EDUCAÇÃO E O CAPITALISMO DO SÉCULO XXI 1

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Anais da

Semana de Pedagogia da UEM

ISSN Online: 2316-9435 XX Semana de Pedagogia da UEM

VIII Encontro de Pesquisa em Educação / I Jornada Parfor

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EDUCAÇÃO E O CAPITALISMO DO SÉCULO XXI1

SILVA, Ana Paula Rosa da anap.viana@hotmail.com LARA, Angela Mara de Barros (Orientadora) angelalara@ymail.com Universidade Estadual de Maringá (UEM) Políticas educacionais e gestão escolar

INTRODUÇÃO

O presente artigo brevemente apresenta a educação no contexto do desenvolvimento do capitalismo. Considerando que, por meio do estudo do materialismo histórico, a educação se configura socialmente com o processo de trabalho enquanto condição humanizadora. Porém, com a presença da sociedade de classe, ou seja, a presença da sociedade burguesa e capitalista a educação é vista como algo reprodutivo do capital.

No século XVIII, o capital se desenvolveu mais intensamente com a Revolução Industrial. A classe trabalhadora também seguiu essa linha de raciocínio, porém com um diferencial, a

[...] classe de trabalhadores, que vive somente enquanto encontra trabalho e que só encontra trabalho enquanto seu labor aumenta o capital. Estes trabalhadores, que precisam vender a si próprios aos poucos, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio, e são por consequência, expostos a todas as vicissitudes da competição, a todas as flutuações do mercado (MARX; ENGELS, 1998, p. 20).

Constata-se, nesse excerto a interdependência do capital com relação ao trabalhador. A sobrevivência dos trabalhadores segue rumo à necessidade do capital, sendo consequentemente explorados e massificados por esse poder. Isso explica que, com o desenvolvimento do capital, a sociedade necessitou também de educação, pois o capital não pode reproduzir-se, sem que os trabalhadores tivessem o conhecimento mínimo para exercerem suas atividades.

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Trabalho resultante da pesquisa de iniciação científica (PIBIC/UEM/2012-2013), intitulada por “A equidade como orientação política para o financiamento da educação no Brasil: uma análise da atuação do Instituto Internacional de Planejamento Educacional (IIPE)”.

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Em decorrência desse processo de mudança na sociedade, às transformações ocorridas no período da revolução industrial dos séculos XVIII ao XIX, verificou-se uma excessiva produção, tendo como princípio o acúmulo de capital. O trabalhador tinha de exercer atividades para sua sobrevivência, de tal modo que vendia por meio de um contrato, sua força de trabalho ao capitalista.

Saviani (2007) esclarece que as relações entre trabalhador e capitalista eram desiguais, sendo que a condição de igualdade estava em termos jurídicos e, não, na condição econômico-social. Nesse contexto, educação era, portanto, limitada e também desigual, pois deveria ser orientada para o desenvolvimento da indústria moderna. Como consequência desse modo de produção, reduziram-se as necessidades de qualificação específicas no ensino aos alunos. Bastava os mesmos terem um conhecimento prévio, para poderem manusear as máquinas. Deveriam assim, ter conhecimento da cultura do alfabeto bem como utilizá-lo, uma vez que, na produção tal aprendizado seria essencial para o trabalho.

Na metade do século XIX e início do século XX, as relações sociais se converteram em relação de exploração. Por meio dessa relação, houve a exploração da valia. A mais-valia foi o trabalho não pago. O trabalhador exerceu sua função produzindo mais-mais-valia em prol do capital. Desse modo, o capitalista teve um lucro, teve um excedente do trabalho alheio.

O processo de desenvolvimento do capitalismo no final do século XX marcou e ainda é perceptível no século XXI, com a presença predominante do neoliberalismo, doutrina político-econômica e tem como preponderância “[...] despolitizar a educação, dando-lhe um novo significado como mercadoria para garantir, assim, o triunfo de suas estratégias mercantilizantes”. A educação nesse momento tem vestígios dos séculos anteriores, os quais visualizavam a educação como um campo de atividade articulada ao mundo da produção. (GENTILI, 2007, p. 245).

Desse modo, o entendimento da educação articulada ao capitalismo segue uma trajetória histórica conforme descrita acima, a qual fornece uma visão dos movimentos contraditórios presentes na sociedade. Antagonismo, que elege uma minoria burguesa, marginaliza e massifica a maioria dos trabalhadores em virtude dos anseios lucrativos capitalistas.

DESENVOLVIMENTO

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Em relação ao capitalismo, é essencial entender o que vem a ser esse termo no seu sentido mais estrito. Capitalismo, diz respeito, a um sistema socioeconômico com predomínio de capital, na qual há a presença de meios de produção sob poder de sociedades privadas ou ainda por domínio de particulares. “O capital é o sangue que flui através do corpo político de todas as sociedades que chamamos de capitalistas” (HARVEY, 2011, p. 7).

Os capitalistas são aqueles que põem em movimento, o fluxo de capital e cada um destes, segundo Harvey (2011), apresentam identidades diversificadas. Há àqueles que investem em emprestar dinheiro obtendo com o tempo certo lucro; outros buscam comprar barato e vender mais caro para ter seu lucro e, assim, por diante, cada qual dos distintos capitalistas exercem maneiras diferentes de investir no capital.

Desde século XVIII que a circulação de capital exerce influência investidora, o qual teve a priori com o desenvolvimento da indústria, no entanto, quando trazemos esse processo para o século XXI, é nesse momento que há maior intensificação no movimento da acumulação e circulação de capital.

Buscar explicações para os problemas que o capitalismo exerce na contemporaneidade é algo relevante dessa discussão, considerando que, desde o final do século XX, havia apologistas que pronunciavam o ‘século americano’. Então, os defensores do capitalismo alegavam que não somente o século XXI bem como todo o milênio, estava prestes às regras da ‘Pax Americana2’.

Mészáros (2003) apresenta os problemas que o capitalismo exerce na sociedade contemporânea, ressaltando suas contradições que são características marcantes, entre capital e trabalho. O autor defende a ideia de que as marcas do capital são perigosas pelo fato de seus investidores diante de sua obcessão pelo poder, colocar em risco a própria sobrevivência da humanidade. No percurso de suas explicações, o citado autor menciona Karl Marx3, cita um dos defensores do capital como Walt Rostow4, aponta as ideias de Rosa Luxemburgo 5entre outros para melhor demonstrar sua tese sobre o sistema do capital.

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Expressão utilizada por Mészáros para explicar a defesa dos acríticos glorificando às regras americana para o próximo milênio ( p. 15).

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Filósofo que nasceu no dia 5 de maio de 1818 em Trier, na Renânia, província da Prússia. Tinha intenção de coletivizar riquezas e distribuir justiça social. Faleceu no dia 14 de março de 1883.

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Segundo Mészáros (2003) Walt Rostow foi um dos piores defensores do capital. Defendia juntamente com os burgueses capitalistas que o desenvolvimento dos países de terceiro mundo (atual países periféricos) chegaria ao mesmo patamar dos países desenvolvidos, se os mesmos seguissem os padrões políticos desses países desenvolvidos.

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De origem Polonesa, Rosa Luxemburgo nasceu em 1871. Foi representante do pensamento e ação social democrata na Europa. Pertenceu ao grupo das minorias por ser judia e por ser mulher auto-determinada. Lutava pela sociedade socialista por acreditar que essa sociedade permitia a vivência humana em comunidade. Foi assassinada em 1919. Acredita-se que quem a assassinou estava do lado político de Adolf Hitler.

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Ao exibir o sistema do capital e para revelar as contradições do poder entre capital e trabalho, são exemplificados alguns dos antagonismos presentes na sociedade contemporânea como “competição e monopólio, [...], expansão do emprego e geração do desemprego, [...], crescimento da produção a todo custo e a concomitante destruição ambiental [...]” (MÉSZÁROS, 2003, p. 19-20). A este respeito, Mészáros (2003) explica que diante desses e outros fatos é impossível resolver as contradições sem ao menos controlar o metabolismo do capital, porque a obsessão pelo poder e as contrariedades são marcas do capitalismo excludente. Para o capitalista, a realização do capital está relacionada ao consumo e destruição. Assim, uma leitura mais crítica sobre isso, verifica-se o problema de desperdício, juntamente com as tendências destrutivas, principalmente com relação ao meio ambiente. Além dessa questão, tem também o desemprego crônico.

Segundo Mészáros (2003) o desemprego crônico foi um desemprego estrutural. Nesse contexto os nãos críticos do capital, defendiam que o desemprego não tinha nada a ver com sistema capitalista. Contudo, “o desenvolvimento da fase ascendente do capital trouxe consigo a expansão intensiva do emprego, que hoje dá lugar à perigosa tendência ao desemprego crônico” (MÉSZÁROS, 2003, p.26), pois não há lugar para todos no mercado de trabalho e como consequência é exigido competitividade para garantir um espaço nesse mercado. E, tanto trabalhadores dos países centrais, quanto dos periféricos que estejam empregados passam por explorações de “sobretrabalho como mais valia” (MÉSZÁROS, 2003, p. 28, grifos do autor). Com relação a mais valia, Marx e Engels (1998) explicam que o trabalhador é explorado pelo fabricante, e a partir disso, o empresário obtém certo lucro do trabalho não pago. Desse modo, verifica-se a discrepância da burguesia para com a sociedade trabalhadora, tendo em vista sempre, seus únicos objetivos, obter lucro do trabalho alheio, exigindo destes uma formação mínima para ingressar nesse mercado excludente e flexível diante de um mundo inovador e em desenvolvimento.

Mészáros (2003) aponta um elemento discursado pelos burgueses capitalistas: que é a modernização e o desenvolvimento. Essas inovações chegariam aos países periféricos, desde que seguissem os padrões políticos proclamados pela elite. Isso foi acarretado para que não houvesse nenhum movimento revolucionário que consequentemente causariam problemas para os capitalistas. Nesse sentido, a modernização deveria ser utilizada por toda parte inclusive pelas “democracias Ocidentais” (MÉSZÁROS, 2003, p.25).

A valorização da modernização e desenvolvimento dos países estabeleceu uma relação entre o capital e o Estado conhecido como hibridização. Mészáros (2003) esclarece que isso não ocorre somente em países subdesenvolvidos (atualmente declarados como países

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periféricos), mas inclusive em países desenvolvidos (atual países centrais). E, a principal dimensão, é o envolvimento direto e indireto do Estado na “reprodução do metabolismo social do capital” (MÉSZÁROS, 2003, p.29). Como resultado dessa questão, verifica-se uma “ajuda externa6”, da qual o capital atual depende. Além disso, com a demanda oferecida do Estado para favorecer ao capital, a crise estrutural do sistema presente é resultante dessa ajuda externa, que devido às contradições reproduz a insuficiência do Estado e do capital.

Até mesmo quando Marx e Engels escreveram em 1845 e 1846 a Ideologia Alemã, pode-se perceber a ‘hibridização’ que Mészáros (2003) pontua. Naquele tempo, quando a propriedade privada se emancipou em relação à comunidade, o Estado adquiriu uma nova existência particular, ou seja, ele se organizou tanto interior como exteriormente para a garantia da propriedade burguesa e seus interesses mercantilizantes.

Com relação a globalização do capital no domínio econômico e a dominação dos Estados nacionais como ordem estabelecida, Mészáros (2003), vem pontuar a importância em se fazer uma reflexão crítica sobre o imperialismo globalizado, pois para os acríticos, os interesses imperialistas dos Estados Unidos EUA (principalmente), são vistos como uma panaceia. Isso é demonstrado pelo discurso da democracia multipartidária, pela defesa dos direitos humanos, pelo mercado livre e pluralismo. Os resultados disso são falaciosos, pois no mundo do capital não há nada que considere a igualdade como algo importante na sociedade. Nesta perspectiva discursada pelos EUA há uma contrariedade, porque a lógica desse domínio imperialista é manter as ordens hierarquizantes estruturais em que sempre “favorecem o mais forte no seu impulso para engolir o mais fraco” (MÉSZÁROS, 2003, p. 46).

Segundo Mészáros (2003) essa realidade carrega uma influência marcada pela história do imperialismo que teve três fases distintas. O primeiro foi o imperialismo colonial criado pela expansão de alguns países da Europa, o segundo foi o imperialismo redistributivista, chamado também por estágio supremo do capitalismo, contrário às principais potências do mundo e a favor de suas empresas “quase-monopolistas” (MÉSZÁROS, 2003, p.72) e, por fim, o terceiro, visto na atualidade, o imperialismo global hegemônico, no qual os EUA tem total domínio e poder, para presidir globalmente.

Conforme afirmam Marx e Engels (1998), a sociedade sempre viveu e se desenvolveu antagonicamente, mesmo sendo elas, de formas diferentes e épocas diferentes. No entanto, um fato é comum a todas essas sociedades passadas, “[...] a saber, a exploração de uma parte da

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sociedade pela outra” (MARX; ENGELS, 1998, p. 43). Ou seja, “parte” da sociedade é explorada em detrimento de outra minoria dominante.

O lucro que os capitalistas (minoria dominante) visam, englobam também, as atividades de pesquisas voltadas para a biotecnologia e clonagem. Essas atividades são segundo Mészáros (2003), dimensões da autodestruição da humanidade, em virtude das leis do capital. Trata-se, enfim, das armas nucleares, químicas e biológicas que são produzidas para satisfazer a vontade de uma minoria poderosa, voltada para o controle da política e da economia. O arsenal nuclear se intensificou e atualmente, além da arma nuclear, tem também as “armas químicas e biológicas para extermínio de massa” (MÉSZÁROS, 2003, p. 87) para serem usadas, caso haja alguma ameaça ao poder do capital. Junto a isso, presencia-se a destruição do meio ambiente entre outros males, a serviço do mesmo capital.

Mészáros (2003) reforça também que, os problemas acima citados, são perigos para a humanidade, e os mesmos podem ser controlados e até derrotados, caso venha ter um movimento socialista em massa, para lutar contra a autodestruição da própria humanidade.

Se o proletariado se eleva em uma luta contra a burguesia e, na condição de classe dominante, tira de cena antigas relações de produção, então, com isto, ele tira também de cena a condição para a própria existência da oposição entre as classes e a própria existência dessas classes. E acaba por abolir o papel de classe dominante (MARX; ENGELS, 1998, p. 45).

Entende-se que, para que haja esse movimento de luta contra a burguesia é necessário a sociedade como um todo, ter esclarecido a importância do saber, do conhecer sua essência, isto é, revindicar seus direitos de seres humanos. Tendo todos, os mesmos direitos, sem exploração, sem elevação de uns e menosprezo de outros.

Certamente, o que Marx e Engels (1998) e juntamente seus seguidores, como Mészáros (2003), defendem, é a importância de envolver por completo a sociedade e a educação. Como a sociedade é dividida em classe, o que está em torno dela também é fragmentado. Assim, a sociedade para abolir as diferenças presentes entre as classes, deve associar-se a educação. Ter a formação humanizadora defendida por Marx, assegurando à formação intelectual e a produção como meio de melhoras, libertação para todos, pois tudo que a ciência buscou produzir seria para beneficiar a humanidade, no entanto, o que prevalece é o benefício de uma pequena parcela da sociedade.

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Busca-se, por certo, ter uma educação que abra as mentes humanas. Que se tenha uma educação plena, embora, não seja fácil eliminar a sociedade classista que se apresenta na contemporaneidade. No entanto, sabe-se que é por meio da educação e de sua emancipação no contexto social, é que favorecerá essa virtude humanizadora.

A sociedade é a expressão da história por ela desenvolvida, e quando há essa compreensão da historicidade humana, estabelecida por meio do seu trabalho, é que há a educação. Com o advento da sociedade de classe, porém, verifica-se que o trabalho e a educação são distanciados, em virtude de uma lucratividade do mercado industrial.

Esse mercado (capital) acaba tendo poderes de dominar a maioria da sociedade, pois detém capitais para comprar e vender suas mercadorias. Assim desvirtua o homem, o qual vende sua força de trabalho em troca de um salário, caracterizado pela competitividade, flexibilidade e exclusão.

Na tentativa de sempre se expandir, esse capital tem a capacidade de eliminar vidas, acabar com a natureza e consequentemente com a espécie humana, por causa de sua ganância. Então, esse capitalismo esboçado no presente artigo, é articulado a uma relação de dominantes e de dominados, conforme apresenta Marx e Engels (1998). Para que seja efetivamente eliminada essa calamidade, cabe ter uma prática educacional que permita o acesso do saber historicamente produzido pela humanidade, ou seja, tudo que se tem produzido como meio facilitador do trabalho do homem como a ciência (saúde, tecnologia), seja de usufruo de todos e não de uma parcela.

REFERÊNCIAS

FUNDAÇÃO ROSA LUXEMBURGO. Sobre Rosa Luxemburgo. Bancos de dados. Disponível em: <http://www.rls.org.br/sobre-rosa-luxemburg>. Acesso em: 20 ago. 2013. GENTILI, Pablo. Adeus à escola pública: a desordem neoliberal, a violência do mercado e o destino da educação das maiorias. In:__ APPLE, M. W. [et al.]; GENTILI, P. (Org.). Pedagogia da exclusão: o neoliberalismo e a crise da escola pública. Petrópolis: Vozes, 2007. p.228- 250.

HARVEY, David. O Enigma do capital: e as crises do capitalismo. Trad. João Alexandre Peschanski. São Paulo: Boitempo, 2011.

SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 12, n. 34, jan./abr. 2007. p. 152-180.

MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia Alemã: I- Feuerbach. 10ª. ed. Tradução de José Carlos Bruni e Marco Aurélio Nogueira, São Paulo: Editora Hucitec, 1996, p. 97-98.

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MARX, K.; ENGELS, F. O manifesto comunista. Tradução de Maria Lucia Como, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, p. 9-45.

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