Top PDF A Violência da poesia.

A Violência da poesia.

A Violência da poesia.

Nos três incidentes, que resultaram em dez mortes, que os três poemas de Armando Freitas Filho dão a ler, temos histórias de vítimas, cuja gravidade sintomática galvanizou a opinião pública brasileira. A poesia se inscreve no grande espaço da política con- temporânea da vitimização. Ela se insere em um intervalo ao mes- mo tempo colado e recuado ao clichê jornalístico. Não se furta a referir-se ao corriqueiro, ao fait divers, ao assunto do dia. Ao con- trário, expõe-se inteiramente a ele, usando a escrita como antído- to contra o “imprensamento” da notícia, não se deixando tomar pela lógica que pauta a “fala do crime” e a notícia criminal. Não produz um sintoma, como reação ao trauma da violência da notí- cia, o discurso da vitimização direta ou indireta, com a exacerba- ção da “defesa patológica” e sua ênfase na política de segurança em larga escala.* O poema repete a violência traumática do incidente, mimetizando o trauma, instaurando uma distância nítida com re- lação ao fato, uma respiração na zona de visibilidade que a mídia inscreve, produzindo em cada caso a falha ou cesura de onde o po- ema fala: o ponto de vista da vítima que vê e não é vista; o ceno- táfio que recusa o monumento visual e se transforma em diagra- ma rítmico; o corpo da vítima desaparecida dispersa em “disjecta membra”. Os poemas não configuram uma fábula moral, mas um testemunho que atesta sobre a vida dos mortos, seu caráter indes- trutível, para retomar a frase de Blanchot.* Esta é a historicidade da poesia, e da poesia de Armando em especial. Nos seus poemas que tematizavam a tortura durante a ditadura militar, o rigor da escrita se inseria no espaço que chamei de paródico com relação à lei de um texto preestabelecido, que o poema repetia e sub-repti- ciamente alterava. Aqui, nos três poemas sobre a violência urba- na carioca, trata-se de descolar-se do clichê espetacular da impren- sa para inserir, no recuo instaurado pela poesia, a cesura de onde emana a memória da vítima. Não um excesso de visualidade co- mo a mídia, mas uma falha nela. O poema instaura uma maneira de não ver as vítimas, ou um ponto nítido de não visão, a partir do qual pode falar a sua memória. A desconstrução da simetria e da analogia que fundam o culto da beleza, do visível e da cultura dos
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Outras histórias, constelações: poesia para além da violência

Outras histórias, constelações: poesia para além da violência

Articulo aqui o que foi uma série de ensaios em que discuti a si- tuação da poesia hoje num mundo violento, em que a guerra explode por toda parte e a mídia autoritária estimula o desejo de coisas e mar- cas. Como fica a poesia num mundo em cacos é uma pergunta que se coloca para Adorno e antes até para Drummond, que, no poema “O sobrevivente”, diz que o último trovador morreu em 1914. No entan- to, a poesia é cada vez mais necessária, penso. É ela que pode apontar possibilidades latentes, reconfigurar o real, articulando uma outra con- figuração do sensível. Essa esperança na poesia e na arte aparece em Rancière, já em Schiller e num artigo de Franco Fortini de 1946, numa Itália recém-saída do fascismo.
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Violência, imagem e linguagem na poesia de Alberto da Cunha Melo

Violência, imagem e linguagem na poesia de Alberto da Cunha Melo

98 no caso da Oração pelo poema, enfeixados sob um título coletivo. Temos notícia de que o autor praticou o formato durante mais de uma década, até o ponto de —, como sugeriu um de seus comentaristas — quase o ter esgotado, restando apenas, como próximo passo a dar, abandoná-lo finalmente (HÉLIO, 1989, p. 181). Para Mário Hélio, no entanto, em seu posfácio aos Poemas anteriores, essa prática tem qualquer coisa de paradoxal. Trata-se, no seu entender, de “um exercício de liberdade ligado à palavra falada. Liberdade vigiada, é claro” (HÉLIO, 1989, p. 180-190), de um esforço de “fazer uma poesia consciente das suas limitações, da falta, do menos, da escassez, como se fosse um bem econômico” (p. 181) — observação que nos parece preciosa. De fato, a ideia da escassez e da “economia” anda de par com a procura da excelência no domínio do verso — ou da própria linguagem —, até um ponto em que essas duas realidades se confundem. “Escrever bem” é, em todos os sentidos, escrever no limite do possível, sendo limite definido não pelas capacidades individuais de cada criador, mas pela própria ideia do alvo a ser atingido, do qual só nos aproximamos quando nos desviamos dele, isto é, quando miramos a forma do poema e os seus problemas particulares (como ocorre na poética de João Cabral de Melo Neto), quando nos entregamos plenamente àquele arrasto do tempo que se revelará, no final, como consunção e não — conforme a prudência recomenda — como realização de “obras-primas”.
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Humor e ética da representação em Luís F. Veríssimo

Humor e ética da representação em Luís F. Veríssimo

No livro Poesia brasileira: violência e testemunho, humor e resistência, por meio do ensaio “Luis Fernando Verissimo: um país entre o trágico e o cômico – leitura de ‘Nova canção do exílio’ (1978)”, Wilberth Salgueiro elabora uma importante reflexão sobre a relação entre o humor de Veríssimo e experiência histórica brasileira da ditadura militar. Parte da noção de historicidade do texto literário, proposta pela teoria crítica adorniana, e de elementos próprios das concepções culturais do humor, para analisar o poema “Nova canção do exílio”, cujo conteúdo faz um “painel pessimista e melancólico de nosso país, a despeito do tom entre bem-humorado e irônico que o sustenta” (SALGUEIRO, 2018, p. 226). Sua percepção é a de que, ao problematizar a relação entre a precariedade da existência e a necessidade de resistir em um contexto profundamente perturbador, o poema sugere, por meio de sua própria estrutura formal constituída pelo humor, a possibilidade de reflexão crítica. Entretanto, o autor chama a atenção para o fato de haver “uma natural e compreensível dificuldade de se misturarem contextos de violência e conceitos de humor. É necessário ter equilíbrio, prudência, bom senso” (2018, p. 238).
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Da leitura da poesia à poesia da leitura: a contribuição da poesia para o Ensino Médio

Da leitura da poesia à poesia da leitura: a contribuição da poesia para o Ensino Médio

O conceito de poesia, se é que é possível conceituá-la, é coisa bem diversa do conceito do poema, mesmo que, em alguns momentos esses conceitos estejam entrelaçados. Poema é a estrutura, é a forma do texto escrito em verso. Verso é cada linha de poema, o que não significa que qualquer coisa escrita em verso contenha poesia. Eno Teodoro Wanke traz, ao longo de Como fazer trovas e versos (1985), uma série de conceitos que acredita serem importantes para se tentar encontrar alguma possibilidade de conceituar o termo. Para esse autor (idem, p. 76), “Tratados têm sido escritos procurando definir poesia, o que demonstra dificuldade do entendimento”. Uma das mais abrangentes e interessantes definições de poesia que ele cita é de a William Wordsworth, poeta inglês do século XIX, encontrada no prefácio de suas Baladas Líricas: “Poetry is emotion recollected in tranquility”, ou seja, “Poesia é a emoção recolhida na tranqüilidade”. Nesse conceito, a poesia aparece do ponto de vista não do leitor, mas do poeta, ou seja, uma visão de quem a faz. Wanke (1985) nos mostra os elementos básicos da poesia dos quais trata William Wordsworth: primeiro, o poeta demonstra claramente suas sensações, sentindo-as, e, só depois, tranqüilo, ele se lembra delas e as coloca em palavras, para transmiti-las.
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Paulo Barreto Holly Gibbs

Paulo Barreto Holly Gibbs

Para melhorar o desempenho dos acor- dos, recomendamos implementar e divulgar as auditorias independentes sistematicamente; aumentar o registro e a confiabilidade do Ca- dastro Ambient[r]

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A PERCEPÇÃO DOS GESTORES SOBRE A GESTÃO DE RESÍDUOS DA SUINOCULTURA: um estudo de caso em granjas na região da Zona da Mata mineira

A PERCEPÇÃO DOS GESTORES SOBRE A GESTÃO DE RESÍDUOS DA SUINOCULTURA: um estudo de caso em granjas na região da Zona da Mata mineira

Declaro que fiz a correção linguística de Português da dissertação de Romualdo Portella Neto, intitulada A Percepção dos Gestores sobre a Gestão de Resíduos da Suinocultura: um estudo [r]

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A FORMAÇÃO CONTINUADA DOS TUTORES A DISTÂNCIA NOS CURSOS DE GRADUAÇÃO A DISTÂNCIA DA UFJF

A FORMAÇÃO CONTINUADA DOS TUTORES A DISTÂNCIA NOS CURSOS DE GRADUAÇÃO A DISTÂNCIA DA UFJF

Buscando compreender a dinâmica de cada curso da UFJF, nossa pesquisa também tangenciou questões outras que o espaço desta dissertação nos impediu de problematizar, como é o caso [r]

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Poesia e Videoarte – Editora Circuito

Poesia e Videoarte – Editora Circuito

Seria conveniente por um momento considerar a poesia “pura”, antes de passar à pintura. A  teoria da poesia como encanta- mento, hipnose ou droga – como um agente psicológico, por- tanto – remonta a Poe e, em última instância, a Coleridge e Edmund Burke, com seus esforços para situar o prazer da poe- sia na “Fantasia” ou “Imaginação”. Mallarmé, contudo, foi o pri- meiro a basear nessa teoria uma prática consistente de poesia. O som, ele concluiu, é apenas um auxiliar da poesia, não o pró- prio meio; além disso, a poesia hoje é sobretudo lida, não reci- tada: o som das palavras é parte de seu significado, não aquilo que o contém. Para livrar a poesia do tema e dar plenos poderes à sua verdadeira força afetiva é necessário libertar as palavras da lógica. A singularidade do meio da poesia está no poder que tem a palavra de evocar associações e conotar. A poesia já não reside nas relações das palavras entre elas enquanto significa- dos, mas nas relações das palavras entre elas enquanto per- sonalidades compostas de som, histórias e possibilidades de significado. […] O poeta escreve não tanto para expressar como para criar algo que vai operar sobre a consciência do leitor, não o que comunica. E a emoção do leitor derivaria do poema como um objeto único e não dos referentes externos ao poema. […] No caso das artes plásticas, é mais fácil isolar o meio e, por con- seguinte, pode-se dizer que a pintura e a escultura de vanguar-
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Open Da leitura à poesia: da poesia à leitura

Open Da leitura à poesia: da poesia à leitura

Conforme o autor supracitado, a poesia é conhecimento, salvação, poder, entrega, abandono. A poesia é uma operação capaz de transformar o mundo; a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual; é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo, no qual vivemos; cria outro, no qual gostaríamos de viver. É, também, pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. É um convite a viagens; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Ela é também súplica ao vazio, diálogo com a ausência. A poesia é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero; é oração, litania, epifania, presença, exorcismo, conjuro, magia; Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. A poesia nega a história, e em seu seio resolvem-se todos os conflitos, e nela o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais do que passagem.
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A produção da exclusão educacional no Brasil Introdução

A produção da exclusão educacional no Brasil Introdução

Resumo: O artigo apresenta uma crítica dos avanços e retrocessos das políticas educacionais ao longo dos últimos 40 anos, analisando a produção da exclusão educacional observada no Bra[r]

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A sociologia da libertação de François Houtart — Outubro Revista

A sociologia da libertação de François Houtart — Outubro Revista

Ao reler sua biografia e seus textos em 2017, Houtart, no entanto, aparece como um precursor, pois antecipou várias décadas ou pelo menos duas grandes evoluções [r]

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(Neo)Liberalismo: da ordem natural à ordem moral — Outubro Revista

(Neo)Liberalismo: da ordem natural à ordem moral — Outubro Revista

O antropologismo negativo pessimista tem como contraparti- da não apenas a posição do sistema econômico do capital como sujeito, mas também, como foi visto, a sua canonização, [r]

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MARIA ÂNGELA CAVALCANTI DE ANDRADE A IMPLEMENTAÇÃO DO SISTEMA DE INFORMAÇÕES DA EDUCAÇÃO DE PERNAMBUCO E SUA APLICAÇÃO PARA A MELHORIA DA GESTÃO

MARIA ÂNGELA CAVALCANTI DE ANDRADE A IMPLEMENTAÇÃO DO SISTEMA DE INFORMAÇÕES DA EDUCAÇÃO DE PERNAMBUCO E SUA APLICAÇÃO PARA A MELHORIA DA GESTÃO

Então são coisas que a gente vai fazendo, mas vai conversando também, sobre a importância, a gente sempre tem conversas com o grupo, quando a gente sempre faz um[r]

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