Preliminares: Antonio Candido e a crítica literária no Brasil

Top PDF Preliminares: Antonio Candido e a crítica literária no Brasil:

A modulação da ideia de “formação do Brasil” na crítica literária: continuidades e divergências entre Antonio Candido e Roberto Schwarz

A modulação da ideia de “formação do Brasil” na crítica literária: continuidades e divergências entre Antonio Candido e Roberto Schwarz

RESUMO: Categoria de grande importância na vida intelectual brasileira, a ideia de “formação do Brasil” guarda relação profunda com os projetos de moder- nização nacional que se foram estabelecendo no país, sobretudo, a partir da década de 1930. Tendo em vista que os diferentes projetos de modernização nacional possuem divergências significativas entre si, reduzi-los a um modelo único seria uma “abstração violenta” (SAYER, 1987). Por outro lado, ao as- sumirem certa tarefa histórica de “fazer o país”, permitem-nos pensá-los em conjunto. Não é por acaso, portanto, que tal noção figure, em título ou “em espírito”, em alguns dos textos mais importantes do pensamento social brasi- leiro. No caso da crítica literária, ela é central na modulação do pensamento de dois de seus agentes de maior prestígio: Antonio Candido e Roberto Schwarz. Normalmente associados pela continuidade de seus métodos e avaliações crí- ticas, procurarei neste trabalho discutir e historicizar a maneira pela qual estes críticos acabam por mobilizar um cabedal metodológico comum, associado à ideia de “formação”, mas apontam para horizontes históricos distintos e, as- sim, apresentam diferenças das mais significativas entre seus trabalhos. Dessa forma, algo da visão consagrada de Schwarz como continuador do trabalho de Candido é posto em discussão.
Mostrar mais

18 Ler mais

O PROBLEMA DA DIALÉTICA ENTRE FORMA E CONTEÚDO NA CRÍTICA LITERÁRIA DE ANTONIO CANDIDO

O PROBLEMA DA DIALÉTICA ENTRE FORMA E CONTEÚDO NA CRÍTICA LITERÁRIA DE ANTONIO CANDIDO

O que estamos reivindicando, pois, é que, do ponto de vista metodológico, assentado sobre os pilares da crítica dialética materialista, os avanços da concepção de forma de Antonio Candido sejam estendidos igualmente para os textos não realistas. Nesse sentido, o próprio crítico já nos oferece pistas para esse caminho em um ensaio infelizmente ainda pouco estudado pelos epígonos da crítica dialética no Brasil, a saber, “Realidade e realismo (via Marcel Proust)”, de 1983. Nesse pequeno ensaio, Candido parte de um argumento bastante instigante ao questionar a formalização estética do mundo: “talvez a realidade se encontre mais em elementos que transcendem a aparência dos fatos e coisas descritas do que neles mesmos. E o Realismo, estritamente concebido como representação mimética do mundo, pode não ser o melhor condutor da realidade” (CANDIDO, 2004b, p.135). Tomando como base a perspectiva de Auerbach (2004), Candido aqui está postulando uma compreensão mais ampla e mais profunda de realismo, fundamentada numa concepção de forma literária como totalidade que incorpora tanto a estrutura quanto o processo. É esse conceito de forma o responsável pelo juízo de Candido segundo o qual Proust se revela mais realista do que os irmãos Goncourt, por exemplo, neste caso não pelo olhar que enxerga na técnica o acúmulo de detalhes, mas pela visão de que os detalhes adquirem seu verdadeiro significado na articulação com o decurso temporal que age sobre eles, permitindo, assim, que a especificidade do pormenor revele as leis que o organizam.
Mostrar mais

13 Ler mais

A vida social das formas literárias : crítica literária e ciências sociais no pensamento de Antonio Candido

A vida social das formas literárias : crítica literária e ciências sociais no pensamento de Antonio Candido

Janeiro -, não havendo menção direta à Cadeira de Literatura Brasileira da FFCL-USP, os dados apresentados por Candido a ela, sem dúvida, se referem: “No Brasil, em pleno século XX, ao se iniciar fase nova da cultura superior, as universidades não discriminam da portuguesa a literatura nacional [...] No ano de 1939, funcionaram, pela primeira vez nossa histórica cultural, cátedras superiores de literatura pátria. Os decretos incluíram-no currículo de duas sub-seções: a de Língua Neo-Latinas e a de Letras Clássica. No primeiro currículo, os alunos deveriam estudá- las na 3ª, isto é, última série; no segundo, na 1ª série. Geralmente, os encarregados reúnem as duas turmas em duas aulas semanais, mais duas de seminários, a cargo do Assistente; e a isto se tem resumido o estudo da literatura brasileira” (Candido, 2000b, p. 235). E conclui: “não tem havido ‘ensino’, mas apenas ‘aulas’ de literatura brasileira no ensino superior” (Idem, p. 235). Dividindo a literatura em duas frentes, a criação, “que é a sua principal e razão de ser” e a exegese, “que a prolonga e auxilia a desempenhar o papel que lhe compete”, Candido destaca o papel da segunda, “cuja função é estudar, esclarecer e integrar a primeira no complexo da cultura – obra da crítica sob os seus mais variados aspectos: história e crítica literária, história das ideias etc. Conjunto que constitui, no todo ou na parte, a por alguns chamada ciência da literatura” (Idem, p. 236). “Sem ela, a criação não encontra quadros, perde alguns de seus mais sólidos estímulos e não consegue transformar-se em fator eficiente de ação cultural nem manter acessa a chama da tradição” (Idem, p. 236). Como medidas corretivas às deficiências apresentadas pelos cursos universitários de literatura brasileira, Candido propõe, ao encerrar o artigo, as seguintes iniciativas: “a primeira coisa a se fazer é instituir de fato um “curso” de literatura brasileira, e não reduzir o seu ensino a matéria complementar do estudo da língua portuguesa. Três anos de currículo normal e mais cursos de aperfeiçoamento. Discussão do problema crítico, estudos de teorias literárias, da evolução das ideias, do condicionamento histórico-social [...] Preparo de teses, bolsas de estudo para pesquisas nos Estados. Um vasto programa, que faria da literatura nacional, como é seu direito, o núcleo central das secções de Letras das atuais Faculdades de Filosofia, e não uma das muitas “matérias” perdidas num canto do currículo” (Candido, 2000c, 242).
Mostrar mais

291 Ler mais

Antonio Candido e Mário de Andrade (anotações preliminares)

Antonio Candido e Mário de Andrade (anotações preliminares)

a crítica literária: o deslizamento da postura participante para a subordinação da crítica ao viés partidário, com “o aparecimento de pontos de vista políticos como critério de julgamento estético”, ou, mais precisamente, “a passagem do critério mais vasto da ideologia para o sectarismo estreito dos partidos”. (CANDIDO, 2002, p. 40). Com base nesse motivo, Candido pretende reorientar sua perspectiva crítica, considerando que “é chegado o momento de um ponto de vista mais literário e menos político – no tocante ao critério de interpretação –, e de um maior liberalismo – no que se refere ao julgamento”. (CANDIDO, 2002, p. 41). Como observa Vinicius Dantas em nota ao texto, no momento em que o artigo foi escrito, um mês antes da queda de Vargas e com partidos de esquerda se organizando, abria-se um horizonte de democratização, contexto que ajudaria a explicar as novas formulações. Por fim, Candido salienta que “toda obra de valor é literária antes de ser sociológica ou política ou interessada ou desinteressada” (CANDIDO, 2002, p. 41) e declara que pretende, a partir dali, “tratar a literatura cada vez mais literariamente, reivindicando a sua autonomia e sua independência, acima das paixões nem sempre límpidas do momento”. (CANDIDO, 2002, p. 43).
Mostrar mais

26 Ler mais

Antonio Candido e a fortuna crítica de Guimarães Rosa: a recepção de grande sertão: veredas

Antonio Candido e a fortuna crítica de Guimarães Rosa: a recepção de grande sertão: veredas

O objetivo desta tese consiste em verificar a evolução da fortuna crítica de Grande sertão: veredas. Os pressupostos do enfoque escolhido inscrevem-se na perspectiva histórica que rege a concepção de sistema literário teorizada por Antonio Candido em Formação da literatura brasileira, de 1959. Tomando como ponto de partida os escritos do mesmo Antonio Candido sobre Guimarães Rosa, o propósito é analisar as relações de descendência e de renovação que com eles estabelecem duas linhagens da crítica: os ensaios sociológicos, historiográficos e políticos e os ensaios de estrutura, composição e gênero. Foram examinadas as fases que se sucederam na recepção crítica de Grande sertão: veredas e o processo de internacionalização das leituras do romance, em particular sua recepção na França. Fez-se o levantamento de alguns dos conceitos mais salientes do projeto crítico de Antonio Candido e seus desdobramentos na crítica literária brasileira. Os escritos de Antonio Candido sobre Guimarães Rosa analisados são: as resenhas de Sagarana e de Grande sertão: veredas, o ensaio pioneiro sobre o romance, ―O homem dos avessos‖, ―Jagunços mineiros de Cláudio a Guima rães Rosa‖, ―Literatura e subdesenvolvimento‖ e ―A nova narrativa‖. No que se refere aos ensaios sociológicos, historiográficos e políticos sobre o romance, foram investigados: As formas do falso, de Walnice Nogueira Galvão, grandesertão.br, de Willi Bolle, Lembranças do Brasil, de Heloisa Starling, O Brasil de Rosa, de Luiz Roncari. Quanto aos ensaios de estrutura, composição e gênero, destacam- se: ―Grande sertão: a fala‖ e ―Grande sertão e Dr. Faustus ‖, de Roberto Schwarz, ―O mundo misturado: romance e experiência em Guimarães Rosa‖, de Davi Arrigucci Jr., ―Veredas-Mortas e Veredas-Altas: a trajetória de Riobaldo entre pacto demoníaco e aprendizagem‖, de Marcus Mazzari. Metodologicamente, este trabalho orienta-se pelos estudos comparativos, mas com uma especificidade: o objeto de comparação é a crítica e não a criação literária. São apurados o método crítico e os fundamentos de cada ensaio em sua integridade. Entendendo que tais leituras interagem no tempo, procuramos desvendar o movimento dialético de aproximação e distanciamento operado entre elas.
Mostrar mais

40 Ler mais

Em busca dos fundamentos: Auerbach como uma das fontes da crítica literária no Brasil

Em busca dos fundamentos: Auerbach como uma das fontes da crítica literária no Brasil

Europa, e apenas esboçado pela filologia alemã – decorresse da combinação de realizações avança- das da história literária européia com o que havia de mais atrasado, isto é, a história da literatura na- cional, o que resultou numa análise original e insti- gante. Contudo, o projeto de Auerbach de uma his- tória literária fundada na perspectiva de uma cultura ocidental se contrapõe muito conscientemente às histórias nacionais da literatura. Creio que essa distância em relação a Candido é tão significativa quanto a proximidade que Waizbort vislumbra. Não considero que Candido estivesse realizando, ao menos em Formação da literatura brasileira, algo que na Europa e nos Estados Unidos seria ainda um projeto para o futuro. Não me parece que seu livro resolva o impasse presente no âmbito das histórias literárias, o que, absolutamente, não diminui a im- portância fundamental do livro. Sustento que há, apesar da originalidade e da grandeza analítica de Formação da literatura brasileira, uma forte presença da idéia de história literária como história da nação, herdada do século XIX. Se Candido concebe a li- teratura nacional como uma manifestação do espí- rito do Ocidente, o que importa é, sobretudo, a forma nacional que esse espírito adquire. Um dos movimentos fundamentais do livro é justamente a passagem da “literatura comum”, do período co- lonial, que impedia uma distinção rígida entre a lite- ratura portuguesa e a da colônia, para uma literatu- ra nacional independente. Formação é a história da independência literária brasileira. Se há um jardim comum das musas, e se a literatura brasileira, nas palavras de Candido, é galho secundário do arbus- to português, é bom lembrar que “galho” pode significar um ramo que, retirado de um arbusto, dá origem a uma nova planta. Formação é uma história da literatura nacional, e se ela recorre a métodos e concepções inovadores, como a construção de uma totalidade que não é completude, não deixa de tra- zer as marcas de uma tradição que se desgastava. Isso não significa que se trata de uma história literá- ria composta inteiramente nos moldes do século XIX; Candido não substancializa a identificação entre literatura e nação como seria típico da pers- pectiva romântica. O processo de formação da li- teratura nacional é pensado sob outros ângulos e apresentado como uma construção, e não como decorrência de um espírito brasileiro ou de uma alma popular que se expressaria nos textos. Nesse sentido, é evidente que o livro de Antonio Candido havia desenvolvido para redefinir uma história da li-
Mostrar mais

5 Ler mais

Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido.

Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido.

Distanciada dos embates políticos, centrada na elucubração e intervenção intelectual, a militância assumida por Candido reivindicava uma posição inde- pendente e autônoma da disciplina e do conteúdo doutrinário exigidos pelos tradicionais partidos políticos de esquerda. Nos rodapés, suas incursões políticas privilegiam a bibliografia internacional sobre o marxismo e temas relacionados com a Revolução Russa e seus principais protagonistas. Resenhando, em 25 de fevereiro, o livro Hitler cannot conquer Russia, de Maurice Hindus – vertido para o português, numa tradução “muito má e revisão abaixo da crítica”, por A Resistência Russa –, Candido adverte, de saída, o leitor: “nessa semana não farei crítica literária”, pois, há “certos livros que nos arrastam violentamente para fora da literatura, em pleno jogo das ideias vivas e dos acontecimentos” (Candido, 1943c). Ele destaca a espantosa transformação econômica que projetou o país da “extrema carência econômica, de uma agricultura primi- tiva, de uma indústria apenas esboçada e limitada ao aspecto manufatureiro ao segundo lugar no mundo na produção pesada e a um desenvolvimento agrícola que é o mais perfeito da terra” (Idem). A eficiência do modelo rus- so – reconhecida “mesmo pelos que não partilham da doutrina oficial do governo de Moscou” – parece-lhe “devida a dois fatores: compreensão clara da forma de organização econômica compatível com as condições nacionais e execução dos seus princípios dentro de um regime político que mergulhava solidamente nas tradições do país” (Idem).
Mostrar mais

30 Ler mais

O conceito de forma literária de Antonio Candido

O conceito de forma literária de Antonio Candido

ABSTRACT:The paper seeks to clarify Antonio Candido’s concept of literary form. For this, two texts will occupy the center of the analysis: the text of literary theory “Crítica e sociologia: tentativa de esclarecimento”, inserted in Literatura e sociedade, and the text of literary criticism “Dialética da malandragem”, that is part of the book of essays O discurso e a cidade. We will see to what extent theory and criticism, when confronted, can illuminate the ideas that gui- ded the reasoning of the critic, who, having experienced the tran- sition from the old historicist perspective to the formalist approach of the literary text, made his own way. We will show that Candido formulated a notion of heterodox form or structure, which can only be unraveled by comparing it with the notions from the theoretical currents with which the author was familiar, such as the naturalism of Sílvio Romero, the Hegelianism of the young Lukács, the forma- lisms and structuralisms in general, the Marxism and the English social anthropology.
Mostrar mais

18 Ler mais

Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

A invasão da narrativa do memorialista pelo verdadeiro roman à clef que constitui a história de José Egon – Zegão nos volumes que cobrem a vida estudantil do autor – é apenas um dos muitos espantos dessa obra a tantos títulos surpreendente. Bastante citado em outras partes deste estudo, não se alongará neste ponto o discurso sobre o valor literário de Nava e sua obra, anotando-se, porém, um ensaio de Antonio Candido de que se falará mais à frente, como fonte para seu reconhecimento e compreensão do seu empreendimento. No livro Balão cativo o memorialista recorda suas andanças pelas ruas e morros do Rio de Janeiro em companhia do tio, o também escritor, Antônio Salles. Nesses périplos, importantíssimos na formação do jovem provinciano que se conforma no homem de que surgirá o escritor temporão, percorrem redações e livrarias, confeitarias e salas de conferência, ruas e becos da Capital da República, dando-lhe a oportunidade do convívio social com os escritores da época. Ao rememorar esses encontros, lembrar esses homens e mulheres e retratá-los no seu memorialismo, Nava se junta a uma série de escritores como Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Vieira Fazenda, Luiz Edmundo, Vivaldo Coaracy, Lima Barreto, Medeiros e Albuquerque, entre outros, para formar o grupo daqueles que instituíram um memorialismo da cidade Rio de Janeiro, centrado na vida urbana e na forma específica de sociabilidade que gera. Dentro desse memorialismo, se destaca o que Broca 95 nomeou ―vida literária‖ no período da chamada Belle époque carioca. A partir dessa primeira aparição a vida literária será presença pode-se dizer
Mostrar mais

245 Ler mais

ANTONIO CANDIDO E O PIONEIRISMO NA CRÍTICA ROSIANA

ANTONIO CANDIDO E O PIONEIRISMO NA CRÍTICA ROSIANA

O fundamento de tal vertente obviamente é o exame das relações históricas, sociais e políticas do Brasil, recriadas no romance, que têm o jaguncismo como fato e símbolo. Sabiamente, para definir esse “sistema”, o crítico toma a fala de uma personagem, Zé Bebelo, que queria sanear o sertão, acabando com a jagun- çagem, “a sobre-corja”, antes de tornar-se jagunço e chefe de jagunço: sem ela, não se veria “‘o chefe encomendar para as eleições as turmas sacripantes, de- sentrando da justiça, só para tudo destruírem, do civilizado e do legal!’” (ROSA apud CANDIDO, 1971, p. 127).
Mostrar mais

18 Ler mais

Antonio Candido - O Romantismo No Brasil

Antonio Candido - O Romantismo No Brasil

influiu como escola de análise política e pensamento moderno, de acentuado cunho liberal. Reivindicando o direito de crítica, exerceu uma espécie de fiscalização lúcida em relação aos atos do governo e preconizou as medidas necessárias ao nosso desenvolvimento, inclusive o fim da escravidão e o deslocamento da capital para o interior, a fim de expandir a civilização. Vendo de maneira correta que a mudança da Corte para o Rio de Janeiro estava dando ao Brasil o lugar principal na Monarquia, foi favorável à união com Portugal até que os acontecimentos mostrassem a necessidade da separação, que adotou como conseqüência lógica da sua campanha. À história da literatura ele interessa não apenas como representante de um momento no qual se esperavam do intelectual nítidas definições ideológicas, mas devido à qualidade do seu estilo de admirável precisão e sobriedade, dotado de uma solidez que o libertou dos defeitos de ênfase e afetação, tão correntes na prosa brasileira.
Mostrar mais

57 Ler mais

Oswald de Andrade e a antropofagia na crítica formativa de Antonio Candido

Oswald de Andrade e a antropofagia na crítica formativa de Antonio Candido

78 Foi com o sorriso fino que o Sr. Antônio Candido encerrou o seu artigo de domingo. "Mas não será isso uma questão de gerações?"... Traduzindo, quer ele dizer que a geração de 22, que me deram de presente, "esquece frequentemente no entusiasmo do ataque, que o fundamento ético da crítica é a análise justificativa". Tomo com todo respeito esse período que é uma joia de fórum, e vou mostrar como a análise que acaba de fazer de minha obra o Sr. Antônio Cândido é, ao contrário, um modelo de leviandade carrancuda. Vou apenas por à frente do seu professoral azedume a crítica serena e minuciosa, refletida e ilustre, de outro professor, o Sr. Roger Bastide, sobre o meu primeiro livro. A autoridade que invoco, não é a do catedrático de Sociologia da Faculdade de Filosofia, de quem o Sr. Antonio Candido é o assistente. É a do crítico mesmo, o crítico interessado, culto e constante que produziu entre todos, aquele estudo magistral sobre a paisagem em Machado de Assis. Diz o Sr. Antônio Candido: "Feliz como solução técnica, Os Condenados são um romance falho como criação de personagens, como expressão de humanidade." Afirma o Prof. Roger Bastide: "Nesse sentido (do sentimento amoroso brasileiro) Os Condenados ocupariam no Brasil uma posição análoga à que ocupa na França Madame Bovary. É o fim de uma certa concepção do amor, é o ponto final de uma época que começou com Machado de Assis. Machado é a introdução do amor romântico no interior da família burguesa; Oswald é a decomposição desse romantismo amoroso." O Sr. Antônio Cândido, multiplicando toda a sua argúcia cultivada no convívio universitário, não viu nada disso (ANDRADE, 1991, p. 67).
Mostrar mais

17 Ler mais

Forma imanente e históriana crítica literária de Lukács, Candido e Schwarz

Forma imanente e históriana crítica literária de Lukács, Candido e Schwarz

Os ensaios de Schwarz levam ainda mais longe a vi- são de que uma especificação social e histórica da forma, conseguida não pela depuração, mas pela consideração das relações as mais variadas entre os elementos de composição das obras, reforça a capacidade de a crítica literária fazer jus à complexidade do material com o qual trabalha. A pergunta de Antonio Candido, citando Lukács, pode aqui ser chamada novamente: os fatores externos importam na análise estética dos romances? A resposta é: só quando se tornam internos, ou seja, quando adquiriram um valor específico na configuração da obra. Esse “externo” vale mesmo para recursos estéticos aproveitados de outros autores, como os de Sterne por Machado, porque externo não é considerado aqui como de fora dos domínios estético ou literário, mas externos à obra, na autonomia de seus significados. Segundo essa visão, o romance constrói o seu próprio mundo (uma proposta de superação das dualidades que ameaçam a forma), mas o constrói com os elementos de uma configuração histórica – vivida, pensada e imaginada – e em relação com ela, o que, ao contrário de enterrá-lo no passado para sempre perdido, favorece a sua atualidade, a sua capacidade ativa (da obra e do passado) de irromper no presente. Assim, para falar com Lukács e com Benjamin, o tempo, a história no romance, não é a condenação ao passado, à corrupção e ao perecimento, mas a afirmação
Mostrar mais

30 Ler mais

A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA E SEU DESEJO DE CRIAR UMA HISTÓRIA DA LITERATURA - DOS AUTORES ESTRANGEIROS A ANTONIO CANDIDO

A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA E SEU DESEJO DE CRIAR UMA HISTÓRIA DA LITERATURA - DOS AUTORES ESTRANGEIROS A ANTONIO CANDIDO

Maior destaque, nessa análise, merece o francês Ferdinand Denis e o seu Resumo da História Literária do Brasil anexo ao Resumo da História Literária de Portugal (1826), com uma postura distinta dos autores que o antecederam. Influenciado pela independência brasileira, Denis separa a literatura brasileira da literatura portuguesa, ressaltando que o país deve ser livre tanto no governo quanto na poesia, e sendo o povo livre a literatura “deve rejeitar as ideias mitológicas devidas às fábulas da Grécia” (Denis, 1978, p. 36). Denis também influenciou a historiografia posterior sendo, nas palavras de Antonio Candido, o fundador da “teoria da nossa literatura segundo os moldes românticos, num sentido que a orientaria por meio século e iria repercutir quase até os nossos dias” (Candido, 2009: 638).
Mostrar mais

11 Ler mais

Recortando Antonio Candido

Recortando Antonio Candido

O resenhista mostra que Bastide tem seus próprios conceitos de estruturalismo – diferentes daqueles vigentes à época, que sofriam o impacto da Linguística e que não receberam a aprovação nem do resenhador nem do resenhado. Estive presente à conferência do primeiro, no III Encontro Nacional de Professores de Literatura, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), intitulada “Literatura-Sociologia” (1976), sobre o romance O cortiço, de Aluísio Azevedo. No evento, predominavam as abordagens estruturalistas, inclusive a de Affonso Romano de Sant’Anna sobre o mesmo romance. O enfoque de Candido destoava, o que levou Romano a publicar no ano seguinte o artigo “Curtição: ‘O Cortiço’ do Mestre Candido e o Meu” (SANT’ANNA, 1977, p. 213-235). No entendimento tanto de Bastide quanto de Candido, a crítica descritiva trabalha apenas a “matéria bruta”, ficando de fora o significado. E concluem: na obra literária “o que interessa não é a estrutura da matéria, nem a estrutura do espírito, mas o processo dinâmico por meio do qual o espírito cria a matéria. Deste modo é possível chegar a sentir a beleza da matéria e a originalidade do criador.” (CANDIDO, 1993, p. 111).
Mostrar mais

25 Ler mais

Homenagem a Antonio Candido

Homenagem a Antonio Candido

Além de sua bem sucedida carreira como professor de literatura no país (Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Universidade de São Paulo), onde também deu aulas de Sociologia, e no exterior (Sorbonne e Yale), realizou uma obra muito significativa – densa, límpida, original – nos setores da crítica, história e teoria literárias, além de uma brilhante e profunda incursão na seara sociológica, como o revelam obras-primas como Formação da literatura brasileira (momentos decisivos), seu trabalho maior, O método crítico de Sílvio Romero, Literatura e Sociedade ( Estudos de teoria e história literária), Tese e antítese, outros livros de ensaios literários, além da tese de Sociologia, Os parceiros do Rio Bonito, Estudo sobre o caipira paulista e a transformação de seus meios de vida 1 .
Mostrar mais

5 Ler mais

ANTONIO CANDIDO, CRIADOR

ANTONIO CANDIDO, CRIADOR

De 1969 até 1990, ano da criação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, manteve-se na graduação o esquema curricular inicial, com pequenas modificações, constituindo sempre um primeiro ano de Introdução aos Estudos Literários e um quarto ano de Teoria Literária e Literatura Comparada, os quais se tornaram semestrais em 1969. Quase vinte anos depois, em 1988, a disciplina de Teoria Literária e Literatura Comparada se desdobrou para se garantir um espaço no currículo de Letras, no qual os alunos tivessem acesso, de um lado, à discussão e sistematização das questões do núcleo central da Teoria Literária, voltado par o problema do modo de ser da obra literária, de sua compreensão crítica e para uma série de assuntos afins, e de outro, à análise e reflexão de problemas específicos da Teoria da Literatura Comparada, campo de estudos literários que passou a ser alvo de um interesse renovado no Brasil, nos anos de 1980. Introdução aos Estudos Literários, então disciplina optativa, exceto para o curso de Linguística, passa a integrar o currículo mínimo de Letras em 1990. Posteriormente, na primeira década do século XXI, outras disciplinas optativas foram implantadas: Correntes Críticas e Literatura e Educação.
Mostrar mais

14 Ler mais

Antonio Candido e a Faculdade de Direito

Antonio Candido e a Faculdade de Direito

Leite Moraes, explica Antonio Candido na introdução, “representa bem as gerações românticas da Faculdade de Direito de São Paulo, das quais tem mui- tas marcas”. Nela ingressou em 1853 e, como era da praxe do convívio acadê- mico, participou da vida literária das Arcadas. Foi um aluno aplicado numa turma integrada por Lafaiete Rodrigues Pereira, que veio a ser um dos grandes juristas brasileiros. Tornou-se um advogado criminalista, político e jornalista de fama. Foi lente catedrático de Direito Penal e deixou marcas no folclore aca- dêmico, inclusive a sua tirada sobre a correlação entre delito e pena: “Na qua- drilha do direito o crime dança de vis a vis com a pena”. O livro, anotado por Antonio Candido com o seu conhecimento do Brasil, é a consequência da no- meação de Leite Moraes para Presidente da Província de Goiás em 1881. É uma narrativa da sua viagem de ida a Goiás e da volta de Goiás por Belém do Pará e de Belém do Pará para São Paulo. Caracteriza-se pelo sentimento penetrante da natureza e pela capacidade de registrar, de maneira expressiva, fatos e costumes apreendidos por uma pessoa, “muito interessado em averiguar tudo, inclusive para poder orientar o progresso, grande miragem dos homens cultos naquele Brasil atrasado e desconhecido”.
Mostrar mais

18 Ler mais

Antonio Candido ou direito à poesia

Antonio Candido ou direito à poesia

assistente de Fernando Azevedo, na cadeira de Sociologia I, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. A primeira tentativa de ingresso na área de Letras se dá em 1957, ao participar de um concurso para o departamento de Literatura Brasileira da mesma faculdade. Embora não tenha obtido a vaga, resultou dela a tese defendida para sua obtenção, que lhe garantiu o título de livre-docente. Surge então sua primeira obra dedicada especificamente à área de Letras: O método crítico de Sílvio Romero. O ingresso na carreira de professor de Literatura Brasileira se dá em 1958, ano em que começa a atuar na Faculdade de Filosofia e Letras de Assis. No ano seguinte, já ocorre a publicação do livro Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, em que se postula a existência de uma vinculação estreita e indissociável entre as várias áreas em que, tradicionalmente, são divididos os estudos literários. O livro apresenta sobre cada texto literário e sobre cada autor estudado uma análise crítica rigorosa e detida, norteada por um método original para a época. A atividade crítica não exclui a formulação de um método teórico e historiográfico que, ao mesmo tempo, regula as análises críticas ali contidas, constituindo uma teoria não só da literatura, como da literatura brasileira especificamente, estabelecendo parâmetros não só para os modelos teóricos, para a atividade crítica, mas, sobretudo, para os modelos que a historiografia literária brasileira conhecia até então.
Mostrar mais

27 Ler mais

Antonio Candido, leitor de poesia

Antonio Candido, leitor de poesia

tal “aspecto para ele perturbador” é assim, de fato (conforme salientei na crítica de Candido publicada nos anos 40), mas considero que possa ser repensado e ampliado (por Moriconi, inclusive) levando-se em conta todos os artigos de Candido aqui ressal- tados, pois (insisto) a “pedagogia do poema” do mestre uspiano ultrapassa o livro de 1987 e vai adquirindo novos matizes reveladores entre 1943 e 2001, devendo por isso ser procurada na totalidade de sua produção crítica, teórica e analítica voltada para a poesia lírica, seja em relação a seus problemas gerais, seja no que concerne aos pro- blemas específicos da poesia brasileira. No que tange a esta, a “pedagogia do poema” de Antonio Candido, através da articulação de seus dois eixos principais, “árcade/ro- mântico” e “modernista” (matizados pelo “eixo intermediário”, mais voltado para o final do século xIx), tem propiciado a várias gerações uma compreensão efetiva da formação e da consolidação da lírica brasileira, além de sólido instrumental de análise e interpretação. é uma “pedagogia” poderosa, sem dúvida, mas alvo de salutares ques- tionamentos atuais (por Moriconi e outros) que põem em xeque as certezas absolutas (e mesmo utópicas) do pensamento e da produção artística moderna e modernista, no Brasil, e que se perguntam o que tal “pedagogia”, dita hegemônica, ainda pode ofere- cer para a compreensão da vasta produção poética brasileira contemporânea, por exce- lência ‘des-centrada’ e desconfiada de qualquer valor dogmático ou canônico.
Mostrar mais

36 Ler mais

Show all 10000 documents...