Top PDF A questão da natureza nos discursos sobre as ciências e as artes e a desigualdade

A questão da natureza nos discursos sobre as ciências e as artes e a desigualdade

A questão da natureza nos discursos sobre as ciências e as artes e a desigualdade

forma mais expressiva no Discurso sobre a desigualdade. Nessa preocupação está uma clara conexão com o pensamento helenista, destacando-se a herança de Lucrécio e Sêneca, conforme afirma Arlei de Espíndola. Assim, encontra-se uma interseção entre o epicurismo e o estoicismo no pensamento de Rousseau que, para além de seu jusnaturalismo, firma-se como herdeiro desses helenistas. Ressalta Espíndola que, mesmo não pactuando com a ideia de plágio desses filósofos em Rousseau, é preciso reconhecer “que muitas de suas noções presentes no segundo Discours foram antecipadas por Sêneca” (2005, p. 275). Mas também se evidencia o seguinte: “Para Rousseau, o homem civilizado [...], sendo dotado de razão, torna- se vítima também de paixões e de desejos artificiais, que Lucrécio já havia sugerido que precisariam ser extintos, e não se encontra mais movido só pelo anseio de se conservar” (ESPÍNDOLA, 2008, p. 47). Assim, para Espíndola, a oposição estabelecida por Sêneca e outros estoicos entre “ciência” e “virtude” “reflete-se claramente no Discurso sobre as ciências e as artes” (Id., ibidem, p. 50). Assim sendo, a reflexão de Rousseau sobre a natureza manifesta a sua herança helenística na crítica ao advento da civilização e em meio à corrução dos costumes com as ciências e as artes.
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Verdade e virtude: os fundamentos da moral no Discurso sobre as ciências e as artes...

Verdade e virtude: os fundamentos da moral no Discurso sobre as ciências e as artes...

O tema do remédio é, de fato, uma questão especial 96 , afinal, o espírito crítico de Rousseau que, como vimos, em algumas linhas de um Discurso acadêmico mostrava a fragilidade de toda uma estrutura social que se sustenta apenas sobre “aparências”, deveria voltar-se para seu aspecto “edificante” ou, como exigia os leitores do Mercure de France sob a letra do abade Raynal, “qual conclusão prática pode-se tirar da tese que [Rousseau] sustenta? [...] Como remediar esta desordem, tanto em relação aos príncipes quanto aos particulares?” 97 A saída pela revolução, tal como aventada no comentário de Masters, foi também considerada por Starobinski em A transparência e o obstáculo 98 , porém, como bem salientou, essa “síntese pela revolução”, tão projetada por interpretações hegelianas e marxistas, não se depreende das próprias obras rousseaunianas. Rousseau não pretende dar uma resposta definitiva para a questão e, deste modo, a revolução apenas lançaria os homens em um estado anárquico ou em que a desigualdade não fosse de fato erradicada. Ainda de acordo com Starobinski, podemos afirmar que tratar-se-ia de uma solução “infrutífera”, pois “a revolução contra o déspota não instaura uma nova justiça”. 99 Não admitindo, por fim, uma solução revolucionária para o problema social identificado com o Discurso sobre as ciências e as artes, é preciso voltarmos
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Estruturas de poder e a questão ambiental: a reprodução da desigualdade de classe

Estruturas de poder e a questão ambiental: a reprodução da desigualdade de classe

à concepção de uma natureza abstrata, única e acima dos interesses de classe, de igual responsabilidade de todos. Para Fuks (2001), a universalidade da causa ambiental deve ser questionada, uma vez que os benefícios da pre- servação do meio ambiente são distribuídos de forma de- sigual e, na prática, expressa o projeto de uma classe em tornar hegemônicos os seus valores e interesses. A partir de um ideal supostamente comum a todos – tendo em vista que todos os seres humanos dependem da natureza para sobreviver –, o que se observa é uma disputa dos discursos em torno de suas respectivas capacidades po- tenciais de operar tal universalização (Acselrad, 2004b) e um consequente benefício de uma elite, fortalecida do ponto de vista político, econômico e ideológico, capaz de impor as suas demandas próprias e particulares na aparente forma de benefício universal. Neste processo, convenientemente, ignoram-se as diferenças sociocul- turais e as desigualdades econômicas entre os variados grupos – que determinam, por exemplo, a forma como os agentes agem sobre o meio ambiente e seus respectivos impactos –, imputando à coletividade um nível equitativo de responsabilidade por impactos ambientais causados ao planeta que, no entanto, são fruto de um determinado modelo de desenvolvimento. Anuncia-se, portanto, uma coletividade ilusória que trará na prática a socialização dos problemas, enquanto os benefícios distribuem-se de forma desigual.
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CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS

CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS

Entre 2004 e 2008, pelo menos 8 mil brasileiros foram libertados de fazendas onde trabalhavam como se fossem escravos. O governo criou uma lista em que ficaram expostos os nomes dos fazendeiros flagrados pela fiscalização. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, regiões que mais sofrem com a fraqueza do poder público, o bloqueio dos canais de financiamento agrícola para tais fazendeiros tem sido a principal arma de combate a esse problema, mas os governos ainda sofrem com a falta de informações, provocada pelas distâncias e pelo poder intimidador dos proprietários. Organizações não governamentais e grupos como a Pastoral da Terra têm agido corajosamente, acionando as autoridades públicas e ministrando aulas sobre direitos sociais e trabalhistas.
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O homem e as ciências da natureza

O homem e as ciências da natureza

Esse, n ã o p o d e r á ser acusado de vir n e m de f o r a d o T e c n o - cosmos, pois resultou da experiência vivencial da sua tutela, n e m de d e n t r o dele, na m e d i d a e m q u e se rebela c o n t r a a coerência interna d o sistema. Ele b r o t a d o interior d o h o m e m c o n c r e t o , t o t a l m e n t e e x p o s t o e e n t r e g u e à vivência tecnocósmica. Mas, p a r a isso, terá de p e r c o r r e r , p o r d e n t r o d o sistema tecnocientífico, todos os m e a n d r o s da sua lógica e da sua l i n g u a g e m . T e r á q u e assumir os seus pressupostos e i n c o r p o r a r o seu universo. N ã o p o d e r á b r o t a r da inflexão t e r m i n a l d u m o u t r o h u m a n i s m o , pela c o n f r o n - tação superficial c o m as novas técnicas. T e r á q u e fazer p o r extenso t o d o o circuito da p r o j e c ç ã o m ú t u a e n t r e h o m e m e ciências da natureza que aqui se esquissou.
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Natureza e ciências sociais.

Natureza e ciências sociais.

As conseqüências sociais dessa nova realidade estão sendo acompanhadas pelas ciências sociais com um interesse crescente. As considerações sobre as conseqüências éticas da manipulação do código genético e formas de valorização destas práticas, passando por aproximações antropológicas, sociológicas, políticas e geográficas, demonstram o interesse que estão gerando nestas áreas do conhecimento. A natureza volta também ao centro das ciências sociais à medida que surgem embates pelo seu acesso, uso e transformação em diferentes âmbitos e escalas geográficas, que sem dúvida hoje representam formas de mobilização social a serem analisadas. As lutas em torno da questão do uso social da água, das florestas, dos produtos florestais, etc., estão longe de serem apenas lutas pela preservação dos chamados recursos. Trata-se de lutas nas quais a natureza se coloca como elemento essencial de definição do poder social, onde simultaneamente interesses econômicos e políticos estão sendo definidos. A utilização da natureza como mediação teórica ajuda não só na localização da problemática, como na sua identificação como nicho de disputa, enfatizando assim suas íntimas relações de determinação com o âmbito do social.
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Sobre o domínio da natureza na filosofia da história de Theodor W. Adorno: uma questão para a educação.

Sobre o domínio da natureza na filosofia da história de Theodor W. Adorno: uma questão para a educação.

do que o desenvolvimento concreto da ideia de história natural, no sentido da superação da antítese tradicional entre aquelas duas categorias, arrazoada por Adorno na conferência em questão. Em Dialética do esclarecimento, Adorno e Horkheimer evidenciam justamente como momentos da história dinâmica e do mito estático se interpenetram e se justapõem, guardando em suas es- truturas elementos um do outro. Não é à toa, então, que o poema épico de Homero, a Odisseia, e seu herói Ulisses sejam tomados como alegoria do proces- so de constituição do homem no sentido moderno, ou seja, racional e esclarecido. Também é nesse contexto que os fenô- menos sociais mais prementes da época analisados pelos autores: a ciência, o progresso técnico, o antissemitismo e a indústria cultural, são interpretados como manifestações da violência arcai- ca contra a natureza. De forma seme- lhante ao modo como Adorno operara com os conceitos de natureza e histó- ria em A ideia de história natural, uma série de outros conceitos antitéticos (magia-ciência, esclarecimento-mito, progresso-regressão etc.) são emprega- dos como ferramentas cognitivas para desmistiicar tanto a relação entre eles, quanto a realidade que buscam deinir (Buck-Morss, 1981, p. 132).
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UM ESTUDO SOBRE O PENSAMENTO BINÁRIO E SUAS INFLUÊNCIAS NAS CONCEPÇÕES SOBRE A NATUREZA DAS CIÊNCIAS

UM ESTUDO SOBRE O PENSAMENTO BINÁRIO E SUAS INFLUÊNCIAS NAS CONCEPÇÕES SOBRE A NATUREZA DAS CIÊNCIAS

corpo no sentido de movimento. Por exemplo, se um corpo fosse lançado para cima, enquanto a mão da pessoa estivesse em contato com o corpo, a força da mão impulsionaria o corpo e após deixar de existir o contato da mão com o corpo, o ar continuaria a impulsioná-lo para cima. A ideia de que a continuidade de movimento só é possível sob a ação de uma força ainda é muito comum nos dias de hoje. Enquanto perdurou o pensamento aristotélico, a ciência não possuía um método científico como o que vigora nos tempos atuais, no qual uma teoria tem de ser validada experimentalmente. Dessa forma, surgiram muitas ideias completamente estapafúrdias, como exemplo, podemos citar a geração espontânea. Essa teoria considerava que a Vida era o resultado da ação de um princípio ativo sobre a matéria inanimada, a qual se tornava, então, animada. Desse modo, não haveria intervenção sobrenatural no surgimento dos organismos vivos, apenas um fenômeno natural, a geração espontânea. Essas ideias perduraram durante muito tempo, pois, em 1620, Van
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Os discursos sobre o feminino na questão penitenciária brasileira : uma análise a partir das relações de gênero

Os discursos sobre o feminino na questão penitenciária brasileira : uma análise a partir das relações de gênero

A tese ora apresentada teve por tema de estudo os discursos sobre o feminino na questão penitenciária brasileira, utilizou-se do referencial epistemológico de Michel Foucault (2008) de modo a realizar a análise de discurso a qual se propôs. Para tanto, a metodologia utilizada baseou-se em análise documental e pesquisa bibliográfica. O corpus de análise da tese caracterizou-se nos instrumentos político-normativos definidos pela Estado Brasileiro, os quais intentam assegurar direitos às mulheres em situação de prisão. Do mesmo modo, realizou-se uma pesquisa bibliográfica afim de elucidar como foram construídas as primeiras proposições de políticas penitenciárias destinadas às mulheres no século XX. A tese está alicerçada em referências teóricos oriundos da criminologia crítica, da criminologia feminista e das relações de gênero. Os resultados obtidos apontam que, mesmo após quase um século de instituição das prisões femininas no Brasil, em termos discursivos e conceitos normativos com base nas relações de gênero, ainda comparecem regularidades encunciativas que apontam na direção de que a execução penal de mulheres e a proposição de políticas em tal contexto, é mediada pelos estereótipos e conceitos normativos em torno das relações de gênero, pelos quais, o corpo feminino é produzido a partir da maternidade. Isto porque, os documentos analisados sinalizam que as mulheres devem ter suas especificidades respeitadas no contexto da prisão e ainda, usufruírem de condições adequadas ao seu encarceramento. Se no século XX as especificidades foram definidas por meio de formações discursivas que construíram o imaginário da mulher criminosa, como louca e mãe falha, recebendo como punição adequada ensinamentos religiosos por parte de uma congregação religiosa que se incumbiu desta missão; nos discursos atuais a especificidade gira em torno da maternidade e os espaços definidos como adequados ao aprisionamento de mulheres são aqueles que devem conter espaços para que permaneçam com seus filhos e filhas. Isto posto, defende-se a tese de que a mulher em situação de prisão somente adquire visibilidade perante a esfera pública, a partir de sua condição enquanto mãe em potencial.
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Fora da ordem natural: a natureza nos discursos sobre a clonagem e a pesquisa com células-tronco em jornais brasileiros.

Fora da ordem natural: a natureza nos discursos sobre a clonagem e a pesquisa com células-tronco em jornais brasileiros.

Assim, pode-se afirmar que a insistência na matriz iluminista, pela qual a natureza (ou sua ‘sucessora’ na ordem transcendente, a biologia) constitui o fundamento epistêmico da moral (Luna, 2007), também tem consequências políticas. Afinal, ela remete à existência de uma Ciência – com maiúscula por remeter a uma esfera mítica ou metafísica –, cujo discurso não tem relação com as ciências que se praticam diariamente. A Ciência é uma “politização das ciências pela epistemologia de modo a tornar a vida política comum impotente por meio da ameaça de uma natureza incontestável” (Latour, 2004, p.10). Uma ameaça à democracia. Na distribuição de poder que ela propõe, cabe aos Cientistas fazer o “mundo mudo” falar, dizer a verdade sem ser contestados, encerrar discussões intermináveis com a autoridade que deriva das próprias coisas (Latour, 2004, p.14). Tanto a “ideologia científica” quanto a “naturalização” são armadilhas que os “modernos” pensam evitar (Latour, 1994, p.41), mas os resultados deste estudo indicam que os discursos sobre a ciência nos jornais ainda se deixam capturar por elas.
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O papa é pop: o papado de Francisco e a questão da desigualdade.

O papa é pop: o papado de Francisco e a questão da desigualdade.

“Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode mais tolerar que se jogue comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início à cultura do ‘descartável’, que, aliás, chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenômeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’” (EG, § 53) 1 .
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A competição entre os discursos e as artes na Historia de la conquista de México...

A competição entre os discursos e as artes na Historia de la conquista de México...

Historia está enredada por um olhar providencialista, aliás como todo o processo de conquista do Novo Mundo desde a notícia da chegada de Colombo. Para os séculos XVI e XVII, a História é observada desde o esquema bíblico da instituição eclesiástica, pois a verdade não se comprova, apenas se repete. A Espanha assume o plano bíblico de salvação – que prevê a vinda do anticristo 22 e exige dos cristãos a evangelização de todo o orbe – para justificar as batalhas e as guerras empreendidas no Novo Mundo. 23 Por assumir esse papel, os castelhanos creem, e divulgam, que foram escolhidos por Deus para a tarefa e por isso contam com Seu auxílio. Solís afirma, no final do segundo parágrafo, que a empresa da conquista das Índias ainda admira ao mundo, sendo tão aplaudida que “se atreve oy à no desmerecer la Real Proteccion de V. Magestad; como no desmereciò entonces los favores del Cielo, que alguna vez dispensò, en su defensa, los Fueros del Poder ordinario; mitigando, al parecer, lo impossible con lo milagoso”. Desse modo, o leitor é instruído sobre o lugar de onde se narra a conquista do México, um lugar que é compartilhado por ele, que sabe que não há nada a ser desvendado e nenhuma verdade a ser comprovada, pois os fatos são exaustivamente conhecidos, inclusive aqueles que repetem a narrativa bíblica, cuja função é amplificar a interferência divina nas batalhas empreendidas na Nova Espanha. Portanto, o que diferencia a Historia de Solís das anteriores é o estilo, ou seja, a elocução empenhada, e não o assunto nem o modo providencialista como narra as ações heroicas de Cortés. Por fim, em sua narração, o natural e o sobrenatural, o impossível e o milagroso convivem sem estranheza, como acontece em tantas outras obras que tratam das conquistas do Novo Mundo. 24
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Ciências da Educação em questão.

Ciências da Educação em questão.

isso, livrou-se de qualquer aspecto que tenha referência no psiquismo. As operações lógicas só podem ser lógicas, ou seja, os operadores ‘e’, ‘ou’, ‘—>’ (condicional) expressam modos de pôr em relação os enunciados apresentados como ‘variáveis’, ou seja, algo cujo referente é vazio, uma vez que pode ser preenchido por qualquer conteúdo. A lógica, compreendida como cálculo, buscou encontrar seu fundamen- to em si mesma, ou seja, mostrar-se completa. No entanto, ao procurar estabelecer a completude da lógica da aritmética, portanto a mais elementar ou fundamental, Gödel ([1931] 1992) demons- trou que ela não é completa, uma vez que recorre a axiomas extralógicos. O programa de formalização integral das Matemáticas mostrou- se inviável e abriu os horizontes dos matemáticos, que agora, como diz Da Costa (1997; 1980), sabem que trabalham em uma atividade livre. Os constrangimentos formais são válidos em uma lógica, mas podem ser derrogados em outras, cri- ando-se novas lógicas bem formadas, como a paraconsistente estabelecida por Da Costa. No centro mesmo do programa de formalização das ciências, chegou-se à sua derrogação. Donde, não há porque confundir racionalidade ou razão com uma e uma só lógica, uma vez que há várias bem formadas a serem escolhidas para tratarem desse ou daquele objeto. A esco- lha da lógica pertinente torna-se, pois, uma das tarefas fundamentais dos pesquisadores em qualquer área do conhecimento, da mesma maneira que os físicos escolhem a geometria que julgam adequada aos temas que estão tratando. Enquanto as ciências Lógica e Matemá- tica reviam seus programas de pesquisa, e al- gumas outras faziam o mesmo, as Ciências do Homem continuaram buscando uma teoria unificadora formal que permitisse tratar seus temas de maneira a restringir ao máximo o papel do pesquisador. Não pretendo fazer His- tória da Ciência, apenas indico o que ocorreu, ilustrando por meio de um programa de unifi- cação das Ciências do Homem, o proposto pelo Estruturalismo (cfr., por exemplo, Dose, 1994; 1993). Esse programa considera que a língua
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Crenças de professores de ciências da natureza e matemática sobre motivação dos alunos

Crenças de professores de ciências da natureza e matemática sobre motivação dos alunos

[...] a formação acadêmica também, acho que todo mundo tem seus espelhos, eu tenho quatro professores na universidade que me serviram de espelho, um deles é o professor que me deu a disciplina de genética na faculdade. Ele dizia que a gente podia querer fazer biologia, mas não querer dar aula, querer entrar na sala de aula, mas que tu és um professor por excelência, por natureza. Todo biólogo é um professor, ele tá ali pra ensinar alguma coisa. Então, isso ficou muito gravado na minha cabeça, eu tenho isso desde o começo, a importância de você passar a diante e estar motivado a fazer isso. Ele sempre falava isso, tu tens que gostar do que tu fazes (P 2 ). Essa fala também mostra outro aspecto do envolvimento que o indivíduo, em quanto aluno, associa à origem de suas crenças sobre a motivação do estudante. Na fala de P 2 foi destacada a importância que o docente passa para seus estudantes, no sentido de seriedade e comprometimento com o que faz. O docente P 5 também relatou esse valor e o associou a sua vivência como aluno.
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Discursos de licenciandos em física sobre a questão nuclear no ensino médio: foco na abordagem histórica.

Discursos de licenciandos em física sobre a questão nuclear no ensino médio: foco na abordagem histórica.

Nos artigos revisados, também são relacionadas vantagens e justificativas para a uti- lização da abordagem histórica no ensino. Para alguns autores, o trabalho com a abordagem histórica permitiria que os alunos compreendessem: as dificuldades e obstáculos que foram superados na produção de teorias científicas; que os cientistas utilizam ferramentas lógicas, metodológicas e epistemológicas presentes em sua época, e muitas vezes diferentes das atuais; a justificativa para uma proposição ser considerada comprovada, e de como ela se relacionaria com outras proposições na Física; o processo de construção da ciência, e reflexão sobre sua natureza; a superação da ideia de uma ciência construída por meio de descobertas de verdades inquestionáveis; o desenvolvimento da ciência que se dá por acumulação, continuidade ou ruptura de paradigmas, relacionado com contextos sociais, culturais, filosóficos e tecnológi- cos; como e por que os conceitos são criados e seus significados. Poderia ainda gerar atitudes positivas nos alunos com relação à Ciência; também poderia facilitar a percepção de que a ciência é uma atividade humana, e não de supergênios; permitiria a percepção das semelhan- ças entre o conhecimento de senso comum e o científico ao longo da história, auxiliando na mudança conceitual. Promoveria o aprendizado, ao invés da crença científica, e contribuiria para a constituição de uma visão mais crítica e humana da gênese e desenvolvimento científico (KÖHNLEIN e PEDUZZI, 2005; ALMEIDA, 2004b; BATISTA, 2004; DIAS e MARTINS, 2004; DUARTE, 2004; GATTI, NARDI e SILVA, 2004; GUERRA e REIS, 2004; GURIDI e ARRIASECQ, 2004; MARTINS, 2004; SILVA e MARTINS, 2003; ARRIASECQ e GRE- CA, 2002; DIAS, 2001).
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Trajetórias da provisão habitacional : supressão da natureza e desigualdade em meio urbano

Trajetórias da provisão habitacional : supressão da natureza e desigualdade em meio urbano

Em sequência, foi proposto um paralelo entre posicionamentos mais recentes a respeito do equacionamento de problemas emergentes nas relações sociedade e natureza, componentes da “questão ambiental”, chegando-se à noção de ambiente como síntese. Considerando a densa, multidisciplinar e difusa nuvem de informações sobre a noção, que agrupa visões midiáticas, da produção acadêmica, dos interesses de quem tem mais poder ou não para tomar decisões sobre o território ou da percepção geral das pessoas, foram destacadas, ao fim do capítulo, três vertentes para discussão, as quais nortearam a abordagem empírica do fenômeno habitacional. A primeira trata da apreciação crítica dos descaminhos na relação homem-natureza, a segunda, da convivência com saberes ambientais distintos e a última, da busca por justiça ambiental. Considerou-se que esses são elementos pertinentes para uma reflexão que leve em conta a complexidade do “habitar”, que, de acordo com Heidegger (1951), além de abarcar o ato de construir, trata-se de resguardar-se (“de-morar-se”) entre os elementos que envolvem nossa própria existência (a terra, o céu, os deuses e os mortais), ou seja, o modo como os mortais “são e estão” sobre a Terra.
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Um modelo para o ensino sobre a natureza da ciência no contexto das ciências biológicas.

Um modelo para o ensino sobre a natureza da ciência no contexto das ciências biológicas.

Os trabalhos sobre histologia animal desenvolvidos nessa época influenciaram profundamente uma nova geração de pesquisadores, que incluía, por exemplo, Johannes Peter Müller (1801-1858). Müller realizou contribuições significativas para diversos campos da Biologia, como histologia, fisiologia, anatomia e embriologia. No que concerne à primeira área de estudo, ele examinou a estrutura elementar dos tecidos animais e apresentou suas conclusões nas primeiras três edições de seu Handbuch der Physiologie des Menschen für Vorlesungen (Manual de Fisiologia Humana para Palestras) (HARRIS, 1999). Além disso, ele elucidou a natureza celular da notocorda, identificou células no corpo vítreo do olho, no tecido adiposo e até mesmo os núcleos das células do tecido cartilaginoso (RUSSEL, 1916). De acordo com Finger e Wade (2002), o Handbuch foi utilizado como referência no campo da fisiologia por décadas. Posteriormente, essa obra foi traduzida do alemão para o inglês sob o títitulo Elements of Physiology (Elementos da Fisiologia). Por meio desse livro, era possível obter uma míriade de conhecimentos referentes às áreas da anatomia comparada e fisiologia.
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Entre crenças e aparências: compreensões sobre ciência por licenciandos em ciências da natureza

Entre crenças e aparências: compreensões sobre ciência por licenciandos em ciências da natureza

Já na fala de L20, percebemos uma visão mais conteudista relacionada ao Ensino de Ciências, a saber: “Tem como objetivo passar as matérias de Biologia que estuda a vida, Química que estuda as formas e o porquê delas, e a Física que estuda o que seria movimentos”. “É a matéria que abrange vários temas que ocorrem no nosso dia a dia, com conteúdos que abrangem os conteúdos de Física, Química e Biologia”. Essa visão provavelmente teve influência de uma ideia clássica de Ciência, herdada de um paradigma cartesiano, pautado no determinismo, racionalismo e mecanicismo (LAURINO; PINTO; NOVELLO, 2013).
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Muito além da questão ambiental: discursos sobre as gestões dos riscos no contexto das emergências e desastres.

Muito além da questão ambiental: discursos sobre as gestões dos riscos no contexto das emergências e desastres.

Con este neologismo Foucault hace referencia a una forma de proceder en el análisis histórico que se caracteriza, en primer lugar, por una ruptura: hacer surgir la singularidad allí donde se está tentado de hacer referencia a una constante histórica, a un carácter antropológico o a una evidencia que se impone más o menos a todos. Mostrar, por ejemplo, que no hay que tomar como evidente que los locos sean reconocidos como enfermos mentales. En segundo lugar, esta forma de proceder se caracteriza también por hallar las conexiones, los encuentros, los apoyos, los bloqueos, los juegos de fuerza, las estrategias que permitieron formar, en un momento dado, lo que luego se presentará como evidente. (CASTRO, 2004, p. 18). Nesse sentido, a acontecimentalização não implicaria apenas uma procura vazia pelas rupturas, ou surgimento das singularidades sem razão, como uma mera oposição à continuidade, mas buscaria nessas rupturas explicações sobre como algumas situações ocorreram de um determinado modo e não de nenhum outro (FOUCAULT,2010). Dessaforma, romper as evidências e buscar novas conexões, eis as funções que o autor atribui a acontecimentalização, pontuando ainda que "(...) reencontrar as conexões, os encontros, os apoios, os bloqueios, os jogos de força, as estratégias etc., que em um dado momento formaram o que, em seguida, funcionará como evidencia, universalidade, necessidade." (FOUCAULT, 2006, p.339).
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Discursos e Práticas em Torno da Questão Ambiental no Capitalismo

Discursos e Práticas em Torno da Questão Ambiental no Capitalismo

Por todos esses processos, começou a estabelecer-se um consenso no meio empresarial sobre a importância de atender as preocupações sociais e públicas sobre o meio ambiente e o desenvolvimento como estratégias para somar valor e rentabilidade aos negócios e para manter a competitividade no mercado, uma vez que os denominados ativos intangíveis, como marca e reputação, são ter- mômetros do desempenho das empresas por parte do público de interesse (VA- LENZUELA, 2007). Ou seja, a atenção às questões socioambientais responde a interesses técnicos, financeiros e econômicos, e não considerar essas dimensões pode implicar em barreiras alfandegárias, em dificuldades na obtenção de cré- dito junto às instituições financeiras, e na falta de credibilidade junto ao público, com impacto nos resultados econômicos (MOLLE JUNIOR, 2004).
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