Top PDF Gilberto Freyre e José Lins do Rego: diálogos do senhor da casa-grande com o menino de engenho

Gilberto Freyre e José Lins do Rego: diálogos do senhor da casa-grande com o menino de engenho

Gilberto Freyre e José Lins do Rego: diálogos do senhor da casa-grande com o menino de engenho

Um outro aspecto interessante, denunciador das permanências e longas durações, é assinalado pela presença, nos romances, dos resquícios e da memória do antigo regime de trabalho servil. E não apenas nos restos da antiga senzala, como já aludimos. A escravidão teima em se fazer presente, seja na condição de agregadas vivenciada pelas velhas negras da cozinha do Santa Rosa, seja pela sua recorrência como motivo principal das conversas noturnas do velho José Paulino. Vejamos alguns momentos reveladores dessa presença. No capí- tulo 18 de Menino de engenho, vemos o cabra Chico Pereira no tronco, mandado para lá pelo coronel José Paulino, supostamente por haver deflorado uma filha de uma moradora do engenho; descoberto o ver- dadeiro autor do defloramento – que não fora outro senão o Juca, filho de Zé Paulino – o cabra é retirado do tronco; há ainda o caso do escravo que tinha uma banda-forra e que só era chicoteado na outra banda, pertencente a seu senhor (cap.33, p.61); etc. Em vários momen- tos da narrativa, são elaboradas reminiscências em torno do passado escravocrata, sempre destacando-lhe a “proteção” e os cuidados ofe- recidos pelo patriarcalismo aos seus escravos, antes de 1888, data da abolição. Isso para evidenciar a situação dos agora ex-escravos, que pretensamente estariam vivendo em piores condições, com “o enge- nho, na festa das 12 horas da moagem. O povo miserável da bagaceira compunha um poema na servidão” (REGO, 1996, p.69).
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Interdisciplinaridade na obra Menino de Engenho de José Lins do Rêgo: o literário articulado ao geográfico

Interdisciplinaridade na obra Menino de Engenho de José Lins do Rêgo: o literário articulado ao geográfico

Os negros realizavam “meações com o senhor...” (REGO, 2010, p. 81), e assim cultivavam nas vazantes do rio, e logo que sabiam que ia chover muito, “entravam a arrancar as batatas e os jerimuns das vazantes.” (REGO, 2010, p. 46), eles plantavam em uma escala familiar. Ao colherem pagavam o foro anual com os lucros da comercialização ou com a divisão da produção. Quando necessitavam de algum produto que não era comercializado na região recorriam aos centros comerciais que pudessem abastecer as necessidades do povo da casa-grande, a exemplo que no casamento de Maria Menina veio “um caixão de gelo e outro de frutas estrangeiras, da Paraíba. [...] O vestido da noiva chegaria de tarde, do Recife.” (REGO, 2010, p. 126). Os outros artigos que consumiam e necessitavam diariamente eram comercializados na Feira de São Miguel, de Itabaiana e de Pilar, como: a farinha, o algodão, o feijão-verde, a carne de sol, o gado, etc. No comércio também existia o contrabando de cachaça. Assim, distinguimos que a divisão do comércio é algo bastante complexo, e é importante que o aluno tenha uma visão abrangente que possa enxergar toda essa complexidade e envolvimento de dependência do comércio e do trabalho; da zona rural e da zona urbana. Para corroborar Kozel (1996, p. 58) cita que:
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CRIME E MISÉRIA EM JOSÉ LINS DO REGO.  João Paulo Mansur

CRIME E MISÉRIA EM JOSÉ LINS DO REGO. João Paulo Mansur

predatórias, aspecto exposto em "Pureza" para o qual Holanda destina substancial espaço. O colégio e as faculdades de direito como destino dos filhos dos proprietários de engenho, exposto por Holanda, é eixo narrativo pelo qual avançam não menos do que quatro livros do ciclo da cana de açúcar. Aspectos arquitetônicos da casa-grande que chamaram atenção de Gilberto Freyre são expostos em diversas passagens, como especial relevância funcional para o alpendre, de onde o coronel avistava as terras e gritava aos trabalhadores do eito. Em torno da função de banco da casa-grande, onde os coronéis enterravam moedas de ouro e prata, motivo pelo qual as estruturas se abalavam e as tábuas do assoalho rangiam, o que dava origem ao folclore de casas mal assombradas, José Lins do Rego destina uma parte inteira do livro "Água-mãe" para narrar a "casa-branca", mansão abandonada e "mal assombrada", onde homens passavam a noite endoidecendo gananciosamente em procura de ouro supostamente enterrado pelos antigos moradores.
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Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre, na Itália: exemplos de escolhas tradutórias extraídos da análise paratextual

Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre, na Itália: exemplos de escolhas tradutórias extraídos da análise paratextual

Colocando-se, de fato, frente aos multíplices problemas cujo conjunto representa a imensa vida que se chama Brasil, Freyre foi fazendo, com a preparação de cientista e com intuição de artista, um exame tão corajoso e sistemático da história social do próprio país, que em poucos anos revolucionaram sua consciência e sua avaliação. Esta história, vista por Freyre, é exposta sobretudo em três livros que formam uma trilogia ideal. Casa Grande e Senzala examinou a formação do povo brasileiro de hoje, corajosamente expondo, com estilo simples e dramático que apresenta as questões mais difíceis para o vasto público como o romance de um grande romanceiro, o choque e, junto, a fusão dos três mundos de onde surgiu a ‘brasilianidade’: o ameríndio, o português (e europeu em geral, começando do italiano) e o africano. Sobrados e Mucambos examinou, ao contrário, a sociedade brasileira, já constituída, na sua evolução segundo as leis dos organismos coletivos, preocupando-se em manter a atenção do leitor e do estudioso nas influências que, de tal organismo, vem de sua recente formação, com virtudes e defeitos de um sangue jovem e ao mesmo tempo excepcionalmente rico de energia para os multíplices e diversíssimos elementos cuja fusão lhe deu origem (ROSSI, 1949, p. 380). 20
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As configurações do outro em  O moleque Ricardo , de José Lins do Rego

As configurações do outro em O moleque Ricardo , de José Lins do Rego

A recepção crítica costuma associar a personagem Carlos de Melo ao próprio escritor, visto que os três primeiros ro- mances (Menino de engenho, 1932, Doidinho, 1933, Banguê, 1934) são narrados sob o viés da memória, com passagens que podem ser associadas à infância de José Lins, nascido e criado num engenho no estado da Paraíba, o Engenho Corredor. Além disso, o romancista, em entrevista a Clóvis de Gusmão (1941), afirma considerar Doidinho um romance autobiográfico. A mudança, em O moleque Ricardo, para um ponto de vista mais distanciado, portanto, de fato corres- ponde a um maior distanciamento do autor em relação ao mundo do protagonista que, embora originalmente inse- rido no universo do engenho Santa Rosa, não pertence à classe social do escritor e de sua suposta projeção, a perso- nagem Carlos de Melo.
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As marcas do cangaço em Pedra Bonita, de José Lins do Rego

As marcas do cangaço em Pedra Bonita, de José Lins do Rego

A vida no grupo é ruim, continuava Aparício. - A gente come fogo. Tu não sabes o que é passar quinze dias por aqui, comendo carne-seca com farinha. Se não fossem os imbus, eu nem sei como se vivia. Tive até vontade de ir me entregar em Dores. Mas pensei. Eles me matavam. Pra morrer, eu morro no cangaço. A vida é danada, Domício, mas a gente aguenta. Outro dia nós demo um fogo pra lá da Vila Bela. Morreu dois dos nossos. A tropa era grande. Tivemos que correr cinco dias e cinco noites sem parar. Comendo e bebendo sem parar um minuto. Nesta carreira viemos parar aqui. Nós viemos há uns oito dias quando a tropa passou para o Araticum. O chefe não quis atacar. Nós estávamos no descanso. Nós tivemos a notícia por um costeiro que mandou dizer. Mas não tem nada não. O sargento de Dores vem por estes dias na fazenda do coronel Zé Gomes. O chefe já teve notícia dessa diligência. O coronel é amigo do chefe. Vai ser uma carniça dos diabos. [...] tu vai saber da desgraça (REGO, 1980, p.131).
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MENINO DE ENGENHO E O ENGENHO DO ROMANCE AUTOBIOGRÁFICO

MENINO DE ENGENHO E O ENGENHO DO ROMANCE AUTOBIOGRÁFICO

Os outros romances autobiográficos de José Lins do Rego citados neste trabalho são comprovações de seu intuito de salvaguardar suas memórias, de reter para sempre a paisagem nordestina dos engenhos e de todo seu povo. A produção desses romances é de certa forma um canal portador de um discurso que não é apenas o de um sujeito, não é uma ferramenta individual, mas pertence a todo o corpo social do engenho patriarcal, mais especificamente da família tradicionalista que tenta se adaptar às inovações e à modernidade inevitável. Os romances de José Lins resultam de uma postura regionalista e tradicionalista para construir uma literatura tipicamente regional, empenhada em “resgatar” valores dos tempos passados. É evidente o receio da elite nordestina em relação ao sentimento de morte; portanto, há um constante retorno ao memorialismo. Sua escrita é fruto da junção do desejo particular de romancear a sua sociedade e da necessidade desta de ser romanceada, poetizada, salva da devastação causada pela modernidade, e somente as lembranças e o registro da memória pode guardar os valores e costumes dessa sociedade em decadência.
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Água-mãe na produção romanesca de José Lins do Rego

Água-mãe na produção romanesca de José Lins do Rego

Pensando nos em aspectos estilísticos, alguns críticos consideram, para a caracterização de José Lins do Rego como regionalista, a linguagem que utiliza. Peregrino Júnior (1991, p. 190), em “Língua e estilo de José Lins do Rego”, menciona que o estilo do escritor é marcado por uma sintaxe pessoal, por períodos curtos, pela ordem direta, pela adjetivação enxuta e essencial, por modismos, arcaísmos e idiotismos, “substância medular da fala do povo”, fazendo com que a sua seja uma “[…] das mais autênticas, mais ricas de seiva da nossa língua – capitosa, corrente e natural.” (PEREGRINO JUNIOR, 1991, p.190). É a representação, segundo o crítico, da língua “ágil, colorida e pitoresca” a que se acostumou a falar na infância no engenho e que atrelou, na criação de histórias e tipos humanos, ao processo expressivo comum aos narradores de histórias de Trancoso e dos cantores cegos de feira do Nordeste, o que revela a influência direta da experiência pessoal no processo criativo do escritor. Segundo Otto Maria Carpeaux (1970, p. xv), o grande valor literário da obra reguiana está na correspondência plena entre o assunto e o estilo, que conta a decadência do patriarcalismo nordestino sem artifícios históricos, revelando-se de maneira direta as inúmeras tragédias e misérias humanas na região.
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A linguagem popular regional de José Lins do Rego

A linguagem popular regional de José Lins do Rego

A problemática básica do romance - a decadência de toda uma estrutura sócio-econômica baseada no engenho de açúcar - se expressa através da atuação concreta (quer sob a forma de fala quer de ação mesmo), dos personagens que integram o universo diegético, aqui centrado em torno de dois grandes núcleos: O engenho de S. Lula e a casa do Mestre José Amaro e continua: Fogo Morto[...] é a radiografia da realidade nordestina

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A importância da geografia na obra de José Lins do Rego

A importância da geografia na obra de José Lins do Rego

A figura dos cangaceiros e os árduos combates que estes travavam com a polícia local também estão presentes, denunciando não somente o terror que o cangaço alastrava pela região. Às vezes sob a forma de lendas e histórias, como também o abuso de autoridade que a polícia nordestina empregava nas inúmeras buscas que empreendia, fazendo-nos repensar sobre quem eram realmente os bandidos e quem eram os heróis. Figuras como o Senhor de engenho que se valia da força e do poder para manipular toda uma região, através do trabalho escravo e influência política. Formando elementos essenciais neste contexto como o rio Paraíba e suas enchentes devastadoras, a colheita da cana, o eito do campo, tão presente em sua literatura. Assim como a importância das cidades do Recife (capital), Pilar cidade natal, São Miguel do Itaipu, Itabaiana, citadas de forma majestosa por Zé Lins.
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Moradas da memória:a construção de um museu na Casa de Gilberto Freyre

Moradas da memória:a construção de um museu na Casa de Gilberto Freyre

ultrapassasse o convencionalmente histórico e se firmasse já como antropológico-cultural ou histórico-social. Recorde-se ter particularizado a sugestão quanto a museus brasileiros que fossem ao mesmo tempo que nacionais, regionais; e para a civilização brasileira do açúcar sugeriu um museu especializado na apresentação da matéria representativa que documentasse, de modo atraente sem deixar de ser científico, aspecto tão importante do conjunto brasileiro de civilização através de quatro séculos de desenvolvimento. Nos depois criados museus do Açúcar, no Recife, e do Ouro, em Minas Gerais, teria o gosto de ver concretizado de modo brilhante sugestões, quando apareceram, consideradas tão fora das idéias então dominantes do que fosse valiosamente histórico. Quanto ao critério antropológico-cultural era, naquela remota década de 1920, tão novo e estranho para a maioria dos que cuidavam de assuntos históricos, apenas admitindo como vizinhos os geógrafos etnológicos e arqueológicos, que houve quem considerasse o apresentado em simples artigo de jornal excentricamente de jovem tido por alguns de seus conterrâneos como blagueur. Isto mesmo: blagueur. Que pensar de museu que reunisse amostras de renda cabocla, facas de ponta tradicionais, coisas rústicas de couro, cerâmica também popular, bonecas de pano, enfeites de tabuleiros de bolos? Não é de admirar que houvesse tais espantos ante sugestões tidas por tão extravagantes, embora já no Museu Nacional do Rio de Janeiro, mestre Roquete Pinto já começasse a se voltar para uma Etnografia sertaneja e Euclides da Cunha já tivesse descoberto em Canudos, entre adeptos do Conselheiro, armas de fogo arcaicas, que despertaram sua atenção ou sua curiosidade. Mas curiosidade por um exótico dentro da própria cultura nacional. Quando o que se impunha ao Brasil era voltar-se menos para o curioso que para o que, nas suas várias culturas regionais presentes na nacional – a matuta das áreas canavieiras mais que a sertaneja ou a pastoril idealizada pelo sertanejismo despertado pelo grande livro de Euclides, a afro-brasileira tanto quanto a indianóide, a das velhas áreas do café e do ouro, a da área gaúcha, a da área amazônica tocada pela presença nordestina continuadora da presença portuguesa como área já em parte miscigenada e não apenas indígena – apresenta-se como mais significativo. 25
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O PROBLEMA DA REPRESENTAÇÃO DO OUTRO EM O MOLEQUE RICARDO, DE JOSÉ LINS DO REGO

O PROBLEMA DA REPRESENTAÇÃO DO OUTRO EM O MOLEQUE RICARDO, DE JOSÉ LINS DO REGO

Ali eles tinham que comprar tudo, pagavam o casebre onde moravam. Pior que no engenho. Eles passavam mais fome que no engenho. Lá pelo menos plantavam para comer, tinham as suas espigas de milho, a sua fava para encher a barriga. No Recife tudo se comprava. Estivera na casa do Florêncio para não ir mais. O masseiro, a mulher, e quatro filhos, dormindo numa tapera de quatro paredes de caixão, coberta de zinco. Custava 12 mil-réis por mês. A água do mangue, na maré cheia, ia dentro de casa. Os maruins de noite encalombavam o corpo dos meninos. O mangue tinha ocasião que fedia, e os urubus faziam ponto por ali atrás dos petiscos. Perto da rua lavavam couro de boi, pele de bode para o curtume de um espanhol. Morria peixe envenenado, e quando a maré secava, os urubus enchiam o papo, ciscavam a lama, passeando banzeiros pelas biqueiras dos mocambos. Comiam as tripas de peixe que sacudiam pela porta afora. O bicho feio ficava de espreita, esperando. Os filhos de Florêncio passavam o dia pelo lixo que as carroças deixavam num pedaço de maré que estavam aterrando. Chegavam em casa, às vezes, com presas magníficas: botinas velhas, roupas rasgadas, trapos que serviam para forrar o chão, tapar os buracos que os caranguejos faziam dentro de casa. Eram bons companheiros, os caranguejos. Viviam deles, roíam-lhes as patas, comiam-lhes as vísceras amargas. Cozinhavam nas panelas de barro, e os goiamuns de olhos azuis, magros que só tinham o casco, enchiam a barriga deles. Morar na beira do mangue só tinha essa vantagem: os caranguejos. Com o primeiro trovão que estourava, saíam doidos dos buracos, enchiam as casas com o susto. Os meninos pegavam os fugitivos e quando havia de sobra encangavam para vender. Para isto andavam de noite na lama com lamparina acesa na perseguição. Caranguejo ali era mesmo que vaca leiteira, sustentava o povo. (REGO, 2008, p.70- 71).
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O sistema opressor  de ensino representado no romance "Doidinho" de José Lins do Rego

O sistema opressor de ensino representado no romance "Doidinho" de José Lins do Rego

O choro inexplicável de Carlos de Melo, era uma forma de expressar a saudade das terras do Santa Rosa, a vontade de voltar para casa era imensa, o que fazia o personagem lembrar a todo momento daquela gente que trabalhava nos engenhos, fazendo reflexões sobre o sistema opressor no qual estava inserido e da vida daqueles pobres trabalhadores que eram oprimidos pelo meio social, pelos seus patrões: “O jejum no colégio vinha-me instruir a respeito da fome, dos pobres, da seca”. Sabia agora porque os sertanejos cortavam a boca com gravatá, porque caíam pelos caminhos os retirantes, e de que morriam de fome o gado do meu avô. (REGO, 1984, p. 98).
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A crônica esportiva de José Lins do Rego: política, paixão e relações de força.

A crônica esportiva de José Lins do Rego: política, paixão e relações de força.

Visivelmente, o futebol, nessa crônica, era apenas pretexto. Na época, não era uma prática comum a punição de atletas. Como não existia ainda o exame “antidoping”, os poucos casos existentes eram por causa dos rompimentos de contratos. Era o primór- dio do profi ssionalismo, um momento histórico conturbado, de sérias difi culdades para os atletas, entretanto, Zé Lins, como diretor de clube, tinha conhecimento sufi ciente para escrever sobre o assunto com mais profundidade. O tema, defi nitivamente, era a política e Zé Lins tinha à sua disposição um espaço relativamente pouco fi scalizado pelos censores 14 , já
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Inconsciente político e coronelismo: ciclo da cana-de-açúcar, de José Lins do Rego

Inconsciente político e coronelismo: ciclo da cana-de-açúcar, de José Lins do Rego

Ao lado da prosperidade e da riqueza do meu avô, eu vira ruir, até no prestígio de sua autoridade, aquele simpático velhinho que era o Coronel Lula de Holanda, com o seu Santa Fé caindo aos pedaços. Todo barbado, como aqueles velhos dos álbuns de retratos antigos, sempre que saía de casa era de cabriolé e de casimira preta. A sua vida parecia um mistério. Não plantava um pé de cana e não pedia um tostão emprestado a ninguém. [...] Eu via o seu Lula na porta. Não tirava a gravata do pescoço. Mandava parar o cavalo para saber notícias do coronel José Paulino. Muito solene, muito parecido com aqueles senhores arruinados da Califórnia, que a gente vê no cinema, com os americanos tomando conta das terras deles. [...] O meu avô olhava para o seu vizinho com certo respeito. Dava-lhe a presidência da Câmara, como se quisesse corrigir com honrarias aquela crueldade do destino. Os moleques me contavam que o primeiro nome do Santa Fé fora Pegue Aqui Por Favor. O pai do seu Lula era um unha-de- fome. Levantara o engenho com o povo que passava na estrada. Pegue Aqui Por Favor e ia levantando a cumeeira, cobrindo a casa. E por isto ninguém ali ia pra frente. Aquele destino sombrio me preocupava. Nas visitas ao Santa Fé demorava-me a olhar os quadros, os candeeiros bonitos, os tapetes, os móveis ricos de lá. Havia sempre uma nobreza naquela ruína. (REGO, 2002, 104-107.)
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Espaço e personagens dos ciclo de cana-de-açúcar na obra de José Lins do Rego

Espaço e personagens dos ciclo de cana-de-açúcar na obra de José Lins do Rego

Este trabalho monográfico, composto de seis capítulos, resultou de uma pesquisa bibliográfica no acervo da Biblioteca Central da Universidade Estadual da Paraíba e em sites especializados na internet. Partimos inicialmente do contexto histórico e social em que surgiu o Modernismo, nas primeiras décadas do século XX. Época com profundas transformações, inclusive as culturais que, no Brasil, culminaram com a Semana de Arte Moderna de São Paulo cujas idéias inovadoras logo se expandiram para o restante do país. No segundo capítulo, analisamos o início do Modernismo no Brasil, suas fases e o aparecimento do movimento regionalista no Nordeste. No terceiro capítulo fazemos um breve comentário sobre José Lins do Rego e sua inserção nesse movimento literário. No quarto capítulo, apresentamos os vários espaços presentes em suas obras do ciclo da cana- de-açúcar e sua importância para a narrativa, no sentido de se entender detalhes que surgem ao longo do enredo. No quinto capítulo destacamos alguns dos personagens principais e sua relação com o espaço vivido. O objetivo de nosso trabalho é mostrar como as mudanças artísticas e literárias do Modernismo não foram uniformes, tiveram aspectos diferentes, conforme a região geográfica e o pensamento de cada escritor, destacando a visão de mundo de José Lins do Rego representado principalmente nas obras do chamado ciclo da cana–de–açúcar. Daí a razão de destacarmos o espaço em que se movem suas principais personagens, objeto para ele denunciar os problemas sociais que afligiam o Nordeste açucareiro. Também mostramos como em sua abordagem regionalista, ele inovou na forma de escrever, com uma linguagem simples, bem próxima da oralidade popular, fruto da sua vivência com a realidade ali retratada e com a convivência que teve com muitos dos personagens presentes em sua narrativa. Por isso, podemos afirmar que sua obra é uma obra de denúncia e de memórias que merecem ser resgatadas.
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Memória, tempo e espacialidade: as crônicas de José Lins do Rego no jornal O Globo

Memória, tempo e espacialidade: as crônicas de José Lins do Rego no jornal O Globo

Depois dos poetas que queriam ser rígidos como pedra, surgiram os que eram como juncos ao sopro dos ventos, os que queriam cantar em surdina as suas dores, sem os espetáculos dos românticos. Os simbolistas tocados pela ternura humana já não seriam os orgulhosos da forma tersa, e, sim, criaturas por dentro de cujas almas a vida cavava os seus sulcos. Alphonsus de Guimarães pusera a sua musa piedosa aos pés de Nossa Senhora, como um peregrino, um penitente. A este tempo a crítica literária e o ensaio podiam chegar às soluções clarificadoras do sergipano Gilberto Freyre, à sabedoria do mestre João Ribeiro, o mais completo ensaísta de sua geração. Graça Aranha quis com o seu romance de tesse, o esplêndido Canaã, figurar o mundo novo no conflito de raças e temperamentos. E o que ficou do seu livro é ainda o que lhe havia ficado no espírito cosmopolita do seu Maranhão, dos contactos do Recife. Foi o grande Graça uma voz retardada da Escola do Recife. Mas enquanto os nossos simbolistas procuravam Verlaine para modelo de suas cantigas, uma voz de gênio irrompia de um engenho paraibano. Do Engenho Pau d'Arco, o rapaz triste, Augusto dos Anjos lançava ao mundo os seus lamentos de desesperado. A poesia brasileira conheceria o mais pungente desabafo da criatura humana. O Eu não é um livro somente de poemas; é uma criação tão ligada à alma e ao corpo como se fosse um fenômeno, sua anomalia fisiológica. Carne e alma, no poema tenebroso, confundem- se. É um assombro contra as leis de Deus e contra as leis da natureza. O poeta Augusto, à sombra do tamarindo de suas desventuras, meditou na morte e quis fazer da putrefação dos elementos uma escada de Jacob para o nada. A poesia em alguns pedaços de Augusto dos Anjos se aproxima dos cumes de Dantes e Baudelaire. O paraibano atingiu, em certos momentos, a autêntica grandeza poética.
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José Lins do Rego: um guia brasileiro de Israel

José Lins do Rego: um guia brasileiro de Israel

Tratava-­‐‑se,   pois,   de   um   espaço   de   divergências   em   que   se   estabelecia   uma   nova   configuração   de   limiares  junto  aos  antigos:  um  contorno  para  Israel  no  mapa  do  Oriente  Médio.  A  conquista  da  Terra   Prometida   continuava   sendo   marcada   também,   ou   ainda,   pela   batalha,   para   além   do   empenho   de   construir  e  fertilizar  o  deserto,  da  disputa  entre  irmãos.  Tratava-­‐‑se  de  uma  reconquista.  Era  preciso   negociar,   lutar   (não   cabe   neste   ensaio   julgar   a   polêmica   qualidade   desses   combates,   sua   justeza   ou   não)  e  sabemos  que  Israel  inclina-­‐‑se  muito  mais  para  a  negociação  do  que  para  a  luta.  Registramos   apenas   a   perspectiva   tomada   por   José   Lins,   no   Roteiro   de   Israel.   Sobre   a   questão   dos   conflitos,   ele   apenas   relata   ou   descreve,   lastimando,   alguns   fatos,   sem   perder   de   vista   a   tradição   das   narrativas   bíblicas.  Não  obstante,  observadas  essas  marcas  da  violência,  José  Lins  do  Rego  recupera  a  beleza  e   lança  um  voto  sereno  aos  judeus  de  então:    
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A construção sociológica de uma posição regionalista: Reflexões sobre a edição e recepção de Casa-grande & senzala de Gilberto Freyre.

A construção sociológica de uma posição regionalista: Reflexões sobre a edição e recepção de Casa-grande & senzala de Gilberto Freyre.

Do Recife, Freyre escreve o prefácio à segunda edição do livro, publicada já em 1934, apenas um ano depois da original. Neste, dedica-se a considerar erros de impressão, alterações de linguagem, acréscimos técnicos de índices. Mas também reforça os sentidos de sua contribuição sociológica, enfrentando as críticas literárias e explicando que "se deve observar que este ensaio pretendeu ser menos uma obra convencionalmente literária que um esforço de investigação e tentativa de interpretação nova de determinado grupo de fatos da formação social brasileira" (p. LXV). O autor percebe seu trabalho como inovador e de principiante, dupla posição da qual se vale para não ceder às críticas que o atacavam por "não se submeter aos grandes mestres de nossa história". Freyre assentava suas preocupações no "contato direto com as fontes, [...] sobre material e trabalho de campo". A partir deste prefácio, começa a controlar os julgamentos provenientes de dois flancos: o literário e o sociológico. Diante de ambos, e nestes primeiros prefácios a partir de uma posição de sociólogo, contradiz as críticas à linguagem utilizada propondo, para um projeto inovador, uma nova linguagem que não faz eco dos ataques literários pela "excesso do uso de citações e o pedantismo de erudição científica", nem da "linguagem difícil e desumana de certos cientistas e alguns técnicos": "[...] o ensaio de Sociologia, de Antropologia, de História Social, tem sua linguagem própria, não está obrigado a limitar-se à noção de terminologia exata de outras ciências despreocupadas dos valores humanos".
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PARA LER E COMPREENDER - HISTÓRIAS DA VELHA TOTÔNIA DE JOSÉ LINS DO REGO

PARA LER E COMPREENDER - HISTÓRIAS DA VELHA TOTÔNIA DE JOSÉ LINS DO REGO

RESUMO: Este artigo traz uma atividade de leitura para Histórias da Velha Totônia, de José Lins do Rego, um guardião da memória e da tradição do seu tempo de infância e juventude. O objetivo deste trabalho é mostrar como a carga simbólica e significativa que envolve essa obra pode ser explorada na escola, numa turma de 7º ano do Ensino Fundamental, quando associada ao trabalho com o ensino da compreensão leitora. Evidencia-se como, a partir dessa obra da literatura infantojuvenil, que destaca a contação de histórias, é possível acionar o conhecimento prévio para estabelecer conexões, fazer inferências, sumarizar e sintetizar para compreender as quatro aventuras contadas pela Velha Totônia. A contação de histórias desperta o interesse pela leitura e contribui para a formação de leitores proficientes. Dentro da temática dos clássicos, as histórias da Velha Totônia são ambientadas no Nordeste brasileiro. Por envolver aspectos da constituição social de um povo, a leitura consiste em um instrumento constituidor de subjetividades e da formação inteligível de um ser. Por isso, essa proposta une contação de histórias e estratégias de compreensão leitora. Apresenta uma prática de leitura que, não só facilita, mas também viabiliza o processo de compreensão integral das histórias da boa velhinha, que saía pelos engenhos contando histórias de Trancoso. Compreender e interpretar os diversos tipos de textos, a partir de diferentes finalidades contribui de forma significativa para o desenvolvimento potencial das pessoas e sua atuação numa sociedade letrada.
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