Top PDF A negação lógica e a lógica do sujeito.

A negação lógica e a lógica do sujeito.

A negação lógica e a lógica do sujeito.

Para Benveniste (1995), o fator lingüístico é decisivo na Verneinung de Freud, pois a negação é constitutiva do conteúdo negado, de forma que o sujeito não tem mais poder sobre a existência desse conteúdo. Ou seja, o conteúdo existe, mesmo que não admitido pelo sujeito. O discurso do sujeito pode contestar o conteúdo, mas não abolir a propriedade fundamental da linguagem, que consis- te em implicar que ‘algo’ corresponde àquilo que se enuncia — algo e não nada. Benveniste, assim como Hyppolite, supõe a distinção entre a Verneinung, a qual pertence ao campo da enunciação, e a negação lógica pertencendo ao campo da proposição. Na primeira, está em questão a verdade do sujeito, na segunda, está em questão a validade lógica de uma proposição. Se a Verneinung de Freud é corre- lativa de uma verdade que foi verbalizada, mas não admitida, estaria, portanto, suposta uma divisão entre um sujeito da enunciação e um sujeito do enunciado. Um conteúdo é verbalizado, isto é, simbolicamente reconhecido, mas não admi- tido como existente para o eu. A frase freudiana é clara: “Negar algo em um julgamento é, no fundo, dizer: ‘Isto é algo que eu preferiria reprimir’.” 5
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A unidade entre sujeito e objeto na Pequena lógica de Hegel

A unidade entre sujeito e objeto na Pequena lógica de Hegel

Por esses trechos de Hegel, se pensarmos pela lógica formal, chegaríamos a uma conclusão de que o ser é o nada. Entretanto, esta representação não se soluciona desta maneira. Para uma compreensão do que realmente acontece, é necessário recorrer à metafísica tradicional, que diz que o nada é o não-ser. Há, assim, duas proposições: a) o ser é; b) o não- ser não é. Nestas duas proposições, percebemos com Hegel que: a) tanto o ser quanto o nada estão em completa indeterminação; b) estamos diante de dois opostos que se mostram: um como pura afirmação, o ser, e o outro como pura negação, o não-ser. A partir disso, ocorrerá uma dupla negação, onde o ser se afirmará diante do não-ser. Explica-se isto da seguinte forma, pela negação: “O ser não é”. Vemos que estamos falando exatamente no não-ser; desta maneira, notamos que o ser se converteu no não-ser. Seguindo o mesmo exemplo, ao afirmarmos: “o não-ser é”, haverá uma conversão imediata do não-ser em ser. É mediante a dupla negação que os opostos convertem-se em seu conteúdo. Isto ocorre através da relação entre o ser e o nada. O nada, como completa negação do ser, ou seja, o não-ser, ao ser negado pelo ser, e o ser enquanto aprimorado pelo não-ser, ou seja, o nada, faz com que as diferenças entre um e o outro sejam suprassumidas, devido ao caráter de indeterminação que os dois apresentam. A igualdade entre o ser e o nada reside no fato de que, tanto um quanto o outro, não possui conteúdo, e é esse o fato de que dizemos que tanto o ser quanto o nada são iguais, embora sejam diferentes. Admitimos que o ser e o nada são distintos, porém se identificam quanto ao conteúdo, que não possuem, e pela pura indeterminação existente. Hegel, de pura influência heraclítica, concebe pelo fluxo existente entre o ser e o nada, através da dupla negação de ambos, o conceito de devir, do vir-a-ser, que é o puro fluxo, movimento, onde o ser converte-se no não-ser e o não-ser converte-se em ser. A unificação do ser e do nada ocorre desta forma através do devir, de onde os antigos gregos como Heráclito, começaram a dar os primeiros passos. Como afirma Hegel, na Ciência da Lógica : “O início não é o puro nada, mas um nada do qual deve sair qualquer coisa. Por isso, no próprio início está já contido o ser. O início tem, portanto, um e outro, o ser e o nada; é a unidade do ser com o nad a”. 51
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Sujeito, discurso e representação lógica

Sujeito, discurso e representação lógica

Nesta operação, no entanto, o sujeito pragmático continua excluído através de duas condições. Ao ser reduzido ao “sujeito que enuncia”, ou seja, àquele sujeito que pode ser apontado como estando na origem do enunciado ou como sendo a ela coincidente, define-se o sujeito, então, como uma “posição de sujeito”, mais relativa a um sistema de lugares do que propriamente a um sistema de pessoas, na mesma linha da argumentação axiomática de Maingueneau (1997), embora por razões mais claramente teóricas, antes ligadas aos conceitos de significação ou de sentido do que ao conceito de sujeito. A outra condição é a definição do trabalho de interpretação como sendo instalado por esta posição de sujeito,[18] e também contingente, o que restringe a interpretação ao que poderíamos, talvez, chamar de “desvelamento da posição de sujeito”. Em termos pragmáticos, está-se tratando, no máximo, do sujeito “falante”, ficando de fora qualquer sujeito “ouvinte”, ou seja, estabiliza-se um corpus que exclui, por exemplo, certas ocorrências enunciativas encadeadas em circunstâncias dialógicas concretas, um corpus bem mais próximo, senão mesmo coincidente, àquele da AD. Pode-se dizer que é ou continua sendo excluída a “fala” saussureana ou que a propriedade lingüística contida sob o nome “história” continua tendo a mesma raiz e as mesmas conotações que o termo assume na tradição ligada à AD. Em outras palavras, as significações reveladas por este tipo de análise concernem a “discursos” suprapessoais.
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A LÓGICA DO DELÍRIO

A LÓGICA DO DELÍRIO

Condensado, o texto não tem, a rigor, um enredo, pois o que impera aí, como em outros casos assemelhados, é a imagem em si, que se associa a outras imagens, por analogias e comparações ditadas por uma mente desvairada, em perene delírio. É isso que faz que a personagem – um cão a assumir a vez do sujeito – seja um ser de excepcional categoria, a começar que se exila dos demais cães, ao se espantar com “a cor que no mar flutua”. A empatia dele com a paisagem advém de um enigma, a ser transliterado pela “companheira feliz”, que, por não pertencer ao plano textual, é mera referência e, como tal, serve para que o narrador crie ambiguidade com o verbo “revelar”. Revelar significa “tirar o véu”, ou seja, “deixar ver”, contudo, no texto, nada se revela, porque o que deveria ser revelado não deve sê-lo, no sentido de que constitui algo inefável que as palavras não podem (e nem devem) traduzir, sob pena de abastardar o enigma. Observamos que esse enigma não decifrado e não decifrável é que provocará o “fervor” (a intensidade dos sentimentos) com que o cão contempla a paisagem humanizada. Entre ele e a paisagem haverá como que a descoberta, ainda que inconsciente, daquilo que os simbolistas costumavam denominar de état d’âme, estado anímico ideal a ser conquistado, para que o sujeito poético pudesse se integrar com o Cosmo.
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Aproximando a lógica sanitária e a lógica do senso comum: uma experiência de e-learning...

Aproximando a lógica sanitária e a lógica do senso comum: uma experiência de e-learning...

Introduction - Public health is a complex area and must deal with a variety of factors. Perhaps one of the biggest problems of this area is the articulation between experts and common individuals (sanitary logic x common sense logic), so that the action of the first increase awareness amongst the other to do its part in public health issues. Dengue, a disease whose etiological agent is a family Flaviviridae viruses, and the transmission occurs by mosquito Aedes aegypti bite, also depends on the collaboration of the population to be controlled. Objective - Promoting the approximation of sanitary logic and common sense logic, through educational experience built on the vision that the subject have of dengue and the need for its participation in prevention, contribute to increasing efficiency and effectiveness of public health actions in the community of the campus of Universidade de São Paulo (USP). Methods - Qualitative research with employees that consists the committees/working groups of the various units of the USP "Armando de Salles Oliveira" campus, who are acting with the project. The methodology used Discurso do Sujeito Coletivo (Colletive Subject Speech) for collection, tabulation and analysis of data. From the results, preparing content for the educational intervention, implemented through e-learning (was using the TelEduc environment), seeking to help the subject in the construction of knowledge. Results - For verification of the results of the training process evaluation was used, whose reaction analysis shows a high degree of satisfaction of students. Conclusion - It can be concluded that the mode used for educational intervention has good possibilities to bring the sanitary logic to common sense logic, generating conditions for the prevention of dengue fever. It was noted, however, the need for improving some points which were identified during the work that may be considered in subsequent studies and researches.
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A questão do gozo em Lacan e o conceito de carne em MerleauPonty

A questão do gozo em Lacan e o conceito de carne em MerleauPonty

inconsciente não é ôntico, é ético. Lacan aponta, então, para um sujeito cuja lógica é a do significante... O sujeito não se enuncia senão "no lugar de onde se.[r]

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Aspectos da lógica estoica e da lógica em Sêneca

Aspectos da lógica estoica e da lógica em Sêneca

significa”; 3, a realidade material à qual o significado se refere. Nesse sentido Sexto Empírico, (que escreveu por volta do ano 200 de nossa era) 20 dá, como exemplo, a palavra “Díon” e a frase “Díon está correndo”. Naturalmente, o significado das palavras não deve ser confundido com a realidade física e material de um “Díon que corre”, pois as palavras podem ser usadas e significar, isto é, atribuir significado, mesmo quando Díon está sentado. Nessa frase, o significado (lékton) ou, para usar um termo apropriado a esse tipo de significado, o axioma, 21 é verdadeiro ou falso: verdadeiro se Díon está correndo quando as palavras estão sendo usadas; falso, se ele não está. Lékton, conceito fundamental para a “semântica” 22 estoica, pode ser traduzido, também, como “o que é dito” ou “o que pode ser dito”. 23 Distinguem-se dois tipos de lékton: o “deficiente” ( e)lliphj , imperfectus), 24 exemplificado pelo significado dos verbos sem sujeito (por exemplo, “escreve” ou “gosta”), e o “completo” 25 ( a)utotelh/j , perfectus), como expresso na sentença “Catão está andando” (Diógenes Laércio, VII 63).
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Poesia e modernismo: pré-lógica, formal, dialética e pós-lógica.

Poesia e modernismo: pré-lógica, formal, dialética e pós-lógica.

pré-lógico, o momento formal, o momento dialético e o momento místico. Não são evolutivos, porém, revelam diversos posicionamentos do sujeito perante a experiência poética. O primeiro momento, na conceituação da poesia moderna, já discutido, aliás, por Lévy-Bruhl, é o do sonho, que é rigorosamente afirmativo. Uma imagem corresponde não só a um valor dado, mas também a outro, ausente. Porque tudo, no sonho, é. E, ainda por cima, tudo isso só existe no presente. Não há dimensão evolutiva no sonho. Ele não comporta lembrança nem esperança. É uma afirmativa centrada no instante-já. Hinc et nunc. Como tudo existe, nem se suspeita que alguma coisa possa não ter sido ou que ela ainda não exista. Algo seme- lhante acontece com o espaço: como só existe o agora, também só existe o aqui, e até mesmo porque a afirmativa não admite restrições do além. Não em vão, Wittgenstein, grande antifilósofo, como Nietzsche e Lacan, ao comentar O ramo de ouro de Frazer, leitura tão decisiva no primeiro modernismo, considerou a metafísica uma espécie de magia, mais mágica até do que a própria magia.
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Entre a lógica da formação e a lógica das práticas: a mediação dos saberes pedagógicos.

Entre a lógica da formação e a lógica das práticas: a mediação dos saberes pedagógicos.

procediment os ut ilizados no processo f ormat ivo e a prát ica sob f orma de est ágio supervisiona- do, e f oi sendo ut ilizado para que o sujeit o, reif icado em sua condição de não diálogo com suas circunst âncias, permaneça não est abele- cendo relações de sent ido ent re ser e f azer, mas mesmo assim, aprenda a reproduzir um f azer considerado necessário. O pressupost o é que esse sujeit o é incapaz de criar sent ido à sua at ividade produt iva, no caso o f azer docent e. Essa sit uação, decorrent e da concepção de prát ica como t reinament o do f azer, é um dos component es que podem ajudar a compre- en der o descon f ort o de f orm an dos, f u t u ros prof essores, nos primeiros conf ront os com as at ividades da prát ica docent e: são sit uações sem- pre angust iant es, pois as receit as de f azer que receberam no processo formativo não lhes permi- t e colocar em prát ica as expect at ivas que haviam const ruído a respeit o de um ensino melhor. Essa realidade é permeada por dissonâncias, o que pode demonstrar que o sujeito não está totalmen- te ‘engessado’ por suas condições formativas, pois ainda é capaz de est ranhar. Esse est ranhament o, essa perplexidade é um espaço da possibilidade pedagógica: o est ranhament o, a angúst ia, as dissonâncias demonst ram que há ainda um espa- ço para a const rução de um f azer signif icat ivo. Há um espaço para que as prát icas comecem a f alar, a inf ormar, a f ormar. Há um espaço para t ran sf ormação das prát icas em in st ru men t os pedagógicos de f ormação. No ent ant o, há t am- bém um espaço para a negação dessa possibi- lidade. Na dissonância, o sujeit o pode opt ar por abandonar suas expect at ivas e seus desejos e conf ormar- se com o usual. O sujeit o libert a- se do est ranhament o em f avor de uma segurança com o f amiliar.
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Lógica médico-sanitária e lógica do senso comum: um estudo de representação social...

Lógica médico-sanitária e lógica do senso comum: um estudo de representação social...

Introdução - A Saúde Pública é um campo complexo de atuação e reflexão, onde existem dois grandes grupos sociais – o primeiro formado por acadêmicos e técnicos (especialistas, a quem é atribuída a lógica sanitária, dotada de todo peso legal e técnico) e o segundo por pessoas da população em geral (leigos, a quem cabe a lógica de senso comum, do cotidiano). A ideia de que há necessidade de aperfeiçoar a relação entre especialistas e leigos é aceita e acredita-se que seja possível por meio de políticas e práticas cujo objetivo final é sensibilizar a ambos para que contribuam de maneira mais ativa e autônoma colaborando no processo de alcance de ações mais eficientes e eficazes na Saúde Pública. Objetivo - Conhecer a representação social de profissionais e pacientes de uma unidade de saúde, para saber o que cada um desses grupos pensa a respeito da relação profissional de saúde-paciente. Métodos - Pesquisa qualiquantitativa, com uso do Discurso do Sujeito Coletivo. Resultados - Os entrevistados, de maneira geral, acreditam que o diálogo é fundamental para melhorar os resultados da assistência à saúde, já que é possível, como consequência, uma ganho tanto no que tange à otimização de recursos quanto na qualidade e resultados do atendimento à população. Porém, para uma parcela dos profissionais, este diálogo deve se dar por meio da educação em saúde, entendida como aquela na qual a população deva ser "educada" exatamente na direção que o técnico tem interesse, sem levar em consideração a autonomia deste paciente, seus conhecimentos e seus anseios. Conclusões – Recomenda-se a implantação de um conjunto de ações coordenadas dos diversos atores envolvidos no processo, para se conseguir colocar as duas lógicas em diálogo, com resultados que possam ser considerados promissores para a saúde pública, utilizando-se dos conteúdos narrativos dos discursos para elaboração de materiais didáticos e de divulgação destinados a especialistas e ao público em geral com o objetivo de fazer avançar a proposta do compartilhamento.
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A LÓGICA NO COTIDIANO E A LÓGICA NA MATEMÁTICA

A LÓGICA NO COTIDIANO E A LÓGICA NA MATEMÁTICA

Segundo Aristóteles, a lógica estuda a razão como instrumento da ciência ou como um meio de adquirir e possuir a verdade. E o ato próprio da razão é o ato de raciocinar (ou argumentar). O raciocínio ou argumentação é um tipo de operação do pensamento que consiste em encadear logicamente idéias para delas tirar uma conclusão. Essa operação vai de uma idéia a outra passando por um ou vários intermediários e exige o uso de palavras. Portanto é dita uma inferência mediata, isto é, procede por mediação, por meio de alguma coisa (CHAUÍ, 1994).
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Atualizando Kant : avaliação da identidade entre a lógica transcendental e a lógica geométrica

Atualizando Kant : avaliação da identidade entre a lógica transcendental e a lógica geométrica

As funções qualitativas, então, parecem conter, além das afirmações, duas ne- gações distintas. Inexistindo intuição que suporte o juízo, cabe apenas negá-lo pelo viés lógico, e o juízo seria expressão da função infinita. Caso exista uma intuição com a qual o juízo concorda, caberia fazer uma afirmação. Por fim, se o juízo se opõe a uma afirmação por configurar contradição com algum juízo analítico, haveria ocasião para formular uma negação determinada, expressão da função negativa. Assim, a existência ou ausência de suporte intuitivo seria o que distinguiria as condições de uso das duas negações.
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MD 02 Lógica Formal Manhã

MD 02 Lógica Formal Manhã

Há muitas denominações relativas ao estudo da Lógica, tais como: Lógica Proposicional, Lógica Simbólica, Lógica Matemática, Lógica das Proposições, Lógica Clássica, Lógica Formal, Lógica Aristotélica, Lógica Menor, Lógica de Predicados, Lógica de 1ª Ordem, etc. A nomenclatura sobre Lógica não é uniforme e pode ser até considerada confusa, em virtude dos vários enfoques utilizados pelos diversos estudiosos de Lógica, desde Aristóteles até o presente momento.

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A financeirização do capital e a crise — Outubro Revista

A financeirização do capital e a crise — Outubro Revista

As razões para isso são complexas e têm que ver com (1) o amadu- recimento das economias, quando não é mais necessário que a estrutura industrial básica seja construída a part[r]

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Filosofia e arte em Theodor W. Adorno: a categoria de constelação

Filosofia e arte em Theodor W. Adorno: a categoria de constelação

se entender essa última frase. A primeira delas envolveria um abandono da lógica sentencial clássica e a afirmação de alguma lógica polivalente que envolva a negação do princípio terti[r]

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Reconfiguração do discurso político-normativo: da lógica democrática à lógica gerencialista

Reconfiguração do discurso político-normativo: da lógica democrática à lógica gerencialista

O discurso gerencialista vai sendo difundido através dos normativos legais. A difusão de um discurso com termos “novos” para o campo educativo contribui para a familiarização dos atores com a “nova” gramática e para a possível reconstrução dos seus discursos. A livre escolha da escola tem sido uma das ideias mais propaladas nos registos discursivos atuais e, de certa forma, tem vindo a ser associada à equidade e igualdade de oportunidades. Barroso e Viseu (2003, p.902) entendem que a «livre-escolha» da escola é “um dos principais instrumentos para a criação de um mercado educativo”, adiantando que os seus defensores têm proclamado, entre outros aspetos, que a sua implementação conjugada com a privatização da oferta educativa “melhoram a qualidade das escolas e os seus resultados” pois introduzem “mecanismos de competitividade e de responsabilidade perante o consumidor”. Esta ”nova” lógica de funcionamento ao nível da gestão das organizações educativas leva, também, a que surjam alterações nas ligações entre os atores das diferentes estruturas da administração educativa. A descentralização e a autonomia que, há muito, têm vindo a ser propagandeadas ligam-se, hoje, ao conceito da “gestão centrada na escola”. Podemos reafirmar com Barroso que “um dos exemplos mais significativos da aplicação destas políticas de «nova gestão pública e das suas derivas gerencialistas» à educação está relacionado com a descentralização e autonomia, normalmente, designadas por “gestão centrada na escola” (BARROSO, 2005, p.96). Longe de uma efetiva descentralização que não tem passado do plano da retórica, o controle tem permanecido nas “mãos” dos centros instituídos e a execução das tarefas nas periferias. Seixas (2001, p.222) explícita que quando o Estado lega responsabilidades a outros atores, mas não lhes confere poderes, consegue manter o controle da educação, comprometendo seriamente, no nosso entender, o desenvolvimento de uma efetiva descentralização e da autonomia das escolas.
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A ESPECIFICIDADE CAMPONESA COMO NEGAÇÃO DA LÓGICA CAPITALISTA

A ESPECIFICIDADE CAMPONESA COMO NEGAÇÃO DA LÓGICA CAPITALISTA

14. As grandes empresas capitalistas multinacionais impõem à sociedade brasileira a concentração das terras sob o domínio de poucas empresas, o monocultivo em grande escala, as sementes transgênicas, os agrotóxicos com uso indiscriminado, os fertilizantes de origem industrial, a redução da biodiversidade, enfim, uma lógica de produção que conduz à artificialização da agricultura tornando-a um simples ramos da indústria, ramo esse sob seu controle oligopolista.

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Cartografia de um processo: o jogo como fronteira entre a lógica da teoria e a lógica da prática

Cartografia de um processo: o jogo como fronteira entre a lógica da teoria e a lógica da prática

É num sentido estreitamente relacionado ao jogo que se manifestou a questão do treinamento em nosso processo. Já que “a relação entre o ator e os materiais de atuação representa o núcleo de treinamento como poiesis” (BONFITTO, 2009, p. 40) o caminho mais natural para nós foi o da improvisação, de modo a evitar uma construção poética calcada na verbalização ou na simples resolução de uma sequência, mas que emergisse da lógica da prática. Houve, naturalmente, uma profusão de materiais – dos mais interessantes e potenciais aos mais óbvios e rasos. A improvisação foi fundamental para que, dadas as regras e códigos que re- giam nossa relação, pudéssemos abrir espaço para que “ocorrências expressivas” acontecessem. De acordo com o Prof. Dr. Matteo Bonfitto, tais ocorrências não são pura verbalização ou profusão de signos, uma vez que o signo sempre remete a algo. Esta era uma chave importante para a nossa produção de materiais se consi- derarmos que certos elementos narrativos presentes no universo de Alice no País das Maravilhas eram dados a priori 7 .
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC – SP Valmir de Costa

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC – SP Valmir de Costa

A presente tese pretende contribuir para o aprofundamento da compreensão da imanência no pensamento de Husserl, sua extensão e constituição, fundamentalmente, da psicologia descritiva (1900) à filosofia transcendental (1913). A fenomenologia se caracteriza pelo exercício livre da razão, que através de um método de investigação próprio, executa a autoapreensão ideadora de objetos puros na consciência. A imanência designa uma região de ser em que os objetos assumem as condições de possibilidade de sua manifestação pura, constituindo a própria identidade da investigação fenomenológica como teoria do conhecimento. Conceitualmente, no início de sua investigação, a imanência dos atos psíquicos se contrapõe a toda ordem de objetos transcendentes a tais atos, o que acaba por constituir a fenomenologia como ciência de objetos ideais (Primeiro e Segundo Capítulos). Seu método de investigação, determinado pela especificidade de seu objeto, se distingue totalmente do método das ciências da natureza. A fenomenologia, pelo método da redução e da intuição, investiga a região de ser da consciência transcendente ao mundo, com seus objetos puros e ideais, em que, pelos seus níveis de constituição e verdade, vincula o discurso filosófico a uma ciência de rigor. As ciências da natureza, pelo método empirista e da dedução, são imanentes ao mundo e constituem uma relação objetiva ‘real’ de investigação com seu objeto, por isso relativa (Terceiro Capítulo). Ver-se-á que a posição do estatuto da imanência de objetos puros se consolida, inversamente, pela suspensão de toda tese do mundo, como contraposição epistemológica da fenomenologia ao empirismo. Husserl, em seu percurso de consolidação da investigação fenomenológica, constitui, conforme a evolução de seu pensamento, níveis distintos de descrição dos atos de consciência. Parte, assim, na origem, de uma imanência real (Real), herdeira da lógica e do psicologismo, passando pela imanência ‘Reell’, referente
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Feminismo e a renovação do marxismo — Outubro Revista

Feminismo e a renovação do marxismo — Outubro Revista

O interessante é que as implicações dessa “acidentada” trajetória da interseccionalidade têm sido retomadas recentemente no atual contexto de crise capitalista, no qual assiste-se novamente um interesse renovado pelo pensamento marxista, junto a emergência de múltiplas formas de enfrentamento em diversos países do mundo após 2008 (como os movimentos de mulheres, juventude, negro, LGBT, ambiental, etc.). Nesse novo cenário, nota-se um certo retorno à abordagens ao mesmo tempo totalizantes e integradoras, ou seja, que associam as lutas sociais em curso numa análise anticapitalista abrangente, de forma que os debates abertos nos anos 1960 têm sido não só retomados, como postos em um novo patamar. Na hipótese de Fraser (2017), a crise de 2008 – em suas múltiplas dimensões (social, econômica, política, ambiental) –, além de ter aberto a possibilidade de uma nova etapa da luta das mulheres, na qual o feminismo recuperaria seu caráter contestatório e crítico à ordem capitalista, teria marcado o fim do “neoliberalismo progressista”, o que reafirmaria a necessidade do fortalecimento de novas perspectivas antissistêmicas, em contraposição ao feminismo liberal e a sua convergência com a lógica capitalista.
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