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A construção da identidade do autor em J. M. Coetzee e Enrique Vila-Matas

A construção da identidade do autor em J. M. Coetzee e Enrique Vila-Matas

A construção da identidade autoral em Vila-Matas passa pela impossibilidade de se apagar por completo o escritor da obra, de alcançar com êxito uma morte do autor tal como proposta por Roland Barthes (1988) em seu famoso texto “A morte do autor”. Se, para Barthes (1988, p. 65), “[a] escrita é esse neutro, esse composto, esse oblíquo para aonde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco onde vem se perder toda a identidade, a começar pela do corpo que escreve [...]”, para o narrador de Doutor Pasavento a procura pela neutralidade constitui uma utopia e ao mesmo tempo uma força vital que permite o desdobramento da personagem em diversas outras identidades. Ponto em comum entre as ideias apresentadas por Barthes em “A morte do autor” e a poética defendida por Vila-Matas é a de que o texto é “um espaço de dimensões múltiplas”, “um tecido de citações” (BARTHES, 1988, p. 69). As citações em Vila-Matas, no entanto, não são apenas simples transcrições retiradas das obras de outros autores. Há todo um processo de criação, como explica o próprio escritor: “Trabalho com as citações como se fossem uma sintaxe para construir o que quero dizer. Na metade das vezes, as citações são inventadas, ou transformadas para dizer o que quero dizer, ou seja, metade delas são falsas.” (VILA-MATAS, 2010).
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O autor e a obra

O autor e a obra

coloque como pontos de partida de um percurso que almeja a discussão do tempo presente, da contemporaneidade. Isso porque, muito embora as proposições seminais desses autores continuem sendo importantes marcos teóricos e conceituais sobre a questão, percebo que as discussões relativas à autoria, à originalidade e ao conceito de obra, na contemporaneidade, apontam na direção de algumas especificidades que Barthes e Foucault, principalmente, não tinham como prever. A tecnologia digital e tudo o que ela possibilita em termos de barateamento dos processos editoriais e de reprodutibilidade, da ampliação da circulação dos textos e da facilidade das apropriações e reapropriações (NuNberg, 1993) coloca-nos, hoje, em um contexto muito diferente daquele em que os autores franceses se encontravam quando um preconizou a morte do autor em benefício da escritura e, outro, se questionou sobre o seu estatuto na modernidade ocidental.
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Percursos da Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras  da Universidade Federal de Minas Gerais

Percursos da Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais

Nesse livro de 1961 Sáfady parece mesmo ter o pensamento afinado com o de Roland Barthes, cuja “A morte do autor” teve primeira edição em 1963); pois para ambos um texto é feito de múltiplas escrituras, oriundas de várias culturas que entram em diálogo (ou em paródia, ou em contestação) umas com as outras. O leitor será onde se reune essa multiplicidade, pois a unidade do texto não estaria em sua origem, mas em seu destino, nesse alguém que mantém reunidos em um mesmo campo todos os traços de que é constituído o escrito. As sucessivas edições desse “despretencioso livrinho”, como lhe chamava o seu autor, mostram a sua importância para os estudiosos/leitores de literatura, pois o livro foi adotado também no ensino médio, trazendo certamente grandes benefícios aos estudantes de literatura, e não só.
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DISSERTAÇÃO: MODO DE USAR

DISSERTAÇÃO: MODO DE USAR

[Livro publicado poucos anos após a morte do autor, compila uma série de textos inéditos e outros publicados em jornais e revistas, abordando diversos tipos não convencionais de classi[r]

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Ling. (dis)curso  vol.17 número3

Ling. (dis)curso vol.17 número3

e posicionando- se no campo pedagógico, Furlanetto (2015, p. 157) propõe pensar “a produção e o efeito de autoria no espaço entre ‘a morte do autor’ e o ‘nascimento do autor’; e refletir sobre autorar (eu) e ler (outro) e seus conflitos.” O problema reside nesta constatação de Barthes em texto de 1970: Escrever a leitura: “faz séculos que nos interessamos d emasiadamente pelo autor e nada pelo leitor”; “o autor é considerado o proprietário eterno de sua obra, e nós, seus leitores, simples usufrutuários” (BARTHES, 2004, p. 27). Isso não significa, certamente, que deixaremos de considerar a existência de direitos autorais e as preocupações com qualquer tática para burlar esses direitos; contudo, não só em literatura reina o autor como personagem moderna, como pessoa e como obra – que são produtos da sociedade moderna, como admite Barthes –, como em qualquer outro campo em que seja possível reconhecer, nesse regime, a produção autoral. A visão em pauta se deve às ciências humanas, e o conflito resultante precisa ser administrado. O que Barthes faz é mostrar que “o texto é um tecido de citações, oriundas dos mil focos da cultura.” (p. 62). Afastado o Autor, afasta-se a leitura única, direcionada; o todo da escritura só será reunido no lugar do leitor; a unidade do texto estaria em seu destino, que não é pessoal: é um alguém, diz Barthes, que vai reunir todos os traços deixados pela escritura – e isso significa que ele não é passivo, mas produz sentido. Sem essa rede sequer se constitui o que podemos chamar imagem de autor – ou ainda efeito-autor.
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BRECHT, Bertolt. Se os tubarões fossem homens.  Tradução de Cristiane Röhrig. Ilustrações de Nelson Cruz. Curitiba: Edições Olho de Vidro, 2018.

BRECHT, Bertolt. Se os tubarões fossem homens. Tradução de Cristiane Röhrig. Ilustrações de Nelson Cruz. Curitiba: Edições Olho de Vidro, 2018.

Se os tubarões fossem homens, de Bertolt Brecht, tradução de Cristiane Röhrig, publicação das Edições Olho de Vidro, surgiu no cenário da literatura infantil brasileira no apagar das luzes do ano passado. Trata- se de uma das narrativas que compõem, originalmente, o livro Histórias do Sr. Keuner, publicado no Brasil pela Editora 34, em 2006, dois anos depois de ser publicado na Alemanha. A princípio, as histórias desse livro, que formam escritas de 1926 a 1956, ano da morte do autor, não são endereçadas às crianças, mas como na literatura infantil o melhor é não se pautar por esquemas rígidos de classificação e categorização de textos que não privilegiem a abertura para a inteligência e o despertar do senso crítico do leitor, o trabalho sensível dos editores pôde apontar, entre os textos de Brecht, um que poderia estabelecer um diálogo profícuo com as crianças brasileiras, e, assim, Se os tubarões fossem homens surgiu no formato de livro ilustrado, com parceria de Nelson Cruz, reconhecido não só por suas premiações – recebeu o Jabuti 2018 de ilustração para Os trabalhos da mão, de Alfredo Bosi (Positivo), só para citar a última –, mas principalmente pela proposta criativa e provocadora das suas criações.
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Estudo Longitudinal do Efeito da Idade e Tempo até a Morte em Gastos com Saúde Ana Carolina Maia Monica Viegas Andrade Flavia Lúcia Chein Feres

Estudo Longitudinal do Efeito da Idade e Tempo até a Morte em Gastos com Saúde Ana Carolina Maia Monica Viegas Andrade Flavia Lúcia Chein Feres

O objetivo deste trabalho é analisar o comportamento dos gastos com serviços de saúde financiados por uma operadora de plano de saúde, distinguindo atributos associados a indivíduos não sobreviventes. Como vimos, no Brasil ainda persiste um duplo perfil epidemiológico, o que pode determinar perfis de gasto controlados pela proximidade da morte diferentes daqueles já avaliados para economias que completaram a transição epidemiológica. Além disso, a transição demográfica brasileira, já em curso, exerce pressões sobre previsões de demanda que logrem responder aos gestores do sistema de saúde como o envelhecimento pode pressionar gastos agregados em saúde.
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A GERONTOLOGIA À LUZ DA COMPLEXIDADE DE EDGAR MORIN

A GERONTOLOGIA À LUZ DA COMPLEXIDADE DE EDGAR MORIN

Porém, mesmo não sendo idoso, em livros publicados em época passada, Morin correlaciona o processo de envelhecimento e principalmente a fase de velhice com situações de perdas, com a morte, enfim, com um certo pessimismo. Bobbio (1997), também e de forma sutil, lembra as limitações e perdas que a velhice traz para os seres humanos. Na verdade tenho me deparado com mais situações negativas do que favoráveis, relacionadas à velhice, isto a partir dos meus avós e de outros idosos com quem convivi e convivo. É complexo, mas desejável, admitir que envelhecer não é fácil e que neste processo é possível verificar uma situação dialógica, onde convivem o medo e as perdas com os ganhos e as boas expectativas.
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ENTRELAÇAMENTO ENTRE OS VIVOS E OS MORTOS EM TERRA SONÂMBULA E A VARANDA DO FRANGIPANI

ENTRELAÇAMENTO ENTRE OS VIVOS E OS MORTOS EM TERRA SONÂMBULA E A VARANDA DO FRANGIPANI

A obra de Mia Couto elege, de fato, a morte como uma das temáticas centrais. Esta eleição significa que a sua narrativa ficcional é, tam- bém, uma reflexão sobre a condição humana dos homens e mulhe- res moçambicanos. A experiência trágica da guerra desvelou a di- mensão mais maléfica do ser humano, capaz de atrocidades impen- sáveis, praticadas contra outros seres humanos inocentes. As vítimas da história calaram-se para sempre, mas a literatura insiste em trazê- las de volta, dando voz ao seu sofrimento e aos seus lamentos (GO- MES, 2016, p. 116).

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE LETRAS E LINGUÍSTICA PRISCILLA DA SILVA ROCHA

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE LETRAS E LINGUÍSTICA PRISCILLA DA SILVA ROCHA

e arquétipo é estreita e indissociável, isto é, todos os mitos têm seus arquétipos e isso faz com que ambos sejam elementos importantes do imaginário humano. A teoria do imaginário, desenvolvida por Gilbert Durand, explica como cada sociedade ou povo se adequa a um dos regimes do imaginário (diurno ou noturno) e como os arquétipos, que são as imagens imemoriais presentes nas narrativas mitológicas, se repetem através dos povos e dos tempos, provando assim a perenidade do mito. Dessa forma, mostrou-se que é principalmente através de seus mitos que a cultura clássica grega continua viva e presente na vida do homem ocidental, ela influencia ainda hoje as criações artísticas, especialmente as literárias, e através delas os mitos podem ser repropostos e recontados, oferecendo ao homem sempre novas possibilidades de ser no mundo. A poesia de Dora Ferreira da Silva revive intensamente os mitos gregos e os reconta evidenciando sua atemporalidade e capacidade de traduzir os homens de qualquer tempo. DFS prova como a mitologia helênica continua presente na memória cultural do povo do ocidente e como essa mitologia tem a capacidade de alcançar as emoções humanas através de seus símbolos arquetípicos. A autora é ainda capaz de, através de seus escritos, trazer de volta a sacralidade mítica, demonstrando que a hierofania da qual eram revestidos os deuses helênicos pelos devotados gregos que os criaram continua presente, onde quer que alguma de suas peripécias seja recontada, como disse Constança Marcondes César: “Numa época da morte de Deus, „tempo de carência‟ e de ausência do sagrado, a poesia de Dora Ferreira da Silva e a renovada atenção aos mitos gregos lembram que os deuses vivem em nós. E que a poesia é via de acesso ao ser, dádiva, na palavra, dum outro inefável em si mesmo.” (CÉSAR, 1999, p. 469).
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Duas poéticas individuais: a metaficção em Finisterra, de Carlos de Oliveira e em o Triunfo da Morte de Augusto Abelaira

Duas poéticas individuais: a metaficção em Finisterra, de Carlos de Oliveira e em o Triunfo da Morte de Augusto Abelaira

Finisterra no tipo de textos que se socorrem de estratégias utilizadas por subgéneros, por exemplo, o romance policial ou a ficção científica. A utilização de traços do romance de ficção científica pode demonstrar um desejo de criação de uma alternativa ao mundo real em vias de ruir. A cena da “guerra dos mundos” pode ser vista como um desejo de destruição de tudo o que está já condenado, para tentar construir uma nova realidade. É como se tivesse sido dada uma segunda oportunidade à casa em ruínas e à família quase extinta. A natureza axiomática da literatura fantástica ― neste caso, da ficção científica ― leva-nos a aceitar na realidade do texto fenómenos tão admiráveis como a “guerra dos mundos” ou a metamorfização dos elementos presentes no desenho infantil. Essa natureza inquestionável própria do género parece levar o autor a poupar explicações aos leitores, dispensando o desvendar da génese dos fenómenos. As estratégias de construção do romance policial adaptam-se bem a Finisterra, na medida em que o romance traduz uma busca ― que se pode equiparar à tentativa de resolução de um mistério. Pode ser a busca pelo conhecimento da realidade, que move a criança / adulto, pai e mãe, pode ser a busca pela compreensão do segredo da porcelana por parte do tio (que acredita que pode salvar a família ), pode ser a eterna procura da cruz perdida na areia, pode ser até o trabalho de juntar os fragmentos escritos a fim de construir um romance. Tal como o romance policial se desenvolve na procura de deslindar um crime, Finisterra procura trazer à luz outros mistérios.
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O duo dissonante entre a voz do autor e a voz do narrador em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto

O duo dissonante entre a voz do autor e a voz do narrador em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto

A “Explicação necessária” – ou anti-prefácio, já que de necessária não tem nada – configura-se também como um engodo para o leitor, pois se constitui como algo incongruente em relação à narrativa propriamente dita. Ao longo da leitura, veremos que o opúsculo não diz respeito a uma biografia, como nos prometera fingidamente o narrador no paratexto, mas a um romance, que também coloca em xeque esse gênero, devido à sua surpreendente estruturação. Além do mais, só o fato de o narrador querer começar por explicá-lo já nos deixa desconfiados. Isso restringiria imediatamente o sentido da obra. Logo, podemos concluir que esse procedimento irônico do autor incumbe o leitor de explicar as lacunas da narrativa. No entanto, mais do que simplesmente divertir o leitor com comentários jocosos ao confessar que deseja moldar seu manuscrito à moda das biografias – gênero de literatura muito em voga na Belle Époque –, o narrador procura, mediante os artifícios da ironia romântica, refletir sobre o próprio texto e, de um modo geral, sobre o fazer literário, uma vez que não só põe em xeque a estética beletrista das biografias, como também discute determinado tipo de romance vigente na literatura da época – o romance “sorriso da sociedade”, fundamentado na retórica palavrosa e oca dos beletristas do epigonismo pós-machadiano.
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NEM AUTOR, NEM SOMENTE FUNÇÃO-AUTOR: TAMBÉM SUJEITO-IDEALIZADOR

NEM AUTOR, NEM SOMENTE FUNÇÃO-AUTOR: TAMBÉM SUJEITO-IDEALIZADOR

Todavia, sabemos que muito ainda pode, deve e necessita ser trabalhado para avançar na compreensão dessa outra leitura que vimos propondo e entendemos também que muito ainda precisa ser lido, discutido, compreendido e analisado para fins de explicitar esse funcionamento. A nosso ver, temos aí um sujeito-autor que se funde com o sujeito-idealizador. Esse sujeito-autor assumiria uma função discursiva, que é a de função-autor, que se confunde com a de função-idealizador, pois é por meio dessa posição, de função-autor – e também de função-idealizador – que se estabelece a relação com o sujeito-leitor e, consequentemente, com a função-leitor, pois, assim como a função-autor é uma função discursiva do sujeito, a função- leitor também é. Entretanto, ao explicitar essas relações, não temos respostas definitivas (se é possível dizer que um dia as teremos enquanto tal), e as leituras seguem nesse caminho de cujo destino não se tem certeza. Contudo, por ora, é o que há.
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A alteridade e o imaginário feminino: o arquétipo da grande mãe em Maíra, de Darcy Ribeiro

A alteridade e o imaginário feminino: o arquétipo da grande mãe em Maíra, de Darcy Ribeiro

Daí o simbolismo do ventre aberto de Alma. Alma é uma parúsia às avessas de Mosaingar, versão feminina de Maírahú, a “barriga do Ambir”, como se deduz do capítulo “Mosaingar”, que abre a última parte (“Corpus”) e cuja temática é regida pela reflexão de Alma sobre seu papel entre os mairuns (RIBEIRO, 2001, p. 325 ss.). Este papel é o de avatar da feminilidade caótica de Mosaingar, o ventre gerador dos gêmeos, que agora dá à luz – gesto paradoxal! – a morte e as sombras. Como lembra Neumann, “o ventre aberto é o símbolo devorador da mãe urobórica, es- pecialmente quando relacionado com símbolos fálicos. [...] O ventre abocanhador, isto é, castra- dor, aparece com as mandíbulas do inferno” (NEUMANN, 2003, p. 77). É que também Alma, uma das protagonistas do enredo, procura a unidade do ser: “O que eu quero é tão simples. Quero ser uma pessoa com um nome, uma cara, sempre a mesma: hoje, amanhã, qualquer dia. A mesma para mim, para todo mundo, sempre” (RIBEIRO, 2001, p. 137). Alma é, na tessitura do romance, a força do vazio pleno, cujas qualidades contraditórias de totalidade e nadificação o próprio Isaías denuncia, quando a analisa: “Você parece esganada, diz, com uma fome terrível, não sei de quê. Mas ao mesmo tempo parece saciada para todo o sempre, também não sei de quê” (RIBEIRO, 2001, p. 170), com o que Alma concorda: “Meu Deus, estou desesperada outra vez, por quê? Sa- ciada e com fome, diz ele com razão” (RIBEIRO, 2001, p. 171). É que ela leva dentro de si um mundo que nascerá morto, porque se recusa a fundar qualquer mundo; Alma é o ovo da criação, o caos feminino que contém em si os opostos, os gêmeos filhos de Maíra e Micura, que desta vez, porém, não vingarão. Ela é a mulher fertilizada por dois deuses, para dar à luz a dualidade: pri- meiro, por Maíra, mas também depois por Micura: “Fica, quieta, mulher, diz o segundo, quando ela já está grávida do irmão, eu bem que queria ficar aqui nesse calorzinho do seu itã que pede um filho. O outro posso dar”; “Talvez deixe uma semente” (RIBEIRO, 2001, p. 313-314 e 316, grifo meu), germe que legará a herança da alteridade. Mesmo quando grávida, Alma ainda não sabe que vai parir gêmeos, mas a duplicidade do filho já aparece no momento em que ela não consegue posicionar precisamente o caráter e o papel da criança que está por nascer, pois, dada sua condição de estranha na tribo e consideradas as relações que travou, as regras sociais foram embaralhadas:
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O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

—— Gorjetas aqui, também, só dá mesmo a gente rica, em cujo bairro não se pode trabalhar em mangas de camisa onde se exige quepe.. e farda engomada e limpa.[r]

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Tornar-se autor de si mesmo: a inserção do próprio autor na produção científica

Tornar-se autor de si mesmo: a inserção do próprio autor na produção científica

A escrita de trabalhos científicos faz parte do currículo da maioria dos cursos de graduação e pós-graduação. Falaremos a partir de nossa área – a Psicologia – mas não será difícil identificar que os aspectos abordados neste artigo estarão tão presentes em outros cursos como neste. Não obstante a exigência curricular e a freqüência com que escrevemos, observamos que tal atividade não vem combina- da com sentimentos positivos; pelo contrário. Junto aos mais carregados senti- mentos em relação à produção científica – desconforto, sofrimento, angústias – vemos uma tendência à confecção de textos anônimos, sem rosto, no sentido de que se constituem mais em recortes de muitos autores citados do que uma produ- ção do próprio autor que o redigiu.
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A função-autor: examinando o papel do nome do autor na trama discursiva.

A função-autor: examinando o papel do nome do autor na trama discursiva.

Não tendo mais naquele que escreve um mero porta-voz de uma palavra prévia, a escrita é abandonada a ela mesma. Este abandono faz surgir a indaga- ção acerca de seu agente com mais fervor, pois se ela é transgressiva, quem é o transgressor? – primeiro momento. Porém, continuemos. Se ela não é mais uma repetição de uma palavra anterior que serve de modelo, como ela se dá? Respos- ta: ela se torna uma escrita fundada na força de seu ato, ou seja, ela passa a ser entendida como um ato carregado de originalidade – segundo momento que fun- damenta a invenção do autor-proprietário. Dito em outras palavras, as obras de linguagem tem sua gênese calcada nas palavras de Deus e da tradição, enquanto a escrita do período moderno se fundamentaria na idéia de originalidade. Char- tier, respondendo a uma questão levantada por Lebrun, tratando da problemática relativa à emergência da função-autor, concorda com tal fato, pois afi rma que “da Idade Média à época Moderna, freqüentemente se defi niu a obra pelo contrário da originalidade. Seja porque era inspirada por Deus. [...] Seja porque inscrita numa tradição” (CHARTIER, 1997/1998, p. 31). A originalidade é uma forte noção evi- denciada no século XVIII, que alicerça o direito do autor – ciência jurídica cujo objeto é a propriedade intelectual.
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A digitalização do património cultural na perspetiva do Copyright e do Direito de Autor

A digitalização do património cultural na perspetiva do Copyright e do Direito de Autor

Neste artigo procurou traçar-se a evolução histórica recente desse combate privado/público no caso da digitalização de obras culturais existentes nos acervos dos museus. Após um período em que os museus reclamaram direitos de exclusividade de reprodução das suas coleções passou-se a uma situação em que instituições culturais como bibliotecas, galerias de arte e museus passaram cada vez mais a fornecer acesso livre às suas obras. Este artigo procurou identificar alguns dos momentos dessa evolução, em muitos casos provocada por decisões jurídicas que foram sendo proferidas nos últimos anos. Mais recentemente, a nova Diretiva Europeia do Copyright veio definitivamente consagrar a importância do domínio público como um espaço de acesso às obras que não pode ser privatizado. Como se referiu no artigo, é a primeira vez que o domínio público é legalmente protegido na Comunidade Europeia. Trata-se de um passo importante que poderá vir a ser seguido por outras iniciativas legislativas que procurem em mais adequado equilíbrio entre o objetivo das leis do copyright e do direito de autor, o equilíbrio entre os interesses dos criadores e os interesses do público.
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A RELAÇÃO EXISTENTE ENTRE A MORTE EM O TRATADO DO DIREITO NATURAL DE TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA E A ARTE DE MORRER DE VIEIRA

A RELAÇÃO EXISTENTE ENTRE A MORTE EM O TRATADO DO DIREITO NATURAL DE TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA E A ARTE DE MORRER DE VIEIRA

Meu contato com a obra Tratado do Direito Natural permitiu verificar o ideário de um homem que tinha por objetivo construir um texto demonstrando como é viver com decência, podendo portanto ser merecedor do cargo que almejava, professor na Universidade de Coimbra, mentalidade idealizada não só por Gonzaga, mas por quase todos os intelectuais brasileiros que viviam na colônia, mentalidade não só para professor, mas sim para acesso às novas tendências as quais Portugal recebia de outros países, através dos estrangeirados. Ideário este que possibilita, não só ficar nos fatos episódicos, mas que me abriu caminho para uma análise temática, salientando assim o tema morte, verificando como uma obra demonstra as atitudes coletivas de um povo em um determinado local e em geral, pois as concepções cristãs estão presentes em vários locais.
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Amor e morte: transformando sexualidades na Rússia (1914-1922) — Outubro Revista

Amor e morte: transformando sexualidades na Rússia (1914-1922) — Outubro Revista

fofocando ruidosamente sobre as joias das pessoas e sobre o fato de que Egor´ havia furtado o perfume de Nikita. Depois, ao se deparar com uma multidão de revolucionários na avenida Nevskii, reunidos em torno de um jovem à beira da morte, os marinheiros efeminados são forçados se confrontar com a estranha transformação pela qual haviam passado. Eles então doam suas bijuterias para ajudar o pobre rapaz. A noite de bebedeira e brigas acaba por dissipar os vestígios do estilo de vida bizarro e, em seguida, os dois retornam ao mar para servir em novos navios. Uma charge da época trata desse mesmo tema na revista Novyi Satirikon, de Averchenko. A imagem fantástica dos legendários marinheiros da Frota do Báltico transformados em “maduras damas da sociedade” – alvo frequente de zombaria no Novyi Satirikon antes da revolução – revela como a leitura de Averchenko sobre como esses marujos auxiliares da tomada de poder dos bolcheviques haviam conseguido transpassar as fronteiras de classe e, a partir daí, também as de gênero.
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