Top PDF Do gozo fálico ao gozo do Outro.

Do gozo fálico ao gozo do Outro.

Do gozo fálico ao gozo do Outro.

No discurso analítico, “ele, o analista, é que é o mestre (...) sob a forma de a. É do seu lado que há S 2 , que há saber” (LACAN, 1969-1970/1992, p.33). O analis- ta, ao ocupar a posição mestre, posição de dominância e de ordem do discurso, o faz sob a forma de objeto a, fazendo semblante de objeto causa do desejo do analisante. Subjacente à posição do analista, no lugar da verdade e confinado a um semi-dizer, situa-se o saber, suporte e mola propulsora do que vem na posição de comando, de semblante do discurso (o objeto a). É do lugar da verdade que o saber interpela o sujeito. O que se produz, S 1 , significante do gozo fálico, é “o significante do gozo mesmo mais idiota — nos dois sentidos do termo, gozo do idiota, que tem mesmo aqui sua função de referência, gozo também o mais singular” (LACAN, 1972-1973/1993, p.126-127). Para Lacan, “o discurso analítico só se sustenta pelo enunciado de que não há, de que é impossível colocar-se a relação sexual (...) Este é, nomeado, o ponto que cobre a impossibilidade da relação sexual como tal. O gozo, enquanto sexual, é fálico, quer dizer, ele não se relaciona ao Outro como tal” (p.17-18). O axioma não há relação sexual se fun- damenta no discurso analítico, no nível do par S 1 -S 2 . Há disjunção entre S 1 e S 2 . O saber no lugar da verdade é um saber disjunto, separado do significante mestre; é um saber sem cabeça, 4 tal como o reencontramos no inconsciente.
Mostrar mais

14 Ler mais

Do sujeito pré-cartesiano ao contemporâneo: as novas formas de gozo do Outro

Do sujeito pré-cartesiano ao contemporâneo: as novas formas de gozo do Outro

Resumo: Este artigo busca analisar as relações entre o sujeito e o grande Outro a partir das transformações culturais, políticas e econômicas da história recente. Com base na atual proposição de Charles Melman, a respeito de uma nova economia psíquica organizada pelo gozo e pelo apagamento dos limites, tentamos relacionar essa condição subjetiva aos impasses que indicam a falência da instituição simbólica. Para isso, dividimos o trabalho em três secções: a primeira busca descrever o sujeito pré-cartesiano, representante da economia psíquica organizada pelo recalque. Depois, o sujeito cartesiano, marcado pelo pensamento racional e pelas ambiguidades que possibilitaram o avanço do discurso científico e o nascimento da psicanálise. Por fim, discutimos acerca do sujeito contemporâneo e sua relação com a lei e com o gozo. Refletimos sobre as possíveis consequências relativas ao declínio da ordem simbólica e questionamos o estatuto de liberdade do sujeito frente ao grande Outro.
Mostrar mais

11 Ler mais

Permanecer histérica: Sexualidade e contingência a partir do caso Dora.

Permanecer histérica: Sexualidade e contingência a partir do caso Dora.

Poderíamos imaginar que Dora teria sido capaz de lidar melhor com sua his- teria na medida que pudesse integrar suas reivindicações masculinas no interior de uma relação afetiva, o que exigiria um homem para quem tais reivindicações fosse ocasião de gozo, e não sinais de alguma forma de protestação viril ameaça- dora. Isto só seria possível se Dora constituísse escolhas de objeto para além da série produzida pela identificação com o pai. Por outro lado, ela deveria integrar a forte tendência oral de seu gozo, resolvendo o “mistério de sua feminilidade corporal”. Difícil imaginar que isso seria possível no interior de um casamento burguês do começo do século XX — o que implicaria aceitar que a pergunta sobre o que é uma mulher simplesmente não pode ser enunciada, já que sua resposta não está em uma elucidação, mas em uma construção.
Mostrar mais

16 Ler mais

Culpa e gozo, psicanálise e literatura.

Culpa e gozo, psicanálise e literatura.

Na medida em que o desejo vem do Outro, quando a mãe, por exemplo, espera encontrar no filho o falo, o que eqüivale a dizer que o falo vem do Outro que o deseja no filho, é na relação com esse Outro que o próprio sujeito se constitui. Vale lembrar que esse Outro como lugar da linguagem, é o lugar pelo qual deve passar necessariamente a demanda do sujeito humano (Lacan, 1957-1958/1999). Aí é que se constitui o desejo, aquela hiância entre o que se demanda e o que se visa, pois, o que se demanda através da linguagem é sempre algo que está além da linguagem, mas que somente pode ser vislumbrado por meio da própria linguagem. O Outro, então, é o lugar de onde advém o desejo, o desejo do próprio Outro é o que se visa na demanda, portanto toda demanda é demanda de amor.
Mostrar mais

6 Ler mais

Dor e gozo: de Freud a Lacan.

Dor e gozo: de Freud a Lacan.

A imagem do sentido é, antes de tudo, a representação da zona corporal, onde se produziu o acontecimento corporal. Algumas vezes essa imagem é nítida, ou- tras vezes confusa, pode ser consciente ou inconsciente, mas, em quaisquer dos casos, ela se grava automaticamente no psiquismo. Entretanto, quando não há a presença interiorizada de outrem, o investimento libidinal não é suficiente para que um acontecimento sensorial seja representado. Ela é gravada, porém não repre- sentada. A experiência sensível fica ao nível do curto circuito pulsional, sem as- cender ao grande circuito pulsional, onde ocorre o processo de representação. É preciso o afeto e também o Outro para se configurar a experiência de dor. Diz Nasio (2007): “Se eu sofro de uma dor é sempre em referência a outrem” (p. 13). Porém, quando o sujeito fica petrificado pela doença (acontecimento de cor- po), seu corpo se torna fonte ilimitada de gozo, pois, nesse caso, há uma estag- nação da libido num certo órgão, ou ponto do corpo, em decorrência de uma forclusão local, como acontece nos fenômenos psicossomáticos. Sabemos que tais fenômenos não possuem a mesma consistência simbólica do sintoma no sen- tido analítico, ou seja, de uma formação do inconsciente com uma estrutura de linguagem que opera por substituição, deslocamento e modificação. E quando falta significante, quando a palavra deserta do corpo, deixa de existir distância entre o gozo e o corpo, razão pela qual Lacan afirma que o gozo é no corpo e fora da linguagem. Em outras palavras, quando não se representa os acontecimentos sen- soriais, quando não se dá sentido a eles, o corpo fica numa relação de exclusão com a cadeia de linguagem e aquilo, que seria experimentado como dor, trans- forma-se em gozo. Só o significante é capaz de fazer borda ao gozo. O gozo, como a dor, pressupõe a ultrapassagem do limiar, sendo que, no segundo, há certa circunscrição do gozo, limitando-o, fragmentando-o. A dor faz limite entre a ex- periência de prazer e a de gozo.
Mostrar mais

17 Ler mais

Discurso e gozo: Psicanálise e sociedade.

Discurso e gozo: Psicanálise e sociedade.

É com Lacan que a abordagem do corpo na constituição do sujeito propõe uma maior abertura às questões políticas da pós-modernidade, sobretudo na relação que o autor estabelece entre o gozo e o corpo. É importante destacar que para Lacan (1992), em sua leitura discursiva do gozo, os laços sociais são laços discursivos e, como tal, as relações de linguagem entre as pessoas definem diferentes maneiras de lida com o corpo e com o gozo. Assim, os discursos que regem as relações sociais situam as relações intersubjetivas. É nessa vertente que entendemos que o inconsciente é a política (LACAN apud MILLER, 2011), numa indicação de que o sujeito se constitui na incessante tensão em relação àquilo que o Outro lhe propõe e o quanto ele pode se separar disso. Além da referência ao Outro no laço discursivo, é indispensável na abordagem do corpo em Lacan, a análise do conceito de gozo. Ela, no entanto, é complexa e a situaremos no que segue.
Mostrar mais

14 Ler mais

Libido e angústia: economia de gozo na obesidade.

Libido e angústia: economia de gozo na obesidade.

Essa passagem de 1915 que alude à melancolia será, a partir da segunda tópica, a referência para a própria constituição do eu, à medida que Freud afirma que “o caráter do eu é uma sedimentação dos investimentos de objeto abandona- dos” (1923/2006c, p. 31). Essa sombra constitutiva do eu é o que proporciona uma captura na identificação narcísica, i(a), em relação à qual é preciso trabalhar uma separação. Se o sujeito puder identificar-se em outro lugar, como sugere Lacan, a opacidade narcísica trazida para a relação com o objeto poderá ser supe- rável. Mas do que trata essa possibilidade de identificar-se em outro lugar? Lacan destaca nesse momento que, para além dessa dialética especular que aprisiona o sujeito, é a abertura do campo do Outro com sua dialética própria que pode re- meter o sujeito para fora do campo estritamente especular, i(a). É graças à função do significante que se abre a possibilidade de o “sujeito sair da pura e simples captura no campo narcísico” (Lacan, 1960-1961/2006, p. 363).
Mostrar mais

15 Ler mais

Uma classificação dos sentidos do termo gozo em Freud.

Uma classificação dos sentidos do termo gozo em Freud.

2.1.5. Gozo sexual acompanhado de dor, de sofrimento. Freud (1905a/1977) também une dor e sofrimento mostrando que o gozo sexual – enquanto prazer – pode vir acompanha- do de dor. Nos “Três ensaios”, no capítulo sobre as “Aberra- ções sexuais”, ele aponta que a particularidade mais notável do sadomasoquismo reside no fato de que suas formas ativa e passiva podem encontrar-se juntas na mesma pessoa. “Quem sente prazer em provocar dor no outro na relação sexual é também capaz de gozar, como prazer (Lust zu genieβen: 69), de qualquer dor que possa extrair das relações sexuais” (p. 161). Nos “Instintos e suas vicissitudes” (1915b/1977, p. 149), o sadismo parece se esforçar no sentido de levar o sujeito não só a humilhar e dominar o outro, como também a lhe infligir dor. Esta ação não se encontra entre as intenções ori- ginais do sujeito. Mas nos casos em que esse sadismo origi- nal se transforma em masoquismo, a dor pode proporcionar uma meta masoquista passiva, pois as sensações de dor, como outras sensações desagradáveis, avançam sobre a excitação sexual, produzindo um estado prazeroso. A partir do momen- to em que sentir dor se transforma numa meta masoquista (ein masochistisches Ziel), pode surgir a meta sádica (das sadistische Ziel) de causar a dor. Nesse caso, quando a dor está sendo provocada no outro, há ao mesmo tempo o surgimento no sujeito de um gozar (genieβt: 92) masoquista proveniente da identificação desse sujeito com o outro que sofre. A partir daí, em ambos os casos, o gozo não provém da própria dor, mas da excitação sexual que a acompanha. Gozar da dor (Schmerzgenieβen: 92) provém de uma meta original- mente masoquista, mas que se torna meta pulsional apenas para aqueles que são originalmente sádicos.
Mostrar mais

12 Ler mais

O dispositivo de gozo na sociedade do controle.

O dispositivo de gozo na sociedade do controle.

Estamos assistindo na contemporaneidade uma grande assimilação da lógica capitalista e uma “intensi- icação e uma generalização da disciplina” (Hardt, 2000, p. 369) e da biopolítica. Esses processos foram muito bem descritos por Deleuze (1992), quando se refere à sociedade contemporânea como uma “sociedade do controle”. Nesse texto, faz uma leitura fundamental acerca das mudanças mais atuais, sugerindo que esta- ríamos vivendo um tempo que se caracteriza por uma passagem de uma sociedade “moderno-industrial”, descrita por Foucault como uma “sociedade discipli- nar”, para outro tipo de sociedade, uma “sociedade do controle”. O que parece ser sugerido por esse texto de Deleuze é um deslocamento no que poderíamos denominar de uma “lógica discursivo-diagramática na cultura”, de maneira que as formas de subjetivação, seus lugares e seus efeitos de gozo ganham uma nova roupagem e um novo campo: o mercado. Por outro lado, estaríamos inaugurando uma nova sociedade em que o coninamento deixa de ser sua técnica principal.
Mostrar mais

8 Ler mais

Os demônios do gozo: uma contribuição para a psicanálise da esquizofrenia.

Os demônios do gozo: uma contribuição para a psicanálise da esquizofrenia.

A partir daí, esse diálogo com a voz se tornou habitual. Fabrício passou a levar um a garrafa d’água para a sessão. Quando o vam piro lhe dizia para beber m eu sangue, respondia: “Quer sangue?” — e bebia a água. Um dia, sublinhei: “Você o engana.” Fabrício m e respondeu, rindo: “Sim , esses dem ônios são m uito burros.” Ele conseguiu aí introduzir alguma barra no Outro, de quem o vampiro é uma figuração. Cabe ao psicótico, sujeito do gozo (LACAN, 1966), fazer a lei do Outro. Fabrício não consegue construir um conceito elaborado e estável como o da Ordem do Mundo de Schreber, que faz suplência da lei. Só lhe resta o recurso ao engano.
Mostrar mais

13 Ler mais

A perversão, o desejo e o gozo: articulações possíveis.

A perversão, o desejo e o gozo: articulações possíveis.

Em linhas gerais, pode-se concluir que a per- versão é marcada por uma cumplicidade libidinal ma- terna em razão do gozo que a mãe assegura à criança, que vai além da satisfação de suas necessidades, e por uma complacência de um pai que não se faz intervir convenientemente pela lei de seu discurso. Sela-se, assim, um pacto de omissão diante da atuação de uma mãe sedutora (Lacan, 1957-1958/1999). Ocorreria, portanto, uma miniminização da mediação paterna, o que despojaria o pai de suas prerrogativas simbólicas para delegá-las à fala da mãe. Porém, é o fato desta delegação guardar referência à lei do pai que evita a entrada na psicose. Na perversão, a lei materna é referida à lei do pai, portanto, há lei, pois o perverso não poderia desmentir sem reconhecer antes o que deve ser des- mentido. Por outro lado, na psicose, a lei materna não é referida à lei do pai; portanto, não há a lei do pai.
Mostrar mais

9 Ler mais

Open Violência: um gozo não balizado pelo simbólico.

Open Violência: um gozo não balizado pelo simbólico.

Todas essas questões do declínio do Nome-do-Pai, ou seja, do declínio da ordem simbólica que tinha no significante a sua âncora ou o ponto de amarração dos registros Real e Imaginário, partindo de uma ordem universal, agora parecem apontar para uma clínica do social onde os novos sintomas surgem, indicando que um novo rumo deve ser traçado, inclusive pela psicanálise. Na clínica atual o analista não se depara mais apenas com as estruturas clássicas. Agora chegam à clínica, com frequência, toxicômanos, sujeitos que sofrem de transtornos alimentares, depressivos e sujeitos inteiros, que não topam a dialetização, que por um fio podem atuar, ou quem sabe surtar. Os atos de violência fazem parte do cotidiano dessas pessoas que ao mesmo tempo em que vivem aterrorizadas por que não acreditam mais em nenhuma instituição e muito menos no Outro da linguagem, encontram-se em estado de alerta, prontos para se defenderem desse Outro invasivo, que lhes põem em risco e lhes contaminam através das imagens convocadas pelo discurso da hipermodernidade 20 .
Mostrar mais

104 Ler mais

Considerações sobre o lugar do corpo na organização perversa.

Considerações sobre o lugar do corpo na organização perversa.

Por outro lado, ele próprio também se faz objeto para o Outro, pois todos os seus atos são determinados por um imperativo categórico de dever gozar, determinados por uma lei, por uma voz imperiosa que vem do Outro, este Outro primordial que alguns autores, como Serge André (1995), associam ao pai primevo, ao pai da Horda. Diz esse autor (p. 49) que a forma como Freud coloca a figura do pai em “Totem e tabu”, constitui um problema, posto que o modelo mítico do pai da horda revela um pai fundante de uma lei, mas que ao mesmo tempo detém o gozo pleno. Assim, de um lado ele proíbe gozar, mas de outro ele ordena gozar. O perverso se manteria identificado a este pai, como se ficasse preso à pré-história da lei. Sabemos que a função do pai da horda é gozar de todas as mulheres assegurando uma função de exceção, de Um, que o deixa livre da castração. A partir deste Um é que se funda o universal da lei. Contudo, ao ficar preso ao universal, ele não pode se colocar na regra, mas sim na exceção a ela. Esta hipótese levantada por Serge André permite pensar que, no caso da perversão, não há sujeitos e sim assujeitados, pois da mesma forma que suas vítimas, o perverso também se coloca como assujeitado à versão de uma lei, a do pai primevo, e não à versão de uma lei consensualmente aceita. 2
Mostrar mais

13 Ler mais

O DIREITO COMO CAMPO DE GOZO E O LAÇO SOCIAL

O DIREITO COMO CAMPO DE GOZO E O LAÇO SOCIAL

como, em outro momento, convida-nos “[...] a desconfiar das propriedades imaginativas daquilo que eu impropriamente chamava ‘modelos’”. (LACAN, apud BAIRRÃO, O impossível sujeito..., 2003, p. 132). Dissociada a concepção de modelo da pretensão de representabilidade e cognição (Cf. BAIRRÃO, O impossível sujeito..., 2003, p. 132), vamos, como veremos, usá-lo na perspectiva da literalização dos discursos e articulado ao registro da pragmática, segundo Ferraz Jr. (Cf., por exemplo, Função social da dogmática jurídica, 1978a e Direito, retórica e comunicação..., 1997), Soulez (Enodamento entre letra e lugar?, 2000, p. 57), Lenk (Razão pragmática..., 1990, p. 107 et seq.) e Granger (Lógica e pragmática da causalidade..., 1989), o que importa uma redefinição da razão científica (como razão a-científica) e uma concepção operacional da matemática (Cf. GRANGER, A Razão, 1985, p. 78; Cf. também D’AMORE, Epistemologia e Didática da Matemática, 2005, p. 26 et seq. e LENK, Razão Pragmática..., 1990, p. 107 et seq.). Para melhor contextualização do assunto, cito Krause (Introdução aos fundamentos..., 2002, p. 7, colchetes do autor): “O uso de um ou outro método, para as finalidades da matemática comum vem de critérios pragmáticos [...] Perceber que podem haver realizações (modelos) que, sob certo ponto de vista, ‘são completamente distintos’ uns dos outros (no sentido de que não são isomorfos), mas que são no entanto descritos pela mesma estrutura axiomática, constituiu avanço em matemática que não pode ser desprezado. Aliás, Bourbaki descreve o nascimento da ‘matemática moderna’ como sendo precisamente a tomada de consciência deste fato. Disse ele: ‘o estudo de teorias não categóricas [que ele chamava de ‘multivalentes’] é o traço mais surpreendente que distingue a matemática moderna da matemática clássica’.” E Lacan (O seminário - livro 20, 1985, p. 65, grifos do autor): “Ajuntemos essas coisas absolutamente heteroclíticas, e nos demos o direito de designar esse ajuntamento por uma letra. É assim que se exprime em seu princípio a teoria dos conjuntos, aquela, por exemplo, que da última vez coloquei com o título de Nicolas Bourbaki [...] os autores — como vocês sabem, eles são múltiplos [...] tomam mesmo o cuidado de dizer que as letras designam ajuntamentos. Aí é que está a timidez deles, e seu erro — as letras constituem os ajuntamentos, as letras são, e não, designam, esses ajuntamentos, elas são tomadas como funcionando como esses ajuntamentos mesmos.”
Mostrar mais

405 Ler mais

Laço social na psicose: impasses e possibilidades.

Laço social na psicose: impasses e possibilidades.

A partir da forclusão do evento fundador do laço social, logo, do significante que o marca no psiquismo, o Nome-do-Pai, a operação de divisão subjetiva não se completa na psicose, não se produzindo o resto, objeto a, objeto condensa- dor de gozo que favorece a localização do gozo fora do corpo. O sujeito não se divide, não fica barrado, tampouco a alteridade se esvazia de gozo, o que gera impasses ao laço social. A alteridade, assim, tende a permanecer uma “[...] imi- nência intolerável do gozo. O Outro é apenas sua terraplenagem higienizada [...] O Outro é justamente isso, é um terreno do qual se limpou o gozo.” (idem, p.219-20). Sem o Nome-do-Pai, o psicótico permanece acossado por um gozo que resta desarrimado, deslocalizado, cabendo a ele a tentativa de promover algum tratamento ao gozo, alguma modalização que conceba ao sujeito uma posição diante do Outro em que este não permaneça absolutamente pleno de gozo. Logo, o sujeito psicótico se encontra diante da árdua tarefa de tentar es- vaziar o Outro de gozo em alguma medida, o que poderia lhe permitir certa abertura ao laço social.
Mostrar mais

15 Ler mais

Paula Angela de Figueiredo e Paula

Paula Angela de Figueiredo e Paula

De acordo com Lacan ([1972-1973] 1985, p. 87), a “outra satisfação” é a “satisfação da fala”, este gozo é alguma coisa a mais “um gozo para além do falo” que aponta para S(A/). Um gozo que faz a mulher não-toda, pois dele ela “não solta nenhuma palavra, talvez porque não o conheça.” (LACAN, [1972-1973] 1985, p. 82). Embora desse gozo nada possa ser dito, ainda assim ele é experimentado. A mística é um dos exemplos privilegiados por Lacan para designar o gozo feminino, de maneira que a estátua de Santa Tereza d’Ávila a qual ele faz alusão torna-se a capa do seminário “Mais ainda.” O perfeito eco vindo do lugar comum relacionado a todos os místicos desde São João da Cruz à Hadewijch d’Ánvers, à Margarite- Marie Alacoque é que “eles experimentam a ideia de que deve haver um gozo que esteja mais além” “gozo que experimentam, mas não sabem nada dele.” (LACAN, [1972-1973] 1985, p. 102-103). Essa é, portanto, a definição mesma dos místicos, aqueles que experimentam a ideia de que deve haver um gozo que seria mais além. Para o mártir, o gozo nunca é o bastante, é a expressão de um desejo, desejo de objeto “que supõe de vazio uma demanda”, “desejo que nenhum ser não suporta.” Um objeto que se substitui ao Outro como tal e é feito causa do desejo sem nenhum interesse não cobre de ternura essa pureza que é sem medo e sem piedade. Fica entendido que o “gozo do Outro” deve ser entendido como o gozo do Outro sexo, do sexo que é Outro em relação ao falo, ou seja, do feminino. Radicalmente Outro, o gozo da mulher tem relação com aquilo que nós podemos chamar Deus e com o que a especulação antiga de maneira mística considera como ser Supremo “no lugar opaco do gozo do Outro.” (LACAN, [1972-1973] 1985, p. 111).
Mostrar mais

262 Ler mais

Qual viagem? Enlaces do gozo no subjetivo e no social

Qual viagem? Enlaces do gozo no subjetivo e no social

se apresentam na relação analista-analisado. As novidades das colocações literárias de Vidal Porto consistem em trazer ao texto um deslocamento de posições entre aquele que “classicamente” defi niríamos como protagonista e o seu Outro, que tratamos como “protagonizado” ou o sujeito que é des- crito. A leitura nos revela que histórias são contadas dentro de histórias. Quando desenhamos trajetórias sobre os percursos do Outro, suas jornadas são, em certa medida, também nossas jornadas. E ainda mais, o conjunto dessa tematização nos mostra em que medida a psicanálise resulta em um intrincado processo de impactos e identifi cações.
Mostrar mais

5 Ler mais

A ética em Lacan

A ética em Lacan

De fato, o legado de Lacan é, sobretudo, ético; releva do esforço de expor a todos o real de um gozo tal como ele os habita. Esforço porque nada se sabe de real sobre homens e mulheres, uma vez que inexiste signi- icante para a diferença dos sexos. O que existe, o falo, não pode senão se ligar a um ou outro dos termos envolvidos, exclusivamente ao homem ou à mulher, nem estabelecer relação ou comunicação de um ao outro. Em uma frase: “Não há relação sexual”. Dessa evidência analítica, surgem algumas consequências éticas:

4 Ler mais

Escrita no corpo: gozo e laço social.

Escrita no corpo: gozo e laço social.

É assim que, no contexto da falta de uma escrita que possa amarrar o corpo, o gozo e o Outro, as manifestações de corte no corpo, tão frequentes atualmente, vêm nos chamar a atenção. Notícias recentes (O Dia, 14 de fevereiro de 2009) divulgaram pela mídia o caso de uma jovem brasileira vivendo em Zurique, Suíça, com o namorado. Ao que todas as evidências indicam, retalhou seu corpo com letras e símbolos de um partido neonazista, pretendendo, aparentemente, ganhar uma indenização do governo suíço. Os jornais noticiaram que a jovem disse estar grávida de gêmeos e responsabilizou a situação traumática como causadora de um aborto, além de tê-la deixado com cicatrizes que escancaram a discriminação racial e política. A princípio, inflado pela indignação de uma atitude incomodamente próxima do apartheid, o então presidente brasileiro e seu Ministro da Justiça reagiram, tomando o partido da jovem, exigindo que as autoridades suíças apurassem o fato com o devido rigor. Depois, à medida que o caso se esclarecia, todos foram se calando, se encolhendo, se vexando, se espantando diante da trama urdida pela jovem. Talvez, o mais pasmo fosse o próprio pai, ao considerar que “em qualquer circunstância, a minha filha é víti- ma”, disse aos repórteres — “Ou é vítima de graves distúrbios psicológicos, ou da agressão”, a respeito da qual, a princípio, não se tinha motivos para duvidar. O que pretendia ela com toda essa encenação?
Mostrar mais

18 Ler mais

Psicanálise com crianças - Rumo ao Fantasma: Do Outro ao a

Psicanálise com crianças - Rumo ao Fantasma: Do Outro ao a

Tomemos inicialmente o primeiro quadrante e posicionemos ali um recém- nascido representado pela letra a, tal qual o gráfico de Lacan. Essa letra não é aleatória na teoria lacaniana, já que o a refere-se ao objeto a inventado por Lacan, porém em 1958 ele é apresentado em sua vertente imaginária, ainda não tendo valor de objeto causa de desejo. Neste momento da constituição psíquica o bebê é um puro objeto, um pedaço de carne, um objeto que representa o gozo dos pais e encontra seu suporte num Outro, representado pelo seu semelhante posicionado no segundo quadrante no campo do Outro, a’. Portanto, o eixo a-a’, primeiro e segundo quadrantes, representam o bebê e seu semelhante, representantes do campo do Outro, em sua vertente imaginária. A alienação ao desejo do Outro, operação que, junto com a separação constitui a causação do sujeito como propõe Lacan encontra aqui o lugar simbólico para realizar tal expressão. Estas operações serão abordadas no capítulo sobre o fantasma lacaniano.
Mostrar mais

174 Ler mais

Show all 10000 documents...