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Photomaton & Vox: a construção da poética de Herberto Helder

Photomaton & Vox: a construção da poética de Herberto Helder

a ideia de Sousa dias encontra fundamento também em Mikel dufrenne em o po- ético (1969), no sentido de que a palavra, matéria essencial do poema, dimensiona o mundo e a experiência que usa como referência para a sua estrutura interna de sen- tido: “Que o assunto só se torna poético no poema, permanece irrefutável. Importa, porém, acalentar a ideia de que ele possa possuir por si mesmo uma carga e, por con- seguinte, de que o mundo ao qual foi arrancado possa ser poético” (1969: 93). Para o autor português, assim, o poema é “um instrumento, mas não das disciplinas da cul- tura, é uma ferramenta para acordar as vísceras – um empurrão em todas as partes e ao mesmo tempo” (120). a matéria-prima em Herberto Helder é a própria palavra, que é imagem e sentido. Por ser potência, a palavra constrói o significado escolhido pelo poeta, elaborado e organizado através de elementos pontuais que constituem técnica que lhe é peculiar. Essa palavra não se preocupa em exprimir algo do mundo real, mas uma característica que aparece na reflexão metapoética expressa na com- paração: a realidade é um repto e a poesia um rapto. a realidade funciona, então, como provocação ao poeta, oferecendo-lhe as circunstâncias que podem construir determinados sentidos, mas é na poesia, que é rapto, que a palavra assume a sua fun- ção de imagem e de metáfora (a ideia da conotação, intrínseca à construção poética). São extremos complementares, ambos queimam por que iluminam ou despertam o leitor em um movimento de epifania:
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Herberto Helder e o tradutor libertino

Herberto Helder e o tradutor libertino

Voltando ao comentário de Herberto Helder, verifi camos que a inclusão do poema no livro de traduções ilustra a ligação entre a libertinagem e a construção de um idioma poético. Devemos assinalar, de início, o fato de o mim, ao qual Herberto se refere, ser um idioma. Ora, se o poeta cita lado a lado a língua portuguesa e um mim, é porque esse mim é algo semelhante à língua portuguesa, um idioma, só que um idioma particular, como se fosse um dialeto falado por um único indivíduo. Entretanto, o idioma não é algo que o indivíduo escolhe e possui, ao contrário, é possuído por ele; mas é também por ser um idioma que ele poderá modifi car- se através dessa outra gramática, tal como fi ca claro na segunda parte da frase. Quando o poeta se deixa atravessar pela “fortíssima gramática poética portuguesa de Villa”, ele se transforma a partir do contato com a alteridade, ou, para seguir os passos do autor, o idioma que ele é adquire características do idioma com o qual entra em contato.
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Haroldo de campos e Herberto Helder: a antropofagia como criação poética Haroldo de Campos and Herberto Helder : the antropophagy as poetic creation Geovanna Marcela da Silva GUIMARÃES

Haroldo de campos e Herberto Helder: a antropofagia como criação poética Haroldo de Campos and Herberto Helder : the antropophagy as poetic creation Geovanna Marcela da Silva GUIMARÃES

As práticas tradutórias haroldiana e herbertiana aceitam o luto da tradução absoluta em favor da felicidade de se traduzir a diferença, representando assim, segundo Ricoeur, a hospitalidade linguística, que é a aceitação da língua estrangeira dentro da língua materna como forma de alargamento de estruturas e formas, tanto poéticas quanto estéticas. A consciência dessa hospitalidade entre as línguas permite a compreensão do sentido não como algo imanente à obra, mas sim como algo que precisa ser construído e criado. A construção do sentido se dá por meio de metáforas e semelhanças entre o que está expresso na língua de partida e o que está expresso na língua de chegada. É no contato entre línguas distintas que a língua materna do tradutor irá se alargar para receber a língua estrangeira e assim propor uma nova leitura, uma nova criação poética. Além disso, é possível constatar que as práticas dos dois poetas possuem as mesmas particularidades presentes na tradução de poesia, no sentido de que ambos valorizam a leitura crítica e reflexiva das obras traduzidas, da mesma maneira que veem a tradução como uma partitura musical, onde somente o som, o ritmo e o tom das palavras serão levados em consideração, pois é deles que o sentido emergirá. Ao fazerem isso, Haroldo de Campos e Herberto Helder deixam “o abrigo confortável das equivalências” (RICOEUR, 2011, p. 69) e partem rumo ao mundo da linguagem e dos signos, onde somente o tradutor-transcriador pode adentrar. Com isso, vemos que as práticas tradutórias tanto de Haroldo de Campos quanto de Herberto Helder são exemplos de aproximação entre a língua materna e a língua estrangeira na expressão de uma tradução poética que propõe a ruptura das ideologias dominantes.
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Grafias da metamorfose na poesia de Herberto Helder

Grafias da metamorfose na poesia de Herberto Helder

Apesar da complexidade para se explicar as relações de sentido nos versos aqui citados, haja vista as várias possibilidades de leitura que se abrem às imagens com seus predicados, tentaremos mapear algumas recorrências para a nossa abordagem que envolve a construção do que acreditamos ser um “Longo pensamento” em O Corpo, o Luxo, a Obra (HELDER, 2004). Grande parte das referências que compõem esse poema podem ser organizadas em conjuntos distintos, mas, entretanto, de maneira que cada grupo converge, de certo modo, para uma mesma ideia: a formação de um organismo vivo que se caracteriza pelas noções de dentro e de fora. Portanto, merecem destaque: 1) as insistentes referências ao corpo, que, por sua vez, é reclamado de forma metonímica pelos órgãos, pela estrutura anatômica (como os ossos, a coluna, o ventre em sua função geradora), pelas partes (como olhos, boca, mãos), e pelo sangue; 2) as constantes imagens que envolvem a terra (substantivo que se relaciona tanto à sua referência como elemental, quanto à própria noção de mundo, o qual se manifesta como espaço do dentro – em sua condição orgânica e criadora – e do fora – por ser um componente de um universo com seus astros e sistema planetário); 3) a própria obra de arte, evocada por elementos de natureza metalinguística, como as musas, a memória, a arte, a imagem, a palavra poética. A partir desses agrupamentos, é possível apresentar aqui pelo menos três figuras que acreditamos ser centros de energia e de força na obra em questão: o corpo, o mundo e o poema, imagens que atuam como pensamentos que formam séries singulares, de modo que convergem para um “pensamento” maior: a ideia de vida em processo, de um organismo em vias de transformação e de nascimento. Trata-se de um parto-animal-poético 11 que comunga com a gênese de um novo mundo, uma vez que tanto o corpo é reclamado em sua capacidade de criar e trazer algo novo ao universo, quanto o são o mundo e o poema.
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Auto-bio-thanato-grafia: a experiência do silêncio em Photomaton & Vox, de Herberto Helder

Auto-bio-thanato-grafia: a experiência do silêncio em Photomaton & Vox, de Herberto Helder

A experiência do silêncio como suspensão temporária da existência em lin- guagem é portanto um gesto que fica inscrito em Photomaton & Vox como de- claração de poética e que atinge o fim com “(a morte própria)”. Sob a forma de uma progressão constante no sentido de uma depuração da linguagem, como se se morresse progressivamente, por etapas de re-escrita, até atingir o silêncio final. Diga-se, para terminar, que “(a morte própria)” foi já recuperada duas vezes nas reedições de Photomaton & Vox e que desde esse texto final até hoje a es- crita voltou a sobrepor-se ao silêncio tanto na edição de textos inéditos como na reescrita de outros anteriores. A última manifestação da “aventura criadora” (p. 70) de Herberto Helder é, à data, Ou o poema contínuo de 2004, uma muito recen- te edição de Poesia toda que exclui todos os livros de versões e retoma o título de Ou o poema contínuo de 2001, que assim passa a ser a súmula de um livro posterior. Depois do livro de 2001, Ou o poema contínuo de 2004 marca mais uma etapa na continuidade da escrita, para lá dos sucessivos patamares de finali- zação da obra, para lá dos vários silêncios finais.
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Herberto Helder: electronicolírica fazse contra a carne e o tempo

Herberto Helder: electronicolírica fazse contra a carne e o tempo

no que tange à demanda de um signo que supra, que acrescenta, que “vem a mais”, pois, como veremos, a escrita livre de Herberto Helder embora herdeira da grafia surreal é menos automática do que marcada por uma consciência linguística diligente. Importa, sobretudo, é a aventura da construção textual e o jogo da sua realização. Se o princípio combinatório, como defende Herberto Helder, é a base linguística da criação poética, então, glosando Derrida, todo discurso é bricoleur. No caso, o lúcido jogo textual feito de imbricações várias alude ao trabalho de bricolage: entenda-se, com Giorgio Agamben, um “trabalho intermitente” cujo processo compositivo consiste em montar novas estruturas mediante a recombinação de peças e materiais disponíveis, por extensão, um trabalho
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O EROTISMO REVISITADO NA POÉTICA DE HERBERTO HELDER

O EROTISMO REVISITADO NA POÉTICA DE HERBERTO HELDER

A obra de Herberto Helder é muito vasta e inclui trabalhos de poesia e tradução. Nota-se que na sua escrita há uma relação íntima entre as duas, tanto a poesia como a tradução surgem com uma potência erótica que será fundamental para a criação herbertiana. A tradução está intrinsecamente relacionada à criação, o próprio modo peculiar de o poeta nomear esse trabalho “poemas mudados para português” revela isso. A poesia e a tradução também instauram uma violência contra a linguagem, as duas deformam a língua, tirando-a do lugar-comum do sentido e aplicando a potência do vazio sobre ela. A desconstrução do sentido da palavra é o que possibilita a criação poética. A escrita de Herberto Helder é relacionada ao corpo e as imagens dos órgãos sexuais, do sangue, do sêmen e da saliva apontam para o corpo deformado, pensado agora em partes energéticas e é da deformação do corpo que surge o buraco para o fazer poético. Busca- se pensar na importância do erotismo como vetor de construção poética. Nesse sentido, as reflexões de Georges Bataille serão importantíssimas para nortear o erotismo e o relacionar à obra de Herberto Helder. Desta forma, a hipótese que se lança é de que o erotismo impõe uma violência contra a palavra e o corpo necessária para o trabalho de criação. Nesse sentido, nossa busca será pela presença do erotismo na poesia e na tradução de Herberto Helder, privilegiando os textos onde se encontra a imagem da criação.
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Poema-mundo: corpo-poema

Poema-mundo: corpo-poema

modo como converge para a construção do que, segundo abordagem de Deleuze, seria um “grande pensamento”. Diferente do que ocorre em O corpo o luxo a obra (2006), poema contínuo cujo centro energético parece estar na ideia de corpo orgânico, trata-se de uma poética marcada por divisões cujas partes comunicam-se entre si e com outros poemas da obra herbertiana, de modo que esse diálogo converge para a ideia de gênese. É nesse poema, por excelência, que o trânsito da ideia de corpo para a de mundo parece manifestar-se de forma mais expressiva, já que, no texto poético, o corpo genesíaco presente em O corpo o luxo a obra retorna em um movimento em espiral e culmina na diluição dessa imagem que se confunde no fluxo das agitações, também orgânicas, do mundo. Como afirma Rosa Maria Martelo em “Corpo, Velocidade e Dissolução (De Herberto Helder a Al Berto)” (2001): o esvaziamento do eu, ou, no caso em questão, de uma forma, tem por produto final forças e energias que fazem de dada referência “uma espécie de palco onde os fluxos vitais adquirem um sentido cósmico.” 2 Se se pode identificar dados momentos
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Um serviço de poesia: o Ofício e as Servidões de Herberto Helder

Um serviço de poesia: o Ofício e as Servidões de Herberto Helder

O fato é que Servidões revisita textos próprios, reapropria-se deles, dialoga com eles e também com uma série de outras referências alheias, citadas ou sugeridas. Procede assim com Edoi lelia doura, com Cobra, com A máquina de emaranhar paisagens, com Apresentação do rosto, com Photomaton & vox, por exemplo. Também com Camões, Dante, Villon, Verlaine, Cesare Pavese, Rimbaud, Goethe, Von Kleist, Cavafi, Issa, etc. E, nesse diapasão, um dos poemas chega mesmo a indicar “uma bibliografia dispensável” que envolve a obra de Anthony Grafton, numa específica tradução: a de Antoine Fabre – Les origines tragiques de l´érudition. Une histoire de la note en bas de page. O que puxa a atenção do leitor, de novo, para o limiar da poética de Helder, para aquela zona dúbia onde se deposita o parergon, ou seja, para aquilo que, estando no limite exterior, se encontra permanentemente em falta no interior. 16 E, segundo creio, esse desenho, que desloca as hierarquias, não
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O escritor no espaço da obra: o rosto caligrafado – uma leitura de Apresentação do rosto, de Herberto Helder

O escritor no espaço da obra: o rosto caligrafado – uma leitura de Apresentação do rosto, de Herberto Helder

Na medida em que Apresentação do Rosto se constitui, tal como é editorialmente classificada, como uma “autobiografia romanceada” – ou, na perspectiva de Américo Lindeza Diogo, um dos críticos (nem sempre claro e evidente) que mais se tem detido sobre os textos de Helder, uma “biografia problemática […] que vem, na obra herbertiana, […] situar a figura do autor” (Diogo, 1990: 9); na medida em que esta “autobiografia”, reescrita, em fragmentos selecionados, em Photomaton & Vox, inclui textos explicitamente autobiográficos, esses são os lugares privilegiados para se poder, por um lado, observar os mecanismos textuais e discursivos por que se dá forma ao retrato do autor e, por outro, averiguar da possibilidade de ser esse o modo de dar origem à experiência da escrita. 3
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MARTELO, Rosa Maria. Os nomes da obra: Herberto Helder ou O poema contínuo Documenta, 2016. 93p.

MARTELO, Rosa Maria. Os nomes da obra: Herberto Helder ou O poema contínuo Documenta, 2016. 93p.

Se é, portanto, de maneira antropofágica que as imagens impõem-se em condição orgânica – e, consequentemente, única – no mundo de linguagem criado no poema, sua transposição para outro suporte de reprodução seria o canibalismo desta emenda promovida pelo texto. Em última instância, o filme revelaria o que no poema encontra-se em latência, oculto na palavra pela interface semântica que lhe é contrária, e, por isso, o aniquilaria fisicamente, como lembra Martelo (2016, p. 63) a respeito do texto Magias de Photomaton & Vox (1995). Como se vê, nada em Herberto ou no Poema contínuo é negociável, polido, tampouco pacífico. Desta forma, ainda que mais evidente na última poesia helderiana, a matéria bruta, mal burilada das imagens verbais ritmada pelo sopro de energia que constitui o poema é também parte do conjunto de processos em metamorfose que conformam a unidade da obra.
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O poema é um animal: obscuros bestiários de Herberto Helder

O poema é um animal: obscuros bestiários de Herberto Helder

A relação impensada para Heidegger, motivo preambular de A linguagem e a morte, revela-se da seguinte forma: a morte e a voz têm o mesmo fundamento negativo, uma vez que tanto uma quanto outra experiência suprimem uma voz e pressupõem o surgimento de outra Voz. Esclarecido isso, retornemos ao pensamento sobre a in-fância em Agamben para concluir. Pelo fato de o homem ter infância, a linguagem não é um de seus próprios, mas por a Voz ser possível a partir de uma supressão da voz natural, é tarefa do homem consentir, ao reencontrar uma Voz, com a insuficiência da linguagem e com a negatividade que a fundamenta, isto é, consentir com a própria morte. A única maneira de superá-los e superar a metafísica seria por meio do exercício da ética, explícita no já comentado epílogo de A linguagem e a morte. Haveria uma pendência da voz na linguagem e a maneira como cada ser humano resolve essa pendência é a ética, ou seja, como cada ser humano se porta em sua voz. Uma fundamental implicação surge precisamente nesse ponto: considerando a indeterminação da voz animal, o homem é aquele que deve saber usar a sua voz, pois que ela só se torna possibilidade a partir da cessação da voz do animal. Toda a argumentação de Agamben decorre no sentido de demonstrar como o homem não é o ser dotado de linguagem, como pensava Aristóteles, e de que forma se dá essa entrada na linguagem, em um lugar que não é próprio. Nesse ponto, retomamos Herberto Helder, quando o mesmo parece anunciar, na sua obra mais pessoal e, portanto, mais crítica, Photomaton & Vox, o incômodo que é estar num lugar que não lhe pertence: “o homem é uma linguagem, e o tema é a agonia da linguagem” (2006b, p. 128). A dificuldade em sentir o peso da linguagem angustia. Se a nós nos resta apenas a experiência da linguagem, cabe ao escritor, destituído de propriedades,                                                                                                                
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Este poema não existe: um caso de intermidialidade (e magia) em Herberto Helder / This Poem Does Not Exist: A Case of Intermediality (and Magic) in Herberto Helder

Este poema não existe: um caso de intermidialidade (e magia) em Herberto Helder / This Poem Does Not Exist: A Case of Intermediality (and Magic) in Herberto Helder

Resumo: O presente artigo pretende investigar as diferentes adaptações de um poema que Herberto Helder extirpou do conjunto de sua obra depois de assistir, durante sua estadia na África nos anos 60, a um curta-metragem baseado em seu texto. Ainda que a referência do poeta ao poema e à sua exclusão se restrinja à nota “(magia)”, em Photomaton & vox, o poema pode ser considerado um dos mais visuais e inquietantes de Herberto Helder, conforme é possível verificar em uma gravação em disco narrada pelo próprio poeta e por um curta-metragem mais recente disponível na internet, produzido pelo grupo O Dizedor. Partindo da premissa do próprio poeta de que “todo poema é um filme”, abordamos o poema original, publicado em 1968 no livro Apresentação do rosto, e procuramos demonstrar suas respectivas adaptações em áudio e vídeo e a outros textos de Herberto Helder afim de promover associações intermidiais, sobretudo entre a pintura e o cinema enquanto meios que permitem “ver” a poesia. Procuramos demonstrar que, mesmo sendo descartado por Herberto Helder, as várias releituras deste poema o tornam um dos mais adaptados dentre toda a sua obra.
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HERBERTO HELDER E A POÉTICA PÓS-MODERNA

HERBERTO HELDER E A POÉTICA PÓS-MODERNA

Fernando Pinto do Amaral, ao estudar a poesia moderna e pós-moderna em Portugal, situa os anos 1960 como um de seus momentos-chave, citando apenas de passagem “o irreprimível e poderoso fluxo imagético pós-surrealista de Herberto Helder” (AMARAL, 1991, p. 47). O privilégio à textualidade, a “rarefação do sentido”, o adensamento do significante, o experimentalismo típicos da Poesia-61, segundo ele, teriam se esgotado nos anos 70 em favor de uma comunicabilidade neoconfessional, de uma atenção ao cotidiano, de uma vontade de realismo, de uma ênfase à experiência vivida, emocional, de um resgate do sentido (idem, p. 48-49) que persistiriam para além do século XX.
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Da revisão autoral na poesia de Valter Hugo Mãe: as edições de três minutos antes de a maré encher

Da revisão autoral na poesia de Valter Hugo Mãe: as edições de três minutos antes de a maré encher

aqui é identificar a arte poética de Valter Hugo Mãe com uma textualidade flutuante, assente no exercício da revisão, e observar também que, ao serem periodicamente levadas à estampa, as três versões deste livro formam um continuum desestabilizador das convenções editoriais. Isto porque, se, por um lado, cada edição é (pelo menos durante algum tempo) fixa, justificando a leitura em si mesma, não podemos ignorar que as diferentes configurações assumidas pelo livro emprestam grande dinamismo a uma obra, que o autor (por vocação própria e influência geracional) vê sempre “como um estádio intermédio e nunca uma fixação definitiva” (Mãe, 2008: 217).
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Alguém, ninguém, algo escreve? : breve nota sobre a cena da escrita em Herberto Helder?

Alguém, ninguém, algo escreve? : breve nota sobre a cena da escrita em Herberto Helder?

Portanto, o leitor de Herberto Helder sabe que só na escrita se produzem tais trans- mutações. E todavia, a imagem de poeta que emerge destes textos é tão irradiante e pode- rosa, que ele, leitor, fica preso na dupla visão de presença e ausência das figurações de autoria projectadas pelos poemas. Mesmo se a sua intensidade se apresenta sob a forma de uma solvente exposição ao nascimento do poema, mesmo se o poema «(…) devora / a mão que o escreve (…)» 18 , para usar uma formulação herbertiana, ao mesmo tempo o texto guarda (e diz guardar) uma memória dessa mão – e intensíssima. Porque, se por um lado nos mostra que algo escreve, também nos leva a conceber a figuração autoral daquele que «foi tão oficinal com as pontuações mais simples» 19 , com o «papel sobre a mesa» 20 , ou diante do caderno, escrevendo com a bic cristal preta:
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Os sentidos da revelação: Sophia e Herberto

Os sentidos da revelação: Sophia e Herberto

O poema em questão, texto que parece reivindicar uma aliança entre não só amigos, mas amigos poetas, indica, por meio de uma série de imagens que nos remete ao universo do ofício da escrita (os dedos, os livros, o talento), alguns dos topoi da poética herbertiana que mais de perto aqui nos interessa. A loucura (“Os amigos que enlouquecem e estão sentados [...]”), primeiro desses topoi que gostaria de assinalar, marca da desrazão dionisíaca que rege esta poesia, surge em simultâneo com a condição sentada dos amigos, condição que simbolicamente aponta para a situação criativa, como é possível notar em outros passos da obra de Herberto. Sendo assim, loucura e criação são tópicos correlativos, de modo que podemos inferir ser a criação uma espécie de loucura, ou um gesto por ela movido, o que faz do poema (o objeto criado) uma obra que resguarda sentidos à margem da lógica racional – organizadora do mundo profano do trabalho e da produtividade. A obra poética é, por assim dizer, em termos herbertianos, um anti-trabalho, uma ação geradora de improdutividade. Em Herberto, a criação é consumo excessivo, dispêndio. Talvez por esse motivo os amigos evocados tragam “os livros a arder para toda a eternidade”: imagem de ecos infernais que, por analogia, pode nos remeter a Lúcifer, o Príncipe das Trevas.
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"Constança Manuel": para além da história de amor entre Inês e Pedro.

"Constança Manuel": para além da história de amor entre Inês e Pedro.

No entanto, na ótica do conto, terá sido os excessos de Constança Manuel o motivo da fuga de Pedro para os braços de outra(s) mulher(es). Em contrapartida, a explicação para a atitude do infante está na educação que recebeu quanto ao seu gênero e em relação às mulheres. É escusado lembrar que a masculinidade, assim como a feminilidade, é também uma construção social de gênero, que não deixa de ser uma categoria importante para discussão. Ela é, afinal, um espaço simbólico de sentido estruturante que modela atitudes, comportamentos e emoções a serem seguidos. Aqueles que seguem tais modelos são atestados pela sociedade, da mesma forma que podem ser questionados caso não sigam (OLIVEIRA, 2004). Na ficção, Pedro, amedrontado pelas atitudes de Constança Manuel, lembrara “as palavras de seu bisavô, Afonso, o Sábio: ‘O casamento foi estabelecido para procriar filhos aumentando a linhagem dos homens, e para se evitar o pecado da fornicação’” (NERY, 1998, p. 66, grifos da autora).
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Sonata para pulsões (sobre A Máquina Lírica de Herberto Helder)

Sonata para pulsões (sobre A Máquina Lírica de Herberto Helder)

Na obra de 1963, A máquina lírica, o poeta português da Ilha da Madeira, Herberto Helder, desenvolve uma verdadeira jornada poética, da infância até a fase adulta de um sujeito lírico e de uma poesia que evoluem ao longo dos textos. O percurso poético é estabelecido através da simultaneidade de imagens correspondentes a diferentes fases da vida, possível por meio da interferência da memória. A continuidade que se estabelece na relação entre as poesias aponta, a partir de uma cena da infância, passado reativado pela memória no presente do eu lírico, para o momento fundador da sensibilidade e capacidade de elaboração poética. A escrita poética vai sendo amadurecida conforme esse sujeito também evolui no tempo, atravessando a infância e as outras etapas da vida, fazendo referência à adolescência (A menstruação quando na cidade passava), juventude e período adulto, quando o poeta reflete sobre a linguagem e a poesia (poemas com uso da metalinguagem).
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