Top PDF Política e história em Cícero: do conhecimento da natureza à ação política

Política e história em Cícero: do conhecimento da natureza à ação política

Política e história em Cícero: do conhecimento da natureza à ação política

conhecendo o espaço que a retórica e a persuasão possuem na obra ciceroniana? E o espaço do direito? Ambas as artes operam considerando o espaço para o convencimento, a comoção dos ânimos e a deliberação. Se todas as decisões estivessem prefixadas, então, de que nos serviria um orador ou um advogado? Por meio da argumentação, abrimos espaço para interferir, mudar uma decisão ou um julgamento. Dessa forma, precisamos do espaço para a ação deliberada e, consequentemente, para a liberdade humana. Cícero precisava tratar sobre o assunto de modo a abrir espaço para a liberdade e para a ação, caso contrário apenas poderia aceitar a finitude da República. Para isso, recorre à construção das figuras dos homens sábio-políticos – como vimos, que lhe forneça os paradigmas de ação –, ou seja, recorre à história. Por outro lado, homens como Catilina e Antônio são retratados, nas Catilinárias e nas Filípicas, como os que deram assentimentos falsos; logo, Cícero lhes atribui vícios, os submete a um forte julgamento moral e reforça a importância da moral para toda a obra política. Em De Officiis, III, nos parágrafos 21, 23, há exemplos de homens que agiram contra a natureza, por exemplo, roubando e enriquecendo às custas dos despojos alheios. Nos parágrafos seguintes 144 , conclui dizendo que se seguirem o princípio da justiça, ou seja, o que é útil a um deve ser útil a todos, obviamente seguirão a natureza, porém se cobiçarem as coisas apenas para si próprios, consequentemente, os laços sociais se dissolverão. Portanto, isso pode explicar o declínio da República romana, uma vez que não houve justiça por conta de certas atitudes humanas, assim, os laços sociais se desfizeram. Então, se as ações fossem livres, racionais, Roma não teria caído. Grimal, ao se questionar sobre a morte das civilizações, refletindo sobre a obra ciceroniana, argumenta:
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O De Re Publica, de Cícero: natureza, política e história

O De Re Publica, de Cícero: natureza, política e história

comunidade e a união entre os homens serão tanto melhor preservadas quanto maior for a nossa benevolência para com ela e, também, para quem a nós estiver mais unido. Mas, parece haver necessidade de se ir mais além quanto à questão de quais princípios naturais da comunidade e da sociedade humanas. Com efeito, em primeiro lugar vem aquilo que se pode observar em toda a comunidade do gênero humano. O seu vínculo é constituído pela razão e pela linguagem que, ensinando, aprendendo, comunicando, discutindo e raciocinando, associam os homens uns com os outros, reunindo-os numa espécie de sociedade natural; em nenhum outro aspecto, para além deste, nos afastamos tanto da natureza dos animais, na qual afirmamos tantas vezes existir uma coragem (como acontece com os cavalos, como sucede com os leões); acerca deles, porém, não falamos nós de justiça, de equidade ou de bondade já que, com efeito, não são eles dotados de razão nem de linguagem.” [50] Optime autem societas hominum coniunctioque servabitur, si, ut quisque erit coniunctissimus, ita in eum benignitatis plurimum conferetur. Sed quae naturae principia sint communitatis et societatis humanae, repetendum videtur altius. Est enim primum quod cernitur in universi generis humani societate. Eius autem vinculum est ratio et oratio, quae docendo, discendo, communicando, disceptando, iudicando conciliat inter se homines coniungitque naturali quadam societate, neque ulla re longius absumus a natura ferarum, in quibus inesse fortitudinem saepe dicimus, ut in equis, in leonibus, iustitiam, aequitatem, bonitatem non dicimus; sunt enim rationis et orationis expertes. Tradução, introdução, notas, índice e glossário de Carlos Humberto Gomes. Lisboa, Edições 70, 2000.
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Economia da natureza: a história natural, entre a teologia natural e a economia política...

Economia da natureza: a história natural, entre a teologia natural e a economia política...

70 Para o conhecimento dos insetos, foi decisiva a invenção do microscópio. Nesse sentido, o impacto das novas descobertas feitas pelo uso do novo instrumento em Teodoro é evidente. Como anotou Pedro Calafate, o conhecimento do mundo microscópico “rapidamente se converteu em mais uma prova da Sabedoria do autor da natureza”. 196 Evidencia-se que os autores valorizados por Teodoro inseriam-se dentro dos quadros de referência da teologia natural. São os casos, para além de obras já citadas, também da Teologia dos Insetos, de Friedrich Christian Lesser (1692-1754) – ilustrada por Pierre Lyonnet (1708-1789) –, que celebrava a premeditação divina. 197 Outro autor citado é William Derham, autor da Physico-Theology (1713), um dos principais nomes desta tradição na Grã-Bretanha, região onde a física newtoniana tinha ajudado a dar grande impulso à teologia natural, sendo também utilizada para responder ao desafio ateísta. 198 Da parte de Teodoro de Almeida, o sentimento de admiração em relação à perfeição da natureza é tanto que os insetos pareciam confirmar a Bíblia. Eugênio, por exemplo, afirma que “o que se diz nas Escrituras santas, que Deus está brincando no universo [Provérbios 3,31]”. 199 Toda a discussão feita sobre geração tem presente o pressuposto da físico-teologia de que “é totalmente impossível que a admirável fábrica de órgãos, que vemos no corpo de qualquer animal, proceda do acaso, ou da matéria que tumultuariamente se junte, como logo mostrarei falando dos insetos”. 200 A questão era entender como um ser era gerado e formado, e ainda de forma tão engenhosa e “perfeita”. A ação da Providência divina parecia ser óbvia demais para homens como Teodoro de Almeida.
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Da convergência entre historiografia, teoria da história e história política

Da convergência entre historiografia, teoria da história e história política

Somos, sem dúvida, herdeiros da época do visconde de Santarém – tal como das épocas anteriores e das que lhe sucederam. Nela, coexistiram a busca de documentos da mais variada natureza, escritos à mão, desenhados por iluminadores ou por cartógrafos; de estruturas materiais soterradas pelo tempo ou dispersas por mão humana; de recantos inexplorados de florestas e de mares ignotos. Dessa fervilhante procura da novidade e da verdade resultaram, como é próprio da humanidade, generalizações e teorizações, fossem elas dotadas de método crítico ou mais imbuídas de espírito de divulgação e menor aparato de fontes. Públicos restritos, mas ávidos de conhecimento e de notícias frescas, consumiam obras de divulgação científica (de carácter mais popular) e tratados densos de erudição, mais restritos. Ainda hoje assim é. A cultura erudita e a cultura popular, de que tanto falou Umberto Eco, conviviam lado a lado. Os papéis de uma e de outra equivalem-se na importância, democrática, de gostos pessoais e modas culturais flutuantes.
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Ocasião propícia, ocasião nefasta: tempo, história e ação política em Rousseau.

Ocasião propícia, ocasião nefasta: tempo, história e ação política em Rousseau.

Além do caráter de um povo num momento preciso de sua história, a apreensão do momento oportuno da instituição política exige ainda do le- gislador o conhecimento de outros elementos que juntos configuram a oca- sião propícia e dão sinais a respeito da natureza da legislação a ser institu- ída. São eles a extensão do território e o tamanho da população, os costumes diversos, os climas, o gozo da abundância e da paz, pois o mo- mento é o instante em que o corpo se mostra menos capaz de resistência, mais frágil e, portanto, mais fácil de ser destruído. “É verdade – diz Rous- seau – que todas estas condições dificilmente se encontram reunidas. Eis porque também vemos poucos estados bem constituídos” (Rousseau, 1959, p.391). Se o legislador se engana, se toma um princípio diverso daquele que nasce da natureza das coisas, entenda-se, se ele não interpreta adequada- mente os sinais dados pela configuração das diversas circunstâncias que constituem a ocasião propícia, “o Estado não cessará de agitar-se até ser destruído ou modificado e a natureza invencível retomará seu império”.
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Violência e ação política em Eric Weil

Violência e ação política em Eric Weil

A filosofia, para Eric Weil, não é apenas uma visão sobre o mundo, ou um saber dogmático ou relativista, mas um comprometimento com a razão e com a liberdade enquanto tentativa de compreensão do homem, do seu discurso e da sua ação. Deste modo, o objetivo deste trabalho é compreender o que os termos violência e ação política significam na filosofia de Weil, e, ao mesmo tempo, o significado da própria filosofia. Parte-se da relação entre filosofia e violência, enquanto ato negador da razão e, por isso, problema fundamental para o discurso filosófico na sua pretensão de compreensão absoluta. O específico de Weil é considerar o que o problema da violência representa depois da perspectiva hegeliana de um discurso absolutamente coerente, isto é, a consideração da insuficiência do discurso Absoluto para dar conta da realidade da violência. Decorre daí a reflexão acerca da relação entre violência e ação razoável no campo político, propondo-se a pensar a política a partir da filosofia. Weil parte da política como consideração da vida em comum dos homens segundo as suas estruturas essenciais, recuperando uma relação positiva entre moral e política, para erguer, a partir destas indicações, uma filosofia capaz de dar conta da política moderna e lança mão da consideração da ação política como luta contra a violência, seja como violência da natureza exterior, seja na relação violenta entre indivíduo e sociedade, seja na solução apontada no Estado moderno como detentor do monopólio do uso da violência. O Estado aparece como condição para a conciliação entre a vida sensata do indivíduo na moral concreta da sua comunidade e as exigências impostas pelo tipo de racionalidade da sociedade moderna. Por fim, uma vida razoável e dona das possibilidades oferecidas pela sociedade, deve encontrar tradução na vida política pela possibilidade de, vencidas as violências da natureza, do indivíduo e da sociedade, participar das decisões que tocam os interesses coletivos. É a transposição da resolução dos problemas do uso da violência ao plano da discussão através da educação do povo político, tarefa social do filósofo e finalidade por excelência da ação política. Tal reflexão, para ser coerente com seu tempo, deve reconhecer que história, política, economia e filosofia obrigam o filósofo a refletir sobre o destino comum da humanidade, o que Weil faz ao pensar um Estado mundial, categoria concreta na qual reúne as categorias da moral, da sociedade e do Estado, e onde todas estas categorias políticas se articulam em vista da compreensão da realidade.
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Crítica à leitura hayekiana da História: a perspectiva da ação política de Hannah Arendt.

Crítica à leitura hayekiana da História: a perspectiva da ação política de Hannah Arendt.

dem, é um homem livre, ignorante e segui- dor de regras. A liberdade entendida como a essência da aventura humana é a liberda- de negativa, concepção do direito liberal ou a garantia pela lei da ausência de coer- ção exercida por outrem. A ignorância, a- tributo até então desqualificado das teorias ortodoxas, fornece novos elementos à raci- onalidade e abre para novos domínios teó- ricos como o da sociologia, em que as re- gras têm papel estruturador na inteligibi- lidade das ordens sociais. O indivíduo ha- yekiano tem conhecimento limitado, in- completo e fragmentado ante um mundo complexo, que ele sabe que jamais será to- talmente desvelado. A ordem espontânea é, portanto, para ele uma categoria opaca, inacessível à razão. Como ela não é cons- truída por ninguém, não pode ser recons- truída mentalmente, caracterizando-se por ser uma estrutura transcendental que ex- pressa uma multiplicidade de fins distintos e incomensuráveis de todos os seus mem- bros individuais (Hayek, 1974). O elevado número de variáveis presentes nos fenô- menos sociais impossibilita o conhecimento de todas as circunstâncias que envolvem a ação dos indivíduos, o que confere uma na- tureza complexa aos fenômenos sociais, não sujeita a simplificações e reducionismos.
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Natureza da e na política ambiental brasileira

Natureza da e na política ambiental brasileira

O propagado avanço tecnológico, na política ambiental (estrutura das sociedades modernas), pode diminuir o consumo dos recursos naturais no espaço-tempo por meio da eficiência dos processos produtivos, e, assim, adiar e mascarar diversos problemas ligados à questão, como o controle de campos de petróleo, de minas, da água e do ar por grandes corporações (especuladores privados), que garantem este direito por via dos governos, resultando na expropriação dos meios de subsistência das comunidades pobres, e “portanto, encobre a crise e o retrocesso científico reais; a sociedade do conhecimento (...), entupida de gadgets tecnológicos, de cada vez menor valor e utilidades sociais, no meio de um mar de ameaças, não encaradas, à sobrevivência da humanidade (...)” (Coggiola, 2010, p. 20). A natureza no capitalismo – e o capitalismo, por sua natureza – não pode garantir um nível de planejamento da atividade econômica para a sustentabilidade, nos termos aqui abordados. É importante entender as falhas do capitalismo, em que as pessoas, por serem meros objetos da história, se tornam seus súditos, e se construir um sistema econômico, como afirmou Mészaros (2009), para além do capital e sua lógica destrutiva.
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Retórica e ação política: a complexio no Pro Roscio Amerino de Marco Túlio Cícero.

Retórica e ação política: a complexio no Pro Roscio Amerino de Marco Túlio Cícero.

Chego agora ao áureo nome de Crisógono, sob o qual toda a associação é en- coberta. Estou perdido, jurados, sem saber como falar deste nome, ou como permanecer em silêncio sobre ele. Se permaneço em silêncio, omito uma parte importante do meu argumento; se o menciono, temo que não apenas Crisógono – o que é indiferente para mim – mas muitos outros poderão se sentir insulta- dos. Contudo, o caso é de tal natureza que eu preciso dizer muito contra estes genericamente; pois este caso é seguramente de um caráter novo e singular. O orador tinha de lidar com o tópico delicado da aquisição da proprie- dade do velho Róscio por Crisógono, problemático porque muitos, talvez todos, no júri senatorial, se aproveitaram das proscrições. Questionar a lega- lidade de tais aquisições poderia tornar o júri extremamente hostil a Cícero, não importando aqui sua predisposição contra Crisógono ou seu desejo de honrar o juramento do tribunal. Antes que os jurados se indignassem e ale- gassem questões de dever ou de auto-interesse, Cícero dilui esta tensão, explicitando-a e proclamando que este tópico era um problema para ele. Ao mostrar que era sensível aos interesses dos jurados, de modo que não os ofen- desse por terem estes interesses, o orador torna claro que investirá apenas contra seus oponentes e contra ninguém mais. Esta declaração lhe garante uma licença para tratar o tópico embaraçoso da aquisição da propriedade de Róscio, assegurando ao júri que este é o um caso que não afetará a legalidade de suas próprias aquisições. Então, o endereçamento de uma complexio a si mesmo foi muito útil para o seu caso.
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Donos da história: estratégias de ação coletiva e formação da autoridade política entre os Tumbalalá

Donos da história: estratégias de ação coletiva e formação da autoridade política entre os Tumbalalá

Eu não trabalhava no Toré, para mim aquele era nada, eu não tinha entendimento, eu só mangava [...] por fim eu mim casei, tive minha família, peguei a minha propriedade que tenho aí nas caatingas. Aí peguei ficar doido, via suviá, via cuspí, via gente falar, eu olhava e não via ninguém e ficava me assombrando; mas eu fui na casa de um experiente e eles cuidaram de mim, disseram que era corrente que eu tinha e tinha que trabalhar, e aí, não teve entendimento com ninguém, não mim ensinaram como era que tinha que fazer os outros encantos lá deles, né? E eu comecei a fazer e fiz, e hoje eu trabalho em todo canto, graças a Deus [...] aí é o seguinte, eu trabalhei oito anos na mata sozinho, escondido, ninguém sabia, nem minha mulher sabia, os meus filhos, ninguém sabia, eu vi o que tinha na mata, né? Eu vi o que tinha na natureza, me entregaram, só que não tenho tudo porque a cabeça é pequena, mas graças a Deus o que eu tenho dá para resolver os meus problemas e repartir para o meu povo, né? Para quem se interessar, só que não é tempo ainda de repartir, mas eu sei que chega esse tempo, se eu não morrer logo, e aí estou na luta, né? Recadastrei o povo, reconheci a aldeia (ANTÔNIO LOURENÇO BARBALHO, fev. 2012).
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A política, a propaganda e o ensino da história.

A política, a propaganda e o ensino da história.

Tomaremos aqui um exemplo específico da análise de peças publi- citárias com conteúdo histórico, selecionadas das revistas Veja e Visão do início dos anos de 1970. Essa conjuntura é marcada, no plano econômi- co, por um acelerado crescimento que se vincula a ações estatais de plane- jamento e abundante disponibilidade de crédito internacional, e no plano político caracteriza-se por um recrudescimento do regime militar, com a vigência de instrumentos que garantem um regime de arbítrio e exceção e uma acentuada concentração de poder no Executivo federal. É um mo- mento de exacerbação do nacionalismo, que funciona articulando o entu- siasmo popular com as conquistas econômicas e o direcionamento político conservador e desmobilizador, por parte do Estado, deste entusiasmo na- cionalista. Diversas opções são possíveis para interpretar a ação nacionalis- ta/nacionalizante do Estado e de sua base de sustentação na classe domi- nante, sendo a do controle social uma das mais expressivas. Seguindo essa vertente, pode-se afirmar que o conteúdo histórico presente em algumas peças publicitárias da época tem a função de reforçar esse movimento de integração entre os membros da nação num momento em que ela se mo- difica aceleradamente e, para muitos, tende a tornar-se irreconhecível. O conhecimento histórico “propagandeado”, portanto, teria o papel de opor às forças centrífugas da modernização, atuando sobre a identidade, uma âncora, uma força centrípeta baseada no reforço a uma memória histórica, ao conhecimento de um passado comum, dotado de personagens e sím- bolos capazes de fornecer a matéria-prima para o sentimento de identifi- car-se com pessoas que não se conhece, com as quais não se trava relação direta, mas que são entendidas como viventes simultâneas de algo maior, um grupo, um organismo coletivo chamado de nação.
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História intelectual e teoria política.

História intelectual e teoria política.

A taxonomia dos atos de fala elaborada por Austin é mobilizada sistematicamente por Skinner. Em um primeiro momento, Skinner iguala a com- preensão do significado de um texto à reconstituição da intenção ilocucionária do autor. Compreender o significado de um texto histórico seria o mesmo que revelar o que o autor do texto estava fazendo ao escrevê-lo. Para isso, dever- se-ia estudar o modo como a intenção do autor inscreve-se no contexto de convenções lingüísti- cas em que o texto foi produzido (SKINNER, 2005, p. 117). Em momento posterior, Skinner passa a conceder que é possível distinguir entre três diferentes sentidos do termo. Primeiramente, o autor refere-se ao meaning 1, significado que está em questão quando se faz uma pergunta do tipo: “o que é que certas palavras ou frases espe- cíficas significam num determinado texto?” (idem, p. 128). Esse tipo de significado é capturado me- diante o estudo da semântica e da sintaxe do tex- to, com o recurso a nosso conhecimento con- vencional da linguagem codificado em livros de gramática e dicionários. Em seguida, Skinner re- fere-se ao meaning 2, associado à questão: “O que este texto significa para mim?” (idem, p. 129). Trata-se aqui de entender o texto a partir de seus efeitos nos leitores, o que pode dar surgimento a uma história da recepção dos textos enquanto fe- nômenos que transcendem o contexto e o mo- mento de sua produção original. Por último, há o que Skinner denomina meaning 3, que está em jogo quando se pergunta: “O que é que um escri- tor quer dizer com aquilo que afirma num deter- minado texto?” (idem, p. 131).
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História Política, Diplomática e Militar

História Política, Diplomática e Militar

Nascido na vila de Santos, em 1695, fez estudos religiosos no estado da Baía, veio para o Reino em 1708 e matriculou-se em Cânones na Univer­ sidade de Coimbra. Interrompeu o curso em 1714, quando seguiu para Paris como secretário do conde da Ribeira Grande. Ali recebeu durante cinco anos o fermento de novas idéias, na época em que despontava a «filosofia das luzes», vindo a cursar Direito na Sorbona e a conviver com letrados e filósofos 284. No regresso a Portugal completou o curso de Leis e, graças ao favor régio, seguiu logo para Roma, onde completou a sua formação literária e artística. De volta a Lisboa, passou a ocupar-se junto de D. João V da correspondência com o Papado, gozando da inteira confiança do monarca. Em 1732 a Academia Real escolheu-o para a vaga de Antônio Rodrigues da Costa, com o objectivo de compor, em latim, a história religiosa das con­ quistas ultramarinas, sendo «universalmente louvado» o seu discurso de recepção 285. A sua origem brasileira dava-lhe especial audiência nos assuntos que se prendiam ao governo daquele Estado, de cujos despachos foi incum­ bido a partir de 1734. Em 1743 foi nomeado membro do Conselho Ultra­ marino. E assim foi aumentando o valimento, tornando-se uma personagem- -chave da vida política, na parte final do reinado de D. João V 286.
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HISTÓRIA POLÍTICA: TRAJETÓRIA E SIGNIFICADOS

HISTÓRIA POLÍTICA: TRAJETÓRIA E SIGNIFICADOS

Como resultado imediato - e mais duradouro -, a História Política Tradicional posicionou em campos opostos (e antagônicos), segundo sua própria definição de importância, os líderes (ativos) e as populações (passivas); agentes considerados históricos e agentes considerados como “aistóricos”. As sociedades cuja organização social era marcada pela verticalização do exercício do poder, acabaram sacralizando sujeitos e instituições. A história, nesse sentido, registrava manifestações e decisões individuais, encetando-as como as manifestações (individuais), que guiariam o processo histórico. Este conjunto de elementos, é claro, não se arranjou de forma linear, e harmônica. As vozes dissonantes existiam da mesma forma que as vozes hegemônicas. Porém a História Política Tradicional privilegiou, em sua elaboração, os fenômenos e seus agentes mais aparentes, as elites e os líderes, preservando uma memória que historicamente, traduz a importância de cada um dos setores sociais.
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Cultura e Natureza, Arte e Política na Amazônia Acreana

Cultura e Natureza, Arte e Política na Amazônia Acreana

No âmago do posicionamento político de Matias, residia sua perspectiva de pro- dução artística, embora, ao enfrentar as ameaças que se manifestam sempre que determinada cultura humana está empenhada em “domesticar a natureza” e “submetê-la aos seus desígnios” (THOMAS, 1988), tenha descoberto que seus conhecimentos, na forma como ele próprio e seus companheiros de intervenções artístico-políticas na “cidade-floresta” apresentavam, nada valiam para a lógica do mercado. Com efeito, tratou de fazer ecoar – pelos meios de que dispunha – o nomadismo de sua prosa (ZUMTHOR, 2005), dramaturgia, teatro e poesia. Nesse processo, incorporou a palavra escrita a toda uma tradição de oralidade, reproduzindo discursos, mas também os negando, rejeitando e reelaborando a partir de sua realidade, nas formas de sua prática social, desafiando noções e hierarquias entre cidade e floresta, produ- zindo outros verbos ou conjugando-os de outras maneiras, na contraordem dos discursos governamentais. Nesse sentido, a partir de uma abordagem que leva em consideração as pro- posições traçadas por Michel de Certeau em “A invenção do cotidiano”, temos possibilidades de acompanhar as formas de inserção desse homem – e de tantos outros sujeitos sociais – na “cidade-floresta”, produzindo “verdades” nas suas formas de ler e interpretar as injunções natureza-cultura, cultura-natureza.
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'Portunhol': língua, história e política

'Portunhol': língua, história e política

A designação metalinguística consolida-se com o surgimento dos instrumentos linguísticos como a gramática e o dicionário. A produção de um saber linguístico apresenta- nos como as línguas vão se estabilizando na escrita e se organizando a partir de uma norma, que vai conferir-lhes um lugar político ao se tornarem línguas nacionais. O processo de gramatização de línguas vernáculas europeias como o espanhol e o português levou à fixação de um nome, primeiro pela relação com dialeto histórico do qual surgiram e, posteriormente, pela necessidade de sua identificação com os estados nacionais recém- unificados. No caso do espanhol, a denominação da língua também se forjou por meio da força política de uma região, que lutou pela unificação do território aprofundando as relações de poder entre o povo e o império – o castelhano. Esse nome se origina pela identificação com o reino de Castela, funcionando, ao mesmo tempo, como um etnónimo e, logo, como um glosónimo.
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Dividir a História : da epistemologia à política?

Dividir a História : da epistemologia à política?

R E S U M O A Historiograia acaba por desempenhar papel político de relevo, e as suas manipulações pro domo são frequentes. Em que medida as mudanças de visão das épocas históricas terão implicações políticas? Tal pode não ser muito evidente. Mas certamente que privilegiar este ou aquele evento como marco fraturante, ou abandonar aquela época na penumbra, ou autonomizar este ou aquele período, pondo -o em relevo, não deixará de ter consequências políticas. Este artigo relembra algumas questões de periodologia, e alguns desaios colocados por novas propostas e perspetivas. Procurando estar atento a uma possível leitura política dessa dimensão historiográica. Palavras‑chave: Historiograia; Teoria da História; Épocas; Idades.
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Diplomática e História do Direito, raízes da "nova" história política

Diplomática e História do Direito, raízes da "nova" história política

pela História que se fez ou faz na antiga 6.ª secção da École Pratique des Hautes Études – actual École des Hautes Études en Sciences Sociales – ou na Maison des sciences de l’homme, nem necessariamente por livros editados pelas casas Gallimard e Flammarion (ressalvado o relativo eclectismo da primeira); mas sim por nomes como os de um Raymond Cazelles (1917-1985), de um Robert-Henri Bautier, de um Bernard Guenée, de uma Françoise Autrand ou de um Jean-Philippe Genet, por Universidades como Paris I e Paris IV, pela École des Chartes ou pela 4.ª secção da École Pratique des Hautes Études, pela École Normale Supérieure ou, finalmente, pelas Presses Universitaires de France ou pelas Publications de la Sorbonne 22 .
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Bolingbroke, a política, e os usos da história

Bolingbroke, a política, e os usos da história

Algumas décadas após a morte de Bolingbroke, a justificativa exemplar passaria a esbarrar com fortes críticas, lançadas por autores tão diversos como Schlözer, Burke, Hegel, Savigny e Ranke, entre muitos outros (ASSIS 2014, p. 41-49). Tal descrença na velha exemplaridade histórica foi frequentemente associada à percepção de que a radicalidade e velocidade das transformações políticas e tecnológicas vivenciadas a partir do final do século 18 estavam a corroer a eficácia da experiência pretérita como fator de orientação da vida presente. Reinhart Koselleck abordou esse processo no seu famoso texto sobre a “dissolução do topos [‘historia magistra vitae’] na história moderna em movimento” (KOSELLECK 2006). A ênfase de Koselleck na “dissolução do topos” é exagerada e tende a ofuscar a persistência da justificativa exemplar, sob novas e velhas roupagens, não só no âmbito mais alargado da cultura histórica, mas também na obra de importantes pensadores históricos dos séculos 19 e 20. Recentemente, Christophe Bouton propôs pertinentes correções à tese de Koselleck, argumentando que o mais apropriado seria falar numa transformação ou, quem sabe, erosão do topos ciceroniano (BOUTON 2018).
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A elite empresarial e as instituições democráticas: cultura política, confiança e padrões de ação política.

A elite empresarial e as instituições democráticas: cultura política, confiança e padrões de ação política.

Por último, a referência do conceito de elite empresarial à questão do exercício da representação, no caso, a direção de entidades representativas, em nada significa discutir sobre o quanto e de que forma tal elite efetivamente representa o conjunto do empresariado, dado que tal análise só poderia ser feita se consideradas, de um lado, a agenda de interesses e as demandas levantadas pelas entidades e, de outro, as suas ações concretas no âmbito do processo decisório. Não são estas as questões que nos propusemos tratar neste artigo e na pesquisa subjacente. Além disso, embora a importância econômica dos setores empresariais aos quais essas entidades estão vinculadas e delas próprias seja bastante clara, isso não significa que procedemos como o senso comum, que tende a associar mecanicamente a relevância econômica do setor à entidade que supostamente o representaria. O processo de representação é muito mais complexo e não pode ser reduzido ao fato de que, por exemplo, se a atividade industrial de um dado estado tem grande participação no PIB, a entidade deste setor efetivamente representa de forma completa todas as dimensões daquela atividade no âmbito da política.
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