenvolvimentista – e por isso derrubado em 1964; e não foi o próprio Brizola que recorria à resistência armada para defender e aprofundar esse mesmo projeto, em tempos de enorme influência da Revolução Cubana na América Latina? Com certeza um terreno rico para o trabalho do professor, que não deve ficar perdido analisando governo a governo, como se a história fosse uma sucessão de homens engravatados no poder e seus respectivos programas políticos.
A ditadura é o momento histórico mais importante da Hstória do Brasil recente, pois ela nos legou muitos dos nossos problemas atuais. Uma boa forma de iniciar a abordagem do tema é contrapor as medidas das Reformas de Base com as políticas do regime de exceção. Isso facilita
4 A retomada de autores como Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos e Vania
Banbirra em algumas faculdades Brasil afora levará essa discussão de volta às salas de aula, mais cedo ou mais tarde, não só na história, mas em sociologia e geografia, com toda certeza.
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aos alunos a compreender o que estava em jogo: o desenvolvimento autônomo da economia e da política brasileira, o destino do projeto desenvolvimentista do país e sua posição na geopolítica da Guerra Fria.
O entreguismo da economia brasileira, a desigualdade social e o pauperismo endêmico da população, assim como a violência brutal da disputa política são legados da ditadura que ecoam forte na realidade nacional e na vida individual de cada um daqueles jovens que se encontram à nossa frente na sala de aula. O aluno/a aluna de melhor condição social precisa compreender porque a maioria das pessoas não possuem as mesmas condições de vida que ela, que ela é uma privilegiada e que isso traz responsabilidades. O aluno mais pobre precisa entender porque ele chega em casa e toma um “esculacho” do PM ou quando abre a porta de casa para ir à escola tem um cadáver de alguém na calçada. Novamente a relação presente-passado, inerente ao saber histórico, é uma ferramenta de abordagem do corpo docente.
A partir de 1985, inicia-se o período atual da história do Brasil, chamado muitas vezes de Nova República. Como proposta de abordagem para esse período, gosto de dar relevância o porquê a mudança de sistema político não significou melhores condições sociais ao povo brasileiro. A resposta pode ser alcançada realizando uma intersessão entre os conteúdos de história do Brasil e geral, tendo como ponto de partida que o fim do regime ditatorial coincide com a reestruturação do sistema capitalista internacional nos moldes neoliberais, com o fenômeno da globalização e com o desaparecimento da União Soviética.
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A história do Brasil nos anos 1980 e 1990 é a história da repaginação de nossa dependência, de nossa readequação às mudanças globais do capitalismo, sempre de maneira subalterna. Isso é o que impede melhorias significativas nas condições socioeconômicas brasileiras nos últimos anos do século XX, o agravamento da violência urbana e a “democracia” truncada e seletiva na qual nos encontramos. Em muitos casos as condições de trabalho e renda pioram nos anos 1990 devido ao avanço das políticas neoliberais (SANTOS, 2014).
São os jovens nossos alunos e alunas que permanentemente topam com os limites dessa “democracia” e o espaço da aula de história nesse tópico pode ser um excelente momento para deixá-los falar sobre sua percepção do cotidiano, seus dilemas, ideias, preconceitos e desejos. Aqui o professor é mais do que nunca mediador e condutor do debate, apresentando os pontos principais do período histórico e enriquecendo a aula com o conhecimento trazido pelos próprios discentes.
Mais uma vez, apontamos a necessidade de se debater as principais modificações de cada tempo histórico, de que forma elas afetaram a maneira como os seres humanos viveram e vivem. Essa posição pode facilitar o trabalho docente para a história do século XX, fugindo do estilo de aula conteudista, que mais confunde do que esclarece o alunado.
Tópicos os quais experimentei em sala de aula e deram muito certo passam por um debate do Brasil na globalização, manifestações do neoliberalismo no cotidiano da vida dos estudantes (muitas vezes dentro da própria escola), direitos da Constituição de 1988 no dia a dia, ou que foram suprimidos nos anos 1990. Uma comparação entre as
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semelhanças e diferenças entre os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva também auxilia na percepção discente do Brasil atual.
III – Olhando para frente. Novos desafios no século XXI
Escrevo no ano de 2014, portanto, já na metade da segunda década do século XXI. Um novo desafio já se coloca à profissão de professor. Não demos conta de sistematizar o ensino do século XX e o atual período já bate à porta. Novos problemas de abordagem se apresentam, assim como planejamento de aulas com um volume de conteúdos cada vez maior a ser abordado. Novas ferramentas e métodos didáticos também estão presentes, com suas vantagens e desvantagens, principalmente com a utilização da internet.
Os livros didáticos já apresentam várias temáticas do século XXI de uma maneira impossível de ser trabalhada em sala de aula: cada uma das intervenções militares dos Estados Unidos, cada um dos governos progressistas da América Latina, cada um dos mandatos presidenciais no Brasil, ou até cada uma das cúpulas internacionais sobre meio ambiente.
Novamente, mais esforço intelectual do corpo docente deverá ser colocado à prova. O livro didático aponta todos os conteúdos possíveis, da maneira mais esmiuçada que conseguiram realizar. Não está errado, mas o que temos que ter em mente é que a forma de abordar esses conhecimentos pelo professor é que se apresenta como a questão chave. São os professores que podem condensar em duas aulas, que o
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neoliberalismo, a atuação imperialista norte-americana e o aquecimento global estão em uma mesma lógica de desenvolvimento predatório e destrutivo para a humanidade e o planeta. E que por outro lado, as mudanças geopolíticas na América Latina do século XXI são uma resposta, mais ou menos radicais, que se opõem à hegemonia neoliberal e que tem como seu epicentro a Revolução Bolivariana da Venezuela.
Com isso, pretendemos nas linhas acima salientar a tarefa do professor e da professora como organizadora do conteúdo e dos métodos a serem abordados no ensino de história do século XX na escola básica. Como colocado no início do texto, este é uma reflexão sobre o fazer docente, com simples ideias e propostas nascidas do cotidiano escolar. Não pretende ser um modelo, até porque cada docente tem sua forma de trabalhar em sala de aula, mas deixo aqui algumas contribuições que podem auxiliar em nossa tarefa diária de ensino.
Referências
FARIA, Ricardo de Moura; MIRANDA, Mônica Liz; CAMPOS, Helena Guimarães. Estudos de história. São Paulo: FTD, 2010. (Coleção estudos de história, v. 3)
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos - o breve século XX 1914-1991. 2 ed. São Paulo. Companhia das Letras, 1995.
SANTOS, Roberto Santana. Coronéis e empresários – da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002). Rio de Janeiro. Multifoco, 2014.
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Recebido em 05/08/2014 Aprovado em 15/09/2014