Top PDF O discurso não confiável em O Delfim, de José Cardoso Pires

O discurso não confiável em O Delfim, de José Cardoso Pires

O discurso não confiável em O Delfim, de José Cardoso Pires

discurso irônico. Ou por outra: esse “inventor de verdades”, ao se confessar como tal, abre caminho para que o tomemos não como um mentiroso, ou como um revolucionário, que mente para criticar disfarçadamente o regime totalitário, mas como um locutor não confiável. Não se trata, porém, de ter “um pé atrás” tal como alguns críticos recomendam que tenhamos quando nos depararmos com um narrador como Dom Casmurro, por exemplo 24 . Isso porque o pacto estabelecido aqui é outro: o próprio Autor (personagem) de Cardoso Pires nos, lembra, amiúde que seu discurso não quer ser verdadeiro, ou melhor, que sua verdade não é única, nem verificável, mas inventada. É possível, então, encontrar outros registros da “escrita entre parênteses” ao longo do romance, e o efeito observável será quase sempre este, a sobreposição de verdades. No capítulo III, por exemplo, o narrador comenta: “desenha-se-me, muito clara, uma frase de Tomás Manuel que anotei (ou não – é questão de procurar) no meu caderno” 25 . Ou ainda, um pouco antes: “[A prosa do Dom Abade] é feita de muita verdade histórica (classificação da minha hospedeira), com ‘muitos e muitos casos das famílias de melhores exemplos” 26 . Esses dois casos demonstram como os parênteses são introduzidos no texto para oferecer uma nova leitura do enunciado anterior. No primeiro exemplo, uma informação dada é submetida ao confrontamento com outra que, embora seja oposta a ela, não a exclui: daí a ideia da ironia como procedimento inclusivo. No segundo caso, o comentário sobre a Monografia do termo de Gafeira é atribuído pelos parênteses a outra pessoa. No entanto, por que o Escritor-narrador dispensou as aspas para a classificação da hospedeira e não o fez para o comentário sobre a presença das famílias exemplares na Monografia? Novamente, sugere-se a convivência de verdades.
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Delfins, corvos e dinossauros: interseções discursivas em José Cardoso Pires

Delfins, corvos e dinossauros: interseções discursivas em José Cardoso Pires

ro olhar, podendo, em outras circunstâncias, estar tão disfarçadas na palavra do narrador que quase nos escapam. E, se no primeiro caso o discurso cardosiano encena, com finalidades muitas que aqui não cabe ponderar, a natureza histórica de qualquer dizer literário, no segundo a menção, disfarçada, obriga-nos a entrar naquele jogo chamado “do olho vivo”, tantas vezes referido em O delfim, e tão propício a estabelecer cumplicidade intelectual, afectiva e emocional entre tex- tos e leitores. Um percurso, ainda que relativamente rápido, da obra de Cardoso Pires pode ilustrar a extraordinária densidade do tecido de interseções com os mais variados discursos. Deixo ao cuidado do leitor mais fundas ponderações so- bre as conseqüências estéticas e as implicações ideológicas, culturais, históricas e simbólicas de uma estratégia discursiva do tipo da de Cardoso Pires.
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Visualização de CONVERGÊNCIAS ESTÉTICAS ENTRE O RENDER DOS HERÓIS E O DELFIM, DE JOSÉ CARDOSO PIRES

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Silêncio a seguir: uma esposa que faz malha, um Engenheiro anfi trião que bebe. Rolando o copo nos dedos. Situação pouco agradável para um visitante, se não fosse o whisky velho que o acompanha e a não menos velha curiosidade que nunca abandona o contador de histórias esteja onde estiver. Coleccionador de casos, furão incorrigível, actor que escolhe o segundo plano, convencido que controla a cena. E quem os trama é o papel, o espaço que amedronta – e aí, adeus sufi ciência. Não há boa memória nem gramática que os salve. Aposto que Xenofonte, apesar de patrono dos escritores caçadores, foi muito melhor furão em campo aberto do que no papiro (Pires, 1983: 32).
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O realismo e os "realismos" da obra de José Cardoso Pires

O realismo e os "realismos" da obra de José Cardoso Pires

Nesse sentido, um dos aspectos mais importantes que demarca esta narrativa das outras está precisamente na ausência de uma visão de futuro, ou seja, os protago- nistas não conseguem aparentemente vislumbrar qualquer saída para a sua condição, nem para a sociedade que os subjuga. Um quadro um tanto desolador e fatalista que não se coaduna, de modo nenhum, com a esperança quase sempre enfatizada na lite- ratura neo-realista entre as duas guerras. Tudo isto é reforçado ainda pela utilização dos seguintes recursos formais: minimização dos eventos da história, que configura um espaço social petrificado; maior distanciamento do sujeito de enunciação, cuja pre- sença sobressai nas quatro notas de rodapé, na intencionalidade da epígrafe e no posfá- cio do livro; opção pelo discurso híbrido de monólogo/diálogo, caracterizador das per- sonagens, que manifestam as suas angústias, dúvidas e anseios mediante o registro abs- trato, veículo de revelação inequívoca de uma determinada visão do mundo, sempre a sublinhar a lucidez e o racionalismo no exame de um certo derrotismo existencial.
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A narrativa de José Cardoso Pires: personagem, tempo e memória

A narrativa de José Cardoso Pires: personagem, tempo e memória

A emergência da importância da personagem acompanha o regresso do autor. Assim se justifica o segundo tópico, “O caminheiro de uma nova prosa”. Refiro-me às novas pro- postas de Cardoso Pires, escritor em transição, saído do neorrealismo, mas com um pro- cesso maturacional que lhe permitiu escrever O delfim, romance que, na opinião de vários críticos, assinala o início do pós-modernismo em Portugal. O “caminheiro”, palavra cara ao autor, associa-se ao seu trajeto e metaforiza a sua atitude diligente, o desejo que nele existe de atingir a perfeição formal.
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O PROGRAMA DE INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA EM DUAS ESCOLAS ESTADUAIS DE JUIZ DE FORA: SUCESSOS E ENTRAVES

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criatividade”... A instituição possui além das salas de aula, refeitório pequeno com área externa coberta, biblioteca que funciona juntamente com a sala de recursos, laborató[r]

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A revolução a favor de ‘O Capital’: sobre desenvolvimento desigual em Marx — Outubro Revista

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Acreditamos, em suma, que a elaboração da concepção marxiana para o desenvolvimento no âmbito do ser social, sua teoria da história como se diz mais habitualmente[r]

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IRLENE COELHO ELOI DA SILVA O PAPEL DA COORDENADORIA REGIONAL DE EDUCAÇÃO DE COARIAM NA IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS EDUCACIONAIS PARA O ENSINO MÉDIO

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Além disso, serão abordados os estudos sobre os dois programas que surgiram no cenário educacional como políticas públicas educacionais curriculares, com propostas [r]

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PROJETO PROFESSOR DA FAMÍLIA: O ESTUDO DE SUA IMPLEMENTAÇÃO EM UMA ESCOLA DE SERRANOPOLIS DE MINAS (MG)

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A inclusão da Escola Estadual Ananias Alves na lista das escolas contempladas com a implementação do Profamilia despertou o interesse em pesquisar as ações desenv[r]

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Let. Hoje  vol.52 número2

Let. Hoje vol.52 número2

Alternando a voz narrativa entre as três personagens e mesclando os seus pontos de vista, utilizando ora a primeira, ora a segunda ou ainda a terceira pessoa do discurso, Maria Velho da Costa constrói uma subjetividade feminina complexa e multifacetada, respeitando a “natureza situacional, especíica e corporizada do sujeito feminista, em detrimento de essencialismos biológicos e psicológicos” e simbolizando “a multiplicidade de variáveis que deinem a subjetividade feminina: raça, classe, idade, preferências sexuais e estilos de vida, como grande eixos de deinição de identidade” (BRAIDOTTI, 2002, p. 158). O recurso de variação do ponto de vista faz- se presente no “olho da mosca, eicazmente poliédrico e móvel, [que] está em tudo” (COSTA, 1986, p. 381), como é colocado pelo próprio romance.
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VALSA LENTA, TEMPO DE ESCRITA, TEMPO DE VIDA

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Pode ou não consegui-lo, o leitor pode gostar mais deste ou daquele Uvro, mas sabe que pode ir à confiança: qualquer livro de José Cardoso Pires é o melhor livro que ele conseguiu es[r]

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Bonapartismo: o fenômeno e o conceito — Outubro Revista

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Assim, não só em momentos de “crise de hegemonia”/“equilíbrio de forças” – e Poulantzas, discordando de Marx e Engels, considerou que não houvera tal equilíbrio quando da [r]

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CAPACITAÇÃO DE SERVIDORES: O CASO DO CAMPUS AVANÇADO DA UFJF EM GOVERNADOR VALADARES

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Para preservar a identidade dos servidores participantes da entrevista coletiva, esses foram identificados pela letra S (servidor) e um número sequencial. Os servidores que não pa[r]

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O capitalismo dos fundos de pensão — Outubro Revista

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Para dar apenas alguns exemplos: esquece-se freqüentemente que se os próximos anos são marcados pelo “envelhecimento” da população, os anos de crescimento veloz do segundo pós-guerra tam[r]

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A GESTÃO DO CONHECIMENTO EM INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE ENSINO: O CASO DE UM SETOR DA UFJF – Mestrado em Gestão e Avaliação da Educação Pública

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Além desta verificação, via SIAPE, o servidor assina Termo de Responsabilidade e Compromisso (anexo do formulário de requerimento) constando que não é custeado pel[r]

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA CAEd- CENTRO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFISSIONAL EM GESTÃO E AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA

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A presente dissertação objetivou a elaboração de uma proposta de intervenção para minimizar a defasagem de aprendizagem de Matemática em uma Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) no estado do Ceará. A partir de um caso de gestão, foram investigadas as condições de trabalho com a disciplina na instituição educacional para a proposição de alternativas à superação do problema encontrado. Esse recorte se justificou pelo fato de a autora deste trabalho, no início da pesquisa, ter sido gestora da EEEP em análise e, por isso, verificado que a defasagem de aprendizagem, especialmente em Matemática, pode se configurar como um dos principais entraves à implementação dos cursos profissionalizantes na escola. A fim de obter informações para descrever e analisar o caso, a investigação teve como metodologia o uso de entrevistas com roteiros semiestruturados e pesquisa documental. Ao final da descrição do caso no capítulo 1, levantou-se como hipóteses dois os elementos centrais que influenciam na existência do problema: a organização e as responsabilidades do trabalho da equipe gestora e o papel da gestão escolar na formação e no auxílio à atuação docente. No capítulo 2, o problema foi analisado levando-se em consideração esses dois elementos. A análise dos dados foi feita a partir da perspectiva de alguns autores: Heloísa Lück, Henry Mintzberg, Thelma Polon, José Carlos Libâneo, Márcia Lima, Ana Maria Falsarella, Sérgio Lorenzato, Plínio Moreira e Fernando Almeida. Desse modo, no capítulo 3, apresentou-se uma proposta de intervenção que consiste em ações para redefinir as atribuições da equipe gestora e organizar o seu trabalho, a fim de que a gestão possa atuar na formação e no auxílio à atuação docente, com foco no professor de Matemática. Dessa forma, nos limites desta investigação, proposições foram consideradas como uma tentativa de contribuir para superar a defasagem de aprendizagem em Matemática na escola pesquisada.
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Referência Técnica para Atuação de Psicólogas(os) em Programas de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto [2012] - CREPOP CREPOP

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Muitos aspectos destacam-se, por exemplo: a diversificação e a heterogeneidade das ações profissionais; a juventude das(os) psicólogas(os) que atuam na área, indicando que ela se const[r]

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A criatividade da infância e sua capacidade de lidar com a morte em José Cardoso Pires e Guimarães Rosa

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João Janico parece ser o mais reprimido dos quatro meninos, pois sequer tem voz junto ao padastro, à mãe, ao hóspede da casa ou ao revisor, no elétrico em que volta para casa depois daquele terrível dia de verão de busca de trabalho, com suas botas forradas de pele. Ele consegue entretanto fazer-se ouvir e respeitar pelos outros meninos, que são de classe social superior mas se irmanam a ele, compreendem o seu drama, dão-lhe conselhos e acompanham-no até o trem. Cardoso Pires apresenta assim, poeticamente, resquícios de uma formação neo-realista que prega a união das classes e a necessidade de conscientização de cada um.
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O trabalho em perspectiva global:  um novo começo — Outubro Revista

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locais e internacionais tomaram a frente em campanhas que antes eram exclusivas do movimento sindical internacional, tais como a luta para regular e abolir o trabalho infa[r]

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