Top PDF O COLONIAL E O PÓS-COLONIAL NA LITERATURA BRASILEIRA

O  COLONIAL E O PÓS-COLONIAL NA LITERATURA BRASILEIRA

O COLONIAL E O PÓS-COLONIAL NA LITERATURA BRASILEIRA

Quando me torno bolsista do governo francês em 1961 e parto em viagem de estudos a Paris, o vírus colonial lusitano passa a me afetar no cotidiano europeu tomado pelos plásticos explosivos ("plastic") dos argelinos e resolvo tratá-lo com afeto (afinal ele é parte indireta da minha formação) e criticamente. Vale dizer, o afeto evita que eu me imunize com a vacina. Com o corpo tomado por virose pós-colonial, deliro. Instruído pelos intelectuais e escritores africanos e pela França, apaixono-me pela poesia de Aimé Césaire. Leio as revistas "Temps Modernes" e "Présence Africaine". Ao final do ano escolar de 1961-62, ocorre um segundo descarrilamento na formação do jovem latino- americano, que me retira às pressas de Paris e me leva a interromper a redação da tese de doutorado sobre André Gide. Concorro ao posto de professor na Universidade do Novo México, nos Estados Unidos da América. Passo de doutorando em literatura francesa moderna na Sorbonne a professor das literaturas brasileira e portuguesa em antigo território indígena norte-americano, cujo centro ultramoderno é a cidade de Albuquerque. O vírus colonial lusitano é inerente à minha atividade docente. Na sala de aula e diante dos alunos, ele convive lado a lado com a vacina brasileira injetada por Candido no corpus da nossa história cultural. Em 1963, por exemplo, exercito-me a comparar o "Canto 9" de "Os Lusíadas" com famoso poema de "Claro Enigma" e ouso falar de tradição no modernismo. Escrevo sobre o "tópos" da "máquina do mundo" em Camões e Drummond. Em poema que recebo pelo correio (hoje na "Poesia Completa"), intitulado "A/Grade/Cimento", o itabirano acusa a leitura do ensaio. Pelo prefixo "a", rejeita tanto a "grade" de leitura quanto o "cimento" que solda Cammond & Drummões, para retomar o título do poema e o verso irônico inicial. (SANTIAGO, 2014, p.5)
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O campo literário no espaço pós-colonial

O campo literário no espaço pós-colonial

Qual o interesse em se refletir sobre produção artesanal de livros em tempos de revolução pós-industrial? Este texto tenta fazer algumas ponderações sobre a questão, a partir de uma reflexão alicerçada principalmente em Walter Benjamin, mas buscando mostrar que, passados mais de setenta e cinco anos da morte do autor, processos apontados pelo mesmo como definitivos na modernidade, como a perda da aura e a produção industrial de obras de arte, nos países pós-coloniais, são questões ainda hoje complexas, que requerem uma reflexão que leve em consideração a diferença dessas realidades em relação à Europa, onde tais processos foram inicialmente apontados. Como exemplo diferencial, mostrar-se-á a produção de livros de conteúdo literário confeccionados semiartesanalmente na Amazônia em pleno século XXI. Um elemento fundamental para estas reflexões é a consciência de que o desenvolvimento da modernidade não se deu de forma homogênea e universal. Isso porque capitalismo que o impulsionou no espaço pós-colonial teve histórias diferenciadas em relação aos seus ditos centros emanadores. No caso da América Latina, segundo Canclini (1990), nossa entrada na modernidade foi marcada por uma “heterogeneidade multitemporal” (p.74).
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<b>O conceito de resistência em três textos da literatura brasileira à  luz da teoria pós-colonial</b> - DOI: 10.4025/actascihumansoc.v27i2.196

<b>O conceito de resistência em três textos da literatura brasileira à luz da teoria pós-colonial</b> - DOI: 10.4025/actascihumansoc.v27i2.196

Em rigor, o comprador, um termo usado na Teoria Pós-colonial, é o atravessador entre o comerciante estrangeiro e o mercado dos produtos coloniais. Refere-se àqueles sujeitos coloniais situados em posições privilegiadas constituídas pelos monopólios estrangeiros, que têm especial interesse na manutenção do sistema colonial. Às vezes, refere- se a toda uma gama de sujeitos coloniais (intelectuais, artistas e outros) “comprados” pelos colonizadores. No conto “Pai contra Mãe” se vê o drama de Cândido Neves, para quem, diante de sua inaptidão em outros ofícios e de instabilidade nos empregos, a escravidão é um meio de sobrevivência física dele, de sua esposa e de seu filho recém-nascido. Constitui-se, portanto, uma hierarquia entre o homem paupérrimo (Cândido) e o escravo fugitivo, em especial a mulata Arminda, que está grávida. Fabricado pelo colonialismo e pelo próprio sistema escravo e escondendo da sociedade uma pobreza tão premente que a recompensa do patrão da escrava fugitiva o tiraria da miséria e não o constrangeria a levar o filho à roda dos enjeitados, assume posições de cortesia, educação, de dar ordens, como se fosse “o dono da escrava”. Ademais, quando encontra a escrava fugitiva, torna-se, paradoxalmente, o dominador, e nenhuma súplica da dominada é suficientemente forte para desviá-lo da execução da tarefa de colocar a escrava nas mãos do dono. Os cem mil-réis que recebe lhe devolvem o filho, o pagamento das contas e o alívio temporário da miséria.
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Crises de fraternidade: literatura e etnicidade no Moçambique pós-colonial.

Crises de fraternidade: literatura e etnicidade no Moçambique pós-colonial.

Hoje, o nosso mundo globalizado pós-colonial não é, afinal, um ambiente mais humano. África, o velho terreiro da escravatura e colonialismo, continua a ser ferozmente violentada. As pragas contemporâneas, porém, são especial- mente perniciosas porque se apresentam de forma naturalizada, como que des- tituídas de causa ou causador – violência política, ódio étnico, a pandemia da SIDA… estas são enfermidades perplexantes, por trás das quais a face do opressor se tornou quase totalmente invisível. Os grilhões que prendiam o es- cravo, as carabinas que subjugavam a azagaia, parecem ter-se evaporado. Para os que sofrem atrozmente sob as pragas contemporâneas – e para os que olham de longe com horror e medo – fica o espanto de não saber onde procurar a mão que tal miséria causa! Confrontados com um sentimento de perplexida- de e desânimo semelhante ao que assolou a Europa que desvendou o Holocausto, o “nós” globalizado dos dias que passam vive amargamente uma nova crise de fraternidade.
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Mapear os significados contestados da identidade nacional angolana através da literatura pós-colonial

Mapear os significados contestados da identidade nacional angolana através da literatura pós-colonial

Os estudos pós-coloniais de recorte culturalista, com destaque para os trabalhos de Santos (2002; 2008), Bhabha (2007), Hall (2005) e Gilroy (2001), tiveram um papel particularmente relevante na construção da presente análise. Sobretudo no que diz respeito à interpretação dos conceitos de identidade e de cultura, que “não se apoia na existência prévia de unidades e identidades culturais, mas na articulação contingente de diferenças” (Costa, 2006, p. 18). Consideramos que Yaka pode ser compreendida como uma obra literária pós-colonial não só por ter sido produzida por um autor angolano após a consolidação da independência de seu país, mas, principalmente, por desvelar a complexidade inerente ao desenvolvimento do moderno nacionalismo em Angola, dado que a experiência colonial que teve lugar nessa parte de África propiciou o surgimento de distintos projetos de nação, inspirados por diferentes exercícios de identificação e variadas interpretações sobre a legitimidade da pertença à comunidade imaginada angolana. Neste romance Pepetela utiliza a ficção tanto para demonstrar como o discurso e as práticas coloniais construíram a polaridade entre o colonizador e o colonizado, quanto para, assim como faz o pós-colonialismo segundo Santos (2008, p. 236), “salienta[r] a ambivalência e a hibridez entre ambos já que não são independentes um do outro nem são pensáveis um sem o outro”.
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Memória cultural e imaginário pós-colonial: o lugar de Lília Momplé na literatura moçambicana

Memória cultural e imaginário pós-colonial: o lugar de Lília Momplé na literatura moçambicana

quando não peremptórios – para uma melhor compreensão da produção literária contemporânea nas nações lusófonas. Quais são os recursos que estão sendo mobilizados na formulação e reformulação das memórias, das imagens e dos símbolos culturais – via literatura – ligados aos acontecimentos históricos que levaram ao fim do colonialismo português, por parte dos escritores angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos e timorenses? No sentido inverso, mas igualmente relevante, quais são as memórias, imagens e símbolos que estão sendo articulados no romance português contemporâneo face às relações políticas do passado entre Portugal e os outrora denominados territórios ultramarinos? Que tipo de mudança no imaginário social está sendo proposta pelo romance contemporâneo no que tange às imagens e miragens produzidas sobre Angola, Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste? Quais as soluções estéticas e formais encontradas pelos escritores lusófonos africanos e asiáticos para levar a cabo este processo de caráter dialético entre o próprio e o alheio? Dito de outra maneira, como se cristalizam, nos textos literários, o resultado do embate colonial entre o imaginário europeu e os imaginários autóctones? Haveria alguma espécie de síntese dialética ou, ao contrário, estas obras mostrariam uma convivência violenta – com resultados heterogêneos – entre cosmovisões eurocêntricas e autóctones? Quais são as constantes imagéticas que se mostrariam, então, como dominantes na estruturação das constelações simbólicas pertencentes ao que poderia ser chamado, provisoriamente, de “imaginário pós-colonial lusófono”?
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O reino de Benjamim por um olhar pós-colonial

O reino de Benjamim por um olhar pós-colonial

Russel Hamilton (1999), em “A literatura dos PALOP e a teoria pós-colonial”, traz a discussão de Appiah (1997) sobre o prefixo “pós” entre os termos “pós-colonialismo” e “pós- modernismo” a fim de verificar se os dois apresentam os mesmos significados. A conclusão a que este último teórico chega é a de que ambos os “pós” são iguais no que diz respeito à necessidade de abrir novos espaços. No entanto, também conclui que são diferentes porque o pós-modernismo está ligado à vanguarda estética. Ele supera a estética moderna e problematiza o pensamento moderno. O pós-colonialismo, por outro lado, carrega consigo uma “carga de significadores e referentes políticos e sócio-econômicos” (HAMILTON, 1999, p. 17). Volta seu olhar para o passado enquanto caminha para o futuro, pretendendo frustrar os discursos coloniais. Assim, repensar o passado constitui-se uma das estratégias fundamentais para a compreensão das questões levantadas por essa esfera teórica.
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A urgência do pós-colonial e os desafios dos feminismos latino-americanos

A urgência do pós-colonial e os desafios dos feminismos latino-americanos

das relações coloniais. Como sabemos, o poder colonial frequentemente produz hibridismos em vez de uma repressão silenciosa da tradição “na- tiva”, já que a ambivalência (ou indecidibilidade) na raiz dos discursos coloniais permite uma forma de subversão que transforma as condições discursivas dominantes em espaço para intervenção. O sujeito híbrido (nesse caso, latino-americano) engendra novas formas subversivas de contra-identifi cação em relação ao poder colonial. O hibridismo ou o processo de hibridação, apesar de suas várias críticas, é um conceito fundamental para o discurso pós-colonial e que, na América Latina, encontra equivalente na noção de mestiçagem. Segundo Jesus Martin- Barbero e Néstor Garcia Canclini, mestiçagem pode ser interpretada não apenas como um fato racial, mas também como um conceito que salienta o signifi cado histórico do entrelaçamento e da heterogeneidade das formas culturais na América Latina.
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Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial.

Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial.

Tal esforço de desconstrução dos binaris- mos (coloniais) vem seguindo percursos diversos no âmbito dos estudos pós-coloniais e, pelo menos desde o importante ensaio de Spivak (1988), desfez-se a expectativa de que uma pers- pectiva epistemológica nova surgiria, dando-se voz ao (pós-)colonizado. A autora mostra que é ilusória a referência a um sujeito subalterno que pudesse falar. O que ela constata, valendo-se do exemplo da Índia, é uma heterogeneidade de subalternos, os quais não são possuidores de uma consciência autêntica pré- ou pós-colonial, trata-se de “subjetividades precárias” construídas no marco da “violência epistêmica” colonial. Tal violência tem um sentido correlato àquele cunha- do por Foucault para referir-se à redefinição da idéia de sanidade na Europa de finais do século XVIII, na medida em que desclassifica os conhe- cimentos e as formas de apreensão do mundo do colonizado, roubando-lhe, por assim dizer, a faculdade da enunciação. Assim, no lugar de rei- vindicar a posição de representante dos subalter- nos que “ouve” a voz desses, ecoada nas insur- gências heróicas contra a opressão, o intelectual pós-colonial busca entender a dominação colo- nial como cerceamento da resistência mediante a imposição de uma episteme que torna a fala do subalterno, de antemão, “silenciosa”, vale dizer, desqualificada.
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Urbanismo pós-colonial: materializar o imaterial

Urbanismo pós-colonial: materializar o imaterial

No início do século XIX, teve início a abolição Europeia da escravidão, quando se tornou evidente que uma economia de dinheiro, em vez da troca de escravos, e as exportações industriais em grande escala seria melhor servido por trabalho “livre” que poderia comprar bens europeus e entrar num sistema de tributação colonial em que os escravos não pagos não poderiam participar. O sistema de salários para os escravos começou a cortar no sistema mais antigo da escravidão. Como uma nação europeia relativamente pobre em capital, Portugal era lento para fazer essa transição, e a escravidão persistiu até ao século XIX. De forma limitada, houve até um ligeiro aumento no comércio de escravos neste momento na Guiné-Bissau, como a abolição resultou numa escassez relativa da oferta de escravos, forçou assim temporariamente o aumento da procura. Uma empresa de escravos brasileira ainda manteve os seus negócios em Bissau a partir do qual levou a grande parte dos escravos, mas os números anuais caíram para apenas algumas centenas por ano. Apesar da lenta propagação do movimento abolicionista, Portugal agiu com mais frequência na violação das restrições e nos acordos para limitar o comércio de escravos.
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As vozes da mímica pós-colonial em.

As vozes da mímica pós-colonial em.

tensões próprias da desordem de enunciação que as vozes dissidentes das categorias nativas e as discursividades não autorizadas produzem. Isso posto, quebra-se a cadeia dos binarismos. Está-se, pois, na encruzilhada, no interdito que revela que: “O desejo de mímica colonial – um desejo interdito – pode não ter um objeto, mas tem objetivos estratégicos que chamarei de metonímia da presença” (Bhabha, 1998, p. 134). Pode-se compreender que a ideia de metonímia da presença é transpassada por rearticulações variadas que confirmam a imitação enquanto subversão. Desse modo, o romance de Torero e Pimenta traduz uma relevante percepção sobre as forças desiguais que operam efetuando representações da nação e revela as facetas históricas que fundamentam táticas legitimadoras das versões oficiais.
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Uma análise Pós-Colonial na obra Robinson Crusoé / A Post-Colonial analysis on Robinson Crusoé

Uma análise Pós-Colonial na obra Robinson Crusoé / A Post-Colonial analysis on Robinson Crusoé

Este artigo apresenta uma sucinta análise do romance Robinson Crusoé, do escritor inglês Daniel Defoe, utilizando abordagens dos pensamentos dos estudos pós-coloniais. Publicado em 1719, a obra Robinson Crusoé é considerada o primeiro romance realista escrito em língua inglesa. Até os dias atuais, o romance já possui mais de 700 edições, traduções, adaptações, releituras e reescritas, além de adaptações cinematográficas e animações. Apresentando os relatos de aventura da personagem que nomeia o romance e como ele sobreviveu em uma ilha por vinte e oito anos, a obra ganhou apreço do público desde sua primeira publicação, pois durante o período de seu lançamento estava em ascensão os meios impressos de comunicação e os leitores ficavam entusiásticos por narrativas de viagem em lugares exóticos, mistérios e aventuras. O trabalho faz uso do método bibliográfico, sendo norteado pelos autores: Aimée Césaire (1978), Albert Memmi (2007), Frantz Fanon (1965) e Thomas Bonnici (2012; 2019). Após a análise da obra, percebe-se que ela ser compreendida como “colonizadora” visto que ela apresenta traços colonizadores, a saber: a individualização, o poder, o domínio, o preconceito e a submissão expostos por meio das personagens Robinson Crusoé e Sexta-Feira.
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Os monstros e a questão racial na literatura pós-colonial brasileira

Os monstros e a questão racial na literatura pós-colonial brasileira

O vampiro Drácula, como estratégia para construção da narrativa, é interpretado aqui como a versão da monstruosidade gótica que se transforma no trickster, construção do texto mágico r[r]

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A Educação Ambiental e o pós-colonialismo

A Educação Ambiental e o pós-colonialismo

Com efeito, o pós-colonialismo se justifica tanto para Santos como para o potencial emancipatório da Educação Ambiental, porque coloca em discussão a relação de poder assimétrica que é a relação colonial. Então, nesse caso, suas contribuições são relevantes para compreender outros tipos de relações assimétricas, cujas análises estariam fora do plano estritamente modernista, como é o caso das relações culturais. Santos (2008) se utiliza da perspectiva pós-colonial para fundar práticas e subjetividades emancipatórias utópicas fora do cânone modernista. O autor enxerga uma possibilidade de análise a partir dessa perspectiva. Já Hall (2009) argumenta que essa perspectiva marca uma confusão entre uma categoria descritiva e uma categoria avaliativa, que ele visualiza como a descrição e a caracterização das mudanças nas relações globais dessa transição da era dos impérios para o momento pós-independência ou pós-colonização. Stuart Hall (2009) se preocupa bastante em seu argumento em subverter o binarismo colonizador/colonizado que a perspectiva traz, e defende uma reeleitura de um processo em movimento com a produção de uma reescrita descentrada, diaspórica e global.
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Pós-Colonialismo, Império e Globalização: Dois Pratos da Balança

Pós-Colonialismo, Império e Globalização: Dois Pratos da Balança

Que rumo deve tomar o pós-colonialismo? Acredito que qualquer um, desde que estejamos atentos e tenhamos cautela de modo a evitar que, como adequadamente aponta Bellei, o pós-colonialismo não seja mais uma idéia fora do lugar que veio dar nas praias brasileiras e, principalmente, não seja mais uma generalização. Havendo comum acordo de que o pós-colonialismo institucionalizado já não mais nos interessa, a pergunta que melhor cabe em nossas discussões não seria se o Brasil é ou não pós-colonial, mas sim em que o conceito operatório de pós-colonialismo, nos tempos do Império global, pode auxiliar no entendimento das negociações culturais dentro do território brasileiro, bem como entre o Brasil e outros territórios. No outro prato da balança, cabe aos críticos estrangeiros investigar como o pensamento teórico brasileiro, sintomaticamente ainda um ‘lado de fora’ do Império, pode contribuir para a compreensão de suas especificidades histórico-culturais, como fazem Szeman e Brydon. E por falar em litoral, em Florianópolis, Santa Catarina, o motorista que trafega na Avenida Beira-Mar Norte encontra uma placa, situada no canteiro central, com as seguintes palavras: “Quem dá esmola não dá futuro”. Se de fato o Império que se estende diante de nós é aquele cujos mecanismos Michael Hardt e Antonio Negri tão claramente expõem, lembremo-nos, sempre, dos dizeres dessa placa, e tomemos o devido cuidado com o que recebemos de bom grado desse império. Mais do que um discurso de resistência, o pós-colonialismo hoje deve representar um discurso de alerta, vincado na memória dos sujeitos dos novos ritmos e novos rituais.
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O testamento do Sr. Napumoceno: reflexões sobre a identidade cultural na literatura caboverdiana

O testamento do Sr. Napumoceno: reflexões sobre a identidade cultural na literatura caboverdiana

[...] o "pós-colonial" não sinaliza uma simples sucessão cronológica do tipo antes/depois. O movimento que vai da colonização aos tempos pós-coloniais não implica que os problemas do colonialismo foram resolvidos ou sucedidos por uma época livre de conflitos. Ao contrário, o "pós-colonial" marca a passagem de uma configuração ou conjuntura histórica de poder para outra (Hall, 1996a). Problemas de dependência, subdesenvolvimento e marginalização, típicos do “alto” período colonial, persistem no pós-colonial. [...] No passado, eram articuladas como relações desiguais de poder e exploração entre as sociedades colonizadoras e as colonizadas. Atualmente, essas relações são deslocadas e reencenadas como lutas entre forças sociais nativas, como contradições internas e fontes de desestabilização no interior da sociedade descolonizada, ou entre ela e o sistema global como um todo.
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Deformação da Literatura Brasileira

Deformação da Literatura Brasileira

RESUMO: Este ensaio-manifesto busca colocar algumas ques- tões relativas aos textos que tem sido publicados, principalmente por povos indígenas, e não são entendidos como literatura pelas universidades, nem tampouco são lidos, apesar da lei 11.645 de março de 2008 que estabelece que é obrigatório o ensino de cul- turas indígenas e africanas no Brasil. O argumento para o texto é retirado da palestra A literatura brasileira da perspectiva pós- -colonial feita por Silviano Santiago que afirma que a literatura brasileira já está formada e é preciso desconstruí-la, ampliando a inserção de outros textos que não os do sistema já consagrado. PALAVRAS-CHAVE: Literatura Brasileira, Mito, Perspectiva, Culturas Indígenas, Culturas Afro-Brasileiras.
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Mulher, identidade e escrita em textos francófonos do Magrebe

Mulher, identidade e escrita em textos francófonos do Magrebe

Ultimamente, a crítica pós-colonial permitiu não apenas abrir uma via “mundial” às literaturas francófonas, mas também permitiu a análise de textos de mulheres no âmbito da teoria pós-colonial e da teoria feminista. Este trabalho visa a uma abordagem da escrita de algumas romancistas originárias do Magrebe, a partir da perspectiva da teoria feminista pós-colonial e do conceito de “sujeito nômade” enunciado pela filósofa feminista Rosi Braidotti (1994). Após algumas reflexões sobre a escrita de mulheres e o discurso sobre a identidade resultante dela, analisarei mais particularmente a escrita de Malika Mokeddem como representante de um percurso; percurso fictício ou real, a escrita simboliza por um lado, a revolta, a fuga, mas ela adquire igualmente um aspecto vital, um território de exílio e de errância, metáfora desse nomadismo existencial sinalizado por Braidotti (1994). No interior do corpus dos textos de mulheres, situarei a escrita de Malika Mokkedem como um referencial de uma nova escrita de mulher: entre magrebinidade e feminilidade nós vemos a desconstrução de estereótipos de gênero e uma reinterpretação do sujeito mulher.
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O campo e a cidade na literatura brasileira   Luiz Ricardo Leitão

O campo e a cidade na literatura brasileira Luiz Ricardo Leitão

Ainda que os versos de gregório de matos guardem, à primeira vista, certa mágoa de intelectual e homem de letras espirituoso triturado pela lógica mercantil, que só se ocupava de “trocar” homens e mercadorias, eles nos sugerem que aquela sociedade não era um amálgama homogêneo de bandidos e trapaceiros, como nos costuma sugerir o senso comum. o que a retorcida linguagem do artista barroco nos atesta é que a riqueza se edificava à mercê de uma ordem acintosamente injusta, ou seja, por um amplo sistema institucional de exploração e pilhagem que relegava à miséria a maioria da população local. conforme adverte o historiador paulo caval- cante, antes de reiterar o perverso ideologema de que para a colônia vieram apenas larápios e degredados da pior espécie (e, por isso, o brasil não teria dado certo...), conviria bem mais reconhecer que, sob a égide do antigo sistema colonial, o roubo, o furto e a corrupção configuraram um certo tipo de prática social – o descaminho – “encoberta pelas formalidades oficiais, porém radicalmente ativa e penetrante, irradiada por todo o corpo social, inclusive os escravos”. contraface dialética dos caminhos oficiais, “todos esses modos de furtar existiam e se reproduziam em função do contexto geral de exploração e não como decorrência de desvios morais, de uma cristianização imperfeita ou mentalidade bastarda”. 7
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O CASO PARADIGMÁTICO DE CABO VERDE

O CASO PARADIGMÁTICO DE CABO VERDE

A partir destas análises da realidade africana pós colonial, quer ao nível do funcionamento interno de cada Estado quer numa dimensão regional vem demonstrando, de uma certa forma, que muitos dos problemas coloniais tiveram repercussões negativas no período pós colonial; mas também vem demonstrando, que muitos dos problemas que afectam o desenvolvimento daquele continente, foram e ainda continuam a ser protagonizadas, pelas respectivas elites governamentais locais. Esta é, por exemplo, a leitura que Nuno Manalvo faz: “Mas o tamanho da sua beleza só tem equiparação com o tamanho do seu infortúnio. Vitima de diferentes conjunturas históricas, internacionais, desde as vocações imperiais de alguns Estados Europeus, passando pelas lutas de blocos na Guerra fria, os últimos séculos condenaram todo um continente á guerra, á miséria e á destruição, numa culpa colectiva a que não pode ficar alheia a participação de muitos dos seus próprios líderes políticos” 55 . Por isso não é novidade para ninguém a relação entre colonização e o subdesenvolvimento, mas também temos que ter uma percepção clara que é uma realidade do passado evitando um discurso centralizado nas antigas metrópoles, muitas vezes com o intuito de justificar os fracassos das incompetências governamentais e das corrupções locais.
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