Top PDF Grande Sertão: Veredas como gesto testemunhal e confessional.

Grande Sertão: Veredas como gesto testemunhal e confessional.

Grande Sertão: Veredas como gesto testemunhal e confessional.

de Tatarana também não estaria sombreada pela ficção (da ficção). Ou seja, podemos nos perguntar se a solução de seu drama de cons- ciência (revelar que Diadorim era uma mulher), não seria uma ra- cionalização a posteriori. O desnudamento da verdade neste livro é o desnudamento do corpus delicti: Diadorim é mulher, a prova é a falta, a ausência do falo. O testemunho dá a ver o “nada”, o vazio. Pensando-se esta ficção como um jogo confessional e testemunhal, podemos imaginar também que Diadorim na verdade, é claro, na verdade da ficção, era um homem. O veritatem facere é também uma ficta confessio. Ele e Riobaldo se amaram como dois bravos, como Aquiles e Pátroclo, só que, por assim dizer, fora do lugar: no tem- po-espaço do sertão e não na Troia mítica. Daí a necessidade desta racionalização no ato confessional. A sobreposição de Troia com o sertão, ou o cruzamento das veredas de Ulisses com as de Riobal- do, engendraram um romance único no qual lemos uma trans-he- lenização do jagunço, que em seguida é quem sertaneja a Hélade. Este é apenas mais um dos aspectos que se pode desdobrar deste projeto de releitura de Grande Sertão como um ato confessional e de testemunho. Sabemos que para Riobaldo vale a regra: “Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem...” O que conta é a lem- brança e sua performance e não algo que ela re-presentaria. 6 Mas a
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DIÁLOGOS IBEROAMERICANOS: GRANDE SERTÃO: VEREDAS ENTRE REGIONALISMO E VANGUARDA

DIÁLOGOS IBEROAMERICANOS: GRANDE SERTÃO: VEREDAS ENTRE REGIONALISMO E VANGUARDA

Dentre outras obras sobre o genocídio nazi-fascista, despontam em todo o mundo inumeráveis edições e traduções do Diário de Anne Frank e de É isso um homem?, de Primo Levi, um dos raros sobreviventes dos campos de concentração de Auschwitz. O último é um romance paradigmático do gênero testemunhal. Embora, em uma ou outra passagem, relativize a potência do testemunho como remédio para a cura de sobreviventes, Levi não deixa paradoxalmente de acreditar que a denúncia das atrocidades precisa ganhar voz e difusão com o objetivo de desencadear a “ cura” da alienação e da reificação ( Levi, 1988, p. 39 ). A partir dessa premissa, ele relata, sob o cruzamento da perspectiva subjetiva com a intersubjetiva, experiências de privação, tortura e trabalhos forçados no campo. Em razão dos implacáveis sofrimentos para os quais não havia derivação nem fuga, ele, não diferentemente de muitos outros prisioneiros, entrega-se à melancólica e individualista tentação de desistir de tudo: não mais lutar pela sobrevivência; alienar-se, enfim, frente ao passado, aos desejos, à solidariedade. A expressão extrema dessa desistência era, segundo o próprio Agamben, recorrente em muitos prisioneiros do Lager, identificados pelo jargão der Muselmann, o Muçulmano. Trata -se daquele indivíduo que, ao perder a esperança, o discernimento entre o bem e o mal, abandona paulatinamente sua humanidade, tornando -se um cadáver ambulante (Agamben, 2008, p.49).
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OS TRAÇADOS DO AMOR EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

OS TRAÇADOS DO AMOR EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

É a partir desta diferença que a personagem percorre seu destino de guerreiro ser- tanejo. No entanto, a dialogia essencial do feminino e do masculino em Diadorim acaba também por se revelar nos verbos ligados às mãos, que surgem na narrativa ora em mo- vimentos suaves, como quando delicadamente alisa o couro da sela, ou no gesto supos- tamente masculino, mas refinado, de segurar as rédeas e o rifle: “Ainda vi como ele, que era tão suave em paz e tão firme em guerra, amimava o arção do selim”. (ROSA, 1972, p.428). O mesmo efeito de suavidade pode ser visto no trecho: “... vi como ele segurava as rédeas e o rifle, naquelas mãos tão finas, brancamente”. (ROSA, 1972, p.203)
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Os gostares desconformes em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Os gostares desconformes em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Riobaldo o vê: Menino mocinho encostado numa árvore, pitando cigarro, de chapéu-de-couro. “Não se mexeu. Antes fui eu que vim para perto dele” (ROSA, 2001, p. 218). Enquanto o primeiro sente medo de a canoa afundar, o segundo lhe assevera a máxima carece de ter coragem, à maneira de seu pai, Joca Ramiro, “o homem mais valente deste mundo” (ROSA, 2001, p. 122). Quando são surpreendidos por um rapaz mais velho, que, num gesto de “figurado indecente”, sugere envolvimento erótico entre eles, Riobaldo é rápido em “falar alto, contestando, que não estávamos fazendo sujice nenhuma”, enquanto o Menino o afugenta com um golpe de faca na coxa, “a ponta rasgando fundo” (ROSA, 2001, p. 143). Assombrado com a intrepidez do Menino, ele o descreve como “dessemelhante”, “calado e sabido”, “tudo nele era segurança em si” (ROSA, 2001, p. 120). Indaga: “Mais, que coragem inteirada em peça era aquela, a dele?” (ROSA, 2001, p. 125). E comprova, anos à frente, a qualidade consistente de sua valentia. “Como era que era: o único homem que a coragem dele nunca piscava; e que, por isso, foi o único cuja toda coragem às vezes eu invejei. Aquilo era de chumbo e ferro” (ROSA, 2001, p. 428). A admiração, e resultante atração, de Riobaldo pelo companheiro de bando se dá pelo reconhecimento dos atributos prezados num sujeito‒homem‒guerreiro‒jagunço.
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Grande sertão: veredas e a escuta crítica originária

Grande sertão: veredas e a escuta crítica originária

E durante toda a narrativa Riobaldo vai travando um monólogo/diálogo, re- cordando, refletindo, questionando o sentido da vida, desde quando era um menino, e questionando-se sobre a existência do Diabo e se foi pactário ou não. E o senhor me escute, haja de contar o que foi... A questão da existência do diabo, juntamente com a afirmação do pacto, será a grande dúvida que permeia a narrativa do jagunço, e fato que se desvela responsável pela pro- blemática central do romance, por meio da qual sairão todos os outros ques- tionamentos sobre a existência humana: o ser ou não ser; o bem e o mal; vida e morte; deus e o diabo; o amor e a verdade. “O romance inteiro se constrói sob a forma de uma pergunta. Riobaldo, o protagonista-narrador, é um homem atormentado pela ideia de haver vendido a alma ao diabo, mas, ao mesmo tempo, não tem certeza se este realmente existe” (COUTINHO, 2013, p. 80).
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Figurações do "mal" e do "maligno" no Grande sertão: veredas.

Figurações do "mal" e do "maligno" no Grande sertão: veredas.

Numa dicção estranha, mas que logo se nos tornará familiar e inconfun- dível, as considerações iniciais em torno do “bezerro erroso” começam não apenas a se insinuar nos domínios em que se entrecruzam concepções do mal e do maligno, mas também a delinear uma posição narrativa que sentimos como eminentemente moderna. Desse modo, antes de qualquer possível travo de ex- temporaneidade ou obsoletismo na história romanesca ainda por abrir-se, os “causos” que vão se atraindo e revezando uns aos outros nas páginas iniciais do livro começam a despertar no leitor a impressão de estar diante de uma obra efetivamente contemporânea do grande romance de Robert Musil ou da ficção autobiográfica de Marcel Proust. Uma frase bem construída no início de uma narrativa tende, em exposição concisa e já marcando o tom predominante, a incrustar-se de maneira indelével na memória do leitor, como ilustram, entre outros possíveis exemplos, O homem sem qualidades, Du côté de chez Swann, também a novela A metamorfose, ou ainda – em plano mais modesto – o nosso
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PRESENÇA DA COLUNA PRESTES NAS VEREDAS DO GRANDE SERTÃO

PRESENÇA DA COLUNA PRESTES NAS VEREDAS DO GRANDE SERTÃO

O narrador fala também de um advogado seu “[...], e o que também devido dou ao advogado meu que zelou a sucessão – Dr. Meigo de Lima” (Rosa, 1986, p. 535). Esse nome se assemelha ao de Lourenço Moreira Lima, que era advogado, capitão, secretário da Coluna Prestes. Ele é muito citado por Jorge Amado no livro O cavaleiro da Esperança, editado em 1942. “Lourenço Moreira Lima, advogado e capitão. Chamam- no de Bacharel Feroz, porque era valente nos combates” (AMADO, 1985, p. 191). A obra escrita por Jorge Amado em 1942, não teria passado pelas mãos de Guimarães Rosa? Seguindo a prosa e a jornada pelas trilhas e veredas do grande sertão, Riobaldo nos põe em contato com um dos mais importantes coronéis do Nordeste, que combateu incessantemente a Coluna Prestes, contratando jagunços para fazer esse serviço: o coronel Horácio de Matos. Passo a palavra, a Riobaldo.
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Estud. av.  vol.20 número58

Estud. av. vol.20 número58

Na faixa 3 , Ivan Vilela em Paisagens transmite o ambiente do local, uma paisagem da alma, introspectiva, num ir e voltar a lugares distintos. Na faixa 6 , em A força do boi, o compositor funde a força do animal à força do ritmo (boi) e às linguagens modal e tonal, num entrelaçar rítmico de textura densa. Um aboio precede a entrada dessa música trazendo mais nitidez à paisagem imaginada. Ele e sua viola são acompanhados por Ricardo Matsuda (violão), Roberto Peres (caxixi) e Dalga Larrondo (cerâmica). Na faixa 15 , o mesmo violeiro traduz o universo de Rosa em Valsa para viver um grande amor, música que traz o sen- timento e a dor de um amor vivido, sentido e não consumado entre Riobaldo e Diadorim.
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A presença indígena na obra Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

A presença indígena na obra Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

Guimarães Rosa e sua obra já fazem parte do cânone literário brasileiro, inclusive por sua inovação linguística. A crítica literária considera o autor, e consequentemente sua produção literária, como integrante dos romances ditos regionalistas, justamente pela temática voltada para o interior do país. Contudo, sabemos que o termo “regionalismo” serve para diminuir o valor literário de obras que não fazem parte do “centro” do Brasil, dominado pela elite literária carioca e paulista. Por esse motivo, Grande Sertão: Veredas será retratada a partir de outro enfoque, resgatando novos elementos que a compõem e a tornam um cânone literário, sem o rótulo de “regionalista”. Serão utilizadas a teoria do Perspectivismo Ameríndio, do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que nos ajudará a entender um pouco sobre a cultura indígena, iluminando o modo de pensar não ocidental; o conceito de performance de Paul Zumthor, visto que Riobaldo se distingue de outros narradores tradicionais do gênero; outras fontes como a biografia de Guimarães Rosa e, ainda, alguns textos publicados pelo autor servirão de base para a proposta aqui presente.
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Os efeitos de real e de ficção1 em Grande Sertão: Veredas

Os efeitos de real e de ficção1 em Grande Sertão: Veredas

A obra de Guimarães Rosa, como um todo, tem a característica de descrever regiões geográficas com grande precisão, sendo possível, inclusive, que o leitor faça um passeio por esse espaço concreto, tantas vezes explorado pelos personagens. Em Grande Sertão: Veredas, a história se dá no sertão dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás. São citados rios, cidades, vilarejos, enfim, regiões facilmente identificadas nas cartas geográficas, sendo de grande importância referencial o Rio São Francisco. 4 Mesmo que o leitor não venha conhecer jamais tal espaço, o fato de ser possível identificá-lo causa um efeito de real na narrativa rosiana.
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A ONOMÁSTICA DA LÍNGUA ESTRANGEIRA EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

A ONOMÁSTICA DA LÍNGUA ESTRANGEIRA EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

A origem do nome é importante na descrição narrativa. Os apelidos também se baseiam, em muitos casos, na procedência das pessoas. Também estrangeiros, havia pelo sertão: seu Sawaba, em cuja casa Riobaldo conhece estranhas comidas sírias; o alemão Vupes, seu amigo desconfiado, que se embrenhara pelo interior, vendendo instrumentos agrícolas, os dois padres missionários que desmascaram a viúva assassina, no estranho episódio ocorrido em Jequitá e narrado por João Bexiguento. (GSV p. 220-396 por DIAS, 1983, p. 402).

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Guimarães Rosa no 50º de Grande sertão: veredas

Guimarães Rosa no 50º de Grande sertão: veredas

Dentre nossos romances modernistas, Grande sertão: veredas é certamente o que provocou maior abalo nos leitores e na crítica literária. Nacional e internacionalmente consagrada, a obra prima rosiana foi traduzida em quase todos os idiomas vivos (e em alguns mortos), inscrevendo-se, assim, no cânone universal. Embora editado em 1956, cerca de 20 anos depois de Vidas secas, o Grande sertão guarda com este muitas afinidades temáticas e estruturais, sobretudo no enfoque regionalista. Todavia, o regionalismo de Rosa apresenta a singularidade de já deslizar para o transregionalismo, ou melhor, para a tensão entre o regional e o universal. A despeito disso, ele, em consonância com Vidas secas, não deixa de retratar a geopolítica da degradação ambiental. O cenário do romance de Graciliano Ramos é o nordeste com suas secas avassaladoras. Já o Grande sertão: veredas pode ser referencialmente localizado na região do cerrado, com especial acento no sertão de Minas Gerais. O tema da degradação ambiental, recorrentemente explorado no presente século, torna Grande sertão: veredas, dentre outras razões já apresentadas, um romance ainda atual no século XXI, o que justifica a relevância de sua leitura e sua comemoração por ocasião do cinqüentenário de sua 1ª edição.
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O SERTÃO PRESENTE NA PALAVRA POÉTICA: TEMPO E LINGUAGEM EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

O SERTÃO PRESENTE NA PALAVRA POÉTICA: TEMPO E LINGUAGEM EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Após a cena referente ao assassinato de Joca Ramiro, num lugar chamado Jerara —terras do Xanxerê — o bando de jagunços, aliados e sob o comando de Zé Bebelo, iniciam uma nova e decisiva batalha contra o desvalido Hermógenes. A certa altura, como conta Riobaldo, eles são cercados pelos “judas” enquanto estavam na Fazenda dos Tucanos. Passam alguns dias trocando balas até que, depois de executado o plano de Zé Bebelo de convocar a tropa do governo a fim de surpreender os inimigos, acabam fazendo um acordo para cessar fogo durante três dias. Por fim, o bando consegue empreender fuga daquele lugar e Riobaldo finalmente chega a um momento crucial de sua travessia: “E ali, redizendo o que foi meu primeiro pressentimento, eu ponho: que era por minha sina o lugar demarcado, começo de um grande penar em grandes pecados terríveis.” (ROSA, 1982, p. 303); “Ali eu tive limite certo”. (ROSA, 1982, p. 304).
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A Aprendizagem da Travessia: Espaço do Leitor no Grande Sertão: Veredas

A Aprendizagem da Travessia: Espaço do Leitor no Grande Sertão: Veredas

Riobaldo, narrador solerte, revela que sua habilidade de narrar é adquirida no seu processo de formação, que vai de analfabeto a professor. Logo após a travessia do São Francisco, onde conheceu o menino e teve sua vida mudada; após a morte da sua mãe, Bigrí, de quem pouco trata, mas que ocupa a primeira parte da vida dele; após tudo isso, Riobaldo vai morar com seu padrinho Selorico Mendes, de quem ouve as histórias sobre jagunços e aprende a respeito da organização política do sertão. Selorico cita vários nomes de fazendeiros, lugares e como eles mantêm a segurança violenta de suas propriedades. Logo, o padrinho, posteriormente, pai de Riobaldo, exalta para ele a valentia e os feitos dos jagunços. Fala sobre como “Neco forçou Januária e Carinhanha, nas éras de 79: tomou todos os portos” (p. 112) e de como tinha sido valente naquela época, como querendo que o filho herdasse a sua mesma trajetória e aprendesse a atirar bem, recebendo armas do pai. Além disso, para comprovar que realmente conheceu o famoso Neco, o padrinho mostra a prova documental: uma carta com a escrita do jagunço. Porém, Riobaldo, em apenas um período isolado que salta aos olhos do leitor, afirma: “mas eu não sabia ler”.
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O HERÓI NA INTERPRETAÇÃO E NA RECEPÇÃO CRÍTICA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS

O HERÓI NA INTERPRETAÇÃO E NA RECEPÇÃO CRÍTICA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS

The present dissertation consists of a reading based in the aesthetic molds of the novel Grande sertão: veredas, by the writer Guimarães Rosa (1908-1967). After an art-historical study of the types of heroes presented in the course of universal literary history and analyzed by the critics, such as in the epic (epic hero), in the medieval (medieval hero), in the tragedy (tragic hero) and romance (hero romanesco), including the hero category hero formulated by Georg Lukács: the demonic hero, as well as the hero in modernity (modern hero), there is in the present work a differentiated examination of the figure of the persona based on jaussian model, which will be used for consideration of an interpretive and critic reception study of the character in Rosa‘s work, especially since 1956. This way, it will demonstrate that current theme is sustained by the literary works that offer themselves as objects of questioning for critic thought, renewing the theoretical principles of each era. Thus, the analysis turns to a critic study of some major authors of literary criticism in Brazil and abroad, whose selection is according to the hero categorie, like Manuel Cavalcanti Proença (1958), Mario Vargas Llosa (1966), Antonio Candido (1969), Walnice Nogueira Galvão (1972), Benedito Nunes (1982), Davi Arrigucci Jr. (1994), José Antonio Pasta Jr. (1999) e Ettore Finazzi-Agrò (2004) with the aim of understanding and explaining the importance of reconstruction of the horizon of expectation from the hermeneutic triad, that allows the reader to participate in the genesis of the aesthetic object, expanding its context and meaning.
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O SUAVE DE SER: AMOR E DOR EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

O SUAVE DE SER: AMOR E DOR EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

pai e mãe. A violência no sertão, gerada pelo conflito entre pequeno produtor e grande latifundiário suscita uma questão histórica sobre a distribuição das terras e a consolidação do direito à propriedade no Brasil. Na narrativa, a filha cresce com o objetivo de vingar a morte do pai, mas se apaixona pelo filho de seu maior inimigo: “Ivone nesse momento/disse meu pai querido/eu lhe prometo por Deus/fazer seu último pedido/peça o que mais desejar/que será logo atendido./Ouvindo isto ele disse:/Espero que tenhas sorte/ de cumprir o que prometes/já que provas ser tão forte/procures o fazendeiro/para vingar minha morte(...)”. A violência aflora gerada pela disposição social e pelo direito à propriedade, mas também problematizando o individualismo diante das tensões sociais, orientando uma reflexão sobre a conduta humana no que nela há de tradição, desejo e ruptura; uma espécie de cadeia constantemente retomada e reiniciada à luz do papel desempenhado socialmente. Em outra variante, agora em prosa, catalogada por Câmara Cascudo (2001), aparece Maria Gomes:
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ESTILO E LINGUAGEM NA RECEPÇÃO CRÍTICA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS

ESTILO E LINGUAGEM NA RECEPÇÃO CRÍTICA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS

NONADA — Termo empregado em seis períodos de GS, significando, em quatro vezes, a forma reforçada de negação, pelo processo de revitalização da palavra, usado comumente por GR, dessa feita com base na etimologia da palavra (de non, forma arcaica de não, e nada). Nesta acepção, n. reg. nos léxicos, são exemplos: “— Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja” (9): “Atirei, Atiraram. / Isso não é isto? / Nonada” (322); “O Senhor nonada conhece de mim” (582); “Nonada. O diabo não há” (594). À página 371, há a expressão nonde nada (“Nonde nada eu não disse”), variante da forma superlativa de negação. | | Algumas vezes o termo transcende a sua acepção gramatical para ser veículo da preocupação ontológica do romance. A propósito, Vilem Flusser (in “Suplemento Literário” do Estado de São Paulo n.° 360, ed. de 14-12-1963) propõe uma lúcida análise da palavra, qual seja: “Não nada”, “Não ao nada”, “No nada” e finalmente “non rem natam”. Acrescenta o autor de Língua e Realidade: “A negação do nichts heideggeriano e do néant sartriano é o ponto de partida do Grande Sertão com suas veredas. E traduzo a frase heideggeriana Das Nichts nichtet (“o nada nadifica”) para a língua de Guimarães Rosa:
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PEDRO GUILHERME BASTOS MENEZES MORREU O MAR, QUE FOI: RIOBALDO E O LUTO MANEJÁVEL

PEDRO GUILHERME BASTOS MENEZES MORREU O MAR, QUE FOI: RIOBALDO E O LUTO MANEJÁVEL

A figura das mãos é utilizada extensamente no Grande sertão: veredas não apenas descrevendo Riobaldo e Diadorim mas atuando nos mais diversos temas. Ela surge, por exemplo, para indicar direções: “o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita” (p. 24); “e enxergando à mão esquerda” (p. 143). Amizade e lealdade são caracterizadas a partir desse mesmo domínio: “Agora, meu braço ofereço, Chefe” (p. 380); “[...] zelando com os dedos todos de suas mãos” (p. 457); “Da banda de cá, foi que briguei, e dei mão leal” (p. 290). Chefes de bando têm as mãos constantemente beijadas: “Decidido, deu um à-frente, pegou a mão de Joca Ramiro, beijou [...] com um calor diferente de amizade. [...] peguei a mão daquele homem, beijei também” (p. 265); “E ele beijou a testa de Diadorim, e Diadorim beijou aquela mão” (p. 324); “[...] ele beijou minha mão” (p. 456); “[...] aquela mulher rebeijou minha mão” (p. 484). Da mesma maneira são formuladas uma série de expressões de comando a partir de um vocabulário próprio ao tema do manuseio:
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Tempo e memória em Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa

Tempo e memória em Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa

bom de viver, onde não nasceu, chamado Os-Porcos, e que estava no porto acompanhando o tio na compra de arroz, já que ele havia enviuvado e, por conta disso, naquele ano não pôde plantar. Em relação ao local de onde o Menino vinha, o narrador declara: “Muito tempo mais tarde foi que eu soube que êsse lugarim Os-Porcos existe de se ver, menos longe daqui, nos gerais de Lassance.” (ROSA, 1965, p.80). Aqui o narrador faz, novamente, uma antecipação do que ocorreu logo após a morte de Diadorim. Depois da perda do seu amor, Riobaldo encetou uma verdadeira peregrinação, “Como se, tudo revendo, refazendo, eu pudesse receber outra vez o que não tinha tido, repor Diadorim em vida?” (ROSA, 1965, p.455). Então retornou às Veredas- Mortas e ao Paredão, como apontamos anteriormente, e ao local onde Diadorim havia sido criado. N’Os-Porcos, esteve procurando por “[...] alguma velha, ou um velho, que da história [de Diadorim] soubessem – dela lembrados quando tinha sido menina – e então a razão rastraz de muitas coisas haviam de poder me expor, muito mundo.” (ROSA, 1965, p.458). Como lá isso não encontraram, Riobaldo e companheiros continuaram a peregrinação, conforme lemos: “Rumamos daí então para bem longe reato: Juramento, o Peixe-Crú, Terra Branca e Capela, a Capelinha-do- Chumbo.” (ROSA, 1965, p.458). Na igreja matriz de Itacambira, o protagonista encontrou um batistério (certidão de batismo), que, no momento da narração, mostra ao interlocutor, onde se indica que em “[...] 11 de setembro da èra de 1800 e tantos...” o Menino/Reinaldo/Diadorim foi batizado como “[...] Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins – que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter mêdo, e mais para muito amar, sem gôzo de amor...” (ROSA, 1965, p.458). Essas idas e voltas feitas pela lembrança do narrador, que, nesse momento da narrativa, vão do primeiro ao último encontro e do local de nascimento ao de morte de Diadorim, são a tentativa de recompor e entender o misterioso traçado da história do seu companheiro que afetou a própria trajetória de vida. Reconstituindo a história do amigo, Riobaldo mantém sempre viva a sua lembrança e, assim, pode entender melhor o próprio destino.
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A FORMAÇÃO DOS HOMENS E A VIOLÊNCIA EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

A FORMAÇÃO DOS HOMENS E A VIOLÊNCIA EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

O autor, magistralmente, distorce a realidade e recria a situação atroz com um toque de simpatia e ponderação que não se percebe na cena descrita por Euclides da Cunha. Se em Os Sertões resta claro o prazer e a sofreguidão com que os militares executavam a ação bárbara 6 , na cena formulada pelas mãos hábeis de Guimarães Rosa, diferentemente, somos levados a concluir, de acordo com a explicação do jagunço Fafafa, que a matança dos prisioneiros não se dava exatamente por “gosto”, mas por não ter meios de mantê-los entre os seus, os quais já dispunham de poucos recursos para a própria manutenção em meio às batalhas no sertão. Não obstante, levando em conta a pouca idade do rapaz, ainda que se tratasse de um “bebelo”, inimigo, portanto, Sô Candelário acaba por encontrar uma solução menos cruel, que é a de soltá-lo em sua terra natal, poupando-lhe a vida, solução esta bastante diversa da realidade da qual Euclides da Cunha foi testemunha e, posteriormente, veio a denunciar.
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