Top PDF A representação da ditadura na literatura: memória e ficção em O Fantasma de Luís Buñuel E K. – Relato de uma Busca

A representação da ditadura na literatura: memória e ficção em O Fantasma de Luís Buñuel E K. – Relato de uma Busca

A representação da ditadura na literatura: memória e ficção em O Fantasma de Luís Buñuel E K. – Relato de uma Busca

Em um capítulo posterior, temos o seguinte relato escrito: “Informe do agente Souza, 20 de maio de 1972. Reunião do comando regional ALN/RJ. Participaram os elementos consignados (...) e um Rodriguez, ainda não consignado” (op. cit., p. 91). Atentemos a três coisas neste pequeno trecho: a data, anterior ao sequestro de A. e seu marido, que aconteceu em 1974; a menção à ALN, Ação Libertadora Nacional, organização política que participou da luta armada contra a ditadura militar; por fim, a menção ao codinome Rodriguez. O agente Souza, em seguida, descreve-o: “Rodriguez é de altura mediana, magro, cabelo negro e de feições marcantes, com maxilar saliente (...)” (op. cit., p. 92). É Rodriguez quem narra o penúltimo capítulo da obra. Nele, escreve uma carta a um ex-companheiro da Organização e afirma: “Esta é a última mensagem que V. receberá de mim. É possível que ao recebê-la eu e minha companheira já estejamos mortos. Sentimos que o fecho se cerca” (op. cit., p. 180). Quatro capítulos, distantes, completamente fora da ordem cronológica, apenas para confirmarmos a identidade de “Rodriguez”, marido de A. Podemos relacionar esse mistério com a preocupação que os membros de organizações de esquerda tinham, mesmo dentro delas, em ocultarem suas verdadeiras identidades; essa preocupação em esconder-se é trazida à tona de maneira forte, quando o autor constrói a narrativa de forma que o leitor precise unir pequenas peças para encontrar o personagem. É como se nós, também, procurássemos o casal, onde quer que consigamos. Além disso, essas outras vozes são a única chance que temos de saber mais sobre ele, visto que K., até o momento do desaparecimento da filha, sequer sabia de sua existência.
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A ditadura brasileira sob a ótica dos filhos : pós-memória, representação e culpa em Julián Fuks

A ditadura brasileira sob a ótica dos filhos : pós-memória, representação e culpa em Julián Fuks

Em K, romance de Bernardo Kucinski que narra a busca incessante de um pai pela filha desaparecida durante a ditadura civil-militar dos anos 1964-1985, o narrador diz, logo nas primeiras páginas, que o Brasil sofre de um “mal de Alzheimer nacional” (2014, p. 12). A partir da metáfora de Kucinski, podemos ler a ditadura não somente como um capítulo esquecido da história brasileira, mas sob a ótica de um esquecimento amplo, generalizado e até mesmo institucionalizado. Pensar a ficção produzida sobre esse período significa, nesse contexto, deter-se sobre obras artísticas e culturais que operam num movimento contrário, ao realizar o trabalho de memória, de luto, de esclarecimento, de conscientização e de reinserção do tema nos debates públicos e privados. Se a mídia e as instituições atuam de maneira omissa e tímida nesse cenário, a literatura pode proporcionar um contato privilegiado com o tema, conferindo compreensão histórica por meio de mecanismos estéticos de ficcionalização. Nesse sentido, é importante destacar que o esquecimento amplo de que fala Kucinski é sem dúvidas fruto de uma cultura, pela qual são responsáveis setores da esfera civil, mas sobretudo da esfera pública. A título de ilustração, o Brasil só empreendeu sua primeira iniciativa de investigação acerca dos mortos e desaparecidos durante o período em 1995, 11 anos após o fim do regime, com a criação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. A instauração da Comissão Nacional da Verdade (CNV) só se deu muito recentemente, em 2012, e a publicação dos relatórios finais ocorreu em 2014, seguida de críticas quanto ao alcance e transparência do trabalho. Se tais empreitadas constituem empenho tímido mas significativo, a lei da Anistia, entretanto, promulgada em 1979, ainda estende o manto do perdão aos crimes cometidos pelo terrorismo de estado e constitui-se como empecilho jurídico central a um acerto de contas público com os arbítrios do passado.
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K. – Relato de uma busca, de Bernanrdo Kucinski: ausência de memória na Literatura de Testemunho

K. – Relato de uma busca, de Bernanrdo Kucinski: ausência de memória na Literatura de Testemunho

Na  construção  de  um  relato  de  memória,  há  sempre  uma  tensão  entre  presença   e   ausência,   ressaltando   a   fragilidade   do   gênero   literário.   Constitui-­‐‑se   aí   um   tempo  anônimo,  pois  está  no  limiar  entre  o  tempo  privado  e  o  tempo  público;   entre   a   memória   coletiva   e   histórica   e   a   memória   individual.   É   por   meio   dos   recursos  documentais  que  se  diferencia  o  que  é  história  e  o  que  é  ficção,  mesmo   que  uma  esteja  impregnada  da  outra  para  representação  de  um  momento.   Segundo  Agostinho  (citado  por  RICOEUR,  1997),  a  reelaboração  do  passado  se   divide  em  expectativa  e  lembrança,  sendo  que  a  primeira  se  encolhe  enquanto   os  momentos  relembrados  se  aproximam,  e  a  segunda  se  alonga  enquanto  os   fatos   relembrados   se   afastam.   Para   Ricoeur   (1997,   p.   59),   “o   presente   é   ao   mesmo   tempo   o   que   vivemos   e   o   que   realiza   as   antecipações   de   um   passado   rememorado”,   ou   seja,   as   experiências   do   passado   influenciam   as   ações   no   presente.  
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Ficção e memória em Mia Couto

Ficção e memória em Mia Couto

Pensar nas questões atinentes à ficção e à memória é pensar no direito das nações de reaverem e instituírem a sua cultura, procurando fazer com que os indivíduos recuperem as raízes dessa memória e passem a coabitar com um permanente lastro imaginário, através da existência de um caminho que os leve a permanecer harmonizados em torno da sua unidade étnica. Agindo assim, pode-se pensar que tanto a literatura (subjetividade) quanto a história (memória) participam da construção de um saber que passa pelo reconhecimento da alteridade e pela reconstrução dos valores da cidadania. Mia Couto deixa implícito que uma sociedade não pode fugir do que acredita e do que tem como verdade. Ademais, parece certo que a memória de um povo explicita-se em suas verdades mais enraizadas. Diante de um mundo imerso em falsas representações e de ídolos forjados, a reconstrução dessa memória é fator fundamental para o imaginário da história das mentalidades, possibilitando uma semantização nos aspectos atinentes à comunidade.
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Teoria da literatura e teoria da cinema: a crise e o fantasma

Teoria da literatura e teoria da cinema: a crise e o fantasma

Gostaria de ressaltar a primeira sentença da citação, já que nela é possível perceber certa continuidade das premissas feministas (mesmo antes da crise interna). Expor o que parece uma necessidade natural ou, melhor dizendo, expor aquilo que é naturalizado. O movimento de Butler em relação ao gênero pode parecer uma descontinuidade em relação à primeira premissa da teoria feminista da literatura e do cinema, isto é, a literatura e os filmes feitos por mulheres (em um sentido médico- jurídico), para dar uma amplitude maior, mas é possível perceber que o objetivo ainda se assemelha: expor aquilo naturalizado já que aquilo não seria necessariamente natural. Nesse sentido, a quebra de paradigma de gênero binário e de sua representação – que foi enunciado pelas teorias feministas dos anos de 1970 – apresenta o seu momento de continuidade/descontinuidade. Se seguíssemos os passos de Butler, poder-se-ia pensar que as histórias literárias – e suas recontagens – fazem parte de uma estratégia performática de gênero e que se deveria abandonar o binarismo sexual para se pensar uma forma em devir. Ademais, essa teórica estadunidense, como acontece com Haraway, não irá propor uma teoria que se reinaugurasse do nada: sua discussão partirá de duas obras clássicas feministas: O Segundo Sexo (1949) de Simone de Beauvoir e A Mística Feminina (1963) de Betty Friedan.
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História, memória e ficção: que fronteiras?

História, memória e ficção: que fronteiras?

Poder-se-á formular a questão a partir das divergências e convergências entre os dois termos. Patrick Lacapra formulou bem o problema: “a memória é simultaneamente mais e menos do que a história e vice-versa. A história pode não capturar nunca alguns elementos da memória: o sentimento de uma experiência, a intensidade da alegria ou do sofrimento” (LACAPRA 2008, p. 34). Como veremos, os historiadores liberais e românticos já estavam conscientes dessa diferença – o novelista consegue captar aquilo que o historiador dificilmente é capaz: o sentimento, a imaginação. Por seu lado, a história põe à prova a memória na medida em que se constitui num discurso crítico que se assenta em exigências de prova documental e rigor heurístico e hermenêutico. Envolve uma relação com a alteridade, mas é também um exercício de distanciação em relação ao objeto de estudo, em relação ao outro. Quer isso dizer que não pode envolver empatia com o objeto? Decerto que não. Mas dentro dos limites de uma certa cautela e vigilância crítica. Se o entusiasmo e até a paixão no estudo do passado podem favorecer o historiador e a qualidade do seu trabalho, a verdade é que, se o sentimento não for objeto de controlo, pode cair-se na prática de uma história tribunal (na célebre expressão de Lucien Febvre) que se alimenta de juízos de valor, execrando apologias ou, ao invés, tecendo-as. São bem conhecidos casos em que o sentimento de lealdade patriótica deformou a leitura do passado das nações e comprometeu o rigor histórico.
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Em busca da justiça perdida: memória e verdade na transição da ditadura civil-militar para a democracia (1979-1985)

Em busca da justiça perdida: memória e verdade na transição da ditadura civil-militar para a democracia (1979-1985)

Objetivando a busca da memória e da verdade, o presente trabalho abordará, num primeiro momento, os conceitos relevantes à compreensão do tema exposto, explanando acerca do conceito, da origem e das transformações pelas quais passou a democracia, bem como sobre o seu envolvimento com a defesa dos direitos humanos. Outro assunto trazido à baila é a atuação do poder soberano que, sob a égide de estado de exceção, encontra um meio legal para se tornar legítimo. Por fim, o capítulo primeiro traz à tona a importância dos procedimentos de valorização da memória coletiva na construção identitária de sociedades democráticas, assim como procura explicar a relevância da ocorrência da justiça de transição em Estados que passaram por regimes autoritários para que ocorra a redemocratização sem maiores prejuízos à sociedade.
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“UM SÁBADO EM 30”: MEMÓRIA E FICÇÃO

“UM SÁBADO EM 30”: MEMÓRIA E FICÇÃO

Na época, seu discurso propiciou comentários como o de Nilo Pereira que fez a seguinte afirmação: “Pelo discurso de Luiz Marinho percebe-se cla- ramente que as suas peças são autobiográficas. O que ele retrata é sua infân- cia, a sua adolescência em Timbaúba e adjacências” (1980, [s/p]). Ou o de An- drade Lima Filho para quem a peça contém “episódios duma narrativa em que já se identifica no teatrólogo de hoje o memorialista de amanhã, com a mesma graça, leveza e humor no artesanato literário” (1981, [s/p]). Este é o tom de vários artigos publicados na imprensa recifense. Foi assim que Tenório Vieira cunhou o termo memórias ficcionalizadas como viés interpretativo de seu li- vro: retomando e redimensionando o papel da memória no teatro de Luiz Ma- rinho, a partir dos depoimentos do autor sobre sua obra e da opinião de seus contemporâneos.
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Literatura e memória: a Fortaleza de São José de Macapá no contexto da ditadura militar em Macapá (1964-1973)

Literatura e memória: a Fortaleza de São José de Macapá no contexto da ditadura militar em Macapá (1964-1973)

Ainda que a literatura da época fosse silenciada pela censura, poe- tas como Isnard Lima, Odilardo Lima, Armando Sousa, Fernando Me- deiros, Osvaldo Simões, Francisco Souza (Galego), Benedito Mon- teiro (Binga) e outros faziam sua “resistência” política nos bares da cidade, recitando seus versos contra a ditadura e imprimindo textos poéticos em mimeógrafos. Foi a forma encontrada para não se travar embates violentos com a polícia, já que os prendia muitas vezes por motivos fúteis. E ademais muitos jovens estudantes já vinham enten- dendo o que se passava no país, com “as visões se clareando”, como dizia a música (censurada) do compositor Geraldo Vandré na época.
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Quando a literatura fala à história: a ficção de Barbosa Lessa e a memória pública no Rio Grande do Sul

Quando a literatura fala à história: a ficção de Barbosa Lessa e a memória pública no Rio Grande do Sul

A tomada de posição frente à questão indígena na memória histórica local dificilmente se manteria sem uma crítica mais profunda ao modelo lusitano, militar, latifundiário e masculino de herói celebrado oficialmente. Incorporar o passado missioneiro e a contribuição indígena à formação do povo gaúcho implicava desenvolver o olhar para outros fatores, étnicos e sociais, há muito tempo discriminados. O boi das aspas de ouro também direcionaria a atenção da história (e da literatura) para o longo e velado preconceito contra o negro no Rio Grande do Sul. Em outro conto do livro, intitulado “Cabos Negros”, nosso autor relata a dura vida de escravo nas fazendas de plantação. Junto à crítica da escravidão, encontramos ainda uma tênue recuperação da lavoura como espaço de produção da cultura gauchesca, esta há muito tempo tomada como exclusividade simbólica da grande propriedade pecuária. Na apresentação desse texto, nosso escritor questiona o que considera o grande tabu da literatura regionalista do estado: “não se concebe história que fuja às lides pastoris”; “Conto que, deixando o cenário das estâncias de criação de gado, penetre nas fazendas de agricultura, poderá ser ‘brasileiro’ mas jamais ‘rio-grandense’” (BARBOSA LESSA 1958, p. 45). A argumentação do autor recorre à história da região, já que sua primeira grande força econômica teria sido a proveniente das plantações de trigo dos imigrantes açorianos. Mesmo depois de a peste da “ferrugem” ter dizimado tais lavouras, “gerações inteiras de ‘rio-grandenses pêlo duro’ continuaram estoicamente dedicados ao cultivo da terra”.
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O peso do corpo ausente: estratégias narrativas em K. Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski

O peso do corpo ausente: estratégias narrativas em K. Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski

A materialidade da experiência é atingida por meio de cuidadoso trabalho com a tessitura narrativa de modo que o leitor seja, muito mais do que informado, conduzido pelo correr dos acontecimentos, atropelado pela ilogicidade da situação e pela agonia da desorientação imposta pelo regime. Como vimos no segundo capítulo, as escolhas feitas pela marcação e posterior apagamento da voz autoral e pela manipulação da categoria do tempo narrativo foram fundamentais. A primeira opção permitiu que o relato tivesse ao mesmo tempo um amparo histórico, mas se abrisse para possibilidades ficcionais, as quais representam alternativas diante da desinformação sobre muitos fatos relacionados ao regime militar e em especial à filha do protagonista. O narrador-autor, irmão da jovem assassinada, instaurado em um contexto real do ano de 2010, vive ainda sob a tortura agora psicológica de quem se sente obrigado a ser a voz dos que foram silenciados. Essa missão como que paralisa todo o presente, já que o passado ainda não foi resolvido. Entregue a essa tarefa, o eu já pouco importa; daí a substituição da voz autoral por um narrador onisciente na maior parte do relato, capaz de estabelecer um vínculo com o protagonista, o pai, recurso que viabiliza, por sua vez, a sensação de proximidade entre o personagem e o leitor. A manipulação da categoria do tempo, por sua vez, permitiu que o passado prevalecesse ao longo do relato, sem, contudo, apagar por completo o tempo presente, contemporâneo ao leitor. Esse desequilíbrio fortalece a ideia de que enquanto os fatos passados não forem de algum modo discutidos, e os traumas elaborados, o presente não se resolve, a vida não pode seguir.
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VIOLÊNCIA DO OPRESSOR E A VIOLÊNCIA DO OPRIMIDO: RESPONSABILIDADE E (AUTO)CRÍTICA EM K. – RELATO DE UMA BUSCA

VIOLÊNCIA DO OPRESSOR E A VIOLÊNCIA DO OPRIMIDO: RESPONSABILIDADE E (AUTO)CRÍTICA EM K. – RELATO DE UMA BUSCA

A tortura psicológica que o pai sofre em todos esses momen- tos é intensificada durante a busca, na qual, propositalmente, o apa- relho repressor o leva a lugares, apresenta e cobra informações fal- sas, envia informantes e assim por diante. Um capítulo que amarra as informações que K. recebeu ao longo do tempo intitula-se “A abertu- ra”, no qual o leitor tem acesso à voz de Fleury em diálogo com outro colega. O capítulo divide em tempos diferentes as ações consecutivas da tentativa de prender K. na teia que armam e é interessante por- que, a partir da própria voz narrativa dos militares, o autor insere uma série de questões relativas à estrutura do aparato estatal: como recebiam a resistência de K. na busca pela filha, a ciência da ilegalida- de de suas ações, a relação direta da ditadura brasileira com a diplo- macia norte-americana, etc. O capítulo mostra como todas as notícias ou informações dadas a K. se tratavam do próprio sistema de poder na tentativa de confundi-lo e fazê-lo desistir da busca.
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"Sorvedouro de pessoas":  a narrativa do testemunho em K. Relato de uma busca e Os visitantes, de Bernardo Kucinski

"Sorvedouro de pessoas": a narrativa do testemunho em K. Relato de uma busca e Os visitantes, de Bernardo Kucinski

No arremate da crônica “Quatro momentos do golpe”, Moacyr Scliar (2006, p.100) comenta: “A ditadura foi uma longa noite composta de muitos, e terríveis momentos.”; é possível que, mesmo transcorridas três décadas desde o encerramento do regime militar, ainda estejamos amanhecendo, lançados em um processo de rememoração que implica a tentativa de compreender e verbalizar as marcas das violências perpetradas pelo Estado no corpo do país em cada um dos “muitos e terríveis momentos” de que nos fala o prosador gaúcho. A elaboração estética desse período já há algum tempo está inscrita, dentre outros espaços e formas de produção cultural, como eixo discursivo de uma série de obras da literatura brasileira contemporânea, sobretudo em romances como, por exemplo, As meninas, de Lygia Fagundes Telles (1973), Reflexos do Baile, de Antonio Callado (1976), e Em câmara lenta, de Renato Tapajós (1977), vindos a lume ainda no bojo da Ditadura Militar, bem como em exemplos mais recentes: Azul corvo, de Adriana Lisboa (2010), K. relato de uma busca e Os visitantes, de Bernardo Kucinski (2011) (2016), e Outros cantos, de Maria Valéria Rezende (2016). Mais do que um contraponto ao “desafio da expressão”, tomando de empréstimo as palavras de Jaime Ginzburg (2003), que o regime impunha com os mecanismos de censura, compreendemos que nestas obras deflagra-se um movimento de afirmação da (re)existência dos sujeitos sobreviventes e de um país sobrevivente, isto pela conformação no discurso literário das vivências imediatas, por assim dizer, e, recentemente, do testemunho daqueles e daquelas que de algum modo foram atravessados pelo trauma ditatorial.
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Fotografia: memória e ficção

Fotografia: memória e ficção

metáfora muito usada para explicar esta teoria e uma vez que se trata aqui do olhar podemos dar-nos ao luxo de explicar um conceito através de metáfora, é como se.. os ol[r]

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Ficção e memória escolar

Ficção e memória escolar

Em relação aos exames primários, o narrador esclarece que o diretor, os professores e os personagens da educação pública reuniam-se no salão do oratório, formando uma grande comissão avaliativa, onde se discutiam o desempenho e a aprovação de cada aluno. Relata que o voto de Aristarco seguia alguns critérios: “Contas justas: aprovação com louvor, cambiando às vezes para distinção simples; atraso de trimestre, aprovação plena com risco de simplificação; atraso de semestre, reprovado” (POMPÉIA, 2005, p. 71). Só ficavam fora dessa regra os alunos bolsistas, que tinham todos os deveres e nenhum direito, tendo os professores a obrigação de cobrar e cuidar para que eles tivessem excelentes resultados. Essas são lembranças de um garoto que, assim como os outros internos, esperava ansioso o parecer final do conselho. Para Bosi (2003, p. 31), o fato de retermos na memória alguns acontecimentos em detrimento de outros se configura por causa da liberdade de escolha, pois a memória “opera com grande liberdade escolhen- do acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente, mas porque se relacionam através de índices comuns. São configurações mais intensas quando sobre elas incide o brilho de um significado coletivo”.
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A Ficção Televisual Contemporânea e a Temática Da Ditadura Militar Brasileira

A Ficção Televisual Contemporânea e a Temática Da Ditadura Militar Brasileira

Um numeroso elenco 6 compõe a trama central, que relata o reencontro de doze amigos, que vivenciaram o período da ditadura militar, anos depois, já em 1989, já com a democracia reestabelecida no país. O convite para o reencontro, feito por um dos companheiros, Léo (Dan Stulbach), decorre, segundo ele, da necessidade de o grupo rememorar o tempo e as experiências vivenciadas nos anos 1970. Léo, descobrindo que está doente, organiza essa festa de reencontro em sua casa, com o intuito de reviver e recuperar as antigas utopias, bem como de saber do desenvolvimento da vida e história de cada um dos seus amigos. Ao longo dos capítulos que compõem a série, vai-se evidenciando como todos eles se tornaram reféns, direta ou indiretamente, da violência política vivenciada no período da ditadura militar, havendo ela interferido nas opções profissionais, ideais, vida pessoal, relações amorosas de todos eles, e, até mesmo, provocado inúmeros ressentimentos. Embora a série trate de um reencontro fest ivo, ela é perpassada por representações de nostalgia do que poderia ter sido do futuro que lhes fora roubado.
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Representação e memória no ciberespaço

Representação e memória no ciberespaço

Sendo a memória objeto de estudo de várias áreas e possuindo vários atributos, a categoria “preservação” é a mais utilizada pela ciência da informação no tocante à compreensão desse objeto. Entretanto, no ciberespaço, a preservação parece não estar muito fortemente ligada à inteligibilidade da memória, em função da desterritorialização do signo e do saber em fluxo. Assim, foram elencadas algumas categorias filosóficas de estudo que pudessem explicar a mudança de natureza da memória no ciberespaço, privilegiando, neste artigo, a “representação”, por considerar a memória sempre uma escrita, seja interna ou externa, portanto, uma construção simbólica e virtual. De acordo com discussões preliminares, a memória virtual no ciberespaço, de uma maneira geral, estaria mais ligada ao pensamento (memória biológica), à produção sígnica de múltiplas semióticas e aos esquecimentos do que às possibilidades físicas de conservação da produção humana, como nos registros impressos, embora seja um novo tipo de memória em constituição, dada a sua espacialidade e a natureza de sua representação.
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Caminhando e Contando: memória da ditadura brasileira

Caminhando e Contando: memória da ditadura brasileira

O texto de abertura é de Antônio Dias Nascimento, dono de uma narrativa vigorosa, que revela sua formação fortemente orientada para questões de ordem social e política. Seu capí- tulo, intitulado “Ditadura militar: repressão e autocensura ou a genealogia da indiferença”, recobra o clima de ameaça e medo que dominou sua geração, levando-a a viver em quaren- tena, “falando de lado e olhando pro chão”, como na canção de Chico Buarque, recobrada pelo autor. Oriundo do interior de Pernambuco, Antônio Dias inaugura sua trajetória com a vida metropolitana quando ingressa na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife, no ano de 1967. Lá viveria ricas experiências, que nos conta em narrativa emocionada. Mas antes estudou, à noite, em uma escola da Campanha Na- cional de Escolas da Comunidade (CNEC), enquanto, durante o dia, trabalhava em tempo integral nas obras sociais dirigi- das pelo Padre Melo, na Paróquia do Cabo. Conta-nos Anto- nio Dias que seu primeiro impacto com a repressão “aconteceu em menos de três meses depois de ter chegado a Recife, com o golpe militar, na madrugada de 31 de março para o 1º de abril de 1964. Passamos toda a madrugada deitados no assoalho do casarão paroquial, ouvindo as últimas transmissões da Radio Mayrink Veiga, até o momento em que, já alta madrugada, os seus transmissores foram silenciados”.
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A ficção do eu e o outro na literatura da homossexualidade

A ficção do eu e o outro na literatura da homossexualidade

Ao ler o relato de Herbert Daniel, percebemos não se tratar de um Bildungsroman gay (e revolucionário), ou a história do sujeito descobrindo sua sexualidade, o sexo homossexual e o despertar do desejo (um conto nesse último sentido é o famoso “Sargento Garcia”, de Caio Fernando Abreu). Toda essa partilha da experiência referente à acolhida do próprio desejo e das angústias por ser diferente encontram-se fora do seu relato, são fatos anteriores ao processo de amadurecimento intelectual e político que o livro registra. Isto é extraordinário porque exclui os dramas da puberdade e do processo de aceitação. Ao pular essas etapas, o narrador evita construir sua experiência como modelo, à maneira de narrativas exemplares sobre (e para) jovens onde se lê o desenvolvimento de um indivíduo. Quando enfatiza sua abstenção de sexo para estar adequado à guerrilha, Daniel frisa que isto não significou deixar de ser homossexual, mas que esta opção lhe pareceu a mais óbvia naquele momento, no qual ainda não pensava sobre a (homo)sexualidade como uma questão mais além da prática do sexo. Por causa do significado dessa decisão, ele também não conta a história de um ex- militante desiludido com a esquerda. A ideia de desenvolvimento da personalidade ou desabrochar da consciência traz consigo um gosto bastante evolutivo, no sentido de passar de um estágio primitivo a outro mais avançado, mas o recurso de ler o passado à luz do presente, do modo como narra o autor deste livro, nega o teor de evolução ou de crescimento em etapas para compor uma narrativa que se oferece como um aspecto do próprio presente de sua elaboração: se eu escrevo assim, se este sou eu agora, é porque aquele outro também faz parte do que sou. Se faltam ao livro lances sensacionalistas – oportunidades existiram para tanto – é porque seu narrador não produz uma consciência já formada, a história de um indivíduo completo capturado num esquema temporal; sem heroísmo, portanto, como cabe a qualquer um que ainda não se compreende pronto e terminado. A narrativa de Passagem... nada ou quase nada deve ao texto de formação, seja sexual ou política, e isto é importante na produção da memória da homossexualidade porque apresenta uma voz onde os aspectos típicos condicionados sobre o tema estão ausentes: a descoberta, o sexo, a aceitação, a homofobia, os casos de amor e solidariedade etc. Ao invés disso, a narrativa apresenta uma consciência forjada no cotidiano onde ser homem gay e ser homem político são duas dimensões da mesma humanidade.
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Literatura mundial e ficção contemporânea

Literatura mundial e ficção contemporânea

Como se pode compreender a categoria de “literatura mundial”, em especial com relação à ficção contemporânea – o romance, por exemplo –, desde o início da Segunda Guerra Mundial? É possível discernir uma série de momentos sucessivos nos quais se estabelecem as condições de possibilidade da literatura mundial: o colapso dos monopólios literários de línguas cultas “universais” (como o latim ou o sânscrito) e a forma- ção de vernáculos diversos, registrada por Goethe em sua introdução à categoria de literatura mundial; o desmantelamento de fronteiras locais, regionais e nacionais, assinalado por Marx e Engels ao desenvolver a ideia de Goethe, prematuramente, mas certeiramente; os impérios glo- bais europeus do final do século XIX; a descolonização após a Segunda Guerra e o colapso do comunismo a partir de 1989. Neste artigo se propõe, polemicamente, que o termo “literatura mundial” designa, ao menos, toda a literatura do mundo, ao mesmo tempo em que assinala do modo mais amplo possível a presença de formas e temas comuns no mundo inteiro. A ficção oferece um tópico produtivo para esta discus- são uma vez que é a forma literária que se liga mais de perto ao mundo moderno e à influência global da Europa ocidental.
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