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Redes de sociabilidade e formação de um clero de cor no Bispado do Rio de Janeiro séculos XVII e XVIII

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Academic year: 2021

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Redes de sociabilidade e formação de um clero de cor no Bispado do Rio de

Janeiro – séculos XVII e XVIII

Guilherme da Silva1* Anderson José Machado de Oliveira

Resumo

O presente trabalho visa abordar o estudo da ordenação de africanos e seus descendentes como padres seculares na América Portuguesa. Privilegiando o enfoque do processo de mobilidade social e da estruturação das hierarquias numa sociedade com traços de Antigo Regime, através da formação e discussão do conceito de “redes de sociabilidade”, pretende-se analisar os significados da existência deste segmento clerical para a população de cor e para as instâncias dos poderes secular e religioso na América Portuguesa. Procurar-se-á entender esta mobilidade em um sentido que não se resume à ação individual e sim coletiva, incluindo uma análise mais específica das estratégias que conduziram à ordenação daqueles que possuíam o chamado “defeito da cor”.

Palavras-chave: Redes de Sociabilidade. Clero de cor.

Abstract

This paper aims to approach the study of the ordination of Africans and their descendants as secular priests in Ibero-America. By analyzing the process of social mobility and the structuring of hierarchies in a society with traces of Ancient Regime, this document will discuss thoroughly the concepts of “social networks” and analyze the meanings of the existence of this segment for the clergy and people of color for the instances of secular and religious power in Ibero-America. In addition, it will highlight on the understanding of this mobility, including a more specific analysis of the strategies that led to the ordination of those who had called the "defective color”.

Key Words: Social networks. Clergy of color.

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Graduando em História da UNIRIO – Bolsista de Iniciação Científica sob a orientação do Professor Doutor Anderson José Machado de Oliveira.

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Introdução

Nos séculos XVII e XVIII, a América Portuguesa experimentou um crescimento significativo da entrada de cativos africanos por conta do desenvolvimento da economia mineradora e de uma maior complexidade da economia colonial. Esta complexidade pode se ver representada não só na economia, mas também no campo social, já que esta maior entrada de escravos levou a uma necessidade de reestruturação das classificações sociais que, apesar das mudanças, ainda se inseriam na lógica do Antigo Regime e, com isso, promovendo uma nova configuração hierárquica. Isso se deu principalmente pelo fato de que uma maior quantidade na entrada de negros neste território gerava um aumento proporcional do número de libertos, criando a necessidade de uma classificação que os contrastasse tanto com o universo dos próprios cativos quanto com o dos cristãos velhos (MATTOS; 2004, p. 236-237).

Pensando, ainda, numa lógica do Antigo Regime, é essencial que tenhamos em conta a importância do posicionamento da Igreja Católica no contexto. Nesta época, vive-se, ainda, num mundo regido pelo conhecimento que se constrói a partir da religião, pois, apesar do avanço filosófico e científico do século XVII, a religião ainda é o fundamento das explicações sobre o conhecimento do universo, e será ela, inclusive, a base da legitimação da escravidão no mundo ocidental. A escravidão africana passou a ser justificada como uma forma de remissão do pecado, fundamentando a concepção de uma sociedade escravista cristã. Esses postulados embasavam uma série de ações da Igreja que, atuante como mediadora na salvação individual dentro da esfera católica, tentava trazer os africanos para o ambiente clerical das práticas sacramentais, inclusive a ordenação.

E é justamente partir dos processos de ordenação de homens negros no Bispado do Rio de Janeiro nos séculos XVII e XVIII, que este trabalho tentará demonstrar como estas ordenações se construíram através de estratégias que estavam inseridas não apenas dentro de um caráter individual, mas que dependiam de um conjunto de relações sociais

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3 que iam além do círculo consanguíneo do habilitando e acabavam por envolver solidariedades diversas, amizades e laços clientelares. Estas relações são a base do funcionamento da sociedade barroca europeia e que se adaptam à colônia, conformando uma sociedade elitista, onde a dependência dos grupos sociais operam entre si em função do corporativismo.

Partindo de um universo teórico que irá privilegiar as concepções de redes de sociabilidade, as trajetórias individuais serão analisadas neste contexto mais amplo da mobilidade social, promovendo o diálogo entre uma bibliografia específica e um trabalho de pesquisa baseado na leitura de fontes constituídas por processos de Habilitação Sacerdotal, cujos depoimentos visavam atestar as origens do habilitando, os seus bons costumes e suas condições materiais para pleitear o cargo, mostrando que a qualidade dos depoentes era fundamental para a boa consecução dos intentos do ordinando.

Marca do pecado e remissão

Tendo em vista a importância da Igreja Católica no contexto do Antigo Regime, é importante relacioná-la com o sistema escravista que se impôs no Brasil colonial. Tal sistema pode ser entendido a partir de duas perspectivas diferentes sobre a escravidão e que se unem durante a modernidade, construindo um novo discurso de legitimação para o escravismo.

Desde Platão, que a filosofia passou a encarar a escravidão como um destino natural para “o outro” ou para o bárbaro, por serem estes considerados grupos inferiores marcados para o exercício do cativeiro, em detrimento de outros que eram naturalmente marcados para o governo. Ou seja, a escravidão aí não se distingue, ainda, por um caráter biológico. No século IV, este discurso ganhou uma releitura de Santo Agostinho que o inseriu na lógica cristã, associando a escravidão como uma das formas de punição do pecado. Acreditava-se que a Igreja seria a mediadora da oportunidade do homem se redimir perante Deus, superando o pecado através de um comportamento ético cristão. Logo, a naturalidade da escravidão (vista pela filosofia platônica) poderia, agora, ser redimida através da submissão à Igreja Cristã.

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4 A partir da Idade Moderna a leitura cristã sobre a naturalidade da escravidão somou-se a uma visão construída em fins da Idade Média que identificava os africanos como os descendentes de Cam, o filho que teria zombado da nudez de Noé e, por isso, recebido uma maldição, determinando que seus filhos seriam “os servos dos servos”, o que foi traduzido como escravos. Estes descendentes teriam povoado a região, que hoje, constitui a África e, por isso, esta região estaria atrelada a uma imagem negativa em relação à ética divina representada pela figura de um dos patriarcas do Antigo Testamento. Deste modo, seguindo a linha de raciocínio iniciada por Santo Agostinho a escravidão dos africanos aparecia como uma punição ao pecado cometido por Cam que recaíra sobre os seus descendentes.

Teorizando esta ideia incorporada pela Igreja, defendia-se que a escravidão seria uma forma de redimir os pecados trazidos por esta linhagem. Inclusive, esta mentalidade foi transferida para as colônias portuguesas na América, a ponto de o Padre Antonio Vieira afirmar que os africanos e seus descendentes deveriam agradecer pelo fato de terem sido transferidos da África para o Brasil, pois, ao mesmo tempo em que estavam sendo castigados, tinham a oportunidade de se redimirem dos seus pecados através da servidão.

Na segunda metade do século XVII, a população escrava já compunha o maior contingente populacional da América portuguesa e, proporcionalmente, uma maior quantidade de alforriados. Este fato conjugado com uma mentalidade de Antigo Regime, onde o trabalho é um fator de desprestígio social, em detrimento da inteligência e do ócio, torna a escravidão a desonra total. Este anseio pelo afastamento do mundo do trabalho criou, então, uma necessidade de formação de novas segmentações que foram classificadas a partir da denominação de cores que mudavam de acordo com a distância que se mantinha em relação ao trabalho. Logo, as alforrias e as novas segmentações são indicativos de processos que comprovam a existência de uma mobilidade social que, como será visto adiante, não se constituíam em casos individuais, mas se inseriam dentro de uma lógica estrutural hierárquica mais ampla.

Este maior contingente de escravos também teve como consequência uma necessidade de formas de controle para as rebeliões que eram cada vez mais recorrentes

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5 e que, não necessariamente, seriam abafadas por intermédio da violência. O papel da Igreja neste momento é muito importante, pois é a partir da religião que também se construirão ferramentas ideológicas de apaziguamento dos escravos sem que o uso do sistema repressivo fosse constantemente acionado, onde a instituição funcionava como mediadora entre Deus e o pecador. A Contra Reforma também foi importante neste sentido, pois ajudou a criar a ideia de culpabilidade, onde a salvação estaria no reconhecimento dos limites da consciência humana impostos por aqueles que representavam o poder, legitimando, assim, a submissão: a hierarquia devia ser mantida, pois os homens eram naturalmente desiguais, e negar a hierarquia era questionar o processo divino.

Esta especificidade no caso brasileiro teve como um dos seus desdobramentos a promulgação das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, que, além de outros aspectos de normatização da vida religiosa, tinha uma firme preocupação com o doutrinamento cristão dos negros. Algumas ordens religiosas passaram a investir em um projeto “escravista cristão”, segundo a denominação de Ronaldo Vainfas (VAINFAS; 1986). Franciscanos e carmelitas, por exemplo, disputam seu posicionamento diante da Igreja Católica através do alcance de seus projetos. A Ordem do Carmo chegou a criar a tradição do culto aos santos pretos Elesbão e Efigênia, caracterizados como guerreiros em prol de questões religiosas em território africano, virtuosos, por isso, em sua essência, mas que eram da cor preta por um “defeito”. A intenção era que estes fossem tomados como exemplos de honra e ética para os negros e que eles se posicionassem, assim, pela causa cristã (OLIVEIRA; 2008). Constata-se, então, que o “defeito da cor” não pode ser encarado segundo a visão de raça cientificista do século XIX, mas como um discurso moral de superação pela via cristã.

A conversão dos escravos, como forma de expandir a sociedade cristã, teve suas peculiaridades em se tratando da difusão dos sacramentos na América portuguesa, principalmente em relação ao matrimônio, batismo e ordenação. Tratando precisamente a ordenação, vê-se que, por ser uma carreira ligada ao Estado, esta exigia uma quantidade maior de requisitos, sendo a principal delas a alforria, ou seja, a mudança de condição do escravo para liberto, o que implica numa certa mobilidade social. Por conta

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6 disso, a ordenação não foi demasiadamente abrangente, já que além da liberdade, exigiam-se altos custos para a preparação do ordinando, além da inserção deste numa rede que fosse capaz de comprovar o afastamento deste negro do mundo do trabalho e as circunstâncias morais e materiais que lhe deram a aptidão para o ofício clerical.

Ordenação e redes de sociabilidade

Para exemplificar um caso de ordenação dentro deste matiz, analisarei o processo de Habilitação de José dos Santos, o qual trabalho atualmente em minha pesquisa.

Em 16 de junho de 1803 na cidade do Rio de Janeiro, este homem, filho natural do Capitão Comandante José dos Santos Teixeira e de Anna Maria, todos pretos forros e batizados na freguesia da Candelária, entregou uma petição ao Ajudante da Câmara Eclesiástica, Luis Mendes dos Reis Gonzaga, para requerer seu processo de ordenação. Dizia ter vocação para o sacerdócio e, para tal, se dedicara aos estudos de Latim, Retórica e Filosofia. Visto o comportamento e as intenções do impetrante, o Padre Pio Sétimo, por meio de um Breve Apostólico, ordenou ao Muito Reverendo Doutor Francisco Gomes Villasboas, provisor do bispado, para dispensá-lo do “defeito da cor”, a fim de favorecer suas virtudes e merecimentos.

Tomando como base a biografia do Padre José Maurício, analisada pelo professor Anderson José Machado de Oliveira (OLIVEIRA; 2011), é possível depreender que o processo de ordenação de José dos Santos, dependerá de um conjunto de testemunhas com papel significativo na construção de uma legitimidade social advinda de laços construídos ao longo de gerações, e que o leve à dispensa requerida. Neste processo são mobilizadas algumas testemunhas (dois alfaiates, um tenente, um dono de armazém, um lavrante, um carpinteiro, além do clérigo responsável pelo batismo do impetrante, entre outros) que declararam conhecer Jozé dos Santos desde criança, conhecerem seus pais e avós, e que nenhum deles havia cumprido com alguma heresia, infâmia pública ou crime de lesa Majestade, e, além disso, comprovaram a alforria dos pais do habilitando, o que o distanciava, mesmo que parcialmente, do mundo do trabalho associado diretamente à escravidão.

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7 De um ponto de vista comparativo, Jozé dos Santos representaria um exemplo de trajetória que teria saído do determinismo gerado por suas circunstâncias (e diversas vezes expressado pela historiografia) e entrado para uma hierarquia superior, agora reconstruída, diante dos demais descendentes de africanos que não são ordenados. Além dos ofícios urbanos, como alfaiate, lavrante e carpinteiro, particularmente algumas profissões possuíam status que demonstravam o “compadrio” resultado de laços bem estabelecidos na alta sociedade, o que era um grande diferencial para quem desejava apagar a marca do cativeiro, construindo, assim, uma nova identidade. Logo, as testemunhas não são escolhidas arbitrariamente, mas são qualificadas de modo que deem posicionamento a José dos Santos, neste caso, frente aos olhos da sociedade elitista. A escolha do Tenente Joaquim Francisco da Cruz como testemunha, por exemplo, representa a boa reputação não só de José, mas de seus pais (já que o dito tenente também os conhecia) diante de uma autoridade militar.

É justamente neste sentido que as concepções de redes de sociabilidade do artigo de Michel Bertrand (BERTRAND; 2009) colocarão a família dentro de um contexto mais amplo, ou seja, para além do fator de consanguinidade e incluindo uma rede muito maior baseada nas conjunturas sociais daqueles indivíduos e analisando suas estratégias em busca de um novo significado no âmbito social. Este artigo estuda a complexidade das redes humanas partindo do nível micro, possibilitando uma visão holística de como funciona um determinado grupo social. Estes laços seriam capazes de superar possíveis impedimentos ou rivalidades, partindo das relações familiares, mas não excluindo aos demais que os cercam, gerando assim, efeitos de flexibilidade e certa estabilidade a quem é favorecido.

Já no artigo Mobilidade social nas carreiras eclesiásticas em Portugal

(1500-1820), Fernanda Olival e Nuno Gonçalo Monteiro mostrarão as formas de acesso às

carreiras eclesiásticas, bem como as exigências mais comuns para alcance do mesmo, tal como dotes, processos de limpeza de sangue, e, principalmente após o século XVI, os processos de genere, que visavam analisar a legitimidade da ascendência dos habilitandos. Também era necessário que o habilitando tivesse uma sustentação sólida

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8 em relação a patrimônios, vinculando-os ao processo de ordenação num sistema de dotes que dava uma expectativa de retornos simbólicos e não materiais. No caso de José dos Santos, o fato de testemunhar a favor de seu batismo Dom Alexandre Fidele de Araujo, por exemplo, legitima o posicionamento do impetrante dentro dos sacramentos cristãos um representante significativo do clero, o que é mostrado como característica estrutural, neste artigo, aplicada em outras situações.

Mesmo não constituindo casos homogêneos, nota-se que a mobilidade individual rumo ao sacerdócio em sua maioria era conduzida pelos valores ligados aos grupos de parentesco através de um processo geracional. Este fator gerava uma mutualidade, de modo que é comum encontrar casos de ascensão de famílias respaldadas nos benefícios adquiridos por seus filhos. Baseado nisto, fica mais claro entender como o processo de alforria dos pais do habilitando José dos Santos facilitaram seu encaminhamento à ordenação e como sua própria ordenação serviu para legitimar o distanciamento da família para com os laços escravistas.

Considerações Finais

O caso de José dos Santos é um dentre vários que retrata de que forma a Igreja Católica inserida na mentalidade do Antigo Regime - e que, por conta disso, trazia como herança um discurso de legitimação religiosa para o escravismo formulada na Idade Média - deixou como legado uma nova visibilidade em relação às concepções raciais ou étnicas. Estas novas concepções tiveram como consequência não só uma nova forma de encarar a dinâmica das mobilidades no quadro da sociedade colonial, mas deixou claro como esta dinâmica foi feita sem que se ameaçasse a ordem imposta pela hierarquia moderna.

Até então a historiografia produziu material relevante para se entender a dinâmica social nos quadros clericais e mesmo envolvendo a entrada de negros neste contexto. Mas é preciso enxergar este quadro não como formas individualizadas ou simples exceções à regra, mas dentro deste quadro mais amplo que envolve sua lógica

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9 estrutural de forma complexa através da formação dos laços que envolviam não só o interesse de uma pessoa, mas de toda uma rede.

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Referências

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