Top PDF Baudelaire, Benjamin e a arquitetura d’As flores do mal.

Baudelaire, Benjamin e a arquitetura d’As flores do mal.

Baudelaire, Benjamin e a arquitetura d’As flores do mal.

“divina”, e não fruto de “uma relação” de cunho subjetivo, como queria Kant. Na seção X de “Sobre alguns temas em Baudelaire”, Benjamin retoma esta discussão estética, o que diferencia bastante este ensaio de “A Paris do Segundo Império”. É decisiva a impor- tância agora conferida a dois outros poemas de As Flores do Mal, as “Correspondências” e “A vida anterior”. A experiência evocada nestes sonetos diz respeito a uma esfera perceptiva muito diversa daquela a que está submetido o homem moderno. A indecifrabili- dade da bela aparência torna impossível remetê-la a algo de próxi- mo, de familiar, ou de igual. A vivência do eterno retorno do novo lhe é inteiramente estranha. À experiência perceptiva que consiste em captar o mistério ou a irrepetibilidade irremissível dos fenôme- nos, Benjamin chamou de captar a aura. Este modo de percepção é, tal como o moderno, descrito como forma histórica. Perceber a aura de uma coisa é, como sugere esta palavra de forte apelo meta- fórico, encontrar-se inserido em sua atmosfera, envolvido por sua aragem, imergir no mesmo elemento que a coisa observada. Para tanto, é preciso participar da tradição em que o objeto encontra sua signifi cação, participação esta que não leva, no entanto, à pro- ximidade. Só quando observador e coisa observada participam da mesma tradição, o observador sente seu olhar correspondido pela coisa observada. “Perceber a aura de uma coisa signifi ca investí-la do poder de revidar o olhar”, * diz Benjamin, inserindo uma tona-
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Walter Benjamin, tradutor de Baudelaire.

Walter Benjamin, tradutor de Baudelaire.

Flores do Mal, segue o caminho oposto, procurando eliminar todo e qualquer rastro da língua estrangeira em suas versões, sendo as suas traduções, desse ponto de vista, verdadeiras “germanizações” (por exemplo, ele escolhe a palavra Duft ao invés da palavra Par- füm, igualmente existente e corrente na língua alemã, para tradu- zir a palavra francesa parfum; escolhe a palavra alemã Trübsinn pa- ra traduzir o estrangeirismo spleen). Outro elemento de divergên- cia é o fato de George eliminar as imagens por demais cruamente sensoriais e repulsivas, tendo em vista privilegiar uma tradução su- blimadora, idealizadora ou espiritualizadora de Baudelaire (onde o subtítulo das Flores do Mal, denominado “Spleen et Ideal” se trans- forma em alemão em Trübsinn und Vergeistigung), na qual a teoria das correspondências tem mais peso que a idéia da alegoria.
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O jardim imemorial: as flores do mal e as formas primordiais da arte.

O jardim imemorial: as flores do mal e as formas primordiais da arte.

Para fazer com que sua poesia sobrevivesse a ele mesmo e à história, Baudelaire destrói o valor de uso de uma simbologia do fl oral de sua época para encontrar nele os fósseis da paixão fl oral de uma pré-história moderna, mas que é também pós-histórica, e não necessariamente antimoderna. No “fl owers still life” do sécu- lo XVII as fl ores não são na realidade fl ores. Há uma sobreposição do pensamento religioso contra-reformista sobre a transitorieda- de do humano ao da ciência natural que se dedicava a investigar as metamorfoses da natureza sobre o enfoque do declínio e da des- truição. Desse saber pós-natural destrutivo, a obra Goethe é ain- da a mais forte sobrevivente. E é propriamente Walter Benjamin quem irá testemunhar, isto é, colocar em ação essa sobrevivência do pós-natural como destruição, uma vez que o ensaio “As afi ni- dades eletivas em Goethe” é citado em seu ensaio sobre Baudelaire justamente quando ele associa a refl exão do belo no poeta francês à idéia de formas primordiais. Diz Benjamin: “o belo pode ser de- fi nido como aquilo que apenas ‘permanece essencialmente idêntico a si mesmo, quando velado’”. * No livro A metamorfose das plantas,
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A ruína da tradição em Walter Benjamin e a prosa poética de Charles Baudelaire

A ruína da tradição em Walter Benjamin e a prosa poética de Charles Baudelaire

46 Entretanto, se em Flores do mal o poeta dá sua última palavra, o seu herdeiro apresenta-se com uma voz sem versos nem rimas. Moderno, renuncia as insígnias do passado, situando-se na condição de um anônimo a mais na multidão da grande cidade. Encontra-se também desobrigado de suas tradicionais incumbências – já não versa para celebrar feitos heróicos ou em homenagem a quem quer que seja. Bem mais trivial, sua nova função consiste em conceder expressões adequadas capazes de apreender a história fugidia do presente 135 . Diante da nova realidade, Baudelaire realizou outra grande obra chamada Pequenos poemas em prosa 136 . A partir de agora, tentaremos mostrar como seus fragmentos representam o passo mais firme dado pelo poeta após renunciar as convenções do passado. Não se trata mais do poeta aureolado em seu leito de morte. Com a palavra, outro poeta. Ao deixar para trás a tradição perdida, ele construirá um discurso a partir da consumação do duelo exposto em Flores do mal, entre spleen e ideal. Deste embate, tem plena consciência de quem sempre está prestes a dar o golpe de misericórdia – o primeiro 137 .
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Experiência da transitoriedade: Walter Benjamin e a modernidade de Baudelaire.

Experiência da transitoriedade: Walter Benjamin e a modernidade de Baudelaire.

Seguindo a sugestão de Gagnebin, seria possível afi rmar, contra Jauss, a descoberta por Benjamin de uma modernidade mais multifacetada em Baudelaire. Ele não censura a teoria da modernidade em nome de uma crítica marxista do capitalismo moderno, mas por sustentar que o moderno não diz respeito apenas ao louvor das descrições da cidade moderna, mas também a um registro mais agudo da busca do novo como a temporalidade ameaçadora que rege esta época. “A modernidade assinala uma época; designa, ao mesmo tempo, a força que age nessa época e que a aproxima da antigüidade” (BENJAMIN, 1991b, p. 80; 1999, p. 585). O novo é essa força que, ao mesmo tempo que confi gura a modernidade, dando-lhe um caráter único diante do existente, transforma-a imediatamente no seu oposto, a antiguidade. Benjamin tem em mente uma certa apreensão aguda do tempo que transforma cada vez mais rapidamente o moderno em antigo e o novo em velho. O tempo torna-se assim a experiência fundamental de tal arte que se rege pela busca do novo. Não é na crítica, porém, que o novo é apreendido na sua mais forte relação com antiguidade: “Nenhuma das refl exões estéticas da teoria baudelairiana expõe a modernidade em sua interpenetração com a antigüidade como ocorre em certos trechos de As Flores do Mal” (BENJAMIN, 1991b, p. 81; 1999a, p. 585). É nesses poemas que ambas se cruzam pela marca do novo: é na transitoriedade que a modernidade se apresenta mais intimamente ligada à antiguidade. Nas Flores do mal, tal consciência do tempo recebe o nome de spleen, marca da busca do novo e da contradição envolvida em tal busca: “O spleen interpõe séculos entre o momento presente e o que acabou de passar. É o spleen que incansavelmente gera ‘antigüidade’. E, de fato, em Baudelaire, a modernidade não é outra coisa que a ‘mais nova antigüidade’” (BENJAMIN, 1999c, p. 423).
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O ideal de Baudelaire por Walter Benjamin.

O ideal de Baudelaire por Walter Benjamin.

Nessa primeira estrofe, Baudelaire desqualifica de antemão o tema da busca do passado, como uma metáfora da viagem no espaço, em nome da insuficiência das lembranças. Suas esperanças não se voltam para o passa- do, mas para a promessa de uma felicidade remetida a um futuro longínquo no contato com terras distantes. Mas o sucesso da viagem, como realização de promessas e desejos, é vedado durante todo o poema, o qual busca repre- sentar justamente a frustração dessa esperança que, dessa forma, permane- ce como um desejo infantil irrealizável. Essa desilusão envolvida na renúncia ao fascínio da viagem é tanto mais digna de nota quanto é relacionada por Baudelaire às forças fundamentais de sua época. Os traços marcantes da poesia do spleen surgem nesse último poema d’As Flores do Mal. Aí, a busca pelo novo, cerne de sua teoria da arte moderna e de sua lírica sobre a vivên- cia urbana, encontra sua última figuração lado a lado com a morte.
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A filosofia enquanto crítica literária: o Baudelaire de Benjamin, e vice-versa.

A filosofia enquanto crítica literária: o Baudelaire de Benjamin, e vice-versa.

Baudelaire, no ensaio de maturidade de Walter Benja- min, é o nome de um “centro-de-reflexão”. Os fenômenos da vida cotidiana da Paris do século XIX, seus personagens até certo ponto marginais, como o flâneur, são incorporados como núcleos de reflexão em que, por sua vez, a reflexão do poeta Baudelaire, uma espécie de personagem reflexivo do ensaio benjaminiano, se fortalece. Essa parece ter sido a aposta do pensador: ao privilegiar a figura do flâneur, ele não reforça uma tese biográfica a respeito do indivíduo autor de As flores do mal, mas consegue trazer para dentro de seu texto crítico uma alegoria da própria reflexão, com a vantagem adicional de se tratar da única figura histórica capaz de transitar en- tre todos os fenômenos da capital do século XIX.
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Walter Benjamin, leitor das flores do mal

Walter Benjamin, leitor das flores do mal

põe a comparar textos contemporâneos que falam cada um a seu modo da experiência da multidão: a começar pelas fisiologias, que praticam uma visão pequeno-burguesa da cidade como de um panorama de ima- gens curiosas, até Victor Hugo, que se dirige à multidão como à mas- sa de seus leitores, que partilha seu próprio credo político, passando pela multidão tal como a concebe a detective novel inventada por Poe, a multidão como asilo do criminoso. É sobre esse fundo que Benjamin inscreve sua leitura do soneto, o que faz ressaltar a diferença baudelai- riana, “a violência com a qual a experiência da multidão transtornou Baudelaire”. Portanto, ele coloca já em 1938 sua leitura de “A uma pas- sante” sob o signo do choque, termo-chave que se encontra no próprio Baudelaire, para caracterizar a existência na modernidade. Face à onda de associações servindo para melhor cercar a experiência da multidão evocada pelo soneto em particular e pelas Flores do mal em geral, não é de se admirar que à argumentação de Benjamin falte clareza em certos pontos. Assim, a oposição que fecha o ensaio “O flâneur” entre Hugo, que, como cidadão, se misturará à multidão, e Baudelaire, que, como herói, se desprende dela, só parece clara por necessidades retóricas. A antítese esquece não apenas a leitura do soneto “A uma passante”, mas ainda a história da revolução, durante a qual foi o cidadão Hugo que se separou do povo em 1848, enquanto Baudelaire foi um dos raros poetas a abraçar sua causa, para o que eu chamei atenção no meu livro O velho mundo desce aos infernos: auto-análise da modernidade após o trauma de Junho de 1848 em Paris. Por outro lado, esse final de “O flâneur” está em contradição com a conclusão do ensaio “A modernidade”, que apresen- ta a ação de Blanqui como a irmã do sonho de Baudelaire.
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As Flores do Mal: sintoma e saber anti-modernos.

As Flores do Mal: sintoma e saber anti-modernos.

Baudelaire compara, por exemplo, em seus poemas, a cabe- leira feminina a vários continentes, a uma Ásia langorosa e a uma África escaldante. Com essa imagem ele acompanhava, entre ou- tros, o testemunho acima citado da condessa de Merlin. Mas ob- serve-se que, nas antípodas do poeta, o geógrafo Reclus, conservan- do-a, modula, porém, a equação. A floresta tropical é trescalante, tal como a cabeleira na alcova dos amantes; ela é pecado, sim, mas porque ela é vida, ela é um Niágara de infinitos verdes, “uma at- mosfera úmida e carregada das fragrâncias das plantas [que] escapa do bosque e se espalha ao longe”. Como leremos mais adiante em Proust, em seu elogio da dispersão do jato d’água, a modernidade é, simplesmente, uma viagem à procura de objeto. A modernida- de está atravessada por uma hiância, por um vazio que lhe é ine- rente. Por isso mesmo, Reclus não hesita em chamar essa cena, tal como Humboldt ou, ainda, o próprio Baudelaire, de “quadro ma-
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As flores do mal dos contos de Murilo Rubião

As flores do mal dos contos de Murilo Rubião

Resumo: Os personagens de Murilo Rubião, nos contos “A casa do girassol vermelho” (1947), “A fl or de vidro” (1953) e “Petúnia” (1974), são vítimas de opressão inexplicável e incapazes de modifi car a própria vida. A linguagem empregada nessas narrativas labirínticas é simples e concisa, o que aumenta a inverossimilhança, mas, paradoxalmente, gera uma perplexidade convincente, cabendo ao leitor interpretar os múltiplos signifi cados sugeridos. Nesses contos, a fl or – metáfora canônica da literatura – assume papel fundamental, desencadeando ou sumarizando os fatos da narrativa: um girassol vermelho, uma fl or azul, petúnias e rosas pretas colaboram, assim, na estruturação do fantástico e assemelham-se às fl ores de Charles Baudelaire (1821-1867), uma vez que revelam a angústia da ausência, da violência e da morte. Entretanto, os olhos do contista brasileiro não são como os do poeta francês, que, em As fl ores do mal (1857), vibram nervosamente diante da catástrofe humana, clamando por entidades rejeitadas; pelo contrário, a seriedade das situações revela um narrador cético e incapaz de sorrir diante do inexplicável.
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ENTRE O BEM E O MAL: REPRESENTAÇÕES DO MST SOBRE OS PRESIDENTES FHC E LULA (1995-2010)

ENTRE O BEM E O MAL: REPRESENTAÇÕES DO MST SOBRE OS PRESIDENTES FHC E LULA (1995-2010)

98 familiar e social; d) Incentivar a prática de valores que ajudem a melhorar a vida da sociedade urbana e rural; e) Alimentar a mística em torno do gosto e da razão de fazer as coisas com perfeição, como obra individual e social, que elevará sempre mais a dignidade humana; f) Elevar a qualidade da consciência nos seus diferentes aspectos, no sentido de compreensão da realidade local e mundial; g) Estabelecer perspectivas para o futuro nas suas mais diferentes dimensões; h) Manter a unidade política e ideológica em torno dos programas, planos, símbolos, idéias estratégicas, etc.; i) Desenvolver a visão nacional e internacional de luta de classes, e despertar o espírito de indignação e de solidariedade; j) Estimular as formas de organização na base social; l) Estar a serviço da construção do Projeto Popular para o Brasil; m) Na forma de comunicação com a base e com a sociedade, desmistificar a visão de que o MST é violento; n) Manter uma unidade no comportamento em relação à postura ética dos dirigentes (porta- vozes do MST); o) Combater fortemente os valores burgueses e jamais repetir em nossos meios de comunicação os conteúdos e os valores burgueses; p) Democratizar de maneira mais ampla possível as informações dentro do MST; q) Criar oportunidade para que o maior número possível de militantes se envolvam, planejem e participem de tarefas relacionadas com a comunicação, formando os comunicadores populares e os militantes comunicadores 220 .
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A financeirização do capital e a crise — Outubro Revista

A financeirização do capital e a crise — Outubro Revista

A tensão marca uma mudança abrupta na direção do mercado financeiro, que resulta freqüentemente de algum evento externo. A bolha imobiliária foi inicialmente arranhada em 2006 devido à elevação das taxas de juro, que provocou a reversão na direção dos preços das residências em regiões com importantes parcelas subprime, principalmente na Califórnia, Arizona e Flórida. Toma- dores de empréstimos que dependiam de aumentos de dois dígitos no preço das residências e taxas de juro muito baixas para poder refinanciar ou vender as casas antes que as taxas hipotecárias ajus- táveis fossem definidas se viram repentinamente confrontados com os preços cadentes das residências e pagamentos referentes às hipotecas gradualmente se elevando. Os investidores começaram a se preocupar de que o resfriamento no mercado residencial em al- gumas regiões pudesse se alastrar pelo mercado hipotecário como um todo e afetasse toda a economia. Como indicador de tal tensão, os swaps de recebíveis desenhados para proteger os investidores e usados para especular com a qualidade do crédito aumentaram globalmente em 49% para cobrir US$ 42,5 trilhões imaginários em dívidas na primeira metade de 2007 (G loBal d erivatives , 2007).
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Marx, as crises e a revolução — Outubro Revista

Marx, as crises e a revolução — Outubro Revista

A partir de um certo ponto, o desenvolvimento das forças produtivas se torna um obstáculo para o capital; portanto a relação do capital se torna uma barreira para o desenvolvi- mento d[r]

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Baudelaire desabrigado: a questão do espaço em «Paris do Segundo Império» de Walter Benjamin

Baudelaire desabrigado: a questão do espaço em «Paris do Segundo Império» de Walter Benjamin

Georg Otte" RESUMO: o artigo comenta o ensaio "Paris do Segundo Império" de Walter Benjamin a partir da questão do espaço urbano e a partir da oposição que o auto!" estab[r]

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PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA

Se a aura confirma, por meio da experiência épica, um valor universal, a modernidade traz a consciência de que a única experiência a ser ensinada é a da própria impossibilidade frente a uma realidade funcional e inominável. O uso da alegoria aponta para a descontinuidade, um princípio que falseia a cronologia, como no andar tateante, ou aos saltos, dos poetas-linguagem de Os condenados: “E ao subir as escadas, tateante na sombra, para o quarto desbotado onde vivia, molhou de lágrimas os olhos, que tinha exageradamente abertos” (ANDRADE, 2000, p.64). Para seguir o caminho do texto: “Na rua, junto a ele, varredores varriam folhas mortas, como destinos” (ANDRADE, 2000, p.64). A incerteza conferida pela consciência alegórica faz com que, tanto os movimentos quanto a significação do olhar, encontrem-se na duplicidade que os perfazem: “tateia”, não retêm, não possuem o movimento que os tornem inteiros, da mesma forma que o olhar conduz sempre à sombra. Nesta mesma linha, revela-se um olhar como consciência sempre desperta – atributo que Benjamin metaforiza em Baudelaire – já que “exageradamente abertos”. O espaço do movimento poético, a rua, é invadido por folhas “mortas”, aqui equivalentes a “destinos”, portanto ao próprio tempo, que não mais “dura”, mas imobiliza uma perspectiva transformadora, ao informar um desencanto sobre este tempo “varrido’, arremessado para fora da história – o tempo dos excluídos.
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Alucinações e alegorias: W. G. Sebald se recorda de W. Benjamin, leitor de Paris.

Alucinações e alegorias: W. G. Sebald se recorda de W. Benjamin, leitor de Paris.

prio Sebald: é sem nenhuma dúvida o texto no qual este se baseou para escrever a passagem relativa a Du Camp, a saber, o Baudelaire de Benjamin, e talvez, mais precisamente, o capítulo intitulado “A modernidade” — que foi decisivo para o empreendimento sebal- diano, especialmente Austerlitz. O relato da visão repentina sobre a Pont-Neuf, que teria inspirado ao grande viajante Du Camp a ideia de sua obra monumental, está aí encaixado numa reflexão sobre a con- cepção baudelairiana da modernidade. No coração desta, há observa- ções um pouco elípticas, mas tão profundas sobre “O Cisne”, poema urbano fundador, que descortina, por meio de uma prática moderna da alegoria, o que Benjamin chama de “a precariedade da grande cida- de” 22 . Está claro, do meu ponto de vista, que Sebald, aliás, Austerlitz,
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AS LITANIAS DA “RÉVOLTE” DE CHARLES BAUDELAIRE: CONTEÚDOS ALEGÓRICOS, TEOLÓGICOS E MARXISTAS

AS LITANIAS DA “RÉVOLTE” DE CHARLES BAUDELAIRE: CONTEÚDOS ALEGÓRICOS, TEOLÓGICOS E MARXISTAS

As litanias foram escritas, de acordo com Dolf Oehler (2004, p.102), em Terrenos vulcânicos, “entre a revolução de fevereiro de 1848 e dezembro de 1851” e por isso estavam “livres de censura à imprensa” e, segundo o crítico, as três litanias jamais poderiam ser entendidas como “poesias puras”, mas sim “como apelos revolucionários” (OEHLER, 2004, p.102). Nesse sentido, como apelos que alegorizam na lírica baudelairiana para a absorção da atmosfera efervescente da luta popular da Paris de 1848. O caráter de poesia impura dá-se, também, através da modificação dos temas da “grande” lírica que agora estão afeitos a tematizar as experiências da modernidade, sobretudo ao tratar de temas como as lutas de classes, a cidade urbana, as multidões efervescentes, entre outros. Cabe salientar que tal modificação é realizada pelo poeta Baudelaire, não apenas no ciclo “Revolta”, como também em toda a extensão de As Flores do Mal. Contudo, em “Revolta” esse rebaixamento da lírica faz-se mais gritante. Nesse ciclo, não é possível encontrar um “acesso confortável ao conjunto da obra”, conforme destaca Oehler (2004, p.102).
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Baudelaire – O tédio na era do capitalismo avançado Bernardo Esteves Barbosa Vaz de Castro

Baudelaire – O tédio na era do capitalismo avançado Bernardo Esteves Barbosa Vaz de Castro

69 ensaio, «A obra de arte na época da sua possibilidade de reprodução técnica». Seria necessário, à escala planetária, uma mobilização das massas sem uma única resistência. A resistência contra a mobilização da guerra, não pactua com a ideia de uma luta armada, mas uma «recusa de uma acção ou de um serviço, nos casos em que equivale a uma «quebra de relações», pode ser um meio limpo e não-violento» (Benjamin, 2008: 53). Se o Estado submete os seus cidadãos à violência através da organização militar, no qual o «militarismo é a compulsão ao uso generalizado da violência como meio para atingir os fins do Estado» (Benjamin, 2008: 55), negar de modo não-violento é negar o exercício violento do Estado. Os guerrilheiros, as rebeliões que se apropriaram momentaneamente do monopólio da violência estatal, exerceram essa mesma violência na implementação da sua lei posteriormente. A resposta contemporânea deve então estabelecer uma relação não-violenta, porque o «entendimento sem violência encontra-se por toda a parte onde a cultura do coração ofereceu às pessoas meios puros para se entenderem (Benjamin, 2008: 60). A solução existe, porque «existe uma esfera da não-violência na convivência humana que é totalmente inacessível à violência: a esfera propriamente dita do «entendimento», a linguagem» (Benjamin, 2008: 60). A derradeira recusa está inscrita na palavra e não no corpo. Porque a disciplina, tal como Foucault demonstrou, «é um princípio de controlo da produção discursiva. Ela fixa os seus limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reactualização permanente das regras» (Foucault, 1997: 28). Porque o poder age sobre o corpo, através da palavra e só recusando a linguagem do poder, acedendo à linguagem vedada, ao quebrar as regras linguísticas, é possível contestar o exercício do poder na palavra e consequentemente no corpo.
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Kosovo e a ofensiva recolonizadora do imperialismo — Outubro Revista

Kosovo e a ofensiva recolonizadora do imperialismo — Outubro Revista

Mas, a tentativa do imperialismo norte-americano de impor uma nova ordem mundial sob seu único domínio esbarra em diversos proble- mas, alguns puderam ser vistos, mesmo que de forma embr[r]

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“Bagatelas laboriosas”

“Bagatelas laboriosas”

Em contraposição ao movimento de aproximação em relação aos jornais, ra- dicalizado pelo disfarce de “Les Yeux des pauvres” em sua primeira publica- ção, é preciso não se esquecer dos muitos ataques que Baudelaire desferiu contra o público leitor no espaço mesmo dos jornais. O exemplo mais eviden- te é o de “Le Chien et le flacon”, sobre qual já disse algumas palavras acima. Acredito que essa tomada de distância, que contrasta com o pathos da proxi- midade, também presente na prosa de Baudelaire, está bem representado na imagem do estrangeiro que, ao responder a diversas perguntas formuladas por um interlocutor anônimo, recusa sucessivamente alguns dos principais valo- res burgueses (família, amigos, pátria, dinheiro, Deus) para afirmar seu amor pelas “nuvens que passam... lá longe... lá longe... as maravilhosas nuvens!” [“L’Étranger”] (I, 277). A afirmação de sua estrangeiridade, isto é, de seu não pertencimento ao espaço compartilhado pelos homens comuns, expressa-se também, de maneira ainda mais violenta, no poema “À une heure du matin”, no qual o poeta, ao recapitular acidamente o seu dia fatigante, faz uma alusão sarcástica à imprensa, na figura de um diretor de revista:
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