Top PDF Antonio Candido: um grande exemplo para todos nós

Antonio Candido: um grande exemplo para todos nós

Antonio Candido: um grande exemplo para todos nós

Algumas destas questões a que me refiro estão no fa- moso “Seqüestro do Barroco”, conforme entendeu Haroldo de Campos, o fato de Antonio Candido datar de 1750 os fun- damentos de uma Literatura Brasileira, começando com os neoclássicos; a formação de um sistema literário construído da integração de autores, obras e leitores, delineando, assim, uma formulação historiográfica em que, pela primeira vez, os leitores eram reconhecidos e incluídos como elementos de legitimação do discurso literário; e a apresentação de uma metodologia, segundo a qual, a crítica literária, como ponto de partida para uma dinâmica historiográfica, “com-penetra- va” história e forma, sem negligenciar as impressões iniciais inerentes ao contato com a obra literária, nem o imponderável nas relações entre vida e autor. Como podemos ler na Intro- dução à Formação da Literatura Brasileira.
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Antonio Candido: três textos decisivos

Antonio Candido: três textos decisivos

os outros: direito a casa, comida, instrução e saúde, bens incompressíveis, isto é, os que não podem ser negados a ninguém. “[O] esforço para incluir o semelhante, no mesmo elenco de bens que reivindicamos está na base da reflexão sobre os direitos humanos” (CANDIDO, 2004, p. 172). Continua, agora centralizando a reflexão na literatura, dizendo que o ser humano pode ser definido pela sua capacidade de fabular. A ficção e a poesia, por isso, correspondem a uma necessidade universal e são fatores indispensáveis de humanização, que nos tornam mais compreensivos para a natureza, a sociedade, o semelhante. Acrescenta que a literatura é também fator de desmascaramento da restrição e da exclusão, situações tão presentes em sociedades como a brasileira, em que os direitos humanos são sistematicamente desrespeitados. “Portanto, a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura” (CANDIDO, 2004, p. 191).
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Antonio Candido e José Mindlin

Antonio Candido e José Mindlin

AC: Bem mais importante, é outra coisa. Você vê, a partir daquele impulso inicial, saíram as revistas, a segunda fase da Revista do Brasil, essas revistas todas que o José reeditou, e mais isso e mais aquilo. Saiu a grande fermentação intelec- tual; e esses modernistas avançados, na maior parte, ou foram para o Partido De- mocrático ou para a esquerda. E aqueles modernistas mais tradicionais ficaram na direita e no PRP. Ora, do Partido Democrático e da redação de O Estado de S. Paulo, que acabou aceitando o Modernismo, saiu a Universidade de São Paulo. O piparote inicial foi a Semana de Arte Moderna que deu. A fundação da Universi- dade de São Paulo é uma coisa básica na cultura brasileira, porque transformou a cultura do Brasil em todos os setores. Sem querer forçar muito, ela foi devida ao grupo que completou o projeto da Semana de Arte Moderna: Júlio de Mesquita Filho, Fernando de Azevedo, Paulo Duarte, Antônio de Almeida Prado e outros. Eles não aceitavam a estética do Modernismo, mas desenvolveram muito da sua ideologia no campo da cultura. E há outro tipo de modernidade no Brasil, com- pletamente diferente. A do Monteiro Lobato, por exemplo. Uma modernidade pragmática, voltada mais para a economia, o petróleo, a indústria editorial, o aço. É outra coisa. Muito bom, também, mas na parte cultural acho que a Semana de Arte Moderna foi fundamental. Continuo achando que é um fenômeno funda- mental e nesse fenômeno a figura central é Mário de Andrade. Eu não sei como um homem que morreu com 51 anos de idade pôde deixar realizada aquela obra. Verifiquei isso em vários setores. No segundo ano da Faculdade tive um curso de Sociologia Estética com Roger Bastide. Como trabalho de aproveitamento fiz uma pesquisa sobre a mudança do gosto musical em São Paulo. O ano era 1940 e eu verifiquei que a partir da atuação de Mário no Departamento de Cultura, de 1935 a 1938, houve mudanças acentuadas, que registrei em gráficos. Por exem- plo: a curva da ópera começou a descer e a da música de câmara começou a su- bir. Mário de Andrade tinha criado o Coral Paulistano, o Coral Lírico, o Quarteto Haydn, o Trio São Paulo e aberto o Municipal para o povo. Então senti como esse homem tinha mudado a sensibilidade de uma cidade.
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Antonio Candido militante

Antonio Candido militante

Antonio Candido era ateu convicto, porém desprovido de qualquer proselitismo. Entre seus melhores amigos figuravam meu confrade, o dominicano frei Benevenuto de Santa Cruz, meu professor de ética e diretor da Livraria e Editora Duas Cidades, tão frequentada por Antonio Candido. Contou-me que frei Benevenuto fazia parte de sua família, e, quando foram juntos a Porto Alegre, nos anos 50, nos restaurantes todos miravam espantados aquele homem de hábito branco, pois não havia frade dominicano no Sul do país. Benevenuto está enterrado no túmulo da família de Antonio Candido.
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A sociologia clandestina de Antonio Candido.

A sociologia clandestina de Antonio Candido.

Ora, tal alternância displicente e tolerante entre o terreno do lícito e do ilícito somente seria possível pela frouxidão de mecanismos estatais que deixavam, a um só tempo, de cumprir suas funções com rigor nessa faixa social, coibir as condutas transgressoras e punir os infratores. De acordo com essa perspectiva, a imagem do major flagrado em ceroulas condensaria não apenas o ziguezague entre os pólos da ordem e da desordem, mas so- bretudo a fragilidade do poder público no país, incapaz de sobrepôr-se à autoridade que a organização familiar detinha. Assim, a respeito da precá- ria atuação vigilante do major Vidigal, Candido afirma ser ela “manifesta- ção de uma consciência exterior, única prevista no seu universo” (Idem, p. 41). E conclui: “Ordem dificilmente imposta e mantida, cercada de todos os lados por uma desordem vivaz, que antepunha vinte mancebias a cada casamento e mil uniões fortuitas a cada mancebia” (Idem, p. 44).
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Entrevista para o Jornal Brasil de Fato

Entrevista para o Jornal Brasil de Fato

Antonio Candido: Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele de quem os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.
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O ADEUS AO CRÍTICO ANTONIO CANDIDO: UM ACONTECIMENTO

O ADEUS AO CRÍTICO ANTONIO CANDIDO: UM ACONTECIMENTO

Da mesma forma, consta em todos eles o trabalho central de Candido na Revista Clima da Universidade de São Paulo em 1940 jun- to de outros intelectuais; a atuação dele como crítico regular de jor- nais como Folha da Manhã (antecessor da Folha de S. Paulo) e O Diá- rio de São Paulo; e a responsabilidade de ser o idealizador do projeto do Suplemento Literário do Estado de S. Paulo em 1956, caderno que foi editado pelos dez anos seguintes. Nenhum jornal, revista ou portal deixou de citar a esposa de Antonio Candido (morta em 2005) e as três filhas dele, apesar de o G1 ter trazido o nome de Gilda de Mello apenas sob a forma de uma legenda de foto e não ter feito referência sobre o trabalho que desenvolveram juntos ao longo da vida. Ainda que todos os meios de comunicação tenham dado o mesmo enqua- dramento para a morte – ocorrida no hospital após alguns dias inter- nado por causa de problemas estomacais – cada um deles optou por acionar diferentes quadros ao tratar da trajetória do crítico.
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Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

Eu diria que depois da minha família e da Universidade de São Paulo, a terceira grande coisa na minha formação foram os meus amigos do grupo Clima. Nós temos consciência de nos termos formado uns aos outros [...] todos marcados pela variedade de interesses com reflexos na atividade. 297 O memorando relembra ainda que a revista começou a circular ―em maio de 1941, com data de abril, porque houve atraso no lançame nto.‖ 298 Na verdade, a data de capa saiu correta: maio de 1941. O retardo se deu devido à exigência oficial de registro da publicação junto ao DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura, de triste memória, como relembra Candido no depoimento publicado em Teresina etc.. Porém, aparentemente, os editores corrigiram a data, impedindo que a revista já nascesse com registro de atraso, o que certamente não ajudaria muito um empreendimento de jovens numa terra onde esse tipo de publicação costuma durar um único número, ou, hipótese mais provável, a revista circulou em junho com data de maio, já que não existe a edição com data daquele mês, saltando a série de maio para julho, daí seguindo regularmente até o número 8, de janeiro de 1942. A ideia da publicação veio de Alfredo Mesquita, mais velho e já consagrado como escritor e teatrólogo reconhecido. Candido recorda que estava de férias na casa dos pais em Poços de Caldas, quando recebeu cartas daquele e de Lourival Gomes Machado, comunicando-lhe a fundação de revista e ainda que seria o encarregado da seção de livros. Antônio Branco Lefèvre trataria da música e Lourival Gomes Machado das artes plásticas; Paulo Emílio Salles Gomes ficaria com o cinema; Roberto Pinto de Souza era o responsável pela seção de economia e direito e Marcelo Damy de Souza Santos cuidaria das ciências, como registra o índice do primeiro número. A partir do número seguinte (julho de
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Entrevista com Antonio Candido.

Entrevista com Antonio Candido.

Frente se configurou. O nascedouro foi o Partido Libertador, organizado ali por 1939 ou 40 em opo- sição à ditadura, cujo documento de fundação as- sinei (nada a ver com o famoso partido gaúcho do mesmo nome, dirigido por Raul Pilla. Dos rapazes liberais, alguns chegaram mais tarde a posições ele- vadas, como Roberto de Abreu Sodré, que foi go- vernador do Estado e ministro do Exterior, ou Luís Arrobas Martins, meu amigo, que foi secretário de Estado. Outros vieram aos poucos para a esquerda, como Cory Porto Fernandes, Celso Galvão, Hiram Mayr Cerqueira, Renato Sampaio Coelho. Germinal Feijó e Wilson Rahal eram mais decididamente es- querdistas e ambos foram deputados mais tarde. De esquerda era indiscutivelmente o nosso GRAP, que entrou para a Frente com exceção de Eric, que nada queria com alianças liberais. A Frente se empenhou pela participação efetiva do Brasil na guerra e efetuou muitas atividades de oposição, in- clusive a publicação do jornalzinho clandestino Resistência, que tirou uns quatro números sob o nariz das autoridades. Nele escrevi uma nota dirigi- da aos operários, porque numa reunião tinha criti- cado o fato de não estarem eles sendo levados em consideração. Com o fim da censura em fevereiro de 1945 pudemos lançar um manifesto, redigido por Paulo Emílio, de teor bastante radical, aceito não obstante por todos, o que mostrava como a nossa presença tinha influído na ideologia do gru- po. Mas isso durou pouco. Como sabem, em tem- po de fechamento as esquerdas e os liberais se unem; em tempo de abertura dá-se a decantação. No nosso caso, o traço de união era a oposição à ditadura do Estado Novo. Quando ela começou a vacilar as divergências essenciais vieram à tona e a Frente se dissolveu. Os rapazes liberais foram para a União Democrática Nacional, UDN, nome dado por Caio Prado Júnior, empenhado com outros em política de frente única. Nós socialistas formamos por inspiração de Paulo Emílio a União Democráti- ca Socialista, UDS, composta pelo antigo GRAP, muitos rapazes da Frente, que se radicalizaram e saíram conosco, e antigos militantes de outras or- ganizações, inclusive ex-trotskistas, ex-stalinistas e membros do Partido Socialista de 1933.
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Antonio Candido na Unicamp

Antonio Candido na Unicamp

Como conseqüência desse espírito, o IEL dará destaque às atividades de pesquisa e à formação de quadros qualificados, privilegiando a pós-graduação. Os modelos tradicionais atacavam ao mes- mo tempo, virtualmente, todos os campos de estudo em todos os níveis. Mas uma Universidade jovem deve optar, escolher com firmeza os seus pontos de concentração, visando à excelência. Ora, não é possível alcançar desde logo a excelência em muitos setores e muitos níveis, além disso, os recursos necessários para dar corpo à fórmula proposta aqui são menores do que os exigidos pelo modelo tradicional e sua tendência ao gigantismo.
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Comentários a “Martírio e Redenção” de Antonio Candido

Comentários a “Martírio e Redenção” de Antonio Candido

ganancioso e bravo, em busca do selvícola e do ouro, abridores de caminho com o fogo, “balizando as marchas das bandeiras”, e os que genericamente são chamados de exploradores – todos, adeptos das queimadas e do desmatamento. Euclides cita um “juiz conservador das matas”, que em 1799 decreta “que se coíba a indiscreta e desordenada ambição dos habitantes [da Bahia e de Pernambuco] que têm assolado a ferro e fogo preciosas matas [...]”. (CUNHA, 2004, p. 59). E no rastro dos “sertanistas do Norte” e dos “bandeirantes do Sul”, virão os mineradores (de ouro e prata e pedras), até chegar à atualidade (atualidade de 1898, quando ele começa a escrever Os Sertões, publicado em 1902). E, como já referi, sintetiza tudo na imagem de grande força que é a da “tortura” e do “martírio”: tortura do homem, inserida na tortura mais ampla da terra, “abrangendo a economia geral da vida.”.
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Os menores na leitura e os pormenores na escrita de Antonio Candido

Os menores na leitura e os pormenores na escrita de Antonio Candido

O autor aponta que um objeto construído – a literatura – só atua a partir da sua forma. É a forma que traz virtualmente a capacidade de humanização. Um poema, por exemplo, funciona nos presentando um tipo de ordem e sugerindo um modelo de superação do caos, mesmo que esse processo se dê no nível inconsciente. Portanto, ao colocar em palavras, nomear emoções e situações existenciais confusamente vividas e, até então, inarticuladas, a literatura promove uma passagem do caos de sentimentos e percepções a um cosmos. “Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção.” (CANDIDO, 2004, p. 72). Por meio da eficácia formal da poesia, ela passa de vivência do indivíduo para experiência do ser humano, em que todos nós possamos nos reconhecer e com a qual podemos nos identificar.
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Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

Por fim, lembrando seu convívio próximo com o artista, anota-se que partiu de Antonio Candido a ideia (ou intimação) para que Oswald escrevesse suas Memórias. Da insistência resultou o único volume que o artista, já bastante doente, alcançou concluir — Um homem sem profissão. Sob as ordens de mamãe — publicado em 1954, mesmo ano de sua morte. Na abertura desse relato Oswald escreveu: “Hoje, feriado, 15 de Agosto, vieram almoçar conosco os casais Antonio Candido e Domingos Carvalho da Silva”. Na sequência, dará crédito ao conselho do amigo, declarando: “Antonio Candido diz que uma literatura só adquire maioridade com memórias, cartas e documentos pessoais e me fez jurar que tentarei escre- ver já este diário confessional. /Pois, se é preciso começar, comecemos pelo começo” (ANDRADE, 1954, p. 23). Assinando a introdução dessa obra, em “Prefácio inútil”, Antonio Candido retomou o tema da mobilidade, afian- çando que em Um homem sem profissão Oswald realizou uma “viagem interior à busca das raízes do seu ser inquieto e agitado” (CANDIDO, 1995, p. 65). Ainda, para dar conta do universo da obra, retomou uma chave- mestra por ele acionada, via Baudelaire, em “Oswald viajante” — a da lâmpada pueril que faz “o mundo parecer grande” com a da fantasia que se retrai na vida adulta pela força inexorável do mundo real. Essa visão da criança, segundo o crítico, é preservada nos poetas, como é o caso [diz ele] de Oswald de Andrade. Nesse texto, escrito sob o impacto da perda do amigo, Antonio Candido nele destacou a “fome antropofágica de sonho e liberdade” (1995, p. 66). Em outra passagem, do mesmo texto, gravou com sensível percepção e conhecimento de causa que “as Memórias esclarecem a aventura lírica de Oswald de Andrade, gordo Quixote procurando conformar a realidade ao sonho. Daí a rebeldia dos que não aceitam a ordenação média dos atos pela sociedade, que criou em torno dele, como represália, a aura de maluco atirando contra tudo, contra todos” (ANDRADE, 1954, p. 11).
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Esquema argentino de Antonio Candido

Esquema argentino de Antonio Candido

Ese último momento es el que corresponde al Modernismo. Y aquí Candi- do da una de las más interesantes definiciones de ese movimiento que se inicia con la Semana da Arte Moderna de 1922. Definición que ayuda a resolver (o a asumir) las contradicciones que puede generar el Modernismo y a superar las incomodidades de las perspectivas críticas que intentan reducir el momento a una cuestión de clase, manifestado en un grupo cerrado de artistas con dinero, al considerarlo un movimiento nuevo que viene a darle a la literatura “ampli- tude ainda maior, fundando-a, não no gosto e no interesse de um limitado se- tor da sociedade, mas na vida profunda de toda esta, na sua totalidade” y que “faz da literatura um bem de todos”. Aquí se ve otra inflexión de lo social, que articula con sentido político una literatura y una ciudad: “Há uma história de la literatura que se projeta na cidade de S. Paulo; e há uma história da cidade de S. Paulo que se projeta na literatura”. Hay aquí una lectura profundamen- te ideológica de la literatura. Así como en la Formação da literatura brasileira, arcadia y romanticismo son los dos momentos decisivos, en Literatura e socie- dade lo son romanticismo y modernismo, y en una afirmación que ratifica la
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Sobre “O direito à literatura”, de Antonio Candido

Sobre “O direito à literatura”, de Antonio Candido

Observe-se que o objetivo central das considerações de Cândido no texto não é o de promover a divulgação específica da modalidade de literatura que chama de erudita, nem o de popularizar os chamados clássicos, da literatura, mas o de apresentar argumentos em prol da ideia de que, numa sociedade justa e igualitária, a literatura, qualquer que seja a sua configuração de gênero ou forma, pertence ao âmbito dos direitos de todos os seres, ou seja, deve obrigatoriamente fazer parte dos bens a serem irrestritamente colocados ao alcance de todos os setores e classes.
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Antonio Candido, leitor de poesia

Antonio Candido, leitor de poesia

tal “aspecto para ele perturbador” é assim, de fato (conforme salientei na crítica de Candido publicada nos anos 40), mas considero que possa ser repensado e ampliado (por Moriconi, inclusive) levando-se em conta todos os artigos de Candido aqui ressal- tados, pois (insisto) a “pedagogia do poema” do mestre uspiano ultrapassa o livro de 1987 e vai adquirindo novos matizes reveladores entre 1943 e 2001, devendo por isso ser procurada na totalidade de sua produção crítica, teórica e analítica voltada para a poesia lírica, seja em relação a seus problemas gerais, seja no que concerne aos pro- blemas específicos da poesia brasileira. No que tange a esta, a “pedagogia do poema” de Antonio Candido, através da articulação de seus dois eixos principais, “árcade/ro- mântico” e “modernista” (matizados pelo “eixo intermediário”, mais voltado para o final do século xIx), tem propiciado a várias gerações uma compreensão efetiva da formação e da consolidação da lírica brasileira, além de sólido instrumental de análise e interpretação. é uma “pedagogia” poderosa, sem dúvida, mas alvo de salutares ques- tionamentos atuais (por Moriconi e outros) que põem em xeque as certezas absolutas (e mesmo utópicas) do pensamento e da produção artística moderna e modernista, no Brasil, e que se perguntam o que tal “pedagogia”, dita hegemônica, ainda pode ofere- cer para a compreensão da vasta produção poética brasileira contemporânea, por exce- lência ‘des-centrada’ e desconfiada de qualquer valor dogmático ou canônico.
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Ángel Rama e Antonio Candido: de um sistema literário para o Brasil à construção de uma literatura para a América Latina

Ángel Rama e Antonio Candido: de um sistema literário para o Brasil à construção de uma literatura para a América Latina

Segundo Roberto Schwarz, no seu livro Sequências brasileiras (1999a), para entender a obra de Candido, é necessário relacioná-lo com seus predecessores, dado que a ideia de “formação” é o centro de grande parte das obras canônicas da cultura brasileira. Segundo o autor, podem-se considerar como predecessores de Candido, por exemplo, Gilberto Freyre (1900-1987), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Jr (1907-1990) e Celso Furtado (1920-2004). Schwarz considerará cada uma destas obras; porém a de Gilberto Freyre terá maior destaque porque, nela, aparece uma matriz sociológica da cultura brasileira. Segundo Schwarz, com a leitura da obra de Freyre, o leitor acompanha a trajetória da história e a perda progressiva de um valor, que seria o passado colonial. Com Sérgio Buarque de Holanda, Schwarz observa que este autor resgata a constituição da nação como um processo inacabado, direcionando-o ao futuro, para, com isso, compreender a superação das origens em direção a uma sociedade mais democrática. Caio Prado é lido sob um enfoque marxista pelo crítico paulista, demonstrando como a matriz colonial precisa ser superada para que ocorra a verdadeira independência do Brasil. Finalmente, com a leitura de Celso Furtado, Schwarz considera o processo da progressiva apropriação das escolhas econômicas por parte do estado como um sentido da formação brasileira. Esses autores, para Schwarz, da mesma forma que para Candido, valorizam, sob diferentes marcos conceituais, o estudo dos processos de formação não culminados como articuladores da sociedade brasileira. É por isso que, para Schwarz, no caso específico do objeto de estudo de
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Antonio Candido

Antonio Candido

Mas a vida intelectual não se alimenta só de relações famosas. A minha esteve sempre entrelaçada de maneira profunda com pessoas sem projeção, que foram decisivas, a começar por meus pais, ambos cultos e excepcionalmente atuantes na formação dos filhos. Fora da família menciono, por exemplo, Dona Maria Ovídia Junqueira, minha professora no Ginásio Municipal de Poços de Caldas, que me iniciou na cultura de língua inglesa, me deu o hábito de ler a Bíblia (era protestante) e me fez ler precocemente obras que em geral só são lidas mais tar- de, como peças de Shakespeare. Nesse ginásio tive dois colegas cujo convívio foi importante no meu amadurecimento: os irmãos Antonio Carlos e José Bonifácio de Andrada e Silva, sobretudo este. Eles revelaram Casa grande & senzala, mais tarde Raízes do Brasil, reforçaram a inclinação pelo socialismo, contribuíram para incrementar o interesse pela literatura brasileira do momento, quebrando um pouco o meu hábito de preferir os clássicos, adquirido durante longa estadia na França com minha família.
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Estud. av.  vol.20 número58

Estud. av. vol.20 número58

Não foi por acaso que inúmeros violeiros desenharam nas cordas de seus instrumentos trechos e sensações da obra de Guimarães Rosa. Tavinho Moura, compositor de pérolas que perpassam os anos, descobre na viola uma nova ma- neira de nos contar acerca de suas belezas sonoras. Na composição Manuelzim- da-crôa, na faixa 9 , ele traz um momento do Grande sertão: veredas, quando Riobaldo e Diadorim, escondidos, esperam chegada de tropas e armamentos. No nada fazer, observam os passarinhos na beira do rio. Manuelzinho-da-crôa é o nome de um desses pequenos alados canoros. No fluir de sua viola e do violão de Beto Lopes, declama:
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Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Esse dilaceramento e essa tensão que se traduzem em questões de forma levaram no passado a soluções como os fragmentos no primeiro romantismo alemão por meio de autores como Friedrich Schlegel ou Novalis, nomes esses que reclamaram a instância da poiesis para a refl exão sobre a obra de arte. Que Antonio Candido tenha olhado com especial atenção para esse momento da História da Literatura, não chega a causar espanto. Nesse sentido, é sempre interessante lembrar novamente a proposta de Harold Bloom. A respeito das similitudes entre a “poesia forte” (nos termos particulares bloomianos) e a “crítica forte”, Bloom destaca a necessidade do que chama de “crítica antitética” assimilando mecanismos de defesa que poetas tardios utilizam para fugir da sombra de seus precursores canonizados. Ao fazê-lo, Bloom, sobretudo em sua “tetralogia da infl uência” — A angústia da infl uência (1991a), Cabala e crítica (1991b), Poesia e repressão (1994) e Um mapa da desleitura (1995) —, ao ver em semelhante defesa uma “desleitura”, insinua a ideia segundo a qual toda “poesia forte” pode ser vista como crítica, o que nos permitiria arriscar que toda “crítica forte” poderia, pelo mesmo princípio, ser vista como “poesia”. Ou, em palavras do próprio Bloom:
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