Top PDF Georges Canguilhem: o devir de um pensamento

Georges Canguilhem: o devir de um pensamento

Georges Canguilhem: o devir de um pensamento

uma “regulação exterior”. Como especifica Canguilhem: “Esta regulação do interior [a bernardiana] é bem diferente da regulação comtiana. Esta última garantia ao organismo o benefício de uma constância obtida de um exterior estável e estabilizador” 40 . Não é necessário insistir sobre as denúncias que Canguilhem passou a fazer, desde há mais de duas décadas, à predominância que Comte atribuía ao meio em sua relação com o organismo, fazendo-o depender da ordem dinâmica externa e de suas leis constantes. Ainda que o mesmo não ocorresse com Claude Bernard, para quem a regulação se fundamentará, ao contrário, “na estabilidade interna das condições necessárias à vida dos elementos celulares, permit[indo] ao organismo enfrentar os acasos do meio ambiente, pois esta regulação consiste num mecanismo de compensação dos desequilíbrios” 41 , num outro estudo Canguilhem evidenciará o obstáculo que a concepção fisiológica bernardiana constituiu para o desenvolvimento de mais uma inovação biológica, a microbiologia de Pasteur. Isso porque, ao cumprir a exigência que seu mestre François Magendie havia antevisto, mas não tinha levado a cabo, do estabelecimento de um método experimental, Cl. Bernard não abriu mão “do princípio de identidade entre o normal e o patológico” 42 , o que o fez instituir um método fixo que se desincumbia da tarefa de modificar a si próprio diante de novas experiências: um “conceito de teoria sem revolução” 43 . Os motivos para esse conservadorismo metodológico, Canguilhem os encontrará agora, ainda mais radicalmente do que no Essai de 1943 onde já questionava essa insuficiência de Cl. Bernard, no modelo social que essa teoria imita sem o saber: “A medicina experimental, atuante e militante, cujo modelo Cl. Bernard pensou construir, é a medicina de uma sociedade industrial” 44 . Canguilhem amplia, aqui, as conclusões de sua tese sobre o reflexo e percebe, na hesitação de Cl. Bernard em estabelecer um método tão revolucionário quanto era nova a ciência que ele ajudava a consolidar – a fisiologia – , a mesma adesão já observada em Comte a um princípio estranho à ciência praticada, tomado de empréstimo à mecânica e a um modelo social estático que lhe é correlato. Se Comte o fizera com respeito à ordem externa, que tinha o primado na regulação do organismo, Cl. Bernard o fará com relação ao método segundo o qual estabelece as condições de análise da regulação que agora ele já reconhece como interna ao organismo.
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Da configuração antropológica da filosofia ao pensamento do acontecimento: devir, infância e educação

Da configuração antropológica da filosofia ao pensamento do acontecimento: devir, infância e educação

É em torno a essas questões que delimitamos a perspectiva conceitual deste trabalho: fazer o pensamento devir no cruzamento da Filosofia com a Educação, um pensar que fosse ao mesmo tempo experimentação e problematização do já pensado e do novo, que fizesse surgir, ou que ao menos nos revelasse os múltiplos agenciamentos, dispositivos e estratégias, poderes e saberes; marcando a importância das relações, da passagem, do encontro contingente de forças de pensamento heterogêneas: do plano de imanência da filosofia, e suas variações, com o plano de referência ou de coordenação da educação, e suas variáveis 3 . E realizamos essa proposta a partir do desafio, por exemplo, de fazer encontros com a filosofia de grandes autores: fazer Foucault se encontrar com Deleuze, e Deleuze com a de Foucault. E isso sem perder a sensibilidade, a potência do sensível que só poderia nascer do encontro; e não saberíamos de outro modo como explicar o conceitual sem antes fazer se encontrar o intensivo no pensamento. Mais do que um acordo, é uma aliança.
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Devir e Ser na Origem do Pensamento Filosófico

Devir e Ser na Origem do Pensamento Filosófico

Dissertação de Mestrado em Filosofia apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.[r]

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Pensamento, corpo e devir Uma perspectiva éticoestéticopolítica no trabalho acadêmico1

Pensamento, corpo e devir Uma perspectiva éticoestéticopolítica no trabalho acadêmico1

O mesmo se pode dizer do estudo e da erudição: a erudição não entra neste tipo de trabalho como um campo de saber, e cujo domínio nos traria a verdade. A erudição entra aqui como um corpo de pensamento, à nossa disposição. É com um corpo que nos encontramos no estudo: um corpo que traz encarnada em conceitos uma série de marcas que ao nos afetarem podem provocar em nós o aparecimento de uma ou várias marcas inusitadas ou também reavivar alguma marca que já estava ali a nos desassossegar, sem que pudéssemos ouví-la e/ou responder à sua exigência. Quando uma marca é assim criada ou reatualizada no estudo, somos atraídos por sua reverberação e lançados a uma exigência de inventar um corpo conceitual que a encarne, uma exigência de interpretação. E quando é o caso de uma reatualização, cria-se uma nova chance de mergulho numa determinada marca e de prospecção de alguns de seus estados ainda inexplorados. É evidente que os conceitos que eventualmente se criam a partir das marcas novas ou reatualizadas, suscitadas no encontro com um texto, são necessariamente diferentes dos conceitos do texto em questão. Bem, mas aqui surge uma pergunta: onde situar o rigor neste quadro?
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OS OBJETOS DE MUSEU, ENTRE A CLASSIFICAÇÃO E O DEVIR

OS OBJETOS DE MUSEU, ENTRE A CLASSIFICAÇÃO E O DEVIR

RESUMO Introduz uma reflexão sobre os enquadramentos tradicionalmente impostos aos objetos de museu questionando a sua sustentação empírica na contemporaneidade. Chama atenção para uma mudança de percepção sobre os musealia em função principalmente de dois fenômenos distintos, quais sejam: (1) o novo sentido conferido ao objeto artístico pela arte contemporânea atuando na reordenação dos enunciados sobre os objetos e os valores neles investidos; e (2) o advento dos ecomuseus, que relegam ao segundo plano do discurso museal os objetos materiais se voltando para a musealização das relações do humano com o seu meio. Destaca que, em ambos os casos, as categorias classificatórias que comportam os objetos nos museus tradicionais são perturbadas levando à concepção de uma nova categoria de pensamento que propomos chamar de objeto-devir. Discute a especificidade dos objetos musealizados a partir de diferentes correntes de pensamento que tangenciam a teoria do objeto, como se dão os processos de produção de sentido e de valores quando um objeto entra na cadeia museológica.
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Entre o esgotamento e o devir.

Entre o esgotamento e o devir.

Cabe uma ressalva, na linha do pensamento de Viveiros de Castro (2014). Pelbart segue uma tradição que investe na aceleração do processo. Um acontecimento se efetivaria no bojo da catástrofe eminente, recombinando as forças, como ressaltamos. Para Viveiros de Castro, contudo, há hoje uma barreira intransponível, dos limites físicos da Terra. O niilismo levado a seu termo traz a reboque alterações profundas das características termodinâmicas do planeta, cujos efeitos, e já sentimos alguns deles, imprimem drásticas consequências para a humanidade. O avesso do niilismo talvez coincida com o fim do humano enquanto espécie, ou, pelo menos, da própria ideia do humano enquanto espécie. Saturar o niilismo biopolítico esbarra nas bordas da Terra, pois é ela quem não suporta mais nosso modo de produção e organização da vida, num revide absoluto e inesperado da natureza contra a cultura.
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CONCEITOGRAFIA PARA O DEVIR BRASIL

CONCEITOGRAFIA PARA O DEVIR BRASIL

E eu que sou mais um destes, que não se identificam, diante da necessidade de traduzir este tempo em pensamento, enfrento a dificuldade de uma formação sem objeto, sem uma [r]

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Sobre a troca informacional entre o modelo fisiológico de organismo e concepções de organização político-social : política, técnica e ciências da vida a partir de Georges Canguilhem

Sobre a troca informacional entre o modelo fisiológico de organismo e concepções de organização político-social : política, técnica e ciências da vida a partir de Georges Canguilhem

De um espectro plural de temas explorados ao longo da obra canguilhemeana, pareceu-nos possível a extração, considerando a repetição de temáticas, o anúncio de um modo de racionalidade, um modo arrazoado específico de abranger temas variados, isto é, um método. Em concentração nas ciências da vida, com ligações ao âmbito político, econômico e social, os temas canguilhemeanos abrem questionamentos através de um pequeno número de conceitos, que se repetem ao longo da obra. Sendo conceitos que migram entre setores diferentes do saber, exigem a compreenção de uma gama de outras noções, a eles relacionados. Embora a obra de Canguilhem não ofereça uma crítica biopolítica, ela fornece um método para pensarmos a relação entre política e ciência, enfatizando a função vital em sua relação com a técnica. Sua crítica da normatividade social, embora breve, como vimos, desemboca num modelo biológico da técnica, inclusive a técnica política. No tempo presente, a dissociação entre política e técnica torna-se inconcebível para o pensamento filosófico. Mas a contribuição de Canguilhem permite acrescentar que a dissociação entre técnica e vida é, antes ainda, impensável. O modo como organizamos aqui os seus textos, escritos em épocas diversas, procurou reforçar a inserção de sua obra na linha Epistemologia Histórica, através do que consideramos sua característica principal: o comprometimento político tácito de levar em consideração o pensamento do social no envolvimento filosófico com a ciência. Além disso, procuramos reforçar o que é marca particular de Canguilhem, enfatizando problemas concernentes à concepções do vital, seja pela temática da organização e do consenso, seja pela temática das normas e da regulação. De todo modo, seguimos os passos das relações que esses conceitos permitem entre a ideia de vida e os modelos que a alocam.
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<b>Georges Canguilhem e a linguística (in)disciplinar: sobre conceitos, descontinuidades e recorrências

<b>Georges Canguilhem e a linguística (in)disciplinar: sobre conceitos, descontinuidades e recorrências

Essas reflexões vêm ao encontro das postulações de Canguilhem no campo de estudos da história das ciências a partir do momento em que ele tece uma crítica às valorações que pressupõem ‘inerentes’ a toda constituição do saber científico que, olhando para o passado a partir do presente e do estado atual das ciências, se busca aquilo que foi sendo ‘substituído’ pelo que veio depois, tornando-se ‘ultrapassado’. Para Canguilhem, a história das ciências não é feita de um aglomerado de conceitos cronologicamente estabelecidos que vão se sobrepondo a outros. Assim, remetendo-nos agora a Foucault (2008), o ‘momento presente’ vai ser transformado segundo interrogações que colocam esse momento a partir de um processo histórico geral do qual a filosofia que não pode mais desvincular-se desta questão vai ser utilizada, na medida em que ela é a base de onde partem as interpretações possíveis da história decifrada com as condições do pensamento atual, revelado a partir da emergência histórica que o constituiu como tal.
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Pesquisar com a arte: devir-pesquisa, devir-arte

Pesquisar com a arte: devir-pesquisa, devir-arte

Também o pensamento de Michel Foucault, acredito, pode fortalecer e ampliar o entendimento acerca da pesquisa e da arte, quando ele leva adiante a concepção nitzschean[r]

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Pesquisas com os cotidianos: devir-filosofia e devir-arte na ciência.

Pesquisas com os cotidianos: devir-filosofia e devir-arte na ciência.

O último aspecto dessa longa questão seria, é eviden- te: bem, mas o que é a evolução dos problemas? O que a assegura? Posso sempre dizer: forças históricas, sociais. Sim, claro, mas há algo mais profundo. É misterioso. E não teríamos tempo, mas creio em uma espécie de devir do pensamento, de evolução do pensamento que faz com que não apenas não coloquemos os mesmos problemas, mas com que não os coloquemos do mesmo modo. Um problema pode ser colocado de vários modos sucessivos, e há um apelo urgente, como uma grande corrente de ar, que faz apelo à necessidade de sempre criar, recriar no- vos conceitos. Há uma história do pensamento que não se reduz à influência sociológica ou... Há um devir do pen- samento, que é algo misterioso, que seria preciso definir, que faz com que, talvez, não se pense hoje da mesma ma- neira que há cem anos (Deleuze, 2005, comunicação oral). E o que esse modo de operação, que visa procedimentos para a compreensão e expressão das experimentações do mundo, implica, es- pecialmente se evocarmos o rigor do método científico conformado e tornado hegemônico com a ciência moderna? Nas palavras de Deleuze:
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Devir vírus.

Devir vírus.

No caso da educação, como bem sabemos, educar não é produzir cópias, mas, antes, educar para uma vida! Devemos ir com calma nesse instante e lançar outras questões, como: o que é uma educação e o que é uma vida? Deleuze (1999, p. 106-107) disse que “a vida é o processo da diferença [e que] a vida difere de si mesma [...]”. Diante disso, é por onde uma educação deve se guiar. Para entrar nessa esteira, uma educação não deve apenas saber distinguir uma coisa de outra e produzir conhecimento a partir de saberes constituídos em um movimento do pensamento que se dá pela recognição. Funcionando por um processo de identidades, semelhan- ças, analogias ou oposições, a diferença acaba por tornar-se objeto de repre- sentação. Deve ir muito mais além e atirar-se no desafi o da diferença como criação, como divergência, como disjunção. Esse processo de educação ou, como preferimos dizer, de aprendizagem supõe que nos coloquemos em aberto para desterritorializações, na ousadia de enfrentar territórios consa- grados, percorrendo espaços lisos, mapeando territórios impensados.
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A VIOLÊNCIA COMO DEVIR EM JEAN GENET

A VIOLÊNCIA COMO DEVIR EM JEAN GENET

Esse ponto se aproxima com o conceito de “alegria trágica”, associada ao pensamento nietzschiano. Na Gaia Ciência, no parágrafo intitulado Para o novo ano, o filósofo alemão (1984) define o conceito de amor fati, expressão latina cujo significado é o “amor pelo fato” ou o “amor pelo destino”. Para o filósofo alemão, trata-se do sentimento adequado diante do devir, como condição: se não há remédio contra o inelutável, que “[...] seja esse de agora em diante o meu amor. [...] E, numa palavra em grosso, não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão um afirmador.” (NIETZSCHE, 1984, p. 180). Ou seja, cabe ao homem compreender e afirmar o vir-a-ser.
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O impacto da teoria genética sobre a filosofia biológica de Georges Canguilhem

O impacto da teoria genética sobre a filosofia biológica de Georges Canguilhem

Georges Canguilhem (1904-1995) é muito conhecido no Brasil pela sua tese em medicina de 1943 O normal e o patológico 2 . É a partir da leitura dessa obra que se extrai uma certa compreensão da vida como produção de normatividade e de resistência ao meio, segundo um certo “vitalismo” que seria peculiar ao autor. Com a publicação mais recente da tradução de outras de suas obras, e de novas pesquisas sobre seu pensamento, passou-se a ampliar a compreensão das muitas dimensões que ele possui. Há uma dimensão anterior à tese de 1943, quando Canguilhem já se dedicava a uma reflexão sobre o pluralismo dos valores 3 , e outra posterior à década de 1950, que se segue à defesa de sua terceira tese de doutorado em 1955 4 . Uma das coisas que uma leitura mais detida acerca de todo o itinerário intelectual deste autor permite mostrar é que depois da década de 1950 ele passa a incorporar, em sua prática de historiador da ciência e de epistemólogo, alguns dos conceitos formulados por Gaston Bachelard que até então não estavam no primeiro plano de seu horizonte teórico. Um deles é o de ruptura epistemológica, com o qual Bachelard designava certas passagens na história das ciências em que se observava uma mutação que alterava completamente o seu estatuto. Os exemplos da física einsteiniana ou da teoria quântica bastam para elucidar sua operacionalidade. E os estudos em história das ciências que Canguilhem passará a praticar darão demonstrações de sua coerência também no âmbito das ciências da vida.
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O devir-consciente em rodas de poesia.

O devir-consciente em rodas de poesia.

se conta” ou de um ato de ciência, tal como comparece na expressão “tomar ciência” de alguma coisa. O termo awareness guarda um sentido dinâmico, refe- rindo-se a algo que atinge a atenção de modo direto e súbito, possuindo além do sentido de registro, o de sua manutenção. Em francês, foi proposta a tradução de devenir-conscient (DEPRAZ; VARELA; VERMERSCH, 2000), que busca dis- tingui-lo do mecanismo de tomada de consciência, tal como comparece na obra de J. Piaget (1978, p. 229), que mobiliza a reflexão e a compreensão pelo pensamento. O tema do livro é o devir-consciente que, segundo os autores, tem lugar quando algo que nos habitava de modo implícito, difuso e virtual vem a aparecer no campo da experiência de modo explícito, claro e atual. O desafio é trazer ao cenário contemporâneo um tema até então inexplorado pela psicologia e pelas ciências cognitivas de modo geral. Fazendo do devir-consciente um problema, Varela, Depraz e Vermersch apostam na necessidade da investigação daquilo que na cognição é mais um processo que um estado mental, dando mais um passo para o esclarecimento de um processo sem sujeito, que as ciências cognitivas eviden- ciaram desde seu surgimento (DUPUY, 1996). Para a psicologia, é mais um pro- blema que força a pensar e que exige a busca de novas soluções teóricas e metodológicas em seu domínio de atuação.
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A natureza das normas: o vital e o social na filosofia de Georges Canguilhem

A natureza das normas: o vital e o social na filosofia de Georges Canguilhem

O diagnóstico e a crítica dessa redução comteana dos valores aos fatos, Canguilhem faz de maneira explícita e radical no Essai. Em linhas gerais, na perspectiva da crítica canguilhemeana, “o erro de Comte é de confundir o direito com o fato, rebater a norma sobre a média, a qualidade sobre a quantidade” (BRAUNSTEIN, ibidem, p. 110). No âmbito da biologia positiva, esse erro se revela no papel de “axioma geral” (CANGUILHEM, 2007, p. 19) atribuído por Comte ao que ele designa como “princípio de Broussais”, para o qual “os fenômenos patológicos são, nos organismos vivos, somente variações quantitativas, para mais ou para menos, dos fenômenos vitais correspondentes” (Ibidem, p. 14). É sobre esse princípio que o pensamento comteano pretende fundar, em primeiro lugar, a objetividade da biologia positiva, dissipando os impasses que os fenômenos vitais parecem colocar para o seu estudo científico, e, em segundo lugar, a própria ciência do organismo social. Nesse sentido, sublinha Canguilhem: “eis um princípio de nosologia investido de uma autoridade universal, aí compreendida na ordem política. Está assegurado, afinal, que é essa última utilização projetada que lhe confere retroativamente todo valor do qual ele já é portador, segundo Comte, na ordem biológica” (Ibidem, p. 20). Mas, como foi o caso de mostrar no capítulo anterior, também Durkheim, na esteira de Comte, conferiu a esse princípio biológico de compreensão dos fenômenos vitais um papel arquitetônico para a constituição da sociologia. Vejamos, então, como a biologia comteana elabora a partir de Broussais a tese da identidade essencial entre o normal e o patológico.
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Georges Canguilhem: combates pela história das ciências

Georges Canguilhem: combates pela história das ciências

Canguilhem nos aparece como um autor da maior importância no momento mesmo em que toma as categorias médicas e biológicas como objeto de reflexão, a partir de uma perspectiva histórica das ciências (ideologias) que constituíram a vida como objeto de conhecimento. Perspectiva histórica que é também epistemológica e que nos indica não só a pré-história de uma ciência, mas também de como elas se envolvem (são envolvidas, melhor dizer) com as concepções gerais do mundo, fazendo suas categorias e valores sociais que mais expressam os interesses dominantes do que a verdade do seu objeto. Contra as tendências mecanicistas de se pensar a vida, Canguilhem propõe um certo vitalismo que, se exige alguma restrição, força, justamente por isso, uma reflexão mais cuidadosa sobre a articulação de duas ordens: a biológica e a social. Aceitar que a vida é um debate que o ser vivo estabelece com o meio que lhe é próprio, que viver é propor novas formas de realização a um meio que é também criado, é colocar a possibilidade de se pensar a normatização da vida não só do ponto de vista de uma normatividade biológica do organismo, mas também da instalação de novas normas numa sociedade polarizada em classes. Se Canguilhem não responde a todas as questões, nos indica, ao encontrar na norma a anterioridade do habitual, da média e do mais frequente, o caminho a percorrer na identificação dos valores atribuídos à normalidade do ser humano. Apoiando-nos largamente nas suas reflexões, queremos dizer do reconhecimento da fecundidade do seu pensamento, reforçando-o no interior de um debate necessário e já em andamento em alguns círculos menos conformados. É a partir daí que, e em última análise, perguntamos pelas noções que norteiam o exercício de uma prática e pelo seu caráter. Perguntamos pela sua cientificidade e pelo lugar de onde emana a sua verdade. Em nome de quem a medicina prescreve, é normatizadora, torna-se assim uma questão fundamental. 76
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Uma certa latitude: Georges Canguilhem, biopolítica e vida como errância.

Uma certa latitude: Georges Canguilhem, biopolítica e vida como errância.

bulário médico permite a Durkheim falar da sociedade como de um “organismo” ou de um “corpo” que precisa de intervenções a fim de livrar-se de acontecimentos que a enfraquecem e a fazem adoecer. Tais analogias serão fundamentais para as primeiras discussões sobre a biopolítica, ainda no período anterior à Segunda Guerra (cf. Roberts, 1938; Uexküll, 1920). O termo foi, de fato, criado para inicialmente forçar a analogia entre o biológico e o social, entre a normatividade vital e a normatividade social, par- tindo da visão ideal da totalidade social para posteriormente projetá-la no interior da natureza, que começa a funcionar como a imagem duplicada do que os setores hege- mônicos da vida social procuram estabelecer como normalidade. Dessa forma, a bio- logização da política será o movimento complementar de uma verdadeira judicializa- ção da vida, pois é a expressão da vida como o que se deixa pensar sob a forma das normas jurídicas e de nossos modelos de poderes e legitimidade. A vida será o fundamento da lei porque a lei encontrará na vida sua própria imagem invertida. A vida social poderá então mascarar para si a profunda “convergência de soluções paralelas” própria às normatividades sociais, paralelismo que produz conflitos contínuos sobre as normas e os valores que demonstram como a sociedade é um “conjunto mal unificado de meios” (Canguilhem, 2002, p. 229). Dessa forma, é possível compreender por que uma peça fundamental da reconstrução do pensamento crítico nas últimas décadas passou pelo esvaziamento ontológico da vida, produzido pelos desdobramentos do conceito de bio- política reconstruído pelas estratégias foucaultianas.
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O devir-criança e a cognição contemporânea.

O devir-criança e a cognição contemporânea.

A infância surge como um longo período de preparação para o modo adulto de conhecer e pensar, caracterizado pelo estágio das operações lógico-formais. A questão é então: o que falta à criança para pensar como um cientista? É notável que a investigação concentra-se em certos setores do conhecimento que se revestem de significação epistemológica. Nesta linha, ganham importância fenômenos cognitivos como a construção dos conceitos de número, velocidade e causalidade. Resulta daí que, na caracterização da cognição da criança, é freqüente a utilização de categorias negativas: inexistência de pensamento, ausência de função simbólica, irreversibilidade das formas, inteligência pré-operatória, pré-lógica, etc. Desenvolver-se é, deste ponto de vista, superar deficiências cognitivas, completar lacunas, deixar para trás estruturas cognitivas imperfeitas que impedem a criança de conhecer como um cientista. A adoção de uma perspectiva epistemológica faz com que o problema de tais transformações seja colocado sob a égide do progresso e da previsibilidade e a investigação da criança reste assombrada pela forma adulta de conhecer. Através de um modelo de desenvolvimento por estágios e em sintonia com a idéia de déficit, o desenvolvimento ultrapassa e deixa para trás a criança, pensada sob a forma de estruturas intelectuais mais rígidas e pobres.
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O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem.

O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem.

Se o pensamento científico não forma uma série independente, mas está ligado a um quadro mais amplo de ideias historicamente determinadas é porque a reflexão epis- temológica não deve se perguntar apenas sobre os poderes e direitos de técnicas e pro- posições científicas que aspiram validade, mas deve esclarecer a gênese dos padrões de racionalidade e as condições de exercício que se encarnam em técnicas e proposições, assim como se encarnam nas outras formações discursivas que compõem o tecido social. No caso específico de Canguilhem, isso significa que um problema clínico nun- ca é apenas um problema clínico, até porque ele só é determinado enquanto problema por partilhar um padrão de racionalidade, historicamente situado, cujas raízes não se esgotam apenas no campo da clínica. Essa é uma das razões que leva Canguilhem a afir- mar ser: “um grave problema, ao mesmo tempo biológico e filosófico, saber se é ou não legítimo introduzir a História na Vida” (Canguilhem, 2002, p.13). Essa é a razão tam- bém que lhe permite operar com uma noção ampla de clínica que, embora privilegian- do a nosografia somática e a fisiopatologia, não deixa de abrir questões e permitir extensões em direção à nosografia psíquica e à psicopatologia. Essa indistinção de Canguilhem entre somático e psíquico é fundamental e marca um ponto de distinção entre ele e Foucault. Ponto não negligenciável, já que o que está em jogo é, na verdade, aceitar ou não uma separação estrita entre os domínios da natureza e da cultura, separação entre o que é da ordem da circulação social do discurso e o que não é totalmente redutível a tal circulação. Como sabemos, Foucault irá, desde o início, assumir uma separação estrita entre natureza e cultura prenhe de consequências.
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