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Antonio Candido, leitor de poesia

Antonio Candido, leitor de poesia

[...] na direção de uma poesia mais tradicionalista, principalmente através da recuperação do decassílabo, de um tom meditativo e do soneto” (MORICONI, 2001, p. 277) – conforme exemplos pos- teriores de Murilo Mendes, Jorge de Lima, Drummond, Bandeira e do próprio Mário de Andrade. Ou seja, o Modernismo canônico – ou “[...] alto modernismo [...]” (p. 277) –, a que corresponderia a “pedagogia do poema” de Antonio Candido, cuja ín- dole “reformista” (p. 274) toleraria “[...] o verso livre enquanto reforma no plano do verso tradicional, enquanto expansão de possibilidades do verso tradicional” (p. 274), e não como radicalização da construção e da cosmo/visão poética, como as encetadas por Mallarmé ou pelos concretistas. Assim, para Candido, na perspectiva de Morico- ni, “O moderno é desafogo que precisa ser domesticado pela tradição. [...] trata-se de adaptar a matéria moderna à forma da tradição. Candido não está com Mallarmé, pois este advoga uma forma moderna” (p. 277, grifo do autor) – e nem com os concretistas, obviamente.
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Antonio Candido, leitor de poesia fin-de-siècle

Antonio Candido, leitor de poesia fin-de-siècle

Começaram a aparecer os poemas de dois versos, a simples notação emotiva, ou, de outro lado, o encantamento das palavras enquanto palavras, a magia das associações vocabulares, que foi o escopo do Simbolismo e que já tem sido classifi cada, numa análise fria, de manifestação glossolálica. A poesia passou, em boa parte, a querer ser pura. A querer, friso eu, porque, diga-se de passagem, os poemas ‘puros’, existentes apenas graças aos valores musicais dos termos e das suas combinações, são tão raros quanto o elefante branco. [...] o que é incontestável é que estas tendências todas encorajaram sobremaneira a poesia chamada menor; a poesia lírica dos simbolistas, dos intimistas, dos surrealistas, que se nutre de momentos excepcionais, e emoções raras, comunicáveis num pequeno número de versos; a poesia de associações raras, de meios tons, de elipses, de obscuridades, de notação essencial [...] O poeta põe de lado as aspirações ambiciosas de antes – os poemas épicos, as longas tentativas em que a inteligência organiza o poema e o dirige num sentido de totalização da experiência intelectual e afetiva – para fi car no jardim requintado ou limitado do lirismo de fôlego curto. (CANDIDO, 2002a, p.130, aspas do autor). Candido (2002a, p.130) acrescenta que essa poesia já não é mais cantada, escrita ou falada, mas apenas “sussurrada”, e o poeta se desdobra em “[...] esforços desesperados para tornar aéreo, leve, imponderável o vocabulário da poesia.” Fazendo questão de pontuar sua análise com uma dose de ironia, conclui o crítico: “No limite (como compreenderam os surrealistas, depois dos pós-simbolistas), a perfeita poesia seria a sugestão total, a iniciativa deixada de todo ao leitor; seria – por que não? – a página em branco.” Em seguida, o crítico acentua que a poesia moderna “[...] herdou uma tradição... recente de luta contra o nexo lógico e, conseqüentemente, contra o caráter discursivo do poema. Contra a sua extensão, numa palavra [...].” (CANDIDO, 2002a, p.131).
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Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

mesmas; translação à volta da poesia, pela solda entre fantasia e realidade, graças a uma sintaxe admiravelmente livre e construtiva” (1995, p. 63). Anos depois retoma o escritor em “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”, por exame minucioso da produção e da vida do artista. O texto estará na 1ª edição de Vários escritos (1970). Outras leituras encorpam o rol de publicações. Três delas incluídas em Recortes, a saber: “Os dois Oswalds”, texto em que reconhece no escritor seu lado “espontâneo e intui- tivo, mentalmente brilhante, mas pouco ordenado. Por isso nunca procu- rou domar racionalmente o jogo das contradições” (1993, p. 35). Segue-se “Oswaldo, Oswáld, Ôswald”, em que pretende restabelecer a origem francesa do nome do escritor (extraído de um personagem do romance Corinne de Madame de Stäel) e ao mesmo tempo recriminar o equívoco abusado da pronúncia americanizada, disseminada por modismo e por desinformação. Para completar esse conjunto de textos breves, fixados em Recortes, temos “O diário de bordo”, uma sensível rememoração, em que evoca a figura de Oswald pelos caminhos de O perfeito cozinheiro das almas deste mundo (1918), inicialmente motivada pela edição fac-similar (1987) do diário coletivo da garçonnière, que Candido filtra em detalhes na sua precisa descrição, registrando “que é verdadeiro prodígio gráfico, reproduzindo exatamente o amarelado do tempo, as manchas, os recortes colados, os rabiscos soltos, a cor das tintas de escrever: roxo, verde, vermelho” (1993, p. 47). Nesse artigo, percorrendo labirintos da memória, também reavivou um encontro entre os dois amigos no bairro onde morava Antonio Candido. Relata, então, que caminhando ao lado de Oswald pela rua, para ajudá-lo a pegar um táxi, foi tomado por um devaneio momentâneo que o transportou para cenários de Os condenados: “Foi apenas um segundo, durante o qual senti sem poder explicar que estávamos ambos no mundo da sua narrativa” (1993, p. 49).
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Ecos da poesia no leitor mirim.

Ecos da poesia no leitor mirim.

Assim, os procedimentos metodológicos direcionam o trabalho para uma pesquisa de cunho qualitativo. E, a partir do desenvolvimento de vivências de leitura com leitores em formação, o propósito foi delinear percursos de significação do poético e sua instrumentalização, para interagir com os recursos e as especificidades do gênero, tendo em vista sua formação como letrados em poesia. Para tanto, o projeto Brincadências poéticas foi desenvolvido com uma turma dos anos iniciais do Ensino Fundamental de uma escola pública do município de Bento Gonçalves. O intuito foi perceber, pela escuta atenta, pela discussão e pela análise, os recursos que cooperam para instaurar possibilidades de sentido poético para o leitor e a maneira pela qual tais recursos são apropriados por aquele que lê. O objetivo foi, além disso, colocar em movimento o ar, inventando sopros que acordem as palavras poéticas adormecidas no interior das caixas, para que elas encontrem, enfim, o seu caminho: os olhos, a cognição e o coração do leitor iniciante.
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Antonio Candido Leitor de Marcel Proust: ou o Realismo como Teoria Literária

Antonio Candido Leitor de Marcel Proust: ou o Realismo como Teoria Literária

E conhecia passagens — estas a que nos referimos inclusive — infindáveis do Em busca do tempo perdido que poderiam expressar sua teoria literária realista (e imaginativa). A indicação para a análise de O tempo redescoberto não era fortuita. (É neste volume último que o ápice do teor romanesco é alcançado. Nele, Marcel dá sentido às oscilações que os pormenores da sua existência o vão afetando no transcurso do tempo. Se nos outros volumes encontramos o narrador-personagem diante de fios — reais — de uma vida intermitente que se espalham pela estrutura mesma da narrativa, e que na sua face imediata incita ao leitor a percepção de um suposto (e equivocado) subjetivismo estéril; em O tempo redescoberto o detalhamento dado pela subjetividade de Marcel adquire significado pleno. Pois é na permanência do tempo — dado pela obra de arte —, e enquanto fenômeno sensível da memória, que a multiplicidade de eventos disseminados na trajetória do narrador-personagem expressam o andamento realístico da obra literária proustiana. E o volume escolhido por Antonio Candido não só satisfaz a estrutura de sentidos do romance como texto unitário — mas desfaz, definitivamente, o suposto subjetivismo estilhaçado pelos momentos de interação afetiva de Marcel ao longo do seu percurso. O tempo redescoberto: desvela num olhar amoroso para trás qual é o sentido de uma vida vivida na dinâmica particular da realidade existencial. Por outras palavras, mesmo uma (ou diversas) realidade criada, imagética e alegoricamente, é alentadora para se perceber o sentido de uma vivencia de então e nos afetar para a experiência presente e talvez futura. Assim é que Marcel pode dizer questionando-se a si mesmo; “como as individualidades (humanas ou não) se comporiam neste livro de impressões múltiplas, as quais provocadas por muitas [pessoas], muitas igrejas, muitas sonatas, serviriam para constituir uma única sonata, uma única igreja, uma única [pessoa] [...] Sim, a esta obra, a noção do Tempo, que acabava de adquirir, me dizia [que era] chegada a hora de consagrar-me [à obra] [...] Obra tal como há pouco a concebera na biblioteca [na] análise em profundidade das impressões [...] recriadas pela memória”. 103 Lamentamos Lukács
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Notas sobre poesia e leitor em João Cabral

Notas sobre poesia e leitor em João Cabral

Resumo: No ano seguinte ao lançamento de Pedra do sono (1942), de João Cabral de Melo Neto, Antonio Candido publica uma resenha sobre esse livro, na qual, além de pressentir acertadamente a grande promessa representada pelo poeta estreante e perceber as linhas mestras do livro, não deixa de lhe censurar o hermetismo e de chamar a atenção do autor para a necessidade de “elevar a pureza da sua emoção a valor corrente entre os homens” (CANDIDO, 2002, p. 141). Antes de Candido, Drummond, em janeiro de 1942, numa carta ao jovem poeta, já havia feito restrição semelhante à poesia do pernambucano, considerando-a muito hermética para o leitor comum. Cabral parece ter internalizado as censuras e as sugestões de seus primeiros leitores quanto à recepção da palavra poética e a elas “respondeu” em sua obra crítica e criativa. Neste trabalho, proponho acompanhar as soluções e tensões que estão na base das “respostas” cabralinas para o binômio poesia e leitor.
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Antonio Candido ou direito à poesia

Antonio Candido ou direito à poesia

de perguntas e a um conjunto de produtos literários, demarcados historicamente, como aliás todo e qualquer método investigativo- analítico. O que se consegue reiterar no método dele é a coerência e coesão demarcadas em cada instância de um pensamento crítico e teórico atento a um projeto que se pode detectar em qualquer produto inscrito nele. A compreensão do que é poesia e as noções do que é compreender um poema estão, intimamente, vinculados ao que se pensa que é a literatura brasileira e atendem a um projeto que sabia o que pretendia fazer dela, e fazia. Dessa forma, a correlação entre as funções de crítico (fortemente impregnadas por sua perspectiva teórica-historiográfica), professor e político são partes integrantes de um mesmo esforço contínuo. Compreender o processo de constituição do literário no Brasil, atrelando o dinamismo do processo à feição singular de cada componente dele, só se justificava na medida em que se articula com a socialização desse conhecimento, tornando-o parte de um projeto humanizador que garante o direito inaliável à partilha desse conhecimento em “sala de aula”. Não se poderia pensar em ação política mais efetiva e participante do que tornar a poesia um direito e um dever. Para uma literatura empenhada, um leitor empenhado em consolidar a circulação da poesia, o fazer do poeta e as práticas de socialização, sem as quais a poesia jamais integra ou transforma o sistema.
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Como construir um leitor de poesia

Como construir um leitor de poesia

minuciosamente já referenciada por nomes como Dennett e Pinker. A minha reticência inicial relativamente à memética deve-se à pouca consistência física na fundação do conceito meme que, ao contrário da genética, não tem um princípio empírico, consistente. A teoria memética apoia-se numa analogia com a genética, suporta-se nas mesmas características e modos de actuação que, semelhantemente aos qualia, não tem suporte físico, alimentando-se da retórica argumentativa. No entanto, sendo um meme qualquer tópico cultural, o que nos interessa reter é que ele é, acima de tudo, um conjunto de informação transmitido de cérebro em cérebro (de suporte físico em suporte físico), segundo determinados padrões de conexão e actividade neuronal (oral, escrita, etc.) 112 . No entanto, o modo e objectivos que movem o meme vêm na sequência daquilo que é importante para a história da teoria literária e já referido atrás: a obra (o meme) serve-se de um hospedeiro (autor) para se disseminar nos leitores, os quais, por sua vez, transmitirão esse património memético (cultural). Neste sentido, o autor como o leitor só são importantes enquanto garantia de replicação, e neste sentido uma vez mais, a obra é que é importante. Um exemplo, como um tópico cultural (a lírica camoniana), pode alterar a vida do leitor, é o caso do personagem da trilogia de Frederico Lourenço, o mesmo é dizer, como um meme pode alterar comportamentos por via parasitária, como na conhecida atitude suicidária do grilo manipulado pelo parasita 113 .
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Ángel Rama e Antonio Candido: de um sistema literário para o Brasil à construção de uma literatura para a América Latina

Ángel Rama e Antonio Candido: de um sistema literário para o Brasil à construção de uma literatura para a América Latina

Segundo Roberto Schwarz, no seu livro Sequências brasileiras (1999a), para entender a obra de Candido, é necessário relacioná-lo com seus predecessores, dado que a ideia de “formação” é o centro de grande parte das obras canônicas da cultura brasileira. Segundo o autor, podem-se considerar como predecessores de Candido, por exemplo, Gilberto Freyre (1900-1987), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Jr (1907-1990) e Celso Furtado (1920-2004). Schwarz considerará cada uma destas obras; porém a de Gilberto Freyre terá maior destaque porque, nela, aparece uma matriz sociológica da cultura brasileira. Segundo Schwarz, com a leitura da obra de Freyre, o leitor acompanha a trajetória da história e a perda progressiva de um valor, que seria o passado colonial. Com Sérgio Buarque de Holanda, Schwarz observa que este autor resgata a constituição da nação como um processo inacabado, direcionando-o ao futuro, para, com isso, compreender a superação das origens em direção a uma sociedade mais democrática. Caio Prado é lido sob um enfoque marxista pelo crítico paulista, demonstrando como a matriz colonial precisa ser superada para que ocorra a verdadeira independência do Brasil. Finalmente, com a leitura de Celso Furtado, Schwarz considera o processo da progressiva apropriação das escolhas econômicas por parte do estado como um sentido da formação brasileira. Esses autores, para Schwarz, da mesma forma que para Candido, valorizam, sob diferentes marcos conceituais, o estudo dos processos de formação não culminados como articuladores da sociedade brasileira. É por isso que, para Schwarz, no caso específico do objeto de estudo de
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Antonio Candido e “A culpa dos reis”

Antonio Candido e “A culpa dos reis”

A estrutura de pensamento a ser revelada na abordagem é apresentada ao lei- tor sob a forma de uma súmula prévia, anterior à própria dissecação do texto em foco: a legitimidade tradicional atribuída ao direito dos reis não é intrinsecamen- te eficiente e não supre a necessidade da eficiência quando esta não se apresenta. A eficiência de quem questiona e abala esta legitimidade, por outro lado, pode vir a suprir a ausência dela e estabelecer princípios para que uma nova legitimidade se estruture em outras bases. Esse fulcro central da peça desvelado pela análise é antecipado para o leitor logo após a síntese das ações principais, servindo assim como fio da meada para as etapas analíticas que virão a seguir no ensaio.
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Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Esse dilaceramento e essa tensão que se traduzem em questões de forma levaram no passado a soluções como os fragmentos no primeiro romantismo alemão por meio de autores como Friedrich Schlegel ou Novalis, nomes esses que reclamaram a instância da poiesis para a refl exão sobre a obra de arte. Que Antonio Candido tenha olhado com especial atenção para esse momento da História da Literatura, não chega a causar espanto. Nesse sentido, é sempre interessante lembrar novamente a proposta de Harold Bloom. A respeito das similitudes entre a “poesia forte” (nos termos particulares bloomianos) e a “crítica forte”, Bloom destaca a necessidade do que chama de “crítica antitética” assimilando mecanismos de defesa que poetas tardios utilizam para fugir da sombra de seus precursores canonizados. Ao fazê-lo, Bloom, sobretudo em sua “tetralogia da infl uência” — A angústia da infl uência (1991a), Cabala e crítica (1991b), Poesia e repressão (1994) e Um mapa da desleitura (1995) —, ao ver em semelhante defesa uma “desleitura”, insinua a ideia segundo a qual toda “poesia forte” pode ser vista como crítica, o que nos permitiria arriscar que toda “crítica forte” poderia, pelo mesmo princípio, ser vista como “poesia”. Ou, em palavras do próprio Bloom:
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Antonio Candido e a formação da literatura comparada

Antonio Candido e a formação da literatura comparada

Interessante constatar, no entanto, que Abel Barros Baptista constata a dimensão universalista, ou internacionalista, de nossa literatura partindo da leitura de textos literários que passaram a integrar a nossa mais seleta e alta tradição, justamente em função da ação teórica de Candido. Como é o caso da obra de Graciliano Ramos e de João Cabral de Melo Neto, o que parece reforçar a sua condição canônica e o acerto teórico de Candido. Uma vez que termina por apontar que, para tratar da literatura brasileira, o recurso é sempre o de naturalizar e reiterar a importância e maturidade de nosso sistema, elegendo sempre os mesmos e iguais autores. Por outro lado, atesta sobre as obras dos dois autores algumas condicionantes críticas já apontadas pelo próprio Candido, que, por exemplo, aconselhou o poeta João Cabral a renomear seu livro de 1980: antes denominado Poemas pernambucanos, e que foi intitulado, defi nitivamente, A escola das facas, depois de ter os originais revistos por Candido. Segundo atesta João Cabral, o crítico julgou que o uso do adjetivo “pernambucano” acabava por restringir o alcance do livro, que apresentava “[...] uma poesia notadamente autobiográfi ca, auto-referencial e de alcance universal e não restrito a uma dimensão regionalista ou circunscrita ao homem de um lugar só” 7 . Além de procurar atestar nosso ingênito universalismo partindo justamente dos
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Antonio Candido na Alemanha

Antonio Candido na Alemanha

Na Alemanha, Antonio Candido era até agora praticamente desconhecido fora dos círculos especializados no Brasil; uma dupla assimetria, quando se leva em consideração a grande influência que a sua obra exerce em toda a América Latina e através das fronteiras disciplinárias. Já existem traduções para o inglês, o francês, o espanhol e o italiano, porém nenhuma publicação de peso em alemão, que seria a base para uma recepção mais ampla na Alemanha. Ou será a falta de interesse por parte do público leitor alemão que impede que este passo se realize? Perante esta situação, a professora Ligia Chiappini do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim, catedrática de Literatura e Cultura Brasileira, decidiu organizar uma primeira seleção de ensaios de Antonio Candido, que re- presentassem aspectos fundamentais de sua obra. Assim, se pretende convidar o leitor alemão a adentrar-se em alguns aspectos da literatura brasileira e de sua contextualização na América Latina. De interesse especial são por isso mesmo aqueles textos nos quais Antonio Candido discute e retoma pensadores alemães, onde enfrenta de maneira descontraída (mas nunca despreocupada) autores tão problemáticos como Ernst Jünger, ou onde trata de forma crítica a suas relações pessoais com a Alemanha. Mas para além dessas ligações específicas entre a Ale- manha e o Brasil, a antologia deve e quer representar as dimensões mais gerais do pensamento de Antonio Candido, que enfrenta questões da função e das possibi- lidades da literatura no presente, mostrando-a enquanto processo histórico que se realiza através de seus efeitos sociais. Assim, Antonio Candido apresenta novas formas de leitura e aponta para aquele impulso fundamental, que não pode ser denominado imediatamente, que leva os seres humanos à leitura. Independente- mente de suas origens, a literatura – representando aqui todas as manifestações culturais – se evidencia assim como objeto e ferramenta da reflexão e do conheci- mento, que se objetivam socialmente a partir de sua própria subjetividade e que, seguindo as pistas do texto, passam do específico para o universal. 24
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Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

Este capítulo se organiza a partir do intensivo repasse da escrita de Antonio Candido, em busca de sua produção crítica, de que se recorta uma fração da parte atinente ao memorialismo. Quase que por natureza um devorador de diários e confissões, o crítico soube desde os primeiros escritos destacar e valorizar as variadas formas de literatura pessoal. Em consequência, construiu um amplo corpus de reflexões sobre o motivo memorialístico; desde resenhas, prefácios, intervenções públicas, entrevistas, ou seja, textos que podem ser ditos de circunstância. Mas, também, textos mais longos, que permitem surpreender o seu pensamento em sua evolução e complexidade. São escritos como dois ensaios publicados pelo suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo, ainda nos anos de 1950, dois raros momentos de reflexão não vinculada diretamente à análise de uma obra, ou os textos dedicados a alguns memorialistas mineiros. Receberá atenção também o ensaio dedicado a Graciliano Ramos e ainda outros, menos longos que esse, mas também desafiadores, tratando de escritores como Cyro dos Anjos ou José Lins do Rego. Proust, espécie de leitura em moto contínuo que o crítico vem empreendendo ao longo de sua extensa vida de leitor e analista, é por demais lembrado pelos seus leitores, será tratado apenas lateralmente, considerando que mereceria um olhar particular e atento, ficará de certa forma parcialmente contornado.
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Antonio Candido: um grande exemplo para todos nós

Antonio Candido: um grande exemplo para todos nós

concepção crítica marcada pelo conceito de raça, pela cau- salidade, estreitando os vínculos entre obra e autor, a partir de uma espécie de explicação de uma pela outra. A crítica concebida nestes moldes chama a atenção do leitor para os fatores que margeiam a fatura da obra, que talvez justifi- quem as condições de vida do autor, mas que tendem a dei- xar o texto literário à sombra destes fatores. Chamando a atenção do leitor mais para os fatos culturais e negligen- ciando o texto literário em si, sua construção, sua natureza de artifício de linguagem, Silvio Romero abre a linguagem crítica, herdeira das polêmicas bacharelescas, a uma visão cultural mais ampla, para o processo que atravessava o nos- so país em meio às transformações operadas no pensamento europeu e diante das influências norte-americanas que avan- çavam célebres para a concentração analítica do artefato poético sob uma ótica imanentista, o “new criticism”, do qual Afrânio Coutinho foi notável defensor.
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Antonio Candido: três textos decisivos

Antonio Candido: três textos decisivos

os outros: direito a casa, comida, instrução e saúde, bens incompressíveis, isto é, os que não podem ser negados a ninguém. “[O] esforço para incluir o semelhante, no mesmo elenco de bens que reivindicamos está na base da reflexão sobre os direitos humanos” (CANDIDO, 2004, p. 172). Continua, agora centralizando a reflexão na literatura, dizendo que o ser humano pode ser definido pela sua capacidade de fabular. A ficção e a poesia, por isso, correspondem a uma necessidade universal e são fatores indispensáveis de humanização, que nos tornam mais compreensivos para a natureza, a sociedade, o semelhante. Acrescenta que a literatura é também fator de desmascaramento da restrição e da exclusão, situações tão presentes em sociedades como a brasileira, em que os direitos humanos são sistematicamente desrespeitados. “Portanto, a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura” (CANDIDO, 2004, p. 191).
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O conceito de forma literária de Antonio Candido

O conceito de forma literária de Antonio Candido

Todavia, excetuando-se o nome dos quatro capítulos (“O preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”), o que encontramos, no romance de Alencar, como traço predominante no que concerne às “imagens do estilo”, é a presença da poesia: há em profusão passagens de prosa poética. O poeta, para Baudelaire (1995, p. 804), é aquele põe a sua imaginação — a rainha das faculdades — a serviço do forjamento de analogias: a imaginação “decompõe toda a criação e, com os materiais acumulados e dispostos segundo regras cuja origem só pode ser encontrada nas profundezas da alma, cria um mundo novo, produz a sensação de novo.” É assim que Alencar construiu o seguinte trecho, em que o tilintar das pedras dos adereços usados por Aurélia e o seu riso fazem remissão ao som musical (sobretudo, devido à repetição da consoante vibrante /r/ e das consoantes oclusivas): “Com o andar crepitavam as pedras das pulseiras e dos brincos, formando um trilo argentino, música do riso mavioso que essa graciosa criatura desprendia de si e ia deixando em sua passagem, como os arpejos de uma lira.” (ALENCAR, 1979, p. 51). No excerto a seguir, que descreve o ambiente em que Seixas, logo após o casamento, reflete sobre a sua condição de homem vendido, o estilo elevado não tem relação com a “desumanização capitalista” de que fala Candido: “No céu recamado de estrelas, a brisa cariciava uns frocos de nuvens alvas como a penugem das garças. Uma onda trépida garrulava na bacia de mármore coberta de nenúfares, que alcançavam os grandes e níveos cálices,
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Comentários a “Martírio e Redenção” de Antonio Candido

Comentários a “Martírio e Redenção” de Antonio Candido

Aqui se encontra um eco poderoso de Os parceiros do Rio Bonito – estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida, (CANDIDO, 2010) texto publicado em livro em 1964, mas escrito de 1948 a 1954, como tese de Doutoramento em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Defendida em 1954, focada nos “meios de vida” do caipira paulista, essa tese implicou num trabalho de campo na zona rural de Bofete, cidade do interior de São Paulo. Tratando do Cururu, dança cantada do interior paulista, a pesquisa teria como título “Poesia Popular e mudança social”, mas, conforme o testemunho do Autor numa entrevista, ele acabou percebendo que sem conhecer música não seria possível estudar uma manifestação primordialmente musical (CANDIDO, 2001). Então aproveitou em outro rumo o material coletado em trabalho de campo e transformou o que seria a parte inicial da tese – o estudo sobre a cultura caipira – na
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Antonio Candido

Antonio Candido

Na carta que enviei com a entrevista, anotei uma explicação que cabe repetir aqui: “Procurei fazer algumas perguntas de interesse mais imediato para o leitor daqui, do Sul, o que explica (e talvez desculpe) a insistência nos temas locais. Da mesma forma, tentei formular questões que me parecem não muito feitas em ou- tras oportunidades.” Como o leitor poderá ver em seguida, de fato eu forcei um pouco a mão para que o professor Candido abordasse temas que nos afligem, aqui no Rio Grande do Sul, nomeadamente aquele que atende pelo nome de regionalis- mo. Assim como pedi desculpas antecipadas a Candido por investir tanto na ques- tão, peço agora ao leitor, que talvez preferisse ver a inteligência do entrevistado ilu- minar temas talvez mais subidos, quem sabe Proust, quem sabe Machado de Assis. O que se vai ler, enfim, é o que Antonio Candido respondeu, ipsis litteris. E é da maior qualidade.
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Recortando Antonio Candido

Recortando Antonio Candido

Candido não informa sobre a motivação do seu ensaio, mas acredito que o tenham metido numa calça justa: especulo que, pelo fato de Carneiro de Mendonça ser uma família importante e tradicional no cenário político e cultural brasileiro, à qual pertenceu Bárbara Heliodora (não a musa de Alvarenga Peixoto, mas a erudita crítica de teatro, especialista em Shakespeare), algum de seus membros o procurara para dar uma sentença sobre a autoria. Apesar de ter produzido seu veredito crítico- analítico, o autor acaba por escrever também um “Abecedário” sobre o coronel envolvido na discussão autoral, ao traçar, depois de concluir sua análise, um esboço biográfico dele, em prosa. Caso minha especulação tenha pé e cabeça, estamos diante da inteligência de um crítico literário que fez do encomendante não um buscador de lã que saiu tosquiado, mas que saiu com uma manta para pouco frio. Antes de nos determos na questão, citemos a estrofe da letra V, em ambas as versões, que estão, no livro, em duas colunas. Nossa intenção é apenas introduzir o leitor no clima do poema e suas respectivas versões. Versão de Nuno Marques Pereira:
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