Poesia portuguesa

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Ao terror do outro respondemos com pedradas cegas: notas sobre o desconforto na poesia portuguesa contemporânea

Ao terror do outro respondemos com pedradas cegas: notas sobre o desconforto na poesia portuguesa contemporânea

É nesta exacta medida que a poesia portuguesa contemporânea é agónica: ela constrói­se como dicção crítica, ela interroga e questiona as representações do senso comum, ela faz­se pela mão de autores implicados que convocam leitores impli cados, ela é transgenérica porque rejeita as diferenciações impostas e prefere associar a intensi dade lírica à extensão narrativa, ela propõe mundos e formas de vida alter na tivos face à hegemonia económico­financeira, ela adopta uma atitude de repre sen tação funcional naturalista e de fantasia concretizante. O que explica também que esta gera ção de poetas tenha aliado o seu talento individual a uma tradição bastante dis tinta da que imperara nas últimas décadas do século XX, convocando para si autores como Jorge de Sena e Cesariny, Alexandre O’Neill e
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MIGRAÇÃO SILENCIOSA MARCAS DO PENSAMENTO ESTÉTICO DO EXTREMO ORIENTE NA POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

MIGRAÇÃO SILENCIOSA MARCAS DO PENSAMENTO ESTÉTICO DO EXTREMO ORIENTE NA POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

3 Outra distinção que pode ser apontada prende-se com a comunicação de valores éticos ou espirituais. O Budismo Zen – que se transformou na matriz espiritual a que os poetas que aqui estudaremos mais atendem – define a sua natureza a partir de uma resistência ao formalismo, ao dogmatismo e à habilidade dos raciocínios. O chamado «zen puro» ou «zen do nada» é praticado sem qualquer intenção ou objectivo. Por outro lado, em Verdadeiro Zen, Taisen Deshimaru defende que, segundo o ideal budista, «o que é verdadeiramente humano é natural» (2003: 148) e essa premissa pode, desde logo, estar na base de posturas muito diferentes relativamente à vida: «A atitude oriental é muito calma, sem actividade exterior, sem agressividade; ela é negativa e passiva. Procurando a paz interior, o ideal oriental não é tornar-se um herói de renome, mas um santo pacífico. (…) O ideal oriental não é o poder, mas a harmonia, não são os desejos, mas a ausência de desejo. É o que diz o zen: “sem desejo; nada”» (ibidem: 150, 151). A atitude ocidental, por seu turno, foi-se definindo, ao longo de séculos, como combativa, empreendedora, apaixonada, inquieta, perseguidora de um destino. Coloca toda a ênfase na acção, no particular, contrastando com a universalidade que desponta no ideal budista, centrado no não-ser. O Zen não se revê nos típicos conceitos de culpa, arrependimento e perdão da tradição judaico-cristã, nem o satori, que é o seu único fim, se atinge mediante a adoração, o temor ou a fé a uma divindade suprema. Estas características reflectem-se também na própria tradição poética; estamos a falar de princípios doutrinários que, como veremos, influem profundamente na vida quotidiana e na actividade artística dos grupos que os professam. Constitui, pois, um verdadeiro desafio para um poeta do Ocidente optar, na escrita, pela via do silêncio, do esvaziamento de si, da cessação das emoções. Por isso, quando a poesia portuguesa vai ao encontro das imagens e dos símbolos associados à espiritualidade oriental, a tensão entre estas duas posturas identitárias não pode ser ignorada.
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Dez anos de poesia portuguesa : heterodoxias, confluências e revisões

Dez anos de poesia portuguesa : heterodoxias, confluências e revisões

disputa são, a nosso ver, José Tolentino Mendonça, Pedro Mexia, João Luís Barreto Guimarães e, como atrás dissemos, Luís Quintais. Uma última redefinição ou caracterização da poesia portuguesa mais nova coube a Luís Carmelo, o qual, em 2005, publica A Novíssima Poesia Portuguesa e a Experiência Estética Contemporânea (Europa- -América, Lisboa, 2005). Nesse estudo, Luís Carmelo, para além de se debruçar sobre o quotidiano, o pendor realista e certo estilo banal da “novíssima poesia portuguesa”, tratava de compreender como essa poesia dialogava com uma experiência estética da contemporaneidade: do microrealismo ao diálogo da poesia com os ‘media’; da hiper-realidade a uma poética da “realucinação”, sem esquecer o próprio enquadramento cultural e certas referências ao universo cibernético e técnico (tópicos essenciais em Quintais, por exemplo), e também da ciberpoética a que muitas das novas vozes acediam. Para que conste, são alvo de abordagem, no ensaio de Carmelo, os poetas Adília Lopes, Al Berto, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Inácio, Carlos Alberto Machado, Carlos Bessa, Carlos Poças Falcão, Carlos Matias, Carlos Saraiva Pinto, Daniel Faria, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Fernando Luís Sampaio, Fernando Pinto do Amaral, José Miguel Queirós, Jorge Melícias, José-Emílio Nelson, Jorge Gomes Miranda, José Luís Peixoto, José Oliveira, Jorge de Sousa Braga, José Tolentino Mendonça, Luís Quintais, Manuel Gusmão, Paulo José Miranda, Pedro Mexia, Rosa Alice Branco, Rui Coias, Rui Costa, Rui Pires Cabral, Vasco Gato e Vindeirinho. A todos estes poetas correspondia, nessa edição, uma pequena tábua bibliográfica com os títulos publicados até à data, 2005. Note-se que, quer a partir do número 12 da Relâmpago, quer através da reunião dos “poetas sem qualidades”, quer mesmo por meio dos volumes de ensaio de José Ricardo Nunes e de Luís Carmelo, sem esquecer a antologia organizada por Reis-Sá, é possível estabelecer um determinado número de autores recorrentes naquelas publicações. Ora, em 2010, após essa institucionalização da geração de 90 (e ela está feita, sem qualquer dúvida, como se comprova pelo número de poetas- -críticos que hoje asseguram as
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Visualização de Recensão: VIDRO DO MESMO VIDRO: TENSÕES E DESLOCAMENTOS NA POESIA PORTUGUESA DEPOIS DE 1961 — ROSA MARIA MARTELO

Visualização de Recensão: VIDRO DO MESMO VIDRO: TENSÕES E DESLOCAMENTOS NA POESIA PORTUGUESA DEPOIS DE 1961 — ROSA MARIA MARTELO

A hipótese que Rosa Maria Martelo coloca nesta obra é a de que as práti- cas textualistas dos anos 60 e as práti- cas realistas dos anos 70 e seguintes possam ser concebidas como continua- doras de duas tradições modernistas: por um lado, a tradição vanguardista anti-representacional mallarmeana do primeiro modernismo; por outro lado, a tradição simbolista anti-romântica de ascendência baudelairiana. Cada uma delas teria sido reactivada naquelas duas práticas contemporâneas como parte do repertório estilístico disponí- vel dentro da crítica geral das repre- sentações que defi ne a modernidade e a pós-modernidade. Tratar-se-ia por- tanto de duas formas alternativas de mobilizar o arquivo literário moderno e modernista, deslocando e repolarizan- do a escrita contemporânea face a essas tradições da modernidade. Escreve-se na página 40: «Ao nível mais essencial não parece possível observar diferenças profundas entre o textualismo vanguar- dista dominante na poesia portuguesa dos anos 60, assente na exploração neo- -modernista de uma linguagem poética ostensivamente diferenciada, e a recusa dessa poética nas vanguardas seguin-
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Diálogos e confrontos na poesia portuguesa pós-60

Diálogos e confrontos na poesia portuguesa pós-60

Sobre a op~ao da intertextualidade na poesia portuguesa contemporanea, podemos situar como exemplo a escrita poetica de Nuno JUdice, que se constroi pela leitura critica do[r]

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Autorretratos na Poesia Portuguesa do Século XX

Autorretratos na Poesia Portuguesa do Século XX

Também aqui os olhos e o olhar são importantes: «a ardência árabe dos olhos», 167 «a lágrima pronta», «o olhinho malandro, concupiscente / e plurirracial, lesto na mirada». Não é apenas o olho da «ave de presa», do poema «Então, Rui?», mas também o da «curvatura / terna e feroz», o das lágrimas, sugerido igualmente nesse poema. As lágrimas são em «Auto-retrato» expressamente mencionadas como parte do «pendor / para os extremos», em que se admite a comoção e a agressividade, o riso e a angústia. Estas características são assumidas pelo poeta como um sinal do que tem «[d]e português». As três primeiras estrofes do poema, de sete, seis e cinco versos, numa tendência de rarefação que tende para o dístico final, começam com esta premissa anafórica: «De português [tenho]». As características apontadas são sobretudo relativas à descrição psicológica e moral do sujeito, numa enumeração de possíveis lugares-comuns relativos à identidade portuguesa, sendo que cada estrofe apresenta três tópicos principais. Há, nesta sequência de ideias sobre o que o eu tem de português, uma gradação regressiva, que vai da nobre «nostalgia lírica» à vulgar «má-língua», e que termina de forma abrupta com o anticlímax do último dístico: «De suíço tenho, herdados de meu bisavô, / um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.» Neste dístico, o sentido de «tenho» é alterado: do ter em si, do ser, passa para o estar na
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O olhar responsável e a ética da comunicabilidade na poesia portuguesa pós-modernista

O olhar responsável e a ética da comunicabilidade na poesia portuguesa pós-modernista

Longe do angelismo das Elegias de Duíno que viria a deixar marcas em Sophia de Mello Breyner Andresen ou em Eugénio de Andrade, longe ainda da tradição dos “rilkinhos” que, com a sua inconfundível ironia cáustica, Jorge de Sena viria a denunciar num ensaio de 1953, e longe até do repúdio impiedoso da “sentimentalidade imediata” manifestado na passagem a que alude, o que em Rainer Maria Rilke interessou a Ruy Cinatti foi sobretudo – como a Sena, que lera a mesma edição francesa da obra – o entendimento da actividade criadora como “ansiosa escuta do mundo”, realizada pela “consciência poética” regida por uma especial “expectativa exigente”. No entender de Cinatti, portanto, e desde muito cedo, a poesia só podia fundar-se na experiência, com a dupla implicação espáciotemporal que esse princípio necessariamente exigia: i) a experiência só tem lugar no mundo; ii) não existe experiência que não seja temporal. Ou seja, para Ruy Cinatti, a experiência enquanto fonte da criação poética é, essencialmente, o único ponto onde a Poesia e a História se podem encontrar.
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OS NOVOS SHÂMANES Um Contributo para o Estudo da Narratividade na Poesia Portuguesa Mais Recente

OS NOVOS SHÂMANES Um Contributo para o Estudo da Narratividade na Poesia Portuguesa Mais Recente

apenas o do intimismo transmitido sem tempo, sem eventos, sem o distanciamento do contar também para outrem, enraizado num tempo histórico. Este vínculo é manifesto na produção poética portuguesa dos anos noventa, e já em textos de poesia dos anos oitenta, reflectindo uma necessidade de recuperação e aceitação do passado para poder ultrapassar as fissuras de uma diegese do presente. Tal necessidade está, por sua vez, relacionada com uma reacção não apenas de cariz literário mas também e, talvez, sobretudo, com as determinantes de censura social na ponderabilidade ou na imponderabilidade da psique humana. Ora, uma história, tal como uma melodia, é constituída por uma sequência de eventos - imprevisíveis porque na imprevisibilidade dialógica do «que se segue» está o seu poder de captação e sedução - mas capazes de serem reproduzidos de serem ditos de novo e, sobretudo, contados, uma e outra vez mais, numa renovada e renovadora atitude de reiterada sedução.
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A POESIA PORTUGUESA DO SÉCULO XIX: DE GARRETT A CESÁRIO VERDE

A POESIA PORTUGUESA DO SÉCULO XIX: DE GARRETT A CESÁRIO VERDE

A redenção de Camões, como a dos poetas em geral, é o reconhecimento póstumo e, sobretudo, a poesia em si, cuja força seria capaz de comover o mundo e soerguer uma nação através da memória e, consequentemente, do orgulho nacional. O autor d’Os Lusíadas foi o grande modelo dos poetas românticos portugueses: o exemplo máximo do gênio criador coadunado com o herói sofredor e desditoso, ícone do Romantismo. São notadamente inspirados em Camões também os poemas A pátria, cuja epígrafe é retirada d’Os Lusíadas, e Visão do resgate. O primeiro tem o claro objetivo de bradar contra a decadência de Portugal, conclamando-o a recuperar o brio através da rememoração do passado glorioso que o tornou uma grande nação. O segundo é um canto de louvor religioso que no estilo se aproxima muito da épica camoniana, imprimindo, no entanto, uma liberdade métrica e rítmica mais ao gosto do Romantismo.
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A poesia portuguesa contemporânea

A poesia portuguesa contemporânea

Signo poético na literatura portuguesa contemporânea, Cartu- cho atua no esgarçamento das noções de coerência, unidade, sacrali- zação, completude, plenitude atribuídas à arte. Objeto não-livro, as folhas amassadas fazem circular as idéias de multiplicidade, fluidez, fragmentação, descentramento, diferença, escrita em companhia, escrita do prazer (o prazer de escrever, o prazer de ler), aliadas à não cumplicidade com a produção cultural capitalista. Ao distanciar-se do valor de culto, pela adesão ambígua às leis de mercado (exposição, concorrência), constitui um desafio a essas leis (poemas amarrotados). O leitor é desafiado ao se posicionar diante de poe- mas que se apresentam amassados, na seqüência de uma tradição inscrita na modernidade por Baudelaire (a alusão ao leitor hipócrita). Recupera, ainda, dando-lhe um estatuto estético, o discurso da conversação, degustado/emitido pela boca (bombons/palavras).
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Visualização de “Entre séculos”: para uma abordagem histórico-literária da poesia portuguesa entre o Barroco e a Ilustração

Visualização de “Entre séculos”: para uma abordagem histórico-literária da poesia portuguesa entre o Barroco e a Ilustração

No contexto espanhol, Jesús Pérez Magallón delimitou esse tempo entre 1675 e 1725. Em Portugal, o ponto de partida pode ser definido ao tempo da atividade e formação das redes de intelectuais em torno do 4.º Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses, tendo em atenção os primeiros sinais de receção das Luzes verifica- dos nesse contexto (cf. Calafate, 2001: 11). Marco relevante no plano literário, expressivo da receção do classicismo francês: a tradução de L’art poétique de Boileau pelo Conde em cerca de 1697. Quanto ao término, se tivermos em consideração que a produção crítica de um autor como Francisco de Pina e Melo reflete um pensamento eclético e dá conta de uma postura ambígua face à oficialização da cultura ilustrada, típica dessa fase de transição, é possível estender essa dominante até ao início do reinado de D. José I. O espaço que medeia entre a publicação da obra de Verney (1746) e os primeiros anos de funcionamento da Arcádia de Lisboa (1756) – cuja ação foi decisiva na codificação do neoclassicismo –, constitui um momento fulcral das polémicas da Ilustração portuguesa. Torna-se evidente aí uma afirmação sem rodeios da filosofia e estética das Luzes, objeti- vando-se uma rutura com a ordem cultural barroca num quadro de forte controvérsia.
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Esse humano que foi como um deus grego: Antínoo entre eros e thanatos na poesia portuguesa contemporânea

Esse humano que foi como um deus grego: Antínoo entre eros e thanatos na poesia portuguesa contemporânea

O sujeito poético, que até pode ser identificado com Adriano, centra-se numa série de elementos físicos que observa («cabelos», «ombro», «rosto») para tentar encontrar uma harmonia que o mundo clássico incorpora na poesia de Sophia («ordem», «palavra» «reve- lação dos deuses»), através de uma série de elementos, forças e realidades que se opõem até ao paradoxo («peso nocturno»/«luz diurna», «fogo»/«vidro»), transmitindo a ideia de que essa harmonia ou ordem pode residir também no que é contraditório e que pode fugir à razão. A procura de algo que transcende o sujeito poético é dada na última estrofe pela comparação iniciada com um valor adversativo: Antínoo passa pelo sujeito poético como passamos uma sombra, o que poderá evidenciar que é passar pelo desconhecido, ou pelo que não permite o conhecimento. Ou por outras palavras, a imagem, como cópia, como representação, não permite atingir o conhecimento exacto que seria o da figura viva. De forma semelhante, em Dual, de 1972, na secção II «Delphica», o sujeito poético observador foca o corpo representado na estátua. Depois da ordem, da procura de algum conhecimento, acentua-se a dimensão da deificação da figura em «III (Antinoos)»:
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A presença da mitologia clássica e pensamento filosófico no regresso à Grécia de Sophia M. B. Andresen

A presença da mitologia clássica e pensamento filosófico no regresso à Grécia de Sophia M. B. Andresen

Se nos três primeiros livros de poesiaPoesia I (1944), Dia do Mar (1947) e Co- ral (1950) – Sophia se vira para um tempo vivido, através de uma compreen- são da cadência de infância que unifica um tempo de aliança com o mundo, o tempo em que os dias se extasiavam diante de si próprios, a partir de No Tempo Dividido (1954), e sobretudo no Livro Sexto (1962), ergue-se um tempo fragmentado que é a imagem de um momento histórico em que a liberdade é posta em causa por um regime político opressor. A atitude de Sophia é a de poeta comprometida com o seu tempo. Para ela “o poema não explica, implica.” No discurso proferido a 11 de Julho de 1964, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia Portuguesa de Escritores a Livro Sexto, Sophia defende a intervenção activa do poeta perante o “espantoso sofrimento do mundo”, porque aquele que tem a capacidade de se deslumbrar perante o “espantoso esplendor do mundo”, tem que se revoltar contra o espantoso so- frimento do mundo. “Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno”. 14
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Visualização de Florbela Espanca, Diário. Alternativas modernistas

Visualização de Florbela Espanca, Diário. Alternativas modernistas

Tem-se falado muito (a meu ver, demais) das emoções de Florbela. Esquece-se, entretanto, que essas emoções são, para glosar uma frase conhecida sobre a personagem, também elas “seres de papel”. Isto é, e como veremos seguidamente, são “emoções de linguagem”, cons- truídas sobre aquilo a que a própria Florbela chama, no seu Diário, a sua “necessidade de fazer frases”, curiosamente referindo-se a todas as suas cartas de amor. Esta observação desde logo nos acon- selha cautela na aceitação da leitura espontânea das emoções de uma mulher que traria para a poesia portuguesa uma perspectiva menos cerebral – porque uma coisa é, como vimos Florbela dizer, a expe- riência e outra, muito diferente, a linguagem que a (não) representa. É esta a razão também pela qual se pode igualmente compreen- der mais este ponto decisivo de contacto entre a poesia fl orbeliana e a máscara modernista, tantas vezes não só colocadas em confronto como até consideradas opostas uma à outra. Pensemos na máscara modernista quer na sua vertente auto-derisória e auto-fustigante de Sá Carneiro, quer na desmultiplicação heteronímica que objectiva o desejo de “outrar-se”, no dizer de Pessoa – e poderíamos encon- trar vários fragmentos muito signifi cativos, neste Diário de Florbela, a este respeito. É que também nela, na sua poética, perpassa este mesmo desejo de outridão, que é na realidade a verdadeira causa da incapacidade de viver e, na verdade, de escrever (cf. de novo a última entrada desta obra). É por esta razão que a poética (neste caso, a poé- tica diarística) de Florbela Espanca não pode ser lida isoladamente, argumentando-se o seu carácter absolutamente singular. Este carác- ter singular existe, mas não pode ser compreendido se lido fora do ethos modernista daqueles que foram, de uma ou outra forma, os seus contemporâneos.
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Resenhas

Resenhas

Com dedicatória a seus alunos de Letras ao longo de trinta anos de magistério, Verso com verso assinala, principalmente, uma trajetória de vida ligada à leitura crí- tica e inteligente da poesia portuguesa, uma vida de leitor entre versos “como uma maneira de conversação e/ou de conversão entre sujeitos e objetos de cultura” (p. 11). O livro reúne 35 textos com origem diversa: ensaios, artigos, comunicações, recen- sões críticas, já anteriormente publicados (desde 1976) em revistas portuguesas como Colóquio/Letras, Relâmpago, a brasileira Poesia Sempre, ou em obras coletivas e outros veículos acadêmicos de circulação mais restrita. Dividido em sete seções, ca- da seção até a quinta se organiza em torno de um “gerador textual” que atua como um elo entre os diferentes textos reunidos: por exemplo, uma cantiga de amigo na primeira seção, Camões na segunda, Antero de Quental na quarta. A sexta, com o maior conjunto de artigos (dezenove), inicia-se com um texto panorâmico da poe- sia portuguesa no século XX (1920-1970) e se estende com estudos sobre vários poe- tas, desde Pessoa/Campos a João Miguel Fernandes Jorge. O livro se fecha com a sétima seção, na qual se problematizam as relações de recepção literária de poetas como Luiza Neto Jorge e Adília Lopes, e num segundo ensaio, a leitura do Roman- ceiro da Inconfidência de Cecília Meireles e a grande questão que atravessa todo o livro: “Escrever Portugal no Brasil?”. Há muito se fazia necessária a reunião desse material plural para facilitar os leitores de um autor que é uma voz brasileira de im- portância inegável nos estudos literários portugueses, especialmente na área de poe- sia, exercitando um ponto de vista analítico se pode sintetizar com uma palavra-cha- ve: deslocamento ou, em suas próprias palavras, “a interlocução é o ponto ótimo em que fixo o meu modo de ler”.
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Alda Lara e o que falta fazer: as achegas dos periódicos

Alda Lara e o que falta fazer: as achegas dos periódicos

limitados pela sua condição de filhos de dois continentes; pela sua estrutura psicológica, onde se funde o lirismo do branco e a sensualidade do negro; pelas necessidades do ambiente onde nascem, crescem e morrer. Numa palavra, portugueses condicionados pelo clima e pela terra de cabo verde. daí a sua poesia própria, os seus cantares, as suas danças. dizer que a poesia de cabo verde não é portuguesa, é cola- borar numa falsidade, é não ver que não havia possibilidades de tirar o cabo-verdiano da sua terra e do meio da sua gente, para fazer poesia. Ela está precisamente aí, – onde se dançam as mornas, onde se perdem as crioulas, onde se sofrem as secas… Por isso e por tudo também, a poesia cabo-verdiana, senhora embora de uma feição própria, e característica, é incontestavelmente poesia portuguesa.
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Poesia Experimental Portuguesa: Contextos, Ensaios, Entrevistas, Metodologias: Introdução do organizador

Poesia Experimental Portuguesa: Contextos, Ensaios, Entrevistas, Metodologias: Introdução do organizador

Caracterizado pela abertura e pelo livre acesso de recursos, este projecto permitiu garantir a preservação e organização de um espólio literário fundamental para compreender as textualidades e as materialidades lite- rárias emergentes. Entre outros, foram estes os objectivos propostos (e alcançados) pelo projecto: contribuir para a disseminação e o conhecimento da poesia portuguesa da segunda metade do século XX; motivar novas proposições teóricas e novas metodologias de investigação, ligando a investigação teórica com o de- senvolvimento de produtos hipermédia e de arquivos digitais; contribuir para a preservação de documentos literários frágeis e/ou raros; distribuir e dar a conhecer, gratuitamente, em escolas, universidades e institui- ções culturais, representações digitais da produção literária experimental, criando condições para políticas
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Revistas contemporâneas de poesia em Portugal: algumas cenas críticas

Revistas contemporâneas de poesia em Portugal: algumas cenas críticas

Entretanto, do lado português, também na década de 90, mais precisamente em 1997, iniciou-se uma nova revista de poesia intitulada relâmpago, editada pela recém- então formada Fundação Luis Miguel Nava, em homenagem ao poeta desse nome, falecido de forma trágica dois anos antes, com direção de poetas como Gastão Cruz, nome consagrado, Fernando Pinto do Amaral, poeta e crítico mais jovem, além do ensaísta Carlos Mendes de Sousa, um especialista também em literatura brasileira, sobretudo Clarice Lispector. Em seu Conselho Editorial, a participação ainda de ou- tros poetas como Paulo Teixeira e, mais tarde, Luis Quintais. A relâmpago continua a existir em formato impresso e neste ano (2018) já publicou o número 39, voltada sobretudo para a poesia portuguesa, mas com alguma atenção a poetas e ensaís- tas estrangeiros, especialmente brasileiros. Cada número da revista é temático, ora dedicando-se a um poeta português específico, ora discutindo alguma proposta te- órica ou crítica que, por seu interesse, provoque o diálogo entre poetas, ensaístas e críticos. Busca divulgar constantemente a produção poética portuguesa, mas sem objetivos vanguardistas ou de polêmica. Seu perfil, na verdade, se delineia na gran- de atenção à produção lírica moderna e contemporânea, confrontando a tradição do moderno com as demandas do contemporâneo. É uma revista indubitavelmente referencial para conhecer a poesia publicada em Portugal ao longo do século XX (sen- do assim uma espécie de repositório da tradição moderna) mas também acolhe ou discute, no XXI, alguns caminhos novos no seguimento do que se vai publicando em Portugal e fora.
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Photomaton & Vox: a construção da poética de Herberto Helder

Photomaton & Vox: a construção da poética de Herberto Helder

& Vox converge para a primeira definição, constituindo-se como um aparato ou su- porte para entendermos a escrita de Herberto Helder. São elementos dessa poética herbertiana o significado de poesia – “Os poemas são apenas equivalências do crime, ou são então eles mesmos um acto explosivo no próprio centro do mundo” (45); a natureza da palavra e das imagens construídas nos poemas – “Delas irrompe a cega proliferação das imagens” (60) e a mão que escreve – “Um autor está entregue a si mesmo, corre os seus (e apenas os seus) riscos” (71).Para entendermos o sentido de Photomaton & Vox, é impreterível que comecemos alcançando a ideia de poesia em seu autor. recordemo-nos de Sophia de Mello breyner andresen, contemporâ- nea de Herberto Helder e que também escreve as suas artes poéticas, compostas de aspectos estéticos e temáticos recorrentes nas suas poesias. conforme coloca José augusto Mourão no ensaio “a arte poética de Sophia de Mello Breyner andresen (do elogio da ascese e da nostalgia do signo)”, “não podemos deixar de notar na nostal- gia mítica do reino da poesia, na obstinação da escrita em relação ao real, na ascese e na rejeição do artesanato” (1984: 205). a poesia portuguesa pós-Fernando Pessoa emerge com produções que elaboram novas formas de usar a linguagem e de pensar a própria criação poética. “O mundo é a linguagem como invenção”, diz-nos Herber- to Helder em Photomaton & Vox, e é a partir dessa ideia que se constrói o sentido de uma poética elaborada pelo poeta, o que leva Manuel Gusmão a comentar acerca do assunto:
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And this landscape is full of sunshine on this side: the post-74 poetry of Joaquim Manuel Magalhães, Adília Lopes, and Luís Quintais

And this landscape is full of sunshine on this side: the post-74 poetry of Joaquim Manuel Magalhães, Adília Lopes, and Luís Quintais

And this landscape is full of sunshine on this side: the post-74 poetry of Joaquim Manuel Magalhães, Adília Lopes, and Luís Quintais André Carneiro RAMOS * Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) RESUMO: Trata-se de uma reflexão sobre três modos de resistência/insistência da poesia portuguesa contemporânea, apesar e depois da ditadura salazarista. Para tanto, levarei em conta o “olhar alegorista” evocado por Rosa Maria Martelo num ensaio sobre a poesia de Herberto Helder (2009), que me ajudará a refletir sobre esse identitário e poderoso espólio poético gerado a partir de tempos tão nefastos. Mais uma vez, nomes como Joaquim Manuel Magalhães, Adília Lopes e Luís Quintais representam a impossibilidade de se desconsiderar a dimensão provocativa que todo ato poético contém e anuncia. Sintonizados nessa premissa, nomes como Gastão Cruz, Walter Benjamin, Ida Alves, Sofia de Sousa Silva, Luís Maffei e Georges Didi- Huberman me levam a crer que a aproximação sugerida entre os poetas elencados muito bem representa o delineamento de fecundas possibilidades de compreensão/releitura das obras literárias envolvidas.
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