Top PDF Alegoria redimida em Walter Benjamin

Alegoria redimida em Walter Benjamin

Alegoria redimida em Walter Benjamin

Ler Walter Benjamin é sempre uma tarefa difícil e intrigante. A começar pela dificuldade de circunscrevê-lo ou delimitá-lo a uma específica área de conhecimento. Ele escreveu sobre literatura, cultura, filosofia, história e ainda sobre o entrecruzamento dessas áreas. Além disso, sua escrita é, muitas vezes, hermética e alegórica. Por esse motivo, foi criticado por muitos marxistas, para os quais a dificuldade da recepção de seus textos evidencia muitas vezes ambiguidade ou, até mesmo, inacessibilidade. A despeito do exercício da leitura eventualmente encontrar-se diante de uma escrita íngreme, a extensa fortuna crítica em torno e a partir da perspectiva benjaminiana confirma tratar-se de um dos grandes intelectuais do século XX. Suas reflexões surgiram de um emaranhado de inusitadas combinações a partir do romantismo, do judaísmo e do marxismo. Considerando a relevância de seus estudos para o âmbito da literatura, da estética e da historiografia, neste estudo destaco a alegoria como um importante elemento de sua crítica. Pretendo, a partir dos escritos sobre a forma alegórica, os ensaios de 1916, sobretudo considerando, obviamente, o livro sobre o drama barroco, vislumbrar no procedimento crítico do autor como se dá o processo de transformar o objeto de estudo, ou seja, a alegoria, em constituinte de sua própria escrita. Assim, a imersão na obra benjaminiana será a característica metodológica principal do presente texto, sem, no entanto, perder de vista a recepção dos textos destacados, Origem do drama barroco alemão, Rua de mão única e as Passagens, bem como a relação dessas obras com seu tempo – que conforme as considerações feitas por Benjamin, o olhar histórico existente na relação entre passado e presente deve ser substituído por um olhar político.
Mostrar mais

212 Ler mais

A alegoria na lírica baudelairiana: uma leitura a partir de Walter Benjamin MESTRADO EM FILOSOFIA

A alegoria na lírica baudelairiana: uma leitura a partir de Walter Benjamin MESTRADO EM FILOSOFIA

11 identificar na imagem alegórica, presente em sua poesia, a expressão do reverso de uma época histórica que se pretende definitiva. No livro inacabado sobre o poeta Charles Baudelaire, Walter Benjamin 3 dedicou uma de suas secções, intitulada “Baudelaire, poeta alegórico”, ao estudo da alegoria moderna do literato. Mas como se sabe, apenas uma das três partes previstas do livro foi publicada, restando-nos apenas rascunhos do que viriam a ser os demais capítulos deste livro. A secção sobre a alegoria moderna foi uma dessas partes não terminadas pelo filósofo, embora se mostre presente nos ensaios, nos escritos, nas anotações, nas cartas e, também, no capítulo concluído, “A Paris do Segundo Império em Baudelaire”, de Benjamin. O presente trabalho investiga como a forma alegórica da poesia de Charles Baudelaire é articulada por Walter Benjamin possibilitando uma nova análise acerca da temporalidade moderna. Para isso torna-se necessário esclarecer a concepção de alegoria da qual Benjamin parte, a fim de não reduzir o juízo sobre o valor estético da alegoria a uma mera preferência de gosto, ou, a um simples estudo sobre técnicas lingüísticas de retórica, contudo, vislumbrar sua potencialidade de crítica histórica.
Mostrar mais

74 Ler mais

Walter Benjamin, tradutor de Baudelaire.

Walter Benjamin, tradutor de Baudelaire.

Flores do Mal, segue o caminho oposto, procurando eliminar todo e qualquer rastro da língua estrangeira em suas versões, sendo as suas traduções, desse ponto de vista, verdadeiras “germanizações” (por exemplo, ele escolhe a palavra Duft ao invés da palavra Par- füm, igualmente existente e corrente na língua alemã, para tradu- zir a palavra francesa parfum; escolhe a palavra alemã Trübsinn pa- ra traduzir o estrangeirismo spleen). Outro elemento de divergên- cia é o fato de George eliminar as imagens por demais cruamente sensoriais e repulsivas, tendo em vista privilegiar uma tradução su- blimadora, idealizadora ou espiritualizadora de Baudelaire (onde o subtítulo das Flores do Mal, denominado “Spleen et Ideal” se trans- forma em alemão em Trübsinn und Vergeistigung), na qual a teoria das correspondências tem mais peso que a idéia da alegoria.
Mostrar mais

11 Ler mais

Linguagem e dialética em Walter Benjamin

Linguagem e dialética em Walter Benjamin

A presente leitura também se distância das leituras românticas do texto de Benjamin, como é o caso de Márcio Seligmann-Silva. Na sua erudita obra, já citada, ele acaba por juntar, em última análise, Benjamin aos românticos quando pensa o desdobramento metafísico da linguagem como apelação divina. Ele escreve no desfecho do capítulo sobre o texto de 1916: “Ora, a doutrina romântica do mundo como hieróglifo, da alegoria – que como vimos, os românticos não discerniam totalmente do símbolo –, possuía os mesmos elementos aqui expostos [referindo-se às explicações do texto do Benjamin – E.C.]. E foi justamente a tarefa de aproximar deste elemento divino incrustado no seio de nossa linguagem cotidiana que levou Benjamin a teorizar a “filosofia como interpretação” – na expressão de Heinz Holz. Apenas uma interpretação da linguagem do mundo – na qual se mistura a escrita divina e a da história, a linguagem “perdida” e as páginas dos textos poéticos potencialmente mais próximos da linguagem originária – pode nos encaminhar para a “solução” de tal tarefa. Essa tarefa, romanticamente, está posta desde sempre como Aufgabe (problema, tarefa): necessária e impossível.” 117 A falta de compreensão dialética faz com que Seligmann caia no
Mostrar mais

124 Ler mais

Ética da memória : imagens de Walter Benjamin

Ética da memória : imagens de Walter Benjamin

Nesse contexto, em Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo, obra que fora requerida pelo Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt am Main e escolhida por Benjamin como capaz de afirmar a concepção do trabalho das Passagens 66 , o filósofo destaca que “[...] o ambiente objetivo do homem adota, cada vez mais brutalmente, a fisionomia da mercadoria. Ao mesmo tempo, a propaganda se põe a ofuscar o caráter mercantil das coisas 67 ”. O que re- vela a sequência desse movimento de disfarce e esvaziamento é que “[...] à enganosa transfi- guração do mundo das mercadorias se contrapõe a sua desfiguração no alegórico. A mercado- ria procura olhar-se a si mesma na face, ver a si própria no rosto. Celebra sua humanização na puta 68 ”. A mulher não apenas ocupa um lugar como mercadoria nas cidades grandes, mas também como expressivo artigo de massa 69 . Assim, na interpretação de Benjamin, a aura que de forma ínfima se preserva na própria mercadoria vem à luz na obra de Baudelaire: a merca- doria aparece humanizada, mas de forma diversa à tentativa sentimental burguesa de humani- zar e harmonizar as mercadorias e de dar a elas, como ao homem, uma casa (através de esto- jos, capas e forros que cobriam os objetos burgueses). Ao contrário da barroca, a alegoria em Baudelaire traz “[...] as marcas da cólera, indispensável para invadir esse mundo e arruinar suas criações harmônicas. O heróico, em Baudelaire, é a forma sublime em que aparece o de- moníaco, o spleen sua forma infame. Naturalmente, essas categorias de sua ‘estética’ devem ser decifradas 70 ”. O spleen é o sentimento, em Baudelaire, que corresponde à catástrofe em permanência, ao continuum da história; e as estrelas, em seus escritos, rep resentam a “[...] imagem ardilosa da mercadoria. São o sempre igual em grandes massas [...] 71 ”. Nas palavras de Benjamin: “[...] a idéia do eterno retorno transforma o próprio evento histórico em artigo de massa [...] 72 ; por isso, o objeto histórico precisa ser extraído dessa continuidade, explodido do continuum da história.
Mostrar mais

88 Ler mais

Walter Benjamin, leitor das flores do mal

Walter Benjamin, leitor das flores do mal

poeta das Flores do mal em 1938 e que ele terminará por descobrir que já contém a matéria de um livro. Esses conceitos se compõem em parte de motivos baudelairianos, como a melancolia, a alegoria, o flâneur e a multidão, a boemia, o spleen, a prostituta e a morte, a modernidade, a moda e a novidade; outros conceitos provêm do materialismo dialético, como a noção do fetichismo da mercadoria e da arte como mercado- ria, a da fantasmagoria introduzida pelo jovem Marx, a da alienação etc. Enfim, certas noções como a imagem dialética ou a relação entre a dialética em suspensão e a ambiguidade (“Zweideutigkeit ...ist das Gesetz der Dialektik im Stillstand”) pertencem ao próprio pensamen- to benjaminiano. Os motivos baudelairianos foram, na maioria, senão descobertos, ao menos decifrados na sua importância histórica e con- textualizados novamente por esse leitor verdadeiramente fraternal que é Benjamin, o leitor nos antípodas daquele, hipócrita, ao qual se dirige o poema liminar da coleção. Fraternal porque vivendo, pobremente, em condições análogas: como Baudelaire, Benjamin é um desclassificado, um despossuído sem eira nem beira (ele é daqueles que se chamavam deserdados no século XIX, “aqueles que das lágrimas bebem qual loba voraz!”, diz “O cisne”), particularmente sensível ao fato de que o boê- mio Baudelaire não tinha nem domicílio fixo nem os meios de produ- ção os mais elementares para o escritor ou o intelectual: a biblioteca e o escritório. 8 Privado pela História de seu domicílio, de sua biblioteca, da
Mostrar mais

12 Ler mais

Anotações sobre a teoria da alegoria barroca de Walter Benjamin

Anotações sobre a teoria da alegoria barroca de Walter Benjamin

que levaria à superação da constituição mítica imutável da natureza e da história. O diferencial na visão das categorias como transitórias e não estáticas é que ambas, natureza e história, se interpenetram. Por isso, para Adorno, na cor- rente aberta por Benjamin, o entendimento e a constituição dessas categorias não podem se realizar de maneira separa- da, uma vez que: “A natureza enquanto criação é concebida por Benjamin como assinalada pelo sinal da transitoriedade. A natureza mesma é transitória. Dessa maneira, tem em si mesmo o momento da história. Sempre que aparece histo- ricamente, o histórico remete ao natural, que nele passa e desaparece.” 34 Nesse sentido, a alegoria torna-se a figura cha-
Mostrar mais

11 Ler mais

A alegoria moderna de Walter Benjamin: Passagens, Baudelaire e mercadoria

A alegoria moderna de Walter Benjamin: Passagens, Baudelaire e mercadoria

o alegorista pega uma peça aqui e ali do depósito desordenado que seu saber põe à sua disposição, coloca-a ao lado de uma e outra e tenta ver se ambas combinam: aquele significado para essa imagem ou esta imagem para aquele significado. O resultado nunca pode ser previsto, pois não existe uma mediação natural entre os dois. Dá-se o mesmo com a mercadoria e o preço. [...] Nunca se poderá saber ao certo por que tal mercadoria tem tal preço, nem no curso de sua fabricação, nem mais tarde quando ela se encontra no mercado. Ocorre exatamente o mesmo com o objeto em sua existência alegórica. Nenhuma fada determinou em seu nascimento qual significado que lhe atribuirá a meditação absorta do alegorista. Porém, uma vez adquirido tal significado, este pode ser substituído por outro a qualquer momento. [...] De fato, o significado da mercadoria é seu preço; como mercadoria, ela não possui outro significado. Por isso o alegorista está em seu elemento com a mercadoria (BENJAMIN, 2009:414).
Mostrar mais

25 Ler mais

A modernidade poética em Charles Baudelaire e Walter Benjamin

A modernidade poética em Charles Baudelaire e Walter Benjamin

segunda parte seriam expostos aos elementos para a solução do problema; aqui seria a antítese, que trata da interpretação crítico-social do poeta, considerada por Benjamin como um pressuposto da interpretação marxista, na qual o conceito de fetiche da mercadoria ainda não se realiza, pois ficará a cargo da terceira parte da obra, que seria a síntese. Nesta deveria ser mostrada a forma de maneira enfática a fim de render justiça a ela para que possa ser reconhecida em sua relação com o material, melhor dizendo, mostrar a relação da forma com o conteúdo que se realiza na mercadoria. A forma da poesia baudelairiana que é alegórica, e o material, que é todo extraído das poesias, estabeleceriam um vínculo entre os fenômenos sociais e a poesia baudelairiana. Benjamin queria mostrar como esses fenômenos encontram-se na figuração poética de Baudelaire, bem como os conceitos filosóficos – modernidade e alegoria – que possibilitam a compreensão da leitura que Baudelaire fez do século XIX. Ao trabalho crítico de Benjamin caberia identificar determinados elementos que compõem a obra de Baudelaire, revelando como o século XIX aparece nela impresso.
Mostrar mais

115 Ler mais

Experiência e formação em Walter Benjamin

Experiência e formação em Walter Benjamin

base. “Nos domínios que nos ocupam não há conhecimento senão fulgurante”. O que caracteriza esse conhecimento é o abandono do conceitual por um pensamento por imagens. “Educar em nós o médium criador de imagens” (BENJAMIN, 2006, p. 500 – N1, 8) é a premissa benjaminiana. Com a concepção de alegoria, barroca e moderna, Benjamin propõe uma revolução na maneira habitual de pensar: apenas mudando radicalmente nossa maneira habitual, isto é, conceitual, de pensar, poderemos compreender de maneira diferente o tempo. Contra as filosofias da Representação, a filosofia é concebida como domínio de linguagem, em que a verdade é mostrada, apresentada 75 . A construção da verdade assemelha-se à construção de mosaicos, onde o todo resulta do descontínuo, das diferenças justapostas; onde a verdade é da ordem da construção, da materialidade, em uma palavra, da imagem. O que está em jogo aqui, portanto, é uma concepção de identidade na qual o sujeito se encontra diluído na concretude material da história. Isso é importante para ressaltar que, na tentativa de reconstruir para o saber, para o conhecimento, a experiência formativa perdida, Benjamin dirá: na busca pelo “sentido” da história, a identidade do sujeito apenas existe no objeto, sua fidelidade em relação às coisas é incondicional. De fato, se o homem mergulha no objeto e se perde nele, é para compreendê-lo e, através dele, compreender o mundo 76 . Em detrimento de si mesmo, o homem moderno esvazia-se de sua própria vida e, unicamente porque assim o faz, “vibra seu próprio desassossego”, visto que é a imagem da vida retornada a si mesma 77 . Nesse sentido, as alegorias baudelairianas são construídas como máscaras 78 através das quais um “olhar póstumo” (BOLLE, 2000, p. 312) recai sobre o nosso presente e reconhece seu caráter de ruína unicamente porque reconhece a finitude da condição humana e, ao mesmo tempo, aquilo que permanece como seu elemento essencial, eterno: a violência necessária do tempo e da morte para a história humana. Assim, “a máscara, como réplica inorgânica do rosto orgânico, tende a constituir-se como unidade e também como identidade do vivo com o morto, do ser com o nada” (MATOS, 1993, p. 119). Desse modo, o eu moderno pode afirmar sua identidade, ao reconhecer-se na multiplicidade e transitoriedade dos personagens da grande cidade. A máscara, se é da ordem da fixidez e da inexpressividade, é também sinônimo do “sempre novo”, expressando uma identidade cambiante e imprevisível, “mostra escondendo e esconde mostrando, com a mesma aparência mas nunca idêntica a si mesma”
Mostrar mais

128 Ler mais

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP PAULO NICCOLI RAMIREZ

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP PAULO NICCOLI RAMIREZ

Walter Benjamin salta historicamente ao tomar o drama barroco alemão dos séculos XVI e XVII. Apesar da negação à visão mágica e mítica do mundo, na qual prevalece a relação desafiadora e a redução do homem diante dos deuses e entidades sobrenaturais, além de suas figuras demoníacas, a especificidade do drama barroco diz respeito à possibilidade de profanar estas imagens da Antigüidade, para assim salvá-las. Isto significa que, embora a existência de um mundo regido por magias e feitiços (o mundo mítico) seja amplamente negado, suas principais imagens são resgatadas não para a representação de atos ou eventos miraculosos, mas sim como alegorias que encenam as ações eminentemente humanas. Portanto, o mito é profanado, ao passo que dialeticamente é salvo, uma vez que as alegorias tomam o mito como uma forma de representação das ações humanas. No drama barroco alemão predomina o mundo desencantado, porém a alegoria salva a Antigüidade ao tomar as figuras míticas como metáforas das ações dos homens e não dos deuses e heróis. A alegoria apresenta uma dialética na qual o profano e o divino se combinam: “[...] O conceito do alegórico só pode fazer justiça ao drama barroco na medida em que ele se distingue especificamente não somente do símbolo teológico como, com igual clareza, do mero epíteto decorativo. A alegoria não surgiu como um arabesco escolástico adornado da antiga concepção dos deuses. Na origem, ela não tem nenhuma das qualidades de jogo, distanciamento e superioridade que lhes foram atribuídas, em vista das suas produções posteriores: pelo contrário. O alegorês não teria surgido nunca, se a Igreja tivesse conseguido expulsar sumariamente os deuses na memória dos fiéis. Ela não constitui o monumento epigônico de uma vitória, e sim a palavra que pretende exorcizar um remanescente intacto da vida antiga [...]. Mas se a alegoria é mais que a evaporação, por mais abstrata que seja, de essências teológicas, e sua sobrevivência no meio em que lhes é inadequado
Mostrar mais

255 Ler mais

Fetichismo e fantasmagorias da modernidade capitalista: Walter Benjamin leitor de Marx — Outubro Revista

Fetichismo e fantasmagorias da modernidade capitalista: Walter Benjamin leitor de Marx — Outubro Revista

A importância da obra de Baudelaire localiza-se, segundo Benjamin, na violência de sua perspectiva alegórica, capaz de “demo- lir a fachada harmoniosa do mundo que a cercava” (idem, ibidem, p. 374). A alegoria é necessária a fim de violentar a totalidade formal imposta pela tríade capital-mercadoria-dinheiro sem que, para isso, seja preciso lançar mão de uma totalidade alternativa pressuposta. “A alegoria, precisamente em seu furor destrutivo, visa a aniquila- ção da aparência baseada na ‘ordem estabelecida’ seja da arte, seja da vida – a aparência de uma totalidade ou de um mundo orgânico que transfigura essa ordem, para torná-la suportável” (idem, ibidem, p. 377). Trata-se, neste momento negativo, de destruição de qualquer percepção de um progresso pré-estabelecido servindo como ponto de referência “exterior” para a crítica – restando a esta, tão somen- te, o trabalho de iluminação teórica do caminho (ou da totalidade) já construído. “A oposição categórica de Baudelaire ao progresso foi condição imprescindível que lhe permitiu apoderar-se de Paris em sua poesia” (idem, ibidem, p. 392), infiltrando-se no âmago das mul- tidões cujo dinamismo aparente reproduz algo da falsa novidade das mercadorias – legitimada pela moda e/ou pela publicidade.
Mostrar mais

22 Ler mais

INFÂNCIA E COLEÇÃO: EXPERIÊNCIA E PROFANAÇÃO EM WALTER BENJAMIN

INFÂNCIA E COLEÇÃO: EXPERIÊNCIA E PROFANAÇÃO EM WALTER BENJAMIN

Um começo poderia ser aquele que encontramos como possibilidade colocada em Rua de mão única: infância berlinense: 1900 (BENJAMIN, 2013c), e gostaríamos de buscar em seu último ensaio a imagem que, para nós, mistura, condensa e ecoa na relação entre criança e colecionador: “O anãozinho corcunda”. A figura do corcunda pode ser vista nesse contexto como uma alegoria daquele que fora vencido pela deformidade e foge impotente ao enquadramento dos cânones da perfectibilidade linear da ordem e do progresso burguês. Condensa em si uma imagem dialética bastante profícua ao nosso percurso. O anãozinho é a criança da infância em Berlim, ao mesmo tempo em que é o adulto que rememora no exílio. Ele observa a criança em plena transfiguração no brincar enquanto captura com seu olhar retrospectivo a verve dos objetos de coleção. Onde o anãozinho estava quem perdia era a criança, pois com o tempo as grandiosidades do mundo infantil, os utensílios do brincar e as narrativas fantásticas perdiam seus efeitos. Cada passo rumo ao sujeito adulto era um a mais em direção oposta à criança e rumo ao colecionador adulto.
Mostrar mais

18 Ler mais

RECREAÇÕES: WALTER BENJAMIN, TRADUÇÃO E FILOSOFIA

RECREAÇÕES: WALTER BENJAMIN, TRADUÇÃO E FILOSOFIA

Recreações: Walter Benjamin, tradução e filosofia ... :: Jean D. Soares| PP. 112 – 125 118 contemple, pense várias vezes, aprecie a arte de pensar em cada frase: “o próprio da escrita é, a cada frase, parar para recomeçar”; a escrita “só está segura de si quando obriga o leitor a deter-se em ‘estações’ para refletir”, entre outros tantos exemplos de imersão do conteúdo na forma 8 . Com isso, ele cria estações de serviço nas quais “só esta linguagem imediata se mostra capaz de responder ativamente às solicitações do momento” (BENJAMIN, 2004a, p. 9). Esta é a prática da forma condicional de Benjamin para que a filosofia conserve a lei de sua forma como apresentação da verdade. Seu método é o de apresentação das ideias, em caminho indireto, em desvio ( Cf. BENJAMIN, 2011b, p. 16; BENJAMIN, 1984, p. 50 ). No desvio, mantém-se uma relação imanente com os fenômenos – não é nem relação direta, reta e descritiva, nem relação indireta, curvilínea, plenamente parabólica – é um deslizar entre imagens, entre composições, entre pensamentos, uma forma composta, de retas e curvas, um fragmento. Assim, o ensaio se mostra como um mosaico de ideias, caleidoscópio que em giros desviantes não induz, nem deduz – arrisca-se a apresentar o que é contemplação. A verdade resultante daí não o seria a partir de processos premeditados, porque estes a congelam, retiram-na do fluxo do pensamento. Por isso, parar e recomeçar. O leitor sente a inércia da leitura em fricção com a escrita: ele deve recomeçar; recomeçar para recrear as relações com o pensamento; recomeçar ainda uma vez e se desviar de uma imagem congelada; desviar-se pelo devir entre imagens de pensamento, inintecionado, imergido na experiência contemplativa das ideias e, em sequência, se preciso for, continuar a escrever. Nesse sentido, compreende-se porque escrever a verdade talvez seja, cito-o, “injetar algumas gotas em rebites e juntas escondidos que têm de se conhecer bem” (BENJAMIN, 2004a, p. 9), ou desencadear uma “relação harmoniosa entre a música dessas essências” (BENJAMIN, 2011b, p. 26). O ensaio possui uma incompletude fluída nos fragmentos, dispostos em conformidade com a apresentação da verdade. Mosaico no caleidoscópio, o pensamento flui, dispõe na superfície “da mesa de mármore do café” elementos heterogêneos, configura imagens, escreve.
Mostrar mais

14 Ler mais

AS METAMORFOSES DO MARACANÃ PELA PERSPECTIVA DE WALTER BENJAMIN

AS METAMORFOSES DO MARACANÃ PELA PERSPECTIVA DE WALTER BENJAMIN

Abstract – The main goal of this paper, divided into fragments, is to establish a conjunctive nexus of all the transformative processes imparted to the Mario Filho stadium, also known as Maracanã, in the present Century, through the many facets Walter Benjamin‟s intellectual activity. The starting point of this analysis is Benjamin‟s criticism of the architectural interventions effected in 19 th Century Paris by Eugène Haussmann, which sought not only urban renovation, but mostly the suppression of popular revolt. This rationale has been adopted in myriad social contexts and spaces, such as the stadium itself. In his analysis of the transformation of the status of the work of art following the deployment of means for its technical reproducibility, Benjamin stresses that such novel forms of realising, accessing and perceiving works of art may have caused the loss of their auratic aspect, voiding their exclusivist character and allowing for their emancipatory appropriation by the masses. In the case of Maracanã, however, the effects of the post-auratic period seem to operate in reverse, as this paper, through the Benjaminian concepts of value of cult and value of exhibition, contends. The alterations imposed to Maracanã, seeking to insert it in the economic market, under an economic paradigm, has distorted fundamental traits of its spatial physiognomy and the supporters‟ experience of attending a football match. In spite of every possible empirical difference, the thought of an author such as Walter Benjamin seems quite pertinent, in the present, to obtain a better understanding of how discourses in the name of modernity and its methods of social exclusion in different spaces are still much mobilised by the dominant classes.
Mostrar mais

20 Ler mais

As formas informes de Walter Benjamin e suas repercussões

As formas informes de Walter Benjamin e suas repercussões

Aderindo de certa forma a essa ideia de um intelecto enganoso e alienante, em seu ensaio sobre Baudelaire, Benjamin pode ter pecado por certo excesso na “mera apresentação admiradora da facticidade”, nas palavras da já mencionada carta de Adorno, mas sua apresentação da Paris do século XIX não deixa de se dirigir, ao mesmo tempo, contra o discurso teórico da época, marcado por conceitos que “reprimem” – ou “recalcam” – a variedade sensível das impressões parisienses. A negação operada pelos conceitos não é menos “pecaminosa”, pois representa um excesso no outro extremo da Darstellung, o termo alemão para a apresentação, normalmente associado ao âmbito artístico ou estético, isto é, sensível.
Mostrar mais

16 Ler mais

Nikolai Leskov: o narrador de Walter Benjamin

Nikolai Leskov: o narrador de Walter Benjamin

Mas voltemos a Leskov ainda guiados por Benjamin. Lendas, anedotas, fábulas, dizeres populares, causos comuns, memórias de infância são a base de onde Leskov retira as idéias para trabalhar com virtuosismo suas histórias. É nesse processo que nasce a personagem Catierina Lvovna; de uma lembrança da infância em que “certa vez um velhote vizinho, que ‘vivera demais’ com seus setenta anos, foi descansar debaixo de uma groselheira num dia de verão, e a impaciente nora lhe despejou lacre fervente no ouvido... Lembro-me do enterro dele... A orelha desprendeu-se... Depois um carrasco a torturou na praça. Ela era jovem, e todos se admiraram da sua brancura” (LESKOV apud BEZERRA, 2009, p. 85).
Mostrar mais

7 Ler mais

Teatro Infantil e Educação em Walter Benjamin

Teatro Infantil e Educação em Walter Benjamin

Benjamin, em seu ensaio, ―A obra de arte na era da reprodução mecânica‖, aponta que a técnica fez o tempo suprimir o espaço e alterou radicalmente as condições materiais e existenciais dos artistas e, consequentemente, seu papel sociopolítico. Com isso, a arte, de certo modo, perde o sentido quando não exprime mais o pulsional, dificultando as subjetividades criativas de se expressarem e comunicarem através dela. A subjugação da arte à indústria cultural aponta para a manipulação da vontade e dos valores da massa consumidora, funcionando muito bem para o paradigma educativo estabelecido pela burguesia porque propõe um ensino que faça jus à sociedade do consumo. E o processo de automação da vida espelha-se na imagem do mundo em que a inversão dos valores transforma a realidade em pura aparência, facilitando a produção de subjetividades, cuja representação acrítica da existência espelha-se na vida como espetáculo 357 . Essa visão da vida encenada como espetáculo corresponde à herança barroca que transitou para a Modernidade. Assim, flanar pela cidade é um bom exemplo e o flâneur é um perito nessa encenação, pois participa e ao mesmo tempo se recusa a viver tal espetáculo: quando se encontra na multidão ele está imerso
Mostrar mais

168 Ler mais

A FILOSOFIA DO DIREITO EM WALTER BENJAMIN

A FILOSOFIA DO DIREITO EM WALTER BENJAMIN

Poderíamos dizer, de forma jocosa, que, em Benjamin, a importância da noção de profano não tem igual a não ser a de sagrado – da qual ele fala muito pouco. Assim como a tinta é absorvida definitivamente pelo mata- borrão, do mesmo modo em Benjamin, as figuras teológicas e messiânicas comprovam sua eficácia suprema ao serem, por assim dizer, totalmente absorvidas, até desaparecerem, pelo mundo profano. Esse profano embebido de sagrado é o irmão da prosa libertada, que será a do mundo messiânico, de acordo com vários fragmentos das épocas das Teses. Da mesma maneira, como essa prosa teria integrado em si própria todas a línguas e gradações retóricas, do estilo mais baixo ao mais elevado. Assim também, no dizer do fragmento Fragmento teológico-político, o Messias liberta; resolve (erlöst) o “advir histórico” porque leva até o fim sua relação com o próprio messiânico”. Mas outras palavras, o Messias só virá no momento em que tiver conseguido tornar-se dispensável, tal Messias não vem para instaurar seu Reino, ao mesmo tempo consecutivo ao reino terrestre e diferente dele. Ele vem justamente “quando já não precisa dele, virá um dia depois de sua chegada, não virá no último dia, mas no derradeiro”, como escreve também Kafka, ainda ele. O Messias chega, portanto, quando sua vinda se realizou integralmente que o mundo já não é nem profano nem sagrado, mas liberto – liberto sobretudo da separação entre profano e sagrado 199 .
Mostrar mais

146 Ler mais

Thomas Bernhard e Walter Benjamin: por uma origem redentora / Bernhard and Walter Benjamin: For a Redemptive Origin

Thomas Bernhard e Walter Benjamin: por uma origem redentora / Bernhard and Walter Benjamin: For a Redemptive Origin

Bernhard busca repetir de novo, impede a interrupção do relato onde deveria ser o fim, impõe a apresentação de um novo começo, de modo que a história possa ser lida através de imagens dialéticas e se repita sempre cruzada pelas diferenças. Seu relato se revela como uma tentativa extemporânea de trazer imagens dialéticas ao presente, passando por uma história inquieta, revolta, em ruínas, a ser lida no tempo de agora; é uma proposta de fuga ao tempo cronológico dos eventos. Seu texto apresenta uma origem e uma infância que não cessaram de acontecer, continuam sendo devires. A restauração de suas memórias – pensada pelo conceito de Ursprung benjaminiano – não se dá de forma ilesa, mas se contenta com a ideia de que uma recuperação total do perdido é impossível. Jeanne Marie Gagnebin, comentando a questão do Ursprung de Benjamin, corrobora essa ideia ao proferir, em seu livro História e narração em Walter Benjamin, que
Mostrar mais

10 Ler mais

Show all 1874 documents...