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A LÓGICA DO DELÍRIO

A LÓGICA DO DELÍRIO

Esse preconceito em relação ao delírio é motivado por princípios apoiados na lógica da Razão Triunfante, que passou a imperar nos meados do século XIX, com o advento do Positivismo, que rechaçava qualquer modo de conhecimento do mundo que não se baseasse nos métodos racionais e experimentais, na observação positiva do real. Contudo, a razão, permeada pelos avanços da Psicanálise, pela investigação do Inconsciente, mais “hospitaleira e expansiva”, no dizer de Bodei (2003, p.16), “[...] mais humilde, mas nem por isso menos rigorosa”, teria condições “[...] de reconhecer os núcleos de verdade [...] dos delírios”. Ainda segundo o pensador italiano, o sujeito delirante é capaz de construir um mundo novo, ao adaptar a realidade a suas exigências, e esse mundo novo “[...] apresenta-se, com frequência, como uma descoberta, porque, para o indivíduo, ele está iluminado por evidências nunca antes observadas e fixado com vínculos de absoluta coerência”. Ou seja: há em todo delírio uma “verdade histórica oculta”, de modo que ele não venha a “representar um vaguear sem destino” (BODEI, 2003, p.128). Em suma: o delírio vem a preencher vazios de significado presentes na vida psíquica, que é descontínua e nem sempre acessível aos métodos racionais.
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As quatro dimensões do despertar - sonho, fantasia, delírio, ilusão.

As quatro dimensões do despertar - sonho, fantasia, delírio, ilusão.

Cabe-nos acrescentar que, dentro dessa perspectiva, o simbólico pode ser defi- nido com o sendo da ordem do duplo sentido , o que é congruente com toda a teoria freudiana da linguagem destacada por Lacan em sua lógica do significante. O extenso segm ento da obra de Freud sobre os pares antitéticos , apresentado em alguns textos princeps com o A significação antitética das palavras primitivas ( FREUD, 1911a/ 1996) e O estranho ( FREUD, 1919/ 1996) , é a evidenciação, na obra de Freud, da binariedade inerente à estrutura do significante que, representando sem pre o sujeito para outro significante, jam ais com parece, a não ser por m eio do par, e, particularm ente, do par antitético ( JORGE, 2000, p.103) . Vê-se, aqui, que o sim - bólico, o cam po do duplo sentido, é o registro que se situa com o o verdadeiro articulador do sentido com o não-sentido, isto é, do im aginário com o real. A operação analítica, no que ela se desenrola no cam po da linguagem , retira toda sua força desse poder do duplo sentido, inerente ao registro do sim bólico, de produzir essa articulação do sentido com o não-sentido.
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Interface entre pensamento obsessivo e delírio: relato de dois casos.

Interface entre pensamento obsessivo e delírio: relato de dois casos.

As nossas dificuldades diagnósticas impuseram-se desde o início: o componente obsessivo-compulsivo, os elementos fóbicos evidentes, além das idéias delirantes já diagnosticadas previamente ao nosso contato com o paciente. Quando pensamos em critérios para o pensamento delirante proposto por Jaspers, senhor A. preenche a todos (certeza subjetiva notável, impermeável à argumentação lógica, conteúdo do relato inverossímil). Claro que, apesar do possível quadro delirante, não cremos que alguém o colocasse no capítulo esquizofrenia. Pelos critérios do DSM-IV, seu quadro pode ser compatível tanto com TOC quanto com transtorno delirante persistente.
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O delírio de negação de Cotard a Séglas.

O delírio de negação de Cotard a Séglas.

paciente, se o situamos muito precipitadamente como outro radical destinado a errar em um mundo que não apresenta mais o menor vestígio de terreno comum com o nosso mundo existencial, corremos o risco de nos encerrarmos numa clíni- ca contemplativa. É justamente por essa razão que podemos afirmar que a clínica do delírio de negação adquire toda sua atualidade quando nos ensina a respeito dos riscos da lógica da transferência na psicose. Poderíamos apresentar de forma diferente essa proposta e afirmar que a chance de uma clínica do sujeito em psi- quiatria situa-se dentro de um movimento que, ao mesmo tempo em que constrói e defende as políticas institucionais, não pode se esquecer da própria história. Esses antigos escritos clínicos também têm seu valor, por terem sido redigidos por médicos que empenharam seu tempo para manter contato com os pacientes e para registrar, com sutileza e estilo, as evoluções, as reversões, os movimentos psíquicos, sempre na tentativa de compreender aquilo que poderia ser modifica- do. Estamos longe do culto, obediente e cego, da clínica instantânea, colhida na urgência da mais “a-teórica” das formas!
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Errância e delírio em andarilhos de estrada.

Errância e delírio em andarilhos de estrada.

andarilho não se choca porque não se confronta, se isola, desinveste o mundo recolhendo-se na solidão do “trecho”. É o sujeito adaptado à dinâmica da atualidade. Vive sem raízes, sem memória, sem saudades do passado ou da terra natal, sem ilusão de progresso ou de melhoria na sua vida, solitário, imediatista, individualista e, sobretudo, errante. Fugindo dos aprisionamentos do sedentarismo e navegando solitário e sem rumo, torna-se morada privilegiada de delírios constituídos na deserção ou num “lugar de fora” de percursos sociais, afetivos e cognitivos sulcados na lógica psicossocial dominante. O delírio pode ser compreendido como expressão de um movimento do pensamento ou da percepção que escapa de um eixo central de referência da subjetividade, um significante central em torno do qual se organizariam as demais significações. Analogamente, os andarilhos também escapam de um lugar identitário – um círculo psicossocial e geográfico no qual se encerra a subjetividade sedentária - para vagar no amplo horizonte de uma subjetividade sem raízes, sem fronteiras, em pleno movimento e sem fixações: uma subjetividade errante, nômade.
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Delírio pós-anestésico.

Delírio pós-anestésico.

Delírio é uma síndrome caracterizada por distúrbio da cons- ciência e alteração de cognição ou percepção, não atribuí- veis à demência prévia. Tem aparecimento agudo, duração de dias a semanas e curso clínico flutuante durante o dia. Considera-se que a atenção está primariamente afetada, fi- cando o paciente pouco atento ao ambiente, com dificuldade para focalizar, manter e fixar a atenção. Seria interessante também ressaltar a diferença entre Delírio e Alucinação. No primeiro ocorre um desvio mórbido da razão contra o qual não vale a experiência, nem a argumentação lógica e em vir- tude do qual o indivíduo se afasta mais da realidade que vê ao seu redor. Na alucinação ocorre o desvio da percepção sem objeto real (ilusão). Geralmente é auditiva. Existem evidên- cias de que o delírio é causado diretamente pelas conse- qüências fisiológicas de uma condição clínica geral, por into- xicação, por drogas, uso de medicações ou por mais de uma causa.
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O espaço do fantástico como leitor das diferenças sociais: uma leitura de “O homem cuja orelha cresceu”

O espaço do fantástico como leitor das diferenças sociais: uma leitura de “O homem cuja orelha cresceu”

De acordo com Todorov, a literatura que tem por fundamento o fantástico possui modos diferentes de trabalhar com a hesitação. Dentre os variados modos, temos dois principais: o fantástico estranho e o fantástico maravilhoso. No fantástico estranho, os acontecimentos parecem ilógicos, porém no decorrer da narrativa recebem uma explicação lógica, como, por exemplo, advindos do delírio, do pesadelo, da loucura ou da embriaguez; no fantástico maravilhoso, o enredo apresenta o sobrenatural sem ser seguido de uma provável explicação natural, lógica; em oposição a uma explicação natural, a narrativa imbuída de um fantástico maravilhoso deve mover o leitor no sentido de uma aquiescência do sobrenatural, ou melhor, no sentido de enxergar no ilógico uma metáfora crítica das situações aparente e ironicamente lógicas da nossa realidade, como no caso do conto de Ignácio de Loyola Brandão, que trabalha com construções fantásticas que têm por fito a reflexão acerca de como a nossa sociedade se comporta diante do “diferente”. O conto é curto e inicia-se com um protagonista inominado, um escriturário, de 35 anos, solteiro, que se encontra fazendo hora extra na firma de tecidos onde trabalha para reforçar o seu salário. A não nomeação é importante para os efeitos de sentido que o conto deflagra, pois o espaço vazio do nome cria uma lacuna que pode alojar qualquer leitor no lugar do escriturário. Lembremo-nos de que esse recurso é muito utilizado nos contos de fadas, ricos em simbologias e metaforizações que permitem analogias com situações reais.
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A negação lógica e a lógica do sujeito.

A negação lógica e a lógica do sujeito.

O tema da Verneinung pode, portanto, ser lido a partir da distinção lógica entre juízos de universalidade e existência, para então se produzir uma virada que lança o projeto de uma lógica psicanalítica. Esse projeto é tematizado pelo discurso do Outro antecedendo o sujeito. O Outro como o lugar no qual se produz tudo o que pode se enunciar, quer dizer, o que constitui o tesouro dos significantes. A função lógica do sujeito surge quando se considera a diferença entre sujeito do enunciado e sujeito da enunciação, portanto, somente pode surgir se a escritura for tematizada como tal. O sujeito é a raiz da função de repetição e a escritura é a colocação em ato dessa repetição, que busca repetir o que escapa, a saber, a marca primeira que desliza fora do alcance. Isto é, o que Freud denominou de recalque primitivo (Urverdrängung).
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Delírio de infestação parasitária e folie à deux: relato de caso.

Delírio de infestação parasitária e folie à deux: relato de caso.

Assim, em paciente que apresente quadro de delírio de infestação parasitária, que viva isolado do convívio social com uma pessoa que apresenta his- tória rica de transtornos psicóticos na família, deve- se atentar para possível ocorrência de folie à deux, pois esses são fatores de risco comprovadamente importantes para o desenvolvimento desse quadro.

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A LÓGICA NO COTIDIANO E A LÓGICA NA MATEMÁTICA

A LÓGICA NO COTIDIANO E A LÓGICA NA MATEMÁTICA

Esse ponto também é chamado atenção por Malta et all (2002). Em seu texto, os autores mencionam que um dos pontos delicados da idéia do aprendizado espontâneo é que muito embora na linguagem matemática as frases sejam construídas da mesma maneira que na linguagem do cotidiano, a lógica pode diferir nos dois casos. Isto é o que acontece em geral quando se analisam frases condicionais com conteúdos do dia-a- dia. O exemplo citado pelos autores é bastante esclarecedor para explicar o tipo de conclusão errada a qual estamos nos referindo.

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O Delírio segundo Freud e Jung: aportes recíprocos e distinções

O Delírio segundo Freud e Jung: aportes recíprocos e distinções

retraimento da libido ao eu e o consequente abandono do mundo exterior. Ao contrário de Freud que tinha grande experiência para com o tratamento das neuroses, tanto Jung como Sandor Ferenczi tinham uma clínica com pacientes afetados por esquizofrenia e por paranoia e realizavam uma discussão constante desses caso com Freud, pelos quais mostrava um grande interesse. Freud, por sua vez, ao escrever o caso Schreber, baseado na biograia do mesmo, avança no entendimento da paranoia, a partir de meticulosa análise do desencadeamento e organização do delírio de Schreber, chegando a traçar sua gramática. Contribuição até hoje considerada fundamental para a clínica para com a psicose paranoica.
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A crise estrutural do capital — Outubro Revista

A crise estrutural do capital — Outubro Revista

Entretanto, a absoluta necessidade de atingir de maneira eficaz os re- quisitos da irreprimível expansão — o segredo do irresistível avanço do ca- pital — trouxe consigo, também, uma intransponível limitação histórica. Não apenas para a específica forma sócio-histórica do capitalismo burguês, mas, como um todo, para a viabilidade do sistema do capital em geral. Pois este sistema de controle do metabolismo social, teve que poder impor sobre a sociedade sua lógica expansionista cruel e fundamentalmente irracional, in- dependentemente do caráter devastador de suas conseqüências; ou teve que adotar algumas restrições racionais, que, diretamente, contradiziam suas mais profundas determinações como um sistema expansionista incontrolável. O século XX presenciou muitas tentativas mal sucedidas que almejavam a su- peração das limitações sistêmicas do capital, do keynesianismo ao Estado intervencionista de tipo soviético, juntamente com os conflitos militares e políticos que eles provocaram. Tudo o que aquelas tentativas conseguiram foi somente a “hibridização” do sistema do capital, comparado a sua forma econômica clássica (com implicações extremamente problemáticas para o futuro), mas não soluções estruturais viáveis.
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Reforma agrária no Brasil: a intervenção do MST e a atualidade do programa de transição — Outubro Revista

Reforma agrária no Brasil: a intervenção do MST e a atualidade do programa de transição — Outubro Revista

O MST, em sua referida proposta de reforma agrária, assinala no item referente à “democratização da propriedade da terra como base fundamen- tal” que dentre os requisitos para uma reform[r]

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Aspectos da lógica estoica e da lógica em Sêneca

Aspectos da lógica estoica e da lógica em Sêneca

À parte as ordens adotadas pelos diversos mestres do Pórtico, o estoicismo passou por diferentes fases desde sua origem até chegar à chamada terceira fase, ou Neoestoicismo, da qual Sêneca é o expoente. O Neoestoicismo se caracterizou, especialmente, por abandonar a lógica e a física em benefício da moral. 43 De acordo com as supostas tendências pragmáticas da índole romana, a Estoa, uma vez transplantada para Roma, foi acentuando cada vez mais seu caráter eticista. 44 E Sêneca, por sua vez, oferece um padrão tripartite de orientação ética: avaliar o valor de cada coisa, adotar um impulso (impetus) apropriado em direção ao que se persegue e adquirir consistência entre o impulso e a ação. 45
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Feminismo e a renovação do marxismo — Outubro Revista

Feminismo e a renovação do marxismo — Outubro Revista

O interessante é que as implicações dessa “acidentada” trajetória da interseccionalidade têm sido retomadas recentemente no atual contexto de crise capitalista, no qual assiste-se novamente um interesse renovado pelo pensamento marxista, junto a emergência de múltiplas formas de enfrentamento em diversos países do mundo após 2008 (como os movimentos de mulheres, juventude, negro, LGBT, ambiental, etc.). Nesse novo cenário, nota-se um certo retorno à abordagens ao mesmo tempo totalizantes e integradoras, ou seja, que associam as lutas sociais em curso numa análise anticapitalista abrangente, de forma que os debates abertos nos anos 1960 têm sido não só retomados, como postos em um novo patamar. Na hipótese de Fraser (2017), a crise de 2008 – em suas múltiplas dimensões (social, econômica, política, ambiental) –, além de ter aberto a possibilidade de uma nova etapa da luta das mulheres, na qual o feminismo recuperaria seu caráter contestatório e crítico à ordem capitalista, teria marcado o fim do “neoliberalismo progressista”, o que reafirmaria a necessidade do fortalecimento de novas perspectivas antissistêmicas, em contraposição ao feminismo liberal e a sua convergência com a lógica capitalista.
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Rev. latinoam. psicopatol. fundam.  vol.20 número2

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.20 número2

constantemente às formas: eu, meu e a mim. Trata-se de um tipo de compor- tamento que faz com que Aline relacione todos os fatos e acontecimentos à sua volta, bem como tudo aquilo que as pessoas dizem, à sua própria exis- tência, como se o universo todo girasse em torno dela, e o que é pior no delírio, contra ela. Essa proximidade entre todos os acontecimentos e seu próprio ego signi! ca, em certo sentido, o pertencimento de Aline ao mundo inteiro, o que se constitui como uma experiência aterrorizante, uma vez que lhe falta a percepção de si mesma como unidade temporal autônoma. Para Binswanger, a não apresentação do eu penso, em um sentido kantiano, ou do ego transcendental de Husserl, é o que torna a experiência confusa do mundo e de outrem.
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O delírio paranóico nos sistemas de Freud e Jung: contribuições mútuas e contrastes

O delírio paranóico nos sistemas de Freud e Jung: contribuições mútuas e contrastes

Abordar as memórias de Schreber sob esse ponto de vista seria um trabalho muito exi- gente e não caberia neste texto, já tão extenso. Podemos fornecer alguns indícios de como realizar esse processo, recordando do delírio de Deus que indicamos pouco antes. Observamos que a imagem de Deus correspondia a uma representação da libido como um todo, ou seja, ao somatório de todas as relações psíquicas com referência ao trabalho de avaliação da imago Dei realizada no texto Símbolos da Transformação, no qual Jung deine Deus psicologicamente, como um símbolo do si-mesmo. O percurso normal exigiria observação zelosa do material das memórias e pesquisa de seu contexto, para, somente então, buscar paralelos. Imagens divinas dotadas dos atributos indicados por Schreber podem ser encontradas na tradição cristã e no zoroastrismo, religiões referidas constantemente pelo próprio Schreber. Além disso, a emissão de raios eram características também de Zeus e de Wotan, que também tinham o dom da criatividade e de produzir os chamados “homens feitos às pressas”. Daí seria possível buscar tantos mais paralelos quantos fossem possíveis e necessários e, então, delimitar a predisposição funcional humana e o que estava sendo preparado na alma do indivíduo no contexto de sua atual coniguração dinâmica.
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A crise de exaustão do capital — Outubro Revista

A crise de exaustão do capital — Outubro Revista

Constata-se, pois, que o movimento de queda da taxa de crescimento do produto dos Estados Unidos já atinge cerca de qua- tro décadas - e que o boorn experimentado pela economia norte-[r]

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Engels e a teoria do bonapartismo — Outubro Revista

Engels e a teoria do bonapartismo — Outubro Revista

4 Provavelmente, Engels se refere aqui ao envio de tropas francesas à China (1857-1860), então em processo de partilha pelas potências europeias.. Quanto ao primeiro, consideramos q[r]

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Para compreender a recolonização do Haiti — Outubro Revista

Para compreender a recolonização do Haiti — Outubro Revista

A reflexão proposta nas páginas a seguir pretende, a partir do caso concreto do Haiti, argumentar a tese de que as políticas internacionais aplicadas nas sociedades onde vig[r]

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