MITO E CARACTERIZAÇÃO DE PERSONAGEM EM BERNARD MALAMUD
Ramina Mania Siqueina da Silva. PIRES*
B e r n a r d Malamud nasceu em 1914, no B r o o k l y n , em Nova Y o r k , e f a l e c e u em 1986. F i l h o de i m i g r a n t e s j u d e u s do l e s t e e u r o p e u , passou t o d a sua infância e adolescência n a q u e l a área de Nova Y o r k , onde v i v i a grande p a r t e dos i m i g r a n t e s das mais v a r i a d a s n a c i o n a l i d a d e s . P u b l i c o u o i t o r o mances: The HatuAal, The Aòòi&tant, A New Li^e, The
Fixen., Pictuneò ofi Fidelman, The, Tenantò, Vubin'ò Livet, e God'ò Guace, e s t e último de 1982; e também qua
t r o volumes de c o n t o s : The Magic Bonnet, Idiota
Fimt, Rembnandt'ò Hat e The Stonieò o{> RetnaAd
Malamud. É r e c o n h e c i d o como um dos grandes e s c r i . t o r e s n o r t e - a m e r i c a n o s desde a Segunda G u e r r a , t e n d o r e c e b i d o inúmeros prêmios, como o N a t i o n a l Book A e a r d de 1959 p o r The Magia Bonnet, e o P u l i t z e r P r i z e e o N a t i o n a l Book Award de 1967 p o r The Fixe/L.
Embora c i n c o de seus romances e um volume de c o n t o s tenham s i d o t r a d u z i d o s p a r a o p o r t u
guês, Malamud é um a u t o r a i n d a pouco d i v u l g a d o e c o n h e c i d o em nosso meio i n t e l e c t u a l e acadêmico. I s t o t a l v e z se deva ao f a t o de s e r c o n s i d e r a d o p o r m u i t o s como um "Jewish-American w r i t e r " — um e s c r i t o r americano j u d e u — o que, de c e r t a f o r m a , t o r n a r i a sua o b r a mais d i s t a n t e do públi. co do B r a s i l , p e l a f a l t a de identificação c u l t u r a l (como é s a b i d o , a imigração dos povos de fé j u d a i c a p a r a nosso país f o i pequena, p r i n c i p a _ l mente se comparada à força dessa c o r r e n t e m i g r a
tõria na formação da s o c i e d a d e dos Estados Un_i dos da América). Juntamente com S a u l B e l l o w e P h i l i p R o t h , Malamud f a z p a r t e do g r u p o de roman c i s t a s americanos j u d e u s que f l o r e s c e u a p a r t i r dos anos cinqüenta e que, supostamente, r e t r a t a
j u d e u s e a c u l t u r a j u d a i c a nos E s t a d o s U n i d o s . Contudo, Malamud sempre r e j e i t o u t a l rótu l o , chegando a a f i r m a r : "O termo [Jewish-American w r i t e r ] é esquemático e r e d u t i v o . Se o crítico p r e c i s a do t e r m o , pode usá-lo mas não o ajudará em nada se e l e l i m i t a r sua interpretação de um e s c r i t o r a f i m de enquadrá-la no rótulo que i n v e n t o u ( 2 , p. 12) [.·..] Sou a m e r i c a n o , sou j u deu, e e s c r e v o p a r a t o d o s os homens. Algumas ve zes c r i o personagens j u d i a s porque acho que as e n t e n d e r e i m e l h o r como pessoas [ . . . ] porque s e i
a l g o s o b r e sua história, s o b r e a q u a l i d a d e de sua experiência e crença. Como e s c r i t o r sou mui_ t o mais i n f l u e n c i a d o p o r Hawthorne, James, Mark Twain e Hemingway do que p o r Sholem A l e i c h e m e I . L . P e r e t z ( e s c r i t o r e s clássicos da moderna l i t e r a t u r a iídiche). N a s c i na América e r e s p o n d o , na v i d a a m e r i c a n a , a mais do que ã experiência j u d a i c a . E s c r e v o p a r a os que lêem ( 4 , p. 162-163) .
É exatamente i s t o o que se comprova com a l e i t u r a de suas o b r a s . Suas p e r s o n a g e n s , quando j u d i a s , não se preocupam com o judaísmo como r e l i . gião ou com os costumes j u d a i c o s mais o r t o d o x o s . Os heróis de Malamud devem tomar suas decisões à l u z não da religião f o r m a l , mas do humanismo se c u l a r que p e r m e i a t o d a sua o b r a .
Em nossa abordagem do m i t o como r e c u r s o , d e n t r o do p r o c e s s o de caracterização das p e r s o n a gens de B e r n a r d Malamud, c e n t r a r e m o s nossas a t e n ções no romance Thz AòAiAtant (4) , que tem s i d o o b j e t o de nossos e s t u d o s r e c e n t e s . A n t e s , c o n t u do, cabem algumas considerações em relação ao t e r m o "caracterização". Segundo o P r o f . A n t o n i o Candido, os r e c u r s o s de caracterização são os
"elementos que o r o m a n c i s t a u t i l i z a p a r a descrê v e r e d e f i n i r a personagem, de m a n e i r a que e l a
possa d a r a impressão de v i d a , c o n f i g u r a n d o - s e a n t e o l e i t o r [ . . . ] A caracterização depende de uma e s c o l h a e distribuição c o n v e n i e n t e de traços l i m i t a d o s e e x p r e s s i v o s , que se e n t r o s e m na com posição g e r a l e s u g i r a m a t o t a l i d a d e dum modo-d e - s e r , modo-duma existência ( 1 , p. 59, 7 5 ) .
Os métodos de caracterização são g e r a l m e n t e c l a s s i f i c a d o s em d i r e t o e i n d i r e t o . No p r i m e i r o , os a t r i b u t o s da personagem são a p r e s e n t a d o s a t r a vés de p r o c e d i m e n t o s de qualificação d i r e t a ou explícita. Já o modo i n d i r e t o de caracterização p r e f e r e não m e n c i o n a r a característica, mas mos trã-la e exemplificá-la de várias m a n e i r a s , ca bendo ao l e i t o r i n f e r i r a q u a l i d a d e o c u l t a .
Na ficção do século XX, t e n d e a p r e d o m i n a r a caracterização i n d i r e t a , v i s t o que, num perío do i n d i v i d u a l i s t a e r e l a t i v i s t a como o nosso, o caráter de sugestão e a indeterminação são p r e f e ríveis â definição r e s t r i n g e n t e , p r o p o s t a p e l a caracterização d i r e t a .
E n t r e os meios de realização da c a r a c t e r i z a ção i n d i r e t a temos: a ação, o d i s c u r s o , a apa rência e x t e r n a , o espaço. A a n a l o g i a também é um r e c u r s o c a r a c t e r i z a d o r que pode s e r c l a s s i f _ i cado como um reforço de caracterização. O p r o c e d i m e n t o analógico nos p e r m i t e e x p l i c a r o desço
n h e c i d o p e l o c o n h e c i d o , t a n t o p o r s i m i l a r i d a d e q u a n t o p o r c o n t r a s t e e n t r e os d o i s e l e m e n t o s com p a r a d o s . É n e s t e r e c u r s o c a r a c t e r i z a d o r que deve remos c o n c e n t r a r nossas atenções, v i s t o que o mi. t o é um r e c u r s o analógico de caracterização no s e n t i d o de q u e , através de alusões e f i g u r a s ou padrões, arquétipos míticos, i s t o é, que estão r e g i s t r a d o s na memória c o n s c i e n t e ou i n c o n s c i e n t e do l e i t o r , pode-se e n r i q u e c e r o c o n h e c i m e n t o da personagem.
Os p r o t a g o n i s t a s de Malamud começam t i p i c a mente como indivíduos egocêntricos e f r u s t r a d o s , c u j a insegurança básica g e r a a n e c e s s i d a d e de su cesso e s t a t u s . Seus i m p u l s o s f u n d a m e n t a i s são eróticos, o que os l e v a a b u s c a r a realização de seus d e s e j o s s e n s u a i s ao invés do amor genuí no.
Contudo, a auto-transcendência é o i d e a l que c o n t r o l a grande p a r t e do d e s e n v o l v i m e n t o dej; t e s p r o t a g o n i s t a s . Assim o c o n f l i t o f u l c r a l da n a r r a t i v a é a q u e l e que se t r a v a no i n t e r i o r da personagem, e n t r e suas tendências básicas e um i d e a l a s e r a t i n g i d o que, é i m p o r t a n t e f r i s a r , não l h e é i m p o s t o p o r ninguém, senão p o r e l a mes ma.
ca personagem malamudiana deve não apenas desço b r i r quem r e a l m e n t e é, mas p o r quem é responsa v e l , assumindo i n t e g r a l m e n t e e s t a r e s p o n s a b i l i d a de. E s t e é um p r o c e s s o penoso que está l i g a d o a uma e l a b o r a d a e ritualística seqüência de p r o v a s . Malamud quase sempre r e l a c i o n a e s t a seqüên c i a de p r o v a s , que c a r a c t e r i z a o d e s e n v o l v i m e n t o da personagem, com o c i c l o s a z o n a l e os m i t o s que a e l e se l i g a m . O arquétipo cíclico s a z o n a l ou v e g e t a t i v o a s s o c i a o c i c l o das estações do ano ao padrão de m o r t e e " r e n a s c i m e n t o " da f i g u r a do r e i , deus ou herói que m o r r e no i n v e r n o , j u n t a m e n t e com a vegetação e " r e v i v e " na p r i m a v e r a , o que causa o f l o r e s c i m e n t o das p l a n t a ções. O r e i v e l h o ou f r a c o já não consegue e x e r c e r sua função de p r o t e t o r do c i c l o da n a t u r e z a , p o i s , p e l o "princípio do contágio", sua d e b i l i d a de ameaça essa n a t u r e z a . Assim, deve s e r s u b s t i tuído p o r u/n r e i jovem e v i g o r o s o que chega na p r i m a v e r a , r e v i t a l i z a n d o a t e r r a ( 4 ) .
A l e n d a m e d i e v a l da W a s t e l a n d , que tem como base o arquétipo cíclico s a z o n a l , tem s i d o apon t a d a como s u b s t r a t o e s t r u t u r a l p a r a os romances da f a s e i n i c i a l de Malamud. N e l a , P e r c i v a l , ura c a v a l e i r o da c o r t e de A r t u r , recebe a t a r e f a de achar e c u r a r o F i s h e r K i n g , r e i f e r i d o da
W a s t e l a n d , t e r r a infértil e d e s o l a d a , c u j o equi. líbrio e f e r t i l i d a d e dependem da saúde de seu so b e r a n o . Apenas um c a v a l e i r o p u r o e ingênuo pode r i a c u r a r o r e i , f a z e n d o - l h e a p e r g u n t a c e r t a que, na m a i o r i a das versões, tem a v e r com a causa do s o f r i m e n t o do soberano. A inexperiência de P e r c i v a l o impede de f a z e r a p e r g u n t a , mas
sua persistência g a r a n t e - l h e uma nova o p o r t u n i d a de. Fazendo a p e r g u n t a c e r t a , o c a v a l e i r o devo^L ve a saúde ao r e i , ao mesmo tempo que é reconhe e i d o como novo s o b e r a n o . F i c a , a s s i m , g a r a n t i d a a f e r t i l i d a d e das t e r r a s e a h a r m o n i a do r e i n o .
Em The Aòò-L&tant, e s t e m i t o m e d i e v a l é t r a n s p o s t o p a r a os tempos modernos. O F i s h e r K i n g é M o r r i s Bober, um m e r c e e i r o j u d e u , d o e n t e e quase f a l i d o , que não nega crédito a ninguém e c u j a s m a i o r e s v i r t u d e s são a compaixão e a so l i d a r i e d a d e com o s o f r i m e n t o do próximo. S i r P e r c i v a l é Frank A l p i n e , um jovem de v i n t e e c i n co anos, d e s o r i e n t a d o , em busca de um p a i que o a j u d e a i d e n t i f i c a r - s e e de v a l o r e s que l h e p r o p o r c i o n e m uma nova p e r s p e c t i v a de v i d a . F r a n k é capaz de f a z e r as p e r g u n t a s c e r t a s a M o r r i s : "O que é s e r j u d e u ? " e "Por que você s o f r e ? " . Mas não é capaz de compreender as r e s p o s t a s : " [ . . . ] p a r a s e r j u d e u t u d o de que se p r e c i s a é um bom
coração" e "Eu s o f r o p o r você" ( p . 149-150). Frank a i n d a não está p r o n t o p a r a a s s u m i r o l u g a r do líder. A d u a l i d a d e de seu caráter, seu espí_ r i t o contraditório, que o s c i l a e n t r e o bem e o m a l , são os obstáculos que devem s e r t r a n s p o s t o s p a r a que a personagem possa c u m p r i r seu p a p e l de r e s t a u r a d o r do equilíbrio do " r e i n o " .
O p e r c u r s o do herói será l o n g o , r e p l e t o de percalços e acompanhará a evolução do c i c l o sazo n a l . O a p a r e c i m e n t o de Frank na m e r c e a r i a , p a r a e x p i a r sua c u l p a p o r h a v e r p a r t i c i p a d o de um as s a l t o a M o r r i s , a c o n t e c e em novembro, em f i n s do o u t o n o . A saúde do m e r c e e i r o já começa a f a l h a r e a a j u d a de F r a n k , no t r a b a l h o , f a z - s e ne c e s s a r i a . De novembro até a b r i l , quando o c o r r e a m o r t e de M o r r i s , testemunha-se o r e n a s c i m e n t o m o r a l de F r a n k , através da assimilação dos v a l o r e s do v e l h o j u d e u . A m o r t e de M o r r i s o c o r r e já no início da p r i m a v e r a e o jovem herói está p r a t i c a m e n t e p r o n t o p a r a substituí-lo. Contudo, o a u t o r c o n c e d e - l h e um c i c l o s a z o n a l c o m p l e t o , até a b r i l do ano s e g u i n t e , p a r a que possa a s s u m i r i n t e g r a l m e n t e as funções de M o r r i s na família e no g r u p o s o c i a l . Nesse período, Frank não assume apenas as obrigações de seu m e n t o r , como também consegue r e a l i z a r o sonho m a i o r do v e l h o j u d e u ,
o de c o n s e g u i r c u s t e a r os e s t u d o s s u p e r i o r e s de H e l e n , a f i l h a de M o r r i s . Em a b r i l , na p r i m a v e r a do ano s e g u i n t e , F r a n k é c i r c u n c i d a d o e c o n v e r t e - s e ao judaísmo. A conversão de F r a n k não p a r e ce s e r d e t e r m i n a d a p o r m o t i v o s de ordem religió s a , mas p o r duas o u t r a s razões: o d e s e j o de. as s u m i r de forma i n t e g r a l a i d e n t i d a d e de M o r r i s , e a ânsia p o r alguma chance de reaproximação de H e l e n , p o r quem se a p a i x o n a r a . C i r c u n c i d a d o , s i m b o l i c a m e n t e , p e n a l i z a - s e p o r havê-la e s t r u p a d o e, c o n v e r t i d o , abraça sua crença como p r o v a de aliança.
No romance de Malamud, m i t o e r e a l i d a d e com binam-se p a r a c r i a r uma ficção que, ao mesmo tem po que r e p r e s e n t a a s o c i e d a d e americana moder na, a i n d a dominada p e l o Sonho A m e r i c a n o , c u j a s conseqüências mais tangíveis são o m a t e r i a l i s m o selvagem e o i s o l a m e n t o do s e r humano, também a p o n t a p a r a uma p o s s i b i l i d a d e de o homem s a i r do e s t a d o de angústia e solidão, através do r e s g a t e do que e s t e tem em comum com t o d o s os o u t r o s homens - a própria condição humana e a c a p a c i d a de de s o l i d a r i z a r - s e .
Como r e c u r s o s c a r a c t e r i z a d o r e s de p e r s o n a gem em Tkz AòAÍ&tant, os arquétipos míticos cons t i t u e m um e l e m e n t o e n r i q u e c e d o r do p r o c e s s o de
criação dos e n t e s f i c c i o n a i s . Esses arquétipos p r o p o r c i o n a m um r e f e r e n t e mítico que s e r v e de pa râmetro p a r a se m e d i r o c r e s c i m e n t o m o r a l da p e r sonagem. Contudo, é i m p o r t a n t e l e m b r a r que o mi_ t o , em The Aòòlitant, nunca se sobrepõe à n a r r a t i v a , é s u b s t r a t o e s t r u t u r a l e e l e m e n t o de " i n s i g h t " , j a m a i s i n t e r f e r i n d o nas motivações das personagens. O que e l a s são é m u i t o mais i m p o r t a n t e do que o que s i m b o l i z a m .
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