Top PDF O conceito de redução estrutural na crítica literária de Antonio Candido

O conceito de redução estrutural na crítica literária de Antonio Candido

O conceito de redução estrutural na crítica literária de Antonio Candido

Candido faz exatamente a leitura de como o romance de Manuel Antônio de Almeida se relaciona com o Rio de Janeiro, pois critica a visão de que é um romance documental, ao passo que a obra apaga a classe dirigente, a classe dos proprietários e aos escravos. Desse modo, para ser documental, não poderia deixar de fora essas duas classes principais da época. Esse romance consegue, por meio de sua forma, representar a dinâmica da vida social de uma camada da população. Que forma é essa? A dialética da malandragem. É a oscilação entre o mundo da ordem e da desordem, que é uma forma social por existir na sociedade. Essa camada de homens livres e pobres, que não são escravos, proprietários, dirigentes ou aristocracia, no entanto, vivem dependendo do favor e da malandragem para sobreviver. O princípio estruturante da obra é o movimento em que as personagens, por meio de suas ações, estão transitando entre a ordem a desordem.
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VISITANDO O DISCURSO E A CIDADE, DE ANTONIO CANDIDO

VISITANDO O DISCURSO E A CIDADE, DE ANTONIO CANDIDO

A primeira parte de O discurso e a cidade tenta evidenciar, através de longos ensaios, o processo de redução estrutural, um conceito proposto por Candido para explicar a organização da obra literária em sua relação dialética com realidade social e com os princípios de representação. O crítico recorre a esse processo como uma forma de apontar uma estrutura de significação que seja capaz de rearranjar os dados reais na tessitura do texto. Nesse sentido, a análise enuncia o contexto histórico e a forma artística, sem necessariamente recorrer a atitudes antípodas, como as teorias do reflexo – responsáveis por mostrar o texto enquanto um equivalente da estrutura social – e as análises formalistas – que praticam um exagero da perspectiva formal.
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Antonio Candido

Antonio Candido

ANTONIO CANDIDO: No plano da história literária, tanto a sociologia acadêmica quanto o marxismo me valeram sobretudo como “ponto de vista” para avaliar a literatura como fenômeno de cultura. No plano da análise das obras, como instrumento para estudar na ficção o que denominei “redução estrutural”, isto é, o processo mediante o qual a matéria bruta do escritor, sobretudo a realidade social, torna-se estrutura literária, a ser encarada como algo autônomo que requer investigação “interna”. Por isso, continuo a pensar que a leitura adequada de um texto deve comportar o reconhecimento da sua natureza propriamente estética.
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O conceito de forma literária de Antonio Candido

O conceito de forma literária de Antonio Candido

Para Candido, o tema da redução do indivíduo à mercadoria — em termos lukacsianos, poderíamos designar essa operação como reificação — é sugerido pelo modo de construção das cenas, dos diálogos e do enredo, bem como pela maneira geral de agir das personagens. Consequentemente, se levarmos em consideração a premissa segundo a qual o social é o agente estruturador da obra, estamos autorizados a esclarecer o conceito candidiano de forma: a maneira por que o narrador organiza o discurso narrativo constituído de cenas, diálogos, enredo e comportamento das personagens. Note- se que a noção formalista de estrutura é reelaborada. De acordo com Jakobson (2007, p. 126-127, grifo do autor), no texto literário, a função poética da linguagem é predominante, isto é, o modo como se diz prevalece sobre o que se diz: “o pendor (Einstellung) para a mensagem como tal, o enfoque da mensagem por ela própria, eis a função poética da linguagem.” Candido modifica esse postulado ao conceber que a estrutura, em alguns casos, sugere o fator social. Noutros termos: o efeito alcançado pelo jeito de arranjar o texto é o efeito também de elementos externos ao texto.
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Na sala de aula: Antonio Candido e a crítica literária acadêmica (1961-1970)

Na sala de aula: Antonio Candido e a crítica literária acadêmica (1961-1970)

Partindo do princípio de que o conhecimento sempre parcial e finito da rea- lidade e do ser humano implica, no âmbito da ficção, na necessidade de simpli- ficação, o que leva o escritor a selecionar e organizar de maneira coerente num personagem uma gama de “traços, gestos, frases, objetos significativos” capazes de torná-lo verossímil na economia interna da obra, Candido afirma que nesse processo de “seleção estrutural” dos traços e atributos que compõem uma deter- minada personagem importa antes a escolha de elementos expressivos entrosa- dos com a composição geral da obra do que a cópia fiel da realidade, podendo-se concluir que “no plano crítico, [...] o aspecto mais importante para o estudo do romance é o que resulta da análise de sua composição, não da sua comparação com o mundo. Mesmo que a matéria narrada seja cópia fiel da realidade, ela só aparecerá tal na medida em que for organizada numa estrutura coerente” (Idem, ibidem, p. 75).
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A sociologia clandestina de Antonio Candido.

A sociologia clandestina de Antonio Candido.

não me parece despropositado perceber nesse referencial sociológico a ma- triz que articula o conjunto de considerações de ordem contextual do en- saio. Observamos há pouco que o núcleo periférico da família patriarcal, formado por uniões irregulares e filhos ilegítimos, acabava por contribuir “na formação da grande massa dos degradados socialmente, os vagabundos e elementos desordeiros, que constituíram grandes porções de nossa popu- lação no século XIX” (Candido, 1974, p. 12). Da mesma forma que o núcleo central da família patriarcal era convulsionado por uma “profunda corrente de irregularidade na qual os desejos e sentimentos procuravam compensar os obstáculos aos quais estavam submetidos pelo sistema impes- soal de casamento” (Candido, 1993b, p. 13), Candido infere, a respeito do casamento no romance entre Leonardo e Luisinha, que, dada “a estrutura daquela sociedade, se Luisinha pode vir a ser uma esposa fiel e caseira, o mais provável é que Leonardo siga a norma dos maridos e, descendo alegre- mente do hemisfério da ordem, refaça a descida pelos círculos da desor- dem, onde o espera aquela Vidinha ou outra equivalente, para juntos for- marem um casal complementar, que se desfará em favor de novos arranjos, segundo o costume da família brasileira tradicional” (Idem, p. 41).
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Antonio Candido e José Mindlin

Antonio Candido e José Mindlin

exemplo, o primeiro autor moderno a ser estudado na Sorbonne foi Guillaume Apollinaire, em 1960, mais ou menos, depois de 42 anos de sua morte em 1918, por iniciativa de uma mulher, Marie Jeanne Durry. Objeto de tese podia ser, como Valéry foi ainda vivo. Mas dar curso para os alunos não podia. Isso é universal. O professor Fidelino de Figueiredo, que foi um guru dos cursos de Letras de nossa Faculdade naquele tempo, dizia: “Só se estuda autor morto, porque a obra já está fechada e você pode fazer uma avaliação”. Eu partia de um ponto de vista diferen- te, inclusive devido ao que li no Anuário do Instituto de Inglês, da Universidade de Columbia, para o ano de 1940, livro que Mário de Andrade me deu. Lá havia um estudo de William York Tindall sobre a pesquisa erudita em literatura contemporâ- nea, tão legítima quanto qualquer outra. Depois que me tornei professor de Teoria Literária em nossa Faculdade, em 1961, foi a primeira coisa que fiz. Em Literatura Brasileira os autores mais modernos que se davam eram Aluísio Azevedo e Raul Pompéia. Comecei a fazer o seguinte: no primeiro ano dava autores tradicionais, no quarto ano só dava os modernos, ajudado pelo aparecimento de edições aces- síveis dos poetas, as da Editora do Autor, no Rio de Janeiro, dirigida por Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Eles publicaram antologias de Cecília Meireles, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Vinicius de Morais e outros. Com esses livros em mãos, pude dar cursos sobre os poetas modernos. Na Universidade de São Paulo, salvo erro, os pri- meiros cursos sobre os poetas a partir do Modernismo foram os meus. Em 1961. E o Estudo analítico do poema, aquele que eu obriguei o senhor a preparar para edição recentemente, é de...
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Antonio Candido e “A culpa dos reis”

Antonio Candido e “A culpa dos reis”

A culpa dos reis: mando e transgressão no Ricardo II”, texto de palestra proferida por Antonio Candido em 1991, proporciona, para quem o lê com o in- tuito de estudar a obra crítica do autor, uma pequena síntese da estrutura cons- titutiva de muitos de seus trabalhos ensaísticos de análise literária. O ponto de partida é a depreensão de uma premissa mais ampla de estruturação do texto analisado, de modo a introduzir o objetivo central. Os parâmetros da análise, fi- xados fora do terreno especulativo da teoria, são extraídos da própria materiali- dade textual da peça, e a historicidade desta é estabelecida a começar por sua in- serção no conjunto dos oito dramas históricos de Shakespeare sobre a Inglaterra. A transparência da expressão e o tom direto do ensaio, desde o início, recon- fortam os leitores não iniciados e instigam os teóricos e críticos diante da emprei- tada proposta, que é a de investigar e discutir como se dá, no plano literário de A tragédia de Ricardo II, de William Shakespeare, a representação figurada de um elemento histórico: a transgressão da ordem política estabelecida.
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Antonio Candido e a Faculdade de Direito

Antonio Candido e a Faculdade de Direito

Um dos propósitos que presidiu a elaboração de Formação da literatura brasileira, uma das obras fundamentais do percurso de Antonio Candido, foi escrever, no século XX, com domínio da literatura comparada, “uma história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”. O livro foi construído ar- ticulando os momentos decisivos desta história por meio da análise de obras, autores e públicos dos séculos XVIII e XIX. No século XIX, a Faculdade de Di- reito foi uma decisiva base de sustentação deste desejo dos brasileiros de ter uma literatura. Com efeito, naquela época, nela estudaram e conviveram gran- de parte dos escritores que, elaborando nas Arcadas a sua visão do país, em seu processo criativo buscaram dar conta da missão de criar uma literatura própria, “procurando uma nova morada” para “o espírito do Ocidente”. É por esta ra- zão que, na segunda parte de Formação, dedicada basicamente ao Romantismo brasileiro, são analisadas tantas obras de egressos da Faculdade de Direito, de romancistas como José de Alencar aos poetas tutelares das Arcadas, honrados no Salão Nobre: Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Castro Alves. Na cons- trução “de uma nova morada” para as Letras, o Romantismo, como movimento literário da cultura ocidental, por valorizar os particularismos do “espírito dos povos” prestou-se à estilização das tendências locais. Deste modo conjugaram- se as Letras e o instinto de nacionalidade no Brasil do século XIX tendo, nas Arcadas, um grande centro aglutinador e irradiador do propósito da formação de uma literatura brasileira, distinta da matriz lusitana.
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Antonio Candido, leitor de poesia

Antonio Candido, leitor de poesia

O ensaio em pauta publicou-se, pela primeira vez, na paulista Revista brasilei- ra de poesia, que ao lado da curitibana Joaquim e da carioca Orfeu, foi dos principais órgãos divulgadores da poesia e da plataforma poética da chamada “Geração de 45”, que tinha entre seus numes tutelares eliot, Valéry, Rilke e Fernando Pessoa. Por isso, antes de comentar outros ensaios de Candido sobre poetas estrangeiros, convém ave- riguar seu relacionamento com os jovens paulistas seus contemporâneos. embora co- laborador eventual da Revista brasileira de poesia; e embora seja dele o discurso de abertura do I Congresso Paulista de Poesia, Discurso num congresso de poetas (pro- nunciado em 29.04.1948), Candido parece ter mantido com o grupo uma relação des- confortável, pois suas posições diferem da postura artificialmente revolucionária dos poetas da Geração de 45. estes, como se sabe, alardearam a morte do Modernismo e recusaram drasticamente as conquistas formais e temáticas da Primeira Geração, sobretudo, por pedestres e apoéticas. Já a posição de Candido, tanto no discurso de abertura, quanto em artigos de crítica, tende a ressaltar a acomodação e a ordem que vincariam o trabalho dos novos poetas, em relação ao Modernismo. O Discurso... e vá- rios desses artigos foram recolhidos e repostos em circulação por Vinicius Dantas em textos de intervenção (2002), merecendo destaque, para o momento, aquele em que Candido critica Mundo submerso (1944), de Bueno de Rivera 16 : a coletânea parece-lhe
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Esquema argentino de Antonio Candido

Esquema argentino de Antonio Candido

Candido va escribiendo por focalizaciones parciales (que no deben consi- derarse fragmentarias, salvo que pensemos el fragmento, al modo romántico de la escuela de Jena, como un todo) una obra crítica que se recorta sobre una totalidad virtual. Cada focalización es, a la vez, una parte que integra ese work in progress permanente que es su obra, como totalidad en marcha y proyec- tual. Pero cada focalización puede ser vista, también, como una pequeña tota- lidad, epítome del modo de conjunto (y de la coherencia) que tiene esa obra. Leer la obra de este crítico brasileño no sólo sirve para conocer y pensar cómo funciona la literatura de su país. Nos sirve para ver cómo pensar también otras literaturas, como lo ha demostrado Ángel Rama en relación con algunas mani- festaciones de la literatura rioplatense. Aparte del texto del uruguayo sobre “El sistema literario de la literatura gauchesca”, que puede filiarse de modo ostensi- ble con la idea de sistema de Candido, creo que la articulación entre gauchesca e historia que hace en “De la poesía política popular a la poesía de partido: Hilario Ascasubi y Estanislao del Campo”, fundamentalmente al proponer las etapas de la gauchesca pero no sólo por eso, es – no con el mismo método crítico pero sí con los mismos eficaces resultados – una inteligentísima (y didáctica) articula- ción entre forma histórica y forma estética.
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Antonio Candido e a fortuna crítica de Guimarães Rosa: a recepção de grande sertão: veredas

Antonio Candido e a fortuna crítica de Guimarães Rosa: a recepção de grande sertão: veredas

Como se vê, a divisão dos capítulos não obedece necessariamente ao agrupamento metodológico das referidas linhagens da crítica sob enfoque (quais sejam: os ensaios sociológicos, historiográficos e políticos e os ensaios de estrutura, composição e gênero), mas sim a eixos temáticos nucleares presentes nessas mesmas linhagens, levando também em conta, de algum modo, a cronologia das publicações. Para que se submetam à prova as relações de descendência e renovação operadas pelos ensaios tomados como matéria de investigação (escopo da visada histórica em que se assenta este estudo, conforme destacado), as análises terão, por assim dizer, um caráter circular. Noutros termos, as referidas leituras críticas do romance serão abordadas em duas etapas. Na primeira, apresentamos uma síntese de cada ensaio e algumas achegas às suas linhas diretivas e filiações teóricas. Em seguida, o ângulo é ampliado e o tom algo resenhista da etapa anterior cede lugar ao estabelecimento das relações de retomada e inovação realizada por cada leitura, tendo em conta os elementos constitutivos do romance, a saber: a situação narrativa (o monólogo dialogal), o sertão, a jagunçagem, o pacto com o diabo, Diadorim, a linguagem (as transformações concretizadas pelo escritor nesse nível), a relação do duplo tempo (tempo do narrado e tempo da narração) e da dupla perspectivação (a do velho Riobaldo e a do jagunço Riobaldo), conforme, naturalmente, o lugar (isto é, a presença e o tratamento) que cada um desses elementos ocupa nos respectivos ensaios. Em função dessa estratégia de feitura e encadeamento dos capítulos, o leitor encontrará, por vezes, a reproposição dos mesmos tópicos, mas sob enfoques variados.
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Recortando Antonio Candido

Recortando Antonio Candido

Os textos que serão visitados aqui não revelam o historiador da literatura brasileira e o crítico literário aos quais nós, os profissionais das Letras, estamos habituados, os quais vivemos citando em nossos trabalhos e indicando aos nossos alunos, orientandos e colegas. Também não repercutem o sociólogo das décadas de 1940-50, autor do clássico Os parceiros do Rio Bonito, nem o político dos anos 80, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). O Candido desses recortes circula por outras paragens, guardadas no fundo do baú até 1993, quando vieram à luz. São os que nos propomos a examinar, na crença de que pouco aparecem no conjunto significativo dos estudos sobre o Professor, o Crítico e o Político, bem como na quantidade imensa de citações de sua obra nos trabalhos acadêmicos, no Brasil e no exterior.
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Antonio Candido militante

Antonio Candido militante

Minha opinião é que o espírito tão democrático de Antonio Candido, sua sincera entrega à alteridade, se deveu ao seu trato com a literatura de ficção. A ficção é a realidade em forma de sonhos. Como ensinou Aristóteles, ela não precisa ser verdadeira, e sim verossímil. E quando se transita no mundo da arte, no qual se situa a literatura de ficção, corre-se menos risco de se deixar contaminar por dogmas, ortofonias, ideias petrificadas. Porque o artista é, por excelência, abridor de janelas, demolidor de paredes, alargador de caminhos, amante de horizontes infindos. Para ele não basta o agora. Ele busca também o além. E na literatura seu único limite é o da impossibilidade da palavra. E para ele palavra não se resume a vocábulo. Nisto o artista concorda com o evangelista João, é preciso que o verbo se faça carne. E em Antonio Candido todo o seu discurso resultava da coerência ética de sua prática.
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A torre de marfim de um modernista arrependido – apontamentos sobre a trajetória crítica de Antonio Candido

A torre de marfim de um modernista arrependido – apontamentos sobre a trajetória crítica de Antonio Candido

E essa mudança de perspectiva refl ete no juízo crítico que faz da obra do autor de Macunaíma. Em 1943, Candido foi convidado por Mário para ouvir a “[...] uma leitura de Café, que [este] acabara de redigir. [...] Fiquei deslumbrado, e dali a uns dias escrevi a ele comentando longamente [...]” (CANDIDO, 1994, p.25). Nessa época, Candido tinha outras preocupações e talvez o caráter empenhado dessa “tragédia secular” centrada na crise da cafeicultura o tivesse deslumbrado no momento. Mas o tempo passou, e a concepção de literatura de Candido se modifi cou. Do mesmo modo que o memorialista não está mais preocupado em ressaltar a dimensão política de Mário de Andrade, o crítico – que nada mais é que a outra faceta de uma mesma pessoa – pode rever seu deslumbramento: “Mas devo dizer que a seguir passei a gostar bem menos desse texto. Ele me parece forçado, como se Mário quisesse cumprir uma tarefa política sem encontrar o tom certo.” (CANDIDO, 1994, p.25). É interessante observar que a entrada do político, que antes era valorizado como a grande virada intelectual de Mário, se transforma em um elemento destoante em sua escrita, que acaba por roubar-lhe a força poética.
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Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Nesta passagem, a despeito de um coloquialismo e intimismo ainda presentes, chama atenção o destaque – pertinente, diga-se – dado por Décio de Almeida Prado a determinados aspectos da escritura de Candido. A idéia da modifi cação dessa escritura por meio da disciplina, os eventuais arroubos da juventude, domados por um estilo mais maduro (até mesmo a consciência de que o diálogo com a palavra falada decorre de uma maestria com relação à oralidade), tudo surge subordinado a um princípio de “forma”, aqui proposta como “lúcida e translúcida”. Os demais termos, como os que vemos no trecho “[...] parecemos ver, sem intermediários, o fi o do pensamento desenrolando-se ante os nossos olhos, em seu caminhar encadeado, sutil, seguro e envolvente [...]”, apenas reforçam o fato de que, na concepção de Décio de Almeida Prado, a escritura de Antonio Candido paga, sim, tributo ao rigor da metodologia científi ca que ampara o discurso crítico, mas não se limita a isso.
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Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

Naqueles anos de 1940, o reconhecimento apresentado com a devida valoração crítica agradou em cheio o escritor e o levou a uma reaproxima- ção definitiva. De acordo com Candido o encontro se deu entre 1945 e 46, na Livraria Jaraguá. A iniciativa foi de Oswald. Na oportunidade, ele “pro- punha consolidar a nossa amizade e declarava que dali em diante eu ficava com a liberdade de escrever o que quisesse a respeito de sua obra, que ele não se molestaria nem responderia” (1995, p. 71). Assim ficou para trás a página de mal entendidos, prevalecendo a fina percepção crítica que já se projetava no reconhecimento de estreantes como Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, como comprovam seus rodapés jornalísticos. Hoje, percorrendo a vasta produção crítica de Antonio Candido, é possível afirmar com toda segurança que Oswald nela emerge como a figura da literatura brasileira (autor e obra) sobre quem o crítico mais voltou a sua atenção. São ensaios, longas passagens em livros, estudos em coletânea, artigos em jornais, prefácio, entrevistas, palestras, depoi- mentos. Lido e relido, em seus pontos altos e frágeis, sem fazer concessões.
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Sobre “O direito à literatura”, de Antonio Candido

Sobre “O direito à literatura”, de Antonio Candido

O raciocínio que fundamenta a ideia da incompressibilidade tem, sem dúvida, uma dimensão universalista, pois se apoia na ideia de que a fruição da literatura, tal como a define Cândido, constitui direito humano em termos irrestritos. Esse raciocínio tem, porém, ao mesmo tempo, um viés indiscutivelmente dialético, pois o crítico não perde de vista a relação da literatura e da cultura com as forças que regem a sociedade, e nem fecha os olhos para a desigualdade nas condições de acesso dos diferentes setores sociais à cultura e aos bens culturais no campo literário. A incompressibilidade, para ele, não se configura por si só, de forma natural ou espontânea: ela parte da percepção crítica diante da estrutura social e pressupõe a denúncia e a transformação das situações sociais de desigualdade:
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A experiência hispano-americana de Antonio Candido

A experiência hispano-americana de Antonio Candido

AC: Creio que falamos pouco a respeito. Mas ele é responsável pelo meu en- saio mais conhecido na América espanhola, ensaio que me levou a aprofundar as leituras no setor. Foi o seguinte. Em 1968 fui professor visitante na Universida- de de Yale, onde dei entre outros um curso de Literatura Comparada intitulado “A representação do espaço na ficção naturalista”. Nele incluí Doña Bárbara, de Rómulo Gallegos e La vorágine, de José Eustasio Rivera, romances de segunda ordem bastante aborrecidos, mas não tive coragem de abordar livros do boom, a respeito dos quais ainda não me sentia seguro. Naquela altura houve uma reu- nião promovida, creio que no México, pela Unesco a fim de planejar a obra que se chamou depois América Latina en su literatura. Parece que me convidaram, mas não recebi a comunicação em Yale. Nessa reunião, ao distribuírem as tarefas, Sérgio Buarque de Holanda propôs o meu nome para um determinado tópico, mas Ángel (que era seu amigo) interveio dizendo: “Para Antonio Candido tengo un tema: Literatura y subdesarrollo”. Sérgio assumiu então o compromisso em meu nome, e eu, para não desautorizá-lo, aceitei a contragosto, porque achei a tarefa muito superior às minhas possibilidades. O curioso é que nem Ángel nem Sér- gio, que trabalharam no planejamento, colaboraram no volume, mas me fizeram colaborar...
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Antonio Candido em letra, voz e história

Antonio Candido em letra, voz e história

De fato, o inesperado texto de Souza Caldas dirigido a João de Deus Pires Ferreira, o quarto filho de Domingos Malaquias, traz importantes contribuições para o andamento da pesquisa e do trabalho em curso que venho fazendo correr paralelamente sobre Gervásio. E recolho dele o comentário sutil e a referência crítica de Antonio Candido, que deverá abrir para mim uma nova pista. A de que há de pensar-se no conjunto. Para além de Gervásio, que estudou Matemática em Coimbra, como muitos de sua família, o seu irmão, Bacharel em Leis, eles per- tenciam a uma aristocracia que se tornaria moderna, passando por experiências internacionais, libertárias e não fazendo parte dos negociadores de escravos que acumulavam grandes fortunas no Brasil Colônia.
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