Top PDF O EROTISMO REVISITADO NA POÉTICA DE HERBERTO HELDER

O EROTISMO REVISITADO NA POÉTICA DE HERBERTO HELDER

O EROTISMO REVISITADO NA POÉTICA DE HERBERTO HELDER

A obra de Herberto Helder é muito vasta e inclui trabalhos de poesia e tradução. Nota-se que na sua escrita há uma relação íntima entre as duas, tanto a poesia como a tradução surgem com uma potência erótica que será fundamental para a criação herbertiana. A tradução está intrinsecamente relacionada à criação, o próprio modo peculiar de o poeta nomear esse trabalho “poemas mudados para português” revela isso. A poesia e a tradução também instauram uma violência contra a linguagem, as duas deformam a língua, tirando-a do lugar-comum do sentido e aplicando a potência do vazio sobre ela. A desconstrução do sentido da palavra é o que possibilita a criação poética. A escrita de Herberto Helder é relacionada ao corpo e as imagens dos órgãos sexuais, do sangue, do sêmen e da saliva apontam para o corpo deformado, pensado agora em partes energéticas e é da deformação do corpo que surge o buraco para o fazer poético. Busca- se pensar na importância do erotismo como vetor de construção poética. Nesse sentido, as reflexões de Georges Bataille serão importantíssimas para nortear o erotismo e o relacionar à obra de Herberto Helder. Desta forma, a hipótese que se lança é de que o erotismo impõe uma violência contra a palavra e o corpo necessária para o trabalho de criação. Nesse sentido, nossa busca será pela presença do erotismo na poesia e na tradução de Herberto Helder, privilegiando os textos onde se encontra a imagem da criação.
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Haroldo de campos e Herberto Helder: a antropofagia como criação poética Haroldo de Campos and Herberto Helder : the antropophagy as poetic creation Geovanna Marcela da Silva GUIMARÃES

Haroldo de campos e Herberto Helder: a antropofagia como criação poética Haroldo de Campos and Herberto Helder : the antropophagy as poetic creation Geovanna Marcela da Silva GUIMARÃES

comum vermos ensaios e artigos de literatura, tais como o de Rui Torres, “Camões transformado e remontado: o caso de Herberto de Helder” (2006) que se valendo de outro ensaio, Outrora agora: relações dialógicas na poesia portuguesa de invenção (1993) de Maria dos Prazeres Gomes, aproxima a proposta de tradução como criação e releitura da tradição de Haroldo de Campos à tradução e releitura poética desenvolvida por Herberto Helder. Sendo que essa aproximação entre os dois poetas feita por Torres tem como intuito explicar a poesia herbertiana, mais especificamente, a poesia experimental portuguesa, a partir das teorias haroldianas, associando os conceitos de transcriação e plagiotropia ao trabalho poético herbertiano, numa forma de mostrar a desconstrução da tradição empreendida pelo poeta português. Entretanto, ainda não foi realizado um trabalho que estabelecesse uma ponte de convergência entre os dois autores como forma de mostrar que os projetos poéticos de Haroldo de Campos e o de Herberto Helder são semelhantes no que tange à releitura/desconstrução da tradição. Nesse caso, é importante ressaltar que essa convergência, desde o início, implica numa diferença, uma vez que cada poeta ao fazer sua releitura e renovação da tradição, o faz de modo particular e específico que, na maioria das vezes, está ligado ao processo de tradução poética – muito importante para a compreensão do trabalho de criação desenvolvido por ambos – pensada como diálogo entre línguas, culturas, literaturas e autores.
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Photomaton & Vox: a construção da poética de Herberto Helder

Photomaton & Vox: a construção da poética de Herberto Helder

em Photomaton & Vox, ocorre ainda a construção da figura do poeta, imagem in- dissociável da ideia de poética, por ser ele o artista que trabalha o material da lingua- gem. Importante lembrar a lição de Rosa Maria Martelo no livro os nomes da obra, sobre a construção da imagem ou figuração do poeta na poética herbertiana: “as imagens (figurações) que temos do poeta Herberto Helder estão, por isto mesmo, in- timamente ligadas a uma ideia de escrita na qual a dessubjectivação é obtida através da emergência das imagens em sentido retórico e perceptivo/memorativo. ” (2016: 13). Para Herberto Helder, o poeta é um demiurgo que recria um universo à seme- lhança do mundo real, retirando dele as imagens primordiais e as transformando em novas, agora em um sentido “retórico e perceptivo/memorativo”, como salientado por Rosa Maria Martelo e evocado pelo próprio poeta: “Eu pergunto se o poeta cria as coisas, pergunto se as reconhece, ou então se as ordena” (131). a ideia da orde- nação está ligada ao conteúdo do poema que “não é a apresentação da paisagem, a narrativa de coisas, a história do trajeto, mas um nó de energia como o nó de um olho ávido, o fulcro de uma corrente electromagnética” (131). Nessa “cosmogonia”, como define Maria lúcia Dal Farra (1986) ao analisar a obra do autor português, está a figura do poeta “personagem”, criatura capaz de transitar entre os mundos e que “confessa”, no próprio poema, a vocação para construir universos.
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Interseções poéticas: uma ponte dialógica da poesia modernista e contemporânea por meio da poética de Fernando Pessoa e Herberto Helder, em “Hora absurda” e “Para o leitor ler de/vagar”

Interseções poéticas: uma ponte dialógica da poesia modernista e contemporânea por meio da poética de Fernando Pessoa e Herberto Helder, em “Hora absurda” e “Para o leitor ler de/vagar”

Algumas leituras e releituras da poesia portuguesa feitas durante o processo de cons- trução do conhecimento da poética de Pessoa e Herberto apontaram para possibilidades ambivalentes entre as poéticas desses autores. Inicialmente, as leituras conduziram mais para aproximações, mas houve estudiosos apontando para dissonâncias entre os poetas portugueses, o modernista Fernando Pessoa e o contemporâneo Herberto Helder. Dadas as possibilidades em mãos, a aproximação da poética entre ambos era algo mais evidente que as dissonâncias, estas voltadas mais para uma concepção de pensamento dos poetas em relação às vanguardas portuguesas, ambos apresentavam um posiciona- mento claro sobre o movimento surrealista português. As aproximações eram bastante pontuais em se tratando de temáticas específi cas e bem direcionadas, que convergiam para diálogos possíveis entre os autores, por meio de um olhar sobre a metapoesia.
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“DEVAGAROSA MULHER COBRA”: HERBERTO HELDER, UMA POÉTICA DA TRADUÇÃO

“DEVAGAROSA MULHER COBRA”: HERBERTO HELDER, UMA POÉTICA DA TRADUÇÃO

Para além das modificações estruturais, que não percebo como tão relevantes, é preciso assinalar a introdução no poema da palavra mulher, ausente no original. Na versão em inglês apenas o título remete diretamente à figura feminina, mas não é exatamente a uma mulher, e sim a uma garota. É claro que o sentido geral do poema aponta novamente para a figura feminina, mas ela nunca é referida diretamente e o refrão reforça apenas a imagem da cobra: “O my black cobra”. Ao introduzir a imagem da mulher no lugar da garota, Herberto Helder dá ao poema um tom muito próprio, e que será intensificado com o uso do neologismo “devagarosa”, uma palavra extremamente significativa em sua poética, atravessando inclusive a “pulsão destrutiva” 17 do autor que fez com que apenas alguns fragmentos do livro Retrato em
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HERBERTO HELDER E A POÉTICA PÓS-MODERNA

HERBERTO HELDER E A POÉTICA PÓS-MODERNA

Apesar de fugir aos traços normalmente aceitos como característicos da poesia portuguesa pós-moderna, Herberto Helder é um homem deste tempo de proliferação de imagens, de não totalização, de incertezas sobre a possibilidade da representação nas artes e na literatura, de dúvida quanto à autoridade das ciências e do próprio artista, de fechamento no eu, de deriva incessante. Entretanto, sua obra atesta constantemente a potência criadora da poesia, seu enraizamento nas entranhas deste planeta, refutando a sua irrelevância numa época enredada em discursos sobre discursos, de reflexos sobre reflexos, de irreferencialidade, como se pode constatar no poema IV de Do mundo (1991-1994) 2 :
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Palavras em desdobramento na poesia de Herberto Helder

Palavras em desdobramento na poesia de Herberto Helder

Estaria concentrado nesse embate o próprio processo de ebulição da escrita? De uma parte, tudo o que jorra, tudo o que surge em profusão; de outra, o trabalho minucioso do poeta em aparar todas as arestas, em lapidar a imagem bruta, até conseguir com que irrompa a letra fulgurante, a qual assume seu espaço na página, haja vista o concerto de sons resultante da aliteração da sibilante s, em «essa letra, essa cidade em silêncio / [...] sangue» (10º e 11º versos), ampliação do processo que se inicia, de forma condensada, em verso anterior, «sombria num girassol» (9º verso), e que, ao se encerrar com um travessão, abre para a expansão da voz poética.
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Herberto Helder: electronicolírica fazse contra a carne e o tempo

Herberto Helder: electronicolírica fazse contra a carne e o tempo

Em Electronicolírica, a leitura linear pode ser substituída por uma leitura em travessias e correlações. E se o que daí deriva incide na tradição do illisible, e se resiste à imediata compreensão e consumo, nada disso mitiga a força da expressão poética. A aleatória combinação na esteira da chamada “poesia por computador” não trava o fulgor poético-encantatório de Herberto Helder: é do esvaziamento mesmo dos conteúdos que flui o ímpeto criador capaz de excitar a nervura verbal do real. O ímpeto criador associado ao jogo de bricolagem ativado pela máquina lírica foi, como vimos, uma das constantes da poesia de Herberto Helder aqui privilegiada. Resta citar alguns versos mais à guisa de conclusão:
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O experimentalismo como invenção, transgressão e metamorfose

O experimentalismo como invenção, transgressão e metamorfose

Como Hatherly (1983) demonstra nos seus estudos sobre o Barroco, a poesia combinatória e visual tem um passado complexo e profuso. Os expe- rimentalistas expandiram este legado, ao aplicarem processos aleatórios e combinatórios nas suas obras, influenciados por experiências europeias pre- cursoras em poesia digital (Hatherly, 1978). Efectivamente, enquanto Aragão informava Herberto Helder sobre a vanguarda italiana no contexto de uma Arte como «Campo de Possibilidades» (1963), exemplos radicais surgiam nos anos 1960, incluindo, entre outros, o «Soneto Soma 14x» de Melo e Castro (1963) ou o livro Electrònicolírica de Helder (1964), no qual o poeta defende o «princípio combinatório [como] base linguística para a criação poética».
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Infinito e segredo nas poéticas da combinação de Melo e Castro e de Herberto Helder / Infinite and Secret in the Poetics of Combination of Melo e Castro and Herberto Helder

Infinito e segredo nas poéticas da combinação de Melo e Castro e de Herberto Helder / Infinite and Secret in the Poetics of Combination of Melo e Castro and Herberto Helder

Foram as vanguardas históricas do início do século XX que introduziram de modo criativo um uso da linguagem poética que tomasse máquinas como modelos. O futurismo italiano, o dadaísmo franco-suiço e o cubofuturismo russo-soviético fizeram o elogio da modernidade naquilo que ela teria de técnico, industrial, fabril, geométrico, calculável e manipulável. Peter Burger afirma em Teoria da vanguarda que esse ideário seria contraditório por deitar raízes na narrativa burguesa do progresso técnico e, ao mesmo tempo, desejar romper com a linguagem do utilitarismo burguês ao ambicionar o encontro entre vida e arte através do mesmo progresso técnico no âmbito da linguagem artística. É ainda no influxo dessas vanguardas no pós-guerra que tanto Melo e Castro quanto Helder experimentarão criar via dispositivos combinatórios.
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A  e a  da escrita: confluências entre Herberto Helder e Maurice Blanchot

A e a da escrita: confluências entre Herberto Helder e Maurice Blanchot

O tema da criação literária percorre há muito a literatura, em especial a poesia. A valorização da escritura em detrimento do Humanismo e da História, ambos detentores de um saber teleológico, permite-nos hoje percebê-la por si e numa busca de si. Em nossa contemporaneidade, a noção de unidade não permanece em sua essência primária, o que nos permite pensar na idéia de fragmentação. Tencionamos apresentar uma leitura da poética de Herberto Helder atentando para as figurações da imagem do corpo e mostrar a relação entre criação literária, origem da voz poética e corporificação/fragmentação do discurso. Dedicaremos ainda parte de nossos escritos a elaborar uma reflexão sobre a leitura de poesia e sobre a situação da linguagem poética a partir de críticos pós-estruturalistas, mas sempre pensando o texto literário de Herberto Helder. Concentrar-nos-emos em alguns poemas da edição brasileira de Ou o poema contínuo. Fundamentamo-nos em concepções teórico- filosóficas de Maurice Blanchot, nas obras L’espace littéraire, La part du feu, L’entretien infini et Le livre à venir, por exemplo, e ainda levamos em conta leituras de Roland Barthes, Gilles Deleuze, Giorgio Agamben, Antoine Compagnon, Jacques Rancière e Leyla Perrone- Moisés.
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Tradução e transgressão em Artaud e Herberto Helder.

Tradução e transgressão em Artaud e Herberto Helder.

Do mesmo modo, se pensarmos no gesto instaurador que é a prática poética – e no que ela tem de semelhante à tradução –, parece-nos bastante plausível que esse ato não seja compreendi- do como uma tentativa de recuo a um passado a-histórico, como a busca de uma origem situada fora do tempo, num momento primeiro em que a linguagem não estaria divorciada das coisas. É certo que o ato poético deseja ser um ato instaurador, mas devemos entender essa instauração como o modo de funcio- namento de uma potência desagregadora do presente, e não como o retorno nostálgico a uma origem perdida no passado; o ato poético é algo da ordem de um acontecimento. Seguindo o pensamento de Didi-Huberman, poderíamos dizer que o ato poético não busca regressar a uma origem, ele é a própria ori- gem, mas uma origem que é também histórica, na medida em que é a partir dela que se constitui uma nova temporalidade.
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Um serviço de poesia: o Ofício e as Servidões de Herberto Helder

Um serviço de poesia: o Ofício e as Servidões de Herberto Helder

O fato é que Servidões revisita textos próprios, reapropria-se deles, dialoga com eles e também com uma série de outras referências alheias, citadas ou sugeridas. Procede assim com Edoi lelia doura, com Cobra, com A máquina de emaranhar paisagens, com Apresentação do rosto, com Photomaton & vox, por exemplo. Também com Camões, Dante, Villon, Verlaine, Cesare Pavese, Rimbaud, Goethe, Von Kleist, Cavafi, Issa, etc. E, nesse diapasão, um dos poemas chega mesmo a indicar “uma bibliografia dispensável” que envolve a obra de Anthony Grafton, numa específica tradução: a de Antoine Fabre – Les origines tragiques de l´érudition. Une histoire de la note en bas de page. O que puxa a atenção do leitor, de novo, para o limiar da poética de Helder, para aquela zona dúbia onde se deposita o parergon, ou seja, para aquilo que, estando no limite exterior, se encontra permanentemente em falta no interior. 16 E, segundo creio, esse desenho, que desloca as hierarquias, não
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Os sentidos da revelação: Sophia e Herberto

Os sentidos da revelação: Sophia e Herberto

A obra de dois poetas portugueses do século XX dão um especial tratamento a questões de ordem sagrada: Sophia de Mello Breyner Andresen e Herberto Helder, cada qual ao seu modo e ao seu tempo, laboraram a palavra poética para que nela se restituísse um vínculo primordial com as coisas. A crença nos poderes de revelação da linguagem quando em estado de poesia é uma fé na reabilitação do mundo em sua condição de reino mítico. E como todo gesto de fé (segundo humanisticamente entendo a situação de poeta), a escrita se realiza como aposta incerta. Neste sentido, a demanda poética pelo sagrado, ainda que se fundamente por um desejo de totalidade, unificação cósmica e plenitude, não exclui de seus processos a fragmentação, a descontinuidade, a falta, de maneira que a criação traça um percurso que visita territórios de terror e harmonia, angústia e equilíbrio, caos e ordem.
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A utopia da palavra ou a demanda do idiolecto impossível: sobre Servidões, de Herberto Helder

A utopia da palavra ou a demanda do idiolecto impossível: sobre Servidões, de Herberto Helder

uma espécie de súmula existencial, em que o si-mesmo que se contempla ao espelho é o mesmo que examina o rosto desenhado pelas palavras. A componente visceralmente existencial e mesmo biográfica deixa-se, desde logo, entrever na anotação reiterada da idade do sujeito escrevente (80 anos), incluída, por exemplo, na datação da seguinte composição poética: “saio hoje ao mundo,/cordão de sangue à volta do pescoço,/e tão sôfrego e delicado e furioso,/de um lado ou de outro para sempre num sufôco,/iminente para sempre. 23.XI.2010: 80 anos”. 9 Ou ainda na

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Considerações sobre a infância em Herberto Helder e Andrei Tarkovski / Remarks About Childhood in Herberto Helder and Andrei Tarkovski

Considerações sobre a infância em Herberto Helder e Andrei Tarkovski / Remarks About Childhood in Herberto Helder and Andrei Tarkovski

Como apresentarei posteriormente, este princípio de repetição pela diferença se estende também à imagem-tempo e, em certa medida, à própria concepção deleuziana do sentido enquanto atualização constante das relações diferenciais possíveis entre o acontecimento e a virtualidade da linguagem. (DELEUZE, 1998, p. 51). Assim, enquanto instância da repetição das imagens – signos – a montagem, segundo Deleuze, é agenciamento das imagens-movimento (DELEUZE, 1985, p. 84), ou seja, a relação de caráter molecular, que se dá entre partículas distintas, mas que, vizinhas, engendram possibilidades de interação; em suma um devir. Ora, o devir nada mais é do que o desejo (DELEUZE, 1997, p. 55). Modulação de velocidades, fábrica de intensidades, produção de imagens, máquina de emaranhar paisagens. Seja na enunciação poética, seja na projeção, opera-se, portanto, um regime de metamorfose que transite tanto pela corporeidade sensível quanto pela sua reificação na palavra, junção de morte e vida.
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Poema-mundo: corpo-poema

Poema-mundo: corpo-poema

modo como converge para a construção do que, segundo abordagem de Deleuze, seria um “grande pensamento”. Diferente do que ocorre em O corpo o luxo a obra (2006), poema contínuo cujo centro energético parece estar na ideia de corpo orgânico, trata-se de uma poética marcada por divisões cujas partes comunicam-se entre si e com outros poemas da obra herbertiana, de modo que esse diálogo converge para a ideia de gênese. É nesse poema, por excelência, que o trânsito da ideia de corpo para a de mundo parece manifestar-se de forma mais expressiva, já que, no texto poético, o corpo genesíaco presente em O corpo o luxo a obra retorna em um movimento em espiral e culmina na diluição dessa imagem que se confunde no fluxo das agitações, também orgânicas, do mundo. Como afirma Rosa Maria Martelo em “Corpo, Velocidade e Dissolução (De Herberto Helder a Al Berto)” (2001): o esvaziamento do eu, ou, no caso em questão, de uma forma, tem por produto final forças e energias que fazem de dada referência “uma espécie de palco onde os fluxos vitais adquirem um sentido cósmico.” 2 Se se pode identificar dados momentos
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Sonata para pulsões (sobre A Máquina Lírica de Herberto Helder)

Sonata para pulsões (sobre A Máquina Lírica de Herberto Helder)

A mãe constitui, porém, uma figura ambígua, apontando para duas ideias: de um lado, tem-se a irrupção do semiótico no simbólico a partir da força propulsora que vem dela; de outro, a mãe pode ser entendida associada ao simbólico na medida em que está ligada ao idioma ordenado pela gramática. A “língua dentro da língua” precisa de autonomia em relação à língua- mãe, a língua materna. A poesia também se faz da luta violenta entre a língua e a outra língua do poético. O surgimento do semiótico não acontece sem destruição. A força motora do poético é a mãe em estado de dissolução, a mãe morta. Mas a mãe morta também renasce através de sua presença no poema. Há um constante movimento de vida para morte e de morte para vida na linguagem poética. A língua depois da morte (da mãe, da língua, da língua-mãe, do simbólico) renasce como outra língua (da poesia, do semiótico). A outra língua também diz respeito à presença da mãe sonhada, imaginada e lembrada, a que fala ao filho em diálogo, reconstituída “toda”, saída do silêncio através da linguagem-diálogo poético: a mãe recriada.
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Auto-bio-thanato-grafia: a experiência do silêncio em Photomaton & Vox, de Herberto Helder

Auto-bio-thanato-grafia: a experiência do silêncio em Photomaton & Vox, de Herberto Helder

A experiência do silêncio como suspensão temporária da existência em lin- guagem é portanto um gesto que fica inscrito em Photomaton & Vox como de- claração de poética e que atinge o fim com “(a morte própria)”. Sob a forma de uma progressão constante no sentido de uma depuração da linguagem, como se se morresse progressivamente, por etapas de re-escrita, até atingir o silêncio final. Diga-se, para terminar, que “(a morte própria)” foi já recuperada duas vezes nas reedições de Photomaton & Vox e que desde esse texto final até hoje a es- crita voltou a sobrepor-se ao silêncio tanto na edição de textos inéditos como na reescrita de outros anteriores. A última manifestação da “aventura criadora” (p. 70) de Herberto Helder é, à data, Ou o poema contínuo de 2004, uma muito recen- te edição de Poesia toda que exclui todos os livros de versões e retoma o título de Ou o poema contínuo de 2001, que assim passa a ser a súmula de um livro posterior. Depois do livro de 2001, Ou o poema contínuo de 2004 marca mais uma etapa na continuidade da escrita, para lá dos sucessivos patamares de finali- zação da obra, para lá dos vários silêncios finais.
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Uma linguagem universal de água, fogo, terra e ar

Uma linguagem universal de água, fogo, terra e ar

Maria Lúcia Dal Farra, em A Alquimia da linguagem: leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder (1986), questiona a tendência de classificar a obra herbertiana como ilegível, associando-a ao princípio de não-identidade característico do poeta moderno. A poeta brasileira sublinha a rutura com a poética de tradição simbolista francesa, em que o eu poético se exaltava como superior e individualista, distanciando- se do leitor comum e aproximando-se apenas do leitor elitista. Esta tendência altera a imagem estereotipada do poeta, anteriormente visto como um ser superior por excelência e agora diminuindo como um condutor dos homens, aquele que comunica e pensa para o leitor, deixando de ser apenas auto-referencial.
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