Top PDF Memória em desconstrução: da ditadura à pós-ditadura.

Memória em desconstrução: da ditadura à pós-ditadura.

Memória em desconstrução: da ditadura à pós-ditadura.

À pergunta de como narrar sob ditadura, Fogwill responde com um tipo de deslocamento que opera no limite entre o es- tranhamento e a familiaridade, movendo-se por zonas obscuras da nação, de onde emite alguns sinais para o seu tempo. Suas narrativas desafiam um aspecto fundamental do período ditato- rial: se o discurso autoritário fez questão de obturar a todos, ou quase todos, os meios de comunicação, com o objetivo de criar um monólogo do qual a população deveria ser apenas receptáculo; e se, diante disso, por medo ou acomodação, muitos optaram por tentar esquecer o que estava acontecendo ou fingir que nada ocorria, os textos de Fogwill pretendem interferir nesse circuito fechado, deixando constantemente perguntas em aberto, que ecoarão por muitos anos depois de terminada a ditadura, voltan- do-se, por exemplo, para o passado, a fim de assinalar “fissuras mais profundas e anteriores na sociedade argentina” * .
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A morte de Vladimir Herzog e a luta contra a ditadura: a desconstrução do suicídio

A morte de Vladimir Herzog e a luta contra a ditadura: a desconstrução do suicídio

“O outubro de 1975 foi complicadíssimo. Ficaram na memória as coisas relacionadas ao que aconteceu com o Vlado. No começo do mês vários jornalistas foram presos. Estava havendo inclusive um encontro nacional de jornalismo e mesmo assim as prisões continuavam. Foram presos muitos jornalistas ligados ao Vlado e da TV Cultura, o Markum, o Anthony, Rodolfo Konder, o Sérgio Gomes. Foi um momento extremamente tenso. Esperávamos que o Vlado fosse preso devido a essas prisões, e discutimos muito sobre qual seria o teor de seu depoimento – o que nunca passou pelas nossas cabeça é que ele acabaria sendo morto. Vlado, naquele momento estava no Partido [Comunista Brasileiro]. Ele nunca foi muito ligado à política, ele não era comunista – aliás era bastante crítico ao partido. Na verdade, o Vlado era um intelectual, ligado a teatro, cinema, que desejava um mundo melhor, um mundo onde as idéias pudessem ser discutidas e respeitadas. Naquela época existiam duas forças contra a ditadura militar: uma era a igreja e a outra o PCB. Como o Vlado era judeu, optou pelo Partido –a sua área de atuação como militante era a discussão da situação cultural no país – a produção artística, nos vários níveis, estava sendo totalmente massacrada pela censura. O motivo da forte repressão contra o PCB, é que ele estava se tornando uma nova e forte frente de enfrentando da ditadura. Mas aconteceu o que não esperávamos que acontecesse: afinal, apesar do Vlado estar envolvido com o partido comunista, tínhamos empregos, passaporte, residência fixa e não éramos envolvidos com a luta armada.”
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A ditadura brasileira sob a ótica dos filhos : pós-memória, representação e culpa em Julián Fuks

A ditadura brasileira sob a ótica dos filhos : pós-memória, representação e culpa em Julián Fuks

A discussão sobre a pós-memória e sobre os “filhos da ditadura” é bastante conhecida e debatida no cenário cultural argentino, onde a produção artística sobre a ditadura é muito expressiva e diversa. No caso portenho, a discussão não se restringe à esfera cultural e está fortemente presente nos debates políticos, nos movimentos sociais e na pauta identitária. Já no Brasil, por motivos diversos, a questão é muito pouco discutida e está restrita aos círculos acadêmicos especializados. Como A resistência retrata o trânsito entre as duas realidades e mobiliza temas caros aos dois países, percebeu-se a necessidade de mobilizar bibliografias de ambas as origens. Além disso, a obra de Fuks é muito influenciada pela literatura argentina, o que é visível, entre outros fatores, no forte teor metalinguístico de seus textos. Nesse sentido, a crítica literária latino-americana desempenhou papel importante no desenvolvimento das discussões aqui propostas, proporcionando uma leitura que não se restringisse às abordagens clássicas europeias e norte-americanas. Dessa forma, pode-se dizer que a necessidade de adaptação da leitura da pós-memória para a realidade brasileira implicou também em escolhas de caráter teórico.
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A internet, um novo espaço de disputa pela memória da ditadura militar no Brasil

A internet, um novo espaço de disputa pela memória da ditadura militar no Brasil

No contexto da pós-modernidade, a sociedade passou a ser cada vez mais ‘programada’ pela difusão de mensagens via tecnologia eletrônica de comunicação de massa, que vem provocando intensas transformações na vida social (SANTOS, 2006). Vivemos num ambiente cada vez mais dominado pela informação e pela comunicação midiática – com destaque para as redes interativas -, que se apresenta como expressão de nossa cultura (CASTELLS, 2009) e como principal responsável pelos estímulos e pela fixação das mensagens de conteúdo simbólico no meio social, gerando uma sociabilidade mediada (THOMPSON, 1995). Santos (2006) enfatiza que, nesse universo, saturado de informações e signos, a sociedade caminha para forte individualismo, para o consumismo excessivo e hedonista, para o mundo da aparência, do simulacro. É a sociedade do espetáculo descrita por Debord (1997).
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Memória da ditadura em Caio Fernando Abreu e Luís Fernando Veríssimo

Memória da ditadura em Caio Fernando Abreu e Luís Fernando Veríssimo

O conto encerra expondo o esvaziamento do desejo dos personagens. Não há nenhum objeto capaz de trazer satisfação, garantir prazer, dotar a vida de sentido. Por isso os votos em “acreditar”, uma vontade de querer, vontade de ter o que querer, “que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso” (p. 17). Em larga medida, a concepção do conto corresponde à caracterização proposta por Idelber Avelar para a literatura pós-ditatorial latino-americana. O texto se desenvolve em torno das ruínas da ditadura, permitindo uma leitura alegórica (AVELAR: 1999). Os sobreviventes propõe uma imagem negativa e corroída do
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Memória da resistência à ditadura: uma análise do filme Batismo de Sangue

Memória da resistência à ditadura: uma análise do filme Batismo de Sangue

66 Os ataques continuam por mais de uma semana. Em 25 de abril, o jornalista e católico ultramontano Lenildo Tabosa Pessoa, do Jornal da Tarde, publica um artigo criticando a Igreja pós-Concilio Vaticano II 82 . “Já não há mais nada que possa causar admiração da Igreja pós-conciliar, nem mesmo o fato de uma comunidade dominicana e um cantor popular reunirem a imprensa para darem uma solene resposta a um cardeal arcebispo. Afinal de contas, uma das grandes conquistas do providencial Concílio Ecumênico Vaticano II é precisamente a maioridade dos leigos, não raro exercida de uma maneira que parece pressupor a minoridade das autoridades eclesiais constituídas. Contudo, na resposta dos dominicanos é mais do que evidente a alusão a duas Igrejas, a uma das quais pertence o purpurado enquanto os irmãos espirituais de Torquemada 83 se situam na outra. (...) Nestes nossos felizes tempos ecumênicos, a vantagem é poder escolher entre a Igreja constituída e a Igreja não-constituída, entre o falso e o verdadeiro cristianismo (...) O problema é saber qual das duas Igrejas consegue salvar, pela continuidade histórica, a própria apostolicidade e, supondo-se que Geraldo Vandré e seus frades coadjutores pertençam ao verdadeiro Cristianismo, se a autoridade arquidiocesana em relação à qual eles fazem oposição pertence ao falso (...) A porção paulista da Barca de São Pedro ameaça soçobrar em meio às vagas da heresia e do escândalo.”
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Do livro ao cinema: memórias da ditadura em Batismo de Sangue e O que é isso, companheiro?

Do livro ao cinema: memórias da ditadura em Batismo de Sangue e O que é isso, companheiro?

No cenário em que livros memorialísticos e romances continuam a ser publicados, em número relevante, desde o período de abertura política, a produção de memórias convivem com o esquecimento, direcionado sobretudo a omitir o apoio de setores da sociedade civil à derrubada do presidente João Goulart. Não obstante o debate acerca dos anos de ditadura (1964-1985), os traumas decorrentes ainda possuírem fôlego na atualidade, ainda restam perguntas a serem feitas, sobretudo no que diz respeito à adesão e tolerância da sociedade com o regime. A memória entra na disputa pela hegemonia como elemento capaz de dar coesão ao modo como setores encarariam o passado de ditadura. Era confortável que as memórias isentassem de culpa aqueles que conviveram com as denúncias sobre torturas, desaparecimentos, censura e o crivo às liberdades sem que houvesse uma efetiva oposição aos responsáveis por tornar tais características a tônica da vida no Brasil pós-golpe de 1964. O esquecimento, portanto, não está presente apenas no discurso dos que pregam a reconciliação sem ressentimentos que a lei de anistia aprovada em 1979 seria capaz de proporcionar. Ele se encontra na seleção do que deve ser lembrado, ou nas formas como a memória se articula para responder ao que o tempo demanda.
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ARTE DA PERFORMANCE E A GUERRA COLONIAL PORTU- GUESA: RELAÇÕES NO TEMPO HISTÓRICO PERFORMANCE ART AND THE PORTUGUESE COLONIAL WAR: RELATIONS IN HISTORICAL TIME

ARTE DA PERFORMANCE E A GUERRA COLONIAL PORTU- GUESA: RELAÇÕES NO TEMPO HISTÓRICO PERFORMANCE ART AND THE PORTUGUESE COLONIAL WAR: RELATIONS IN HISTORICAL TIME

Nas duas últimas décadas, têm surgido em Portugal vários projetos artísticos, do teatro às artes plásticas, onde estão presentes os temas da Ditadura, da Revo- lução, do colonialismo e do pós-colonialismo, de entre os quais se inscreve o tema dos “silêncios” da guerra. Estes projetos têm a particularidade de serem produzi- dos, na sua grande maioria, não pela geração que participou na guerra mas pelas gerações posteriores, as denominadas gerações da “pós-memória” (Hirsh, 2012). Estes projetos fazem uso de memórias de arquivo, usando cartas dos militares, re- gistos fotográficos e de vídeo, recolhendo testemunhos documentais ou orais, que conjugam frequentemente com uma expressão performativa. Gera-se assim uma relação entre performatividade e memória histórica, fazendo uma religação entre performance social e performance artística. São exemplos, entre outros, os tra- balhos de Joana Craveiro e André Amálio no teatro, mas também, outros artistas como Manuel Botelho, Filipa César, Vasco Araújo ou mesmo Ângela Ferreira, Pau- lo Mendes que, na primeira pessoa, ou usando intérpretes, reconstroem, recriam, re-imaginam uma história performatizada onde se justapõem elementos factuais e imaginários. Na dança, encontramos mesmo um projeto percursor, em 1995, na peça a Dança de Existir de Vera Mantero, onde a coreógrafa e intérprete refletiu sobre a guerra de ex-Jugoslávia ao mesmo tempo que incluiu uma composição so-
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Batalhas pela memória: ditaduras, revoluções e democracias

Batalhas pela memória: ditaduras, revoluções e democracias

A segunda parte do livro, direcionada à Guerra Civil espanhola começa com o ar- tigo de Julián Casanova, O castigo no(s) pós- -guerra(s), onde analisa a ditadura de Franco saída da guerra civil e consolidada entre a Segunda Guerra Mundial. O autor elabora um paralelo entre a construção de uma me- mória da Guerra Civil espanhola, da ditadu- ra franquista e da Segunda Guerra. Casano- va demonstra como os debates em torno dos direitos humanos, das memórias de guerras e ditaduras em um plano internacional im- pulsionou movimentos e organização das vítimas da guerra e da ditadura espanhola em uma busca por justiça e reconhecimen- to público da tragédia. Outros dois artigos compõem a análise do caso espanhol: o tra- balho de Carme Molinero, A herança do pas- sado. O franquismo e a direita espanhola, e o de Pere Ysàs, Memória e silêncio. A esquerda espa- nhola durante a transição.
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Quebra-cabeça: o teatro pós-moderno de Rámon Griffero

Quebra-cabeça: o teatro pós-moderno de Rámon Griffero

Esquecer ou recordar. Em outros tempos, seria lícito pensar esses dois conceitos como antagônicos e excludentes. Para o senso comum, a explicação seria mesmo simples e direta: esquece-se daquilo que não se quer ou não se deve recordar, ou por que não foi importante, ou por que diz respeito a acontecimentos tristes; recorda-se daquilo que, por alguma razão, vale ser recordado, ou por que foi importante, ou por que diz respeito a acontecimentos alegres. Longe de desmerecer o senso comum, essa linha de pensamento subjuga tanto a recordação quanto o esquecimento à vontade e aos interesses do indivíduo: se algum estudante fosse preso e torturado por militares de algum regime ditatorial na América Latina, bastaria a ele querer apagar o fato de sua memória, para que a experiência traumática se “perdesse”; por outro lado, se algum cidadão acredita que o regime militar trouxe consigo acertos econômicos significativos – por exemplo, “os preços livres” a que se refere Galeano 73 – a ditadura seria recordada
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE HISTÓRIA KARINE MARINS AMARAL CRUZ

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE HISTÓRIA KARINE MARINS AMARAL CRUZ

A partir das problemáticas levantadas pela História Social, que se colocam como questões a serem consideradas pela produção historiográfica quanto às implicações sociais das concepções que assumem, as preocupações no campo da memória se desenvolveram no sentido de aproveitar, reorganizar ou, ainda, criar centros de documentação e memória que pudessem se debruçar sobre a organização e difusão de diferentes historicidades contra-hegemônicas. As práticas oficiais de preservação do passado no presente corporificaram uma única concepção de memória, sustentada por políticas de preservação (arquivos, bibliotecas, museus, monumentos, feriados nacionais e concepções conservadoras de patrimônio e cultura) que puderam fazer triunfar os poderes instituídos e as histórias dos grupos que historicamente estiveram ligados ao poder. Contrapondo-se a tais práticas de organização da memória, muitos centros de documentação social constituíram acervos que pudessem referenciar as histórias e as memórias de diferentes grupos sociais, evidenciando, assim, as lutas que cotidianamente travavam, os projetos sociais que defendiam e as tensões que viviam em meio às relações estabelecidas. Rompendo com o suposto da sincronia, tais práticas de arquivamento, organização e interpretação de diferentes fontes documentais ligadas aos movimentos sociais sinalizavam que muitos/outros sujeitos eram também portadores e produtores de memória e que fazê-las visíveis socialmente implicava na renúncia de um pensamento tranquilizador e unívoco sobre o social. A compreensão de memórias, no plural, significava trazer para o centro das discussões a diversidade e a pluralidade atravessadas por reais dissensões. Significava, ainda, empreender “um olhar político” 41 que pudesse lançar outras luzes
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UMA EFETIVA TRANSIÇÃO  Camila Mabel Kuhn, Leatrice Faraco Daros

UMA EFETIVA TRANSIÇÃO Camila Mabel Kuhn, Leatrice Faraco Daros

Lima (2012, p. 32) traz as palavras de Tarso Genro, Ex-Ministro da Justiça do Brasil, onde este salienta a necessidade de se trabalhar no sentido de uma Justiça de Transição, como se este período ainda estivesse em operação, um processo contínuo para que se consolide a democracia. Essa necessidade é justificada, em parte, pelo modo como se deu a alteração do modelo de governo ditatorial para o democrático, uma vez que este não ocorreu com uma ruptura, como através de uma revolução, mas sim com a participação direta dos próprios perpetradores das violações, os agentes responsáveis pela ditadura. Assim, conforme trecho citado por Lima (2012, p. 32), o ex-Ministro expôs:
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Uma memória feita de sombras: a experiência da ditadura em Tropical sol da liberdade

Uma memória feita de sombras: a experiência da ditadura em Tropical sol da liberdade

Esse foi um período de grande sofrimento para a protagonista. O fim de seu casamento, somado a todas as experiências vividas ao longo dos anos de exílio, só acentuou o peso dessa memória que, em maior escala, reflete um pouco daquilo pelo que todos os exilados passaram. A exposição de tais vivências via palavra, portanto, faz-se difícil, pois, para tal, é necessário que toda essa situação traumática seja revista em seu interior e reelaborada, de modo que ela possa olhar para trás sem que isso paralise sua vida. Em “Violência, memórias da repressão e escrita”, Rosani Ketzer Umbach (2012, p. 218) afirma que essas “Memórias da repressão, como os termos sugerem, estão intrinsecamente associadas a experiências individuais de violência. E estão ligadas também à memória coletiva, localizando-se na transição entre literatura, cultura e história.”.
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Editorial

Editorial

A sessão de artigos da Revista Tempo & Argumento conta com três artigos que versam sobre diferentes temas. O artigo da doutoranda Amanda Palomo Alves, intitulado Angola: musicalidade, política e anticolonialismo (1950-1980), analisa como a música popular urbana auxiliou na construção de uma consciência nacionalista, contribuindo para a resistência e a luta anticolonial. O artigo As divisões políticas da primeira elite castrense da ditadura chilena (1973-1978): grupos políticos, alternativas institucionais e formação profissional, do doutorando Tiago Francisco Monteiro, discute a composição, a atuação política e os anseios institucionais dos grupos de militares que ocuparam os principais cargos da ditadura chilena, imposta ao país após o golpe militar de 11/09/1973, com enfoque na formação profissional dos oficiais que denominados de “primeira elite castrense”, e enfatizando as suas relações com grupos civis e com as escolas militares estadunidenses. A mestranda Ana Karine Braggio e o doutor Alexandre Felipe Fiuza, no artigo Acervo da DOPS/PR: uma possibilidade de fonte diferenciada para a história da educação, propõem um novo olhar para os acervos das extintas Delegacias de Ordem Política e Social (DOPS), com vistas ao estudo da História da Educação.
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DITADURA E REPRESSÃO: LOCAIS DE RECORDAÇÃO E MEMÓRIA SOCIAL NA CIDADE DE SÃO PAULO.

DITADURA E REPRESSÃO: LOCAIS DE RECORDAÇÃO E MEMÓRIA SOCIAL NA CIDADE DE SÃO PAULO.

O projeto Brasil Nunca Mais já havia denunciado a par- ticipação de policiais e médicos na falsificação de laudos necroscópicos e na ocultação de cadáveres para acobertar marcas de tortura, mas pouco se sabia. As investigações da CPI trouxeram à luz o esquema montado para falsificar os laudos e enterrar militantes com nomes falsos nos cemité- rios de São Paulo. Essas investigações motivaram outras, de modo que sete ossadas de militantes assassinados durante a ditadura puderam ser identificadas pela Universidade de Campinas (Unicamp), entre 1992 e 1993. Nesse período, iniciou-se, também, um Inquérito Policial na Delegacia Sec- cional Oeste de São Paulo para apurar as responsabilidades relacionadas à vala clandestina.
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O discurso da ditadura: ditadura, ordem e desordem em António de Oliveira Salazar

O discurso da ditadura: ditadura, ordem e desordem em António de Oliveira Salazar

Compreender-se-á facilmente que não havia maneira de lançar mãos a obra que exigia paz, ordem nas ruas, colaboração nacional, alheamento do espírito de facção senão começando por uma solu- ção política transitória, que seria o estabelecimento da própria Ditadura. Suspendendo direitos que a nação de facto não exercia, impondo a uns silêncio, assegurando a todos tranquilidade e segurança, a Ditadura criou à governação pública as condições necessárias do trabalho fecundo. Sendo impossível atacar simultaneamente e com igual intensidade todos os problemas, era necessário concentrar os maiores esforços naquele cuja solução, tida em conta a interdependên- cia de causas e efeitos, se visse poder aproveitar-se como elemento dominante para resolver os demais, e sem resolver o qual nada de grande e sólido se podia empreender ou realizar. Esse é o problema financeiro.
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Dor e desamparo: filhos e pais, 40 anos depois.

Dor e desamparo: filhos e pais, 40 anos depois.

Os militantes que ficaram no Brasil durante a vigência da ditadura militar se tornaram, quase todos, clandestinos políticos, única possibilidade para os que per- maneceram no país e que continuaram a luta de resistência. Abandonaram sua casa paterna, seus nomes de família, seu emprego e profissão, seus documentos de iden- tidade e se tornaram anônimos, sem sobrenome, sem o que dizer para os filhos, sem lhes contar o que realmente faziam. Homens reservados, mulheres taciturnas, rela- ções entrecortadas no convívio familiar. Eram os tios e as tias de todos os sobrinhos, que eram os filhos de outros, igualmente, tios ou tias. Esse anonimato desconcertante foi passando para os filhos como o pulsar de um abraço materno, que é inscrito como uma sensação, por isso indizível e, exatamente por isso, inesquecível. Porém a própria clandestinidade, que a princípio era uma defesa para o militante, como um bumerangue se tornou também seu principal ponto vulnerável: a repressão aprovei- tou o anonimato dos militantes capturados com seus nomes frios e identidades fabricadas para negar, às famílias e advogados, o verdadeiro nome do militante pre- so. E desta forma os eliminou, os enterrou, os fez desaparecer, com nomes frios, como indigentes, nenhum-nome, os NN. A ditadura implantou no Brasil a figura tragicamente conhecida como o desaparecimento político.
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As impurezas da ditadura militar

As impurezas da ditadura militar

Carlos Drummond de Andrade é o poeta do inquestionável A rosa do povo, livro de versos compostos no calor da ditadura getulista e da Segunda Guerra Mundial, versos representativos do melhor de sua poesia. Nele, Drummond atingiu um dos propósitos da literatura – e da arte em geral –, que é tratar de temáticas sociais sem cair na vala comum do texto panfletário. Assim como para o artista não é tarefa fácil fugir da arte panfletária, o crítico muitas vezes também não consegue fugir da tentação de tratar como documento um texto, quando a sua preocupação é considerar o contexto social de tal obra. É Antonio Candido (1996, p.30) quem aborda com maestria este dilema da crítica literária:
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Escuela  e  O pão e a Pedra : memória e ditadura na dramaturgia latino-americana contemporânea.

Escuela e O pão e a Pedra : memória e ditadura na dramaturgia latino-americana contemporânea.

Ao mesmo tempo em que a existência de textos como Escuela e O pão e a pedra pode promover essa ativação da me- mória coletiva e reconfiguração dos traumas, pensar esses textos e entender teoricamente como sua presença pode sig- nificar um fôlego e um alerta nos momentos de instabilidade política vividos na América latina, também parece importan- te para entender como a presença contínua desses ecos dos períodos ditatoriais pode manter viva a memória de tempos sombrios para que os mesmos não voltem a se repetir.

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A reforma agrária no Congresso Nacional (1959-1979): análise histórica do discurso político

A reforma agrária no Congresso Nacional (1959-1979): análise histórica do discurso político

A política de colonização dirigida pós aprovação do Estatuto da Terra, segundo Ianni é parte da política agrária da ditadura e situa-se no contexto de instalação e expansão de projet[r]

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