Secador Colonial Sem Fumaça
Luiz Fernando Gerhard¹ Welton Vério Weber²
Resumo: Mais de 90% do milho do Município é cultivado na resteva do fumo (janeiro e fevereiro). A colheita acontece entre os meses de junho a agosto, quando o cereal ainda possui alto índice de umidade. Geralmente este milho é armazenado em espiga, nos galpões, estando sujeito ao ataque de ratos, carunchos e aparecimento de fungos, que acarretam perda em qualidade e quantidade. Baseado no primeiro secador de fogo indireto (sem ventilador e a câmara de secagem com chapas metálicas sem furos) e nas estufas de fumo, produtores de Vera Cruz desenvolveram um secador de leito fixo de baixo custo, fácil construção e operação, e que não possibilita a entrada de fumaça na câmara de secagem. O presente trabalho detalha a construção do equipamento.
¹Extensionista Rural da ASCAR/EMATER/RS, escritório Municipal, Rua Carlos Werner, 245, 96.880-000 Vera Cruz, RS. e-mail: [email protected]
²Extensionista Rural da ASCAR/EMATER/RS, escritório Municipal, Rua Carlos Werner, 245, 96.880-000 Vera Cruz, RS. e-mail: [email protected]
Secador Sem Fumaça construído em 1980 1. Vera Cruz: Berço e vanguarda dos secadores
A história dos secadores a nível de propriedade rural no Estado e talvez no País teve início na localidade de Entre Rios, Município de Vera Cruz, inicialmente para a secagem de raiz de mandioca.
Era o ano de 1980 quando o senhor Guido José Mueller iniciou a criação de suínos, oportunidade em que possuía 4 ha de mandioca. Devido a grande produção de raiz (média de 4 kg/planta) o Sr. Guido tentou vender a mandioca para uma fábrica de farinha (atualmente desativada), localizada no vizinho município de Santa Cruz do Sul, porém o custo do frete e o baixo preço pago pela indústria não ofereciam condições de comercialização. Tentou então utilizar a raiz seca para a criação, objetivando baixar o custo de produção com material existente na propriedade, cuja idéia partiu do médico veterinário Fredi Juarez Kudrna. Ao fornecerem tal alimento (raspa seca) para os suínos, constataram que proporcionava maior rendimento aos animais e facilitava a mão de obra, além de poder ser armazenado sem problemas.
A primeira secagem da raspa úmida foi tentada em uma estufa de fumo, que explodiu e queimou devido ao desprendimento de álcool.
A raiz havia sido picada de forma grosseira, sem os martelos do desintegrador, como resultado de uma experiência anterior, quando fora picada com os martelos, transformando-se numa massa impossível de ser seca.
No mesmo ano iniciaram a construção de um secador com fogo direto, que não deu resultado positivo, pois a raspa aderia sobre a chapa. Foi então construído o primeiro secador de fogo indireto, com os canos passando sob uma chapa metálica sem furos (foto acima).
Este secador foi utilizado na propriedade até o ano de 1987, quando no dia 05 de agosto foi construído o secador de leito fixo, adquirido de uma empresa ligada a Universidade Federal de Viçosa – Centreinar – Minas Gerais, que fabricava o equipamento para secagem de café. Técnicos de Minas Gerais vieram orientar a construção da fornalha, sendo que a câmara de secagem foi construída de tijolo e barro, embora a empresa oferecia peças metálicas para esta finalidade.
O secador ainda está em funcionamento e serviu de modelo para diversas outras empresas que, ao longo dos anos, comercializam diversos secadores na região.
No ano de 2000 o produtor Jucelino de Oliveira Cortes, residente na localidade de Ferraz, baseado em uma revista lida há 15 ou 20 anos construiu um secador sem canos e sem fumaça, que nos anos seguintes foram aperfeiçoados, e o será ainda mais em 2003.
Além desses, outros secadores foram construídos no município, tendo como fonte de energia as fornalhas de estufas de fumo (que apresentam o grande inconveniente do alto consumo de lenha e energia elétrica).
2. Introdução
O milho produzido na resteva do fumo, que utiliza o resíduo da cultura anterior, onde normalmente é usado somente o dessecante e o plantio realizado com saraquá, tem um custo de produção inferior ao semeado em setembro/outubro, em solo lavrado, gradeado e adubado, no chamado cultivo convencional, visto utilizar o resíduo do adubo da cultura anterior. Isto, no entanto, não justifica a perda que acontece normalmente, devido as más condições de armazenagem.
Nos meses de junho, julho e agosto o ciclo do cereal está completo, porém a alta umidade relativa do ar e as constantes chuvas no período fazem com que o grão esteja com percentual muito alto de umidade. Além disso, a área precisa ser desocupada para a nova cultura do fumo.
Grande parte dos produtores armazenam o milho em espiga, nestas condições, nos galpões tradicionais existentes nas propriedades.
Para evitar estas perdas, alguns produtores possuem secadores de leito fixo tradicionais onde secam a produção, outros transportam o milho, as vezes por longas distâncias até esses secadores ou cooperativas, que depois de secos são levados de volta às propriedades., acarretando altos custos ao produto.
Vera Cruz conta atualmente para a secagem de milho com secadores de duas cooperativas, além de 12 secadores de leito fixo tradicionais, com capacidade total para 470 sacos, mais 6 Secadores Coloniais Sem Fumaça, com capacidade para 215 sacos e um secador com capacidade de 200 sacos, cuja câmara de secagem foi adaptada em um graneleiro, estacionado ao lado da fornalha de uma estufa de fumo. Portanto, ocorre uma grande deficiência na secagem de grãos que é de aproximadamente 189.000 sacos anuais.
4. Fatores limitantes do secador de leito fixo tradicional
4.1. Alto custo do equipamento;
4.2. Resíduo de fumaça, que deprecia a palatabilidade do milho e desestimula os produtores a secarem o produto nos secadores tradicionais;
4.3. Dificuldade do associativismo para a construção de secadores coletivos; 4.4. Longa distância entre as propriedades dificulta o transporte do produto.
5. Vantagens do Secador Colonial Sem Fumaça
5.1. Adaptável às condições das propriedades rurais; 5.2. Baixo custo da construção;
5.3. Independe de indústria de secadores e de mão de obra externa;
5.4. Aproveita recursos materiais e humanos da propriedade ou vizinhança; 5.5. Fácil operacionalização na secagem;
5.6. Baixa demanda de potência elétrica (1 HP), sem a necessidade de licença da distribuidora de energia;
5.7.Baixo consumo e possibilidade de aproveitamento de lenha de qualidade inferior;
5.8. Alta qualidade do milho seco; 5.9. Simplicidade de construção; 5.10. Eficiência na secagem;
5.11. Utilização de pequeno espaço físico.
6. Secador Colonial Sem Fumaça (o ovo de Colombo)
Passamos a descrever o projeto do secador, construído pioneiramente na localidade de Ferraz, propriedade dos senhores Armando e Hugo Martin, com capacidade para 30 sacos de milho.
6.1. Estrutura
A estrutura da câmara de ar e câmara de secagem é em alvenaria de tijolos maciços e barro, sobre pedras de alicerce e barro.
Os canos estão apoiados em tijolos colocados no chão, fazem a volta em forma de * “U”, saindo do fundo da fornalha e retornando até o lado do ventilador para subir em forma de chaminé.
O leito da câmara de secagem é de tela 3mm,, sobreposta em ripas de 2 x 2 cm, dispostas a cada 4 cm em caibros de 6 x 10 cm.
* A nossa recomendação, baseado em observações, é de que os canos sejam colocados em forma de “S”,(conforme plantas).
6.2. Ventilação
O ventilador é de 5 pás, diâmetro de 60 cm, acoplado a um motor de 1 HP, monofásico, com 1.730 rpm, colocado na parede da câmara de ar, entre a fornalha e a saída do chaminé.
6.3. Fornalha
Contígua a estrutura de secagem e construída de material idêntico.
7. Orçamento
Cabe destacar que o orçamento diz respeito ao secador em questão, com capacidade para 30 sacos, podendo variar, dependendo dos materiais empregados e disponibilidade na propriedade ou localidade.
Material Unidade de medida Quantidade
Caibros (6x10x188 cm) Unidade 5
Ripas (2x2x322 cm) Unidade 30
Tijolos maciços Unidade 600
Pedras alicerce Unidade 50
Tela (3 mm) m² 6
Canos (18 cm) m 12
Motor (1 CV – 1730 rpm) Unidade 1
Ventilador ( 60 cm) Unidade 1
Observações:
Seguem algumas informações que julgamos importantes na construção do Secador: Já testamos motor de alta rotação e não funcionou, pois esquenta muito. Usar o motor de 1 HP, baixa rotação.
A hélice do ventilador que estamos usando é de caminhão Mercedes, 53 cm, no valor aproximado de R$ 50,00. Esta hélice é acoplada no motor por torneiro mecânico, e esse
fixo em uma barra de ferro em forma de “U”, presa em um tonel partido ao meio (tubo de aproximadamente 40 cm. de comprimento), por ferreiro. Custo total dos serviços R$ 50,00.
É recomendável colocar este conjunto de forma mais oblíqua possível na parede do Secador, direcionando o ar para a “buzina” na saída da fornalha.
Planta baixa
A
3,44 m
C D
0,60m . 0,18m 2,10 m
obstáculo de latão
ou madeira
0,80m
E F
B compartimento p/
descarga
Corte A – B
tela
0,45 m
...
1,20 m
0,75 m
ventilador
motor 1 HP fornalha
Corte C – D
chaminé
tela
fornalha
cano na horizontal motor 1 HP
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Corte E – F
compartimento p/
tela descarga
fornalha
cinzeiro inclinação de 6 cm do cano, tijolo p/
depois segue em nível. apoio
Foto de Secador Colonial Sem Fumaça de Armando e Hugo Martin