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A propósito do mal em Hannah Arendt

A propósito do mal em Hannah Arendt

O presente trabalho tem como objetivo principal analisar o pensamento de Hannah Arendt a respeito do mal. Esta é uma das principais questões que perpassam a obra da autora, a qual se propôs a pensar por ter vivenciado na pele os horrores dos regimes totalitários, mas em especial ao descobrir as ações do nazismo no período da Segunda Guerra Mundial. O caminho de construção da argumentação segue três aspectos do mal: o mal radical, pensado por Kant, o mal absoluto e a banalidade do mal, pensados por Hannah Arendt. O primeiro momento será desenvolvido a partir da análise acerca do mal radical pensado por Kant em sua obra A religião nos limites da simples razão (1793), mal que possui sua origem numa propensão da natureza humana. Veremos que Hannah Arendt se utiliza desta tese de Kant como base, mas depois formula sua própria visão a respeito do mal. No segundo momento, examinaremos a relação dos regimes totalitários com o mal absoluto, citado por nossa autora em sua obra Origens do totalitarismo (1951). Nesse ponto, veremos sua análise sobre o totalitarismo como forma de governo que desafia toda a compreensão existente na tradição. O totalitarismo assume o poder por meio da massificação e da propaganda, governa sobre as bases da ideologia e do terror e cria os campos de concentração como mecanismos para a destruição em massa de seres humanos, tendo os judeus como “inimigos objetivos”. A compreensão desses aspectos é de suma importância, pois eles são a fonte do mal absoluto, cujos principais efeitos são a superfluidade e a destruição da pessoa em todas as suas características. No momento final, nossa reflexão se volta para a banalidade do mal, conceito formulado a partir das observações de Hannah Arendt do julgamento de Adolf Eichmann em Israel, um nazista cuja função era o envio dos judeus aos campos de concentração. Neste ponto, veremos os problemas encontrados no julgamento para tratar desse novo tipo de criminoso bem como a análise da responsabilidade, importantes para a compreensão da banalidade do mal. A dissertação conclui a investigação com um estudo sobre o mal banal, onde nos questionamos se ele seria algo novo ou uma extensão do mal radical.
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Hannah Arendt e o âmbito do conceito de Banalidade do Mal MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

Hannah Arendt e o âmbito do conceito de Banalidade do Mal MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

Com esta dissertação, pretende-se ampliar a abrangência do conceito de Banalidade do Mal, um termo criado por Hannah Arendt para qualificar um Mal que não fora ainda detectado com uma forma própria e que ela observou no nazista Adolf Eichmann durante seu julgamento em Jerusalém em 1962. Ela o chamou de um Mal sem raízes, que é como um fungo na superfície. Localizou-o em uma não-pessoa, em alguém que “não pensa”, que não realiza o diálogo de mim-comigo-mesmo e age em heteronomia, sob uma determinação exterior à qual obedece sem se responsabilizar pessoalmente por suas conseqüências morais. Este conceito ajuda a elucidar a forma de agir dos totalitarismos da era moderna e a atitude daqueles que “somente cumprem ordens”, sem levar em conta a monstruosidade que elas podem trazer embutidas. A primeira condição para esta nova forma do Mal foi a transformação prévia do homem num puro animal laborans, dedicado quase que exclusivamente à sua sobrevivência como espécie. Transformado em coisa, em meio e não em fim em si mesmo, o homem adquiriu a condição de superfluidade da qual pode derivar a lógica do extermínio. A segunda condição foi a destituição da sacralidade do homem na modernidade. Com a morte de Deus, o homem se tornou simples coisa, passível de ser moldado, usado ou descartado. A terceira condição é o predomínio do processo no mundo atual, que tem uma dinâmica autônoma e independe do homem e de suas decisões. Zigmunt Baumann acrescentou à visão de Hannah Arendt uma nova compreensão dos mecanismos e motivos que podem resvalar para esta forma de Mal: a luta contra o indeterminado, o caótico e a ambivalência, com o objetivo de criar um mundo controlado e menos ameaçador. Porém, na luta contra a ambivalência, cria-se um caos ainda maior em torno a estas ordens que são construídas. Neste mundo em que se pretende impor a ordem de uma lei determinística ou de um projeto, o burocrata é o principal agente da Banalidade do Mal. A questão desta forma de Mal suscita a pergunta de quais meios dispomos para nos contrapormos a ela.
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Banalidade e existência inautêntica.  Uma reflexão a propósito de Hannah Arendt.

Banalidade e existência inautêntica. Uma reflexão a propósito de Hannah Arendt.

É da contemporaneidade, pois, que iremos partir. Se é certo que ética é, desde as ori- gens da Filosofia, a maneira de ser mais própria do humano, não é menos certo que essa dimensão da acção humana não pode hoje – isto é, depois da introdução da tecnologia na potenciação e consecussão do desejo de ser e vontade de poder – ser compreendida sem atender à sua conexão intrínseca com as dinâmicas científico -culturais e, em espe- cial, com os mecanismos técnico -industriais e ideológicos que urgem a acção e a trans- formam em resposta compulsiva. A problemática da “banalidade do mal”, que Hannah Arendt chamou à consciência filosófica com a publicação do seu Relatório sobre o juízo a Eichmann em Jerusalém 2 (1963) e com a polémica a que deu lugar, só é plenamente com-
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Vista do A  construção social acerca da banalidade do mal em Hannah Arendt

Vista do A construção social acerca da banalidade do mal em Hannah Arendt

Na perspectiva de Hannah Arendt, a lógica de manutenção do mal tem que superar a superficialidade do visível e do corriqueiro, se faz necessário conhecer a essência estrutural, histórica, filosófica e social do próprio mal. Para tanto, não se pode ignorar as estruturas de manutenção da maldade que se faz instaurada no coletivo, não se pode contentar em eleger apenas um ou outro culpado, uma ou outra atitude boçal, satisfazendo desta forma, apenas os desejos de vingança, de passionalidade e de suposta justiça. Essa superficialidade acrítica de não questionar o cotidiano dificulta a compreensão acerca da dimensão e da profundidade do mal, e atrapalha a capacidade de apreender de que forma o mal se engendra na sociedade, pois se o mal é banal, como propõe Hannah Arendt, isso não quer dizer que a sua estrutura de manutenção o seja. Então, para se compreender o mal é preciso que haja capacidade de julgar, de conhecer e de avaliar a condição humana como sujeitos históricos-sociais (SILVA, 2013).
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A BANALIDADE DO MAL E A FACULDADE DE PENSAR: POLÍTICA E ÉTICA NAS REFLEXÕES DE HANNAH ARENDT

A BANALIDADE DO MAL E A FACULDADE DE PENSAR: POLÍTICA E ÉTICA NAS REFLEXÕES DE HANNAH ARENDT

Em Lições sobre a filosofia política de Kant, Hannah Arendt conduz sua teoria do juízo para uma importante reflexão voltada a desvelar as condições de possibilidade do juízo político. Apesar de aludir a outros textos de Kant, Arendt tem como aporte principal a terceira Crítica para refletir sobre o que considera ser a filosofia política de Kant, a qual irá manifestar-se importante para suas reflexões sobre a faculdade do juízo. Hannah Arendt ao se inclinar sobre os textos de Kant, mostrou-se interessada em pensar, tendo como ponto de partida os conceitos do filósofo. A abordagem acerca da faculdade de julgar considera e privilegia a primeira parte da Crítica do Juízo de Kant, por tratar do julgamento do particular. Sobre a banalidade do mal, partimos da noção de mal para Arendt. Assim o mal concebido por Hannah Arendt tem um estatuto ético e político, vai além do mal cunhado na perspectiva metafísica, religiosa, portanto diferencia-se da fundamentação teórica sustentada pela tradição filosófica, em que o mal está relacionado às fraquezas humanas, sendo assimilado como castigo por transgressões às leis divinas; em Arendt, o mal banal não tem raízes, e atinge extremos incalculáveis. A esse respeito, o problema que levantamos no presente estudo, a partir da compreensão da filósofa sobre a presumível ligação entre a banalidade do mal e a irreflexão, refere-se à questão: Que elemento, ou quais elementos podem levar a um vazio de pensamento? Sendo este um fenômeno do mundo moderno, suas consequências apontam para que implicações no cenário da ética e da política? Considerando as investigações de Hannah Arendt sobre a conexão entre o mal banal e a irreflexão, julga-se significativa a investigação que envolve a questão erigida acerca, do componente ou componentes que levam à irreflexão, uma vez que para Arendt o pensamento é uma necessidade natural da vida humana, não podendo ser uma atribuição de poucos, como apenas dos filósofos, mas também do homem comum, reputando que em suas reflexões pensamento distingue-se de intelecção.
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A sonegação fiscal no âmbito do exercício do trabalho dos contadores à luz da banalidade do mal, de Hannah Arendt

A sonegação fiscal no âmbito do exercício do trabalho dos contadores à luz da banalidade do mal, de Hannah Arendt

É notório que a sonegação tributária é um problema de grande magnitude no Brasil e que os efeitos que dela atingem a sociedade como um todo, inclusive aqueles que a praticam, diante do comprometimento da arrecadação de recursos para a manutenção do Estado e para a garantia dos direitos sociais assegurados aos indivíduos pela Constituição Federal de 1988. A evasão fiscal, embora constitua crime contra a ordem tributária, é uma estratégia comum adotada pelas organizações. Dados do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional – SINPROFAZ (2017) indicam que o que não se arrecada em virtude da sonegação equivale à 7,5% do produto interno bruto (PIB) do país. Considerando que a organização, enquanto pessoa jurídica, é uma abstração, a prática da conduta delitiva dá-se por meio da atuação de uma pessoa física que age em nome da organização. Inspirada em Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal, obra em que a filósofa Hannah Arendt relata o julgamento de Adolf Eichmann, um burocrata nazista, sem qualquer drama de consciência, sob argumento de que apenas cumpria ordens, a presente pesquisa visa identificar qual a percepção dos profissionais da área contábil acerca da prática de atos que impliquem em sonegação fiscal no exercício da profissão, associadas ao “jeitinho brasileiro”. O trabalho de Eichmann era de meio, já que ele “tão somente” organizava a logística da deportação de judeus aos campos de concentração, onde eram dizimados. Da mesma forma, o trabalho dos profissionais da área contábil também pode ser utilizado como meio para que se atinja o objetivo final de evasão fiscal. A partir de entrevistas realizadas com contadoras e analisados pela técnica de Análise de Conteúdo, verificou-se que o jeitinho brasileiro exerce forte influência no trabalho dessas profissionais, fazendo com que o não comum, que é a evasão fiscal, tome o lugar do comum, que é a declaração e o recolhimento dos tributos na forma devida, aproximando o trabalho dos contabilistas, quando feito à margem da licitude, ao de Adolf Eichmann e, por consequência da banalidade do mal, já que a sonegação tributária acaba sendo contemporizada como algo “não tão errado”, a despeito das consequências que ela gera para toda a coletividade.
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A questão do mal em Hannah Arendt

A questão do mal em Hannah Arendt

perspectiva da filósofa-política Hannah Arendt (1906-1975). O objetivo na presente dissertação é analisar os elementos constitutivos do fenômeno denominado mal banal, fenômeno a partir do qual erigiu toda a problemática política do Ocidente a partir do Totalitarismo. Procurar-se-á, neste trabalho, refletir acerca da falta de responsabilidade dos cidadãos pertencentes a esta sociedade de massa dos regimes totalitários do Século XX. Segundo Arendt, é a pretensão da dominação total do homem, o núcleo do qual se pode pensar o mal nas experiências totalitárias. Ao relatar e analisar o julgamento de Otto Adolf Eichmann, funcionário do Governo Nazista, Arendt se deteve sobre a questão da responsabilidade do réu em questão. Eichmann apenas cumpria ordens, sendo assim ele não era um monstro, ou um sádico e muito menos um pervertido. Ao contrário, ele era um homem normal. Por isso, o mal causado por Eichmann e pelo Governo Totalitário, não pode ser punido ou perdoado, é preciso compreender o que aconteceu, para que este mal não volte a acontecer no futuro. Para Arendt, esta lógica, de pessoas normais cometendo crimes que não podem ser punidos ou perdoados, pode ser mudada. Mas para isso, é preciso que o ser humano pense, reflita e se responsabilize pelos seus atos, além de que também é preciso o restabelecimento da moralidade política com o amor
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Banalização da "Banalidade do Mal" de Hannah Arendt

Banalização da "Banalidade do Mal" de Hannah Arendt

Sua reprovação acerca da criação de uma “imagem de um livro que nunca foi escrito”, em referência à controvérsia em torno do relato do julgamento de Eichmann, não elide a questão central de sua abordagem. Ora, uma pensadora que recusava a identidade de filósofa e preferia ser reconhecida como uma teórica do político (VALLE, 2011), justamente por considerar que a tradição do pensamento político ocidental foi formulada por homens que detestavam os negócios humanos e, arrogantemente, de sua torre de marfim, arvoravam-se o direito de ditar padrões de comportamento para a esfera da política, não deveria estranhar o uso de imagens na arena política. Ela mesma, antes, já havia escrito que “nossa percepção da realidade depende totalmente da aparência” (ARENDT, 1993, p. 61) e, mais tarde, concluiria que “neste mundo no qual entramos, aparecendo de um lugar nenhum e do qual desaparecemos em um lugar nenhum, Ser e Aparecer coincidem” (ARENDT, 1995, p. 17), isto é, como bem compreendeu, na esfera da política o que prevalece é a opinião, não a verdade. Em suma, o que se pondera, neste balanço da controvérsia, é que Arendt comportou-se, diante dos políticos, como filósofa. Talvez, por isso, não deveria esperar melhor sorte que Sócrates, diante da assembleia na Polis.
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A propósito da problemática do mal em Hannah Arendt

A propósito da problemática do mal em Hannah Arendt

próprio, da essência espiritual, imagem e semelhança de Deus para a qual fora criado. Haveria, nesse caso, o predomínio da matéria sobre o espírito, dos sentidos sobre a tr[r]

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Hannah Arendt, o totalitarismo e a relação com o conceito do mal e da moral

Hannah Arendt, o totalitarismo e a relação com o conceito do mal e da moral

parâmetros ao novo fato que surgia. E não faz sentido tentar explicar o terror com o pensamento kantiano dessa obra, que busca o entendimento entre os seres humano, quando Hitler mandou queimar o Parlamento e deixou dúvidas filosóficas sobre os conceitos existentes. A Fundamentação da Metafísica dos Costumes trata da base moral que não serviu como padrão e referência de análise. Algo universalmente válido não condiz com a “ruptura da tradição” de valores, repetida por Arendt em diversas obras. Seria uma contradição afirmar a ruptura da tradição e tentar explicar com os conceitos universalmente válidos, demonstrados que podem simplesmente não ter validade alguma e modificados com o movimento totalitário. Porém os questionamentos sobre o juízo estético representam um sentido importante. Para Arendt, o juízo estético de Kant, ao tratar do conceito que origina a ação – não a partir de algo a priori – de algo subjetivo, podendo variar de um indivíduo para outro. A autora entendia que a origem do pensar, ou a falta dele que proporcionou o mal, deveria ser o ponto de partida do estudo. O pensar e o julgar se tornam fundamentais para a autora constatar essa origem. Uma origem dada a priori que difere da capacidade de uma reflexão livre. Para a autora, a negação da liberdade foi um fator fundamental para desencadear o processo do mal. Quando não se tem a liberdade de expressão, ou a liberdade política, nem a política para obter a liberdade, o mal irá tomar forma, através do terror, com os assassinatos, corrupção e tirania. Esse aspecto foi mais importante do que algo categórico e universalmente válido, como a fundamentação moral de Kant. Arendt não se limitou em afirmar que o colapso da moralidade tomou forma e se fez presente juntamente com a quebra dos princípios religiosos, logo, a autora irá tomar outro rumo, diferente de Kant, nesse aspecto. O rumo do estudo, que permitirá constatar de que forma valores fundamentais de moralidade não universalizáveis podem assumir o lugar de outros valores e costumes tradicionais. Foi necessário, acima de tudo, compreender sob alguma perspectiva e, para isso, os estudos de Sócrates aparecem juntamente com aos juízos reflexionantes estéticos de Kant, da obra Crítica da Faculdade do Juízo.
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"A crise na educação", de Hannah Arendt

"A crise na educação", de Hannah Arendt

“Lichtenberg queixou-se, num texto do magazine de Gotinga, da ilu- são segundo a qual dever-se-ia fazer tudo aos rapazes como num jogo [...]. A criança deve brincar, deve ter horas de repouso, mas também tem de aprender a trabalhar. A cultura da sua habilidade é, claro está, igualmente tão boa como a cultura do espírito, mas ambos os géneros de cultura têm de ser exercitados em tempos diferentes. [...] No traba- lho, a ocupação não é agradável em si mesma, é empreendida por mor de outro propósito. No jogo, pelo contrário, a ocupação é agradável em si, sem se propor qualquer propósito para além de si próprio. [...] O homem é o único animal que tem de trabalhar. Somente depois de muitos preparativos chega o homem ao estado de poder fruir de algo para seu sustento. [...] A criança tem de ser, pois, habituada a traba- lhar. E onde senão na escola se deve cultivar a inclinação para o traba- lho? A escola é uma cultura por coacção. É extremamente nocivo que a criança seja habituada a considerar tudo como num jogo” 24 .
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AS RAÍZES TERRENAS DO PERDÃO EM HANNAH ARENDT

AS RAÍZES TERRENAS DO PERDÃO EM HANNAH ARENDT

Estamos rodeados por exemplos de memória urbanos, arquivos, bibliotecas, museus, memória funerária, memória ligada à escrita. A questão das comemorações pode trazer consigo desmemória quanto o passado longínquo ainda que pareça procurar uma identi- dade. No entanto a memória é uma guerra entre os que não querem recordar e os que não podem esquecer. É legítima a conquista histórica da memória que não pode esquecer. Só assim se enriquece a memória no sentido de preencher o vazio do tempo. Por isso devemos guardar a memória social, funcionando como referência como respeito pelo passado. Não deixar que a memória fique no es- quecimento. Vem a este propósito lembrar o desafio de P. Ricoeur à historiografia actual que reanime a memória declinante. Trata-se da dívida para com as vítimas da história.
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ALTERIDADE, AÇÃO E EDUCAÇÃO EM HANNAH ARENDT

ALTERIDADE, AÇÃO E EDUCAÇÃO EM HANNAH ARENDT

Antes de seguir com a análise, retomaremos rapidamente alguns dos elementos que envolvem o julgamento e, consequentemente, a po- sição de Arendt em relação à personalidade e ao comportamento de Eichmann. O tenente-coronel das tropas SS foi acusado pelo Estado de Israel de ter organizado a deportação em massa para os campos de ex- termínio, cometendo crimes de guerra, crimes contra o povo judeu e crimes contra a humanidade. O presente texto não tem o propósito de analisar o mérito do julgamento, mas é importante mencionar que o jul- gamento desses crimes ocorreu em Jerusalém, com base na lei israelen- se de 1950. Nada de mais, não fosse o fato de as leis israelenses de 1950 (n. 5710), que tratavam da punição dos nazistas e seus colaboradores, serem posteriores aos atos de Eichmann. Além disso, lembra Arendt, há o despreparo da Corte em Jerusalém diante da necessidade de julgar um crime “novo”, o de genocídio, problema que os juristas resolveram tratando genocídio como homicídio em larga escala. Tudo certo, se ge- nocídio e homicídio não fossem crimes distintos. O genocídio, defende Arendt, é um crime contra a humanidade, contra o status humano e a condição humana da pluralidade, atacando a diversidade humana e des- tituindo a humanidade de significado.
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A questão social em Hannah Arendt.

A questão social em Hannah Arendt.

O tema da vita contemplativa em sua relação com a vita activa foi abordado diretamente apenas no final da vida de Arendt. Ela morreu quando escrevia a terceira parte da obra A Vida do Espírito. A motiva- ção desse livro, sem dúvidas, pode ser atribuída à dificuldade de, nas so- ciedades contemporâneas, se exercer a faculdade do juízo, uma faculda- de intimamente relacionada à capacidade de pensar, forma apropriada do pensamento se manifestar no mundo. Na sociabilidade atual, na qual a esfera e os padrões provenientes do social estão em vigor, o exercício da faculdade de julgar é dificultado, prevalecendo um horizonte meramente funcional e condicionado. Eichmann, o carrasco nazista que enviou os ju- deus para os campos de concentração, é o protótipo, para Arendt, do ho- mem contemporâneo que age sem julgar, como se fosse uma coisa na en- grenagem social e institucional, condicionado apenas pelos interesses funcionais. Esse tipo de homem age como o cão de Pavlov, treinado para salivar mesmo sem ter fome. Do mesmo modo, sem motivação alguma, desfeito da habilidade de julgar, o homem pode possibilitar ou realizar os maiores males. A isso Arendt chamou de a banalização do mal.
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Hannah Arendt - Adriano Correia

Hannah Arendt - Adriano Correia

A imagem de Eichmann como uma figura comum, e mesmo banal, a pensar por clichês, com sua presteza para obedecer a qualquer voz imperativa e de quem não se poderia extrair qualquer profundidade diabólica, fez com que Hannah Arendt mudasse de idéia e deixasse de utilizar o termo “mal radical”, que na sua compreensão poderia sugerir uma radicalidade que de fato os perpetradores desses crimes não necessariamente possuíam. Quando ela passa a utilizar a expressão “banalidade do mal”, embora afirme estar em um nível “estritamente factual”, já tem consciência de grande parte das implicações teóricas dessa compreensão dos crimes perpetrados pelos regimes totalitários. Todavia, não poderia esperar que a recepção fosse tão negativa e hostil. De fato, dois temas tornaram esse livro o mais comentado e combatido dos anos 1960 nos Estados Unidos: a indicação de que, sem a cooperação de grande parte da liderança judaica, a catástrofe dos judeus poderia ter sido menor (ela cita o contra-exemplo da Dinamarca, onde a não-cooperação reduziu drasticamente o número de vítimas); e a atestação da banalidade do mal em Adolf Eichmann.
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Arendt e Kant: banalidade do mal e mal radical

Arendt e Kant: banalidade do mal e mal radical

O que é distintivo em Eichmann, acima de tudo, é a sua incapaci- dade de avaliar as consequências devastadoras de seus atos, mesmo quando consideradas instrumentalmente como meios de autopromoção. O seu déficit moral, por assim dizer, se assenta na sua incapacidade de avaliar a desproporção entre estes dois termos: eficiência na sua função (aliada ao reconhecimento público) e a consequente destruição gratuita (que vai contra tudo o que já pôde conceber mesmo o utilitarismo mais rasteiro). A sua incapacidade consistia, por exemplo, em não perceber que os seus atos, ainda que compatíveis com a ordem moral, jurídica e social instaurada pelo nazismo, não seriam coadunáveis com qualquer contexto moral, jurídico ou social até então existente ou imaginado. Para Hannah Arendt ainda o fato de ser carreirista não o tornava um crimi- noso de grande estatura, movido por motivos efetivos, um vilão, e sim um burocrata eficiente, que poderia ser o típico bom funcionário de qualquer empresa, nas mãos de quem caiu uma tarefa criminosa gigan- tesca a realizar e não a declinou. Ele seria um grande criminoso apenas pela magnitude do seu crime. Hannah Arendt, que antes de ir ao julga- mento em Jerusalém pensava ser Eichmann “um dos mais inteligentes do bando”, voltou de lá julgando ser ele não um monstro, mas acima de tudo um palhaço, com dotes mentais bastante modestos, cujos depoi- mentos fizeram-na rir às gargalhadas. (ARENDT, 2000, p. 67 e 152). Esse é o resultado de sua tentativa de compreender o que estava se passando e a maneira como ela se refez do seu próprio aturdimento diante do fato de que
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A questão da aparência em Hannah Arendt

A questão da aparência em Hannah Arendt

1987). Para que a metafísica platônica seja definitivamente superada, é necessário abolir também o “mundo aparente”. Abolir o “mundo apa- rente” significa na verdade eliminar a maneira como o sensível é visto pelo platonismo, ou seja, retirar-lhe o caráter de aparência. Não se trata, pois, de abolir o mundo sensível, mas de eliminar o mal-entendido do platonismo, abrindo caminho assim para uma nova concepção do sensí- vel e para uma nova relação entre sensível e não-sensível. Para tanto, não basta apenas inverter a velha hierarquia, enaltecendo o que antes estava embaixo, exaltando o sensível e desprezando o não-sensível. É preciso abandonar inteiramente o horizonte do platonismo-niilismo, ou seja, a dicotomia ontológica que ele implica e suas respectivas categorias.
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Tecnologia e alienação do mundo em Hannah Arendt

Tecnologia e alienação do mundo em Hannah Arendt

41 | Pensando – Revista de Filosofia Vol. 8, Nº 15, 2017 ISSN 2178-843X trás das aparências, e que essas formulações nos disponibilizam poderes de transformação inusitados, inclusive da condição humana, pode bem ser que “jamais cheguemos a compreender, isto é, a pensar e a falar sobre aquilo que, no entanto, somos capazes de fazer” (1958, p. 11), enfim, que o homem possa fazer “com êxito, o que ele não pode compreender e expressar na linguagem cotidiana”. (1954, p. 332) 20 . O que Arendt nos está alertando é que somos capazes de fazer coisas as quais somos incapazes de tecer considerações políticas o que, em outras palavras, significa que somos capazes de edificar um mundo para fugir de outro mundo, fazendo de nós alienígenas de nossa própria morada. Nesse sentido, segundo Rodrigo Ribeiro, “a moderna tecnologia, para Arendt, traz o problema das transformações que a máquina introduz na vida orgânica, no processo de produção e na mundanidade do mundo como artifício humano” 21 , e esse problema é transformar o homem condicionado pela Terra em um homem condicionado pelas mãos humanas, ou seja, pela técnica.
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Resenha de Ética,  e juízo em Hannah Arendt

Resenha de Ética, e juízo em Hannah Arendt

Embora não resolva efetivamente os percalços da relação entre a liberdade compreendida como proveniente da vontade e sua relação com a liberdade polí- tica, Bethânia Assy dá um passo importante para a discussão. Isso porque, se- gundo a intérprete, compreender aqui a contingência relativa à vontade significa compreender a factualidade presente já nessa faculdade, pois “a contingência im- plica inevitavelmente em factualidade.” (p. 123). Se lembrarmos de como Arendt interpreta o conceito de aparência, a importância de trazer à faculdade do espírito o elemento de contingência se torna latente junto à sua factualidade. A contin- gência assume, diferente do que costumou ser interpretada na tradição, um as- pecto positivo e ativo, pois “não se define como mera privação, deficiência ou acidentalidade”, isto é, “a contingência é um modo positivo de ser.” (p. 123). É justamente este o ponto que Bethânia usa para reforçar o argumento central de tal capítulo: a “de que neste atributo da vontade, de agir ou não agir, se assentaria o fundamento ontológico da liberdade política.” (p. 124). Para tanto, Bethânia as- senta tal assertiva não com o intuito de afirmar ser a liberdade da vontade já uma liberdade política, mas que o fundamento da liberdade política se encontra na capacidade da vontade de decidir algo novo. Sabe-se largamente que um dos principais conceitos políticos de Arendt é o início, isto é, a capacidade proveniente da natalidade que o homem tem de começar algo novo, de trazer novidade, deste modo, para Assy, “assim como a ação anuncia o milagre da natalidade na vita ac- tiva, a virtude criadora da vontade anuncia o milagre da natalidade na vita contem- plativa.” (p. 130), isso para poder afirmar que “nossa faculdade de querer nos im- pele, de certa forma, à ação” (p. 131).
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O fenômeno da vontade em Hannah Arendt

O fenômeno da vontade em Hannah Arendt

Já a resposta negativa, ou seja, a consideração de que o pensamento arendtiano continua sendo politizado, mesmo nos momentos em que Arendt se ocupa com questões da vida interior, pode ser a mais adequada quando se constata a defesa que ela faz, em última instância, da faculdade espiritual da vontade como a responsável pelo agir humano, e imprescindível para a possibilidade que todo indvíduo tem de iniciar processos. Arendt atribui à vontade o ímpeto necessário à verdadeira ação livre, cujo resultado é imprevisível e representa um momento único, além de revelar quem somos aos outros, confirmando a singularidade ou o principium individuationis de cada um em meio à pluralidade. Para Arendt, a pluralidade, condição inerente à teia das relações humanas, é essencial e necessária à existência da grande política, pois demonstra a diversidade daqueles que se manifestam. Esse é um dos aspectos originais da teoria política de Arendt, e que fundamenta a crítica que ela faz à Filosofia, presente nas palavras que dirige a Jaspers: “[...] a Filosofia Ocidental nunca teve um conceito claro daquilo que constitui a política, e nem poderia ter tal conceito, porque, por necessidade, falou do homem de forma individual e tratou do fato da pluralidade tangencialmente" (ARENDT; JASPERS, 1992, p. 166, tradução nossa). 4 Tudo isso para que se possa afirmar que na Filosofia Política de Arendt encontram-se as razões do seu suposto e aparente distanciamento de outros âmbitos da Filosofia. Além do mais, de acordo com Young-Bruehl (1997, p. 236) “[na] reflexão [supracitada] encontram-se as sementes das tarefas filosóficas desenvolvidas por Arendt nos anos 1950, para seu ensaio ‘Ideologia e terror’, para a coletânea de ensaios Entre o passado e o futuro e para sua A condição humana.”
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