Top PDF A loucura e a urgência da escrita.

A loucura e a urgência da escrita.

A loucura e a urgência da escrita.

Diário do hospício possuiu multifunções para Lima Barreto, entre as quais a de escrita de si inserida no exercício do cuidado de si. O autor conjugou elementos dispersos e fragmentados que re- metiam invariavelmente a ele mesmo: descrições do hospício, com suas hierarquias e rotinas – e a sua inserção nesse contexto; recla- mações quanto à inadaptação ao cotidiano do hospício; revolta pela internação à sua revelia; auto-análise: fracassos, problemas fa- miliares; críticas à sociedade como sistema (hipocrisia, sistema de pistolões, desigualdades, discriminações), que guardam coerência em relação às que constam das crônicas e romances de sua auto- ria; auto-confissões; desabafos existenciais; teorias sobre a loucura; teorias sobre a literatura; citações de autores diletos; anotações de informações tão simples como o número de telefone de um ami- go editor etc. Curiosamente Lima cita Plutarco inúmeras vezes no diário das mais variadas formas, sendo que numa das notas espar- sas cumpre exatamente a função dos hypomnêmata: capta o já-di- to, ao transcrever uma frase extraída de uma obra lida: “Dizia Ca- tão, segundo Plutarco, que os sábios tiram mais ensinamentos dos loucos que estes deles, porque os sábios evitam os erros nos quais caem os loucos, enquanto estes últimos não imitam os bons exem- plos daqueles. V(ida) de Plutarco, página 178, 2v.” *
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Explorando as forças da escrita no acontecimento loucura.

Explorando as forças da escrita no acontecimento loucura.

Denominados “ignorados”, muitos usuários não tinham sequer nome e qualquer existência jurídica ainda nos primeiros anos deste século, condição que levou a assistência jurídica do hospital a uma busca desta identidade. Embora seja um avanço no que se refere ao tratamento e respeito ao doente asilar, a “Mu- lher dos papéis” sabe desta impossibilidade dos ignorados deixarem de ser evi- tados. Funcionamento que irrompe pela escrita. Faz mostrar que mesmo com o direito soberano de ter um nome, não significa concessão de reciprocidade entre indivíduos livres e iguais, que são direitos garantidos pelo Estado. Expressa a comunidade minoritária dos confinados, ignorados, erradicados da vida e da in- terrogação-afirmativa que diz da impossibilidade de retorno ao cotidiano comum. Constituída por 30 anos, através do saber institucional, como então enfren- tar “lá fora”? Não precisa mais “dar provas de sensatez”, pois “já sabe, já apren- deu a lição”. E depois disto, ter de enfrentar a exclusão/inclusão num mundo que não teve lugar para ela. Excluir, expulsar. Fabricar-se em pleno estado de mise- rabilidade. Há um acontecimento-loucura que ultrapassa os muros do hospital. A “Mulher dos papéis” faz pequenas rachaduras com palavras que dizem dos igno- rados. Como sair para “fora” se a realidade destas vidas inexiste fora da palavra de ordem do ato presumido terapêutico? Sabe que as demarcações e os códigos territoriais são extremamente duros e têm várias faces.
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O VÍCIO E A LOUCURA DE VIVER OU O DESAFIO DA ESCRITA INACABADA

O VÍCIO E A LOUCURA DE VIVER OU O DESAFIO DA ESCRITA INACABADA

O lugar do escritor descaracteriza um universo de certezas para as quais não há sentido plausível. Escrever seria como engessar fraturas, suturar cortes. Há um preço a ser pago pelas coisas incomuns no bazar das miudezas que se amontoam diante de nosso olhar incauto. A escrita, portanto, situa-se no plano da descoberta. Os fragmentos do cotidiano se configuram no quebra-cabeça que ajuda a compor cada conto. A falta de jeito, a inabilidade para lidar com o equívoco, o encontro com fantasmas e a revelação trágica da vida perseguem o teor da escrita como forma patente da obsessão representada pela presença no mundo.
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