Escravidão - pós-abolição

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A construção da liberdade: vivências da escravidão e do pós-abolição. Mariana, 1871-1920

A construção da liberdade: vivências da escravidão e do pós-abolição. Mariana, 1871-1920

68 braço nacional em substituição ao escravo. As dificuldades em atrair uma força de trabalho estrangeira acabaram por propiciar a ampliação das margens de negociação entre proprietários e escravos, e, posteriormente, entre proprietários e libertos, visando à permanência destes últimos nas fazendas ainda nos últimos anos da escravidão ou no imediato pós-abolição. 95 As vantagens do “colono nacional” passaram a ser apontadas como alternativa viável mediante as dificuldades de obtenção do trabalho imigrante. nos artigos do jornal O Pharol, na cidade de Juiz de Fora, qualificativos como “diligente, sóbrio e obediente” substituíram, a até então vigente descrição do trabalhador nacional q ue era tido como “vadio, bêbado e desordeiro”. Segundo Sonia Maria de Souza, a Fazenda da Fortaleza de Sant’Anna, recorreu ao emprego da mão de obra dos libertos no pós-abolição. Estes trabalhadores encontravam-se engajados em atividades relacionadas à lida na lavoura, ao serviço doméstico e às atividades especializadas, tais como, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, atendentes no hospital ou feitores (SOUZA, 2007:151-153). Fixar os ex-escravos em seus antigos locais de trabalho perpassava por outra questão, qual seja, o interesse dos fazendeiros em contar com o trabalho de todos os membros da família. A não participação das mulheres e das crianças nas lavouras de café da região é apontada pela autora como uma prática comum entre os libertos. Destinar o trabalho feminino e infantil para o cultivo das roças de alimentos ou para a criação de animais significava, na concepção de liberdade destes indivíduos, a preservação de certo grau de autonomia e a construção de um projeto camponês na região. As esposas e os filhos dedicavam-se aos afazeres domésticos, ao cultivo das roças e das hortas e à criação de animais, e estas atividades revertiam em benefício apenas da própria família. 96 Havia, ainda, uma questão de ordem moral entre estes, segundo a qual “a tentativa de preservar as mulheres do trabalho no eito pode ter sido também uma estratégia dos maridos e pais para evitar que elas fossem vítimas de possíveis assédios sexuais ”. 97 Ao lado da autonomia ou da possibilidade de construção de um projeto camponês, retirar as mulheres e as crianças da lida no eito das fazendas
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Gibran Gonçalves Jensen “REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: polícia- uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição (1892 – 1926).”

Gibran Gonçalves Jensen “REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: polícia- uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição (1892 – 1926).”

Estudar os populares da segunda metade do século XIX nos propôs inúmeros questionamentos ao longo da pesquisa. Com o passar do tempo, essas questões foram tomando forma mediante discussões teórico-metodológicas, as quais nos direcionaram para fins do XIX e início XX. Nossa pesquisa historiográfica demonstrou que a cidade de Santa Maria não estava desconectada dos acontecimentos político-sociais do contexto nacional. A preocupação em controlar os populares e moldar seus hábitos e costumes fazia parte também do cotidiano santa-mariense. O surto populacional e econômico de fins do XIX acentuou a necessidade de controle social a partir da chegada dos imigrantes europeus e da Viação Férrea, o que catalisou e deflagrou, enormemente, a disputa por espaço de sobrevivência na multiétnica Santa Maria. A sociedade em questão buscava redefinir suas balizas sociais no período pós-abolição, as quais deviam manter os populares nacionais de cor na condição de subalternos. A luta pela sobrevivência, que se traduzia na concorrência pela posse da terra e por oportunidades de trabalho, condições básicas para alcançar a plena cidadania, era negada aos nacionais de cor.
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XVIII ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO – ENANCIB 2017 GT-8 – Informação e Tecnologia JOGOS ON-LINE NA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: RESULTADOS PRELIMINARES Leandro de Abreu Souza Jaccoud (Fundação Casa de Rui Barbosa - FCRB) Marta Ribeiro Ro

XVIII ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO – ENANCIB 2017 GT-8 – Informação e Tecnologia JOGOS ON-LINE NA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: RESULTADOS PRELIMINARES Leandro de Abreu Souza Jaccoud (Fundação Casa de Rui Barbosa - FCRB) Marta Ribeiro Ro

Resumo: O presente trabalho pretende apresentar a pesquisa “A educação patrimonial em arquivos e o uso de jogos cooperativos on-line. Monitoramento e avaliação do módulo educativo do sítio ‘Escravidão, abolição e pós-abolição’” e os resultados preliminares obtidos até o momento. A pesquisa analisa a importância da educação patrimonial em/a partir dos arquivos, baseando-se na iniciativa da da Fundação Casa de Rui Barbosa, com a criação de um módulo educativo no sítio “Escravidão, abolição e pós-abolição”, que disponibiliza ao seu público-alvo jogos digitais cooperativos on-line, inovando nas formas de disseminação e novos usos do patrimônio documental, com o uso da tecnologia da informação. O monitoramento e a avaliação do módulo de jogos permitirão determinar a relevância ou irrelevância desse tipo de iniciativa, apontando, caso necessário, para o(s) aspecto(s) que necessitam de adequações. Para a realização da pesquisa foram cruzados os números dos relatórios emitidos pelo Google Analytics, dos relatórios gerenciais do próprio módulo educativo e, também, dos resultados obtidos a partir da realização de oficinas com o público-alvo. Os resultados preliminares apontam para a validade da iniciativa nos termos propostos no sítio “Escravidão, abolição e pós-abolição”, com a necessidade de complementação do ambiente educativo com jogos que permitam diversão mais duradoura, experiência de imersão mais profunda e a programação do sítio e do ambiente de jogos para dispositivos móveis.
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A história afro-brasileira pós-abolição em livros didáticos

A história afro-brasileira pós-abolição em livros didáticos

do país e na narrativa nacional. A autora denominou tal espaço como “lugar encapsulado”. Trata-se da leitura da experiência histórica afro-brasileira circunscrita, limitada e “encapsulada” no estereótipo da mão de obra localizada no contexto da escravidão, que só atribui visibilidade ao passado do negro no Brasil como força de trabalho, seja fazendo funcionar a economia ou desregrando a ordem social pela rebeldia supostamente cega, sem projeto político. No entanto, segundo Mattos, Abreu e Dantas (2009, p.318), já existe “munição historiográfica” para a superação da forma hegemônica de interpretação do passado afro-brasileiro. Partindo dessa assertiva, em articulação com algumas das conclusões sobre as formas de abordagem da história afro-brasileira presentes em manuais escolares resultantes de meu trabalho de mestrado 1 é outra justificativa para esta investigação. Dentre as conclusões, cheguei à compreensão da existência de duas perspectivas e tendências razoavelmente distintas de abordagem da história afro-brasileira. Uma tendência é caracterizada pela concentração de episódios da História afro-brasileira em capítulos tradicionalmente remetidos à temática (trabalho na América Portuguesa, resistência à escravidão, etc.), que apresenta como eixo norteador, através de um viés limitado, a análise econômica de episódios da história afro-brasileira circunscritos, quase que exclusivamente, à história social do trabalho e da escravidão. Portanto, limitada a uma exposição dos conteúdos pouco articulada a uma visão de uma educação comprometida com a pluralidade de formas das relações étnico-raciais, com vistas à superação do racismo, mas sim, voltada para o desenvolvimento superficial de alguns episódios da história afro-brasileira, vinculados, em alguma medida, à narrativa estruturadora da nação brasileira. A segunda perspectiva seleciona a temática em questão, perpassada pelo discurso de uma educação voltada para a construção de valores, de uma educação das relações étnico-raciais. Dessa forma, o passado afro-brasileiro passa a configurar-se para além dos capítulos
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Impressões norte-americanas sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil...

Impressões norte-americanas sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil...

Entre os anos anteriores à Guerra Civil e o pós-abolição, o tema da mistura racial e da cidadania dos libertos já era objeto de disputas nos Estados Unidos. Diferentes grupos envolvidos nesta discussão se apropriaram do exemplo de outras nações escravistas das Américas para analisar as experiências de cativeiro e liberdade na sociedade norte-americana. Foi neste período que grupos antagônicos como abolicionistas negros, cientistas, viajantes e escravistas incorporaram o exemplo brasileiro às suas disputas, pois o Brasil, conhecido como país miscigenado e supostamente sem preconceito racial, era marcado por uma intensa população negra que eles acreditavam conviver harmonicamente com a população branca. As interpretações sobre estas notícias eram divergentes. Enquanto abolicionistas afro-americanos se apropriaram do exemplo brasileiro, porque acreditavam que o país era uma referência de igualdade racial e liberdade, os cientistas, escravistas e viajantes entendiam o país no contexto do que acreditavam ser todas as nações latino-americanas: um país de clima tropical que, ao contrário dos Estados Unidos, favorecia a existência de formas de vida exageradas e inferiores. Além disto, a mistura racial e a excessiva quantidade de pessoas negras, muitas delas libertas e cidadãs, confirmavam ainda mais as diferenças entre a sociedade brasileira e a norte-americana. Até mesmo os imigrantes sulistas que vieram para o Brasil após o fim da Guerra Civil e que, inicialmente, foram atraídos pela manutenção do cativeiro no país, registraram seu descontentamento com a intensa miscigenação. Assim, esta tese investiga estas diversas impressões sobre o Brasil, produzidas por diferentes setores da sociedade norte- americana. Interessa-nos entender como estas notícias sobre o país foram apropriadas pelo debate político sobre escravidão, abolição e relações raciais nos Estados Unidos. É também nosso objetivo perceber como estes grupos criaram uma imagem do Brasil em oposição a uma ideia de nação americana, enfatizando diferenças que seriam utilizadas para formar identidades nacionais distintas, sobretudo no que diz respeito às relações raciais de cada país. Para analisar estes usos e apropriações de uma sociedade sobre a outra, utilizarei uma variada documentação composta por relatos de viagem, textos jornalísticos e científicos, jornais da imprensa negra abolicionista e cartas escritas por imigrantes confederados no Brasil que foram enviadas para seus familiares que viviam no sul dos Estados Unidos.
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O pós-abolição como problema histórico: balanços e perspectivas.

O pós-abolição como problema histórico: balanços e perspectivas.

Neste artigo procuraremos trabalhar com alguns aspectos centrais já discerníveis das pesquisas sobre o período pós-abolição no Brasil, buscan- do enfatizar o papel jogado neste processo pelos últimos libertos e por suas expectativas e atitudes em relação à liberdade. Nossa análise se concentra- rá, especialmente, no velho Vale do Paraíba, onde a escravidão enquanto instituição manteve até tardiamente sua vitalidade e a imigração estrangei- ra foi muito limitada. Buscamos, assim, contribuir para uma espécie de “quí- mica fina” deste processo, procurando cercar e problematizar aspectos do que entendemos como as principais demandas por inclusão, ou cidadania, perseguidas pela última geração de escravos e por seus filhos e netos. Enten- demos que estas demandas se organizaram a partir de noções de direito peculiares a esta população que, obviamente, também mudaram ao longo do tempo. Indícios dos elementos que constituíram estas expectativas de direitos puderam ser percebidos através da documentação do registro ci- vil, de notícias de jornais e da análise de processos criminais. Trabalhos recentes, que resultaram em dissertações e teses ainda não publicados re- forçaram a validade de algumas idéias que já vínhamos discutindo e contribuí- ram decisivamente para os resultados deste ensaio. 9
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Sociabilidades familiares e liberdade: relações interpessoais no pós-abolição.

Sociabilidades familiares e liberdade: relações interpessoais no pós-abolição.

As disputas travadas por Luisa e Rocha Camargo em torno da guarda de Ozoria podem revelar indícios acerca dos conflitos entre negros e fazendeiros durante o pós-abolição. Terminado o escravismo, muitos fazendeiros e ex-escravos tentaram utilizar-se das mesmas estratégias que adotavam nos tempos de escravidão, mas tentan- do estabelecer novas formas de distinção social (Albuquerque, 2009, p.113; Fraga Filho, 2006). A abolição, mesmo não sendo uma ruptura radi- cal, não representou somente o fim de uma rela- ção de propriedade, mas também a perda das re- ferências fundamentais na constituição da iden- tificação de escravos e senhores de terra. “A cer- teza de que o mundo social não podia mais ser definido pela oposição entre senhores e escravos comprometia vínculos pessoais e referências de autoridade – não só relações de trabalho. Não eram apenas os trabalhadores que os proprietários per- diam, mas a sua própria posição hierárquica es- tava em jogo” (Albuquerque, 2009, p. 125). Ha- via todo um “lugar social” construído desde o período colonial em torno dessas duas categori- as. Muitos ex-senhores, ao fim da escravidão, vi- ram-se fora desse lugar que estruturava toda a lógica da arquitetura social. Com o fim definitivo do escravismo, portanto, foram suspensas diver- sas regras que balizavam as disputas de poder entre senhores brancos e negros subalternos.
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Renomear para Recomeçar: Lógicas Onomásticas no Pós-abolição

Renomear para Recomeçar: Lógicas Onomásticas no Pós-abolição

[o paternalismo] trata-se de uma política de domínio na qual a vontade senhorial é inviolável, e na qual os trabalhadores e os subordinados em geral só podem se posicionar como dependentes em relação a essa von- tade soberana. Além disso, e permanecendo na ótica senhorial, essa é uma sociedade sem antagonismos sociais significativos, já que os de- pendentes avaliam sua condição apenas na verticalidade, isto é, so- mente a partir dos valores ou significados sociais gerais impostos pelos senhores, sendo assim inviável o surgimento das solidariedades hori- zontais características de uma sociedade de classes. Todavia, já há cerca de três décadas de produção acadêmica na área de história social para demonstrar que, se entendido unicamente no sentido mencionado, o paternalismo é apenas uma autodescrição da ideologia senhorial; ou seja, nessa acepção, o paternalismo seria o mundo idealizado pelos se- nhores, a sociedade imaginária que eles se empenhavam em realizar no cotidiano. Em textos famosos, escritos desde o início da década de 1970, Thompson e Genovese – este abordando um contexto em que também havia escravidão –, e depois muitos outros historiadores, mostraram que a vigência de uma ideologia paternalista não significa a inexistên- cia de solidariedades horizontais e, por conseguinte, de antagonismos sociais. Em outras palavras, e para citar Rebecca Scott, outra especialis- ta na história da escravidão, subordinação não significa necessaria- mente passividade, e “os historiadores vêm encontrando numerosas maneiras de examinar as iniciativas dos escravos sem desconsiderar a opressão, de explorar a criação de sistemas alternativos de crenças e va- lores no contexto da tentativa de dominação ideológica, de aprender a reconhecer a comunidade escrava mesmo constatando o esforço contí- nuo de repressão a algumas de suas características essenciais”. As pala- vras de Scott ajudam a pensar não só a situação dos escravos, mas tam- bém a dos dependentes em geral, em sociedades em que havia a hegemonia política e cultural do paternalismo (Chalhoub, 2003:98, ênfases no original).
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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO – FAED PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA JANAINA AMORIM DA SILVA

UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO – FAED PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA JANAINA AMORIM DA SILVA

A percepção de Sr.ª Alcina sobre o modo como estavam estabelecidas as relações etnicorraciais até o século XX, é um lado do retrato da prática social presente não apenas no município, mas de forma diferenciada, em todo o país. Vários estudos sobre o período da escravidão ou pós-abolição mostram o relacionamento hostil e cruel entre brancos e africanos ou afrodescendentes. Estes estudos mascaram a vida que pulsava no campo e nas cidades, feita de um cotidiano de negociações, trocas culturais e afetivas, presentes nas comunidades e famílias. Porém, é preciso contrapor sua afirmativa de que “mulher negra só casava com negro e o branco só casava com branca” com suas próprias palavras escritas anteriormente: “meu pai era português, a minha mãe era filha de escravos.” Por mais que esta prática fosse vista com estranhamento no século XIX, não podemos considerá-la incomum.
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HISTÓRIA DA ABOLIÇÃO E PÓS ABOLIÇÃO EM IGUAÇU E MERITI

HISTÓRIA DA ABOLIÇÃO E PÓS ABOLIÇÃO EM IGUAÇU E MERITI

Alguns anos antes da chegada da família de João Pacífico a Meriti, já havia outras famílias que viviam na região, cujos membros antigos tinham sido escravos nas fazendas de produção de alimentos existentes no entorno da Guanabara desde os tempos da escravidão. Era o caso, por exemplo, da família de Carlos Manoel de Assunção, casado com Carolina Rosa dos Santos, que, no ano de 1897, batizou o pequeno Joaquim, tendo como padrinhos Joaquim Maria dos Reis e Maria Joaquina dos Santos. Uma entre as várias famílias que se formaram na Fazenda Santa Cruz, no âmbito da antiga freguesia do Pilar, que, por conta da reforma administrativa de 1891, passava a fazer parte de um dos distritos de Iguaçu. Não obstante, é possível identificar a presença de outras famílias que batizaram seus filhos naquele mesmo ano, cujos registros nos ajudam a perceber certo enraizamento cultural de pessoas egressas do cativeiro, mas que permaneceram em Meriti e em seu entorno durante o período de pós-abolição.
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Necropolítica da memória escrava no Brasil pós-abolição

Necropolítica da memória escrava no Brasil pós-abolição

existir entre nós, não deveria constituir um sinal de que a escravidão desapareceu de uma vez por todas. Deveria, antes, soar como o aviso de incêndio que denota que toda forma de trabalho espoliado se funda na fantasmática figura do escravo. Quando a forma- escravo desaparece historicamente, quando mais nenhum homem pode ocupar a forma do equivalente geral das trocas, é porque, talvez, todos os trabalhadores do mundo tenham sido tomados em um devir-negro, e ocupem, hoje, de direito, a condição muito material de escravos informes. Eis a condição virtualmente comum ao trabalhador livre e ao empresário de si, ao cidadão como ao imigrante: ser tomado em um devir-negro, habitar em algum ponto a ausência de obra e a espessura negativa escrava que percorre o mundo das sociedades neoliberais como um fantasma difuso e total.
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Almanack  número12

Almanack número12

Mas o interesse é, sobretudo, historiográico. African Heritage and Memories of Slavery in Brazil and the South Atlantic World é uma síntese de como os temas do legado africano, da escravidão e do pós-abolição têm sido pensados e discutidos face às reformulações do espaço público e da memória coletiva das populações negras no Atlântico Sul. Escrita para o leitor em língua inglesa, a obra, porém, é resultado do trabalho de pesquisadoras e pesquisadores da Europa, Brasil e Estados Unidos que, a partir de diferentes perspectivas e diversos temas, privilegiam o Atlântico Sul em suas análises.
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"Um desejo infinito de vencer": o protagonismo negro no pós-abolição.

"Um desejo infinito de vencer": o protagonismo negro no pós-abolição.

Era o ano de 1915. No âmbito da conjuntura externa, a Primeira Guerra Mundial começava a aterrorizar vários países europeus e mobilizava a atenção da opinião pública internacional. No plano interno, o processo de reformas urbanas, o alvissareiro desenvolvimento industrial, as inovações cientíico-tecnológicas, o projeto de modernização, a atmosfera de nacionalismo contagiava corações e mentes na Belle Époque tropical. Em meio a tudo isso, na cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, dois poetas negros, Ildefonso Juvenal, com cerca de 21 anos, e Trajano Margarida, beirando os 26, além do amigo Astrogildo Campos, sentiram a necessidade não só de compartilhar seus sonhos e esperanças, como também de vislumbrar o levantamento social, cultural, intelectual e moral dos ho- mens negros. Decidiram comemorar a data da abolição da escravatura, de forma civilizada e cidadã. Para tanto, fundaram a Associação dos Homens de Cor e organizaram um grande evento no Teatro Álvaro de Carvalho, reunindo negros e brancos, homens e mulheres, autoridades públicas, representantes da imprensa e de outras associações da sociedade civil de Florianópolis. Tendo como mote a memória da escravidão, o evento consistiu na apresentação de recitais de poesias, em performances artístico-mu- sicais e discursos cívicos. Muitos dos presentes se sensibilizaram ao ouvir a canção “Liberdade”, com letra de autoria de Trajano e melodia do maestro Pendo, e o poema “Vozes d’África”, de Castro Alves, o legendário poeta abolicionista. O evento cívico-literário-musical terminou com um “belo” hino à liberdade, cantado por um grupo de meninas. Todas trajadas de branco, traziam “a tiracolo largas faixas de seda com as cores nacionais e com uma apoteose à raça negra, protegida pela república que lhe apontava o luminoso caminho da liberdade” 1 .
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Espaços negros na cidade pós-abolição: São Carlos, estudo de caso

Espaços negros na cidade pós-abolição: São Carlos, estudo de caso

Sem dúvida, este foi um pensamento bastante influenciado pe- las bases da própria escravidão, que justificava a exploração dos po- vos não brancos pelo seu estado de inferioridade. Nas especulações quanto à inserção dos ex-cativos na sociedade após a abolição, além da afirmação da inferioridade de raça, identificamos a dificuldade de aceitação das diferenças culturais, sendo que o estigma foi difundido e justificado: o candomblé passou a ser considerado marginal porque estigmatizado como uma crendice, religião primitiva, que afrontava e desmoralizava a religião oficial da época. Da mesma forma, a imagem de marginalidade foi associada com as habitações coletivas dos pobres, onde a intensidade de uma vida em grupo (algumas vezes não-familiar) contrastava com a organização da casa burguesa. De acordo com Rol- nik, o trabalho ocasional, marcado por uma distribuição do tempo e do espaço bastante diferente do trabalho assalariado, foi logo associado à desorganização e à ociosidade. A marginalidade também foi ligada ao conjunto de gestos e expressões corporais próprias dos negros.
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Territórios étnicos no pós-abolição: o caso do Quilombo da Mormaça (RS)

Territórios étnicos no pós-abolição: o caso do Quilombo da Mormaça (RS)

O uso da mão-de-obra escrava na pecuária suscitou alguns debates na historiografia rio-grandense, parte dos autores defendeu que a escravidão não teve tanta importância nesse tipo de produção quanto nas produções do tipo plantation instaladas no centro e norte do país; e assim minimizam (ou pelo menos tentaram fazê-lo) a presença de africanos e seus descen- dentes na formação social do Rio Grande do Sul. De fato, a ausência de plantation típicas diminui o número de cativos no Estado em comparação ao resto do país, e dificulta em parte a compreensão do modo como a mão-de-obra escrava foi utilizada no Rio Grande do Sul, mas sua presença não pode ser ignorada.
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Migrações negras no pós-abolição do sudeste cafeeiro (1888-1940).

Migrações negras no pós-abolição do sudeste cafeeiro (1888-1940).

MONSMA, Karl. Histórias de violência: inquéritos policiais e processos criminais como fontes para o estudo de relações interétnicas. In: DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri; MONSMA, Karl. Linchamentos raciais depois da abolição: quatro casos do interior paulista. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA LATIN AMERICAN STUDIES ASSOCIATION, XXVIII., 2009, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: Lasa, 2009. NASCIMENTO, Álvaro. 13 de Maio: memória da escravidão e educação nas páginas do Correio da Lavoura (Nova Iguaçu, RJ, 1917-1950). In: FORTES, Alexandre. Cruzando fron- teiras: novos olhares sobre a história do trabalho. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2013. ______. A ressaca da marujada: recrutamento e disciplina na Armada Imperial. Rio de Ja- neiro: Arquivo Nacional, 2001.
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A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO PELO "GRITO DO POVO"

A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO PELO "GRITO DO POVO"

O principal objetivo desse artigo é destacar – no âmbito do movimento abolicionista do Rio de Janeiro da década de 1880 - a existência de projetos e de discursos em prol de reformas socioeconômicas que visavam à inserção dos libertos numa sociedade menos desigual 2 . Contrariamente a uma certa versão do abolicionismo que enfatizou o esforço das suas lideranças de manter o controle sobre os escravos com o intuito de ordenar uma passagem tranquila da escravidão para o trabalho livre, esse artigo pretende ressaltar a complexidade desse contexto que se caracteriza justamente pelo embate entre diferentes projetos para o pós-abolição. Em algumas de suas vertentes, o abolicionismo exprimiu posições contra as desigualdades socioeconômicas e políticas, propondo, inclusive a distribuição da propriedade agrária. Essas reivindicações de reforma agrária não estiveram associadas exclusivamente ao círculo do monarquista André Rebouças, mas também fizeram parte dos discursos de certas militâncias republicanas, como no caso dos panfletários do Grito do Povo, no ano de 1887.
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Reflexões sobre a pintura de Arthur Timotheo da Costa

Reflexões sobre a pintura de Arthur Timotheo da Costa

Arthur Timotheo contava com vinte e seis primaveras. Era sua primeira viagem internacional. Gerações de escritores, pintores e escultores rumaram à Paris com o mesmo propósito: aprimorar sua vivência artística; seja frequentando academias como a famosa Julian, ateliês de artistas, exposições nos mais diversos sítios (e temos uma enormidade de eventos simultâneos acontecendo) ou simplesmente morando no Quartier Latin. 116 No período que nosso protagonista lá esteve, por exemplo, Modigliani vivia no Impasse Falguière e Picasso e sua “gangue” no Bateau-Lavoir. 117 Essa agitação teve início em meados do século XIX e apenas arrefeceu no pós-guerra. 118 Certa vez, numa coluna para o jornal Gazeta de Notícias, Garcia Júnior rememorou um episódio em que pode conversar com Arthur Timotheo a respeito dessa experiência. Segundo ele, nosso protagonistagostava de reviver suas peripécias pela Paname. Numa dessas ocasiões haveria dito-lhe uma anedota. Segundo Garcia júnior, Arthur morava no “Quartier Latin”, numa residência coletiva comum a pintores estrangeiros que estudam na França. Certo dia nosso pintor teria se cansado de ouvir repetidos ruídos secos na parede de seu vizinho e resolveu espiar. Foi quando se deparou com a seguinte cena:
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A abolição da escravidão e modos de pensar e de representar a experiência passada : livros     didáticos (1865-1918)

A abolição da escravidão e modos de pensar e de representar a experiência passada : livros didáticos (1865-1918)

Segundo o autor, a cessação efetiva do tráfico africano deu início ao processo de extinção da escravatura no Brasil. Embora impulsionado por uma causa externa, a pressão da Inglaterra, foram os fatores internos que dificultaram o avanço político do movimento abolicionista, pois, os escravocratas, movidos pelos influxos da conjuntura, preferiram um processo lento e gradual para a extinção da escravidão. Não por acaso, não obstante, a lei de extinção do tráfico de 1850, pairava, nessa década, enorme tranquilidade quanto ao fornecimento da mão de obra escrava para os escravocratas, pois as enormes importações nos anos anteriores a esta lei deixaram o mercado bem abastecido de escravos. A proibição do tráfico, responsável pela elevação do preço do escravo, ao lado da prosperidade dos EUA e da Europa, responsável pelo aumento da demanda por produtos como café, açúcar e algodão, elevaram, consequentemente, o lucro dos plantadores. Segundo Jacob Gorender, essa tranquilidade foi fortalecida, porque, ―no plano internacional, as pressões antiescravistas se atenuaram e, no plano interno, a monarquia bragantina se estabilizou e consolidou, escorada na tranquilidade dos fazendeiros e na considerável melhora do comercio exterior.‖ 146
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“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

As mais recentes pesquisas sobre a abolição vêm apontando um processo multifacetado e complexo, que não pode ser entendido apenas pelo simbólico Treze de Maio de 1888. Tais estudos consideram a participação de diferentes agentes que, à sua maneira, produziram distintas e inúmeras ações de ativismo contra o cativeiro. Partindo de uma problematização sobre o discurso religioso e os ideais abolicionistas, este artigo analisa a presença de católicos e presbiterianos em Minas Gerais, entre 1886 a 1888, período em que as movimentações sociais ficam mais agitadas e decisivas. Por meio da documentação de polícia e dos jornais, foi possível analisar a participação do clero católico e de presbiterianos numa trama de disputas políticas, interesses pessoais e ideias abolicionistas. Somada a tantas outras manifestações populares, produzidas por escravizados e libertos na região, essa atuação minou, pouco a pouco, os pilares da escravidão.
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