Ponciá Vicêncio

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A MEMÓRIA E ANCESTRALIDADE PRESENTE NO ROMANCE PONCIÁ VICÊNCIO DE CONCEIÇÃO EVARISTO

A MEMÓRIA E ANCESTRALIDADE PRESENTE NO ROMANCE PONCIÁ VICÊNCIO DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Abstract: This article intends to draw up a study on the rescue of memory and ancestry present in the novel Ponciá Vicêncio by Conceição Evaristo, during the character’s life in the unfolding of the plot, taking into account the marks of ancestry that manifest themselves in Ponciá, since childhood up to adulthood. The objective is to identify how the ancestral memory of Ponciá Vicêncio is rescued during the novel by Conceição Evaristo. We have as a theoretical basis for the issues of mymoria Le Goff (1990), which helps us understand how personal and social memory is built over the years; Oliveira (2006), who deals with african worldview in Brazil, where he discusses a Brazilian Afrodescendant philosophy; besides Duarte; Fonseca (2003). For this, a documentary and bibliographic analysis was performed in a brief synthesis of the work seeking to understand the concepts of memory, ancestry, which motivated Ponciá to leave for the capital, in addition to seeking to understand how the ancestral memory present in Conceição Evaristo’s novel occurred.
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Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane, e Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo:...

Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane, e Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo:...

This paper intends to investigate the literary writings by female authors in the works Ventos do Apocalipse (2006), by Paulina Chiziane, and Ponciá Vicêncio, by Conceição Evaristo, in order to establish a dialogue with the cultural and perceptive experience space where libertarian images of the feminine conscience in the Mozambican and Brazilian contexts are generated. The option to study works that were produced in diverse social and politic environments reflects the preoccupation to demonstrate that women are still searching ways to be heard in the literary field, by developing speeches and strategies whose roots lie in the feminine experiences lived in Mozambique and Brazil. In this paper we have searched a multidisciplinary basis, by means of cultural studies, mainly historical, sociological and even psychoanalytic reflections; and we have chosen this approach because we consider the feminine literary writing a relevant niche in which women reinvent their plural identity and perform the role of agents that arise awareness and lead to changes in the gender social relations of the contexts in which their works are embedded.
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Open Fêmeamatriz: a maternidade em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

Open Fêmeamatriz: a maternidade em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

This work aims to analyze the novel Ponciá Vicêncio (2003), by Conceição Evaristo, focusing on maternity as the main analysis category along with its representations on women characters: Ponciá, Maria Vicêncio and Nêngua Kainda. To do so, a study will be done about these characters from the feminine authorship in question, considering the smoldering need of critical-theoretical debate on maternity condition in public and private sphere, based on the feminist criticism view and the cultural studies. It is noticed the necessity discussion about the formation of the women/mother/daughter archetypes that constructs the social and subjective imaginary in patriarchal society, to expose how the feminine and the maternity are presented in the novel, then subvert this oppressive model and deconstruct stereotypes generated in woman-mother-black. In Ponciá Vicêncio, it is observed a representation of maternity and feminine fertility beyond biology that takes shape as a form of feminine resistance and empowerment of its characters. Thus, to clarify this discussion, I use above all, the considerations of Del Priore (2009), Stevens (2007), Badinter (2011) and Nascimento (2008), about maternal condition; Alberti (2004), related to memory and orality; and Prandi (2001) on the representation of mythology of deities in this narrative. Moreover, considering the place of speech occupied by this writer, it is necessary to discuss conceptual issues of the African-Brazilian literature, enjoying the studies of Duarte (2014), as well as the critical clash on post-colonialism and cultural studies from authors as Appiah (1997), Bhabha (2013) and McClintock (2010).
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Diáspora africana, identidade negra e memória coletiva em  Ponciá Vicêncio , de Conceição Evaristo

Diáspora africana, identidade negra e memória coletiva em Ponciá Vicêncio , de Conceição Evaristo

Ponciá Vicêncio é um romance escrito por Conceição Evaristo e publicado pela primeira vez em 2003. A autora nasceu em 1946, em Belo Horizonte, é Mestra em Literatura Brasileira, pela PUC-Rio, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Estreou na literatura em 1990, com textos publicados na série Cadernos Negros, do Grupo Quilombhoje. Ela é poeta, romancista, contista e ensaísta. Em 2015, ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria contos, pelo livro Olhos d’água. Em 2017, foi vencedora, na categoria Prosa, do Prêmio Faz Diferença. Cresceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte e teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, aos 25 anos. As questões biográficas são impor- tantes porque estão presentes na literatura de Conceição Evaristo, que apresenta uma escrita carregada de memória e de “escrevivência”, 1 seu modo de legitimar e de dar con-
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Violência, arte e resistência em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

Violência, arte e resistência em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

RESUMO: A obra ficcional de Conceição Evaristo aborda diversos aspectos da violência, destacando especialmente o racismo, o machismo e a desigualdade social. Além disso, a autora sugere que a arte literária, que está intimamente associada à elaboração da memória coletiva, oferece uma possibilidade de revisão crítica da história da diáspora africana e da formação da sociedade brasileira a partir do ponto de vista das populações afrodescendentes. Neste artigo, considerando esses temas, propomos uma análise do romance Ponciá Vicêncio (2018), observando que as expressões artísticas – o canto e a cerâmica – são apresentadas no enredo como formas de resistência à violência. Demonstramos também que a própria produção artística da escritora – a literatura – se posiciona de maneira engajada na luta contra a discriminação e a opressão, manifestadas até mesmo no cânone literário tradicional. A partir de considerações teóricas de Marilena Chaui (2017), Eduardo de Assis Duarte (2013) e Paul Gilroy (2012), entre outros, esta análise conduz à constatação de que o romance selecionado associa a arte literária à elaboração da memória do passado violento e à luta pela justiça social.
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PONCIÁ VICÊNCIO, DE CONCEIÇÃO EVARISTO, E A CONDIÇÃO DA MULHER NEGRA NO BRASIL

PONCIÁ VICÊNCIO, DE CONCEIÇÃO EVARISTO, E A CONDIÇÃO DA MULHER NEGRA NO BRASIL

A vida na cidade grande não foi benéfi ca para Ponciá Vicêncio nem para Biliza assim como para milhares de outras mulheres negras que saíram do campo em busca de melhores condições de vida na cidade grande e não conseguiram. Dessa forma, mesmo abolida a es- cravidão em 1888, Ponciá Vicêncio e Biliza são duas mulheres negras, pobres e periféricas, excluídas do tempo do progresso da cidade. Embora estejam dentro do cenário urbano, só conseguem ser vistas como subalternas: moram fora dos grandes centros e ocupam posições desprestigiadas. Diante disso, apenas as lembranças dos familiares, do rio e do barro amenizam a dor na alma que a Ponciá sente. Ou seja, o presente não traz nenhuma felicidade; apenas no passado e na família se sente amparada.
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O paratexto do tradutor como importante elemento para a inteligibilidade da obra traduzida: o caso de Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo / The Translator’s Paratext as an Important Element for the Intelligibility of the Translated Work: The Case of Co

O paratexto do tradutor como importante elemento para a inteligibilidade da obra traduzida: o caso de Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo / The Translator’s Paratext as an Important Element for the Intelligibility of the Translated Work: The Case of Conceição Evaristo’s Ponciá Vicêncio

O romance Ponciá Vicêncio, da escritora afro-brasileira Conceição Evaristo, foi publicado em 2003 pela editora Mazza, com uma reimpressão em 2005 e uma edição de bolso lançada em 2006, pela mesma editora, por conta das indicações do livro como leitura obrigatória para o vestibular de instituições mineiras como a Universidade Federal de Minas Gerais e o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, entre outras. Embora o romance tenha tido três tiragens no Brasil, Conceição Evaristo e sua obra ainda não são muito conhecidas do público brasileiro em geral. Mesmo na academia, no universo das letras, não só o conceito de literatura afro-brasileira é questionado por alguns, como também Conceição Evaristo e sua obra geralmente não alcançam grande visibilidade fora dos estudos de gênero e etnia. Ainda assim, é relevante o fato de que o romance em questão tenha sido selecionado por editoras estrangeiras para ser traduzido para as línguas inglesa e francesa.
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Open A Escrevivência de Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio:encontros e desencontros culturais entre as sões do romance em português e em inglês

Open A Escrevivência de Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio:encontros e desencontros culturais entre as sões do romance em português e em inglês

Esta condição de não aceitação do sobrenome Vicêncio imposto a toda sua família há gerações provoca um questionamento que nos leva à reflexão de Fanon sobre o desejo psíquico do sujeito colonial: “o que quer o homem negro?” Parafraseando Fanon, perguntamo-nos, o que quer nossa protagonista, Ponciá Vicêncio, como mulher, negra e pobre, ao rejeitar o nome que carrega? Qual o seu anseio? Pensamos que diferentemente do sujeito colonial, na reflexão de Fanon (2008), Ponciá não deseja o lugar do colonizador; nem deseja tampouco o lugar do subalterno; porque, se “existir é ser chamado à existência em relação a uma alteridade, seu olhar ou locus” (Bhabha, 2007, p.76), Ponciá exige esta “verdade”, com sua atitude de resistência, de não reconhecimento deste Eu que não escolhera, desse olhar que desautoriza o outro a chamá-la por seu nome, preferindo, ser chamada de “nada”. Ademais, este sentimento de ser “nada” é muito mais revelador, se consideramos que no ‘nada’ está implícito o ‘tudo’ e o ‘todo’, e que este ‘nada’ existente é na verdade o conjunto de toda inquietação de Ponciá por causa das questões que mencionamos anteriormente. Por isso, este “nada-tudo”, de certa forma, ocupa um espaço tal em seu interior que pode justificar o tamanho de sua inquietação. Se, como diz Bhabha (2007, p. 76) , “a questão da identificação é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem”, na narrativa de Evaristo, Ponciá não assume a identidade que lhe fora imposta, porque esta produz uma imagem distorcida da que ela almeja ter, impedindo seu auto- reconhecimento. Por este motivo, ela rejeita “a demanda da identificação”, rejeita “ser para um Outro”. Na verdade, ela se recusa ser para o outro, naqueles termos de sujeito colonizado e invisibilizado.
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Relações de espaço e memória em  Ponciá Vicêncio

Relações de espaço e memória em Ponciá Vicêncio

Ponciá alegrou-se com sua primeira aquisição na cidade: um barraco. Entre seus sonhos, estava idealizado um novo lar. Lar que ela desejava intensamente. Lar que seria melhor que seu primeiro lar. Porém, no decorrer da obra, a protagonista demonstra claramente que esse lar não estava idealizado como um barraco numa área urbana miserável, com um marido apático e longe de sua família. O barraco tornou-se o lugar em que Ponciá morava, mas que não sentia como seu lar, como o abrigo de seus sonhos. Bachelard (2008), nesse particular, aponta “o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz” (BACHELARD, 2008, p. 26). Saindo de sua casa e ocupando um novo espaço, Ponciá Vicêncio demonstra certa inquietude quando afloram suas memórias. A obra Ponciá Vicêncio (2003) expressa a imagem de sonhos e devaneios da personagem relacionados a seu primeiro lar no fragmento em que descreve que
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Esboço de análise das formas literárias dos romances ‘Ponciá Vicêncio’, de Conceição Evaristo, e ‘Um Defeito De Cor’, de Ana Maria Gonçalves

Esboço de análise das formas literárias dos romances ‘Ponciá Vicêncio’, de Conceição Evaristo, e ‘Um Defeito De Cor’, de Ana Maria Gonçalves

Este artigo esboça uma análise das formas literárias dos romances Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, e Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. A hipótese é que mesmo apresentando processos sociais fundamentados na violência cotidiana contra os negros, referentes ao Brasil do século XIX e começo do XX, bem como sobre a África do século XIX, estes dois romances revelam, mediante a análise de suas formas, elementos para pensar a produção cultural brasileira contemporânea. Referimo-nos a emergência de uma nova dinâmica na dialética entre ordem e desordem, que não tem mais um impulso de superar este conflito pelo polo da ordem, como na análise clássica de Antonio Cândido (1993) acerca da dialética da malandragem. Agora, busca-se acirrar o conflito entre os dois polos, levando a exposição sistemática da violência ao primeiro plano como uma forma de confrontar a desigualdade social. Isto foi caracterizado por João Cezar de Castro Rocha (2004) na denominada dialética da marginalidade.
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Espaço, memória e agência em Ponciá Vicêncio

Espaço, memória e agência em Ponciá Vicêncio

Reflexões sobre a importância da política de localização e da memória na formação identitária parecem ter estado bastante presentes na concepção do romance Ponciá Vicêncio. Tal como bell hooks, Conceição Evaristo defende uma troca radical do olhar para se pensar a educação e a literatura segundo uma perspectiva afro-brasileira. Em ensaio publicado em Literatura, história, etnicidade e educação, aproveitando o caráter lúdico que a capoeira tem hoje, mas sem deixar de rememorar o fato de que sua gênese está na história de resistência dos africanos e de seus descendentes escravizados no Brasil, observa como a inversão da postura normal do corpo por parte do capoeirista, quando este toca o chão com a cabeça, provoca uma percepção diferenciada do mundo que o cerca. Reportando-se à famosa assertiva de Souza acerca da consequência do giro corporal na capoeira – “A inversão da perspectiva altera a percepção da vida ao redor e cria novo ponto de vista”– (SOUZA apud EVARISTO, 2011, p. 45), Evaristo prossegue para raciocinar que somente a partir da mudança de localidade que provoque pensamento critico anti-hegemônico será possível
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ELOS SIMBÓLICOS NO ROMANCE PONCIÁ VICÊNCIO DE CONCEIÇÃO EVARISTO

ELOS SIMBÓLICOS NO ROMANCE PONCIÁ VICÊNCIO DE CONCEIÇÃO EVARISTO

in the study was bibliographic research, based on reading and fiction of scientific articles, books and scientific journals, re- lated to the subject of study. Ponciá Vicêncio addresses multiple symbologies of experiences inherited from the slave period and postcolonialism. This article is part of the research project on African Literatures, as a scientific initiation volunteer, en- titled Literaturas de Língua Portuguesa: interculturalidade e descolonização, which works on the recognition of literature that has been silenced for so long, and which provides contact with a universe. rich yet little explored from the discourse of African diaspora literature in Brazil. Therefore, the objective of this paper is to analyze the memory and ancestry marks and the strength of the symbols coming from the African culture present in the novel Ponciá Vicêncio, by Afro-descendent writer Conceição Evaristo, focusing on the study of the importance of ancestral memory, as conservation of the past and Afro- Brazilian cultural identity. Through the analysis of the historical, social, political and discursive context of the work, we notice the power of the literature written by black authors, a litera- ture that brings out the richness of the culture marked by the suffering of a forced diaspora and that questions the official history that omitted so much. or barely counted the black man in his records.
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Referências intermidiáticas  em Ponciá Vicêncio e Um defeito de cor/

Referências intermidiáticas em Ponciá Vicêncio e Um defeito de cor/

Tal foi a “liberdade” alcançada por Ponciá Vicêncio, a protagonista do romance de Conceição Evaristo, e sua família. Pouco ou nada tinham de seu, além do corpo exaurido pelo trabalho na roça. Como nos velhos tempos, até seu sobrenome é o do antigo dono. A terra onde labutam fora pretensamente doada à época da Abolição, com a condição de que continuassem todos a trabalhar para o senhor, o Coronel Vicêncio. De fato, tudo continuava nas mãos dos brancos “que se fizeram donos desde os passados tempos” (2003, p. 62). “Os negros eram donos da miséria, da fome, do sofrimento, da revolta suicida” (2003, p. 82). No passado, muitos de seus filhos, nascidos do “ventre livre”, tinham sido vendidos. (2003, p. 50). Como fruto do trabalho embrutecedor, a família, nominalmente livre, conta apenas com uma choupana de sapé, trapos para cobrir a nudez, utensílios rudimentares e a fome mal saciada.
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Movimentos negros e a fragilização territorial: uma revisitação histórica no romance Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

Movimentos negros e a fragilização territorial: uma revisitação histórica no romance Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

Ao pensar a diáspora, Hall conclui que povos negros descendentes do sequestro em África têm suas rotas marcadas por uma exclusão que permanece presente ao longo da história; o autor afirma que “suas ‘rotas’ são tudo, menos ‘puras’” (HALL, 2003, p. 31). Quando pensamos a imigração do núcleo familiar de Ponciá para a cidade, ainda que essa nova rota tenha sido voluntária, percebemos que ela é fruto de uma situação degradante anteriormente estabelecida. De acordo com a historiadora Denise Rollemberg (1999, p. 43), nenhuma imigação acontece se são garantidas ao sujeito em questão uma vida “minimamente digna”. Para a autora, o migrante é socialmente levado a escolher esse caminho devido a uma pressão econômica que assume um caráter social (1999, p. 42). As violências da migração, para ela, “estão presentes onde há pobreza, miséria e desemprego, fatores que motivam os processos migratórios” (1999, p. 43). No romance de Conceição Evaristo, no entanto, as personagens, na cidade, não encontram o sucesso almejado. Na primeira noite que passa nesse local, Ponciá dorme na rua, passa fome e frio e, no dia seguinte, pede emprego para diversas pessoas até receber uma indicação. Após conseguir o contato de uma senhora, em cuja residência Ponciá acabaria trabalhando como doméstica, ela passa alguns anos juntando dinheiro para poder sair da casa da patroa. Assim, mesmo que seu trabalho fosse assalariado, ela seguia vivendo em “terras” alheias, trabalhando em troca de comida, moradia e um baixo salário mensal.
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"Ponciá Vicêncio",de Conceição Evaristo: um Bildungsroman feminino e negro

"Ponciá Vicêncio",de Conceição Evaristo: um Bildungsroman feminino e negro

Após migrar e juntar o dinheiro suficiente para comprar um quartinho na periferia da cidade, Ponciá regressa à vila Vicêncio em busca de sua mãe e de seu irmão. Depois de refazer a viagem desconfortável e dificultosa e andar horas e horas a pé até o povoado, ela encontrou apenas a casa vazia, pois sua mãe e irmão haviam migrado também. Esta mesma decisão foi tomada por muitos outros moradores da vila Vicêncio. Na cena do livro, quando Ponciá reflete sobre seus sete abortos, ela lembra de sua infância pobre e diz que não gostaria que os filhos repetissem a vida da mãe. Nessa recordação, Ponciá, na voz do narrador, nos revela em seu pensamento que essa pobreza era a condição de todos no povoado. As conseqüências da escravidão persistiram nos descendentes de escravos da fazenda dos Vicêncio. Nessa reflexão, a personagem acaba admitindo que vir para a cidade era a solução encontrada por muitos diante da falta de perspectiva na vila: “os negros eram donos da miséria, da fome, do sofrimento, da revolta suicida. Alguns saíam da roça, fugiam para a cidade, com a vida a se fartar de miséria, e com o coração a sobrar esperança” (PV, 82, grifo meu). A escolha do verbo “fugir” mais uma vez traz a metáfora diaspórica para o texto de Conceição Evaristo.
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AS PONTAS DE UMA ESTRELA: POÉTICAS DO SILÊNCIO EM MACABÉA E PONCIÁ

AS PONTAS DE UMA ESTRELA: POÉTICAS DO SILÊNCIO EM MACABÉA E PONCIÁ

Na tradição literária não é diferente. As reflexões de Regina Dalcastagnè (2008) a respeito das relações raciais e seus estereótipos na literatura contemporânea apontam para um silêncio em torno da questão que dialoga com a pesquisa de Perrot. As autoras nos conduzem para o esclarecimento da dimensão aqui tratada. O silêncio da negação é duplo: silenciam-se as mulheres, silenciam-se as discussões sobre tamanha ausência. O desdobramento desse silêncio é grave, uma vez que podemos detectar ausências que fariam falta numa discussão de um projeto de nação mais justo. Dalcastagnè destaca que a literatura é um espaço privilegiado para a manifestação de experiências dos grupos ditos minoritários ―pela legitimidade social que ela ainda retém. Ao ingressarem nela, os grupos subalternos também estão exigindo o reconhecimento do valor de sua experiência na sociedade‖ (DALCASTAGNÈ, 2008, p. 108). Macabéa e Ponciá Vicêncio são alguns dos exemplos utilizados para discutir a questão da negação das mulheres subalternas na história da literatura brasileira. Interessante pontuar a confluência entre a estatística referente à ampla predominância de homens como narradores – a exemplo do personagem Rodrigo S.M., criado por Lispector para, acreditamos, já evidenciar esse lugar de fala privilegiado – e a predominância deles na formação do discurso historiográfico. Ao falar das personagens mudas ou quase, a pesquisadora da UnB insere Macabéa em seu arsenal. Comparada à personagem Mané de O paraíso é bem bacana, de Sant‘Anna, Macabéa impõe sua presença ―calada às outras falas que se tencionam. O próprio narrador é de algum modo constrangido, já que nos é dado perguntar sobre suas intenções ao dizer o que diz sobre a personagem‖ (2008, p. 100). Esse silêncio diante da personagem nos obriga a pensar em quem está falando sobre ela e a questionar a veracidade sobre o que fala. Enquanto Macabéa mobiliza pelo silêncio, Ponciá o faz pela dor. Essas são formas de tecer um ―brado de revolta‖ que expõe os lugares e seus estereótipos já mencionados. Dalcastagnè também vê a mudez da protagonista como um sinal de denúncia,
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS E LINGUÍSTICA ANA MARGARITA BARANDELA GARCÍA

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS E LINGUÍSTICA ANA MARGARITA BARANDELA GARCÍA

Em Cuba e no Brasil, assim como em alguns países da América Latina, não se pode falar de cultura sem ter em consideração os elementos de origem africana que estão presentes na música e dança, nas festas populares, na culinária, no teatro, nas artes plásticas, e também na literatura. O objetivo deste trabalho é analisar a representação do sagrado de raízes africanas em quatro romances latino-americanos, que são: O compadre de Ogum (2006), do brasileiro Jorge Amado; Del amor y otros demonios (2004), do colombiano Gabriel García Márquez; Como un mensajero tuyo (1998), da cubana Mayra Montero; e Ponciá Vicêncio (2006), da brasileira Conceição Evaristo. Analiso, nos três primeiros, a presença do sagrado e do profano e a forma como os narradores utilizam a ironia como estratégia para inverter a hegemonia das religiões. Foi possível observar a existência, nesses três romances, de personagens híbridos, os “mensageiros”, que se movimentam fazendo uma ponte de união entre dois mundos aparentemente conflitantes. Com o propósito de observar como o mito yoruba permeia os personagens das narrativas contemporâneas de autoria feminina, comparei as obras Como un mensajero tuyo (1998) e Poncia Vicêncio (2006). Embora nessas duas obras os orixás apareçam de forma menos ostensiva, eles não enfraquecem, pois os personagens reescrevem esses mitos no texto literário outorgando um papel de destaque às figuras femininas.
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DA SINA DE CAMINHAR EM CÍRCULOS

DA SINA DE CAMINHAR EM CÍRCULOS

Como Ponciá Vicêncio subverte a lógica do gênero, Conceição Evaristo delineia um original e interessante cronotopo na sua obra. O enredo do romance perfaz uma feliz inter-relação entre fatos his- tóricos e vivências individuais. Entretanto, a autora – para ficar em um universo terminológico bakhtiniano – carnavaliza a estrutura do romance de formação. Daí que as transformações contextuais ocor- ridas revelam-se promissoras na superfície, mas débeis e ineficazes nas camadas mais profundas das engrenagens sociais. Acompanhan- do a genealogia de uma família de etnia negra – que pode ser consi- derada metonímia do povo afro-brasileiro –, a autora deixa entrever que as mudanças ocorridas após a Abolição da Escravatura soam bastante restritivas e meramente burocráticas, pois, ao fim e ao cabo, o sistema que gera a exploração do negro pelo branco continua ina- balável em sua complexa e sofisticada estrutura. Passado e presente, no fundo, se igualam. Já no nível da vivência pessoal, a trajetória da personagem Ponciá Vicêncio, entre idas e vindas no espaço, vai e volta no tempo: a mulher estática esterilmente recorda. Passado de
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A FORMAÇÃO IDENTITÁRIA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA EM PONCIÁ, DE CONCEIÇÃO EVARISTO E VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO DE MIA COUTO

A FORMAÇÃO IDENTITÁRIA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA EM PONCIÁ, DE CONCEIÇÃO EVARISTO E VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO DE MIA COUTO

Maria Vicêncio, agora de olhos abertos, contemplava a filha. Lá estava a sua menina única e múltipla. Maria Vicência se alegrou, o tempo de reconduzir a filha à casa, à beira do rio estava acontecendo. Ponciá voltaria ao lugar das águas e lá encontraria a sustância, o húmus para o seu viver. [...] Andava como se quisesse emendar um tempo ao outro, seguia agarrando tudo, o passado-presente-e-o-que-há-de vir. E do tempo lembrado e esquecido de Ponciá Vicêncio, uma imagem se presentificava pela força mesma do peso de seu vestígio: Vô Vicêncio. [...] Lá fora, no céu cor de íris, um enorme angorô multicolorido se diluía lentamente, enquanto, Ponciá Vicêncio, elo e herança de uma memória reencontrada pelos seus, não se perderia jamais, se guardaria nas águas do rio (EVARISTO, 2003, p. 127-128).
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Conceição Evaristo: póscolonialidade, vida urbana e exclusão social

Conceição Evaristo: póscolonialidade, vida urbana e exclusão social

Num determinado momento da narrativa, mesmo sabendo que não pode retornar à fazenda sem conquistar seus objetivos, ‘sem vencer na vida’, Ponciá resolve visitar os familiares, com o objetivo de fortalecer-se novamente. Depois de anos de muito trabalho, ela tira uns dias de folga e vai encontrar suas raízes; ao chegar à antiga casa, não encontra ninguém. A sensação da personagem ao encontrar a casa vazia, com apenas alguns pertences deixados para trás, é de um desconsolo enorme: “ela não podia ficar ali, em casa, sem a mãe, o pai, o irmão e até sem o avô. De noite, estiveram com ela o tempo todo, mas de dia, quando Ponciá percebeu, quando viu, tudo estava vazio. Não suportava viver a ausência deles, no jogo de esconde-aparece que eles estavam fazendo. ” (EVARISTO, 2003, p. 58). A grande verdade é que, naquele momento, Ponciá percebe a importância de suas raízes familiares para sua identidade e para sua vida. Quando resolve sair andando pelo povoado, ela entende algo que até então não era possível compreender: “As crianças, os jovens, as mulheres, os homens, as velhas e os velhos, imagens de um passado que se presentificava aos olhos de Ponciá Vicêncio, à medida que a moça caminhava. Ela não tinha percebido que já vinha padecendo de uma saudade que era de muito e muito tempo” (idem, p. 59). No final daquela viagem, Ponciá percebera que um pedaço de si havia ficado naquela casa, outro pedaço estava com a mãe e o irmão (onde quer que eles estivessem) e só uma pequena parte continuava com ela; era por causa disso que ela sentia um vazio tão grande.
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