Antropologia da saúde

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Pessoa e dor no Ocidente (o “holismo metodológico” na Antropologia da Saúde e Doença).

Pessoa e dor no Ocidente (o “holismo metodológico” na Antropologia da Saúde e Doença).

Embora muitos textos clássicos encaminhassem aproximações a temas que foram particularmente desenvolvidos dentro do novo campo (sobretudo Evans-Pritchard e seu tratamento da questão da causalidade), a antropologia da saúde / doença teve que reconstruir por sua própria conta e sobre os seus próprios materiais as polêmicas que antes haviam atiçado as áreas mais tradi- cionais do parentesco, da religião, da organização política ou da sexualidade. Podemos reconhecer nesse trabalho, assim, um primeiro período (dos anos 1960 aos 1980) em que prevaleceu linearmente a luta em torno da oposição “natureza X cultura” com a progressiva afi rmação da posição “construtivista” ou “nominalista” sobre o objetivismo/realismo associado à Biomedicina. Um segundo período, iniciado na década de 80, transpõe a luta para o eixo “cultura X experiência individual”, espelhando a generalizada infl uência das posições neo-românticas. Neste novo plano, a ênfase na “experiência” e a expectativa de recuperação do caráter de “totalidade” com que se impõe ao humano impli- ca a busca da superação das dicotomias entre razão/emoção ou corpo/espírito (cf. os exemplos típicos, ainda que um tanto aleatórios, de Rosaldo, 1984; Scheper-Hughes; Lock, 1987, e Good et al., 1992). Curiosamente o “corpo” volta assim ao primeiro plano, mas não mais apenas como o organismo natural determinante: ele é agora o ente de controvertido estatuto que serve de palco ativo da “experiência” ou “vivência” dos sujeitos.
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Novos objetos e novos desafios para a antropologia da saúde na contemporaneidade.

Novos objetos e novos desafios para a antropologia da saúde na contemporaneidade.

Procuramos discutir aqui alguns dos desafios que se apresentam para a antropologia da saúde na contemporaneidade. A subdisciplina nos parece chamada a se expandir nos próximos anos em redes temáticas ao redor dos dois grandes eixos centrais apresentados neste trabalho: por um lado, as redefinições da doença e da saúde ligadas aos avanços da biologia molecular, da genômica, o desenvolvimento das biotecnologias e a forma como o corpo humano é construído, transformado e redefinido como locus da gestão do risco e da incerteza. Por outro, no contexto cada vez mais complexo, globalizado e desigual em que estamos vivendo, a saúde deve ser entendida em sua dimensão mais ampla, de política de saúde, abordando temáticas centrais como os determinantes sociais da saúde, os acordos transnacionais de recursos tecnológicos, financeiros, políticos, de governança e mídia, através de novas abordagens de pesquisa de natureza transdisciplinar. As questões emergentes em um mundo globalizado tornam necessária uma abordagem antropológica igualmente mais global, no qual o processo saúde- doença deve ser analisado, cada vez mais dentro de um conjunto complexo de políticas econômicas, de relações internacionais e de mobilidade de populações.
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Antropologia da saúde, psiquiatria transcultural e etnopsiquiatria — considerações teóricas

Antropologia da saúde, psiquiatria transcultural e etnopsiquiatria — considerações teóricas

Em termos conclusivos, é-nos possível compreender que o quadro de análise apresentado pela antropologia da saúde (em geral) — na qual procura “relativizar” pelo seu pressuposto base do sujeito inscrito numa continuidade sociocultural, os contornos estanques da compreensão do padecer mental, esta ancorada a uma forma de saúde e doença, independentemente das narrativas individuais trazidas para o encontro clínico — pode oferecer significativamente postulados importantes nas conceptualizações da psiquiatria moderna. Todas estas questões merecem relevância no campo dos saberes médicos e psicológicos, nomeadamente – aqui em termos práticos – na consolidação de savoir-faires com a população em trânsito migra- tório (voluntário ou forçado). A antropologia da saúde tem movimentado saberes fundamentais nas formas de compreender a saúde e doença, padecer mental e a arte de curar,
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Os estudos de antropologia da saúde/doença no Brasil na década de 1990.

Os estudos de antropologia da saúde/doença no Brasil na década de 1990.

A pluralidade e heterogeneidade nas diver- sas orien tações teóricas e m etodológicas são visíveis e reportadas pelos organizadores e co- m en taristas das várias coletân eas produ zidas n o assun to. Não se trata de um a ún ica an tro- pologia, mas de várias orientações teóricas, que ora bebem nas fontes de autores franceses, ora nos norte-am ericanos, ora nos autores nacio- nais, sinalizando, por um lado, as múltiplas pos- sibilidades de apreen são dos objetos etn ográ- ficos e, por outro, refletem bem as peculiari- dades da an tropologia feita en tre n ós. Apesar de ela preocupar-se com a sociedade nacional, não deixa de ser universal, como antropologia, na interlocução com seus ancestrais e diferen - tes vocações internacionais, sofrendo contudo tran sform ações n a “periferia” (Oliveira, 1994a).
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O ensino de Antropologia da Saúde na graduação: uma experiência.

O ensino de Antropologia da Saúde na graduação: uma experiência.

Mas nada disso deve fazer-nos esquecer das dificuldades aqui tantas vezes anunciadas e que também permeiam todo o trabalho e todo o percurso da disciplina, seja qual for a escolha temática de se- minários e pesquisa. Afinal, a crença na ciência, na biomedicina, na tecnologia, no profissional de saúde, é difícil de abandonar e, mais ainda, a possibilidade de entender o outro em sua alteridade, difícil de abra- çar. De fato, momentos de maior paz fazem ver que a tarefa da disciplina ainda não foi cumprida – quando os alunos não reagem às provocações da diferença cultural e da alteridade na maior parte das vezes não é porque as aceitaram, mas porque não as puderam alcançar e compreender. Essa dificuldade, claro, não tem nada de cognitiva – tem a ver com o que se falava acima, da facilidade aparente em aceitar as diferen- ças no mundo contemporâneo. Assim, depoimentos bem-intencionados em aula remetem às diferenças em práticas e concepções de saúde, terapêuticas e cuidados a classes sociais, escolaridade, diferenças geracionais ou de contextos socioeconômicos. Essa “sociologização” da explicação acaba por anular a diversidade e, no limite, recoloca ao profissional de saúde sua missão civilizatória e humanitária de normatizar práticas e corpos e de esclarecer.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO SÓCIO-ECONÔMICO DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO SÓCIO-ECONÔMICO DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

No item 3 procuramos refletir a Loucura como uma questão de Saúde. Para tal nos embasamos na perspectiva da Antropologia da Saúde, embasada em um conceito ampliado que entende os process[r]

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Hist. cienc. saudeManguinhos  vol.21 número1

Hist. cienc. saudeManguinhos vol.21 número1

As pesquisas no campo da saúde, incluindo-se até aquelas no terreno das ciências sociais e humanas (a antropologia da saúde, a história da saúde etc.), tornaram-se objeto de intrincado e inaceitável processo de avaliação pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs), ligados à Conep. Suas normas classificam as pesquisas de nossas áreas dentro da mesma linha rígida das ciências biomédicas, como se fossem estudos clínicos, pesquisas sobre genética, uso de placebo ou experimentos laboratoriais com humanos. O CNS criou em 2011 a chamada Plataforma Brasil, base de dados que exige o registro de pesquisas “envolvendo
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Sociol. Antropol.  vol.4 número2

Sociol. Antropol. vol.4 número2

Na área da antropologia da saúde, encontramos desenvolvimentos sobre o conceito de itinerários terapêuticos, ora de um ponto de vista mais teórico visando à sua conceitualização como fenômeno complexo carregado de simbolizações múltiplas (Alves & Souza, 1999; Bonet et al., 2009), ora pro- curando descrever processos de busca de cuidado em contextos específicos, associados a grupos indígenas (Langdon, 1994), ou a classes sociais (Gerhardt, 2006; Trad et al., 2010), ou a instituições hospitalares do Sistema de Saúde Pública no Brasil (Pereira, 2008), ou associados a instituições religiosas (Ta- vares, 2012). Temos uma vasta produção sobre itinerários terapêuticos reali- zada no âmbito da saúde coletiva, mas, neste caso, com um interesse voltado para a produção de práticas avaliativas do sistema de saúde que integre a perspectiva do usuário (Costa et al., 2009; Bellato et al., 2009; Gerhardt et al., 2009); e ainda o já citado estudo (Cabral et al., 2011), no qual os autores tentam realizar um mapeamento da produção sobre o tema. 10
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O diálogo interdisciplinar na abordagem dos riscos: limites e possibilidades.

O diálogo interdisciplinar na abordagem dos riscos: limites e possibilidades.

A antropologia da saúde tem a tradição de bus- car compreender os significados que as doenças e os diferentes tipos de riscos representam para os grupos sociais. E o método etnográfico utilizado para alcançar esses significados atribui grande importância ao “olhar” e ao “ouvir” a população ou os grupos com os quais trabalha, o que correspon- de à primeira etapa do trabalho do antropólogo, a pesquisa empírica, fundamental para a apreensão dos fenômenos sociais (Oliveira, 1996). No caso das sociedades complexas, como a nossa, esse “olhar” e esse “ouvir”, baseados em teorias e métodos, dedi- cam-se ao exercício de compreensão da diversidade sociocultural dos diferentes grupos que a compõem – de grupos indígenas diversos às chamadas “tribos” urbanas juvenis. O que se busca com este trabalho é a compreensão da cultura do outro “de dentro”, através da observação participante, o que explica a necessidade de um tempo longo de pesquisa e, mes- mo que o método seja adaptado às necessidades dos projetos de saúde, ele não pode se reduzir à aplicação de simples técnicas de pesquisa.
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Os diálogos da antropologia com a saúde: contribuições para as políticas públicas.

Os diálogos da antropologia com a saúde: contribuições para as políticas públicas.

Com base nessas premissas, os paradigmas atuais na antropologia da saúde procuram dar conta das diversas formas através das quais os mais variados sistemas terapêuticos são aciona- dos nos processos de saúde/doença. Procura-se ressaltar aspectos como a interação e a relacio- nalidade inerentes às práticas sociais. As práti- cas, os conceitos e as ações dos indivíduos que compõem os grupos sociais articulam-se na or- dem sociocosmológica, mas também se encon- tram ligados à reelaboração de diferentes aspec- tos do social. O enfoque no caráter relacional e nas múltiplas vozes que integram o cenário soci- al vincula-se a uma compreensão das relações sociais ligadas ao processo de saúde/doença como emergentes e dinâmicas. Ao mesmo tempo, a ênfase na perspectiva do ator social e em sua ca- pacidade de agência 79 aponta para o fato de que é
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Rev. Bras. Saude Mater. Infant.  vol.3 número3

Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.3 número3

tente grupo de antropologia da saúde da América do Sul), tendo como objetivos: 1) analisar aspectos quan- titativos sobre indicadores antropométricos de diag- nóstico da situação nutricional em mulheres/mães no município de São Luís e sua relação com a escolari- dade e a renda familiar e 2) analisar aspectos qualita- tivos quanto às percepções da desnutrição, da obesi- dade e da alimentação. Assim, a autora, tenta pro- duzir um saber que possa servir de instrumento aos profissionais de saúde e planejadores das ações e políticas públicas relacionadas às questões alimenta- res.
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Experiências formadoras dos Romeiros do Padim Ciço: entre a busca de cura, rezas e ritos

Experiências formadoras dos Romeiros do Padim Ciço: entre a busca de cura, rezas e ritos

Este estudo apresenta uma pesquisa etnográfica com o objetivo geral de descrever e compreender a experiência formadora do adoecer e da busca de cura dos romeiros em Juazeiro do Norte. A metodologia foi construída com a utilização de entrevista com os romeiros, diário de campo e observações. As narrativas foram gravadas e transcritas, sendo realizada leitura flutuante dos relatos de campo e observação, bem como das narrativas colhidas sendo codificadas e exploradas com leitura profunda, em busca exaustiva das similaridades entre os conteúdos. Desta forma, foi realizada a organização do corpus em função de dois temas norteadores, segundo a pertinência das discussões emergidas dos elementos comuns associados aos objetivos da pesquisa e das narrativas dos romeiros: as concepções e práticas na “experiência da doença e da busca de cura”, sendo esta categoria gradativamente depurada em seus significados e nas unidades de contexto como concepção de cura, fé, saúde, doença e aprendizagem com o alcance de cura. A segunda categoria, “os rituais na experiência da busca de cura”, foi referenciada por subcategorias: a relação profissional e o serviço de saúde-paciente, a performance de cura, o corpo como lugar de cura, o cenário de cura, os procedimentos utilizados na busca de cura e as indumentárias. Foi realizada a construção do relatório final sob o enfoque da antropologia da saúde, que permitiu a comparação do modelo biomédico de cura e a cura simbólica sobre a experiência de busca de cura dos romeiros; a construção do círculo de cura dos romeiros e os saberes e práticas em romaria; a discussão dos aspectos centrais do estudo como espiritualidade, religião, religiosidade popular e relação com a experiência do adoecer e a saúde. Por fim, a compreensão dos rituais como expressão transformativa e de aprendizagem e os saberes e práticas em romaria como elemento importante na construção do apoio social, da solidariedade e da fé que referencia a cura como uma relação pedagógica de troca de experiências e aprendizagens.
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A construção do conhecimento em Antropologia da Educação: levantamento, análise e reflexão de artigos publicados no Brasil

A construção do conhecimento em Antropologia da Educação: levantamento, análise e reflexão de artigos publicados no Brasil

A teoria da Antropologia Educacional Histórico-Cultural nesse momento contribui para exatamente refletir sobre alguns pontos dos quais a Antropologia da Educação no Brasil passa despercebido, como por exemplo: o estudo das cinco dimensões, dos paradigmas antropológicos, o estudo do ser humano ou do Homem, a compreensão da imagem do homem ideal e os impactos dessa imagem na educação, juntamente com o conceito de Educação. Esses pontos são negligenciados, porque, primeiro a Antropologia da Educação no Brasil é uma teorização antropológica e a Educação se resume à escolarização. Esses dois pontos, o da Antropologia da Educação que é uma Antropologia Escolar e o determinismo antropológico, levantados na reflexão imprimem a marca de uma Antropologia da Educação limitada e agarrada aos princípios antropológicos, deixando de lado os elementos teóricos e problemas da área da Educação. Nesse sentido, a Antropologia Educacional Histórico-Cultural traz debates teóricos para o campo da Antropologia da Educação no Brasil no sentido de provocar uma reflexão e são fundamentais para a compreensão e interpretação da Antropologia da Educação no Brasil.
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Do ponto de vista do sujeito da pesquisa: evento e cultura material em um comitê de ética em pesquisa

Do ponto de vista do sujeito da pesquisa: evento e cultura material em um comitê de ética em pesquisa

Essa mudança pode ser observada em duas circunstâncias distintas na história da disciplina. Em um primeiro momento, no caso inglês, a fundação do Association of Social Anthropology, em 1946, teve o intuito de separar a antropologia ‘pura’ e científica de uma aplicada e de ‘serviço’, e obter dessa forma a exclusão de não acadêmicos, como funcionários coloniais e missionários, que eram membros do Royal Anthropological Institute. A separação da antiga academia ligada ao colonialismo e a criação de uma associação científica de profissionais foi o mecanismo encontrado para a consagração da nova imagem científica e acadêmica da antropologia. E algumas décadas mais tarde, entre 1960 e 1970, têm-se um segundo momento a ser considerado com a ascensão tardia dos códigos de ética da antropologia nos Estados Unidos (PELS, 1999; 2000). Esses códigos incluem observações que atentam para um novo tipo de profissionalização do antropólogo que não se limita mais ao acadêmico e nem ao funcionário colonial ou missionário, mas em um novo tipo de profissional liberal formado em antropologia decorrente de um mercado acadêmico limitado, tanto no exterior (PELS, 1999) como no Brasil (OLIVEIRA, 2007). A proliferação de profissionais formados na disciplina resultou em antropólogos que não atuam mais em meios acadêmicos, e é para a atuação exclusiva fora da academia 58 que os novos códigos de ética proliferam.
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“Deixei o desenho enterrado” ou como ressuscitar o grafismo enquanto metodologia antropológica: um caso prático

“Deixei o desenho enterrado” ou como ressuscitar o grafismo enquanto metodologia antropológica: um caso prático

Quando iniciei a minha formação em antropologia essa última experiência estava ainda muito presente. Deitei praticamente tudo fora, reneguei que algum dia tivesse desenhado, es- culpido, pintado, porque me dava prazer, quis esquecer-me de que um dia ambicionara vir a en- trar nos círculos artísticos. Todavia, pendurei o meu último desenho na parede do meu quarto: uma figura antropozoomórfica, lúgubre e a preto e branco, em género de memória dolorosa do adeus. Tinha-se acabado. Porém, iria para antropologia avisada por uma professora de escultura, “o processo artístico tem tudo a ver com o processo etnográfico”, mas não acreditei que essa relação fosse simétrica. Na realidade a afirmação pareceu-me, na altura, perfeitamente irreal. Em antropologia, supunha, a arte estava de fora – metodologicamente, enquanto objeto, na minha conceção muito inicial do que se trataria a antropologia não existia qualquer espaço para a vertente artística. Estava “descansada”, nunca iria ter de me confrontar outra vez com algo que tinha “ultrapassado”. Até que “tropecei” na arte dentro da antropologia.
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Da aplicação à implicação na antropologia médica: leituras políticas, históricas e narrativas do mundo do adoecimento e da saúde.

Da aplicação à implicação na antropologia médica: leituras políticas, históricas e narrativas do mundo do adoecimento e da saúde.

Partiremos de “narrativas de origem”, contemporaneamente construídas, referentes às diversas antropologias médicas nacionais, que se organizam evidenciando as razões sociais e políticas locais pelas quais nasce, em cada país, uma antropologia voltada para o fenômeno do adoecimento. Autores constatam, por exemplo, que, na origem da AM, sua implicação política aparece especialmente ligada à confrontação proposta entre modelos médicos hegemônicos e tradicionais e à necessidade de oferecer soluções para os problemas de saúde de populações ameríndias e camponesas (Castro, 2003; Campos-Navarro, 2010). Também está presente nas análises críticas atribuídas a expressões de enfermidades em universos mágico- religiosos, identificadas como produtos históricos de relações de subalternidade vividos por classes populares, particularmente eloquentes em estudos que se debruçavam sobre estados de consciência, normalidade psíquica e manifestações de “loucura” nas várias culturas, mas também sobre relações de gênero e expressões corporais ritualizadas do sofrimento feminino (Pandolfi, 1993). Vale dizer que, no campo da AM que reúne os temas da etnopsiquiatria ou da antropologia das emoções, o acúmulo de etnografias em sociedades nas quais a loucura ganhou referências normatizadoras diferentes daquelas que identificavam suas expressões como meramente patológicas, além de ser interpretada a partir de cosmologias mágico- religiosas associadas a diversas terapêuticas populares, foi fundamental para questionar modelos ocidentais dualistas de saúde e patologia mental, fundados em regimes de verdade naturalistas. Trabalhos dessa natureza tiveram importância no alicerce epistemológico que subsidiou, em vários países, referências ideológicas para as lutas antimanicomiais e referências teóricas para os serviços de base comunitária (Cardamone, Zorzetto, 2000). Esses são temas cuja complexidade nos impede de tratá-los no escopo deste artigo e os referimos apenas como indicação do solo sociopolítico sobre o qual se enxertaram e que subsidia até hoje um número fabuloso de estudos que lidam com o tema do lugar social da loucura nas sociedades contemporâneas.
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SECA, SOCIEDADE E PODER: DIMENSÃO REGIONAL DA CULTURA JURÍDICA DO SERTÃO.  Roberto Guilherme Leitão

SECA, SOCIEDADE E PODER: DIMENSÃO REGIONAL DA CULTURA JURÍDICA DO SERTÃO. Roberto Guilherme Leitão

6 Grupo de trabalho: SOCIOLOGIA, ANTROPOLOGIA E CULTURAS JURÍDICAS - EMENTA: O grupo de trabalho Sociologia, Antropologia e Culturas Jurídicas tem por objetivo constituir um[r]

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Cad. Pagu  número16

Cad. Pagu número16

reflexividade, ou o impacto de Said, ou o impacto dos estudos culturais. Tudo precipita a crise. Além disso, como o espaço da antropologia nos EUA abriga simultaneamente questões de ciência natural e outras que são inteiramente sociológicas, você inevitavelmente tem uma espécie de aglomeração e vive momentos em que o consenso é fraco, mas as realidades institucionais da universidade e do departamento forçam as pessoas a terem uma posição comum. A questão é a relação entre essas crises, algumas das quais são institucionais, não triviais nem exatamente conceituais, enquanto outras são conceituais e podem ser interessantes, históricas e produtivas. Assim meu interesse foi tentar usar as coisas com que me envolvi ao longo do tempo – a Índia antes e mais que tudo, assim como outros interesses como globalização e colonialismo – para tentar identificar quais dessas crises são produtivas e interessantes. Meus temas surgiram naquela intersecção entre as situações que conheço melhor e com as quais estou comprometido, e o que imagino ser essa panóplia de crises, onde algumas têm mais conseqüências que outras. Penso que foi útil ter alguma idéia de história disciplinar ou um cânone de alguma espécie. Estou plenamente consciente de que elas variam, dependendo de onde se está, mas na minha situação há a história de um campo, e há um retrato de seus melhores atores, de suas distinções e assim por diante. Tudo isso é contestável, é claro, mas o que foi útil para mim foi a identificação, a abertura e a resistência a essas análises. Posso imaginar que teria sido muito diferente se estivesse na sociologia ou na psicologia; eu poderia ter uma relação mais frouxa como a que sinto em Paul, mas no caso da antropologia, sinto que foi útil poder dizer “bem, vocês pensam que essa é a pergunta... mas ela é realmente esta.”
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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum.  vol.9 número2

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.9 número2

Este ensaio, ao mesmo tempo desafiador e aberto aos questionamentos, apresenta a importância de abordar diálogos entre duas áreas abrangentes, como meio ambiente e antropologia, reforçando a possibilidade e a necessidade do trabalho interdisciplinar, com o intuito de minimizar os problemas ambientais causados pelo homem. O autor manifesta nas entrelinhas sua esperança e expectativas de que a humanidade consiga construir um oikos comum a todas as pessoas, um mundo socialmente justo e ecologicamente responsável, no qual o homem não mais permaneça artificialmente dividido e encontre-se na sua totalidade.
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Ciênc. saúde coletiva  vol.22 número10

Ciênc. saúde coletiva vol.22 número10

Necessário se faz a qualificação dos sujeitos que realizam a gestão e as práticas de saúde na área de Vigilância sanitária. Para além da for- mação de sujeitos críticos em relação ao seu agir, é fundamental a compreensão de que a ação humana é carregada de interesse, mas também de desejo de fazer o bem, de espontaneidade e solidariedade. Trata-se de compartilhar poderes e qualificar práticas, a partir da perspectiva de uma ação associativa e de fomento à mesma em um contexto democrático. Formar sujeitos con- scientes de seu papel, solidários aos problemas do agir em Visa, mas também, guiados por in- teresses próprios e representantes de interesses organizacionais; promovendo o envolvimento de setores variados da sociedade em torno dos mais diversos objetos sob responsabilidade da Visa e buscando soluções conjuntas para problemas específicos; formando alianças com o setor reg- ulado, a população, outras instituições dentro e fora da saúde, agindo intersetorialmente e de for- ma interdisciplinar. Articulando-se, dando de si, para receber do outro e formando vínculos para a resolução de problemas de saúde. Desta forma uma organização estabelece relações solidárias com outras organizações.
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